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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Se Cury pretende governar o Brasil, que Brasil ele pretende construir — e seu plano é capaz de chegar lá?



Augusto Cury deixou de ser apenas uma curiosidade da eleição presidencial. Por trás do escritor que cresceu rapidamente nas pesquisas existe uma chapa que combina um estreante com um veterano do Congresso, uma campanha até agora majoritariamente financiada pelo próprio candidato e um programa de 200 páginas que pretende conciliar responsabilidade fiscal, proteção social, empreendedorismo, saúde emocional e desenvolvimento. A questão agora é outra: esse conjunto forma um projeto capaz de governar o Brasil?


Há poucos dias, a principal pergunta sobre Augusto Cury era eleitoral.

Depois de aparecer durante meses entre os candidatos com poucos pontos percentuais, o que já era notável, eis que, no final de agosto, o escritor e psiquiatra saltou para 7,8% na AtlasIntel e 11% na BTG/Nexus. Na terça-feira, 1º de setembro, a Real Time Big Data encontrou novamente 11%.

O fenômeno justificou uma primeira análise: afinal, Cury realmente havia crescido ou estávamos diante de uma combinação passageira de efeito debate, redes sociais e diferenças metodológicas entre pesquisas?

Essa pergunta continua válida. Mas, talvez, já não seja suficiente.

A partir do momento em que um candidato começa a aparecer próximo dos dois dígitos, torna-se necessário fazer com ele aquilo que deveria ser feito com qualquer postulante à Presidência: olhar além da campanha, das redes sociais e das pesquisas.

Quem é a pessoa que pretende governar o país? Quem está ao seu lado? Qual é sua sustentação partidária? Quem financia sua campanha? E, principalmente, o que pretende fazer se chegar ao Palácio do Planalto?

No caso de Augusto Cury, essas perguntas revelam uma candidatura bem mais complexa do que sua imagem inicial de escritor transformado repentinamente em presidenciável.


Um outsider na cabeça da chapa

Augusto Jorge Cury tem 67 anos, é médico psiquiatra, escritor e professor e nunca exerceu cargo eletivo. Esta é sua primeira disputa eleitoral.

Sua candidatura é apresentada pelo Avante, dentro da coligação Brasil dos Nossos Sonhos, composta por Avante e Agir, conforme consta no registro eleitoral. A própria plataforma DivulgaCand da Justiça Eleitoral registra a coligação.

Essa condição ajuda a compreender parte de sua narrativa.

Cury procura apresentar-se como alguém exterior à polarização e às estruturas tradicionais da política. O lema que atravessa seu programa — “mente capitalista e coração social” — procura justamente construir uma identidade que não se deixe enquadrar integralmente nem na esquerda nem na direita.

Mas há uma peculiaridade.

Se o candidato a presidente é um outsider, seu vice está muito longe de sê-lo.


Júlio Delgado: a experiência política que Cury não possui

Júlio César Delgado é praticamente o inverso político de Augusto Cury.

Mineiro de Juiz de Fora, advogado, filho do ex-prefeito e ex-deputado federal Tarcísio Delgado, ele começou sua trajetória eleitoral ainda em 1994. Naquele ano, enquanto o pai disputava uma vaga no Senado pelo PMDB, Júlio concorreu pela primeira vez à Câmara dos Deputados. A própria imprensa da época registrou a candidatura simultânea de pai e filho.

Não se elegeu naquele primeiro momento.

Chegaria à Câmara como suplente em setembro de 1999. Depois, eleito em 2002, iniciaria uma longa sequência de mandatos. A biografia oficial da Câmara registra passagens em 1999-2000 e, sucessivamente, nas legislaturas iniciadas em 2003, 2007, 2011, 2015 e 2019.

Sua trajetória partidária também é significativa.

Começou no PMDB, passou pelo PPS — do qual chegou a ser líder em 2004 — e ingressou no PSB em 2005. Permaneceu durante vários mandatos no partido e ocupou posições de liderança. Em 2005, ganhou projeção nacional ao relatar no Conselho de Ética o processo contra José Dirceu.

Portanto, temos uma composição curiosa.

Cury oferece aquilo que Delgado não possui: enorme notoriedade nacional fora da política e uma imagem de novidade. Delgado, por sua vez, oferece aquilo que falta a Cury: experiência eleitoral, conhecimento do Congresso, trânsito partidário e décadas de convivência com a política institucional.

Isso não resolve o problema da governabilidade de uma eventual Presidência de Cury. Mas torna inadequado caracterizar toda a chapa simplesmente como uma aventura de outsiders.

