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domingo, 6 de setembro de 2026

O Céu de Sempre



Na noite em que perderam o rastro dos outros, o céu começou a arder antes que a escuridão estivesse completa.

Iri foi a primeira a notar.

A menina caminhava alguns passos atrás de Nara, carregando junto ao peito uma bolsa de pele quase tão grande quanto seu tronco. Parou sem avisar e levantou o rosto.

— Já veio.

Nara também olhou.

Do norte desciam faixas compridas de luz, primeiro pálidas, depois verdes, depois vermelhas nas bordas, como se alguma coisa muito distante estivesse soprando sobre brasas. Moviam-se devagar, dobravam-se umas sobre as outras e desapareciam para surgir em outro lugar.

Daro não ergueu os olhos.

Estava sentado contra uma pedra, as duas mãos apertando a perna esquerda.

— Não temos tempo para o céu.

Nara sabia.

Mas também sabia que Daro dizia aquilo porque a perna doía.

Desde pequena aprendera que havia dores que faziam um homem falar demais e dores que o faziam calar. A de Daro era das primeiras.

Ela se ajoelhou.

O tornozelo estava maior. A pele adquirira uma cor escura junto ao osso.

— Não está quebrado — disse Daro.

Nara passou os dedos ao redor da articulação.

Ele gemeu.

— Não está quebrado — repetiu.

— Então levante.

Daro não respondeu.

Iri continuava olhando para cima.

— Minha mãe diz que são os mortos mudando de lugar.

— Sua mãe diz muitas coisas — respondeu Nara.

— Sua mãe também dizia.

Nara amarrou novamente a tira de couro em torno da perna de Daro.

— Minha mãe morreu quando você ainda mamava.

— Então talvez saiba melhor.

Daro soltou uma risada curta, apesar da dor.

Foi a última risada daquela noite.


Tinham saído do acampamento ao amanhecer.

Eram sete.

Encontraram as renas perto do rio quando o sol estava alto. O rebanho era grande, maior do que esperavam, e os animais atravessavam a planície em direção às terras onde a pedra negra aparecia no chão.

Os caçadores se separaram.

Nara não deveria acompanhar Daro. Sua função era contornar as renas pelo lado oeste e fazê-las correr na direção dos homens escondidos junto às pedras.

No entanto, uma fêmea virou antes do esperado. Depois outra. Daro correu para impedir que o rebanho se abrisse.

O chão cedeu sob ele.

Talvez fosse uma toca antiga. Talvez uma pedra escondida pela relva seca.

Quando Nara chegou, Daro estava no chão.

Os outros já tinham desaparecido atrás dos animais.

Esperaram.

Gritaram.

Responderam apenas os corvos.

Iri surgiu algum tempo depois, chorando silenciosamente, sem saber dizer como se separara dos demais.

Ainda encontraram marcas do grupo junto ao rio. Depois vieram o vento e uma chuva curta, carregada de gelo, e a terra apagou os pés.

Nara conhecia o destino.

Todos conheciam.

Antes das primeiras neves pesadas, o grupo atravessaria o desfiladeiro das duas pedras e seguiria o rio para o sul. Havia um abrigo ali que usavam havia muitas estações frias.

Se Nara, Daro e Iri alcançassem o desfiladeiro em três dias, talvez encontrassem os outros.

Se levassem cinco, talvez ainda encontrassem cinzas.

Depois disso, ninguém saberia.

Não havia lugar para onde voltar.

Um povo que seguia os animais não deixava endereço.


Na manhã seguinte Daro tentou caminhar.

Deu doze passos.

No décimo terceiro caiu.

Iri observou sem dizer nada.

Nara fez uma tala com dois galhos e tiras de couro. Daro a deixou trabalhar até que ela terminasse.

Então falou:

— Você sabe o que deve fazer.

Nara continuou apertando o nó.

— Sei.

— Leve Iri.

— Quando puder levantar.

— Nara.

Ela olhou para ele.

Daro era mais velho que seu pai fora. Tinha cabelos grisalhos junto às orelhas e uma cicatriz que atravessava a bochecha até o queixo. Quando Nara era criança, acreditava que ele já havia nascido com aquela cicatriz.

— Se esperarmos por mim, perderemos os outros.

— Então ande.

— Não consigo.

— Amanhã consegue.

Daro fechou os olhos.

— Sempre foi assim.

Nara sabia o que significava.

O grupo não abandonava crianças.

Não abandonava mulheres perto do parto.

Não abandonava alguém que pudesse caminhar.

Mas quando uma pessoa não podia mais acompanhar os outros e sua permanência colocava todos em risco, alguém permanecia com ela até o fim ou lhe deixava fogo, alimento e uma lança.

Isso acontecera com a avó de Nara.

A velha adoecera durante uma travessia. Tossia sangue e mal conseguia ficar sentada. Ficaram dois dias além do que deveriam. No terceiro, ela própria ordenou que partissem.

A mãe de Nara permaneceu até o último momento.

Quando retornou, trazia apenas o colar da velha.

Ninguém discutira.

Era assim.

Daro apontou para Iri.

— Ela precisa encontrar a mãe.

A menina fingiu não estar ouvindo.

— E você? — perguntou Nara.

— Eu preciso que vocês encontrem os outros.

— Não foi o que perguntei.

Daro olhou para o céu claro da manhã.

Restavam apenas manchas avermelhadas quase invisíveis onde, durante a noite, as luzes haviam atravessado o horizonte.

— Faça uma fogueira pequena. Deixe carne para dois dias. Talvez eu consiga seguir depois.

Nara percebeu que ele estava mentindo.

Daro percebeu que ela percebera.

Nenhum dos dois disse nada.


Partiram juntos.

Nara cortou uma vara comprida e Daro a usou como apoio.

Caminhavam devagar.

Quando a dor se tornava forte demais, ele parava. Quando parava por muito tempo, Nara mandava que continuasse.

Iri encontrou água numa depressão cercada por juncos.

Daro não acreditou nela.

— Está seca.

A menina apontou algumas folhas.

— Não está.

Cavaram.

Depois de algum tempo surgiu água escura no fundo do buraco.

Daro bebeu por último.

— Quem lhe ensinou?

— Ena.

Ena era uma mulher velha que quase nunca participava das caçadas e que Daro costumava chamar de preguiçosa quando estava irritado.

A menina sorriu.

— Ela também me ensinou onde ficam as raízes que parecem dedos.

Naquela noite comeram raízes que pareciam dedos.

Daro não voltou a chamar Ena de preguiçosa.


No terceiro dia encontraram pegadas.

Nara ajoelhou-se imediatamente.

Cinco pessoas.

Talvez seis.

Uma criança.

Daro olhou para o formato dos pés impressos na lama.

— Não são nossos.

Nara já sabia.

As pegadas eram largas. Algumas pareciam pertencer a homens muito pesados.

Havia também marcas de uma lança apoiada no chão.

