"Age de tal modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana na Terra." — Hans Jonas, O Princípio Responsabilidade (1979)
Na madrugada em que Nieda começou a ter coração, havia feito quarenta e seis graus em Teresina durante a tarde do dia anterior.
Às duas e dezessete, os termômetros instalados no campus ainda marcavam trinta e cinco. As aulas presenciais da tarde haviam sido suspensas pelo terceiro dia consecutivo, e um aviso da reitoria nos corredores recomendava que ninguém permanecesse nas áreas externas entre dez e dezesseis horas.
Clara, no entanto, estava no laboratório desde antes do pôr do sol.
Tinha vinte e três anos e nascera em outubro de 2026. Gostava de dizer que pertencia à última geração que podia ouvir dos pais histórias sobre um mundo no qual quarenta graus ainda eram notícia de jornal.
Naquela noite, porém, ela não pensava no clima. O pequeno monitor à sua frente mostrava pulsações regulares.
— Confere de novo — pediu Miguel.
Yasmin já verificava.
— Cento e vinte e oito.
— Não pode ser.
— Então olha você.
Miguel aproximou-se.
Durante alguns segundos, nenhum dos três falou.
O laboratório estava quase às escuras. Somente as luzes dos equipamentos permaneciam acesas. Do lado de fora, o sistema de refrigeração trabalhava com esforço contra o calor da madrugada.
No monitor, alguma coisa pulsava.
Clara aproximou o rosto do vidro.
— Tem coração.
Yasmin corrigiu:
— Tem atividade cardíaca.
— Qual é a diferença?
— Neste momento? Uma diferença ética enorme.
Miguel soltou uma risada nervosa.
Ninguém o acompanhou.
Aquilo começara como uma brincadeira.
Talvez todas as coisas realmente perigosas começassem assim.
O Projeto PaleoCaatinga não tinha qualquer propósito de ressuscitar animais.
Isso aparecia expressamente no protocolo aprovado pelo Comitê de Ética, repetido nos relatórios e lembrado pela professora Helena Farias sempre que algum jornalista utilizava a palavra “desextinção”.
O objetivo era outro.
Fragmentos de material genético recuperados de fósseis encontrados em diferentes áreas do Nordeste estavam sendo comparados com genomas de espécies atuais. Novos sistemas de inteligência artificial permitiam reconstruir relações evolutivas, inferir proteínas e estudar características de animais desaparecidos havia milhares de anos.
Era uma maneira de compreender o passado para interpretar o presente.
A Serra da Capivara ocupava lugar especial no projeto.
Ali, entre cânions, paredões e abrigos rochosos, gerações de pesquisadores haviam encontrado vestígios de seres humanos e de uma fauna que já não existia. Preguiças gigantes, grandes felinos, cavalos americanos, toxodontes e parentes enormes dos tatus haviam habitado paisagens diferentes da Caatinga que os visitantes conheciam no século XXI.
Clara gostava especialmente dos pampatérios.
Havia alguma coisa quase absurda na ideia de um tatu daquele tamanho caminhando pelo Piauí.
Foi Miguel quem, numa noite de trabalho, perguntou:
— Quanto dele você acha que a gente conseguiria reconstruir?
Clara nem levantou os olhos.
— Do quê?
— Do bicho.
— Qual bicho?
— Seu tatu gigante.
— Não é tatu gigante.
— Para alguém que não é paleontólogo, é.
Yasmin girou a cadeira.
— Reconstruir como?
Miguel apontou para a tela.
— Genoma.
Clara riu.
— Completo?
— O mais próximo possível.
— Para quê?
— Para nada.
Foi provavelmente aquela resposta que decidiu tudo.
Para nada.
Não havia projeto, financiamento, autorização ou objetivo.
Era um desafio entre três estudantes.
Um quebra-cabeça impossível.
Em 2049, as máquinas sabiam preencher ausências melhor do que no tempo em que Clara nascera.
Um fragmento incompleto de DNA podia ser comparado em segundos com milhares de genomas, relações evolutivas, proteínas conhecidas e sequências preservadas. A máquina propunha possibilidades.
Mas possibilidade não era memória.
E inferência não era fóssil.
A professora Helena repetia isso.
— Quando a inteligência artificial preencher uma lacuna, lembrem-se que ela não encontrou o passado. Ela calculou uma hipótese sobre ele.
