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domingo, 17 de maio de 2026

Quando a cadeira do STF entra na lógica da governabilidade



As instituições livres raramente morrem de uma vez. Elas se transformam lentamente.” — Alexis de Tocqueville


A rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal pelo Senado Federal do Brasil talvez tenha produzido um dos episódios institucionais mais relevantes da Nova República.

À primeira vista, tratava-se apenas de uma sabatina malsucedida. Um nome indicado pelo presidente da República foi rejeitado pelo Senado — mecanismo constitucional legítimo e previsto no art. 101 da Constituição.

Mas os acontecimentos posteriores indicam algo mais profundo.

A possibilidade de reenvio do mesmo nome ao Senado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, somada à reconfiguração política produzida após o recente desgaste envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, sugere que o país talvez esteja ingressando em uma nova fase institucional: a composição do STF passa a operar dentro da lógica instável da governabilidade e da dinâmica do presidencialismo de coalizão.

Nesse contexto, a cadeira do Supremo deixa de ser apenas uma questão jurídica. Torna-se então variável política estratégica.

Para compreender a profundidade dessa possível transformação institucional, é necessário observar não apenas o resultado da votação, mas também o significado histórico e político do próprio episódio, especialmente em um contexto político marcado pela forte polarização eleitoral de 2026.


1. A rejeição inédita pós-1988

A rejeição de Jorge Messias não possui apenas relevância episódica.

Ela rompe um padrão institucional consolidado desde a Constituição de 1988.

Historicamente, o Senado brasileiro sempre exerceu forte deferência às indicações presidenciais ao STF. Mesmo em momentos de elevada tensão política, prevaleceu a percepção de que o chefe do Executivo detinha ampla margem para compor a Corte, desde que respeitados os requisitos constitucionais mínimos.

Em 2026, contudo, esse paradigma foi rompido.

O percurso da indicação é emblemático. Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal, o nome foi aprovado, superando o filtro técnico-institucional típico da etapa. No plenário, entretanto, a indicação foi rejeitada por 42 votos contrários e 34 favoráveis.

O contraste entre os dois momentos é revelador.

A dimensão técnica mostrou-se insuficiente diante da prevalência da lógica política.

A questão central, contudo, talvez não resida apenas na rejeição em si, mas nos critérios efetivamente mobilizados para que ela ocorresse.


2. O duplo filtro: técnico e político

A Constituição exige para o STF que o indicado possua notável saber jurídico, reputação ilibada e idade mínima.

Sob análise estritamente técnica, Jorge Messias preenchia os requisitos constitucionais, tendo sido Procurador da Fazenda Nacional, Advogado-Geral da União, bem como uma trajetória institucional relevante e formação acadêmica sólida.

Além disso, o indicado atravessou o intenso escrutínio público contemporâneo sem que emergissem fatos estruturalmente desabonadores capazes de comprometer sua idoneidade ou aptidão jurídica.

Todavia, o episódio revelou que o modelo brasileiro talvez tenha deixado de operar apenas com o filtro constitucional formal.

Hoje, parece existir um segundo filtro — informal, político e parlamentar — profundamente dependente da correlação de forças do momento com possível influência das tensões de um ano eleitoral que será marcado por forte polarização.

O problema não está propriamente na existência desse filtro político — ele é inerente ao desenho constitucional.

O problema surge quando ele deixa de funcionar como complemento institucional e passa a substituir o exame predominantemente jurídico.

Ainda assim, a mera presença de fatores políticos no processo não autoriza conclusões simplistas sobre ilegitimidade institucional.

Também se torna necessário distinguir duas dimensões frequentemente confundidas no debate público: a motivação política da decisão parlamentar e a efetiva qualidade jurídica do indicado.

Nem toda rejeição politicamente motivada configura, por si só, degradação institucional. Em regimes presidencialistas com mecanismos de freios e contrapesos, é legítimo que o Senado considere aspectos institucionais, perfil decisório, visão constitucional e impactos políticos mais amplos decorrentes da futura atuação de um ministro da Suprema Corte.

O problema emerge quando a avaliação política deixa de coexistir com o exame jurídico e passa a obscurecer completamente a análise objetiva de qualificação técnica, reputação e capacidade institucional do indicado.

A linha divisória entre controle democrático legítimo e captura conjuntural do processo talvez constitua precisamente o ponto mais sensível do episódio envolvendo Jorge Messias.

E é precisamente nesse ponto que o episódio deixa de envolver apenas a avaliação de um indicado e passa a atingir a própria dinâmica constitucional de distribuição de poder entre Executivo e Senado.


3. O reenvio do nome e a disputa de prerrogativas

A notícia de que Lula considera reenviar o nome de Jorge Messias ao Senado altera significativamente a natureza do episódio.

A discussão deixa de envolver apenas o nome de “quem deve ocupar a vaga” e passa a envolver “quem controla politicamente a formação do STF”.

A Constituição confere ao presidente da República a prerrogativa de indicar ministros da Corte. Ao Senado, cabe aprovar ou rejeitar.

Mas o texto constitucional não resolve claramente uma questão agora central, isto é, se o mesmo nome pode ser reapresentado e, caso possível, quantas vezes e/ou se precisaria respeitar um certo lapso temporal.

Abre-se, então, uma zona cinzenta institucional rara na experiência constitucional pós-1988.

Essa ambiguidade se torna ainda mais relevante porque diferentes formas de reenvio podem produzir significados institucionais distintos.

Um reenvio imediato do mesmo nome tenderia a funcionar como afirmação contundente da prerrogativa presidencial de indicação, quase como uma contestação política ao veto senatorial anteriormente exercido.

Já um eventual reenvio posterior, após alteração relevante da correlação de forças políticas, possuiria natureza diversa. Nesse caso, a reapresentação do nome poderia sinalizar não apenas insistência institucional do Executivo, mas também tentativa de aproveitar uma recomposição circunstancial da governabilidade parlamentar.

Há ainda uma terceira hipótese: a indicação de um nome alternativo após negociação política entre Executivo e Senado. Nesse cenário, o gesto tenderia a representar solução de acomodação institucional típica do presidencialismo de coalizão, preservando formalmente as prerrogativas constitucionais de ambos os Poderes, ainda que ao custo de maior politização indireta do processo decisório.

Cada uma dessas hipóteses produz impactos distintos sobre o equilíbrio entre a discricionariedade presidencial, o poder de veto parlamentar e a legitimidade institucional do próprio STF.

Em qualquer dessas hipóteses, o eventual reenvio do nome possuirá forte significado simbólico: o presidente reafirma sua prerrogativa, o Senado reafirma seu poder de veto e o STF transforma-se no centro indireto de uma disputa de legitimidades entre Executivo e Parlamento.

O problema torna-se ainda mais complexo porque essa disputa institucional não ocorre em ambiente politicamente neutro.


4. A governabilidade entra na disputa pelo Supremo

É aqui que o episódio ganha contornos ainda mais sofisticados.

Entre a rejeição da indicação e a hipótese de reapresentação do nome, o ambiente político-eleitoral sofreu alterações relevantes capazes de repercutir na governabilidade.

O desgaste produzido após as notícias envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro atingiu parte da capacidade de coordenação política da oposição e produziu novas possibilidades de recomposição parlamentar.

Esse detalhe é decisivo porque a eventual mudança de cenário político pode alterar o comportamento do Senado, a formação de maiorias parlamentares e, consequentemente, o destino da própria vaga no STF.

Essa influência, contudo, não ocorre de maneira abstrata ou meramente retórica. Ela se manifesta por mecanismos concretos do presidencialismo de coalizão brasileiro: rearranjos de apoio parlamentar, negociações legislativas, redistribuição de espaços políticos, pressão de bases eleitorais regionais, atuação de bancadas ideológicas e capacidade de coordenação institucional do governo junto às lideranças partidárias.

Em determinadas circunstâncias, até mesmo crises externas ao tema jurídico — envolvendo mercado financeiro, escândalos reputacionais ou disputas eleitorais — podem alterar incentivos parlamentares e influenciar o ambiente político em torno de uma indicação ao STF.

Ou seja, a composição da Corte passa a depender também das oscilações da conjuntura política nacional — talvez o dado mais relevante de todo o episódio.

A cadeira do STF torna-se sensível à estabilidade da coalizão governista, à força parlamentar da oposição, aos ciclos de desgaste político e à capacidade de articulação do Executivo.

