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sexta-feira, 6 de março de 2026

O Líbano na Linha de Fogo: por que o país voltou ao centro da guerra no Oriente Médio



A escalada militar recente no Oriente Médio trouxe novamente o Líbano para o centro de uma das regiões mais instáveis do planeta. Bombardeios, deslocamentos massivos de civis e o risco de uma guerra terrestre ampliaram a preocupação internacional de que o país possa se tornar um novo epicentro de um conflito regional.

Para compreender essa situação, é necessário observar três fatores fundamentais: a posição geográfica do Líbano, o papel do Hezbollah e o contexto mais amplo da rivalidade regional envolvendo Israel, Irã e outros atores.


Uma fronteira historicamente explosiva

O sul do Líbano constitui uma das fronteiras mais sensíveis do Oriente Médio. A região faz divisa direta com o norte de Israel e, ao longo de décadas, tornou-se palco de confrontos militares, operações de guerrilha e escaladas armadas periódicas.

O terreno montanhoso e a presença de vilarejos próximos à fronteira dificultam operações militares convencionais e ampliam o impacto humanitário de qualquer ofensiva. Nessas áreas, posições de lançamento de foguetes podem ser montadas rapidamente e deslocadas com facilidade.

Por essa razão, sempre que há aumento de tensão regional, o sul do Líbano tende a se tornar um dos primeiros focos de confrontos.


O poder militar do Hezbollah

Um elemento central da equação estratégica é o Hezbollah. Diferentemente de muitas milícias armadas, o grupo possui estrutura militar significativa e consolidada ao longo de décadas.

Estimativas de centros de estudos estratégicos indicam que o Hezbollah já chegou a acumular dezenas de milhares de foguetes e mísseis, com algumas avaliações apontando números entre 40 mil e mais de 100 mil unidades em diferentes períodos. Esses arsenais incluem principalmente foguetes de curto e médio alcance, capazes de atingir diversas cidades israelenses.

Avaliações mais recentes feitas por analistas militares sugerem que, após perdas em confrontos anteriores, o grupo ainda pode dispor de algo em torno de 25 mil foguetes e mísseis operacionais.

Essa capacidade de fogo faz com que o Hezbollah seja frequentemente descrito por especialistas como a força armada não estatal mais poderosa do mundo, o que explica a preocupação estratégica de Israel.


Um ator militar e político ao mesmo tempo

O Hezbollah não é apenas uma organização armada. Ele também atua como partido político e mantém uma rede de instituições sociais no Líbano.

Entre a população xiita libanesa, o grupo possui apoio significativo por ter desempenhado papel importante na resistência contra a ocupação israelense no sul do país até o ano 2000.

Ao mesmo tempo, o movimento enfrenta críticas dentro do próprio Líbano. Parte da sociedade libanesa, incluindo setores da comunidade xiita, acusa o Hezbollah de arrastar o país para conflitos regionais e comprometer a soberania nacional ao manter uma estrutura militar paralela ao Estado.

Esse debate interno é um elemento essencial para compreender a política libanesa contemporânea.


Um país mergulhado em crise econômica

A escalada militar ocorre em um momento particularmente delicado para o Líbano.

Desde 2019, o país enfrenta uma das piores crises econômicas da história moderna. O colapso financeiro incluiu:


  • falência do sistema bancário
  • desvalorização massiva da moeda nacional
  • congelamento de depósitos bancários
  • moratória da dívida externa


Segundo análises do Banco Mundial, essa crise econômica é considerada uma das mais graves registradas no mundo desde o século XIX.

Entre 2018 e 2021, o Produto Interno Bruto do país caiu drasticamente, refletindo um colapso econômico comparável aos efeitos de guerras de grande escala.

A situação foi agravada por outros fatores importantes:


  • a explosão do porto de Beirute em 2020
  • instabilidade política recorrente
  • pandemia de Covid-19
  • crise bancária e monetária prolongada


Nesse contexto, qualquer escalada militar tende a produzir consequências humanitárias ainda mais graves.


O impacto humanitário

A intensificação dos bombardeios e das operações militares já provocou deslocamentos massivos de população.

Organizações humanitárias estimam que centenas de milhares de pessoas tenham sido obrigadas a abandonar suas casas em diferentes regiões do Líbano durante a escalada mais recente, enquanto cidades e bairros inteiros passaram a sofrer danos significativos.

Esse tipo de deslocamento em massa representa um desafio enorme para um país que já enfrenta graves dificuldades econômicas e institucionais.


A importância da diáspora libanesa

A crise libanesa não se limita ao Oriente Médio. Ela tem impacto direto em uma das maiores diásporas do mundo.

O Brasil abriga uma das maiores comunidades de descendentes libaneses fora do Líbano, com presença marcante na vida econômica, cultural e política do país. Estados como São Paulo e Rio de Janeiro possuem forte tradição de imigração libanesa desde o final do século XIX.

Em momentos de crise no Líbano, essas comunidades acompanham com grande preocupação os acontecimentos no país de origem de suas famílias.


A posição diplomática brasileira

Tradicionalmente, a diplomacia brasileira defende soluções negociadas para conflitos internacionais.

Em crises no Oriente Médio, o Itamaraty costuma enfatizar princípios como:


  • respeito ao direito internacional
  • proteção da população civil
  • busca por cessar-fogo e negociação diplomática
  • fortalecimento do papel das Nações Unidas


Esse posicionamento reflete uma linha histórica da política externa brasileira voltada para a solução pacífica de controvérsias.


