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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Entre a Cidade dos Homens e a Verdade Fragmentada: regressão moral, poder político e o risco de normalização da injustiça no século XXI



A tentação de identificar, em cada crise, um “culpado final” — um líder, um regime, uma figura que encarne o mal — acompanha a história desde a Antiguidade. No entanto, uma leitura mais sofisticada da tradição cristã e da experiência histórica sugere que o problema raramente se esgota no indivíduo.

O século XXI, especialmente na última década, parece recolocar essa tensão em novos termos: não se trata apenas de líderes controversos, mas de um ambiente político e cultural que, progressivamente, recompensa a desinformação, normaliza a agressividade e relativiza a dignidade humana.

A questão central, portanto, deixa de ser apenas ‘quem governa’ e passa a ser: em que tipo de mundo se tornou possível governar dessa maneira.


I. Agostinho e o limite do poder: política não é redenção

A reflexão de Agostinho de Hipona permanece decisiva para evitar erros recorrentes. Ao distinguir entre a “cidade de Deus” e a “cidade dos homens”, Agostinho estabelece um princípio que resiste ao tempo: o poder político é necessário, mas não redentor.

Essa distinção impede dois desvios simétricos: a sacralização da política, que transforma líderes em figuras quase messiânicas; e a demonização absoluta do poder, que ignora sua função de contenção da desordem.

No contexto contemporâneo, esse ensinamento se revela especialmente relevante. A busca por líderes “salvadores” — seja à direita ou à esquerda — revela mais sobre a carência de mediações institucionais sólidas do que sobre virtudes individuais excepcionais.


II. Lutero e a contenção institucional: autoridade sem absolutização

A doutrina dos “dois reinos”, associada a Martinho Lutero, oferece outro elemento de equilíbrio: o reconhecimento da autoridade civil como instrumento legítimo de ordem, mas limitado em seu escopo.

O Estado não governa consciências, não define a verdade última, nem substitui a responsabilidade moral individual.

Esse ponto é crucial para o presente. Em sociedades polarizadas, cresce a tentação de instrumentalizar a religião como linguagem de legitimação política. O resultado é uma dupla distorção: o poder passa a reivindicar autoridade moral absoluta; e a fé é reduzida a linguagem de facção.

A advertência luterana permanece atual: toda autoridade que ultrapassa seus limites tende a corromper sua própria finalidade.


III. Bonhoeffer e o limite da neutralidade: quando a omissão se torna cumplicidade

A experiência de Dietrich Bonhoeffer, diante do regime nazista, introduz um elemento decisivo para qualquer análise contemporânea: há momentos em que a neutralidade deixa de ser prudência e se torna omissão.

Bonhoeffer não rejeita a ordem política; ele a confronta quando ela se converte em instrumento de injustiça sistemática. Sua reflexão desloca o eixo da discussão: não basta socorrer as vítimas; é preciso questionar os mecanismos que as produzem.

Essa perspectiva é particularmente relevante em contextos atuais marcados por: desumanização de grupos vulneráveis; uso político da verdade e da mentira; e naturalização da exclusão como estratégia de mobilização.


IV. A regressão contemporânea: entre avanços materiais e deterioração institucional

Uma análise honesta do mundo contemporâneo exige afastar simplificações.

Sob o ponto de vista material, o progresso é inegável, evidenciado pelo aumento da expectativa de vida, a redução histórica da pobreza extrema e a ampliação do acesso a bens e serviços básicos.

Entretanto, no plano político-institucional e cultural, os sinais são distintos: a erosão da confiança nas instituições democráticas, a fragmentação da verdade pública, o crescimento da polarização — frequentemente acentuada em contextos eleitorais recentes —, a intensificação de conflitos regionais e tensões geopolíticas e o avanço de formas híbridas de autoritarismo, muitas vezes mediadas por tecnologia.

Esse contraste revela uma característica singular do nosso tempo: progresso material não tem sido acompanhado por igual robustez institucional e ética.