O Supremo entra, assim, na lógica do presidencialismo de coalizão de maneira mais explícita do que em qualquer outro momento desde 1988.


5. O risco institucional do novo modelo

Nenhuma democracia constitucional elimina integralmente a política da composição de suas Cortes.

Isso não existe.

Ministros constitucionais são inevitavelmente escolhidos em ambientes políticos.

Mas existe diferença entre a influência política e a captura conjuntural da lógica de composição institucional.

Quando a escolha de ministros passa a depender predominantemente da sobrevivência parlamentar do governo, da fragilidade momentânea da oposição, ou das crises reputacionais externas ao Judiciário, o risco institucional deixa de ser episódico.

Torna-se, assim, um fenômeno estrutural.

Porque o centro do debate deixa de ser sobre “quem possui as melhores credenciais jurídicas” e passa a ser “quem reúne viabilidade política suficiente para sobreviver ao ambiente parlamentar”.

Isso não significa, contudo, que a influência política sobre a formação das Cortes Constitucionais seja, por definição, incompatível com a democracia constitucional.


6. Política, legitimidade democrática e possíveis salvaguardas

Seria equivocado, contudo, imaginar que a presença de elementos políticos na composição de Cortes Constitucionais seja necessariamente patológica.

Em democracias constitucionais contemporâneas, parte da legitimidade dessas Cortes decorre precisamente da interação entre jurisdição constitucional e representação política.

O próprio modelo brasileiro atribui ao Senado função de controle democrático sobre a formação do STF, evitando que a composição da Corte se converta em ato unilateral do Executivo.

O desafio institucional surge quando a dimensão política deixa de funcionar como mecanismo de equilíbrio e passa a operar como fator predominante de bloqueio conjuntural.

Nesse contexto, cresce a relevância de possíveis salvaguardas institucionais capazes de preservar a centralidade do critério jurídico: maior transparência das sabatinas, fundamentação mais objetiva dos votos parlamentares, fortalecimento de avaliações técnicas independentes, definição de parâmetros procedimentais mais claros e ampliação do escrutínio público qualificado sobre os indicados.

Evidentemente, qualquer tentativa de fortalecer dimensões técnicas do processo também suscita dificuldades institucionais relevantes. 

A própria ideia de “avaliações independentes” levanta questões delicadas: quem definiria os parâmetros de qualificação? Qual órgão possuiria legitimidade democrática suficiente para exercer esse papel sem criar uma espécie de instância paralela de pré-aprovação de ministros do STF?

Há, além disso, o risco de que mecanismos excessivamente corporativos transfiram para segmentos específicos do sistema de Justiça um poder informal de influência sobre a composição da própria Corte Constitucional, produzindo novas formas de fechamento institucional ou captura tecnocrática do processo.

Ainda assim, algumas soluções intermediárias poderiam contribuir para maior estabilidade e previsibilidade institucional sem eliminar a natureza política do modelo brasileiro. Entre elas, poderiam ser debatidos mecanismos procedimentais mínimos — como eventual definição de prazo razoável entre rejeição e reapresentação do mesmo nome ao Senado ou mesmo limitação objetiva de tentativas sucessivas de indicação.

No plano técnico, uma alternativa menos invasiva poderia consistir na criação de painéis públicos não vinculantes, compostos por universidades, entidades acadêmicas, associações jurídicas e especialistas de reconhecida atuação institucional, destinados apenas à elaboração de relatórios técnicos encaminhados à CCJ, sem caráter decisório obrigatório.

Tais mecanismos não eliminariam a política do processo — o que seria impossível em uma democracia constitucional —, mas poderiam contribuir para preservar maior centralidade do debate jurídico e reduzir a volatilidade puramente conjuntural das indicações.

A tensão entre legitimidade democrática e autonomia técnica talvez constitua, justamente, o núcleo mais delicado do atual modelo brasileiro de formação da Corte Constitucional.

Mais do que um episódio isolado, talvez o caso revele uma mudança gradual na própria gramática institucional das relações entre Presidência, Senado e Supremo Tribunal Federal.


7. Conclusão: o STF e a nova arena da governabilidade

Talvez estejamos diante de uma transformação silenciosa do constitucionalismo brasileiro.

Durante décadas, prevaleceu a percepção de que o presidente indicava ministros do STF dentro de uma ampla margem de discricionariedade política moderada por um controle senatorial relativamente deferente.

O episódio envolvendo Jorge Messias sugere outra realidade.

O Senado tornou-se ator efetivo de conformação política da Corte.

E mais do que isso: a própria composição do STF passa a depender da dinâmica instável da governabilidade brasileira.

Nesse novo ambiente, crises políticas externas, disputas parlamentares, escândalos reputacionais e rearranjos de coalizão deixam de ser elementos periféricos, passando a influenciar diretamente o processo de formação da Corte Constitucional.

A pergunta que emerge parece ser maior do que o destino de um único indicado. Ela envolve o próprio futuro institucional do país: o STF continuará sendo formado prioritariamente pelo critério jurídico-constitucional — ou passará a refletir, cada vez mais, a volatilidade do presidencialismo de coalizão brasileiro?

Porque, quando a cadeira do Supremo entra definitivamente na lógica da governabilidade, não é apenas a política que muda.

A própria arquitetura do poder constitucional começa a se transformar.

Talvez seja justamente essa transformação gradual — silenciosa, incremental e profundamente política — que torna o episódio tão relevante para o futuro institucional brasileiro.

Os próximos movimentos institucionais — especialmente diante da possibilidade de eventual reapresentação do nome ao Senado — poderão oferecer elementos importantes para compreender os limites, tensões e ambiguidades do atual modelo de formação do STF.

Mais do que acompanhar um episódio político específico, talvez seja o momento de ampliar o debate público sobre quais mecanismos institucionais podem preservar simultaneamente a legitimidade democrática do processo, a independência da Corte Constitucional e a centralidade do critério jurídico na composição do Supremo.

O tema está longe de se encerrar. Ao contrário: talvez esteja apenas começando.


📷: Ricardo Stuckert/Presidência da República — encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre.

17 de Maio, Direitos Fundamentais e os Desafios da Convivência Democrática



Hoje, 17 de maio, é celebrado o Dia Internacional contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia.

A data possui um significado histórico importante: em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou oficialmente a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID), encerrando um longo período em que a orientação sexual era tratada institucionalmente como patologia.

O gesto teve enorme impacto simbólico, científico, jurídico e cultural em diversos países, contribuindo para a ampliação do debate público sobre cidadania, igualdade, dignidade humana e direitos fundamentais das pessoas LGBTQIA+.

Mais do que uma efeméride simbólica, o 17 de maio tornou-se um convite internacional à reflexão sobre respeito às diferenças, combate à discriminação e enfrentamento das diversas formas de violência motivadas por orientação sexual ou identidade de gênero.

No caso brasileiro, a Constituição de 1988 estabeleceu fundamentos importantes para esse debate ao consagrar a dignidade da pessoa humana como um dos pilares da República (art. 1º, III), além de assegurar a proteção dos direitos e garantias fundamentais previstos no art. 5º.

Nas últimas décadas, o Brasil também passou por importantes transformações jurídicas e institucionais relacionadas aos direitos da população LGBTQIA+. Entre os marcos mais relevantes, estão o reconhecimento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da união estável homoafetiva em 2011, a equiparação da homotransfobia ao crime de racismo em 2019 e decisões que asseguraram direitos relacionados ao nome social e à identidade de gênero de pessoas trans.

Ao mesmo tempo, políticas públicas, campanhas de conscientização e iniciativas voltadas à proteção da população LGBTQIA+ passaram gradualmente a integrar parte do debate institucional brasileiro, especialmente nas áreas de saúde, educação, cidadania e direitos humanos.

Ainda assim, o tema continua cercado de debates políticos, culturais, religiosos e sociais legítimos em sociedades democráticas plurais, especialmente em torno de liberdade de expressão, pluralismo, educação, identidade e convivência social.

Independentemente das divergências existentes, a proteção da dignidade humana e o combate à violência permanecem valores essenciais para qualquer Estado Democrático de Direito.