Possíveis caminhos para reduzir a escalada

Embora as rivalidades regionais sejam profundas, especialistas em relações internacionais apontam alguns caminhos possíveis para reduzir o risco de uma guerra ampliada.

Entre eles estão:


- Fortalecimento da mediação internacional: Países como Catar e Omã já atuaram como intermediários em negociações delicadas no Oriente Médio.

- Implementação de resoluções da ONU: A Resolução 1701 do Conselho de Segurança, aprovada após a guerra de 2006, prevê mecanismos para reduzir tensões na fronteira entre Israel e Líbano.

- Acordos de cessar-fogo monitorados internacionalmente: Missões de paz da ONU podem ajudar a criar zonas de estabilidade temporária.

- Negociações regionais mais amplas: Alguns analistas defendem a criação de um mecanismo de segurança regional que inclua potências do Oriente Médio e potências globais.


Nenhuma dessas soluções é simples. Contudo, elas representam alternativas à escalada militar permanente.


Conclusão

O Líbano ocupa hoje uma posição extremamente delicada no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. Sua proximidade com Israel, a presença do Hezbollah e a rivalidade regional envolvendo o Irã tornam o país particularmente vulnerável a crises regionais.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta uma crise econômica profunda e uma estrutura política fragilizada, fatores que ampliam os riscos de qualquer escalada militar.

Evitar que o Líbano se transforme novamente em palco de uma guerra devastadora não é apenas um desafio regional. É também um teste para a capacidade da comunidade internacional de buscar soluções políticas em meio a rivalidades geopolíticas profundas.


Nota de atualização e referência de fontes

As estimativas mencionadas no artigo sobre o arsenal do Hezbollah baseiam-se em análises de centros de pesquisa especializados em segurança internacional. Estudos do Center for Strategic and International Studies (CSIS), do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) e do Institute for National Security Studies (INSS), entre outros institutos de análise estratégica, indicam que o Hezbollah acumulou ao longo das últimas décadas um arsenal estimado entre cerca de 40 mil e mais de 100 mil foguetes e mísseis de diferentes alcances. Esses números aparecem em relatórios e avaliações publicados por esses centros de pesquisa ao longo dos últimos anos, especialmente em estudos sobre equilíbrio militar no Oriente Médio.

Estimativas mais recentes apresentadas por analistas militares e think tanks especializados sugerem que, após perdas decorrentes de operações militares e confrontos anteriores, o número de sistemas atualmente operacionais pode ser inferior ao pico estimado em avaliações anteriores, embora ainda represente uma das maiores capacidades de foguetes e mísseis entre atores armados não estatais.

A referência, no trecho final do artigo, a “especialistas em relações internacionais” refere-se a análises recorrentes publicadas por centros de pesquisa e instituições dedicadas ao estudo de conflitos e mediação internacional, como o International Crisis Group, o Carnegie Middle East Center e programas acadêmicos de estudos estratégicos que analisam mecanismos de redução de escalada, cessar-fogo e arquitetura de segurança regional no Oriente Médio.


📷: Aziz Taher/Reuters 

quinta-feira, 5 de março de 2026

Uma decisão do STF e o estado atual do processo eleitoral de Itaguaí



Recentemente, em 04/03/2026, foi proferida uma decisão do Supremo Tribunal Federal em processo relacionado à situação institucional do Município de Itaguaí. Trata-se do julgamento do agravo regimental na Reclamação nº 81.891, de relatoria do Ministro Dias Toffoli.

Embora o objeto direto da reclamação não fosse o processo eleitoral n.° 0600379-88.2024.6.19.0105, em curso no Tribunal Superior Eleitoral, a decisão traz elementos relevantes para compreender o momento jurídico atualmente vivido pelo município.


O objeto da reclamação

A Reclamação 81.891 foi ajuizada em razão de controvérsia envolvendo a instauração, pela Câmara Municipal de Itaguaí, de procedimento voltado à apuração de infrações político-administrativas atribuídas ao então prefeito Rubem Vieira de Souza.

Na decisão anteriormente proferida, o relator havia reconhecido violação à Súmula Vinculante nº 46 do Supremo Tribunal Federal e determinado a cassação do ato que instaurou o processo legislativo municipal, com a consequente extinção do procedimento de impeachment.

Contra essa decisão, a Câmara Municipal interpôs agravo regimental, sustentando que a interpretação conferida ao precedente vinculante teria ampliado indevidamente o alcance da súmula.


A perda superveniente do objeto

Ao apreciar o agravo, o relator concluiu pela perda superveniente do objeto da controvérsia.

O fundamento central foi a ocorrência de fatos posteriores que alteraram substancialmente o contexto jurídico do caso. Conforme consignado na decisão, o diploma de Rubem Vieira de Souza foi cassado por decisão do Tribunal Superior Eleitoral no âmbito do Recurso Especial Eleitoral nº 0600379-88.2024.6.19.0105, em razão da inelegibilidade prevista no art. 14, § 5º, da Constituição Federal.

Além disso, o relator registrou que a tutela provisória anteriormente concedida no âmbito da Petição nº 13.350 — que havia assegurado temporariamente a permanência no cargo até o julgamento do Tema 1229 da repercussão geral — foi posteriormente revogada, resultando no afastamento do agente político da chefia do Poder Executivo municipal.