V. Cenários prospectivos: o risco não é o colapso, mas a degradação

Se as tendências atuais persistirem, o cenário mais provável para as próximas décadas não é necessariamente um colapso abrupto, mas algo mais sutil e, talvez, mais perigoso — justamente por sua capacidade de se naturalizar:


- democracias formalmente preservadas, porém com baixa legitimidade;

- sistemas políticos marcados por conflito permanente, como se tem observado em ciclos eleitorais recentes em diversas democracias;

- ampliação do controle informacional por meios tecnológicos, com impacto direto sobre a formação da opinião pública;

- normalização gradual de práticas antes consideradas inaceitáveis, inclusive no uso estratégico da desinformação em campanhas políticas ao redor do mundo.


O risco central, portanto, não é o fim das instituições, mas sua sobrevivência em estado de fragilidade crônica.


VI. O verdadeiro desafio: reconhecer padrões, não apenas indivíduos

A tradição cristã, especialmente quando lida de forma madura, não convida à identificação apressada de “inimigos finais”. Ao contrário, ela sugere um olhar mais profundo: 


- o mal político raramente se concentra em um único agente;

- ele se manifesta em padrões culturais, estruturas institucionais e disposições coletivas;

- ele depende, em larga medida, da aceitação social que o sustenta.


Nesse ponto, o diálogo com a filosofia política contemporânea é revelador.

Hannah Arendt, ao analisar os totalitarismos do século XX, chamou atenção para a “banalidade do mal”: não necessariamente atos extraordinários de perversidade, mas a normalização de condutas acríticas dentro de estruturas burocráticas e sociais.

Por sua vez, John Rawls enfatiza que a estabilidade de uma sociedade justa depende de um consenso mínimo sobre princípios básicos — algo que se fragiliza quando a própria ideia de verdade pública se dissolve.

Nesse sentido, a pergunta mais relevante deixa de ser “quem é o culpado?” e passa a ser: quais condições tornaram possível esse tipo de liderança e de discurso?


Conclusão — Entre a normalização e a responsabilidade

A história demonstra que sociedades não colapsam apenas por crises agudas, mas também por processos graduais de deterioração. O perigo maior não é o choque, mas o hábito.

Quando a desinformação se torna estratégia legítima, quando a dignidade humana passa a ser seletiva e quando a agressividade se converte em linguagem política comum, instala-se um fenômeno silencioso: a normalização do inaceitável.

Nesse ponto, a reflexão de Agostinho, Lutero e Bonhoeffer converge em uma advertência comum: não absolutizar o poder; não abdicar da consciência; e não se omitir diante da injustiça.

Se o século XXI nos coloca diante de novos desafios, ele também reafirma uma verdade antiga: o problema central não é apenas quem governa, mas o que estamos dispostos a tolerar como sociedade.

E é precisamente nesse limite — entre tolerância e complacência — que se decide não apenas o futuro das instituições, mas a própria qualidade moral da vida pública.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Quando punir vale mais do que fazer justiça



Se fosse necessário punir dez pessoas, mesmo sabendo que nove são culpadas e uma é inocente, essa punição seria aceitável?


A recente divulgação da pesquisa A verdade sobre como pensa o brasileiro, encomendada pelo ICL e realizada pela Ágora Consultores, trouxe à tona um dado tão perturbador quanto revelador. Entre os entrevistados, um número considerável afirmou concordar com a punição de dez pessoas mesmo sabendo que, entre elas, uma seria inocente. Mais grave ainda: quando a punição considerada envolve a morte, o percentual de concordância entre religiosos cristãos supera o registrado entre ateus.

O dado choca não apenas por sua implicação jurídica — a aceitação explícita da injustiça como preço da punição — mas pelo que revela sobre valores morais profundamente enraizados na sociedade brasileira. Ele sugere que, para uma parcela expressiva da população, o erro judicial não é um escândalo ético, mas um “dano colateral” tolerável em nome da ordem, da segurança ou da eliminação do mal.

Essa disposição de sacrificar o inocente coloca em xeque um dos pilares fundamentais do Estado de Direito: o princípio segundo o qual é preferível absolver um culpado a condenar um inocente. Trata-se de uma inversão moral que ajuda a compreender o apoio social a práticas como encarceramento em massa, prisões preventivas abusivas, violência policial letal e relativização sistemática das garantias legais.

