Governabilidade não pode ser confundida com subordinação do Poder Legislativo ao Executivo.
Uma notícia divulgada nesta quarta-feira, 28 de outubro, pela Agenda do Poder, trouxe informações sobre as articulações do governador eleito do Rio de Janeiro, Douglas Ruas (PL), para definir o próximo presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
Segundo a reportagem, Ruas reuniu-se com a bancada do Partido Liberal e confirmou o apoio ao deputado Anderson Moraes para comandar o Parlamento fluminense. Na mesma ocasião, convidou o deputado Jair Bittencourt para assumir a Secretaria de Governo, atribuindo-lhe a missão de contribuir para a formação de uma maioria parlamentar.
As articulações envolveriam não apenas os 21 deputados eleitos pelo PL, mas também representantes de outros partidos e parlamentares considerados independentes, com o objetivo de reunir aproximadamente 40 integrantes da futura base governista.
Até aqui, estamos diante de movimentações políticas que, em princípio, integram o funcionamento normal do sistema democrático. Um governador precisa dialogar com o Legislativo, buscar apoio para suas propostas e construir condições de governabilidade.
Entretanto, algumas expressões utilizadas na reportagem, especialmente a referência ao governador eleito como responsável por "bater o martelo" sobre a presidência da Alerj, merecem reflexão.
Afinal, quem deve escolher o presidente da Assembleia Legislativa: os deputados estaduais ou o governador?
Independência entre os Poderes não é mera formalidade
O artigo 2º da Constituição Federal estabelece a independência e a harmonia entre os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.
No âmbito fluminense, o artigo 7º da Constituição do Estado do Rio de Janeiro reproduz expressamente esse princípio.
Não se trata de um dispositivo meramente simbólico. A separação dos Poderes constitui uma garantia fundamental contra a concentração excessiva de autoridade política.
Ao Executivo compete administrar o Estado e executar as políticas públicas. Ao Legislativo cabe produzir leis, participar das decisões orçamentárias, fiscalizar a administração e exercer o controle político dentro de suas atribuições constitucionais.
A Assembleia Legislativa não é um órgão auxiliar do Palácio Guanabara. Seus 70 deputados recebem diretamente dos eleitores a legitimidade para representar a sociedade fluminense.
Por isso, a escolha de seu presidente deve resultar da deliberação dos próprios parlamentares, mediante as regras constitucionais e regimentais aplicáveis.
Isso não significa que o governador esteja proibido de declarar apoio a determinado candidato. A manifestação de preferência política, a negociação entre partidos e a construção de alianças são atividades legítimas.
O problema surge quando a influência política ultrapassa os limites do diálogo e se transforma em constrangimento, imposição ou condicionamento indevido da liberdade parlamentar.
A governabilidade exige cooperação entre os Poderes, não a submissão de um ao outro.
Uma circunstância que merece atenção especial
No caso atual, existe uma particularidade importante: Douglas Ruas, além de governador eleito, exerce a presidência da própria Alerj.
Portanto, participa das articulações para a escolha de seu sucessor enquanto ainda ocupa a principal posição de direção do Parlamento estadual.
Essa circunstância não torna irregular, automaticamente, sua atuação política. Entretanto, recomenda maior cuidado na distinção entre as atribuições institucionais do presidente da Assembleia e os interesses partidários relacionados à formação do futuro governo.
É legítimo que um dirigente partidário procure construir consensos. Diferente seria utilizar prerrogativas administrativas ou institucionais para restringir a liberdade de atuação dos parlamentares.
Da mesma forma, o fato de um candidato à presidência da Alerj pertencer ao partido do governador não significa, necessariamente, que haverá submissão do Legislativo.
A verdadeira independência parlamentar não pode ser medida apenas pela filiação partidária de seu presidente, mas pela maneira como a Assembleia exerce suas competências, fiscaliza o Executivo e respeita os direitos das minorias.
A eleição da Mesa Diretora já foi objeto de questionamento no STF
A discussão ganha relevância diante de outra controvérsia constitucional surgida neste mesmo ano.
Em abril de 2026, o Partido Democrático Trabalhista (PDT) ajuizou perante o Supremo Tribunal Federal a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 1.319, questionando o procedimento adotado na eleição da Mesa Diretora da Alerj, realizada em 17 de abril, que conduziu Douglas Ruas à presidência da Casa.
A ação, distribuída ao ministro Luiz Fux, questiona a utilização do voto aberto e a regularidade da alteração regimental que fundamentou o procedimento eleitoral.
