Quem vive em Angra dos Reis ou nas demais localidades da Costa Verde convive diariamente com paisagens que impressionam — o mar calmo das enseadas, as ilhas, a Mata Atlântica e a relação histórica entre terra e oceano. Porém, nem sempre se recorda que o próprio nome da cidade guarda um episódio marcante dos primeiros anos da história do Brasil.
Angra dos Reis foi avistada por navegadores portugueses em 6 de janeiro de 1502, apenas dois anos após o chamado descobrimento do Brasil. A data coincide com o Dia de Reis, celebração cristã da Epifania, e foi esse detalhe do calendário que acabou batizando o lugar. Na linguagem da época, angra significava uma baía ou enseada natural — exatamente o que os portugueses encontraram ao longo desse trecho do litoral.
Muito antes disso, porém, a região já era território de povos indígenas, especialmente tamoios, que conheciam profundamente essas águas, as ilhas e os caminhos da mata. A chegada europeia marcou o início de um processo que transformaria radicalmente a vida local, ainda que a ocupação permanente só viesse décadas depois.
Angra e o Rio: descobertas separadas por poucos dias
O avistamento de Angra dos Reis não foi um episódio isolado. Ele aconteceu no mesmo contexto de navegação que levou ao registro da Baía de Guanabara em 1º de janeiro de 1502, hoje conhecida como Rio de Janeiro. Em poucos dias, a frota portuguesa percorreu esse trecho do litoral fluminense, reconhecendo enseadas, ilhas e possíveis pontos de abrigo.
Há uma discussão entre historiadores sobre quem comandava a expedição. Algumas fontes citam Gonçalo Coelho como líder da viagem, enquanto outras destacam Gaspar de Lemos, a quem tradicionalmente se atribui o reconhecimento da Baía de Guanabara. O entendimento mais aceito é que se tratava de uma mesma expedição exploratória, com vários capitães, responsável por mapear a costa.
Os nomes dados aos lugares refletem bem esse percurso: Rio de Janeiro, por causa do dia 1º, e Angra dos Reis, pelo Dia de Reis, em 6 de janeiro. São marcas do calendário cristão português que permanecem vivas até hoje na geografia e na identidade local.
O que dizem os registros históricos
Não existe um diário de bordo conhecido que descreva em detalhes a chegada dos portugueses a Angra em 1502. O que se sabe vem de mapas do início do século XVI, de registros cartográficos e de relatos históricos produzidos posteriormente, que consolidaram a data e o nome do local.
Esses mapas já indicam a região poucos anos depois da viagem, o que mostra que Angra foi rapidamente incorporada ao conhecimento náutico português. É assim que grande parte da história dos primeiros tempos do Brasil é reconstruída: cruzando documentos, mapas e tradições históricas.
O Dia de Reis e a memória cultural
Durante muito tempo, o Dia de Reis teve grande importância no Brasil. A data já foi feriado nacional e marcou por séculos o encerramento das festas natalinas. Manifestações populares como a Folia de Reis fizeram parte da vida cultural de muitas cidades, inclusive no interior fluminense.
Com o passar dos anos, essa tradição perdeu espaço, mas segue presente na memória coletiva — e, no caso de Angra dos Reis, no próprio nome da cidade. Cada vez que se fala em Angra, lembra-se, ainda que indiretamente, daquele 6 de janeiro de 1502, quando navegadores portugueses reconheceram essa parte do litoral.
Resgatar essa história é também valorizar a identidade local da Costa Verde, entendendo que o território vai muito além de suas belezas naturais: ele carrega séculos de encontros, conflitos, culturas e significados que ajudam a explicar quem somos hoje.
📷: O Mirante dos Três Reis Magos dispões de estátuas de Baltazar, Gaspar e Belchior, carregando ouro, incenso e mirra. Todas elas instaladas na Praia do Anil em Angra dos Reis. As estátuas dos três Reis Magos foram construídas na cidade mineira de São João Del Rey, pelo artista plástico Miguel Santeiro.

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