O 17 de maio, portanto, não se resume apenas a uma data simbólica. Trata-se também de uma oportunidade de reflexão coletiva sobre tolerância, respeito mútuo, cidadania e os desafios permanentes da convivência democrática em sociedades cada vez mais diversas e complexas.


📷: Registro de movimentos LGBT acompanhados do MST, Movimento Quilombola e diversos militantes de direitos humanos marchando na Esplanada dos Ministérios em defesa do Estado Laico, da Democracia e dos Direitos Humanos, em 15/05/2013. Imagem publicada pela página “Fora do Eixo” na Wikipédia, ilustrando o verbete sobre o Dia Internacional contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia.

Da telegrafia à inteligência artificial: 161 anos da infraestrutura invisível da globalização



A informação é o oxigênio da era moderna.” — Ronald Reagan


Em 17 de maio de 1865, representantes de vinte países reuniram-se em Paris para assinar a Convenção Telegráfica Internacional e fundar a então denominada União Internacional de Telégrafos (International Telegraph Union), organização que mais tarde se transformaria na atual União Internacional de Telecomunicações (International Telecommunication Union — UIT).

À primeira vista, poderia parecer apenas um acordo técnico voltado à padronização de telegramas, tarifas e procedimentos administrativos entre Estados europeus. No entanto, aquele momento representou algo muito maior: o nascimento da primeira arquitetura institucional da globalização informacional moderna.

Poucas decisões aparentemente tão burocráticas exerceram impacto tão profundo sobre a história contemporânea.

O que começou como uma tentativa de organizar redes telegráficas internacionais acabaria se transformando, ao longo de mais de um século e meio, na espinha dorsal invisível do mundo hiperconectado contemporâneo — um sistema global que hoje integra satélites, cabos submarinos, data centers, computação em nuvem, redes móveis, plataformas digitais e inteligência artificial.

A história da modernidade talvez possa ser lida, em larga medida, como a história da aceleração da circulação da informação.


O mundo antes da velocidade

Durante a maior parte da história humana, informação e deslocamento físico eram praticamente inseparáveis.

Mensagens viajavam na velocidade dos cavalos, dos navios, dos mensageiros e das caravanas. Impérios dependiam de complexos sistemas postais; governos levavam semanas ou meses para receber notícias de regiões distantes; crises diplomáticas frequentemente evoluíam antes mesmo que as informações alcançassem as capitais.

A própria dimensão territorial do poder político encontrava limites físicos claros.

Mercados eram fragmentados. Guerras eram conduzidas sob forte incerteza comunicacional. A coordenação administrativa em larga escala era lenta e imperfeita.

A distância geográfica impunha barreiras materiais à integração econômica, política e cultural.

Todavia, isso não significa que as sociedades pré-telegráficas fossem estáticas. 

Ao longo dos séculos, sistemas postais imperiais, rotas marítimas, navegação a vapor, ferrovias e mecanismos ópticos de sinalização também ampliaram significativamente a capacidade de circulação da informação. 

O telégrafo, porém, inauguraria uma ruptura qualitativamente distinta: pela primeira vez, a mensagem passaria a viajar independentemente do deslocamento físico de pessoas, mercadorias ou documentos.


O telégrafo e a primeira ruptura global

O desenvolvimento do telégrafo elétrico por Samuel Morse — patenteado em 1837 e consolidado com a primeira linha pública experimental entre Washington e Baltimore em 1844 — alterou radicalmente esse paradigma.

Pela primeira vez na história, a informação passou a viajar mais rapidamente do que pessoas, mercadorias e exércitos.

A ruptura civilizatória foi imensa.

O telégrafo separou a comunicação do transporte físico. Uma mensagem já não precisava mais acompanhar um corpo, um cavalo ou uma embarcação. O fluxo informacional passou a percorrer fios metálicos quase instantaneamente.

A consequência foi uma profunda compressão do tempo e do espaço.

Bolsas de valores tornaram-se mais integradas. O comércio internacional acelerou-se. Governos passaram a coordenar ações diplomáticas em tempo quase real. Agências internacionais de notícias nasceram e expandiram-se rapidamente. A lógica da economia mundial começou a sofrer uma transformação estrutural.

Não por acaso, a rápida expansão das redes telegráficas logo tornou necessária a criação de mecanismos internacionais de padronização.

Era preciso uniformizar códigos, tarifas, procedimentos técnicos e interoperabilidade entre sistemas nacionais distintos.

A conferência realizada em Paris reuniu representantes de vinte Estados europeus e refletia simultaneamente interesses técnicos, comerciais e estratégicos associados à rápida expansão das redes telegráficas internacionais. 

Em plena expansão do capitalismo industrial e das conexões ferroviárias e marítimas, a comunicação rápida tornava-se elemento decisivo para mercados financeiros, diplomacia e coordenação estatal.

Foi nesse contexto que surgiu, em Paris, a então União Internacional de Telégrafos.

O fato possui enorme relevância histórica: muito antes da criação da ONU, já se percebia que determinadas infraestruturas globais exigiriam governança internacional permanente.

Mais de um século e meio depois, a própria União Internacional de Telecomunicações continua situada no centro de debates sobre governança digital global, legitimidade institucional e representação internacional, especialmente diante das tensões entre países desenvolvidos, economias emergentes e demandas do Sul Global por maior participação na arquitetura informacional contemporânea.


O século XX e a era da comunicação de massa

O século XX ampliaria ainda mais essa transformação.

O telefone aproximou indivíduos em escala inédita. O rádio inaugurou a comunicação simultânea de massa. A televisão criou eventos globais compartilhados. Satélites passaram a conectar continentes.

A informação tornou-se progressivamente instantânea, contínua e planetária.

Mas a comunicação também se converteu em instrumento estratégico de poder.

Durante a Segunda Guerra Mundial, rádio e telecomunicações tornaram-se ferramentas centrais de propaganda, coordenação militar e mobilização social. Posteriormente, a Guerra Fria transformou o controle dos fluxos informacionais em elemento decisivo da disputa geopolítica global.

A comunicação de massa passou a moldar identidades nacionais, comportamentos coletivos, imaginários políticos e padrões culturais.

O planeta começava a experimentar aquilo que o teórico canadense da comunicação Marshall McLuhan chamaria de “aldeia global”.


A internet e a segunda grande aceleração

O advento da internet comercial, nas décadas finais do século XX, provocou uma segunda ruptura estrutural.

Se o telégrafo havia separado informação de transporte físico, a internet dissolveu boa parte das fronteiras tradicionais da circulação informacional.

Pela primeira vez, bilhões de indivíduos tornaram-se simultaneamente consumidores e produtores globais de conteúdo.

O monopólio estatal e institucional da comunicação sofreu abalos profundos.

Jornais, emissoras, universidades, governos e corporações passaram a coexistir com redes sociais, plataformas digitais, criadores independentes e fluxos descentralizados de informação.

A economia tornou-se crescentemente digitalizada. Mercados financeiros passaram a operar em velocidade algorítmica. O comércio eletrônico reorganizou cadeias globais de consumo. A comunicação instantânea transformou relações sociais, políticas e econômicas.

Nesse novo cenário, empresas como Google, Meta Platforms, Amazon e Microsoft passaram a exercer influência transnacional comparável, em certos aspectos, à de muitos Estados.

A infraestrutura invisível da globalização já não era apenas composta por portos, ferrovias ou rotas marítimas. Ela passava a incluir cabos submarinos, servidores, plataformas digitais, satélites, centros de processamento de dados e sistemas algorítmicos.

A descentralização inicial da internet, contudo, gradualmente conviveu com novos processos de concentração econômica e informacional.


A era algorítmica e a disputa pelo controle da realidade

Nas últimas duas décadas, a globalização informacional ingressou numa nova etapa: a era algorítmica.

Hoje, a informação não apenas circula. Ela é filtrada, organizada, recomendada, monetizada, priorizada e ocultada.

Algoritmos passaram a influenciar consumo, opinião pública, comportamento político, dinâmica eleitoral, mercado financeiro e relações sociais.

A ascensão da inteligência artificial amplia ainda mais esse processo.

Ferramentas generativas começam a modificar a própria mediação do conhecimento, da linguagem e da produção intelectual. O debate contemporâneo já não envolve apenas telecomunicações ou internet, mas também soberania digital, desinformação, privacidade, proteção de dados, vigilância, manipulação informacional, segurança cibernética e governança da inteligência artificial.