O cabeça da chapa pode ser estreante.

A chapa não é.


Um candidato que também financia a própria campanha

Há outro elemento pouco discutido até agora.

Augusto Cury não chega à eleição apenas com independência em relação às carreiras políticas tradicionais. Possui também considerável autonomia financeira.

Na prestação disponível no DivulgaCand até 31 de agosto, sua campanha havia recebido R$ 217.062,00. Desse montante, R$ 150 mil vieram do próprio Augusto Cury, correspondendo a 69,10% das receitas registradas. O Avante havia contribuído com R$ 50 mil.

Cury era, portanto, naquele momento, o maior financiador individual da própria candidatura.

Isso se torna mais relevante quando observamos seu patrimônio declarado.

O candidato informou ao TSE possuir bens avaliados em aproximadamente R$ 242,3 milhões.

Há imóveis rurais e urbanos, participações societárias, aplicações financeiras e outros ativos. Entre os itens aparecem R$ 31,5 milhões relacionados à Fictor Invest, aproximadamente R$ 25,8 milhões em BDRs e um crédito superior a R$ 121 milhões relacionado à Filadélfia Nature Participações.

Isso não significa que esse patrimônio será colocado à disposição da campanha. O financiamento eleitoral possui regras e limites próprios. No entanto, significa que Cury possui capacidade financeira pessoal incomum entre candidatos vinculados a partidos de menor porte.


Uma campanha pequena — e profundamente digital

Existe, porém, um aparente paradoxo.

Apesar da fortuna declarada e do limite legal de gastos de quase R$ 89 milhões no primeiro turno, a campanha havia contratado até 31 de agosto somente R$ 54.662,10 em despesas.

E o destino desse dinheiro é revelador.

Nada menos que R$ 50 mil — 91,47% de todas as despesas registradas — foram destinados ao impulsionamento de conteúdos.

Esse dado deve ser interpretado cuidadosamente.

Não significa que a extraordinária circulação de vídeos de Cury seja explicada por R$ 50 mil de publicidade. Grande parte de sua exposição parece decorrer da reprodução orgânica de conteúdos e da atuação de apoiadores e influenciadores. O vice Júlio Delgado, inclusive, negou que a ascensão fosse artificialmente produzida e atribuiu o fenômeno ao desgaste da polarização e à notoriedade prévia do escritor.

Mas a prestação de contas revela uma prioridade inequívoca: até aquele momento, praticamente todo o dinheiro efetivamente gasto pela campanha havia sido direcionado à comunicação digital.

Não deixa de ser coerente com a maneira pela qual Cury entrou repentinamente no centro da disputa.


Mas existe um programa por trás da candidatura?

Aqui talvez esteja a maior surpresa.

Quem observasse apenas a campanha nas redes poderia imaginar que Cury fosse um candidato construído essencialmente em torno de frases sobre inteligência emocional, pacificação política e superação da polarização.

Seu programa é bem mais abrangente.

O Brasil dos Nossos Sonhos possui aproximadamente 200 páginas e organiza-se em grandes teses e 18 projetos, tratando de educação, neuroinclusão, mulheres, empreendedorismo, comunidades, Semiárido, turismo, agroindústria, cooperativismo, exportações, diplomacia econômica, fome, telessaúde, câncer, energias renováveis, minerais estratégicos, florestas e segurança.

Portanto, não estamos diante de um documento exclusivamente dedicado à saúde mental.

Há nele uma tentativa bastante ambiciosa de formular uma concepção de Estado.


“Mente capitalista e coração social”

A chave ideológica do documento aparece logo no início.

Cury rejeita a ideia de organizar o governo como expressão rígida da esquerda, do centro ou da direita. Sua fórmula é combinar valores sociais normalmente associados à esquerda com liberdade econômica, produtividade, meritocracia, responsabilidade fiscal e estabilidade institucional.

O próprio programa resume essa pretensão numa expressão que provavelmente será repetida muitas vezes durante a campanha: “mente capitalista e coração social”.

A fórmula pode parecer apenas eleitoral, mas o documento procura desenvolvê-la. 

Ao discutir a direita, reconhece a importância da iniciativa privada, da responsabilidade fiscal e do mercado, mas critica a ideia de que todos partem das mesmas condições e, portanto, uma compreensão simplista da meritocracia.

Ao analisar a esquerda, reconhece a importância histórica da educação pública, das políticas sociais e da proteção aos vulneráveis, mas critica o excesso de burocracia, a hipertrofia estatal e aquilo que considera formas de patrulhamento ideológico.