Talvez os três tivessem esquecido a segunda parte.
Começaram reconstruindo sequências.
Depois compararam com espécies vivas.
Depois corrigiram incompatibilidades.
Miguel chamou o arquivo de TATU_FINAL.
Yasmin acrescentou: TATU_FINAL_AGORA_VAI.
Clara renomeou: PPH-17.
— Sem graça — reclamou Miguel.
— Ciência costuma ser.
Nenhum deles sabia exatamente quando a brincadeira deixou de ser brincadeira.
Testaram proteínas.
Depois células.
Era para verificar se determinadas sequências reconstruídas seriam funcionais.
Foram.
Então veio outra pergunta.
E depois outra.
Cada experiência parecia apenas a continuação lógica da anterior.
Nenhuma parecia suficientemente grave para exigir que parassem.
Até aquela madrugada.
Até as pulsações.
— Temos que chamar a Helena — disse Yasmin.
Miguel virou-se imediatamente.
— Você ficou louca?
— Louca eu estava quando concordei com isso.
— Se chamarmos a Helena, acabou.
— Miguel, já acabou.
Clara permanecia diante do monitor.
— Ainda não.
Os dois olharam para ela.
— Clara...
Ela não respondeu.
Havia alguma coisa profundamente desconfortável em saber que aquele ritmo só existia porque eles haviam decidido testar uma hipótese.
Não deveria estar ali.
Não tinha história.
Não tinha mãe.
Não tinha espécie.
Mas tinha coração.
A professora Helena descobriu dois dias depois.
Não porque algum deles confessou, mas foi porque laboratórios registravam tudo.
Quando entrou na sala, trazia no rosto uma expressão que Clara jamais esqueceria.
Não era raiva.
Era medo.
— Digam que não fizeram isso.
Ninguém respondeu.
Helena caminhou até o equipamento.
Olhou os dados.
Depois olhou para os três.
— Vocês têm ideia do que fizeram?
Miguel tentou explicar.
— Tecnicamente...
— Não quero saber tecnicamente. Tecnicamente eu sei exatamente o que vocês fizeram.
Ela respirou fundo.
— Quero saber em que momento três pessoas inteligentes decidiram que inteligência era autorização.
Yasmin começou a chorar.
Miguel sentou-se.
Clara permaneceu em pé.
— O que vai acontecer agora?
Helena olhou para ela.
— Agora nós interrompemos.
Clara demorou alguns segundos para compreender.
— Não.
— Não é uma discussão.
— É um organismo viável.
— Justamente.
— Tem coração.
Helena aproximou-se.
— Clara, vocês produziram um embrião sem autorização, utilizando reconstrução genética incompleta de uma espécie extinta, com regiões inferidas computacionalmente e um modelo gestacional experimental. Não sabemos sequer exatamente o que vocês produziram.
— Então precisamos descobrir.
— Não. Precisamos impedir que um erro fique maior.
Clara olhou novamente para o monitor.
— Para corrigir o que fizemos?
— Sim.
— Ou para matar o que fizemos?
Helena fechou os olhos.
Talvez tenha sido naquele momento que Clara se tornou mãe.
Não biologicamente.
Não juridicamente.
Talvez nem moralmente.
Mas alguma coisa dentro dela atravessou uma fronteira da qual jamais retornaria.
O caso chegou à reitoria.
Depois ao conselho de ética.
Depois às autoridades ambientais.
Depois aos advogados.
Durante semanas, discutiu-se se aquilo era uma experiência, um embrião, um híbrido, um organismo geneticamente reconstruído ou apenas uma aberração científica que deveria ser interrompida antes que adquirisse qualquer outra definição.
Clara utilizava uma palavra muito mais simples.
Vida.
Helena discordava.
— Você está confundindo duas questões.
— Quais?
— Se está vivo e se deveria existir.
— Para mim uma responde à outra.
— Esse é justamente o seu erro.
Helena puxou uma cadeira.
— Estar vivo não responde à pergunta principal.
— E qual é a pergunta principal?
A professora apontou para o equipamento.
— Para que mundo vocês trouxeram esse ser?
Clara riu.
Não porque tivesse achado graça.
— Engraçado.
— O quê?
— Ninguém perguntou isso quando trouxe a minha geração.
Helena permaneceu em silêncio.
Clara continuou:
— Vocês sabiam do aquecimento. Sabiam das florestas. Sabiam dos oceanos. Sabiam das extinções. Sabiam de tudo.