— Podemos contornar — disse Daro.

Isso custaria quase um dia.

— Podemos seguir — respondeu Nara.

— Podemos morrer.

— Também podemos morrer contornando.

Iri olhou de um para outro.

— Talvez tenham comida.

Daro quase sorriu.

— Talvez queiram a nossa.

Nara observou novamente as pegadas.

O povo de sua mãe contava histórias sobre outros homens.

Alguns trocavam pedra por peles. Outros roubavam carne. Havia grupos que faziam sons estranhos ao falar e grupos cujas palavras podiam ser parcialmente compreendidas.

E havia os homens das montanhas.

Baixos, fortes, de grandes braços e rostos largos.

Nara já vira um deles uma vez, de longe.

Tinha talvez doze anos.

O homem observava o acampamento do alto de uma elevação. Permaneceu imóvel por algum tempo e depois desapareceu.

Durante muitas noites, as crianças haviam contado histórias sobre ele.

Cada noite acrescentava algo.

Na primeira, ele apenas observava.

Na quarta, comia carne crua.

Na sétima, carregava o braço de um homem.

A velha Ena ouvira tudo até ficar irritada.

— Vocês transformam qualquer homem que não conhecem em monstro.

Nara lembrava dessas palavras.

Também lembrava da resposta de Daro:

— Até sabermos se é monstro, é melhor manter distância.

Agora Daro repetiu:

— É melhor manter distância.

Nara olhou para sua perna.

— Você não consegue mais um dia.

— Consigo.

— Não consegue.

Ele ficou em silêncio.

Seguiram as pegadas.


Encontraram os outros perto do anoitecer.

Eram quatro adultos e duas crianças.

Nara os viu antes que eles a vissem.

Estavam junto a uma parede de pedra onde o vento quase não chegava. Uma mulher raspava a pele de um animal. Um homem quebrava um osso comprido com uma pedra. Outro alimentava o fogo.

Eram como as histórias.

Corpos largos.

Testas baixas.

Braços pesados.

Mas a primeira coisa que Nara percebeu foi algo que nenhuma história mencionava.

Uma das crianças estava rindo.

O menino corria ao redor do fogo segurando um galho, perseguido por uma menina menor. Quando a menina o alcançou, os dois caíram no chão.

A mulher disse alguma coisa.

As crianças obedeceram apenas depois que ela repetiu.

Nara conhecia aquele tom.

Toda mãe conhecia aquele tom.

Daro apoiou-se nela.

O galho estalou.

Os homens junto ao fogo levantaram-se ao mesmo tempo.

Um deles pegou uma lança.

Nara ergueu as mãos.

Daro disse:

— Agora descobriremos.


Não falavam a mesma língua.

Mas também não era verdade que não conseguiam falar.

A mulher apontou para Daro.

Nara apontou para a perna.

Um homem aproximou-se.

Daro segurou sua lança.

O homem parou.

Apontou para si mesmo. Depois para a perna de Daro. Depois fez um gesto que Nara entendeu como sentar.

Daro permaneceu imóvel.

— Sente — disse Nara.

— Você não sabe o que ele quer.

— Quer que sente.

— Pode querer minha lança.

— Então dê a lança.

Daro olhou para ela como se estivesse diante de alguém que enlouquecera.

Nara arrancou a lança de sua mão.

O homem aproximou-se.

Tocou o tornozelo.

Daro gemeu.

O estranho disse alguma coisa para a mulher.

Ela trouxe uma bolsa.

Dentro havia folhas secas, gordura e alguma coisa que cheirava fortemente.

Nara não sabia o que fizeram.

Sabia apenas que, depois, o tornozelo de Daro estava preso entre duas peças de madeira muito mais firmes que as suas e envolvido por couro.

O homem lhe entregou a lança novamente.

Daro ficou olhando para ela.

O estranho pareceu achar graça.


Naquela noite os dois grupos permaneceram próximos, mas separados.

Nara ofereceu carne seca.

A mulher recusou primeiro.

Depois aceitou.

Em troca deu a Iri um pedaço de tutano.

As crianças se observaram durante muito tempo.

Nenhuma sabia falar com a outra.

Foi Iri quem começou.

Colocou uma pedra sobre outra.

Depois uma terceira.

O menino do outro grupo acrescentou uma quarta.

Iri colocou outra.

A torre caiu.

Os dois riram.

Recomeçaram.

Daro observava.

— Crianças são tolas — disse.

— Por quê?

— Não sabem de quem devem ter medo.

Nara olhou para ele.

— Talvez nós saibamos demais.

Daro não respondeu.

Quando a escuridão chegou, o céu voltou a acender.

Naquela noite era vermelho.

Não apenas ao norte.

As grandes faixas atravessavam quase todo o céu. Algumas pareciam nascer atrás das montanhas; outras corriam acima deles como rios.

Um dos homens estrangeiros interrompeu o trabalho e apontou.

Disse uma palavra.

Nara não entendeu.

Ele repetiu.

Apontou para o céu, depois para os mortos enterrados sob pedras junto ao acampamento.

Nara percebeu.

— Eles também acham que são os mortos — disse Iri.

— Não sabemos o que ele acha — respondeu Daro.

Mas o estrangeiro bateu duas vezes no peito e novamente apontou para cima.

Nara contou a história de sua mãe, embora soubesse que ele não compreenderia suas palavras.

Falou dos mortos que caminhavam por cima do céu à procura dos lugares onde haviam vivido.

O homem escutou.

Depois contou alguma coisa na língua dele.

Ninguém compreendeu.

Quando terminou, todos ficaram alguns instantes olhando as luzes.

Talvez as histórias fossem diferentes.

O céu não parecia se importar.

Continuou ardendo.

Pouco depois, as crianças voltaram à torre de pedras.


Na manhã seguinte o estrangeiro que tratara Daro indicou um caminho diferente.

Desenhou no chão.

Uma linha para o rio.

Duas pedras.

Depois outra linha.

O desfiladeiro.

Nara compreendeu imediatamente.

Era um caminho mais curto.

Daro desconfiou.

— Pode estar nos levando para longe.

O homem percebeu sua hesitação.

Chamou a menina mais velha do grupo.

Colocou a mão sobre sua cabeça.

Apontou para o caminho.

Depois para Nara.

Depois para a criança.

Nara não sabia exatamente o que significava.

Mas sabia o suficiente.

Iri abraçou a mulher antes de partir.

A mulher ficou imóvel, surpresa.

Então passou a mão pelos cabelos da menina.

Nara viu Daro observar.

— O que foi? — perguntou.

Ele virou o rosto.

— Nada.


Encontraram o desfiladeiro antes do anoitecer.

No chão havia cinzas.

Nara tocou-as.

Frias.

Depois encontrou um osso quebrado.

Reconheceu a maneira como tinham aberto a extremidade para retirar o tutano.

Eram os seus.

Mais adiante havia marcas de pés.

Muitas.