É possível discordar dessa caracterização dos dois campos. 

Todavia, existe uma conclusão importante: a tentativa de apresentar Cury como candidato exterior à polarização não surgiu depois de seu crescimento nas pesquisas. Ela está incorporada à própria arquitetura de seu programa.


Quando as ideias do escritor viram políticas públicas

Existe, entretanto, algo que diferencia profundamente esse programa dos documentos tradicionais apresentados por políticos profissionais.

Augusto Cury está por toda parte dentro dele.

Conceitos desenvolvidos durante sua carreira intelectual — gestão da emoção, prevenção psicológica, formação socioemocional, autorresponsabilidade e cultura da paz — deixam de ser apenas ideias presentes em livros e passam a aparecer como elementos de políticas públicas.

Isso confere ao programa uma característica autoral incomum.

Há uma vantagem nisso: o documento não transmite a impressão de ter sido simplesmente encomendado a consultores para preencher uma exigência eleitoral.

Mas existe também uma pergunta inevitável.

Até que ponto metodologias associadas à obra e à trajetória profissional do próprio candidato possuem evidências independentes suficientes para serem transformadas em políticas públicas nacionais?

Uma ideia pode ser interessante num livro, numa palestra ou numa experiência educacional específica.

Transformá-la em política para dezenas de milhões de brasileiros exige avaliação de resultados, protocolos, formação de profissionais, custos, fiscalização e mecanismos permanentes de acompanhamento.

Esse é um dos pontos que merecem maior escrutínio no programa.


Educação e saúde emocional no centro do projeto

Como seria previsível, educação e saúde mental ocupam espaço importante.

Cury parte de um diagnóstico de adoecimento emocional, especialmente entre crianças e jovens, e pretende ampliar prevenção, atendimento psicológico e formação socioemocional.

Essa talvez seja a parte em que a identidade profissional do candidato aparece com maior clareza.

O mérito do diagnóstico pode ser discutido a partir de evidências epidemiológicas e educacionais. Mas existe uma segunda pergunta, mais administrativa: como transformar essa prioridade em política federativa?

Grande parte da educação básica está sob responsabilidade de estados e municípios. O SUS também é descentralizado.

Portanto, não basta um presidente desejar inserir novas práticas nas escolas ou ampliar atendimento psicológico.

Seriam necessários financiamento, pactuação federativa, formação profissional, integração com políticas já existentes e definição clara das atribuições de União, estados e municípios.

Esse tipo de problema aparecerá repetidamente ao longo das 200 páginas.


O outro Cury: empreendedorismo e desenvolvimento

Talvez a maior surpresa do programa esteja fora da saúde emocional.

Existe nele um Augusto Cury desenvolvimentista.

O documento dedica grande espaço a empreendedorismo, crédito, cooperativismo, agroindústria, agregação de valor, exportações e desenvolvimento regional.

No projeto voltado ao empreendedorismo, aparecem a criação de milhares de clubes, uma Escola do Empreendedor e mecanismos de crédito de até R$ 20 mil com juros subsidiados.

Há ainda uma proposta interessante envolvendo beneficiários de programas de transferência de renda: evitar que a pessoa perca imediatamente a proteção social ao conseguir emprego ou iniciar uma atividade empresarial.

A lógica é impedir que a passagem da assistência para a autonomia econômica produza uma espécie de penalidade financeira imediata.

A retórica do programa em relação à dependência de programas sociais pode ser discutida criticamente. Mas a política de transição proposta toca num problema real: como fazer com que o aumento da renda seja sempre vantajoso para o beneficiário?


Regularizar cinco milhões de moradias

O programa para comunidades urbanas também combina diferentes políticas.

Cury propõe regularização fundiária, urbanização, empreendedorismo e crédito.

Uma das metas é particularmente ambiciosa: regularizar cinco milhões de moradias em dez anos, aproximadamente 500 mil por ano.

A proposta mostra outra característica recorrente do documento.

Embora seja apresentado como programa presidencial para um mandato de quatro anos, vários objetivos trabalham com horizontes de oito ou dez anos.

Isso pode ser entendido como visão de Estado de longo prazo. No entanto produz outra pergunta: o que exatamente seria entregue até 2030 e o que ficaria para governos posteriores?

Uma meta de dez anos não pode ser avaliada como compromisso de um único mandato sem que existam metas intermediárias.


Cooperativismo em escala nacional

Outra aposta pouco convencional é o cooperativismo.