Mas o aspecto mais inquietante da pesquisa não é apenas jurídico ou político. É teológico.


O contraste com a Bíblia é direto

O apoio expressivo de cristãos à punição — inclusive à morte — de inocentes contrasta frontalmente com a própria tradição bíblica que fundamenta o cristianismo. No livro do Gênesis, o chamado julgamento de Sodoma apresenta um dos diálogos mais emblemáticos sobre justiça na Bíblia. Abraão questiona Deus: “Destruirás o justo com o ímpio?”. E insiste sucessivamente: e se houver cinquenta justos? Quarenta e cinco? Trinta? Vinte? Dez?


"Os homens partiram dali e foram para Sodoma, mas Abraão permaneceu diante do Senhor. Abraão aproximou-se dele e disse: "Exterminarás o justo com o ímpio? E se houver cinqüenta justos na cidade? Ainda a destruirás e não pouparás o lugar por amor aos cinqüenta justos que nele estão? Longe de ti fazer tal coisa: matar o justo com o ímpio, tratando o justo e o ímpio da mesma maneira. Longe de ti! Não agirá com justiça o Juiz de toda a terra?" Respondeu o Senhor: "Se eu encontrar cinqüenta justos em Sodoma, pouparei a cidade toda por amor a eles". Mas Abraão tornou a falar: "Sei que já fui muito ousado a ponto de falar ao Senhor, eu que não passo de pó e cinza. Ainda assim pergunto: E se faltarem cinco para completar os cinqüenta justos? Destruirás a cidade por causa dos cinco? " Disse ele: "Se encontrar ali quarenta e cinco, não a destruirei". "E se encontrares apenas quarenta?", insistiu Abraão. Ele respondeu: "Por amor aos quarenta não a destruirei". Então continuou ele: "Não te ires, Senhor, mas permite-me falar. E se apenas trinta forem encontrados ali? " Ele respondeu: "Se encontrar trinta, não a destruirei". Prosseguiu Abraão: "Agora que já fui tão ousado falando ao Senhor, pergunto: E se apenas vinte forem encontrados ali?" Ele respondeu: "Por amor aos vinte não a destruirei". Então Abraão disse ainda: "Não te ires, Senhor, mas permite-me falar só mais uma vez. E se apenas dez forem encontrados? " Ele respondeu: "Por amor aos dez não a destruirei". Tendo acabado de falar com Abraão, o Senhor partiu, e Abraão voltou para casa." (Genesis 18:22-33; NVI)


O sentido do texto é inequívoco: a presença de justos deveria impedir a punição coletiva. A justiça divina não pode existir se sacrifica o inocente. Mesmo quando Sodoma é destruída, os anjos retiram Lot e sua família da cidade. O justo não pode ser confundido com o culpado.

O mesmo princípio aparece de forma ainda mais explícita no profeta Ezequiel: “A alma que pecar, essa morrerá. O filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho” (Ez 18). A responsabilidade é individual, e a punição coletiva — sobretudo quando atinge inocentes — é apresentada como injusta.

No centro do próprio cristianismo está a figura de Jesus: um inocente condenado e executado pelo poder político e religioso. A crucificação é, ao mesmo tempo, o núcleo da fé cristã e a denúncia máxima da injustiça punitiva.

Como, então, explicar que tantos cristãos concordem com a morte de inocentes?


Quando a religião legitima a punição

Aqui, a sociologia ajuda a iluminar o paradoxo. 

Em chave sociológica, pode-se dizer que o dado da pesquisa revela três movimentos complementares: a legitimação religiosa da ordem (Weber), a punição como ritual moral de coesão (Durkheim) e a abdicação da responsabilidade ética individual diante da “necessidade” (Arendt).

Max Weber mostrou como as religiões podem seguir caminhos distintos: podem funcionar como ética da convicção, orientada por princípios absolutos, ou como ética da ordem, ajustada à manutenção da autoridade e da estabilidade social. No cristianismo politizado contemporâneo, especialmente no Brasil, observa-se a substituição da ética do Evangelho — centrada na misericórdia, na proteção do justo e na dignidade da vida — por uma ética da ordem, na qual a punição passa a ser vista como necessidade moral.