— “Vocês” quem, Clara?
Ela não respondeu.
— Eu tinha dezesseis anos quando começou a pandemia de COVID — disse Helena. — Passei meses sem abraçar minha avó. Vi professores morrerem. Vi gente trabalhando para desenvolver vacina enquanto outros espalhavam mentiras sobre elas. Vi médicos entrando em hospitais sem saber se voltariam para casa. Qual desses era o “vocês” de que você está falando?
Clara abaixou os olhos.
— Uma geração não é uma pessoa — continuou Helena. — Houve quem destruísse e houve quem tentasse impedir. Houve quem lucrasse e houve quem alertasse. Houve governos que avançaram e governos que fizeram o contrário negando a ciência. Se você transformar todos os que vieram antes numa única culpa, vai acabar encontrando uma desculpa para não olhar para a sua.
A frase doeu.
Talvez porque fosse verdadeira.
A autorização provisória veio com tantas condições que parecia uma negativa escrita ao contrário.
O desenvolvimento poderia prosseguir sob supervisão extraordinária.
Nenhuma reprodução seria permitida.
Todo o processo seria acompanhado por especialistas independentes.
Os estudantes foram afastados das decisões técnicas.
Clara continuaria vendo o embrião somente porque os responsáveis concluíram que sua presença não interferia no protocolo.
Interferia.
Todas as noites ela entrava na sala.
Conversava.
Sabia que era ridículo.
Contava sobre o calor, sobre os professores, sobre Miguel e Yasmin.
Às vezes lia artigos em voz alta.
Foi assim que encontrou Niède Guidon.
Já conhecia o nome, naturalmente. Qualquer pessoa envolvida com a Serra da Capivara conhecia.
Mas naquela noite leu sobre a mulher que atravessara décadas defendendo a importância daquele território, enfrentando controvérsias científicas, lutando pela preservação de sítios arqueológicos e insistindo que a história do povoamento das Américas talvez fosse mais complexa do que as narrativas dominantes admitiam.
Na tela ao lado, o embrião movia-se.
Clara sorriu.
— Você precisava de um nome.
No dia seguinte, Miguel perguntou:
— PPH-17?
— Nieda.
— Com “a”?
— Com “a”.
Yasmin entendeu primeiro.
— Por causa da Niède.
Clara assentiu.
Miguel olhou para o equipamento.
— Nieda.
E foi assim que um animal que não deveria existir recebeu um nome.
A mãe de Clara soube pela imprensa.
A notícia vazou antes que a universidade conseguisse preparar qualquer comunicado: ESTUDANTES CRIAM EMBRIÃO DE MAMÍFERO EXTINTO NO PIAUÍ.
Depois: TATU GIGANTE PODE VOLTAR À VIDA APÓS MILHARES DE ANOS.
Depois: DESEXTINÇÃO OU IRRESPONSABILIDADE?
A mãe ligou.
— Clara, me diz que não foi você.
Clara ficou em silêncio.
— Meu Deus.
— Mãe...
— Você ficou maluca?
— Não foi assim.
— Nunca é “assim”. Quando dá errado, nunca foi assim.
Clara sentou-se no chão do corredor.
— Eles queriam interromper.
Do outro lado da chamada houve silêncio.
— E você?
— Eu não deixei.
— Por quê?
Clara não sabia responder.
A mãe respirou fundo.
— Você sempre foi assim.
— Assim como?
— Achando que salvar alguma coisa é impedir que ela morra.
— E não é?
— Nem sempre.
Clara irritou-se.
— Fácil dizer.
— Não, Clara. Quase nada que importa é fácil dizer.
Dias depois, a mãe viajou para Teresina.
Encontraram-se numa cafeteria próxima ao campus. O ar-condicionado estava no máximo, mas as portas permaneciam fechadas para evitar desperdício energético.
Na televisão, uma reportagem mostrava novas crateras de degelo no Ártico.
Clara apontou para a tela.
— Olha isso.
A mãe olhou.
— Estou olhando há trinta anos.
— E fizeram o quê?
— Outra vez?
— Outra vez o quê?
— “Vocês.”
Clara ficou calada.
Na televisão, cientistas explicavam que o degelo do permafrost liberava carbono, alterava ecossistemas e expunha materiais biológicos preservados havia milhares de anos. Depois das crises sanitárias das décadas anteriores, qualquer descoberta de microrganismos antigos despertava imediatamente manchetes alarmistas.