O programa pretende aproximadamente dobrar o número de cooperados no país, chegando a 54 milhões, além de ampliar o número de cooperativas.

E não pensa apenas em cooperativas agrícolas.

O modelo aparece associado a tecnologia, habitação, saúde, educação, energia e outras atividades.

Há aqui uma concepção econômica interessante: Cury não contrapõe simplesmente Estado e grande empresa privada. Procura criar um terceiro espaço de organização econômica, baseado em pequenos empreendedores e estruturas cooperativas.

Novamente, a meta é enorme. E metas enormes precisam vir acompanhadas de instrumentos igualmente claros.


Semiárido, agroindústria e produção

O mesmo acontece na política para o Semiárido.

O documento propõe crédito de longo prazo, seguro rural, irrigação e expansão da agroindústria, chegando a mencionar 10 mil agroindústrias em oito anos.

Entre as metas mais ousadas estão dobrar a produção brasileira de alimentos em oito a dez anos e multiplicar por dez as exportações de frutas.

Esses objetivos demonstram ambição. Porém, também revelam um problema recorrente.

Dobrar produção não depende apenas de crédito. Precisa de infraestrutura, água, logística, armazenamento, energia, pesquisa agropecuária, mercados compradores, condições climáticas, licenciamento e produtividade.

Um programa de governo necessita mostrar como essas peças se conectam.


Embaixadas como instrumentos econômicos

Na política externa, aparece outra proposta pouco convencional.

Cury quer transformar as representações diplomáticas brasileiras também em instrumentos mais agressivos de promoção econômica, aproximando empresas brasileiras de compradores, investidores e mercados estrangeiros.

Durante entrevista ao Jornal Nacional, o candidato chegou a mencionar a utilização de influenciadores na promoção de produtos brasileiros e defendeu que o país deixe de funcionar apenas como exportador de commodities.

A ideia central é compreensível: utilizar a diplomacia também como instrumento de expansão comercial.

Mas novamente será necessário separar o slogan da política.

O Brasil já possui diplomacia comercial, ApexBrasil, adidos e mecanismos de promoção das exportações.

A pergunta é o que efetivamente mudaria na estrutura existente.


Terras raras e soberania econômica

Esse raciocínio fica particularmente claro quando o programa chega aos minerais estratégicos.

Cury defende que o Brasil deixe de simplesmente exportar determinados recursos minerais em estado bruto e procure atrair processamento, tecnologia e industrialização para dentro do país.

Aqui encontramos uma concepção de soberania econômica que se aproxima muito mais do desenvolvimentismo do que do liberalismo econômico clássico.

A lógica é simples: possuir a matéria-prima não basta; é necessário participar das etapas da cadeia que concentram tecnologia e maior valor agregado.

É uma discussão especialmente relevante no caso das terras raras e dos minerais utilizados em tecnologias avançadas, energia e defesa.

Nesse ponto, “mente capitalista e coração social” ganha uma terceira dimensão: Estado indutor de desenvolvimento estratégico.


O programa também quer mudar as instituições

As propostas, porém, não se limitam às políticas públicas.

Cury propõe alterações profundas no desenho institucional brasileiro.

O plano inclui mudanças no Supremo Tribunal Federal e também a adoção do semipresidencialismo. A proposta relativa ao STF envolve mandato temporário para ministros e alteração do modelo de escolha.

Aqui surge uma distinção fundamental.

Um presidente pode alterar prioridades administrativas.

Pode encaminhar projetos de lei. Mas não pode sozinho redesenhar o sistema de governo nem mudar estruturalmente o Supremo.

Essas propostas dependeriam de emendas constitucionais e, portanto, de maiorias qualificadas no Congresso.

E voltamos a Júlio Delgado.


O paradoxo da governabilidade

Talvez este seja o maior problema político de uma eventual Presidência de Cury.

Seu discurso contra a polarização pode conquistar eleitores.

Seu patrimônio pode proporcionar autonomia financeira à campanha.

Seu vice conhece profundamente o Congresso.

Seu programa pode apresentar propostas interessantes.

Mas presidentes governam com maiorias parlamentares.

Avante e Agir não possuem, sozinhos, força parlamentar remotamente suficiente para aprovar as grandes reformas previstas no programa.

Um eventual presidente Cury teria necessariamente de construir uma coalizão muito maior depois da eleição.

E isso produziria um paradoxo.

Para implementar um programa apresentado como alternativa às estruturas políticas tradicionais, Cury teria de negociar justamente com as estruturas partidárias tradicionais do Congresso Nacional.