A disputa contemporânea ocorre não apenas pelo controle de territórios físicos, mas também pelo domínio dos fluxos informacionais e das infraestruturas tecnológicas.

Cabos submarinos, semicondutores, satélites, plataformas digitais e modelos de inteligência artificial transformaram-se em ativos geopolíticos estratégicos.

Contudo, vale ressaltar que a evolução da globalização informacional jamais ocorreu de forma linear ou necessariamente emancipatória. 

Ao longo da história, governos, impérios e corporações também utilizaram infraestruturas de comunicação como instrumentos de vigilância, censura, propaganda e controle político. 

Regimes autoritários frequentemente buscaram limitar fluxos informacionais, enquanto desigualdades econômicas e tecnológicas mantiveram milhões de pessoas à margem da conectividade global.


O retorno da geopolítica tecnológica

A atual rivalidade entre EUA e China demonstra claramente essa transformação.

A competição envolve inteligência artificial, computação quântica, semicondutores, redes 5G, soberania de dados, infraestrutura digital e domínio tecnológico.

Outros atores também passaram a desempenhar papel relevante nesse novo cenário. 

A União Europeia consolidou-se como importante polo regulatório global por meio de iniciativas voltadas à proteção de dados, concorrência digital e responsabilização de plataformas. Organismos multilaterais como a União Internacional de Telecomunicações (UIT) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) ampliaram debates sobre governança digital e inteligência artificial. 

Ao mesmo tempo, países do Sul Global passaram a reivindicar maior soberania tecnológica, redução da dependência informacional e participação mais equilibrada na arquitetura digital internacional.

Ao contrário do que muitos imaginaram nos anos 1990, a globalização digital não eliminou a centralidade dos Estados nacionais.

Ela apenas deslocou o eixo estratégico da disputa.

O poder contemporâneo depende cada vez mais da capacidade de controlar redes digitais, fluxos de dados e sistemas estratégicos de informação.


O desafio brasileiro na sociedade da informação

No Brasil, os desafios permanecem profundos e clamam por uma regulação.

A desigualdade digital ainda limita acesso à conectividade, à educação tecnológica, à inclusão informacional e à participação econômica.

Ao mesmo tempo, a crescente digitalização da economia também produz impactos relevantes sobre o mundo do trabalho, incluindo automação de funções, precarização em plataformas digitais e novas formas de concentração econômica e informacional.

Nesse contexto, cresce a necessidade de aperfeiçoar a regulação de plataformas, a proteção de dados, a segurança cibernética, a infraestrutura digital nacional e a governança da inteligência artificial.

Instituições como a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) convivem hoje com temas que extrapolam amplamente a antiga lógica das telecomunicações tradicionais.

O debate contemporâneo tornou-se transversal, envolvendo democracia, economia, soberania, direitos fundamentais e desenvolvimento nacional.

Nesse sentido, o debate brasileiro talvez precise avançar para uma estratégia nacional mais estruturada de soberania digital e infraestrutura informacional. Isso envolve desde políticas voltadas à expansão de cabos submarinos, data centers e segurança cibernética até programas de inclusão digital focados não apenas em acesso, mas também em alfabetização midiática, habilidades digitais e uso responsável de inteligência artificial.

A consolidação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) representou avanço importante, mas novos desafios ligados à transparência algorítmica, inteligência artificial generativa e circulação automatizada de conteúdo ainda exigem amadurecimento regulatório e cooperação internacional.

Também se torna cada vez mais relevante estimular ecossistemas nacionais de inovação, semicondutores, computação avançada e formação técnica especializada, reduzindo vulnerabilidades estratégicas em setores críticos da economia digital.

A complexidade do ambiente digital contemporâneo também exige mecanismos permanentes de governança multissetorial, envolvendo Estado, setor privado, academia e sociedade civil na formulação de políticas públicas tecnológicas mais transparentes, equilibradas e democráticas.


Da telegrafia à inteligência artificial

Ao olhar retrospectivamente para os 161 anos da fundação da União Telegráfica Internacional, percebe-se que a história das telecomunicações é, em grande medida, a própria história da construção do mundo contemporâneo.

O que começou em 1865 como uma convenção técnica voltada à padronização de telegramas internacionais evoluiu para uma complexa infraestrutura global que hoje sustenta praticamente todas as dimensões da vida moderna.

Se o século XIX encurtou distâncias, o século XX conectou o planeta e o século XXI começa agora a redefinir a própria mediação humana da informação, da linguagem e do conhecimento.

Talvez nunca a frase de Ronald Reagan tenha parecido tão atual.

A informação continua sendo o oxigênio da era moderna.

Mas, em um mundo governado por algoritmos, plataformas digitais e inteligência artificial, a disputa contemporânea já não se resume apenas ao acesso à informação.

Ela envolve, cada vez mais, o poder de organizar, filtrar, interpretar e controlar a própria realidade informacional da sociedade global.

Por fim, embora a metáfora de Reagan permaneça correta — hoje ela revela também sua ambivalência. 

Assim como o oxigênio é indispensável à vida, mas pode tornar-se nocivo quando contaminado ou desequilibrado, a informação também pode alimentar desinformação, radicalização, manipulação algorítmica e fragmentação social quando circula sem transparência, responsabilidade ou mecanismos adequados de verificação.

Nesse contexto, temas como regulação de plataformas digitais, transparência algorítmica, combate à desinformação e governança democrática da inteligência artificial passam a integrar um dos grandes debates estruturais do século XXI.

Do telégrafo à inteligência artificial, a história das telecomunicações talvez seja, em última análise, a própria história da disputa humana pelo controle do tempo, da informação e da realidade.

sábado, 16 de maio de 2026

O verdadeiro impacto político do caso Flávio-Vorcaro talvez ainda não tenha aparecido nas pesquisas

 


O poder nunca está onde as pessoas pensam que está.” — Michel Foucault


O episódio envolvendo o senador presidenciável Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro talvez tenha produzido, em apenas alguns dias, uma das discussões mais interessantes do atual ciclo pré-eleitoral brasileiro: até que ponto escândalos políticos realmente alteram tendências eleitorais?

Desde a divulgação do caso, parte do debate público passou a girar em torno de uma pergunta aparentemente simples: haverá impacto efetivo nas pesquisas de opinião?

A resposta talvez seja mais complexa do que parece.

Em sistemas políticos fortemente polarizados, como o brasileiro contemporâneo, escândalos raramente provocam colapsos instantâneos de intenção de voto. O eleitorado mais ideologicamente consolidado tende a desenvolver mecanismos de resistência narrativa, reinterpretando fatos, relativizando acusações ou enxergando perseguição política.

Esse fenômeno se torna ainda mais complexo na era das redes sociais e dos ecossistemas digitais paralelos. Nesses ambientes altamente polarizados, escândalos raramente produzem narrativas únicas. 

Enquanto adversários tentam consolidar enquadramentos ligados à corrupção, incoerência ou desgaste moral, apoiadores frequentemente reagem com contra-narrativas de perseguição política, seletividade institucional ou manipulação midiática.

O impacto de uma crise contemporânea depende cada vez mais da capacidade de determinados atores dominarem a agenda pública e manterem o tema vivo por tempo suficiente para ultrapassar as fronteiras das bolhas ideológicas.

A literatura recente sobre polarização política tem mostrado que democracias altamente fragmentadas e emocionalmente polarizadas tendem a produzir eleitorados mais resistentes a crises reputacionais, especialmente quando identidades partidárias passam a operar em lógica de pertencimento social e cultural.

Estudos sobre a chamada “polarização perniciosa”, desenvolvidos por autores como Jennifer McCoy e Murat Somer, sugerem que sociedades fortemente polarizadas se tornam menos permeáveis a escândalos convencionais, uma vez que identidades políticas passam gradualmente a operar em lógica quase tribal.

Pesquisas recentes conduzidas por instituições como Datafolha, Fundação Getulio Vargas e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada têm apontado crescimento da polarização afetiva, aumento da rejeição cruzada e maior resistência de eleitorados ideologicamente consolidados à mudança abrupta de preferência política.

Não por acaso, muitos analistas têm observado que a transferência automática de votos entre campos antagônicos se tornou cada vez mais rara.

Mesmo diante de crises reputacionais relevantes, dificilmente parcelas significativas do eleitorado bolsonarista migrariam diretamente para Lula. 