Seguiam para o sul.

Daro sentou-se.

— Foram ontem.

Nara respirou fundo.

Um dia.

Talvez menos.

Iri correu na frente.

— Devagar! — gritou Nara.

A menina não obedeceu.

Subiu uma pequena elevação.

Parou no alto.

Depois começou a gritar.

Nara correu.

Por alguns instantes não ouviu nada além do próprio coração.

Então ouviu.

Muito distante.

Uma voz.

Depois outra.

Alguém gritava o nome de Iri.

A menina desceu correndo.

Nara não tentou detê-la.


Quando alcançaram o grupo, a mãe de Iri bateu nela antes de abraçá-la.

Depois bateu novamente.

Depois chorou.

Iri chorou também.

Todos falavam ao mesmo tempo.

Alguém ajudou Daro a sentar.

Perguntaram sobre sua perna.

Perguntaram onde tinham estado.

Perguntaram quem fizera aquela tala.

Daro respondeu:

— Outros homens.

Houve silêncio.

— Os das montanhas? — perguntou alguém.

— Talvez.

— Deixaram vocês partir?

Daro olhou para Nara.

Depois respondeu:

— Nós deixamos uns aos outros partir.

Ninguém entendeu bem.

Naquela noite ele contou a história.

Contou sobre as pegadas.

Sobre o acampamento.

Sobre a mulher.

Sobre as crianças.

Sobre o homem que tratara sua perna.

Quando terminou, alguém disse:

— Tivemos sorte.

Daro respondeu:

— Tivemos.

Um velho que quase não falara durante toda a história olhou para Nara.

— E por que você não o deixou?

Ela sabia o que ele perguntava.

Todos sabiam.

Nara olhou para Daro.

— Porque ainda estava vivo.

O velho franziu o rosto.

— Às vezes alguém vivo precisa ser deixado.

— Eu sei.

— Sempre foi assim.

Nara ficou algum tempo em silêncio.

Acima deles o céu estava novamente iluminado, dessa vez com largas faixas verdes.

As crianças corriam entre as fogueiras.

Iri tentava construir uma torre de pedras e ensinava às outras uma brincadeira que aprendera com quem deveria ser estrangeiro.

Nara olhou novamente para o velho.

— Talvez alguma coisa só seja assim até o dia em que alguém faz diferente.

O velho não respondeu.

Nem concordou.

Nem discordou.

Jogou mais madeira no fogo.

E a vida continuou.


Daro voltou a caminhar.

Nunca como antes.

A perna permaneceu torta e, nos dias frios, doía.

Mas viveu muitas estações.

Passou a fazer talas diferentes das que o grupo fazia antes.

No começo, ninguém gostava.

Depois alguém caiu.

Daro tratou.

Funcionou.

Depois outro.

Alguns anos mais tarde ninguém lembrava que aquilo viera de homens cuja língua não entendiam.

Simplesmente era assim que se tratava uma perna machucada.

Iri cresceu.

Continuou fazendo torres de pedras com as crianças.

Quando teve filhos, ensinou-lhes a brincadeira.

Nenhum deles sabia de onde ela viera.

Nara viveu o bastante para ver crianças nascerem que nunca tinham conhecido sua mãe, nem o velho do desfiladeiro, nem alguns dos homens com quem caçara quando jovem.

Viu o grupo mudar de caminhos.

Viu renas desaparecerem de alguns vales e retornarem a outros.

Viu invernos em que o gelo chegava cedo e outros em que demorava.

Viu pessoas partirem e não voltarem.

Viu estrangeiros tornarem-se parentes.

Viu parentes tornarem-se estrangeiros.

E viu o céu mudar.

Muito lentamente.

Tão lentamente que quase ninguém percebia.

As grandes luzes ainda apareciam, mas algumas crianças começaram a crescer sem vê-las tantas vezes quanto seus pais.

Numa noite de inverno, muitos anos depois da viagem, uma menina sentou-se ao lado de Nara.

Era filha de uma filha de Iri.

No céu havia apenas uma faixa pálida, muito distante ao norte.

— Quando você era pequena, o céu também fazia isso?

Nara sorriu.

— Fazia mais.

— Quanto mais?

Nara tentou explicar.

Falou de noites em que o vermelho atravessava o céu inteiro.

Falou de luzes que pareciam tocar as montanhas.

Falou de sombras estranhas sobre a neve.

A menina arregalou os olhos.

— Você tinha medo?

Nara pensou.

Não se lembrava.

Talvez tivesse.

Talvez não.

Lembrava da dor na perna de Daro.

Da sede.

Das pegadas na lama.

Da mulher estrangeira colocando tutano nas mãos de Iri.

Do menino rindo quando a torre de pedras caiu.

Lembrava-se do homem estranho desenhando um rio no chão.

Lembrava-se da voz distante chamando por Iri no vale.

Do céu, curiosamente, lembrava menos.

— Não — respondeu.

— Por quê?

Nara olhou para a fraca luz que ainda se movia sobre o horizonte.

— Porque aquele era o céu.

A menina pareceu decepcionada.

Esperava uma história maior.

Nara colocou a mão sobre sua cabeça.

— Quer ouvir uma história de verdade?

A menina aproximou-se.

Então Nara contou sobre três pessoas que se perderam durante uma caçada.

Contou sobre um homem que não podia caminhar.

Contou que havia uma regra antiga.

Contou sobre outros homens que falavam de outra maneira.

Contou sobre crianças que descobriram que não precisavam de palavras para brincar.

Quando chegou ao momento em que deveria abandonar Daro, a menina interrompeu:

— Mas você não podia deixá-lo.

Nara perguntou:

— Por quê?

A criança pareceu surpresa.

— Porque não se deixa alguém assim.

Nara demorou alguns instantes para responder.

Depois sorriu.

— É verdade.

A menina encostou-se nela.

Ao redor, os adultos continuavam suas tarefas.

Alguém raspava uma pele.

Alguém discutia sobre carne.

Uma criança chorava.

Outra ria.

Homens preparavam as lanças para a manhã.

A pequena faixa de luz desapareceu lentamente do céu.

Ninguém percebeu.

Nara olhou para as pessoas reunidas em torno das fogueiras e pensou em quantas coisas tinham mudado desde sua juventude.

Os caminhos.

As ferramentas.

As histórias.

Os mortos.

Até o céu.

E pensou também em quantas coisas agora pareciam ter existido desde sempre.

Algumas talvez tivessem começado numa noite qualquer, quando alguém simplesmente recusara aquilo que todos chamavam de natural.

A menina já adormecia junto ao seu braço.

Nara cobriu-a com uma pele.

Depois ergueu os olhos.

O céu estava escuro.

E era, como sempre fora, o céu de sempre.


📝 Nota do autor:

Este conto imagina um tempo em que o céu se acendia de modo diferente do que conhecemos, e em que humanos que ainda não tinham nome encontravam outros humanos que também não tinham nome.