A presença de Júlio Delgado talvez faça mais sentido quando observada sob essa perspectiva.

O vice pode funcionar como ponte entre um presidente outsider e um sistema político que conhece há décadas. Mas uma ponte não equivale a uma maioria.


E quanto custa o Brasil dos sonhos?

Chegamos então à pergunta talvez mais difícil.

O programa defende responsabilidade fiscal e equilíbrio das contas públicas. Ao mesmo tempo, propõe crédito subsidiado, ampliação de políticas sociais e educacionais, investimentos em ciência, tecnologia, saúde, desenvolvimento regional, industrialização e infraestrutura.

Essas coisas não são necessariamente incompatíveis. No entanto, precisam fechar contabilmente.

Alguns projetos apresentam possíveis fontes de recursos. Outros possuem metas quantitativas.

O que ainda falta em boa parte do documento é aquilo que transforma um conjunto de boas intenções em planejamento orçamentário: quanto custa, de onde vem o dinheiro, quanto será gasto em cada ano e qual política terá prioridade quando duas boas propostas disputarem o mesmo recurso?

Essa talvez seja a principal fragilidade do documento.

Não a ausência de ideias.

Ao contrário.

Há ideias demais.


Dezoito projetos — mas o que começa em 1º de janeiro?

Esse problema já apareceu em outros programas de governo analisados neste blog sobre os candidatos ao governo do Rio de Janeiro.

Um político pode apresentar centenas de propostas, mas um presidente precisa escolher prioridades.

Se Augusto Cury tomasse posse em 1º de janeiro de 2027, quais seriam suas primeiras cinco decisões?

Qual projeto entraria no Orçamento imediatamente?

Qual PEC seria enviada primeiro ao Congresso?

Qual programa começaria nos primeiros cem dias?

Qual promessa ficaria para 2028?

Qual dependeria de estados e municípios?

Qual seria abandonada se a situação fiscal fosse pior que a prevista?

É nesse ponto que existe uma diferença fundamental entre visão de país e plano operacional de governo.

O Brasil dos Nossos Sonhos apresenta com razoável clareza a primeira.

Ainda precisa demonstrar melhor a segunda.


Nem “nulidade”, nem estadista por antecipação

Nos últimos dias, a ascensão de Cury produziu reações igualmente rápidas.

Alguns passaram a tratá-lo quase como grande novidade capaz de romper definitivamente a polarização.

Outros procuraram desqualificá-lo como fenômeno artificial das redes sociais.

O sociólogo Marcos Coimbra chegou a defini-lo como uma “nulidade” politicamente perigosa.

Depois de ler seu programa, considero difícil sustentar uma análise tão simples.

Pode-se questionar a viabilidade de muitas propostas.

Pode-se apontar insuficiência de detalhamento financeiro.

Pode-se perguntar se determinadas metodologias associadas à obra do próprio Cury deveriam ser convertidas em políticas públicas.

Pode-se considerar excessivamente ambiciosas metas de produção, cooperativismo, regularização fundiária ou desenvolvimento regional.

Pode-se questionar seriamente como um presidente sustentado por partidos pequenos conseguiria aprovar reformas constitucionais dessa magnitude.

Entretanto, parece-me incorreto alguém afirmar que não exista conteúdo político a ser analisado.

Existe e bastante!

A questão é outra: qual é a qualidade, a coerência e a viabilidade desse conteúdo?

Da mesma forma, seria igualmente precipitado percorrer 200 páginas de propostas e concluir que Cury está totalmente preparado para governar o Brasil achando que ajustes não precisarão ser feitos depois.

Um programa extenso não produz automaticamente capacidade administrativa. Precisará de um choque de realidade.


Uma candidatura construída sobre quatro pilares

Depois de observar candidato, vice, partido, financiamento e programa, começa a aparecer uma arquitetura relativamente clara.

Augusto Cury oferece notoriedade, discurso, capacidade financeira e uma narrativa de ruptura com a polarização.

Júlio Delgado acrescenta experiência política, conhecimento parlamentar e trânsito institucional.

Avante e Agir oferecem a estrutura partidária suficiente para disputar a eleição, mas ainda muito distante da base parlamentar necessária para executar grande parte do programa.

E O Brasil dos Nossos Sonhos fornece uma visão programática extensa e bastante autoral, embora ainda existam dúvidas importantes sobre custos, prioridades, desenho de implementação e governabilidade.

