Se fosse necessário punir dez pessoas, mesmo sabendo que nove são culpadas e uma é inocente, essa punição seria aceitável?
A recente divulgação da pesquisa “A verdade sobre como pensa o brasileiro”, encomendada pelo ICL e realizada pela Ágora Consultores, trouxe à tona um dado tão perturbador quanto revelador. Entre os entrevistados, um número considerável afirmou concordar com a punição de dez pessoas mesmo sabendo que, entre elas, uma seria inocente. Mais grave ainda: quando a punição considerada envolve a morte, o percentual de concordância entre religiosos cristãos supera o registrado entre ateus.
O dado choca não apenas por sua implicação jurídica — a aceitação explícita da injustiça como preço da punição — mas pelo que revela sobre valores morais profundamente enraizados na sociedade brasileira. Ele sugere que, para uma parcela expressiva da população, o erro judicial não é um escândalo ético, mas um “dano colateral” tolerável em nome da ordem, da segurança ou da eliminação do mal.
Essa disposição de sacrificar o inocente coloca em xeque um dos pilares fundamentais do Estado de Direito: o princípio segundo o qual é preferível absolver um culpado a condenar um inocente. Trata-se de uma inversão moral que ajuda a compreender o apoio social a práticas como encarceramento em massa, prisões preventivas abusivas, violência policial letal e relativização sistemática das garantias legais.
Mas o aspecto mais inquietante da pesquisa não é apenas jurídico ou político. É teológico.
O contraste com a Bíblia é direto
O apoio expressivo de cristãos à punição — inclusive à morte — de inocentes contrasta frontalmente com a própria tradição bíblica que fundamenta o cristianismo. No livro do Gênesis, o chamado julgamento de Sodoma apresenta um dos diálogos mais emblemáticos sobre justiça na Bíblia. Abraão questiona Deus: “Destruirás o justo com o ímpio?”. E insiste sucessivamente: e se houver cinquenta justos? Quarenta e cinco? Trinta? Vinte? Dez?
"Os homens partiram dali e foram para Sodoma, mas Abraão permaneceu diante do Senhor. Abraão aproximou-se dele e disse: "Exterminarás o justo com o ímpio? E se houver cinqüenta justos na cidade? Ainda a destruirás e não pouparás o lugar por amor aos cinqüenta justos que nele estão? Longe de ti fazer tal coisa: matar o justo com o ímpio, tratando o justo e o ímpio da mesma maneira. Longe de ti! Não agirá com justiça o Juiz de toda a terra?" Respondeu o Senhor: "Se eu encontrar cinqüenta justos em Sodoma, pouparei a cidade toda por amor a eles". Mas Abraão tornou a falar: "Sei que já fui muito ousado a ponto de falar ao Senhor, eu que não passo de pó e cinza. Ainda assim pergunto: E se faltarem cinco para completar os cinqüenta justos? Destruirás a cidade por causa dos cinco? " Disse ele: "Se encontrar ali quarenta e cinco, não a destruirei". "E se encontrares apenas quarenta?", insistiu Abraão. Ele respondeu: "Por amor aos quarenta não a destruirei". Então continuou ele: "Não te ires, Senhor, mas permite-me falar. E se apenas trinta forem encontrados ali? " Ele respondeu: "Se encontrar trinta, não a destruirei". Prosseguiu Abraão: "Agora que já fui tão ousado falando ao Senhor, pergunto: E se apenas vinte forem encontrados ali?" Ele respondeu: "Por amor aos vinte não a destruirei". Então Abraão disse ainda: "Não te ires, Senhor, mas permite-me falar só mais uma vez. E se apenas dez forem encontrados? " Ele respondeu: "Por amor aos dez não a destruirei". Tendo acabado de falar com Abraão, o Senhor partiu, e Abraão voltou para casa." (Genesis 18:22-33; NVI)
O sentido do texto é inequívoco: a presença de justos deveria impedir a punição coletiva. A justiça divina não pode existir se sacrifica o inocente. Mesmo quando Sodoma é destruída, os anjos retiram Lot e sua família da cidade. O justo não pode ser confundido com o culpado.
O mesmo princípio aparece de forma ainda mais explícita no profeta Ezequiel: “A alma que pecar, essa morrerá. O filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho” (Ez 18). A responsabilidade é individual, e a punição coletiva — sobretudo quando atinge inocentes — é apresentada como injusta.
No centro do próprio cristianismo está a figura de Jesus: um inocente condenado e executado pelo poder político e religioso. A crucificação é, ao mesmo tempo, o núcleo da fé cristã e a denúncia máxima da injustiça punitiva.
Como, então, explicar que tantos cristãos concordem com a morte de inocentes?
Quando a religião legitima a punição
Aqui, a sociologia ajuda a iluminar o paradoxo.