O resto é invenção — mas talvez menos do que parece.

sábado, 5 de setembro de 2026

O copeiro, o padeiro e a toga



Enquanto nossas crianças se preparam em suas escolas para os tradicionais desfiles de 7 de Setembro, o Brasil chegará à data da Independência não apenas dividido eleitoralmente entre Lula e Flávio Bolsonaro. Uma outra divisão vai se formando em torno dos nomes que, de diferentes maneiras e em circunstâncias bastante distintas, aparecem nos desdobramentos do caso Banco Master.

Além de políticos que vêm sendo citados pela imprensa — entre eles Flávio Bolsonaro, o senador Jaques Wagner e, mais recentemente, o deputado Nikolas Ferreira —, a crise alcançou também o Supremo Tribunal Federal e colocou sob intenso escrutínio público e institucional dois de seus ministros: André Mendonça e Alexandre de Moraes.

É importante, contudo, separar desde logo dois planos que a disputa política e as redes sociais frequentemente misturam. Uma coisa é o plano político-eleitoral, no qual nomes, relações, mensagens, campanhas e versões divulgadas pela imprensa passam imediatamente a alimentar o debate público. Outra é o plano jurídico-processual, no qual relatórios da Polícia Federal, manifestações da Procuradoria-Geral da República (PGR) e decisões do Supremo possuem natureza, alcance e valor próprios. Ser mencionado em uma reportagem ou documento não equivale, por si só, a ser formalmente investigado, muito menos indiciado, denunciado ou condenado.

Até a publicação deste artigo, em 5 de setembro de 2026, não existe decisão final do Plenário do STF estabelecendo responsabilidade de Alexandre de Moraes ou André Mendonça pelos fatos que alimentam a atual crise. O presidente da Corte, ministro Edson Fachin, determinou a prestação de informações e a manifestação dos envolvidos e da PGR antes das deliberações cabíveis. No procedimento referente às acusações apresentadas contra Mendonça, Fachin ressaltou expressamente que as medidas adotadas possuem caráter exclusivamente instrutório e não antecipam juízo sobre a admissibilidade, a regularidade do procedimento ou o mérito das imputações. Também permanece pendente a questão suscitada pela PGR acerca da validade/regularidade do relatório relacionado ao ministro Alexandre de Moraes. Não há, portanto, condenação de qualquer dos dois ministros.

Ao acompanhar esses acontecimentos, lembrei-me de uma passagem curiosa de Gênesis 40.

Segundo o texto bíblico, José encontra na prisão dois altos oficiais do Faraó: o chefe dos copeiros e o chefe dos padeiros. As Escrituras dizem que ambos haviam desagradado ao soberano, mas, curiosamente, não nos contam o que cada um teria feito. Sabemos da ira do Faraó e sabemos do desfecho: três dias depois, um dos oficiais seria restabelecido em sua função; o outro, executado. 

Entretanto, o texto não nos fornece aquilo que, para nossa compreensão moderna da Justiça, pareceria fundamental. Ou seja, quais eram exatamente as acusações, quais fatos haviam ocorrido e por que destinos tão diferentes foram reservados aos dois homens.

Naturalmente, não cabe transformar Gênesis numa profecia sobre os acontecimentos de Brasília, muito menos decidir antecipadamente quem seria o copeiro e quem seria o padeiro.

Talvez a lição pertinente seja justamente a contrária.

Quando os fatos ainda estão sendo esclarecidos, transformar menções em acusações, acusações em provas ou suspeitas em sentenças — escolhendo previamente inocentes e culpados conforme nossas simpatias políticas — não é Justiça. É torcida. 

No Estado de Direito, precisamos conhecer o que aconteceu, quais provas existem, como foram obtidas, quais regras se aplicam e quais explicações têm aqueles cujas condutas estão sendo questionadas. Somente então é possível individualizar responsabilidades — sem proteção corporativa, mas também sem condenações previamente escolhidas.

E há outro aspecto de Gênesis 40 que me parece ainda mais sugestivo. Na narrativa, quem possui o poder de decidir os destinos é o Faraó. Não há descrição de processo, defesa, contraditório ou critérios jurídicos para suas decisões. O soberano simplesmente pode restaurar um homem ao cargo e mandar matar o outro.

É precisamente essa lógica que uma República constitucional pretende superar.

O destino institucional de Alexandre de Moraes, André Mendonça ou de qualquer outra autoridade não pode depender de quem possui mais força política, mais apoio nas ruas, maior capacidade de mobilização nas redes sociais ou mais aliados dentro das instituições. Tampouco pode depender da preferência eleitoral de quem observa os acontecimentos. Deve depender de fatos, provas, competência, contraditório, ampla defesa e devido processo legal.

Foi nesse contexto que me chamou particularmente a atenção a interessante manifestação feita nesta semana pelo ministro Flávio Dino. Recorrendo a Cícero, Dino lembrou a antiga expressão cedant arma togae: “cedam as armas à toga”. E associou a toga ao poder da palavra, à ponderação, ao julgamento racional, à sobriedade e, sobretudo, aos procedimentos. Recordou ainda algo que deveria parecer óbvio, mas que em períodos de crise precisa ser reafirmado: o Supremo é maior do que qualquer um de seus integrantes.

Essa afirmação, a meu ver, não significa blindar ministros. É justamente o contrário. Se a instituição é maior do que cada um daqueles que temporariamente a integram, sua preservação exige que nenhuma pessoa seja considerada maior do que as regras que dão legitimidade à própria instituição.

Talvez seja aí que Gênesis 40 e Cícero se encontrem.

No relato bíblico havia um Faraó capaz de decidir, por sua própria autoridade, qual cabeça seria levantada e qual cairia. Na República, não pode haver Faraó. Nem no Executivo, nem no Legislativo, nem no Judiciário.

Que cedam, portanto, as armas à toga — mas não uma toga transformada em instrumento de poder pessoal. Que prevaleça a toga da Constituição: aquela que significa palavra em lugar do grito, prova em lugar da suspeita, ponderação em lugar da paixão, processo em lugar do arbítrio e Justiça em lugar da vingança.

Neste 7 de Setembro, talvez essa seja uma boa reflexão sobre independência: instituições verdadeiramente independentes não são aquelas em que seus integrantes não respondem a ninguém, mas aquelas em que ninguém, por mais poderoso que seja, está acima da lei.


📱Postagem do ministro Flávio Dino de 04/09/2026

O ministro Flávio Dino foi muito feliz em sua postagem que li e comentei no Facebook. Além da brilhante referência a Cícero ele fez ainda outra colocação que dialoga especialmente com esta reflexão. Recordou que, segundo as Escrituras, Deus ouviu Adão e Eva e também Caim antes de julgá-los. 

Independentemente da dimensão teológica da passagem, a imagem contém uma lição perfeitamente compreensível no plano jurídico: antes do julgamento deve existir a escuta. Na República, essa escuta recebe nomes muito concretos — contraditório, ampla defesa e devido processo legal.