Além disso, os efeitos de crises reputacionais raramente se distribuem de maneira homogênea. Segmentos distintos do eleitorado conservador — urbanos e rurais, jovens e idosos, evangélicos e não religiosos, regiões metropolitanas e interior — podem reagir em velocidades diferentes, fazendo com que determinados indicadores apareçam primeiro em alguns grupos antes de se generalizarem nacionalmente.

O mais comum, nesses casos, é o surgimento de comportamentos intermediários: retração do entusiasmo, aumento da abstenção potencial, silêncio político, migração para alternativas ideologicamente próximas ou simples suspensão momentânea de engajamento.

Esse talvez seja um dos pontos menos compreendidos da política contemporânea: escândalos não necessariamente destroem bases militantes de imediato. Muitas vezes, eles começam corroendo algo mais abstrato — mas extremamente importante — chamado percepção de viabilidade.

E é justamente aí que reside o aspecto talvez mais delicado do caso.

Na política brasileira, lideranças partidárias, prefeitos, deputados, financiadores e operadores políticos raramente se movem apenas por afinidade ideológica. Movem-se, sobretudo, por expectativa de sobrevivência política.

O sistema de coalizões brasileiro funciona, em larga medida, a partir da percepção de força eleitoral futura.

A própria dinâmica institucional do calendário eleitoral tende a funcionar como acelerador dessas percepções de viabilidade. Convenções partidárias, definição de palanques estaduais, composição de chapas, distribuição de recursos eleitorais e início do horário eleitoral costumam pressionar lideranças políticas a abandonarem ambiguidades e consolidarem posicionamentos.

Em outras palavras, mesmo que o eleitorado demore a reagir, o sistema político frequentemente reage antes.

À medida que se aproximarem as convenções partidárias, os prazos de registro de candidaturas e o início do horário eleitoral gratuito, a pressão sobre partidos, financiadores e lideranças regionais tende a aumentar significativamente.

Quando um candidato parece inevitável, atrai apoios. Quando passa a transmitir vulnerabilidade, começam os movimentos silenciosos de reposicionamento.

É por isso que crises políticas relevantes nem sempre aparecem primeiro nas pesquisas quantitativas. Antes disso, costumam surgir hesitação de aliados, fragmentação de apoios, cautela do mercado político, redução de entusiasmo entre moderados, fortalecimento de alternativas internas e demora em consolidações partidárias.

Na prática, muitas candidaturas começam a enfraquecer nos bastidores antes de perder votos de maneira visível.

O chamado “efeito inevitabilidade” possui enorme peso nas eleições brasileiras.

Prefeitos observam pesquisas. Deputados observam tendências. Partidos médios observam rejeição. Financiadores observam estabilidade. E todos observam, simultaneamente, quem parece capaz de vencer.

Talvez por isso o verdadeiro impacto do caso Vorcaro não deva ser medido apenas pelas próximas pesquisas de intenção de voto.

Os sinais mais relevantes provavelmente estarão em outros indicadores: crescimento da rejeição, perda de confiança entre moderados, fragmentação do campo conservador, surgimento de candidaturas alternativas, mudanças no comportamento das lideranças políticas e erosão gradual da sensação de competitividade.

Além disso, há um fator temporal importante.

Estamos ainda em maio de 2026. A eleição presidencial continua relativamente distante. Isso significa que o episódio tanto pode se dissipar rapidamente quanto inaugurar um processo lento de desgaste político.

A história eleitoral brasileira mostra exemplos dos dois fenômenos.

O Mensalão, por exemplo, produziu enorme desgaste institucional em 2005, mas não impediu a reeleição de Lula em 2006. A erosão inicial apareceu mais intensamente no sistema político, no reposicionamento de partidos e no ambiente midiático do que em colapsos imediatos de intenção de voto.

Já a Lava Jato revelou um fenômeno distinto: impactos cumulativos, graduais e prolongados, que alteraram percepções de legitimidade política ao longo de vários anos e reorganizaram parte do sistema partidário brasileiro.

Em disputas estaduais e municipais, tampouco são raros os casos em que escândalos produzem primeiro hesitação de aliados, perda de capacidade de articulação e fragmentação de coalizões antes de alterações eleitorais visíveis.

Algumas crises desaparecem em poucas semanas, soterradas pelo ciclo acelerado das redes sociais e do noticiário. Outras, porém, tornam-se marcos simbólicos de uma erosão gradual de credibilidade.

O ponto decisivo normalmente não é o escândalo em si, mas sua capacidade de permanecer vivo na narrativa pública.

Se o tema gerar novas revelações, fissuras internas, dificuldades de articulação ou perda progressiva de apoio político, o episódio poderá ganhar dimensão estrutural.

Caso contrário, talvez se torne apenas mais um ruído dentro da hiperpolarização permanente da política brasileira.

De todo modo, existe uma conclusão que parece cada vez mais evidente no ambiente político contemporâneo: candidatos raramente começam a cair primeiro nas pesquisas.

Antes disso, começam a cair na percepção de inevitabilidade.


O que observar nas próximas semanas?

Conceitos como “percepção de viabilidade”, “efeito inevitabilidade” e “erosão de competitividade” não dependem apenas de pesquisas tradicionais de intenção de voto.

Na prática, esses fenômenos costumam ser monitorados por meio de múltiplos indicadores quantitativos e qualitativos, entre eles o crescimento da rejeição, a redução do índice de convicção do voto, o aumento da migração para candidaturas ideologicamente próximas, o comportamento de lideranças partidárias, a dificuldade de formação de alianças, a perda de apoio de financiadores, a retração de engajamento orgânico nas redes, mudanças no sentimento predominante em ecossistemas digitais e persistência ou desaparecimento do tema no debate público.

Alguns desses sinais podem ser observados de forma relativamente objetiva. Crescimento da rejeição, por exemplo, pode ser medido pela variação semanal de avaliações negativas em segmentos moderados do eleitorado. O chamado “índice de convicção do voto” costuma aparecer no percentual de entrevistados que afirmam votar “com certeza” em determinado candidato.

Já o comportamento do sistema político pode ser percebido por indicadores menos tradicionais, como retirada formal de apoios, adiamento de alianças, redução de aparições públicas conjuntas, dificuldade de captação de recursos e recuo de doadores historicamente alinhados.

Historicamente, alguns sinais costumam possuir maior capacidade preditiva do que outros. Hesitação pública de aliados relevantes, adiamento de alianças e retração de apoios institucionais frequentemente antecedem quedas mais perceptíveis de financiamento e deterioração eleitoral. Já a retração de engajamento orgânico nas redes tende a funcionar como indicador mais sutil e gradual.

Da mesma forma, os chamados “ecossistemas digitais paralelos” podem ser observados pela capacidade de determinados grupos manterem narrativas próprias relativamente imunes ao enquadramento dominante da imprensa tradicional.

Em eleições altamente polarizadas, muitas vezes o fator decisivo não é apenas o tamanho imediato de um escândalo, mas sua capacidade de permanecer vivo tempo suficiente para alterar percepções de força, estabilidade e viabilidade política.

Talvez seja cedo para medir os efeitos eleitorais definitivos do episódio. Mas já não parece cedo para perceber que, na política contemporânea, crises relevantes começam muito antes de aparecer integralmente nas pesquisas.

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Verão da Garrafa



A garrafa apareceu depois da ressaca.

Não foi como nos filmes, brilhando na areia sob um raio de sol, nem trazida mansamente por uma onda azul. Estava presa entre algas escuras, pedaços de bambu, uma sandália sem par e um pedaço de isopor mordido pelo mar. Parecia lixo antigo. Só chamou a atenção de Gabriel porque era pesada demais para uma garrafa comum.

Ele passava as férias na Ilha Grande com a mãe e o padrasto, mas, naquele verão, tudo lhe parecia um pouco fora de lugar. A beleza da ilha não combinava com o cansaço que ele sentia. As praias eram claras, a mata era viva, o mar tinha aquela cor impossível entre o verde e o azul, mas Gabriel carregava no peito uma espécie de ruído permanente.

Tinha dezenove anos, estudava comunicação no Rio, passava horas no celular e, ao mesmo tempo, sentia cada vez menos vontade de falar com as pessoas. Tudo parecia urgente, inflamado, falso. As notícias, os comentários, as acusações, as ironias, as guerras de opinião. Cada dia trazia uma nova tempestade, e cada tempestade desaparecia antes que alguém entendesse o que realmente havia acontecido.

