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domingo, 18 de janeiro de 2026

A arte de não antecipar o amanhã



Podemos dizer que a flor não antecipa a segunda-feira.

Ela não carrega o peso do que ainda não existe, não transforma o futuro em ansiedade, não vive sob a tirania do que “precisa ser feito”. A flor simplesmente floresce — inteira no instante em que existe.

Nos Evangelhos, quando Jesus menciona os “lírios do campo”*, a imagem costuma ser lida de forma religiosa. No entanto, ela também pode ser compreendida como uma observação profundamente humana e racional sobre o tempo. 

Os lírios não são um convite à passividade, mas um lembrete sobre os limites do controle. Eles existem fora da lógica da antecipação excessiva, essa que hoje nos esgota antes mesmo que a semana comece.

Grande parte da nossa fadiga não vem do trabalho em si, mas da sua antecipação constante. Vivemos projetando cenários, organizando o amanhã, carregando mentalmente dias que ainda não chegaram. Transformamos o futuro em um campo de obrigações imaginárias, e isso cobra um preço alto: ansiedade, dispersão, cansaço crônico.

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 9,3 % da população brasileira convive com transtornos de ansiedade, percentual superior à média global e que indica como o tema da antecipação excessiva do futuro tem impacto real na vida de muitas pessoas.

O nosso domingo — mais do que um dia da semana — pode ser entendido como uma interrupção simbólica dessa lógica. Um espaço onde não se exige produtividade, onde o tempo não precisa ser útil, onde a vida pode se sustentar em coisas simples: o convívio, a conversa sem pressa, o riso, o descanso, o prazer sem culpa.

A flor silvestre, simples e discreta, não compete com palácios nem busca reconhecimento. Ainda assim, — ou justamente por isso — carrega uma beleza inteira. Ela nos lembra que há valor em existir sem excesso de metas, sem constante autoavaliação, sem transformar cada instante em preparação para outro.

Talvez aprender com os lírios do campo seja menos sobre fé e mais sobre lucidez. Sobre reconhecer que nem tudo precisa ser previsto, planejado ou dominado. Que a vida também acontece quando estamos presentes, atentos e disponíveis ao agora.

Em um mundo que nos empurra para a urgência permanente, florescer no instante pode ser um gesto silencioso de resistência.


Quem sofre pelo Futuro ou Rumina o Passado destrói o único tempo em que é possível ser feliz, saudável e desestressado: o presente.” (frase atribuída ao escritor e psiquiatra Augusto Cury, conforme extraído de uma postagem no YouTube)






Ótimo domingo a tod@s e aproveitem intensamente cada momento desse dia que se chama hoje.


(*) Evangelho segundo Mateus, capítulo 6, verso 28: "Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem." (NVI)

📷: Rodrigo Luz (nenhum direito reservado). Podem compartilhar livremente as fotos das flores do meu quintal.

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