![]() |
| 📸: Ricardo Stuckert |
O evento internacional de tecnologia realizado na Índia, palco da recente manifestação do presidente brasileiro sobre inteligência artificial e desigualdade, não foi apenas um encontro sobre inovação. Foi, sobretudo, um momento de disputa narrativa sobre o significado político da transformação digital no século XXI.
Ao afirmar que “sem ação coletiva, a Inteligência Artificial aprofundará desigualdades históricas” e que “quando poucos controlam algoritmos e infraestruturas digitais (…) falamos de dominação”, o presidente recolocou o debate tecnológico no terreno da justiça social e da soberania democrática.
Mas o que os últimos dez anos revelam quando comparamos Brasil e Índia — dois grandes países do Sul Global — sob a ótica da evolução tecnológica e social?
1. A convergência da infraestrutura
Entre 2016 e 2026, Brasil e Índia passaram por uma revolução silenciosa.
No Brasil, a expansão do 4G, a chegada do 5G e a digitalização de serviços públicos culminaram na consolidação do Pix, sistema criado pelo , que transformou a infraestrutura financeira nacional.
Na Índia, o sistema de pagamentos UPI e a identidade digital Aadhaar consolidaram uma arquitetura digital pública em escala continental, convertendo o país em referência global de infraestrutura digital inclusiva.
Ambos os países:
- ampliaram drasticamente a conectividade móvel;
- integraram milhões de cidadãos ao sistema financeiro digital;
- passaram a depender das mesmas plataformas globais de nuvem e redes sociais;
- inseriram-se em cadeias tecnológicas transnacionais.
Nunca fomos tão conectados tecnicamente.
Há uma homogeneização material da base tecnológica.
2. A divergência simbólica
Paralelamente à expansão da conectividade, Brasil e Índia viveram intensificação da polarização política, disputas narrativas amplificadas por redes sociais e crescente fragmentação do espaço público.
A promessa inicial da internet — criar uma ágora global — cedeu espaço à segmentação algorítmica.
A frase que emerge como síntese dessa década é esta:
Nunca fomos tão conectados tecnicamente porque dependemos da mesma infraestrutura global.
Nunca fomos tão fragmentados simbolicamente porque não partilhamos mais o mesmo sentido do mundo.
Essa tensão ajuda a compreender o alerta presidencial sobre “integridade da informação” e “proteção da democracia”. O problema já não é apenas acesso à tecnologia — é coesão simbólica.
3. O Sul Global e a disputa pela governança digital
O fato de a declaração ter sido feita na Índia não é trivial. Brasil e Índia não são apenas mercados consumidores de tecnologia; buscam afirmar-se como protagonistas na governança digital global.
Ambos defendem:
- maior regulação das grandes plataformas;
- soberania de dados;
- inclusão digital como política pública;
- proteção das indústrias criativas nacionais.
Há uma tentativa de deslocar o eixo do debate, tradicionalmente centrado nos Estados Unidos e na Europa, para uma perspectiva do Sul Global.
No entanto, a ambição regulatória convive com uma dependência estrutural das mesmas infraestruturas privadas globais que se pretende disciplinar.
Esse é o paradoxo central.
4. Inclusão técnica não é integração social
O aumento do acesso à internet e a digitalização financeira produziram inclusão funcional. Milhões passaram a realizar pagamentos instantâneos, acessar serviços públicos online e participar do comércio eletrônico.
Mas inclusão técnica não significa integração social.
O crescimento da conectividade não eliminou:
- desigualdades regionais;
- assimetrias educacionais;
- tensões políticas;
- conflitos identitários.
A tecnologia ampliou vozes — mas também ampliou antagonismos.
5. O dilema da próxima década
Se a década passada foi marcada pela expansão da infraestrutura, a próxima será definida pela disputa sobre seu significado.
A inteligência artificial, mencionada pelo presidente, não é apenas uma ferramenta produtiva. É uma tecnologia estruturante de poder simbólico: organiza fluxos de informação, molda percepções e influencia decisões coletivas.
Conclusão
Quando, em 2016, escrevi sobre “uma espécie cada vez mais dividida”, antecipava uma tensão que os números de 2026 apenas confirmam: a aceleração tecnológica produz inclusão funcional, mas não garante unidade simbólica nem justiça distributiva. Brasil e Índia tornaram-se laboratórios vivos desse paradoxo digital contemporâneo — capazes de conectar centenas de milhões em poucos anos e, ainda assim, aprofundar disputas narrativas, desigualdades estruturais e assimetrias de poder.
A infraestrutura se universaliza; o sentido permanece fragmentado. A divisão não decorre da ausência de tecnologia, mas da maneira como ela é apropriada social e politicamente. A infraestrutura global nos conectou como nunca — porém a experiência simbólica tornou-se cada vez mais segmentada.
O alerta presidencial sobre desigualdade algorítmica e dominação estrutural, proferido na Índia, insere-se nesse contexto mais amplo: não se trata apenas de distribuir acesso, mas de reconstruir o espaço público compartilhado. Como antevia Roberto Mangabeira Unger, urge “reconstruir uma estratégia de desenvolvimento voltada para a democratização da economia do lado da oferta, das oportunidades produtivas e educacionais”.
A era digital produziu uma humanidade tecnicamente interdependente e simbolicamente fragmentada. A pergunta decisiva que emerge do encontro na Índia é clara: seremos capazes de transformar a infraestrutura comum em um sentido comum — ou permaneceremos conectados por cabos e divididos por narrativas?
📊 Nota final — Indicadores comparativos (Brasil e Índia, 2016–2026)
1. Conectividade à internet
- Brasil: saiu de cerca de 60–65% de usuários de internet em 2016 para patamar superior a 85% em meados da década atual.
- Índia: avançou de aproximadamente 30–35% em 2016 para algo próximo de 65–70%, com crescimento acelerado impulsionado por dados móveis de baixo custo.
2. Pagamentos digitais
- Brasil: o Pix, lançado em 2020 pelo Banco Central, ultrapassou rapidamente a marca de centenas de milhões de transações diárias, tornando-se infraestrutura essencial da economia.
- Índia: o sistema UPI movimenta bilhões de transações mensais, consolidando o país como referência global em pagamentos instantâneos de grande escala.
3. Eletrificação
- Brasil: mantém índice próximo da universalização (acima de 99% dos domicílios com acesso à energia).
- Índia: elevou significativamente sua taxa de eletrificação na última década, aproximando-se da universalização formal, embora persistam desafios de qualidade e estabilidade do fornecimento em áreas rurais.
4. Economia digital
- Brasil: crescimento expressivo de fintechs, e-commerce e digitalização de serviços públicos.
- Índia: consolidação como polo global de serviços de TI e expansão de políticas industriais voltadas a semicondutores e inteligência artificial.
A expansão quantitativa da infraestrutura não eliminou a fragmentação qualitativa do tecido social.