Diante desse novo cenário, o Supremo Tribunal Federal concluiu que a discussão acerca da abertura de processo de impeachment perdeu relevância jurídica, uma vez que o agente político já não se encontrava no exercício do mandato. Por essa razão, o agravo foi julgado prejudicado.


O alcance da decisão

É importante observar que a decisão do Supremo Tribunal Federal não resolve o mérito do processo eleitoral que tramita no Tribunal Superior Eleitoral.

O que se reconheceu foi apenas a perda de objeto de uma controvérsia específica relacionada ao exercício do mandato e à possibilidade de responsabilização político-administrativa no âmbito do Poder Legislativo municipal.

Em outras palavras, o Supremo Tribunal Federal constatou que os fatos supervenientes — cassação do diploma e afastamento do cargo — tornaram desnecessária a análise do recurso apresentado pela Câmara Municipal.


O estado atual da controvérsia eleitoral

A definição jurídica da eleição municipal de Itaguaí permanece vinculada ao julgamento do processo eleitoral que tramita no Tribunal Superior Eleitoral.

Nesse processo, o julgamento foi iniciado com voto do relator pela manutenção do indeferimento do registro de candidatura, em razão da configuração de terceiro mandato consecutivo, hipótese vedada pelo art. 14, § 5º, da Constituição.

Após pedidos de vista sucessivos, o processo ainda aguarda conclusão do julgamento colegiado.

Assim, embora a decisão do Supremo Tribunal Federal esclareça aspectos relevantes do cenário institucional, a definição definitiva sobre os efeitos da eleição municipal de 2024 ainda depende da conclusão do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral.


Considerações finais

A decisão recentemente publicada ilustra como fatos supervenientes podem alterar significativamente o objeto de controvérsias judiciais, conduzindo ao reconhecimento da perda de interesse processual.

No caso concreto, a cassação do diploma e o afastamento do cargo tornaram desnecessária a análise de um recurso voltado à discussão de procedimento político-administrativo instaurado pela Câmara Municipal.

Ao mesmo tempo, a decisão evidencia que a questão central relacionada à eleição municipal de Itaguaí continua dependente da manifestação final da Justiça Eleitoral.

A conclusão desse julgamento é medida importante para restabelecer previsibilidade institucional e segurança jurídica quanto ao resultado do processo eleitoral no município.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Há 20 anos atrás...



 👩‍❤️‍👨 Há exatos 20 anos, nos arredores de Nova Friburgo, num lugar que já nem existe mais, ela disse "SIM".


A noiva entrou ao som da canção do Titanic — mas o nosso amor não afundou. ⛴️


As enchentes de 2011 devastaram o sítio usado para eventos onde nos casamos, porém o nosso amor permaneceu. 🌧️


Depois passamos mais da dois terços desse tempo aqui em Mangaratiba, suportando perdas, atravessando dificuldades financeiras e enfrentando desafios, como as diversas cirurgias que Núbia precisou fazer. 🏥


Hoje completamos duas décadas de matrimônio. Nos conhecemos há 27 carnavais, no Arraial do Sana, distrito serrano de Macaé. 🌄


É praticamente metade das nossas vidas caminhando juntos. 👩‍❤️‍💋‍👨








OBS: Não por acaso, os 20 anos de casamento são conhecidos como Bodas de Porcelana. A porcelana é um material que, embora delicado na aparência, torna-se resistente após passar pelo fogo e pelo tempo. Assim também é o matrimônio que chega a duas décadas: um vínculo moldado pelas experiências da vida, pelas alegrias e pelas provações, que exige cuidado, mas que revela beleza e solidez justamente por ter resistido às altas temperaturas da caminhada juntos.

O fim da escala 6×1 é possível? Caminhos para reorganizar o comércio e valorizar o trabalhador



Nos últimos meses ganhou força no debate público brasileiro a proposta de superação da escala de trabalho 6×1, modelo em que o trabalhador tem apenas um dia de descanso semanal. A discussão tem mobilizado sindicatos, parlamentares, economistas e empresários.

De um lado, há quem veja nessa mudança uma medida necessária para melhorar a qualidade de vida do trabalhador brasileiro. De outro, surgem preocupações legítimas sobre o impacto econômico da proposta, especialmente em setores como comércio varejista, bares, restaurantes e serviços.

A pergunta central, portanto, não é apenas se o fim da escala 6×1 é desejável — mas se ele é viável dentro da realidade econômica brasileira.

Dados da PNAD Contínua do IBGE indicam que uma parcela significativa da força de trabalho brasileira atua regularmente aos fins de semana, especialmente em setores como comércio e serviços. Nesses segmentos, entre cerca de 30% e 40% dos trabalhadores exercem atividades aos domingos, dependendo do trimestre analisado.

A resposta, embora mais complexa do que slogans de rede social, é clara: sim, é possível, desde que a mudança seja acompanhada de uma reorganização gradual do funcionamento do comércio e das relações de trabalho.


O dilema do comércio brasileiro

Uma das principais objeções ao fim da escala 6×1 vem justamente do setor de comércio e serviços.

Farmácias, mercados de bairro, lojas de roupas, bares, lanchonetes e restaurantes dependem fortemente do fluxo de clientes ao longo do dia. Diferentemente da indústria, onde a produtividade pode aumentar com tecnologia e reorganização de processos, no comércio o trabalhador precisa estar disponível quando o cliente aparece.