Esses elementos tornam a candidatura mais interessante do que parecia quando Cury marcava 1% ou 2%. Mas também tornam as perguntas mais difíceis.


E agora a Quaest fará uma pergunta que estava faltando

Há uma curiosidade especialmente oportuna para encerrar esta análise.

No artigo anterior, publicado depois das pesquisas AtlasIntel e BTG/Nexus, observamos que havia uma informação surpreendentemente ausente.

Os institutos testavam Lula contra Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos no segundo turno.

Mas ninguém havia colocado Augusto Cury frente a frente com Lula.

A Real Time Big Data divulgada nesta terça-feira repetiu a omissão: encontrou Cury com 11% no primeiro turno, mas novamente não o incluiu nas simulações de segundo.

Isso está prestes a mudar.

A Quaest registrou uma nova pesquisa nacional que, pela primeira vez, inclui uma simulação direta de segundo turno entre Lula e Augusto Cury. O levantamento será divulgado nesta quarta-feira, 2 de setembro.

Não sabemos ainda o resultado.

E justamente por isso a pesquisa é interessante.

Se Cury tiver desempenho muito inferior ao de Flávio, Caiado ou outros adversários de Lula, teremos uma indicação de que seu crescimento de primeiro turno ainda não se converteu em percepção de viabilidade presidencial.

Se aparecer competitivo, a eleição ganhará uma variável inteiramente nova.

Mas há algo ainda mais significativo na simples existência dessa pergunta.

Há poucos dias, Augusto Cury era um candidato de 1% ou 2% que quase ninguém considerava necessário testar num segundo turno.

Agora, um dos principais institutos do país decidiu perguntar aos brasileiros o que fariam se a escolha final para presidente fosse entre ele e Lula.

Independentemente do resultado que conhecermos nas próximas horas, isso mostra quanto a candidatura mudou de patamar em poucos dias.

E, talvez, seja justamente por isso que chegou a hora de analisá-la para além das pesquisas.

Porque, se Augusto Cury pretende ser tratado como alguém que pode governar o Brasil, a pergunta daqui para frente não deve ser apenas quantos votos ele tem. Deve ser também: que Brasil ele pretende construir, com quem pretende governá-lo, quanto esse projeto custaria — e se as ideias apresentadas em 200 páginas conseguiriam sobreviver ao encontro muito mais difícil com o Orçamento, o Congresso e a realidade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

De 2% a 11% em poucos dias: o que as pesquisas revelam sobre a ascensão de Augusto Cury



Duas pesquisas divulgadas nesta segunda-feira colocaram o escritor em novo patamar na disputa presidencial. A diferença em relação aos levantamentos realizados poucos dias antes, porém, recomenda cautela — e torna o fenômeno ainda mais interessante.


Até poucos dias atrás, Augusto Cury aparecia como um candidato periférico na disputa pela Presidência da República. Seus percentuais oscilavam na faixa dos poucos pontos e a eleição continuava sendo apresentada, essencialmente, como uma disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro.

Nesta segunda-feira, 31 de agosto, duas pesquisas obrigaram quem acompanha a eleição de 2026 a olhar novamente para esse cenário.

Na pesquisa BTG Pactual/Nexus, Cury chegou a 11% das intenções de voto, atrás de Lula, com 39%, e Flávio Bolsonaro, com 33%, no cenário estimulado analisado neste artigo. No levantamento anterior da Nexus, realizado apenas uma semana antes, o escritor aparecia com 2%.

Na AtlasIntel/Bloomberg, divulgada no mesmo dia, o movimento foi semelhante, embora de menor intensidade: Cury passou de 1,6% para 7,8%, ficando tecnicamente empatado com Renan Santos, que marcou 7,6%. Lula apareceu com 43,4% e Flávio Bolsonaro com 33,7%. A Atlas ouviu 5.014 eleitores entre 25 e 30 de agosto.

Dois institutos diferentes, utilizando metodologias distintas, portanto, detectaram simultaneamente uma forte ascensão do candidato.

Isso torna difícil simplesmente descartar o movimento como uma anomalia estatística. Mas também seria precipitado concluir que Augusto Cury já possui 8%, 10% ou 11% de um eleitorado consolidado.

A razão está nas pesquisas realizadas poucos dias antes.


Uma mudança que parece ter ocorrido em questão de dias

O contraste é impressionante.

Na pesquisa PoderData/Aya, cujo levantamento foi realizado entre 23 e 26 de agosto, Augusto Cury aparecia com 4%.