Em chave sociológica, pode-se dizer que o dado da pesquisa revela três movimentos complementares: a legitimação religiosa da ordem (Weber), a punição como ritual moral de coesão (Durkheim) e a abdicação da responsabilidade ética individual diante da “necessidade” (Arendt).
Max Weber mostrou como as religiões podem seguir caminhos distintos: podem funcionar como ética da convicção, orientada por princípios absolutos, ou como ética da ordem, ajustada à manutenção da autoridade e da estabilidade social. No cristianismo politizado contemporâneo, especialmente no Brasil, observa-se a substituição da ética do Evangelho — centrada na misericórdia, na proteção do justo e na dignidade da vida — por uma ética da ordem, na qual a punição passa a ser vista como necessidade moral.
Émile Durkheim vai ainda mais longe ao mostrar que a punição não serve apenas para corrigir o crime, mas para reafirmar valores coletivos e produzir coesão social. Punir torna-se um ritual. Nesse contexto, o inocente pode assumir o papel de bode expiatório: seu sacrifício reforça simbolicamente a fronteira entre “os bons” e “os maus”. A injustiça concreta importa menos do que o efeito moralizador da punição.
Hannah Arendt, por sua vez, ajuda a compreender o aspecto mais perigoso desse processo. Ao falar da banalidade do mal, ela mostra como pessoas comuns, portadoras de valores e crenças, podem aceitar atrocidades não por crueldade explícita, mas por abdicação do julgamento moral. O raciocínio “é triste, mas necessário” suspende a responsabilidade ética individual. A violência deixa de ser questionada e passa a ser administrada.
É exatamente esse mecanismo que a pesquisa revela: não se trata de desejo declarado de matar inocentes, mas da aceitação resignada de que isso pode ser aceitável “em determinadas circunstâncias”.
Evangelho ou moralismo punitivo?
O que emerge desse quadro é uma distinção fundamental: o abismo entre o Evangelho e o discurso moralista cristão que hoje domina parte do espaço público. O primeiro é radicalmente exigente, protege o justo, questiona o poder e se recusa a legitimar a violência contra inocentes. O segundo transforma a fé em identidade cultural e instrumento político, mobilizando a punição como linguagem moral.
Essa dissociação ajuda a entender por que segmentos religiosos apoiam com tanta força políticas penais autoritárias no Brasil. Não se trata de fidelidade à mensagem cristã, mas da instrumentalização da religião para legitimar um projeto de ordem, exclusão e castigo.
A pesquisa do ICL não revela apenas o que os brasileiros pensam sobre justiça. Ela expõe algo mais profundo: uma sociedade em que a punição passou a valer mais do que a justiça — e em que até mesmo a fé, em vez de proteger o inocente, pode ser mobilizada para justificar seu sacrifício.
Esse talvez seja o dado mais inquietante do trabalho — não pelo número exato que representa, mas pelo tipo de sociedade que ele revela.
📝 Nota metodológica sobre os dados da pesquisa
A pesquisa “A verdade sobre como pensa o brasileiro”, encomendada pelo ICL e realizada pela Ágora Consultores, apresenta seus resultados completos em relatório extenso, nem todas de acesso público integral no momento da divulgação inicial. No material disponibilizado — que introduz o eixo “Justiça e punição” — os resultados relativos ao dilema moral envolvendo a punição de dez pessoas, entre as quais uma inocente, são apresentados de forma gráfica e comparativa entre segmentos (religião, escolaridade, orientação ideológica).
O próprio relatório destaca como estatisticamente relevante o contingente de entrevistados que concorda com a punição mesmo diante da certeza da inocência de uma das pessoas envolvidas, bem como o fato de que alguns religiosos cristãos apresentam níveis de concordância superiores aos de ateus quando a punição considerada inclui a morte. A ênfase editorial do relatório nesse ponto — logo na abertura do capítulo — indica que não se trata de um dado residual ou marginal, mas de um achado considerado substantivo pelos responsáveis pela pesquisa.
Assim, as expressões “número considerável” e “percentual superior” utilizadas neste artigo refletem a hierarquia de relevância atribuída pelo próprio relatório aos resultados, respeitando os limites de divulgação pública dos dados naquele estágio. A análise aqui proposta se apoia menos na magnitude exata dos percentuais e mais no sentido normativo do achado: a aceitação social explícita da punição de inocentes e sua maior incidência entre segmentos religiosos, fato que, independentemente da variação percentual precisa, possui forte impacto ético, jurídico e sociológico.
OBS: Ilustração referente ao quadro Sodoma e Gomorra em chamas, por Daniel van Heil, 1650. Quanto ao trecho da pesquisa, ela pode ser acessada pelo link https://revistaliberta.com.br/app/uploads/2026/01/Pesquisa-dos-Brasileiros-Revista-Liberta.pdf

Nenhum comentário:
Postar um comentário