Peço venia ao autor para citar aqui no blogue a íntegra do texto que li no Facebook: 

O orador Cícero perenizou a frase “cedam as armas à toga” (cedant arma togae). Em 37 anos de serviço público, nos três Poderes da República, já vi muitas crises, umas profundas (como a pandemia da COVID), outras menos densas. Independentemente do tamanho, as saídas para as crises dependem de alguns elementos. 

Um deles é a consulta aos “clássicos”. Quando Cícero invocava as virtudes da toga (o poder civil) iluminava o poder da palavra, a ponderação, o julgamento racional, a sobriedade e os PROCEDIMENTOS. Um país sem instituições jurídicas sólidas é o sonho dos criminosos e abusadores de todos os feitios. E dos equivocados que se acham tão fortes que não precisam do Estado Nacional. Supostamente “se bastam”, por isso estão prontos a tocar lira enquanto Roma arde em chamas. 

Outro elemento que me parece essencial para vencer uma crise é ouvir. Deus, antes de julgar Adão e Eva, ou Caim, OUVIU. E ouvir também implica LER. A Era da Superficialidade, fruto inclusive de um efeito manada, pode conduzir a tragédias. Lembremos as chacinas, os golpes de Estado, as guerras; tudo isso sempre está logo ali na esquina.

Finalmente, ao abordar uma crise temos que avaliar o TEMPO. Não Chronos. Falo de Kairós - o tempo oportuno. Se o sistema juridico não tem autopoiese, ele é um mero joguete de outros poderes, por exemplo forças partidárias em luta eleitoral, Estados estrangeiros, organizações criminosas etc. 

Enquanto tais elementos são observados, seguir julgando os nossos processos judiciais não é autossuficiência ou “fingir que não há crise”. É fazer com que a toga fale mais alto do que as armas ou eventuais gritos de hipócritas. Lembro que o maior ORADOR de todas as épocas, Jesus Cristo, disse: “Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, mas não se dá conta da viga que está no seu próprio olho?” 

O STF é maior do que qualquer um que o integra, por isso a LEALDADE INSTITUCIONAL exige enfrentar os problemas reais, com o devido processo legal e no tempo certo. Ética da convicção e ética da responsabilidade, como nos ensinou Weber.


📝 Nota sobre a ilustração

A imagem que acompanha este artigo é José interpretando os sonhos do copeiro e do padeiro do Faraó, pintura de Gerbrand van den Eeckhout, de 1643. Discípulo de Rembrandt, o artista retrata os três personagens de Gênesis 40 no cárcere, antes que se cumpram os destinos radicalmente distintos anunciados por José. O relato bíblico, entretanto, não revela qual teria sido concretamente a falta cometida por cada um dos dois oficiais — omissão que constitui justamente o ponto de partida da reflexão desenvolvida neste texto. A obra pertence atualmente ao Museum & Gallery da Bob Jones University, nos Estados Unidos. Obra em domínio público. Fonte da reprodução utilizada neste artigo: Wikipédia.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Se Cury pretende governar o Brasil, que Brasil ele pretende construir — e seu plano é capaz de chegar lá?



Augusto Cury deixou de ser apenas uma curiosidade da eleição presidencial. Por trás do escritor que cresceu rapidamente nas pesquisas existe uma chapa que combina um estreante com um veterano do Congresso, uma campanha até agora majoritariamente financiada pelo próprio candidato e um programa de 200 páginas que pretende conciliar responsabilidade fiscal, proteção social, empreendedorismo, saúde emocional e desenvolvimento. A questão agora é outra: esse conjunto forma um projeto capaz de governar o Brasil?


Há poucos dias, a principal pergunta sobre Augusto Cury era eleitoral.

Depois de aparecer durante meses entre os candidatos com poucos pontos percentuais, o que já era notável, eis que, no final de agosto, o escritor e psiquiatra saltou para 7,8% na AtlasIntel e 11% na BTG/Nexus. Na terça-feira, 1º de setembro, a Real Time Big Data encontrou novamente 11%.

O fenômeno justificou uma primeira análise: afinal, Cury realmente havia crescido ou estávamos diante de uma combinação passageira de efeito debate, redes sociais e diferenças metodológicas entre pesquisas?

Essa pergunta continua válida. Mas, talvez, já não seja suficiente.

A partir do momento em que um candidato começa a aparecer próximo dos dois dígitos, torna-se necessário fazer com ele aquilo que deveria ser feito com qualquer postulante à Presidência: olhar além da campanha, das redes sociais e das pesquisas.

Quem é a pessoa que pretende governar o país? Quem está ao seu lado? Qual é sua sustentação partidária? Quem financia sua campanha? E, principalmente, o que pretende fazer se chegar ao Palácio do Planalto?

No caso de Augusto Cury, essas perguntas revelam uma candidatura bem mais complexa do que sua imagem inicial de escritor transformado repentinamente em presidenciável.


Um outsider na cabeça da chapa

Augusto Jorge Cury tem 67 anos, é médico psiquiatra, escritor e professor e nunca exerceu cargo eletivo. Esta é sua primeira disputa eleitoral.

Sua candidatura é apresentada pelo Avante, dentro da coligação Brasil dos Nossos Sonhos, composta por Avante e Agir, conforme consta no registro eleitoral. A própria plataforma DivulgaCand da Justiça Eleitoral registra a coligação.

Essa condição ajuda a compreender parte de sua narrativa.

Cury procura apresentar-se como alguém exterior à polarização e às estruturas tradicionais da política. O lema que atravessa seu programa — “mente capitalista e coração social” — procura justamente construir uma identidade que não se deixe enquadrar integralmente nem na esquerda nem na direita.

Mas há uma peculiaridade.

Se o candidato a presidente é um outsider, seu vice está muito longe de sê-lo.


Júlio Delgado: a experiência política que Cury não possui

Júlio César Delgado é praticamente o inverso político de Augusto Cury.

Mineiro de Juiz de Fora, advogado, filho do ex-prefeito e ex-deputado federal Tarcísio Delgado, ele começou sua trajetória eleitoral ainda em 1994. Naquele ano, enquanto o pai disputava uma vaga no Senado pelo PMDB, Júlio concorreu pela primeira vez à Câmara dos Deputados. A própria imprensa da época registrou a candidatura simultânea de pai e filho.

Não se elegeu naquele primeiro momento.

Chegaria à Câmara como suplente em setembro de 1999. Depois, eleito em 2002, iniciaria uma longa sequência de mandatos. A biografia oficial da Câmara registra passagens em 1999-2000 e, sucessivamente, nas legislaturas iniciadas em 2003, 2007, 2011, 2015 e 2019.

Sua trajetória partidária também é significativa.

Começou no PMDB, passou pelo PPS — do qual chegou a ser líder em 2004 — e ingressou no PSB em 2005. Permaneceu durante vários mandatos no partido e ocupou posições de liderança. Em 2005, ganhou projeção nacional ao relatar no Conselho de Ética o processo contra José Dirceu.