Um vendedor não pode “produzir clientes”.

Esse aspecto ajuda a explicar por que jornadas distribuídas ao longo de vários dias da semana se tornaram comuns no setor. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, o comércio e os serviços concentram parte relevante dos trabalhadores que exercem atividades aos domingos e feriados, o que evidencia a necessidade de cobertura contínua de horários nesses segmentos.

Por isso muitos estabelecimentos permanecem abertos por longos períodos, às vezes das oito da manhã às dez da noite, ou até mais, chegando a 70 ou 80 horas semanais de funcionamento.

Esse modelo acabou levando à consolidação da escala 6×1 como forma de garantir cobertura de horários sem elevar demais os custos de pessoal.

No entanto, reconhecer essa realidade não significa que o modelo atual seja imutável.


Um modelo que cobra um preço alto

A escala 6×1 foi construída ao longo do tempo como solução prática para o funcionamento do comércio, mas também produz efeitos sociais importantes.

Para muitos trabalhadores do varejo, isso significa:


  • apenas um dia de descanso semanal;
  • dificuldade de convívio familiar;
  • desgaste físico e mental;
  • maior rotatividade de emprego.


Embora a jornada média semanal no Brasil gire em torno de 39 horas, segundo dados recentes da PNAD Contínua do IBGE, a forma como essas horas são distribuídas ao longo da semana tem grande impacto sobre a qualidade de vida do trabalhador. Escalas com apenas um dia de descanso podem dificultar a recuperação física e a convivência familiar, especialmente em atividades que também exigem trabalho aos domingos.

Em um país que já convive com jornadas extensas e longos deslocamentos urbanos, essa situação acaba ampliando o desequilíbrio entre vida profissional e vida pessoal. Por isso o debate sobre novas formas de organização do trabalho é legítimo e necessário.


Reestruturar o comércio brasileiro é possível

A superação da escala 6×1 não depende apenas de uma mudança legal. Ela pode ocorrer por meio de uma combinação de ajustes organizacionais e econômicos.

A própria Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) já prevê instrumentos que permitem maior flexibilidade na organização da jornada, como compensação de horários e banco de horas (art. 59), além da garantia do descanso semanal remunerado (art. 67). Esses mecanismos podem servir de base para modelos de jornada mais equilibrados.

Estudos de entidades de pesquisa do mundo do trabalho, como o DIEESE, indicam que mudanças na organização da jornada podem ser absorvidas pelas empresas quando acompanhadas de negociação coletiva, reorganização de turnos e melhorias na gestão da produtividade.

Algumas alternativas já discutidas em diversos países — e que poderiam ser adaptadas ao Brasil — incluem:


Escalas de trabalho mais flexíveis:

Em vez da escala rígida 6×1, setores do comércio poderiam adotar modelos como:


  • 5×2 com turnos rotativos
  • jornadas distribuídas em dois turnos diários
  • escalas híbridas negociadas por convenções coletivas.


Restaurantes e bares, por exemplo, poderiam organizar turnos distintos para almoço e jantar, evitando jornadas excessivamente longas.


Ajuste gradual dos horários de funcionamento:

Outro ponto raramente discutido é que o comércio brasileiro permanece aberto por muitas horas, mesmo quando o movimento é reduzido.

Uma reorganização gradual de horários — concentrando o funcionamento nos períodos de maior demanda — poderia reduzir a necessidade de jornadas extensas.

Esse modelo é comum em várias cidades europeias, onde o comércio opera em horários mais compactos.


Uso crescente de tecnologia:

A digitalização do varejo já está em curso e pode contribuir para melhorar a organização do trabalho.

Exemplos incluem:


  • autoatendimento em supermercados
  • pagamentos digitais
  • pedidos eletrônicos em restaurantes
  • gestão automatizada de estoques.


Essas ferramentas não eliminam necessariamente empregos, mas podem reduzir cargas de trabalho repetitivas e melhorar a eficiência operacional.


Negociação setorial:

Outro caminho importante é fortalecer a negociação coletiva entre sindicatos e empresas.

A própria legislação trabalhista brasileira reconhece a importância desse instrumento. O artigo 611-A da CLT estabelece que acordos e convenções coletivas podem prevalecer sobre a legislação em diversos aspectos relacionados à organização do trabalho, o que abre espaço para soluções adaptadas às características de cada setor econômico. 

Esse mecanismo tem sido amplamente utilizado em diversos setores da economia brasileira para ajustar jornadas, turnos e formas de compensação de horas.

Nem todos os setores da economia funcionam da mesma forma. O comércio de bairro, um grande supermercado e um restaurante de shopping possuem realidades muito diferentes.

Por isso, a definição de jornadas pode ser mais eficaz quando ocorre por setor econômico, permitindo soluções adaptadas a cada atividade.


O papel da sociedade

Também é importante reconhecer que mudanças no mundo do trabalho frequentemente exigem ajustes culturais e urbanos.

Cidades com longos deslocamentos, consumo fragmentado e horários comerciais muito extensos acabam demandando jornadas mais longas no comércio.

Se a sociedade deseja melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, isso envolve também refletir sobre:


  • organização das cidades
  • mobilidade urbana
  • hábitos de consumo.