Émile Durkheim vai ainda mais longe ao mostrar que a punição não serve apenas para corrigir o crime, mas para reafirmar valores coletivos e produzir coesão social. Punir torna-se um ritual. Nesse contexto, o inocente pode assumir o papel de bode expiatório: seu sacrifício reforça simbolicamente a fronteira entre “os bons” e “os maus”. A injustiça concreta importa menos do que o efeito moralizador da punição.

Hannah Arendt, por sua vez, ajuda a compreender o aspecto mais perigoso desse processo. Ao falar da banalidade do mal, ela mostra como pessoas comuns, portadoras de valores e crenças, podem aceitar atrocidades não por crueldade explícita, mas por abdicação do julgamento moral. O raciocínio “é triste, mas necessário” suspende a responsabilidade ética individual. A violência deixa de ser questionada e passa a ser administrada.

É exatamente esse mecanismo que a pesquisa revela: não se trata de desejo declarado de matar inocentes, mas da aceitação resignada de que isso pode ser aceitável “em determinadas circunstâncias”.


Evangelho ou moralismo punitivo?

O que emerge desse quadro é uma distinção fundamental: o abismo entre o Evangelho e o discurso moralista cristão que hoje domina parte do espaço público. O primeiro é radicalmente exigente, protege o justo, questiona o poder e se recusa a legitimar a violência contra inocentes. O segundo transforma a fé em identidade cultural e instrumento político, mobilizando a punição como linguagem moral.

Essa dissociação ajuda a entender por que segmentos religiosos apoiam com tanta força políticas penais autoritárias no Brasil. Não se trata de fidelidade à mensagem cristã, mas da instrumentalização da religião para legitimar um projeto de ordem, exclusão e castigo.

A pesquisa do ICL não revela apenas o que os brasileiros pensam sobre justiça. Ela expõe algo mais profundo: uma sociedade em que a punição passou a valer mais do que a justiça — e em que até mesmo a fé, em vez de proteger o inocente, pode ser mobilizada para justificar seu sacrifício.

Esse talvez seja o dado mais inquietante do trabalho — não pelo número exato que representa, mas pelo tipo de sociedade que ele revela.


📝 Nota metodológica sobre os dados da pesquisa

A pesquisa “A verdade sobre como pensa o brasileiro”, encomendada pelo ICL e realizada pela Ágora Consultores, apresenta seus resultados completos em relatório extenso, nem todas de acesso público integral no momento da divulgação inicial. No material disponibilizado — que introduz o eixo “Justiça e punição” — os resultados relativos ao dilema moral envolvendo a punição de dez pessoas, entre as quais uma inocente, são apresentados de forma gráfica e comparativa entre segmentos (religião, escolaridade, orientação ideológica).

O próprio relatório destaca como estatisticamente relevante o contingente de entrevistados que concorda com a punição mesmo diante da certeza da inocência de uma das pessoas envolvidas, bem como o fato de que alguns religiosos cristãos apresentam níveis de concordância superiores aos de ateus quando a punição considerada inclui a morte. A ênfase editorial do relatório nesse ponto — logo na abertura do capítulo — indica que não se trata de um dado residual ou marginal, mas de um achado considerado substantivo pelos responsáveis pela pesquisa.

Assim, as expressões “número considerável” e “percentual superior” utilizadas neste artigo refletem a hierarquia de relevância atribuída pelo próprio relatório aos resultados, respeitando os limites de divulgação pública dos dados naquele estágio. A análise aqui proposta se apoia menos na magnitude exata dos percentuais e mais no sentido normativo do achado: a aceitação social explícita da punição de inocentes e sua maior incidência entre segmentos religiosos, fato que, independentemente da variação percentual precisa, possui forte impacto ético, jurídico e sociológico.


OBS: Ilustração referente ao quadro Sodoma e Gomorra em chamas, por Daniel van Heil, 1650. Quanto ao trecho da pesquisa, ela pode ser acessada pelo link https://revistaliberta.com.br/app/uploads/2026/01/Pesquisa-dos-Brasileiros-Revista-Liberta.pdf