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quinta-feira, 20 de junho de 2013

"Quero, fica limpo!"



Mesmo com as atenções voltadas para os protestos e a Copa das Confederações, não pretendo deixar de ler a Bíblia e nem de dar continuidade ao estudo que tenho feito das Sagradas Escrituras, conforme venho compartilhado neste blogue.

Dando prosseguimento à leitura do Evangelho de Lucas chamou-me a atenção a maneira como o leproso pediu a Jesus para ser curado da lepra, demonstrando grande confiança ao se aproximar do Mestre:

"Senhor, se quiseres, podes purificar-me" (Lc 5:12; ARA)

Além da evidente fé, há em suas palavras sujeição e obediência reverente pelo enviado de Deus. O homem leproso reconheceu em Jesus a autoridade dada pelos céus e creu com elevadas expectativas na sua compaixão.

Positivamente, o Senhor Jesus respondeu tocando o homem com suas mãos, o qual ficou instantaneamente livre da doença:

"Quero, fica limpo!" (v. 13)

Embora, na atualidade, a lepra não seja mais o grande terror da humanidade, eis que, no passado, não foi assim. Nos tempos de Jesus, quando a Medicina era bem atrasada, pessoas ficavam desfiguradas enquanto outras até morriam. E, sendo também precários os meios diagnósticos, a única maneira de controle da enfermidade era deixar o indivíduo de quarentena e evitar o contágio da comunidade, ficando a avaliação sob a análise do sacerdote. Aliás, a própria legislação mosaica tinha normas e procedimentos a esse respeito que se encontram em Levítico 13:1 a 14:32.

"Disse o SENHOR a Moisés: Esta será a lei do leproso no dia da sua purificação: será levado ao sacerdote; este sairá fora do arraial e o examinará. Se a praga da lepra do leproso está curada" (Lv 14:1-3)

Entretanto, Jesus colocou-se no lugar daquele que sofria exclusão social pela sua condição de saúde. Suas palavras confirmando o desejo para que ficasse limpo significam um sim para a cura e para a aceitação sem restrições do outro ser humano. Tratava-se da quebra de um preconceito fortíssimo em sua época, o qual era decorrente de uma má interpretação da legislação mosaica. Esta determinava a separação essencialmente por uma necessidade social de preservar a saúde coletiva:

"As vestes do leproso, em quem está a praga, serão rasgadas, e os seus cabelos desgrenhados; cobrirá o bigode e clamará: Imundo! Imundo! Será imundo durante os dias em que a praga estiver nele; é imundo, habitará só; a sua habitação será fora do arraial" (Lv 13:45-46)

No episódio em comento, o evangelista quis mostrar que os cuidados para se evitar o contágio não poderiam virar uma paranoia. Corajosamente, Jesus tocou no leproso quando determinou que o queria "limpo". Para o Mestre imunda era a doença e não a pessoa.

Entretanto, o Senhor não rasgou a legislação religiosa de seu povo e nem dispensou o leproso do controle da doença ou do ritual exigido para a "purificação" (Lc 5:14). Como não era nenhum curandeiro maluco, Jesus orientou que o leproso se apresentasse ao sacerdote que, nestes assuntos, agia como um médico da comunidade. Só com a autorização sacerdotal a pessoa era reintegrada ao convívio com o restante do povo.

Quando surgiu a epidemia da AIDS, eu era só uma criança impúbere. Recordo muito bem dos preconceitos criados contra aqueles que eram considerados "grupos de risco": homossexuais, prostitutas, usuários de drogas injetáveis e os pacientes hemofílicos. Por causa da ignorância das pessoas, tinha gente que evitava apertar as mãos, abraçar ou beijar quem fosse portador do vírus HIV ou suspeito de ter a doença.

Ainda assim, em nenhum momento da história a AIDS chegou aos pés do que foi a hanseníase. Na Idade Média, os leprosos eram obrigados a usar um sininho afim de anunciar que estavam presentes nas ruas das cidades europeias e as pessoas pudessem se afastar deles. Aqui no Brasil, existiram leis como a de n.º 610/49 que obrigavam a captura e a segregação dos portadores da moléstia em leprosários. Somente na década de 60 foram revogadas as normas que impunham o isolamento compulsório. Apesar disto, o retorno do paciente ao seu convívio social continuou bem dificultoso.

Acho importante dizer que há outras "lepras" além das que dão na pele. Falo, metaforicamente, dos nossos problemas comportamentais. Certa vez um pastor me confessou que ele sentia atração sexual por homens e também por mulheres que não eram a esposa dele, mas que não alimentava em sua vida nenhum tipo de relacionamento íntimo extraconjugal. Esforcei-me para ouvi-lo com humanidade, sem me considerar moralmente superior, e seu relato serviu-me de aprendizado para que todos nós possamos conviver amorosamente. Seja numa igreja, numa escola, num local de trabalho, nas ruas ou mesmo no próprio lar.

"Quero, fica limpo"! Este é o recado do Salvador que ecoa até hoje em nossas mentes para que possamos buscar a inclusão de todos sem preconceitos. Graças a Deus que a ciência evoluiu, mas o amor pelo próximo jamais depende do controle que possamos ter sobre as enfermidades. Afinal, aos olhos bondosos de Deus, estamos todos limpos pois o que vale é a integridade do nosso caráter.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro Cristo purificando um leproso (1864) do artista francês Jean-Marie Melchior (1827-1913). Foi extraído do acervo da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:ChristCleansing.jpg

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