Entre os argumentos apresentados pelo partido estão a possibilidade de que a exposição pública do voto dos parlamentares favorecesse pressões e retaliações, comprometendo a liberdade de deliberação, e a alegação de que a alteração do Regimento Interno não teria observado o devido processo legislativo.
Essa controvérsia surgiu em um contexto institucional excepcional, marcado pela dupla vacância dos cargos de governador e vice-governador do Estado. Naquelas circunstâncias, a eleição do presidente da Alerj assumia especial relevância em razão de sua posição na linha sucessória constitucional e das discussões sobre a escolha do chefe do Executivo estadual.
A questão também encontrava um precedente relevante na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 7.942, na qual o ministro Luiz Fux havia suspendido cautelarmente a previsão de voto aberto para a eleição indireta de governador e vice-governador, considerando a necessidade de preservar a liberdade de escolha dos parlamentares diante de possíveis pressões.
Entretanto, é necessário distinguir as situações. A eleição indireta de um governador, na qual os deputados exercem excepcionalmente a função de colégio eleitoral, não se confunde necessariamente com a eleição interna da Mesa Diretora do Poder Legislativo.
Também é preciso reconhecer que o voto aberto possui fundamentos democráticos próprios, relacionados à transparência e à possibilidade de fiscalização das escolhas parlamentares pela sociedade. Por outro lado, o sigilo pode representar, em determinadas circunstâncias, uma garantia contra constrangimentos indevidos.
O próprio debate no STF sobre a ADI 7.942 revelou divergências quanto à modalidade de votação constitucionalmente adequada, demonstrando que a questão não comporta uma resposta automática aplicável indistintamente a todas as eleições parlamentares.
Até o fechamento deste artigo, o Supremo Tribunal Federal ainda não havia decidido o mérito da ADPF 1.319, não existindo pronunciamento definitivo que reconheça a procedência das alegações formuladas pelo PDT.
A controvérsia envolve, portanto, não apenas a discussão sobre voto aberto ou secreto, mas também a observância das regras de alteração do Regimento Interno, a validade do procedimento eleitoral e a preservação da liberdade de deliberação dos deputados.
Independentemente da solução jurídica que venha a ser adotada, permanece um princípio essencial: a escolha dos dirigentes do Parlamento deve respeitar as normas constitucionais e regimentais aplicáveis, sem interferências indevidas capazes de comprometer a autonomia do Poder Legislativo.
Dessa maneira, a ADPF 1.319 demonstra que a eleição da direção da Assembleia pode envolver questões constitucionais que ultrapassam uma simples disputa interna entre deputados.
A ADPF 1.362 e a controvérsia sobre a eleição para governador
Há ainda outra questão relevante que não pode ser ignorada.
A própria proclamação da vitória de Douglas Ruas no primeiro turno da eleição estadual de 2026 permanece relacionada a uma controvérsia judicial submetida ao Supremo Tribunal Federal.
Trata-se da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 1.362, ajuizada pelo Partido Social Democrático (PSD) em 14 de outubro de 2026, sob a relatoria do ministro Cristiano Zanin.
A discussão decorre da decisão do Tribunal Superior Eleitoral que confirmou o indeferimento do registro de candidatura de Anthony Garotinho e determinou a anulação dos 274.411 votos que lhe foram atribuídos.
Na apuração original, realizada após a votação de 4 de outubro, Douglas Ruas havia alcançado 49,27% dos votos válidos considerados naquele momento, enquanto Eduardo Paes obtivera 42,76%.
Com a exclusão dos votos de Garotinho e a consequente retotalização, Ruas passou a contar com 50,88% dos votos válidos, sendo proclamado eleito governador ainda no primeiro turno.
O PSD sustenta que a anulação posterior dos votos atribuídos a um candidato que constava regularmente da urna eletrônica, embora disputasse a eleição com o registro sub judice, não deveria modificar a base de cálculo utilizada para verificar a necessidade de realização de segundo turno.
Em síntese, discute-se se aqueles votos, embora juridicamente inválidos para a eleição de Garotinho, deveriam continuar sendo considerados para a finalidade específica de calcular a maioria absoluta necessária à eleição de governador.
A controvérsia envolve a interpretação da legislação eleitoral, a segurança jurídica, a soberania popular e a extensão dos efeitos das decisões da Justiça Eleitoral.