Portanto, temos uma composição curiosa.

Cury oferece aquilo que Delgado não possui: enorme notoriedade nacional fora da política e uma imagem de novidade. Delgado, por sua vez, oferece aquilo que falta a Cury: experiência eleitoral, conhecimento do Congresso, trânsito partidário e décadas de convivência com a política institucional.

Isso não resolve o problema da governabilidade de uma eventual Presidência de Cury. Mas torna inadequado caracterizar toda a chapa simplesmente como uma aventura de outsiders.

O cabeça da chapa pode ser estreante.

A chapa não é.


Um candidato que também financia a própria campanha

Há outro elemento pouco discutido até agora.

Augusto Cury não chega à eleição apenas com independência em relação às carreiras políticas tradicionais. Possui também considerável autonomia financeira.

Na prestação disponível no DivulgaCand até 31 de agosto, sua campanha havia recebido R$ 217.062,00. Desse montante, R$ 150 mil vieram do próprio Augusto Cury, correspondendo a 69,10% das receitas registradas. O Avante havia contribuído com R$ 50 mil.

Cury era, portanto, naquele momento, o maior financiador individual da própria candidatura.

Isso se torna mais relevante quando observamos seu patrimônio declarado.

O candidato informou ao TSE possuir bens avaliados em aproximadamente R$ 242,3 milhões.

Há imóveis rurais e urbanos, participações societárias, aplicações financeiras e outros ativos. Entre os itens aparecem R$ 31,5 milhões relacionados à Fictor Invest, aproximadamente R$ 25,8 milhões em BDRs e um crédito superior a R$ 121 milhões relacionado à Filadélfia Nature Participações.

Isso não significa que esse patrimônio será colocado à disposição da campanha. O financiamento eleitoral possui regras e limites próprios. No entanto, significa que Cury possui capacidade financeira pessoal incomum entre candidatos vinculados a partidos de menor porte.


Uma campanha pequena — e profundamente digital

Existe, porém, um aparente paradoxo.

Apesar da fortuna declarada e do limite legal de gastos de quase R$ 89 milhões no primeiro turno, a campanha havia contratado até 31 de agosto somente R$ 54.662,10 em despesas.

E o destino desse dinheiro é revelador.

Nada menos que R$ 50 mil — 91,47% de todas as despesas registradas — foram destinados ao impulsionamento de conteúdos.

Esse dado deve ser interpretado cuidadosamente.

Não significa que a extraordinária circulação de vídeos de Cury seja explicada por R$ 50 mil de publicidade. Grande parte de sua exposição parece decorrer da reprodução orgânica de conteúdos e da atuação de apoiadores e influenciadores. O vice Júlio Delgado, inclusive, negou que a ascensão fosse artificialmente produzida e atribuiu o fenômeno ao desgaste da polarização e à notoriedade prévia do escritor.

Mas a prestação de contas revela uma prioridade inequívoca: até aquele momento, praticamente todo o dinheiro efetivamente gasto pela campanha havia sido direcionado à comunicação digital.

Não deixa de ser coerente com a maneira pela qual Cury entrou repentinamente no centro da disputa.


Mas existe um programa por trás da candidatura?

Aqui talvez esteja a maior surpresa.

Quem observasse apenas a campanha nas redes poderia imaginar que Cury fosse um candidato construído essencialmente em torno de frases sobre inteligência emocional, pacificação política e superação da polarização.

Seu programa é bem mais abrangente.

O Brasil dos Nossos Sonhos possui aproximadamente 200 páginas e organiza-se em grandes teses e 18 projetos, tratando de educação, neuroinclusão, mulheres, empreendedorismo, comunidades, Semiárido, turismo, agroindústria, cooperativismo, exportações, diplomacia econômica, fome, telessaúde, câncer, energias renováveis, minerais estratégicos, florestas e segurança.

Portanto, não estamos diante de um documento exclusivamente dedicado à saúde mental.

Há nele uma tentativa bastante ambiciosa de formular uma concepção de Estado.


“Mente capitalista e coração social”

A chave ideológica do documento aparece logo no início.

Cury rejeita a ideia de organizar o governo como expressão rígida da esquerda, do centro ou da direita. Sua fórmula é combinar valores sociais normalmente associados à esquerda com liberdade econômica, produtividade, meritocracia, responsabilidade fiscal e estabilidade institucional.

O próprio programa resume essa pretensão numa expressão que provavelmente será repetida muitas vezes durante a campanha: “mente capitalista e coração social”.

A fórmula pode parecer apenas eleitoral, mas o documento procura desenvolvê-la. 

Ao discutir a direita, reconhece a importância da iniciativa privada, da responsabilidade fiscal e do mercado, mas critica a ideia de que todos partem das mesmas condições e, portanto, uma compreensão simplista da meritocracia.

Ao analisar a esquerda, reconhece a importância histórica da educação pública, das políticas sociais e da proteção aos vulneráveis, mas critica o excesso de burocracia, a hipertrofia estatal e aquilo que considera formas de patrulhamento ideológico.

É possível discordar dessa caracterização dos dois campos. 

Todavia, existe uma conclusão importante: a tentativa de apresentar Cury como candidato exterior à polarização não surgiu depois de seu crescimento nas pesquisas. Ela está incorporada à própria arquitetura de seu programa.


Quando as ideias do escritor viram políticas públicas

Existe, entretanto, algo que diferencia profundamente esse programa dos documentos tradicionais apresentados por políticos profissionais.

Augusto Cury está por toda parte dentro dele.

Conceitos desenvolvidos durante sua carreira intelectual — gestão da emoção, prevenção psicológica, formação socioemocional, autorresponsabilidade e cultura da paz — deixam de ser apenas ideias presentes em livros e passam a aparecer como elementos de políticas públicas.

Isso confere ao programa uma característica autoral incomum.

Há uma vantagem nisso: o documento não transmite a impressão de ter sido simplesmente encomendado a consultores para preencher uma exigência eleitoral.

Mas existe também uma pergunta inevitável.

Até que ponto metodologias associadas à obra e à trajetória profissional do próprio candidato possuem evidências independentes suficientes para serem transformadas em políticas públicas nacionais?

Uma ideia pode ser interessante num livro, numa palestra ou numa experiência educacional específica.

Transformá-la em política para dezenas de milhões de brasileiros exige avaliação de resultados, protocolos, formação de profissionais, custos, fiscalização e mecanismos permanentes de acompanhamento.

Esse é um dos pontos que merecem maior escrutínio no programa.


Educação e saúde emocional no centro do projeto

Como seria previsível, educação e saúde mental ocupam espaço importante.

Cury parte de um diagnóstico de adoecimento emocional, especialmente entre crianças e jovens, e pretende ampliar prevenção, atendimento psicológico e formação socioemocional.