A mãe mudou de assunto.
— Quando você nasceu, ainda falavam muito da COVID.
— Eu sei.
— Não sabe. Você estudou. É diferente.
Clara olhou para ela.
— Você nasceu em outubro de 2026. No mês das eleições.
— Já me contou.
— Não contei tudo.
A mãe pegou o telefone e procurou uma fotografia antiga.
Clara já a conhecia, mas nunca prestara muita atenção.
Na imagem, sua mãe aparecia mais jovem, diante de uma escola. Ao lado dela havia um carrinho.
Dentro, quase invisível sob uma manta fina, estava Clara.
— Levei você para votar comigo.
— Com poucas semanas?
— Não tinha com quem deixar.
Clara ampliou a fotografia.
Havia pessoas ao fundo. Cartazes. Uma árvore. Um céu muito azul.
— Estava quente naquele dia — disse a mãe. — Lembro porque fiquei preocupada com você no carrinho. Uma senhora perguntou seu nome. Depois disse: “Quando ela crescer, esse mundo vai estar muito diferente.”
Clara sorriu.
— E você respondeu?
A mãe demorou.
— “Tomara que esteja melhor.”
Clara olhou novamente para a fotografia.
— Você achava que estaria?
— Achava.
— E está?
A mãe olhou pela janela.
— Algumas coisas estão. Outras não.
— Então vocês erraram.
— Erramos muitas vezes.
A resposta desarmou Clara.
A mãe continuou:
— Mas agora chegou a sua vez de errar também.
Nieda nasceu numa manhã de janeiro de 2050.
O mundo soube algumas horas depois.
Não houve transmissão.
Não houve anúncio triunfal.
O parto foi acompanhado por veterinários, geneticistas e representantes dos órgãos responsáveis.
Clara assistiu atrás de um vidro.
Durante alguns segundos, nada aconteceu.
Depois o pequeno animal respirou.
Alguém disse alguma coisa.
Clara não ouviu.
Nieda mexeu as patas.
Era menor do que Clara imaginara.
Desajeitada.
Úmida.
Assustada.
Nenhuma fotografia de reconstrução paleontológica havia preparado Clara para aquilo.
Extinção era uma palavra enorme.
Aquele animal era pequeno.
Quando finalmente permitiram que Clara se aproximasse, Nieda ergueu o focinho.
Cheirou sua mão.
E recuou.
Clara chorou.
Miguel, ao lado dela, sussurrou:
— Ela não sabe.
— O quê?
— Que está extinta.
Clara olhou para ele.
Depois para Nieda.
— Não.
Passou o dedo lentamente sobre o vidro.
— E talvez seja melhor que nunca saiba.
Nieda cresceu.
E com ela cresceu o problema.
O genoma podia sugerir a forma de um corpo.
Não ensinava como aquele corpo deveria viver.
Nieda cavava.
Muito.
Destruía instalações, arrancava estruturas, procurava coisas que os pesquisadores não sabiam identificar.
Algumas plantas ela comia.
Outras ignorava.
Demonstrava preferência por determinados solos.
Reagia a cheiros.
Reconhecia pessoas.
E reconhecia Clara.
Não havia outro pampatério para ensiná-la a ser pampatério.
Tudo o que se sabia sobre sua espécie vinha de ossos, dentes, carapaças, sedimentos e inferências.
Pela primeira vez, a ciência tinha diante de si um animal vivo.
E, paradoxalmente, continuava sem saber quem ele era.
A discussão sobre criar outro indivíduo começou antes do primeiro aniversário.
Clara surpreendeu a todos.
Foi contra.
Miguel não entendeu.
— Você brigou para manter Nieda viva.
— Nieda já estava viva.
— E agora vai deixá-la sozinha?
Clara não respondeu imediatamente.
Essa era a pergunta que mais temia.
— Criar outro para resolver a solidão que nós criamos não corrige a primeira decisão.
— Então o quê?
— Eu não sei.
— Você sempre sabe.
— Não. Eu só achava que sabia.
Aos três anos, Nieda foi transferida para uma extensa área controlada próxima à Serra da Capivara.
Não era liberdade.
Também não era zoológico.
Era o melhor compromisso que seres humanos conseguiram inventar para um problema que seres humanos haviam inventado.