Na Vox Brasil, que entrevistou eleitores entre 25 e 27 de agosto, tinha 2,6%. Lula registrava 37,1%, Flávio Bolsonaro 34,8%, Ronaldo Caiado 5%, Renan Santos 3,3% e Romeu Zema 2,8%. A pesquisa ouviu 2.100 pessoas e tinha margem de erro de 2,15 pontos percentuais.

Já a Indexa/Broadcast, com campo realizado entre 20 e 23 de agosto, encontrou Cury com 1% no cenário sem Pablo Marçal. No cenário com Marçal — o reproduzido em alguns cards que circularam nas redes — Cury não pontuou. A pesquisa ouviu 2 mil pessoas, com margem de erro de 2,2 pontos.

Colocando os levantamentos em ordem cronológica, temos uma sequência bastante peculiar:


- Indexa/Broadcast (20 a 23/8): 0% a 1%, conforme o cenário

- PoderData/Aya (23 a 26/8): 4%

- Vox Brasil (25 a 27/8): 2,6%

- AtlasIntel (25 a 30/8): 7,8%

- BTG/Nexus (28 a 30/8): 11%


Não se deve construir uma série histórica misturando institutos diferentes. Cada pesquisa possui metodologia, amostragem e procedimentos próprios. Mas as datas de campo permitem formular uma hipótese que merece atenção.

Se houve efetivamente uma onda Cury, ela parece ter se acelerado nos últimos dias de agosto.


O debate pode ter sido o ponto de inflexão

Há um acontecimento que coincide temporalmente com essa mudança: o debate presidencial da Band, realizado em 23 de agosto.

A participação de Cury ganhou grande repercussão nas redes sociais nos dias seguintes. Em apenas uma semana, sua conta no Instagram saltou de aproximadamente 8,4 milhões para 10,8 milhões de seguidores, crescimento próximo de 2,5 milhões. Cortes de suas intervenções no debate também tiveram forte circulação digital.

Isso ajuda a compreender por que pesquisas realizadas em períodos tão próximos podem estar captando momentos diferentes.

A Indexa encerrou seu campo justamente no dia do debate. Já o PoderData começou a entrevistar naquele dia enquanto a Vox terminou no dia 27. E a Nexus, por sua vez, realizou todo o seu levantamento entre os dias 28 e 30, quando a repercussão digital já estava disseminada.

Não significa que a diferença entre 2,6% e 11% seja explicada exclusivamente pelo tempo. Certamente há também efeitos metodológicos. No entanto, existe uma sequência temporal suficientemente coerente para que a hipótese de crescimento real não possa ser ignorada.


Os 8% espontâneos talvez sejam ainda mais importantes que os 11%

Um dos dados mais interessantes do relatório completo da BTG/Nexus passou quase despercebido nas manchetes.

Na pergunta espontânea — quando o entrevistador não apresenta uma lista de candidatos e simplesmente pergunta em quem o eleitor votaria — Cury aparece com 8%.

Lula registra 37%, Flávio Bolsonaro 30%, Cury 8%, Ronaldo Caiado 2%, Renan Santos 2% e Romeu Zema 1%.

Esse resultado merece atenção porque reduz uma possível explicação para os 11%.

Augusto Cury é um escritor extremamente conhecido. Seria razoável imaginar que parte de seu desempenho na pesquisa estimulada decorresse simplesmente do reconhecimento do nome quando apresentado ao entrevistado.

Todavia, 8% espontâneos significam que uma parcela relevante dos eleitores já consegue lembrar dele como candidato presidencial sem qualquer estímulo. Isso sugere que, pelo menos para parte do eleitorado, sua candidatura começou efetivamente a entrar no debate político.


Quem é o eleitor que está levando Cury para cima?

O crescimento de Augusto Cury, entretanto, não se distribui de maneira uniforme pelo eleitorado.

Na BTG/Nexus, o recorte mais evidente é geracional. O candidato chega a 22% entre os eleitores de 16 a 24 anos e a 16% entre aqueles de 25 a 40 anos. Depois disso, sua votação cai significativamente: são 8% entre 41 e 59 anos e apenas 4% entre os eleitores com 60 anos ou mais. 

A escolaridade produz uma diferença igualmente expressiva. Cury registra somente 3% entre os entrevistados com ensino fundamental, sobe para 14% entre aqueles com ensino médio e alcança 17% entre os que possuem ensino superior. Entre as mulheres, aparece com 13%; entre os homens, com 9%.