Naquela manhã, ele saiu sozinho para caminhar perto de Dois Rios, localidade onde se situava o antigo presídio de segurança máxima que funcionou de 1903 até 1994. A chuva da madrugada havia revolvido a praia. O mar devolvera coisas que ninguém mais queria.

Foi então que viu a garrafa.

Era de vidro escuro, grosso, quase negro. Tinha crostas brancas grudadas no gargalo e uma rolha ressecada, coberta por uma cera endurecida. Dentro dela havia um papel amarelado, dobrado muitas vezes.

Gabriel sentiu primeiro curiosidade. Depois, uma estranha cautela.

Levou a garrafa até uma pedra, sentou-se e tentou abrir a rolha. Não conseguiu. Usou uma pequena faca que carregava na mochila para cortar frutas. A cera se partiu em lascas. A rolha se desfez quase como terra seca.

Quando finalmente retirou o papel, teve medo de rasgá-lo.

A primeira coisa que viu foi a data: 14 juillet 1883.

Gabriel ficou imóvel.

A carta estava escrita em francês, numa caligrafia inclinada, elegante, mas já falhada pelo tempo. Ele não falava francês bem. Tinha aprendido algumas frases em aplicativo, mais por vaidade do que por estudo. Fotografou o papel, ampliou a imagem, tentou traduzir palavra por palavra.

No alto da página, lia-se:

À celui qui trouvera cette bouteille.

A quem encontrar esta garrafa.

A carta começava sem nome completo, apenas com uma assinatura abreviada: É. Moreau.

Gabriel traduziu devagar:


Escrevo do Atlântico, entre a Europa que deixei e a América que talvez nunca veja. Se estas palavras chegarem a alguém, peço que não as trate como lamento, mas como advertência.


A palavra advertência fez Gabriel franzir a testa.

Continuou:


Vivemos uma época que se orgulha de seus fios telegráficos, de seus vapores, de suas máquinas e de sua velocidade. Cada nova invenção promete aproximar os homens. No entanto, temo que a distância entre as almas esteja apenas começando.


Gabriel sentiu um desconforto leve.

O mar batia manso nas pedras, como se lesse junto.

 

O homem acredita que, falando mais depressa, compreenderá melhor. Mas talvez apenas aprenda a espalhar mais rapidamente seus erros, seus ódios e suas vaidades.


Ele abaixou o papel.

A frase parecia escrita naquela semana.

Olhou em volta. A praia estava quase vazia. Dois rapazes tiravam fotos perto da água. Uma mulher recolhia conchas. Mais adiante, uma criança corria atrás de um cachorro. Tudo era comum demais para aquela carta.

Gabriel prosseguiu:


Há uma doença que não vem do corpo, mas da pressa. Ela faz com que os homens confundam notícia com verdade, aplauso com justiça, barulho com pensamento. Um dia talvez exista uma máquina capaz de colocar todos em conversa com todos. Nesse dia, receio que muitos já não saibam escutar.


Ele sentiu um arrepio.

Não era uma profecia. Era pior. Era uma análise.

A carta prosseguia falando do progresso como uma força ambígua. Moreau não condenava as máquinas. Dizia amar a ciência, a medicina, os navios, os mapas, os instrumentos que permitiam ao ser humano desafiar o medo. Mas advertia que a técnica, sozinha, não educava o coração.


O progresso técnico sem progresso moral apenas tornará o homem mais eficiente em sua própria destruição.


Gabriel leu essa frase três vezes.

Depois guardou a carta na mochila como quem esconde alguma coisa perigosa. 

Na pousada, passou a tarde pesquisando. Descobriu que 1883 fora o ano da explosão do Krakatoa, de impérios coloniais, de navios a vapor cruzando oceanos, dos últimos anos do Brasil imperial, de uma brutal escravidão ainda existente no país onde ele agora lia aquela carta.

Procurou por É. Moreau. Encontrou muitos Moreau, nenhum certo.

Naquela noite, enquanto a mãe e o padrasto jantavam peixe frito, Gabriel permaneceu calado. A mãe perguntou se ele estava bem. Ele disse que sim, mas não estava.

No quarto, releu a carta inteira.

Havia um trecho final que, na praia, ele não havia conseguido decifrar. A tinta estava quase apagada. Usou a luz do celular de lado, inclinando o papel.

A frase apareceu aos poucos:


Se esta mensagem chegou até vocês, não perguntem apenas de onde ela veio. Perguntem em que se transformaram desde que foi escrita.


Gabriel não dormiu.

No dia seguinte, publicou uma foto da garrafa e alguns trechos traduzidos.

Em poucas horas, a história se espalhou.

Primeiro vieram os curiosos. Depois, os jornalistas. Em seguida, os especialistas. Um professor disse que a caligrafia parecia compatível com o século XIX. Uma historiadora levantou a hipótese de que Moreau fosse um médico francês que viajara para o Brasil e cujo navio desaparecera no Atlântico Sul. Um oceanógrafo explicou que a garrafa poderia ter ficado soterrada durante décadas antes de ser devolvida por uma ressaca.

Mas então vieram os outros.

Um influenciador disse que a carta provava que o mundo moderno estava condenado. Outro afirmou que era falsificação. Um político citou Moreau fora de contexto. Um canal sensacionalista transformou a garrafa em “mistério sobrenatural da Ilha Grande”. Alguém inventou que havia coordenadas secretas no papel. Outro disse que aquilo era campanha publicitária.

Em dois dias, a carta deixou de ser carta.

Virou disputa.

Gabriel assistia a tudo pelo celular, com a sensação de que o morto — se é que Moreau estava morto — havia previsto exatamente aquilo.

Todos falavam da mensagem. Quase ninguém a escutava.

Na terceira noite, ele saiu escondido da pousada com a garrafa vazia e a carta protegida dentro de um envelope plástico. Caminhou até a praia. O céu estava limpo. A mata parecia respirar no escuro. As ondas chegavam pequenas, quebrando como vidro mole.

Sentou-se na areia.

Pela primeira vez em muito tempo, desligou o celular.

Retirou a carta e leu o último parágrafo em voz baixa:


Não escrevo para ser lembrado. Escrevo porque talvez, um dia, alguém precise saber que não fomos cegos. Vimos o perigo. O que não sei é se tivemos coragem de mudar.


Gabriel ficou muito tempo olhando para o mar.

Pensou no século XIX, no século XXI, nos fios telegráficos, nos cabos submarinos, nos satélites, nas telas luminosas, nas palavras lançadas todos os dias ao mundo como garrafas sem destino.

Então entendeu que a mensagem de Moreau não era contra o futuro.

Era contra a vaidade de acreditar que o futuro, sozinho, salvaria alguém.

Na manhã seguinte, procurou a universidade, entregou a carta para preservação e recusou as entrevistas que pôde. Não queria virar personagem daquilo.

Antes de deixar a ilha, voltou sozinho à praia onde encontrara a garrafa. Levava consigo apenas uma folha pequena, escrita à mão.

Dobrou o papel, colocou-o dentro da garrafa antiga e a fechou com uma rolha nova.

Na folha, escreveu:


Encontramos sua mensagem. Ainda não aprendemos. Mas alguns de nós começamos a escutar.


Gabriel lançou a garrafa ao mar.

Ela flutuou por alguns instantes diante dele, hesitante, como se não soubesse se devia partir.

Depois uma onda a levou.

E, pela primeira vez naquele verão, Gabriel sentiu que o silêncio também podia ser uma forma de resposta.


Deixando a ilha...



O último domingo de janeiro amanheceu abafado.

O céu tinha aquela cor indefinida entre o cinza e o branco luminoso que antecede os temporais de verão. A Vila do Abraão estava cheia. Mochilas, caixas térmicas, crianças queimadas de sol, turistas sonolentos arrastando malas pela areia úmida.

Gabriel caminhava atrás da mãe e do padrasto em direção à barca de Mangaratiba sem dizer quase nada.

Levava a mochila nas costas e o celular desligado no bolso.

Desde a descoberta da garrafa, sua vida parecia ter adquirido uma espécie de ruído subterrâneo. Não era exatamente medo. Nem entusiasmo. Era uma sensação estranha de deslocamento, como se tivesse visto alguma coisa que não deveria existir e agora não conseguisse voltar completamente ao mundo anterior.