Em 16 de outubro, o ministro Cristiano Zanin requisitou informações ao Tribunal Superior Eleitoral, além de determinar a participação da Advocacia-Geral da União e da Procuradoria-Geral da República.
Em manifestação noticiada no dia 27, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, informou ao STF que já não seria tecnicamente possível organizar a votação estadual para a data originalmente prevista, 25 de outubro, diante dos procedimentos necessários de preparação, configuração, lacração e fiscalização das urnas eletrônicas.
Essa informação sobre a inviabilidade operacional da votação naquela data não equivale, por si só, a uma decisão definitiva sobre o mérito constitucional da controvérsia.
Até o fechamento deste artigo, não identifiquei julgamento definitivo da ADPF 1.362 nas fontes consultadas.
É importante esclarecer que a existência dessa ação não afasta automaticamente a eficácia da proclamação de Douglas Ruas como governador eleito, tampouco impede, por si só, suas articulações políticas. No entanto, demonstra que o processo eleitoral fluminense ainda possui uma relevante questão jurídica submetida ao controle constitucional.
A ADPF 1.362 não discute a escolha do presidente da Alerj. Seu objeto é distinto daquele examinado na ADPF 1.319. Entretanto, ambos os processos ajudam a compreender a importância do respeito às regras institucionais que disciplinam a formação e o exercício do poder político.
Uma Assembleia independente interessa à sociedade, inclusive ao próprio governo
A presidência da Alerj não representa apenas uma posição de prestígio político.
Seu ocupante exerce atribuições relevantes na organização dos trabalhos legislativos, na condução das sessões e na administração institucional da Casa, observadas as competências dos demais órgãos parlamentares.
Uma Assembleia independente é indispensável para que o governo tenha suas propostas debatidas, aperfeiçoadas e fiscalizadas.
A existência de uma maioria parlamentar governista, por si só, não compromete a democracia. O apoio de deputados ao Executivo é parte da representação política e pode contribuir para a estabilidade administrativa.
Entretanto, a formação dessa maioria não deve resultar no enfraquecimento das prerrogativas da oposição, na redução indevida do debate legislativo ou na transformação do Parlamento em simples instância de confirmação das decisões governamentais.
Também não seria correto presumir que um presidente da Assembleia, apenas por pertencer à oposição, necessariamente assegurará maior independência institucional.
A autonomia do Legislativo precisa ser demonstrada por atos concretos, independentemente da identidade partidária de seus dirigentes.
O Parlamento deve conservar sua capacidade de questionar o governador, solicitar informações, convocar autoridades nos limites constitucionais, acompanhar a execução orçamentária e exercer o controle dos atos administrativos.
É precisamente essa capacidade de fiscalização que justifica sua existência como Poder autônomo.
O Rio de Janeiro precisa de equilíbrio institucional
As articulações para a escolha do próximo presidente da Alerj estão apenas começando, embora o PL já tenha anunciado o nome de Anderson Moraes como seu candidato.
Outros parlamentares, como o ex-presidente André Ceciliano (PT), também aparecem nas discussões políticas sobre a sucessão, demonstrando que o processo envolve diferentes forças e possibilidades de composição.
A definição caberá aos deputados estaduais, que deverão exercer livremente suas atribuições.
Independentemente do resultado, o futuro presidente da Assembleia terá a responsabilidade de dirigir uma instituição que representa toda a sociedade fluminense, e não apenas a bancada que sustentará o governador.
As disputas entre partidos e lideranças são naturais na democracia. O que não pode ser naturalizado é a ideia de que o chefe do Executivo teria o direito de determinar quem comandará o Poder Legislativo.
O governador pode construir alianças, apresentar propostas e buscar uma base parlamentar capaz de sustentar sua administração. Entretanto, ele não pode substituir a vontade dos deputados nem transformar a direção da Assembleia em uma extensão do comando político do governo.
A independência entre os Poderes não é um obstáculo à governabilidade. É uma das condições para que ela seja exercida democraticamente.
E, no momento em que o Rio de Janeiro se prepara para uma nova legislatura e ainda convive com controvérsias constitucionais relacionadas às eleições de 2026, defender essa independência é uma responsabilidade que ultrapassa qualquer preferência partidária.
O próximo presidente da Alerj deve ser escolhido pelos deputados estaduais. E, uma vez eleito, deverá presidir a Assembleia Legislativa de todo o Estado do Rio de Janeiro, não a bancada parlamentar de um governador.