Um debate que precisa sair da polarização

O tema também vem ganhando espaço no debate legislativo. Propostas de emenda constitucional e projetos de lei em discussão no Congresso Nacional buscam reavaliar a organização da jornada de trabalho no país, incluindo iniciativas que tratam da redução da jornada semanal e da reorganização das escalas de trabalho. Independentemente do formato que essas iniciativas venham a assumir, elas indicam que a questão da qualidade de vida no trabalho passou a ocupar lugar relevante na agenda pública brasileira.

A discussão sobre o fim da escala 6×1 não deve ser tratada como um confronto simplista entre trabalhadores e empresários.

O desafio real é encontrar um ponto de equilíbrio entre eficiência econômica e dignidade no trabalho.

Experiências internacionais mostram que mudanças na organização da jornada são possíveis quando ocorrem de forma gradual, negociada e adaptada às características de cada setor.

O Brasil, como tantas vezes ao longo de sua história, terá que encontrar um caminho próprio.

De qualquer modo, o debate em si já representa um avanço importante, pois coloca no centro da agenda pública uma pergunta essencial para o século XXI: como produzir riqueza sem sacrificar a qualidade de vida de quem trabalha?

Em um ano eleitoral como 2026, é provável que esse tema ganhe espaço no debate público nacional — e ele precisa ser enfrentado com seriedade, responsabilidade e profundidade.


📝 Nota sobre dados e fontes

Os dados mencionados neste artigo baseiam-se principalmente em estatísticas da PNAD Contínua do IBGE, que indicam participação significativa de trabalhadores atuando aos fins de semana em setores como comércio e serviços. A jornada média semanal no Brasil gira em torno de 39 horas segundo os levantamentos mais recentes da pesquisa. Estudos sobre organização da jornada e relações de trabalho também são frequentemente analisados pelo DIEESE.

No plano jurídico, a CLT prevê instrumentos de flexibilização da jornada, como banco de horas e compensação de horários (arts. 59, 67 e 611-A).

segunda-feira, 2 de março de 2026

Como o ataque dos EUA ao Irã reforça a narrativa de Putin e pode beneficiar a Rússia



A ofensiva militar coordenada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro de 2026 e culminando na morte do líder supremo Ali Khamenei, não é apenas um dos episódios mais graves de uso da força no Oriente Médio nas últimas décadas — ela também se insere diretamente no xadrez geopolítico no qual a Rússia de Vladimir Putin tem interesses estratégicos claros.


1. Uma oportunidade narrativa contra os EUA

Desde o início da crise, o Kremlin apresentou a ação como uma “agressão não provocada”, condenando os ataques e classificando a morte de Khamenei como uma violação de normas internacionais e da soberania de um Estado. Putin emitiu declarações fortes nesse sentido, ressaltando sua “profunda solidariedade” com o povo iraniano e atacando o que chamou de “violação moral e do direito internacional” pelos EUA. Isso ecoa uma narrativa que Moscou construiu nas últimas décadas: a de um Ocidente intervencionista e hegemonista que age fora das regras do sistema multilateral.

Essa mesma narrativa tem sido usada pela Rússia para justificar ações próprias — por exemplo na guerra contra a Ucrânia — apresentando-as como defesa contra uma potência ocidental dominante. O ataque ao Irã permite a Moscou reforçar internamente esse discurso, retratando os EUA como adotar uma postura beligerante e unilateral.


2. Distrair a atenção dos EUA de outras frentes, inclusive da Ucrânia

Uma das leituras estratégicas mais plausíveis é que um foco prolongado americano em um conflito no Oriente Médio pode diluir a atenção e os recursos dos EUA em outros lugares onde Moscou enfrenta oposição, especialmente a guerra na Ucrânia. Em termos de recursos militares e políticos, crises externas obrigam Washington a dividir prioridades — e isso politicamente pode fortalecer Moscou no teatro europeu.

Além disso, a realocação de sistemas de defesa e interceptores para o teatro do Golfo pode reduzir a capacidade de apoio ocidental na Ucrânia, abrindo brechas que a Rússia poderia tentar explorar de maneira estratégica e tática (embora com limites).


3. Elevação de preços de energia e alívio econômico estratégico

O conflito teve impacto direto sobre mercados energéticos — em especial sobre o Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Ocorre que a interrupção parcial do tráfego e a sensação de risco elevaram preços do petróleo e do gás globalmente.

Altas de preços de energia tendem a beneficiar grandes exportadores, e a Rússia é um dos principais produtores globais. Embora não derive lucro direto do conflito, a elevação sustentada dos preços pode fortalecer o orçamento estatal russo e ampliar sua capacidade de sustentar esforços militares e diplomáticos — inclusive no teatro ucraniano.


4. Reforço da narrativa de um Ocidente frágil e dividido

Outro vetor narrativo útil a Moscou é a ideia de que o Ocidente se fragmenta sob pressão. A campanha militar contra o Irã provocou críticas inclusive de aliados tradicionais dos EUA, gerou medo de escalada e expôs divergências dentro da comunidade internacional quanto a limites legais e éticos do uso da força. Putin costuma usar esse tipo de percepção para afirmar que a hegemonia americana está “em declínio” ou “exposta a limites”, reforçando a imagem de que a ordem internacional é arbitrária e que a Rússia defende um mundo multipolar.