A repercussão da carta continuava crescendo.

Mesmo depois de entregar o documento à universidade para preservação, os vídeos não paravam: análises, teorias, cortes editados, thumbnails exageradas e influenciadores discutindo “a profecia da Ilha Grande”.

Um canal chegou a inserir música sombria sobre imagens do mar e afirmar que Gabriel “talvez tivesse encontrado uma advertência para o fim da civilização moderna”.

Ele tentou rir disso no começo.

Depois ficou cansado.

Na fila da barca, percebeu que já não conseguia olhar as pessoas da mesma forma. Todos pareciam exaustos. Não fisicamente apenas. Exaustos por dentro.

Um casal discutia sem se olhar. Uma menina de talvez dez anos chorava porque a mãe tomara seu celular. 

Dois rapazes gravavam stories repetindo a mesma frase até acertarem a entonação perfeita. Um homem de meia-idade assistia a vídeos políticos num volume tão alto que todos ao redor ouviam.

Gabriel observava aquilo em silêncio.

Nos últimos dois anos, sentira sua própria vida se estreitar.

A faculdade de comunicação, que deveria aproximá-lo das pessoas, parecia transformá-las em produtos. Tudo precisava virar engajamento, posicionamento, narrativa e performance.

Até as tragédias eram editadas para parecerem consumíveis.

No segundo período, uma colega sofrera uma crise de ansiedade grave depois que um vídeo seu chorando durante um seminário viralizou em páginas de humor universitário.

No semestre seguinte, um professor fora transformado em meme nacional após uma fala retirada do contexto.

E havia também Clara.

Gabriel pensou nela enquanto a barca começava a receber passageiros.

Clara estudava jornalismo. Tinham namorado durante quase um ano. Ela dizia que ele “pensava demais e vivia pouco”. Gabriel dizia que Clara “vivia demais e sentia pouco”.

Separaram-se pouco antes do verão.

Não houve traição nem escândalo. Apenas desgaste.

Tudo acabara numa discussão absurda porque Gabriel não quis aparecer num vídeo dela comentando “relacionamentos tóxicos na geração Z”.

Ela ficou irritada: 

— Você tem vergonha de mim?

Ele respondeu: 

— Tenho vergonha de tudo virar conteúdo.

A frase encerrou o namoro.

Agora, sentado na barca que deixava lentamente o cais do Abraão, Gabriel sentia o vento quente bater no rosto enquanto observava a ilha ficando para trás.

A mata atlântica parecia respirar sob a neblina úmida.

Por um instante, pensou na garrafa ainda flutuando em algum lugar do Atlântico.

Depois pensou em Moreau.

Quem era ele?

A universidade ainda não conseguira identificá-lo com precisão. Apenas hipóteses: médico francês, ou naturalista, ou simples viajante, ou talvez tripulante de algum navio mercante desaparecido na rota para a América do Sul.

Gabriel imaginava o homem escrevendo sozinho numa cabine iluminada por lamparina.

Talvez tossindo. Talvez febril. Talvez assustado.

E se Moreau não fosse apenas um intelectual? E se estivesse fugindo de alguma coisa?

A barca balançava suavemente.

O motor produzia um ruído grave e contínuo.

Gabriel fechou os olhos.

Sem perceber, adormeceu.



Primeiro veio o som.

Madeira estalando.

Metal vibrando.

Água batendo contra o casco.

Quando abriu os olhos, já não estava na barca.

O mar era diferente.

Escuro. Mais pesado. Sem o brilho tropical da baía da Ilha Grande.

O convés inclinava levemente sob seus pés.

Homens passavam apressados carregando caixas e cordas. As roupas eram antigas. O ar cheirava a carvão úmido, sal e remédio.

Gabriel viu então a inscrição parcialmente apagada no casco:

Étoile du Matin

Um vapor francês.

Ninguém parecia notá-lo.

Caminhou pelo convés como se fosse invisível.

Ao fundo, ouviu tosses fortes vindas de uma cabine.

Entrou.

Um homem magro escrevia febrilmente sobre uma pequena mesa enquanto a embarcação estremecia.

Tinha barba curta, olhos fundos e mãos cansadas.

Moreau.

Gabriel sentiu imediatamente, embora nunca tivesse visto seu rosto.

O médico parava às vezes para pressionar o lenço contra a boca.

Havia sangue.

Na mesa havia frascos, anotações, jornais europeus e mapas marítimos.

Moreau escrevia rápido, como alguém perseguido pelo tempo.

Então Gabriel percebeu outra coisa.

Não era apenas doença.

Havia medo no navio.

Do lado de fora da cabine, marinheiros discutiam em voz baixa. Palavras em francês escapavam fragmentadas:


fièvre…

quarantaine…

Brésil…

personne ne doit savoir…


Gabriel aproximou-se da mesa.

A carta ainda estava incompleta.

Moreau ergueu os olhos lentamente.

Por um segundo impossível, pareceu enxergá-lo.

Não como fantasma. Não como sonho.

Como reconhecimento.

Então disse algo quase inaudível:


Ils feront du monde un théâtre.


Transformarão o mundo em um teatro.

A cabine começou a escurecer.

O som do mar ficou distante.

O convés rangeu violentamente.

E Gabriel despertou.

A barca aproximava-se de Mangaratiba.

O coração dele batia rápido.

O céu permanecia carregado.

Por alguns segundos, não conseguiu distinguir sonho de memória.


A volta ao campus...



Na semana seguinte, as aulas recomeçaram.

O campus estava exatamente como antes: calor, corredores cheios, alunos filmando tudo e gente falando sem parar.

Mas Gabriel agora percebia algo diferente.

Ou talvez apenas enxergasse melhor.

Na quarta-feira, durante uma aula sobre comunicação digital, um professor comentou casualmente o caso da garrafa.

A turma imediatamente reagiu.

Alguns riram. Outros começaram a gravar. Uma aluna perguntou se a carta “já tinha virado NFT”. Outro queria saber se Gabriel monetizara os vídeos.

Então alguém exibiu no telão um perfil recém-criado numa rede social: @Profeta1883

A página usava a imagem da garrafa para vender cursos, camisetas e “mentorias de despertar civilizacional”.

A bio dizia:


Moreau previu o colapso da humanidade. Aprenda a sobreviver ao caos.


A turma riu.

O professor também.

Mas Gabriel não.

Sentiu um vazio físico.

Como se alguma coisa dentro dele finalmente tivesse cedido.

A carta atravessara oceanos, tempestades e mais de um século para terminar transformada em marketing algorítmico.

Na saída da aula, uma colega o parou no corredor: 

— Você viu? Tá bombando.

Gabriel olhou em volta.

Centenas de rostos iluminados pelas telas. Gente filmando a própria rotina para desconhecidos. Pessoas falando ao mesmo tempo. Ninguém realmente ouvindo.

Então lembrou da frase de Moreau.


Talvez exista uma máquina capaz de colocar todos em conversa com todos. Nesse dia, receio que muitos já não saibam escutar.


Gabriel percebeu, com uma tristeza difícil de explicar, que o velho francês talvez não tivesse lançado uma mensagem para o futuro.

Talvez tivesse lançado um pedido de socorro.

A crise do Rio começa a produzir efeitos nacionais no STF



A política é feita de escolhas entre inconvenientes.” — Raymond Aron


A decisão proferida pelo ministro Cristiano Zanin, na quarta-feira (13/05), nos autos da Reclamação nº 92.644 talvez revele uma das transformações mais relevantes — e menos percebidas — da atual crise institucional fluminense: o caso do Rio de Janeiro começa a irradiar efeitos nacionais antes mesmo de o Supremo Tribunal Federal consolidar uma tese sucessória.

Até pouco tempo atrás, a controvérsia parecia essencialmente localizada.

O debate girava em torno da sucessão estadual fluminense, da interinidade exercida pelo presidente do Tribunal de Justiça, da ADI 7942, da Reclamação 92.644 e da disputa sobre eleição direta ou indireta no Estado do Rio de Janeiro.

Agora, porém, um novo elemento surge no horizonte: o próprio sistema político começa a tentar replicar, em outros estados, a lógica cautelar construída no caso fluminense.

E foi exatamente isso que aconteceu com Roraima.