Essa talvez seja a parte em que a identidade profissional do candidato aparece com maior clareza.

O mérito do diagnóstico pode ser discutido a partir de evidências epidemiológicas e educacionais. Mas existe uma segunda pergunta, mais administrativa: como transformar essa prioridade em política federativa?

Grande parte da educação básica está sob responsabilidade de estados e municípios. O SUS também é descentralizado.

Portanto, não basta um presidente desejar inserir novas práticas nas escolas ou ampliar atendimento psicológico.

Seriam necessários financiamento, pactuação federativa, formação profissional, integração com políticas já existentes e definição clara das atribuições de União, estados e municípios.

Esse tipo de problema aparecerá repetidamente ao longo das 200 páginas.


O outro Cury: empreendedorismo e desenvolvimento

Talvez a maior surpresa do programa esteja fora da saúde emocional.

Existe nele um Augusto Cury desenvolvimentista.

O documento dedica grande espaço a empreendedorismo, crédito, cooperativismo, agroindústria, agregação de valor, exportações e desenvolvimento regional.

No projeto voltado ao empreendedorismo, aparecem a criação de milhares de clubes, uma Escola do Empreendedor e mecanismos de crédito de até R$ 20 mil com juros subsidiados.

Há ainda uma proposta interessante envolvendo beneficiários de programas de transferência de renda: evitar que a pessoa perca imediatamente a proteção social ao conseguir emprego ou iniciar uma atividade empresarial.

A lógica é impedir que a passagem da assistência para a autonomia econômica produza uma espécie de penalidade financeira imediata.

A retórica do programa em relação à dependência de programas sociais pode ser discutida criticamente. Mas a política de transição proposta toca num problema real: como fazer com que o aumento da renda seja sempre vantajoso para o beneficiário?


Regularizar cinco milhões de moradias

O programa para comunidades urbanas também combina diferentes políticas.

Cury propõe regularização fundiária, urbanização, empreendedorismo e crédito.

Uma das metas é particularmente ambiciosa: regularizar cinco milhões de moradias em dez anos, aproximadamente 500 mil por ano.

A proposta mostra outra característica recorrente do documento.

Embora seja apresentado como programa presidencial para um mandato de quatro anos, vários objetivos trabalham com horizontes de oito ou dez anos.

Isso pode ser entendido como visão de Estado de longo prazo. No entanto produz outra pergunta: o que exatamente seria entregue até 2030 e o que ficaria para governos posteriores?

Uma meta de dez anos não pode ser avaliada como compromisso de um único mandato sem que existam metas intermediárias.


Cooperativismo em escala nacional

Outra aposta pouco convencional é o cooperativismo.

O programa pretende aproximadamente dobrar o número de cooperados no país, chegando a 54 milhões, além de ampliar o número de cooperativas.

E não pensa apenas em cooperativas agrícolas.

O modelo aparece associado a tecnologia, habitação, saúde, educação, energia e outras atividades.

Há aqui uma concepção econômica interessante: Cury não contrapõe simplesmente Estado e grande empresa privada. Procura criar um terceiro espaço de organização econômica, baseado em pequenos empreendedores e estruturas cooperativas.

Novamente, a meta é enorme. E metas enormes precisam vir acompanhadas de instrumentos igualmente claros.


Semiárido, agroindústria e produção

O mesmo acontece na política para o Semiárido.

O documento propõe crédito de longo prazo, seguro rural, irrigação e expansão da agroindústria, chegando a mencionar 10 mil agroindústrias em oito anos.

Entre as metas mais ousadas estão dobrar a produção brasileira de alimentos em oito a dez anos e multiplicar por dez as exportações de frutas.

Esses objetivos demonstram ambição. Porém, também revelam um problema recorrente.

Dobrar produção não depende apenas de crédito. Precisa de infraestrutura, água, logística, armazenamento, energia, pesquisa agropecuária, mercados compradores, condições climáticas, licenciamento e produtividade.

Um programa de governo necessita mostrar como essas peças se conectam.


Embaixadas como instrumentos econômicos

Na política externa, aparece outra proposta pouco convencional.

Cury quer transformar as representações diplomáticas brasileiras também em instrumentos mais agressivos de promoção econômica, aproximando empresas brasileiras de compradores, investidores e mercados estrangeiros.

Durante entrevista ao Jornal Nacional, o candidato chegou a mencionar a utilização de influenciadores na promoção de produtos brasileiros e defendeu que o país deixe de funcionar apenas como exportador de commodities.

A ideia central é compreensível: utilizar a diplomacia também como instrumento de expansão comercial.

Mas novamente será necessário separar o slogan da política.

O Brasil já possui diplomacia comercial, ApexBrasil, adidos e mecanismos de promoção das exportações.

A pergunta é o que efetivamente mudaria na estrutura existente.


Terras raras e soberania econômica

Esse raciocínio fica particularmente claro quando o programa chega aos minerais estratégicos.

Cury defende que o Brasil deixe de simplesmente exportar determinados recursos minerais em estado bruto e procure atrair processamento, tecnologia e industrialização para dentro do país.

Aqui encontramos uma concepção de soberania econômica que se aproxima muito mais do desenvolvimentismo do que do liberalismo econômico clássico.

A lógica é simples: possuir a matéria-prima não basta; é necessário participar das etapas da cadeia que concentram tecnologia e maior valor agregado.

É uma discussão especialmente relevante no caso das terras raras e dos minerais utilizados em tecnologias avançadas, energia e defesa.

Nesse ponto, “mente capitalista e coração social” ganha uma terceira dimensão: Estado indutor de desenvolvimento estratégico.


O programa também quer mudar as instituições

As propostas, porém, não se limitam às políticas públicas.

Cury propõe alterações profundas no desenho institucional brasileiro.

O plano inclui mudanças no Supremo Tribunal Federal e também a adoção do semipresidencialismo. A proposta relativa ao STF envolve mandato temporário para ministros e alteração do modelo de escolha.

Aqui surge uma distinção fundamental.

Um presidente pode alterar prioridades administrativas.

Pode encaminhar projetos de lei. Mas não pode sozinho redesenhar o sistema de governo nem mudar estruturalmente o Supremo.

Essas propostas dependeriam de emendas constitucionais e, portanto, de maiorias qualificadas no Congresso.

E voltamos a Júlio Delgado.


O paradoxo da governabilidade

Talvez este seja o maior problema político de uma eventual Presidência de Cury.

Seu discurso contra a polarização pode conquistar eleitores.

Seu patrimônio pode proporcionar autonomia financeira à campanha.

Seu vice conhece profundamente o Congresso.

Seu programa pode apresentar propostas interessantes.

Mas presidentes governam com maiorias parlamentares.

Avante e Agir não possuem, sozinhos, força parlamentar remotamente suficiente para aprovar as grandes reformas previstas no programa.

Um eventual presidente Cury teria necessariamente de construir uma coalizão muito maior depois da eleição.