5. Possível papel diplomático ampliado da Rússia como mediadora

Putin e o Kremlin também se ofereceram para intermediar a calma no Oriente Médio, mantendo contatos com líderes do Golfo e usando laços com Teerã para tentar reduzir as tensões. Essa postura tem duas vantagens para Moscou:


  1. Permite à Rússia exibir um papel de “gestor de crise” — um ator relevante na estabilização de uma guerra que envolve grandes potências.
  2. Aumenta sua visibilidade e influência diplomática, especialmente entre países do Oriente Médio que não desejam escolher lados ou que querem reduzir a instabilidade.


Essa tentativa de se posicionar como mediador pode também enfraquecer, no médio prazo, a narrativa de que somente alianças ocidentais têm soluções para crises internacionais.

Todavia, apesar das possíveis vantagens narrativas e econômicas, a crise no Irã também traz riscos significativos para a Rússia. Uma escalada regional descontrolada pode gerar instabilidade nos mercados energéticos além do ponto de benefício fiscal, prejudicando a economia global — da qual a própria Rússia depende para exportações. Além disso, Moscou mantém uma relação complexa com Israel, especialmente no teatro sírio, onde há coordenação militar sensível; um conflito ampliado pode tensionar esse equilíbrio. 

Por fim, se a guerra evoluir para confronto direto entre grandes potências, o risco sistêmico aumenta inclusive para a Rússia, que não tem interesse em uma desordem global que possa escapar ao seu controle diplomático. Assim, o Kremlin caminha sobre uma linha estreita: capitaliza politicamente a crise, mas procura evitar ser arrastado para seus custos estratégicos ou para uma escalada que não consiga controlar.


Conclusão

O ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, embora dramático e carregado de consequências humanitárias e geopolíticas, produz efeitos indiretos que podem beneficiar a estratégia russa:


✔️ Reforça a narrativa de Moscou contra o intervencionismo ocidental;

✔️ Pode diluir o foco estratégico dos EUA em outras frentes, como a Ucrânia;

✔️ Contribui para a elevação de preços de energia, favorecendo exportadores como a Rússia;

✔️ Amplia o espaço para atuação diplomática russa no Oriente Médio.


Ainda assim, os ganhos não são automáticos nem isentos de risco. A Rússia busca explorar a crise como instrumento narrativo e estratégico, mas sem ultrapassar o limiar que a arraste para uma escalada regional fora de seu controle. O episódio ilustra como conflitos locais, no mundo multipolar contemporâneo, produzem efeitos sistêmicos que reverberam muito além do teatro imediato de operações.


📷: Evgenia Novozhenina/Reuters, conforme extraído de https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/03/02/russia-pedido-cessar-fogo.htm

domingo, 1 de março de 2026

Rio aos 461 anos: da fundação entre espadas à reconstrução pela responsabilidade



Em 1º de março de 1565, Estácio de Sá fundava a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em meio a conflitos coloniais e disputas geopolíticas entre portugueses e franceses. A cidade não nasceu em paz. Nasceu em disputa.

Nasceu também sobre um território que já era habitado por povos indígenas, cuja presença histórica muitas vezes foi silenciada pela narrativa oficial. O Rio não surgiu do nada. Foi construído — com tensões, contradições e violência — como quase todas as grandes cidades do mundo moderno.

Ao longo dos séculos, o Rio foi capital do Império, depois da República, centro financeiro, cultural e político do país. Foi vitrine internacional e palco de decisões que moldaram o Brasil. Mas também acumulou desigualdades, ocupação desordenada, exclusão territorial e problemas estruturais que atravessaram gerações.

Aos 461 anos, a pergunta que se impõe não é apenas o que o Rio foi. É o que ele pode se tornar.


📉 A cidade que hoje envelhece

O Rio de Janeiro já não cresce como foi no século XX. A taxa de fecundidade caiu, o crescimento populacional desacelerou e a proporção de idosos aumenta gradualmente.

Isso não significa decadência e sim uma transição.

Uma cidade que envelhece precisa ser:


  • mais organizada,
  • mais eficiente,
  • mais humana.


O envelhecimento populacional pode reduzir pressões típicas da expansão urbana desordenada. No entanto, a nova realidade exige planejamento fiscal, saúde preventiva e adaptação da infraestrutura.

O desafio não é demográfico. É antes de tudo institucional...


🏢 Mercado imobiliário: menos expansão, mais requalificação

O Rio não precisa mais se expandir indefinidamente para longe. Precisa é se reorganizar por dentro!

O Centro da cidade, que já foi coração econômico e político do país, enfrenta vacância comercial e perda de moradores. Porém, não podemos esquecer que ali há infraestrutura instalada, transporte, equipamentos públicos.

Reconversão de prédios comerciais em residenciais, incentivo à moradia no Centro, estímulo ao uso misto — tudo isso pode reduzir deslocamentos longos e revitalizar áreas hoje subutilizadas.

Em vez do carioca pensar em fuga, que tal todos lutarmos por uma reorganização desse espaço e dos serviços prestados?! Ao invés de propagar ideias vencidas sobre abandono, não seria melhor defendermos o reaproveitamento?!

Certamente o futuro urbano do Rio passa por adensar onde já há infraestrutura e reduzir a fragmentação territorial.


🚍 Mobilidade: qualidade antes de quantidade

Uma cidade mais madura demograficamente não precisa apenas de mais ônibus ou mais trilhos. Precisa de mobilidade inteligente: calçadas acessíveis, integração modal eficiente, previsibilidade e conforto.

O transporte público não pode ser apenas deslocamento. Deve ser política de inclusão!