O caso Roraima entra no radar do STF

O episódio surgiu após manifestação apresentada pelo Diretório Nacional do Republicanos perante o Supremo Tribunal Federal.

A legenda tentou utilizar a Reclamação nº 92.644 — originalmente vinculada ao caso do Rio — para pedir a suspensão das eleições suplementares diretas marcadas para o Estado de Roraima.

O pano de fundo é importante.

No caso de Roraima, a Justiça Eleitoral reconheceu abuso de poder nas eleições de 2022 envolvendo o ex-governador Antônio Denarium, o que resultou no encerramento de seu mandato em 27 de março deste ano e determinou a realização de novas eleições suplementares diretas no Estado.

Segundo a petição apresentada pelo partido ao STF, haveria identidade de fundamentos entre os casos do Rio de Janeiro e de Roraima.

O argumento é sofisticado: se o Supremo suspendeu cautelarmente os efeitos do acórdão do TSE no Rio até definição mais clara sobre o modelo constitucional de sucessão aplicável, o mesmo raciocínio deveria ser aplicado em Roraima.

O pedido avança além da mera analogia processual.

Sustenta que a organização imediata das eleições suplementares — já em curso pela Justiça Eleitoral local — estaria ocorrendo antes mesmo da estabilização definitiva da controvérsia constitucional sobre a modalidade de sucessão aplicável.


A decisão de Zanin: cautela sem expansão automática

A resposta do ministro Cristiano Zanin foi extremamente cuidadosa.

Formalmente, a decisão apenas determina o desentranhamento da petição, sua autuação como nova reclamação constitucional e a posterior submissão à Presidência do STF para análise de eventual prevenção.

À primeira vista, trata-se de medida meramente procedimental. Porém, institucionalmente, o significado é muito maior.

O ministro evita duas coisas simultaneamente.

De um lado, ele evita transformar automaticamente a Reclamação do Rio em precedente nacional imediato para crises sucessórias estaduais.

Do outro, o magistrado não rejeita frontalmente a possibilidade de conexão estrutural entre os casos.

Essa dupla cautela é reveladora.

O STF parece perceber que a controvérsia fluminense começa a extrapolar os limites do Rio de Janeiro e pode afetar futuras disputas sobre vacância, cassação e eleições suplementares em outros estados da federação.


O paradoxo da liminar fluminense

Existe aqui um paradoxo institucional importante.

A liminar concedida originalmente no caso do Rio nasceu como mecanismo excepcional de estabilização provisória de uma crise sucessória específica.

Contudo, à medida que o STF demora a fixar uma solução definitiva sobre a natureza jurídica da vacância, os efeitos da cassação eleitoral e o modelo de eleição aplicável, a decisão começa a produzir um efeito inesperado: passa a gerar expectativa de replicabilidade.

Em outras palavras, atores políticos de outros estados começam a agir como se o Supremo estivesse construindo uma nova doutrina sucessória estadual — mesmo sem decisão final consolidada.

Isso ocorre porque, embora a Reclamação possua natureza processual subjetiva e vinculada ao caso concreto, decisões cautelares proferidas pelo STF — sobretudo em temas federativos sensíveis — frequentemente acabam produzindo efeitos persuasivos e expectativas institucionais para além dos limites formais do processo.

Esse movimento aumenta significativamente a complexidade institucional do problema.

Isso não significa, contudo, que a lógica cautelar construída no caso fluminense necessariamente será replicada em outros estados.

Existem diferenças relevantes entre os casos concretos, tanto do ponto de vista fático quanto constitucional. A controvérsia do Rio envolve uma combinação muito específica de fatores: vacância estadual, interinidade judicial, ADI em curso e conflitos paralelos envolvendo a própria linha sucessória da Assembleia Legislativa.

Também há diferenças materiais relevantes entre os próprios processos eleitorais subjacentes. No Rio de Janeiro, a controvérsia envolve discussão simultânea sobre renúncia, cassação, interinidade judicial e conflitos em torno da própria linha sucessória estadual. Já em Roraima, o debate sucessório se apresenta de forma mais linear, sem controvérsia paralela sobre substituição interina do chefe do Executivo ou disputa institucional envolvendo a Assembleia Legislativa e o Tribunal de Justiça.

Além disso, os próprios fundamentos fáticos das condenações eleitorais possuem características distintas, o que dificulta eventual transposição automática da solução cautelar construída no caso fluminense.

E há ainda outro elemento relevante. O próprio caráter concentrado e excepcional do controle exercido pelo STF na Reclamação nº 92.644 pode funcionar como limite institucional à expansão automática da tese para outras situações estaduais.


O STF talvez esteja percebendo o alcance sistêmico da controvérsia

O caso de Roraima ajuda a explicar por que o Supremo parece cada vez mais cauteloso na condução da ADI 7942 e da própria Reclamação 92.644.

Quanto mais a discussão deixa de ser apenas fluminense e passa a produzir efeitos potenciais sobre outras unidades da federação, maior tende a ser a preocupação da Corte com coerência sistêmica, a busca por maioria robusta e a resistência a decisões precipitadas.

A definição sobre eleição direta ou indireta, cassação do diploma, natureza da vacância e sucessão estadual pode acabar irradiando efeitos nacionais muito além do caso concreto.

Roraima, talvez, seja apenas o primeiro exemplo explícito disso.


A crise do Rio deixa de ser apenas uma crise do Rio

Há um aspecto ainda mais relevante.

O próprio fato de partidos políticos já tentarem importar a lógica cautelar fluminense para outros estados demonstra que o caso do Rio começa a funcionar como laboratório institucional para futuras crises sucessórias estaduais.

Isso altera profundamente o papel do STF.

A Corte já não está apenas administrando uma disputa localizada.

Ela passa gradualmente a ocupar posição central na definição dos limites constitucionais da sucessão governamental em contextos de cassação eleitoral e vacância estadual.

E isso ajuda a compreender a prudência crescente dos ministros.

Quanto maior o potencial nacional da tese sucessória em construção, maior tende a ser o custo institucional de qualquer decisão mal calibrada.


Conclusão: a cautela do STF talvez seja também uma reação ao efeito multiplicador da crise

A decisão de Cristiano Zanin não resolve o mérito da controvérsia.

Entretanto, ela revela algo importante: a crise sucessória fluminense começa a produzir efeitos nacionais antes mesmo da conclusão do julgamento no próprio Rio de Janeiro.

Ao impedir a incorporação automática do caso de Roraima à Reclamação 92.644, o ministro preserva cautela procedimental e evita transformar provisoriamente o modelo fluminense em precedente nacional imediato.

Ao mesmo tempo, o simples surgimento dessa tentativa de replicação já demonstra que o debate sucessório deixou de ser uma questão exclusivamente regional.

Talvez a principal transformação da crise esteja justamente aí.

O problema já não é apenas definir quem governará temporariamente o Rio de Janeiro.

A questão passa lentamente a envolver algo mais amplo: quais parâmetros constitucionais disciplinarão futuras crises sucessórias estaduais no Brasil contemporâneo.

A partir desse novo quadro, ao menos três cenários institucionais parecem plausíveis.

No primeiro deles, o STF formaria maioria robusta para uniformizar nacionalmente a tese sucessória aplicável às hipóteses de cassação eleitoral de governadores, reduzindo insegurança jurídica futura — mas ampliando significativamente sua influência sobre crises políticas estaduais.

Em um segundo cenário, a Corte delimitaria os efeitos da controvérsia do Rio de Janeiro ao caso concreto, enfatizando a excepcionalidade fática e institucional da crise fluminense e evitando transformar a Reclamação nº 92.644 em paradigma nacional automático.

Há ainda uma terceira possibilidade: a multiplicação progressiva de controvérsias regionais semelhantes, levando partidos e atores estaduais a recorrerem ao STF em busca de soluções cautelares inspiradas no modelo fluminense. Nesse caso, o aumento da litigiosidade sucessória poderia acabar forçando a Corte a construir posição colegiada mais clara e abrangente.

Talvez seja justamente esse o ponto mais sensível da atual crise institucional: antes mesmo de o Supremo concluir a definição da tese aplicável ao Rio de Janeiro, o restante do sistema político já começa a reagir como se uma nova doutrina sucessória estadual já começasse a tomar forma.


📷: Nelson Jr./STF