E isso produziria um paradoxo.

Para implementar um programa apresentado como alternativa às estruturas políticas tradicionais, Cury teria de negociar justamente com as estruturas partidárias tradicionais do Congresso Nacional.

A presença de Júlio Delgado talvez faça mais sentido quando observada sob essa perspectiva.

O vice pode funcionar como ponte entre um presidente outsider e um sistema político que conhece há décadas. Mas uma ponte não equivale a uma maioria.


E quanto custa o Brasil dos sonhos?

Chegamos então à pergunta talvez mais difícil.

O programa defende responsabilidade fiscal e equilíbrio das contas públicas. Ao mesmo tempo, propõe crédito subsidiado, ampliação de políticas sociais e educacionais, investimentos em ciência, tecnologia, saúde, desenvolvimento regional, industrialização e infraestrutura.

Essas coisas não são necessariamente incompatíveis. No entanto, precisam fechar contabilmente.

Alguns projetos apresentam possíveis fontes de recursos. Outros possuem metas quantitativas.

O que ainda falta em boa parte do documento é aquilo que transforma um conjunto de boas intenções em planejamento orçamentário: quanto custa, de onde vem o dinheiro, quanto será gasto em cada ano e qual política terá prioridade quando duas boas propostas disputarem o mesmo recurso?

Essa talvez seja a principal fragilidade do documento.

Não a ausência de ideias.

Ao contrário.

Há ideias demais.


Dezoito projetos — mas o que começa em 1º de janeiro?

Esse problema já apareceu em outros programas de governo analisados neste blog sobre os candidatos ao governo do Rio de Janeiro.

Um político pode apresentar centenas de propostas, mas um presidente precisa escolher prioridades.

Se Augusto Cury tomasse posse em 1º de janeiro de 2027, quais seriam suas primeiras cinco decisões?

Qual projeto entraria no Orçamento imediatamente?

Qual PEC seria enviada primeiro ao Congresso?

Qual programa começaria nos primeiros cem dias?

Qual promessa ficaria para 2028?

Qual dependeria de estados e municípios?

Qual seria abandonada se a situação fiscal fosse pior que a prevista?

É nesse ponto que existe uma diferença fundamental entre visão de país e plano operacional de governo.

O Brasil dos Nossos Sonhos apresenta com razoável clareza a primeira.

Ainda precisa demonstrar melhor a segunda.


Nem “nulidade”, nem estadista por antecipação

Nos últimos dias, a ascensão de Cury produziu reações igualmente rápidas.

Alguns passaram a tratá-lo quase como grande novidade capaz de romper definitivamente a polarização.

Outros procuraram desqualificá-lo como fenômeno artificial das redes sociais.

O sociólogo Marcos Coimbra chegou a defini-lo como uma “nulidade” politicamente perigosa.

Depois de ler seu programa, considero difícil sustentar uma análise tão simples.

Pode-se questionar a viabilidade de muitas propostas.

Pode-se apontar insuficiência de detalhamento financeiro.

Pode-se perguntar se determinadas metodologias associadas à obra do próprio Cury deveriam ser convertidas em políticas públicas.

Pode-se considerar excessivamente ambiciosas metas de produção, cooperativismo, regularização fundiária ou desenvolvimento regional.

Pode-se questionar seriamente como um presidente sustentado por partidos pequenos conseguiria aprovar reformas constitucionais dessa magnitude.

Entretanto, parece-me incorreto alguém afirmar que não exista conteúdo político a ser analisado.

Existe e bastante!

A questão é outra: qual é a qualidade, a coerência e a viabilidade desse conteúdo?

Da mesma forma, seria igualmente precipitado percorrer 200 páginas de propostas e concluir que Cury está totalmente preparado para governar o Brasil achando que ajustes não precisarão ser feitos depois.

Um programa extenso não produz automaticamente capacidade administrativa. Precisará de um choque de realidade.


Uma candidatura construída sobre quatro pilares

Depois de observar candidato, vice, partido, financiamento e programa, começa a aparecer uma arquitetura relativamente clara.

Augusto Cury oferece notoriedade, discurso, capacidade financeira e uma narrativa de ruptura com a polarização.

Júlio Delgado acrescenta experiência política, conhecimento parlamentar e trânsito institucional.

Avante e Agir oferecem a estrutura partidária suficiente para disputar a eleição, mas ainda muito distante da base parlamentar necessária para executar grande parte do programa.

E O Brasil dos Nossos Sonhos fornece uma visão programática extensa e bastante autoral, embora ainda existam dúvidas importantes sobre custos, prioridades, desenho de implementação e governabilidade.

Esses elementos tornam a candidatura mais interessante do que parecia quando Cury marcava 1% ou 2%. Mas também tornam as perguntas mais difíceis.


E agora a Quaest fará uma pergunta que estava faltando

Há uma curiosidade especialmente oportuna para encerrar esta análise.

No artigo anterior, publicado depois das pesquisas AtlasIntel e BTG/Nexus, observamos que havia uma informação surpreendentemente ausente.

Os institutos testavam Lula contra Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos no segundo turno.

Mas ninguém havia colocado Augusto Cury frente a frente com Lula.

A Real Time Big Data divulgada nesta terça-feira repetiu a omissão: encontrou Cury com 11% no primeiro turno, mas novamente não o incluiu nas simulações de segundo.

Isso está prestes a mudar.

A Quaest registrou uma nova pesquisa nacional que, pela primeira vez, inclui uma simulação direta de segundo turno entre Lula e Augusto Cury. O levantamento será divulgado nesta quarta-feira, 2 de setembro.

Não sabemos ainda o resultado.

E justamente por isso a pesquisa é interessante.

Se Cury tiver desempenho muito inferior ao de Flávio, Caiado ou outros adversários de Lula, teremos uma indicação de que seu crescimento de primeiro turno ainda não se converteu em percepção de viabilidade presidencial.

Se aparecer competitivo, a eleição ganhará uma variável inteiramente nova.

Mas há algo ainda mais significativo na simples existência dessa pergunta.

Há poucos dias, Augusto Cury era um candidato de 1% ou 2% que quase ninguém considerava necessário testar num segundo turno.

Agora, um dos principais institutos do país decidiu perguntar aos brasileiros o que fariam se a escolha final para presidente fosse entre ele e Lula.

Independentemente do resultado que conhecermos nas próximas horas, isso mostra quanto a candidatura mudou de patamar em poucos dias.

E, talvez, seja justamente por isso que chegou a hora de analisá-la para além das pesquisas.

Porque, se Augusto Cury pretende ser tratado como alguém que pode governar o Brasil, a pergunta daqui para frente não deve ser apenas quantos votos ele tem. Deve ser também: que Brasil ele pretende construir, com quem pretende governá-lo, quanto esse projeto custaria — e se as ideias apresentadas em 200 páginas conseguiriam sobreviver ao encontro muito mais difícil com o Orçamento, o Congresso e a realidade.