Se o Rio conseguir aproximar moradia e trabalho, reduzir deslocamentos pendulares longos e adaptar o sistema às necessidades da população idosa, poderá ganhar produtividade e qualidade de vida.


🚰 Saneamento: a política silenciosa que transforma cidades

Poucas políticas são tão estruturantes quanto o saneamento básico.

Esgoto tratado significa:


  • menos internações hospitalares,
  • valorização imobiliária,
  • proteção ambiental,
  • dignidade urbana.


A universalização prevista até 2033 representa uma oportunidade histórica. Não se trata apenas de cumprir metas contratuais. Trata-se de alterar a base da desigualdade territorial.

Saneamento é justiça urbana aplicada.


🌆 O Rio não é uma cidade condenada!

Há uma narrativa recorrente de que o Rio vive uma eterna decadência... De que a cidade perdeu protagonismo... De que a saída é ir embora...

Essa narrativa ignora três fatos:


  1. O Rio continua sendo um dos principais polos culturais, turísticos e energéticos do país.
  2. Possui capital humano qualificado e universidades de excelência.
  3. Tem patrimônio natural e simbólico que poucas cidades no mundo possuem.


Problemas estruturais existem — e são sérios. Porém, não são insolúveis.

Cidades não se regeneram por acaso. Elas dependem de: decisão política, responsabilidade administrativa e participação cívica.


🎯 Uma escolha coletiva

Aos 461 anos, o Rio está diante de uma escolha:


  • Pode continuar administrando crises.
  • Ou pode reorganizar-se com planejamento de longo prazo.


Envelhecimento demográfico, requalificação urbana, mobilidade acessível e saneamento universal não são temas eleitorais imediatos. São temas de geração.

O Rio nasceu em conflito, cresceu em ciclos de expansão e crise, bem como sobreviveu a transferências de capital, crises fiscais, transformações econômicas. Não se trata de uma cidade frágil e sim complexa.

Celebrar o aniversário do Rio não significa negar os seus problemas. É antes de mais nada afirmar que eles podem ser enfrentados com maturidade institucional e responsabilidade coletiva.

O futuro da cidade não será definido pelo número de habitantes — mas pela qualidade das decisões tomadas agora. E essa decisão pertence aos cariocas que permanecem, constroem e acreditam num futuro melhor.


📷: Marcelo Piu / Prefeitura do Rio de Janeiro.

Depois de Khamenei: sucessão, guerra e o risco de um Oriente Médio em combustão



A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em meio aos ataques conjuntos de EUA e Israel, mudou o patamar da crise. Não é apenas mais um episódio de escalada: trata-se de um choque no “coração” de um Estado que organiza boa parte do seu poder político e militar em torno da figura do Líder Supremo — e que, por isso mesmo, construiu um mecanismo de continuidade para sobreviver a ele.


A sucessão já começou (e isso diz muito)

Em 1º de março de 2026, fontes de notícias relataram a ativação do mecanismo interino: Alireza Arafi, clérigo e membro do Conselho dos Guardiões, foi designado para integrar o Conselho de Liderança (órgão temporário) ao lado do presidente Masoud Pezeshkian e do chefe do Judiciário Gholamhossein Mohseni Ejei, enquanto a Assembleia dos Peritos escolhe um novo líder.

Politicamente, isso aponta para uma intenção clara do regime: mostrar continuidade institucional, evitar vácuo de poder e reduzir a janela de instabilidade.

Todavia, um elemento central no processo de sucessão é o papel da Islamic Revolutionary Guard Corps (IRGC), que se tornou muito mais do que uma força militar. Ao longo das últimas décadas, especialmente sob a liderança de Khamenei, o IRGC ampliou seu alcance político, econômico e social, consolidando-se como um ator decisivo dentro do Estado iraniano e entre as facções clericais (inclusive com conexões ao Basij, sua força auxiliar).

Em um cenário de alta pressão externa e militar, a influência do IRGC pode se traduzir em duas formas: prima facie, como um poder capaz de orientar consensos na Assembleia dos Peritos — favorecendo candidatos com credenciais de segurança ou com apoio nas elites militares — e, secundariamente, como força capaz de alavancar ou cooptar alianças internas para garantir que a transição não fragmente o sistema.

Nomes como Mojtaba Khamenei são mencionados exatamente por sua profunda ligação com o IRGC e o Basij, apesar das barreiras ideológicas a uma sucessão “dinástica”; isso mostra como o IRGC, ao controlar capacidades de segurança e estruturas sociais, pode ser o árbitro efetivo da continuidade do regime mesmo mais do que a própria Assembleia de Especialistas. 


A retaliação iraniana e o “alargamento” do conflito

O risco mais imediato é simples: o conflito deixou de ser “pontual”. Houve retaliações iranianas relatadas contra alvos na região, inclusive com mísseis contra países do Golfo Pérsico e referência a ataques a “bases dos EUA” — algo que amplia a chance de ciclo de ação–reação e de incidentes que escapem do controle.

Esse alargamento importa porque eleva:


  • o risco de engajamento direto contínuo;
  • o risco de “erros de cálculo” (um ataque com grande número de vítimas, por exemplo);
  • e o custo econômico global (energia, seguros, rotas, aviação).


