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terça-feira, 14 de junho de 2016

O brasileiro quer mais do que um ou dois impeachment!




Se refletirmos sobre quais são as atuais demandas da sociedade brasileira desta década de 10, perceberemos o quanto é profunda a nossa crise política, a qual não pode ser tratada com superficialidade como se tudo pudesse se apaziguar cortando a cabeça de algumas autoridades impopulares.

As manifestações de 2013, que foram as mais expressivas do século até o momento, assim como as cotidianas postagens de internautas nas redes sociais, demonstram que a pauta de reivindicações é extensa. Ainda que haja alguns pontos divergentes em determinadas propostas, podemos notar claramente os reclames quase unânimes por serviços de melhor qualidade nas áreas da educação, da saúde, da segurança pública e dos transportes (inclui-se aí a mobilidade urbana), devendo ser considerada agora na recessão a necessidade por trabalho e renda. E, como não poderia deixar de ser, temos até hoje uma completa reprovação quanto à imoralidade administrativa.

Sabemos que, em 2013, o Congresso Nacional tentou não se fazer de surdo quanto à "voz das ruas" quando votou uma série de concessões (a chamada "agenda positiva"), tipo transformarem a corrupção em crime hediondo, arquivado a chamada PEC 37, a qual pretendia proibir investigações pelo Ministério Público, e proibido o voto secreto em votações para cassar o mandato de legisladores acusados de irregularidades. Também houve a revogação dos aumentos das tarifas nos transportes em várias cidades do país, com a volta aos preços anteriores ao movimento pelo "passe livre" que havia dado início à série de protestos.

Todavia, as instituições do país ainda não foram capazes de prestar um atendimento satisfatório às massas que, aparentemente, teriam se aquietado. Apesar de muitos daqueles manifestantes de três anos atrás terem retornado às ruas contra ou a favor do impeachment de Dilma Rousseff, enquanto muitos nem tomaram partido, não há qualquer expectativa entre a população de que, no atual sistema político, as coisas consigam melhorar. Logo, pode sair a presidenta afastada, seu vice em exercício, Cunha, Maranhão, Renan, Jucá e mais de cem parlamentares que a insatisfação tende a permanecer no coração de nossa gente. Pode ainda a Justiça mandar prender Lula e Collor, pondo ainda uma tornozeleira eletrônica no pé do Sarney, que nada disso será suficiente para gerar uma mudança substancial!

E será que como, os petistas dizem, "vai ter luta"? 

Sinceramente, penso que, neste momento atual, não. Pode haver uma anomia, conceito cunhado por Émile Durkheim nas obras Da Divisão Social do Trabalho (1893) e Suicídio (1897). Com base na visão desse renomado sociólogo, a anomia trata-se de uma situação social caracterizada pela falta de objetivos e de identidade, produzida pelo enfraquecimento dos vínculos sociais juntamente com a perda da capacidade da sociedade em regular o comportamento dos indivíduos. Algo que tem a ver com uma sociedade cujas instituições estão descredibilizadas.

Ora, no agito do mar, qualquer um que souber conduzir um navio sem comando certamente vai se tornar o grande líder da tripulação assustada com a tempestade. Mas para isso, será preciso que o capitão busque canalizar todas as suas energias na travessia do oceano até um porto seguro. Pois, se logo no começo de seu trabalho, o comandante resolver dar uma festa para alguns de seus subordinados mais próximos, enquanto outros marinheiro permanecem trabalhando duro em outras partes da embarcação, em pouco tempo haverá a perda da credibilidade.

Analisando o primeiro mês do governo Temer, vejo que, apesar de ter escolhido uma boa equipe econômica para o Brasil conseguir navegar nas águas do capitalismo, já houve inúmeras falhas capazes de desacreditá-lo perante a população e também diante do mercado (ao invés de cortar gastos públicos, foi anunciada uma liberação de R$ 38,5 bilhões em despesas dos ministérios). Ou melhor dizendo, o presidente em exercício já desperdiçou preciosas oportunidades de obter aprovação dos seus compatriotas já que ele assumiu o país sem nenhum acolhimento expressivo do eleitorado.

Pois bem. Aproveitando a metáfora do navio perdido na chuvarada, considero mais proveitoso, num momento crítico como esse, navegarmos numa velocidade menor do que nos arriscarmos dirigindo rapidamente para um rumo incerto. E, neste sentido, considero que algumas propostas polêmicas do presidente em exercício, como reformar a Previdência Social, deveriam ser discutidas após o Senado concluir o processo de cassação de Dilma. Pois o momento é o de recuperar e manter a credibilidade perdida, evitando o máximo de atritos na sociedade.

O fato é que Dilma cometeu o imperdoável pecado de maquiar as contas, coisa que o investidor não admite. Antes ela tivesse admitido os déficits. Só que não dá para Temer continuar gastando como fez ao apoiar o reajuste dos salários dos servidores públicos, medida que terá impacto superior a R$ 50 bilhões nas contas públicas até 2018. Logo, o que o diferencia de sua antecessora neste momento seria basicamente duas coisas importantes: transparência contábil perante o empresariado e uma nova política externa "desideologizada". Só que, se a gastança continuar, o naufrágio pode ocorrer.

Felizmente, ao contrário do governo Dilma, o presidente em exercício diz apoiar projeto aprovado pelo Senado que altera as regras de exploração de petróleo do pré-sal, retirando da Petrobras a exclusividade das atividades no pré-sal e acabando com a obrigação de a estatal a participar com pelo menos 30% dos investimentos em todos os consórcios de exploração da camada. E, caso consiga mudar as regras atuais, Temer pode atrair mais investimentos para a atividade petrolífera, o que significaria um bom começo para tirar o Brasil da crise econômica (há prognósticos favoráveis para a próxima década e o finalzinho da atual), ainda que não resolveria a sangria nas esferas política e social. 

Não nego que, se sairmos do agonizante atoleiro financeiro, com o país voltando a crescer e empregados sendo recontratados pelas empresas, uma das necessidades atuais estará sendo atendida. Só que as exigências quanto às áreas da educação, saúde, transportes e segurança continuarão em pauta juntamente com a questão da moralidade. Por isso, o comando do navio precisará ter uma visão revolucionária para que, no tempo certo, introduza logo as mudanças capazes de promover o bem estar geral da nação.

Para terminar, considero importante caracterizar a revolução que precisamos e como ela deve ser feitas. Afinal, o povo brasileiro não quer populismo esquerdista e nem autoritarismo de direita. Pois tudo o que o cidadão comum deseja é viver em paz no seu cantinho, tendo um trabalho rentável e estável, uma boa escola para seus filhos estudarem, um atendimento de saúde digno, não passar horas preciosas do dia mofando em pé num ônibus retido no engarrafamento e buscar com recursos próprios o seu lazer no fim de semana. E, se for necessário rever toda a Constituição do país, preservando-se as chamadas cláusulas pétreas, que uma nova Assembleia seja eleita para isso.


OBS: Ilustração acima extraída de http://2.bp.blogspot.com/-FP05tFoiweQ/T2yiZZv26MI/AAAAAAAAACs/lbMYUngSS6g/s1600/Brasil+Afundando.jpg 

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