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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Lembranças de uma guerra suja




Felizmente o Brasil é um país pacífico. Pelo menos podemos dizer isto quanto aos conflitos bélicos internacionais. Porém, se recordarmos um pouco a história, veremos que as coisas nem sempre foram assim. Principalmente por ter a nossa nação tomado parte na mais sangrenta guerra ocorrida no continente sul-americano - a do Paraguai (1864-1870).

Nos dias de hoje, já não se cultua tanto com heroísmo a atuação do Brasil naquela guerra. Quando meu avô paterno foi aluno das escolas militares, durante a era Vargas, a história ainda era contada do ponto de vista do vencedor. Mesmo no começo dos anos 80, no governo do general João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979-1985), até nas instituições civis de ensino seguia-se a versão oficial ainda que diversos professores já a contestassem. Só que, devido à censura imposta pelo regime militar, nem todas as vozes tinham a oportunidade de se expressarem com o devido espaço nos meios de comunicação.

Em minha ascendência pelo lado paterno, tive dois ancestrais que tomaram parte na Guerra do Paraguai pelo exército brasileiro vindo ambos a se tornar marechais. Um deles, o mal. Aires Antonio de Moraes Ancora (1831-1890) nasceu no Nordeste do país enquanto o outro, o mal. Francisco Carlos da Luz (1830-1906) era sulista, catarinense de Praia Comprida. No Rio de Janeiro, as duas famílias vieram a se unir por meio de dois matrimônios em gerações diferentes formando assim o pequeno clã dos Ancora da Luz que também ramificou-se pelo interior paulista e outros estados.

Bem, confesso desconhecer sobre detalhes desses dois patriarcas que atuaram na defesa de nossa pátria. Pouco posso escrever a respeito deles a não ser que participaram daquela guerra como militares e que depois prosseguiram com suas vidas sobrevivendo ao fim do Império, não tendo muito o que acrescentar além do que consta disponível na Wikipédia. Nem o meu saudoso avô Sylvio chegou a conhecê-los pessoalmente e as coisas que me contou foram passadas a ele por um bisavô que jamais conheci.



Como em toda guerra, os soldados entram no campo para matar o adversário, conquistar pontos estratégicos e provocar danos. Se a Engenharia leva tempo para construir estradas e pontes, as Forças Armadas trabalham para destruir uma cara estrutura em questão de instantes. E, no século XIX, ainda não havia lá tantos tratados e normas protegendo os civis como nos conflitos armados de hoje. Praticar certas atrocidades fazia parte do jogo de modo que uma batalha poderia incluir o bombardeio de uma cidade com canhões, o incêndio de um campo agrícola, bem como a morte de mulheres e crianças, os quais chegaram a ser recrutados pelo ditador paraguaio Francisco Solano Lopez (1827-1870).

É certo que foi o Paraguai quem invadiu o Brasil não desistindo de lutar até perder completamente a guerra. Porém, não há como negar a nossa vergonhosa subserviência aos interesses ingleses a ponto de termos negado o acesso ao mar para o país vizinho fazer o seu comércio exterior (na época nem se pensava em criar o Mercosul). Atos de iniquidade foram praticados pelo Brasil quando o adversário já parecia estar vencido. Principalmente sob o comando do Conde d'Eu (1842-1922). Após a vitória brasileira em Acosta-Nu, ele ordenou que se ateasse fogo ao capim seco para que os soldados paraguaios feridos em combate fossem logo mortos carbonizados. Numa outra ocasião, supõe-se que teria sido incendiado um hospital paraguaio com pacientes feridos dentro causando a morte de uma centena de pessoas.



No decorrer da história, houve momentos em que o Brasil tentou compensar o Paraguai ou tirar proveitos alegando estar ajudando a economia do país vizinho. Durante o regime militar, construiu-se na fronteira a gigante hidrelétrica de Itaipu cuja venda de energia ali gerada tornou-se uma importante fonte de receita para eles. Entretanto, também fomos cúmplices da corrupção e do autoritarismo praticados pelos políticos paraguaios a ponto do então presidente José Sarney ter oferecido asilo político ao ex-ditador general Alfredo Stroessner (1912-2006).

Se as guerras internacionais  em território brasileiro praticamente cessaram, por outro lado não seria verdade afirmar que a paz estabeleceu-se de vez por aqui. Por meio do Paraguai ainda entram em nosso país armas, drogas e produtos de contrabando causando grande violência nas ruas de nossas cidades. Na fronteira de Mato Grosso do Sul com o país vizinho, a tensão ainda é maior do que na parte oeste do Paraná devido às ações do crime organizado a ponto de juízes e de delegados honestos viverem num constante risco de vida bem como os seus familiares. Isto sem nos esquecermos da situação dos agricultores nossos que estão por lá sofrendo xenofobismo cuja maioria é oriunda do alagamento da hidrelétrica de Itaipu. São os brasilguaios hoje estão estimados em 350 mil.

Penso que o nosso governo pode trabalhar para reverter os males da história e suas consequências ruins. O primeiro passo seria o Brasil reconhecer a iniquidade praticada durante a guerra como um pecado coletivo e pedirmos perdão. E uma vez que a nação tome essa consciência, confessando o erro por meio de seus representantes eleitos, deve-se dar ao Paraguai uma restituição verdadeiramente suficiente ainda que, com isto, venhamos a abrir mão de toda a renda de Itaipu.



Seguindo por esta via, penso que o mesmo poderá ser feito pelo Brasil a determinadas nações africanas que, no passado, abasteceram o nosso mercado de escravos. Somos em certa medida responsáveis pelos afrodescendentes daqui e de lá, assim como pelo massacre dos povos indígenas, de maneira que hoje é tempo de se reparar toda essa injustiça do passado sem hipocrisia. Além do mais, uma vez que estamos nos tornando uma das maiores economias do planeta, precisamos ser cautelosos para não cometermos novos atos de iniquidade como, por exemplo, as omissões de Lula quanto aos regimes opressivos do Oriente Médio, tipo o Irã de Mahmoud Ahmadinejad e a Síria do fratricida Bashar al-Assad.

Que Deus tenha misericórdia do Brasil e ilumine a nossa nação!


OBS: A primeira ilustração acima corresponde ao conhecido quadro A Batalha do Avaí de Pedro Américo (1843-1903) que se encontra no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Americo-ava%C3%AD.jpg . Já a segunda ilustração trata-se de uma foto desse meu distante ancestral do lado paterno, o citado Marechal Âncora, a qual encontrei no site do Superior Tribunal Militar em http://www.stm.jus.br/ministros-desde-1808/marechal-de-campo-ayres-antonio-de-morais-ancora?b_start=100&type=3 . Em relação à terceira ilustração, é um outro quadro do Pedro Américo, pintado em 1871, sobre a Batalha de Campo Grande, e se encontra no Museu Imperial de Petrópolis. Ali a obra representa o momento em que o Conde d'Eu é impedido de prosseguir no ataque aos paraguaios pelo seu ajudante-de-ordens, capitão Almeida Castro, o qual segura as rédeas do cavalo montado pelo nobre. Foi extraída de http://pt.wikipedia.org/wiki/Gast%C3%A3o_de_Orl%C3%A9ans,_Conde_d'Eu na Wiki também. Finalmente, a última imagem diz respeito à foto da hidrelétrica de Itaipu extraída do próprio site oficial em http://www.itaipu.gov.br/

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