ONU: acusação de “crime de guerra” e o limite do multilateralismo

A crise chegou ao Conselho de Segurança, com linguagem máxima: a representação iraniana qualificou os ataques como “crime de guerra” e “crime contra a humanidade” (na narrativa diplomática), enquanto EUA e Israel defenderam a ação no marco de ameaça e segurança.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, advertiu que os ataques e as retaliações “minam a paz e a segurança internacionais” e pediu contenção para evitar uma cadeia “incontrolável” de eventos.

Aqui está a contradição estrutural: a ONU funciona como fórum de disputa de narrativas e legitimidades, mas tende a ficar travada quando os atores centrais são grandes potências e aliados — exatamente quando a contenção seria mais necessária.


Petróleo: o “prêmio geopolítico” volta ao preço

Mesmo sem fechamento efetivo de rotas, o mercado precifica risco. Quando mísseis começam a alcançar o Golfo e ativos militares regionais entram no tabuleiro, sobe o “prêmio geopolítico” do petróleo: mais volatilidade, pressão inflacionária e insegurança para países importadores. (E nem os EUA ficam imunes: a produção doméstica não isola o consumidor americano de um choque global de preços.)


Quatro cenários para o Irã (e para o mundo)

A sucessão interina não significa “fim do regime”. Ela pode, inclusive, reforçá-lo. Os cenários mais plausíveis:


  1. Continuidade controlada (mais provável): sucessor alinhado ao establishment; regime usa a crise para “fechar fileiras”.
  2. Militarização ampliada: mais poder decisório do aparato de segurança (especialmente IRGC), sem romper formalmente a teocracia.
  3. Fragmentação interna (menos provável, mas perigosa): disputas prolongam a sucessão, aumentam fissuras, estimulam instabilidade.
  4. Ruptura profunda (curto prazo improvável): só ocorreria com colapso de coesão do aparato de segurança + mobilização social sustentada.


O ponto decisivo é este: a sucessão foi desenhada para reduzir a oportunidade de ruptura — e crises externas costumam fortalecer a lógica de “ameaça à pátria”, elevando o apoio (ou a submissão) ao núcleo duro do sistema.


O alerta dos precedentes: Iraque, Líbia, Síria e Afeganistão

O receio sobre o surgimento de novas “milícias islâmicas” é historicamente justificado — mas o paralelo correto precisa ser calibrado.


Iraque (2003): queda do Estado e vácuo

O risco iraquiano nasce do desmonte do Estado e do vácuo institucional — terreno fértil para milícias e, depois, para o Estado Islâmico. A lição: derrubar o topo sem plano de transição pode produzir monstros.


Líbia (2011): fragmentação após a queda do centro

A Líbia é o exemplo clássico de “regime cai, Estado não segura”: multiplicação de centros armados, guerra civil intermitente e disputa por recursos.


Síria: o Estado não cai, mas o conflito se regionaliza

Na Síria, o regime resistiu e o país virou palco de guerra longa, proxies e múltiplos atores. Este é o risco estrutural mais parecido com o Irã, se a escalada continuar: não necessariamente colapso, mas conflito prolongado e regionalizado, com redes aliadas atuando em vários teatros.


Afeganistão: colapso de um Estado dependente

O Afeganistão colapsou quando o Estado revelou forte dependência de sustentação externa. O Irã, ao contrário, tem aparato interno robusto — portanto esse modelo é menos aplicável.


Em resumo: o Irã não se parece com o Afeganistão e não é “Líbia por desenho”. O risco mais realista, se a guerra se prolongar, é uma dinâmica mais próxima da síria: escalada regional, proxies, instabilidade longa e difícil de encerrar — com custo humano e econômico crescente.


O risco adicional: “decapitação” sucessiva

Surge então a pergunta decisiva: haverá novos ataques visando novos líderes e candidatos? Mesmo sem uma política declarada, a lógica de “alvos de liderança” tende a:


  • aumentar o incentivo iraniano à retaliação;
  • reduzir espaço de negociação;
  • e tornar a transição interna ainda mais securitizada.


Ou seja: a “decapitação” não necessariamente abre caminho para democratização — pode abrir caminho para radicalização e guerra mais extensa.


Conclusão: o mundo entrou na fase mais perigosa

A morte de Khamenei não encerra a crise — ela a reconfigura. A sucessão interina indica capacidade de continuidade. As retaliações ampliam o teatro de risco. A ONU alerta, mas não garante contenção. E o preço do petróleo passa a carregar o medo do “acidente histórico”.

É exatamente nessas horas que o mundo precisa reafirmar o óbvio difícil: desescalada, canais diplomáticos e regras mínimas de contenção não são ingenuidade — são a única alternativa racional quando o custo da escalada pode ser global.


Nota sobre o luto oficial e o mecanismo constitucional de sucessão no Irã

Após a confirmação da morte do Líder Supremo, o governo iraniano declarou 40 dias de luto nacional, período que possui forte significado religioso no islamismo xiita, marcando tradicionalmente o encerramento formal do ciclo de luto (arba'in).

Do ponto de vista jurídico, a Constituição da República Islâmica do Irã, em seu Artigo 111, estabelece que, em caso de morte, renúncia ou incapacidade do Líder Supremo, suas funções são exercidas temporariamente por um Conselho de Liderança provisório, composto pelo Presidente da República, pelo Chefe do Poder Judiciário e por um clérigo membro do Conselho dos Guardiões.

Cabe à Assembleia dos Peritos (Artigos 107 e 111) eleger o novo Líder Supremo “o mais breve possível”, assegurando a continuidade institucional do regime e evitando vácuo de poder.