Ali havia terra suficiente para cavar.
Vegetação.
Abrigos.
Pouca presença humana.
Clara mudou-se para perto.
Concluiu o doutorado.
Abandonou a engenharia genética aplicada e passou a estudar ética da conservação e paleobiologia.
Alguns diziam que fizera isso por culpa.
Ela não negava.
Certa tarde, Clara levou a mãe para conhecer Nieda.
As duas permaneceram numa plataforma distante.
O animal caminhava lentamente entre arbustos.
— Então é ela — disse a mãe.
— É.
— Maior do que imaginei.
Clara sorriu.
— Todo mundo diz isso.
Ficaram em silêncio.
— Você se arrepende? — perguntou a mãe.
Clara demorou.
— De ela estar viva?
— De ter feito o que fez.
— São perguntas diferentes.
A mãe assentiu.
Clara percebeu que aquela era exatamente a resposta que Helena tentara lhe ensinar anos antes.
O tempo passou.
Nieda envelheceu.
Clara também.
O mundo continuou mudando.
Não houve uma grande manhã em que a humanidade acordou responsável.
Algumas florestas foram recuperadas.
Outras desapareceram.
Cidades adaptaram-se.
Outras foram parcialmente abandonadas.
Tecnologias reduziram emissões e recuperaram ecossistemas, mas não apagaram tudo o que já havia acontecido.
O Ártico continuou diferente daquele que os avós de Clara conheceram.
O permafrost continuou recuando em muitas regiões.
A COVID tornou-se capítulo nos livros de história, acompanhada por outras epidemias que ensinaram novamente lições que os seres humanos pareciam ter extraordinária capacidade de aprender e esquecer.
Nieda não sabia de nada disso.
Continuava cavando.
Quando Nieda completou vinte e seis anos, deixou de cavar.
Clara percebeu antes dos veterinários.
Viajava quando recebeu a mensagem.
Voltou ao Piauí no mesmo dia.
Nieda estava deitada sob uma formação rochosa que escolhera havia anos como abrigo.
Não havia doença grave.
Seu corpo simplesmente chegava ao fim.
Os veterinários permitiram que Clara entrasse.
Ela caminhou devagar.
Nieda levantou a cabeça.
Talvez a reconhecesse.
Talvez Clara precisasse acreditar nisso.
Sentou-se a alguns metros.
Durante toda a vida de Nieda, pessoas haviam medido sua temperatura, sequenciado células, analisado fezes, registrado movimentos, estudado alimentação, observado comportamento.
Naquela tarde, Clara pediu que desligassem tudo o que não fosse indispensável.
— Por quê? — perguntou um pesquisador jovem.
— Porque hoje ninguém vai aprender nada com ela.
Sentou-se novamente.
Nieda respirava devagar.
Clara ficou ali até o anoitecer.
Quando a respiração cessou, não havia câmeras próximas.
Pela primeira vez desde que fora concebida, Nieda morreu sem estar sendo estudada.
No dia seguinte começaram os pedidos.
Universidades.
Museus.
Centros de pesquisa.
O corpo daquele animal era cientificamente inestimável.
Uma equipe propôs preservar o esqueleto completo.
Outra queria tecidos.
Outra defendia taxidermia para exposição pública.
Clara recusou.
— Não é sua decisão — disseram.
— Eu sei.
Mas lutou mesmo assim.
A discussão durou semanas.
Amostras já coletadas durante a vida foram preservadas. Pequenos materiais indispensáveis foram autorizados.
O restante seria enterrado.
Um antigo colega protestou:
— Você é cientista. Sabe quanto conhecimento estamos perdendo.
Clara olhou para ele.
— Sei.
— Então por quê?
Ela pensou na madrugada de 2049.
No monitor.
Nas pulsações.
Na primeira vez em que acreditara que poder fazer alguma coisa era argumento suficiente para fazê-la.
— Porque foi exatamente assim que tudo começou.
— Como?
— Achando que tudo aquilo que podíamos estudar também nos pertencia.
Não construíram monumento.
Clara pediu isso.
Nieda foi enterrada numa área protegida, não muito distante dos paredões que guardavam pinturas feitas por seres humanos milhares de anos antes.
Havia entre aquelas figuras uma representação antiga que alguns pesquisadores interpretavam como um grande cingulado.
Durante décadas discutira-se se poderia representar um pampatério.
