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domingo, 23 de junho de 2013

A busca de Jesus por momentos de solidão oracional



"Porém o que se dizia a seu respeito cada vez mais se divulgava, e grandes multidões afluíam para o ouvirem e serem curadas de suas enfermidades. Ele, porém, se retirava para lugares solitários e orava" (Lucas 5:15-16; ARA)

Intrigante como que a maioria das pessoas não consegue ficar a sós, motivo pelo qual fogem da calmaria e da aconchegante Divina Presença. É como se elas estivessem correndo de si mesmas.

Com Jesus, porém, não era assim. Além do que consta na passagem bíblica citada acima, fazia parte da habitualidade do Mestre procurar momentos em que pudesse estar a sós com o Pai (Mt 14:23; Mc 1:35; Lc 6:12; 9:18; 11:1; 22:41). No Evangelho de Lucas, este importante detalhe da vida de nosso Senhor vai introduzir o ensino sobre o modelo oracional resumido do Pai Nosso no capítulo 11.

Já naqueles tempos, os judeus estavam acostumados a fazer orações coletivas no Templo e nas sinagogas. Jesus, porém, estimulou o hábito de que o seu seguidor também ficasse a sós com Deus. Não que ele tivesse sido o primeiro a agir daquela maneira pois os profetas, Moisés e os patriarcas bíblicos já passaram por essa experiência. Porém, o que se verifica na conduta do Mestre é que ele tinha um relacionamento pessoal com o Pai e desejava que seus discípulos desenvolvessem isto também. Inclusive, chamar Deus de "Pai" significa demonstração de intimidade espiritual.

Nos versículos que transcrevi de Lucas, Jesus estava no auge de sua fama. Os milagres de cura e o seu ensino com autoridade faziam com que multidões desejassem estar com ele. A esta altura, bastava que o Mestre entrasse numa aldeia da Galileia que grupos de pessoas já vinham atrás os seus passos, novos casos de doentes surgissem e o atendimento às demandas não era recusado. Tratava-se, portanto, da nova rotina do carpinteiro de Nazaré.

Se nos lembrarmos das tentações sofridas por Jesus no deserto (Lc 4:1-13) talvez venhamos a compreender um dos motivos de sua conduta. Avançando no texto do Evangelho, já na agonia do Getsêmani, leremos que Jesus orientará os seus discípulos sobre a importância de orar para lidarem com as tentações:

"Chegando ao lugar escolhido, Jesus lhes disse: Orai, para que não entreis em tentação" (22:40)

Acredito que Jesus não queria perder o foco da sua missão. Como homem, ele tinha consciência da vulnerabilidade de suas emoções e do quanto os sentimentos de vaidade podem ser destrutivos para um líder que se dispõem a cumprir a vontade de Deus. Além do mais, era preciso lidar com as adulações, as ameaças, a incompreensão de muitos, os desprezos, as mentiras caluniadoras que inventariam a seu respeito, as perseguições, a imaturidade dos discípulos, os abalos emocionais provocados pelas dores do outro, as frustração de nem sempre poder ajudar alguém, as quebras de paradigma, etc.

A partir deste momento, o ministério de Jesus passará a ser confrontado com os religiosos da época. Seu próximo milagre, que é a cura de um paralítico em Cafarnaum (Lc 5:17-26), será motivo de perplexidade entre os escribas e fariseus que estavam no local por causa da declaração de perdão que antecedeu a cura. E aquilo era entendido como algo blasfematório pelas mentes julgadoras daqueles homens, os quais, ao invés de saborearem os ensinos, destilavam preconceitos. E talvez isto ocorresse por não ter sido Jesus formado numa escola rabínica tal como acontece hoje contra os pregadores sem graduação teológica obtida em seminários.

Ao que parece, os momentos a sós com Deus foram fundamentais para que Jesus encontrasse êxito no seu trabalho ministerial. No capítulo seguinte, verso 12, leremos que uma noite de oração precedeu a escolha dos nomes dos doze apóstolos. Ou seja, uma decisão importante não foi tomada de qualquer maneira baseada na impulsividade. Acredito que o Salvador passou horas durante a madrugada colocando aquela questão inteira diante do Pai, apresentando cada alternativa sugestiva que vinha em sua mente e, quando nasceram os primeiros raios de sol, ele já devia saber pelo Espírito Santo com quem poderia contar para aquela grande obra.

Assim também nós precisamos seguir os mesmos passos de Cristo Jesus buscando um relacionamento íntimo com Deus afim de que façamos a sua vontade e não a nossa, tendo como foco a construção do Reino Celestial na Terra. Para que as nossas necessidades cotidianas sejam apresentadas ao nosso Provedor e não sejamos controlados pela desesperadora ansiedade. Para que seja exercitado o perdão quanto às ofensas recebidas a cada momento no nosso trato com o outro (nas ruas, na família, no trabalho e até nas nossas congregações). E também para que, através da exposição das fraquezas de sentimentos diante do Pai, renovemos as forças diante da tentação de nos desviarmos do caminho certo e não tomarmos os atalhos enganosos.

Nesses dias em que a nação brasileira tem protestado contra inúmeras injustiças, sinto que falta a muitos aprender o exercício da cidadania junto com o desenvolvimento da espiritualidade, a qual não pode ser vista como um mero segmento de nossas vidas. Ao invés de violência e vandalismo, por que não orar?! Quanto a isto, temos muito o que aprender com os egípcios que não são cristãos. Recordo que, durante a Primavera Árabe, inúmeros manifestantes ajoelhavam-se para fazer suas preces pra Alá às sextas-feiras na Praça Tahrir ("Praça da Libertação"). Confrontos com a polícia aconteciam, assim como as provocações dos defensores do ditador Hosni Mubarak e dos opositores. Contudo, eles significavam aquele momento histórico na religião que seguem, bem como os minoritários cristãos de lá clamando a Allāh al-ʼAb (Deus, o Pai), coisa que nós brasileiros negligenciamos.

Estudando o comportamento de Jesus, entendo que não precisamos depender das tradicionais chamadas melodiosas para a oração como ocorrem nos países muçulmanos feitas pelo almuadem nas mesquitas - o adhan. Ter um número fixo de preces diárias pode até ser uma método interessante para nos habituarmos ao comportamento religioso, mas, por si só, não produz a desejada intimidade com Deus. Esta só se desenvolve quando nos abrimos por inteiro para o Pai e nos entregamos sem reservas como se estivéssemos deitados num divã, deixando que cada sentimento seja graciosamente tratado.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro Cristo no deserto do pintor russo Ivan Nikolaevich Kramskoi (1837-1887). Foi extraído do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Kramskoi_Christ_dans_le_d%C3%A9sert.jpg

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