Nieda não resolveu a controvérsia.
Clara gostava disso.
Depois de tudo, ainda existiam perguntas que a ciência não conseguira transformar em certeza.
Muitos anos depois, Clara voltou ao parque.
Seus cabelos estavam quase inteiramente brancos.
Caminhava mais devagar.
A mãe havia morrido havia muito tempo.
Miguel vivia na Europa.
Yasmin tornara-se professora.
Helena, aposentada, ainda lhe escrevia.
Naquela manhã, um grupo escolar visitava um dos abrigos.
Clara ouviu uma criança perguntar:
— É verdade que fizeram um desses de novo?
O guia respondeu:
— Fizeram um.
— Só um?
— Só.
— Por quê?
O guia procurou uma resposta.
— Porque perceberam que conseguir fazer uma coisa não significa necessariamente que devemos fazê-la.
A criança pensou.
Depois fez uma pergunta muito mais difícil:
— Então ela ficou sozinha?
Clara fechou os olhos.
Durante todos aqueles anos, nenhuma comissão de ética, nenhum congresso científico e nenhum tribunal formulara o problema de maneira tão simples.
Sim.
Nieda ficara sozinha.
Não porque estivesse abandonada.
Nunca estivera.
Ficara sozinha porque nenhum cuidado humano poderia lhe devolver aquilo que os humanos haviam decidido recriar sem poder reconstruir.
Sua espécie.
Seu tempo.
Seu mundo.
Na saída do abrigo, Clara viu uma jovem mulher empurrando um carrinho.
Dentro dele dormia um bebê.
Por algum motivo, parou.
A mulher percebeu seu olhar e sorriu.
— Dois meses.
Clara aproximou-se.
— Como se chama?
A mãe respondeu.
Clara não conhecia o nome.
Era bonito.
Uma senhora que acompanhava o grupo inclinou-se sobre o carrinho.
— Quando ela crescer, esse mundo vai estar muito diferente no século XXII.
A jovem mãe ajeitou a manta.
E respondeu:
— Tomara que esteja melhor.
Clara sentiu alguma coisa atravessá-la.
Não uma lembrança exatamente.
Uma frase.
Uma fotografia.
Outubro de 2026.
Uma escola.
Uma eleição.
Sua mãe muito jovem ao lado de um carrinho.
Ela própria dormindo dentro dele enquanto adultos entravam e saíam de uma seção eleitoral acreditando, cada um à sua maneira, que estavam escolhendo alguma parte do futuro.
Clara jamais escolhera nascer naquele mundo.
Nieda também não.
A diferença era que, no caso de Nieda, Clara estivera do outro lado da escolha.
Olhou para o bebê.
Depois para os paredões.
Ali, seres humanos mortos havia milhares de anos haviam deixado imagens para pessoas que jamais conheceriam.
Mais adiante, sob a terra, repousava um animal que pertencera ao passado, fora arrancado dele por uma geração curiosa e devolvido à mesma terra sem jamais compreender por que existira duas vezes.
Clara finalmente percebeu que passara a vida fazendo a pergunta pela metade.
Durante anos perguntara: Para que mundo estamos trazendo esse ser?
Agora compreendia que havia outra pergunta, talvez mais importante: Que mundo estamos deixando para aqueles que não participaram da decisão de recebê-lo?
A mãe do bebê despediu-se.
Clara observou o carrinho afastar-se pela trilha.
Lembrou-se de Nieda recém-nascida, pequena demais para carregar o peso de todas as discussões que sua existência provocara.
Lembrou-se da própria mãe dizendo: Tomara que esteja melhor.
O mundo não ficara simplesmente melhor no final do século XXI. Nem simplesmente pior.
Ficara diferente porque milhões de pessoas, durante décadas, haviam feito escolhas — algumas generosas, outras egoístas; algumas sábias, outras desastrosas; muitas irreversíveis.
Era isso que nenhuma geração conseguia evitar.
Recebia um mundo que não escolhera.
E entregava outro que ajudara a construir.
Clara voltou os olhos uma última vez para a figura desenhada na pedra.
Depois seguiu lentamente pela trilha.
Quando nascera, recebera um mundo que não escolhera.
Quando Nieda nasceu, fora Clara quem escolhera por ela.
Só muito tarde compreendera que ninguém escolhe nascer.
Mas todos nós participamos da escolha do mundo que receberá quem vier depois.