Esse perfil mais jovem e escolarizado aparece também na AtlasIntel, embora utilizando metodologia e faixas etárias diferentes. Nesse levantamento, Cury chega a 19,8% entre os entrevistados de 25 a 34 anos e cai para apenas 0,3% entre aqueles com 60 anos ou mais. Entre eleitores que se declaram independentes, marca 19,2%.

Isso não significa, porém, que sua candidatura esteja confinada aos grandes centros ou às faixas superiores de renda.

Na Nexus, Cury registra 8% entre famílias com renda de até um salário mínimo, 11% entre aquelas que recebem de um a dois salários, outros 11% entre dois e cinco salários e 13% acima de cinco salários mínimos.

Regionalmente, aparece com 14% no Nordeste, 10% no Sudeste, 10% no Sul e 9% no Norte/Centro-Oeste. Também há pouca diferença entre capitais, regiões metropolitanas e interior: 10%, 12% e 11%, respectivamente.

Até no recorte religioso a votação se mostra relativamente distribuída: 9% entre católicos, 13% entre evangélicos, 11% entre outras religiões e 12% entre pessoas sem religião.

Os números sugerem, portanto, que Cury ainda possui um eleitorado socialmente assimétrico — especialmente jovem e escolarizado —, mas não parece limitado a uma única região, faixa de renda, religião ou tipo de município.

Esse ponto é importante porque diferencia uma candidatura nacional emergente de um fenômeno restrito a nichos altamente mobilizados nas redes sociais.


De onde estão vindo esses votos?

O relatório da Nexus permite avançar mais um pouco.

Quando o instituto cruza a intenção de voto atual com o voto declarado no segundo turno presidencial de 2022, aparece uma informação especialmente interessante.

Entre os entrevistados que dizem ter votado em Lula em 2022, 77% continuam com Lula, enquanto 7% aparecem agora com Cury.

Entre aqueles que declararam voto em Jair Bolsonaro, 68% estão com Flávio Bolsonaro, mas nada menos que 13% aparecem com Augusto Cury.

É preciso cuidado com a interpretação. Pois isso não significa que todos os pontos perdidos por Flávio Bolsonaro nas últimas semanas tenham migrado diretamente para Cury, mas demonstra que a candidatura do escritor está penetrando nos dois antigos eleitorados — e, até agora, proporcionalmente mais entre os eleitores de Bolsonaro.

Esse dado ajuda a compreender outro movimento observado na Nexus. Enquanto Cury passou de 2% para 11%, Lula recuou dois pontos e Flávio Bolsonaro quatro.

Não é possível estabelecer uma transferência automática entre essas variações. Porém, os cruzamentos mostram que a maior permeabilidade do antigo eleitorado bolsonarista a Cury não é apenas uma hipótese.


Uma ameaça maior a Flávio Bolsonaro?

Outro cruzamento ajuda a compreender melhor a composição desse crescimento — e mostra que chamar Cury simplesmente de candidato da “terceira via” talvez seja uma simplificação.

A Nexus divide o eleitorado em seis grupos, conforme sua relação com o lulismo e o bolsonarismo.

Cury alcança 19% entre os não polarizados e também 19% entre aqueles que se identificam simultaneamente como anti-Lula e anti-Bolsonaro. Entre lulistas convictos, porém, registra apenas 3%; entre bolsonaristas convictos, chega a 8%. 

Seu melhor resultado aparece em outro grupo: entre os eleitores classificados pela Nexus como aqueles para quem Bolsonaro é uma alternativa, Cury chega a nada menos que 26%. Trata-se de um segmento identificado com o antilulismo, mas sem a mesma vinculação ao antibolsonarismo que caracteriza o núcleo mais fiel ao ex-presidente.

Entre aqueles para quem Lula aparece apenas como alternativa, Cury tem 14%. O dado sugere que sua ascensão pode combinar pelo menos dois movimentos diferentes: a procura por uma candidatura fora da polarização e a existência de um eleitor antipetista que não está necessariamente comprometido com Flávio Bolsonaro.

A AtlasIntel, porém, encontra um desenho semelhante por outro critério. Cury chega a 19,2% entre independentes e a 11,6% entre eleitores de direita que não se consideram bolsonaristas, enquanto praticamente desaparece nos núcleos mais identificados com Lula ou Bolsonaro.

Isso aponta para uma possível vulnerabilidade da candidatura de Flávio Bolsonaro.

Cury parece especialmente competitivo entre eleitores que rejeitam Lula ou não se identificam com o lulismo, mas que também não estão dispostos a transferir automaticamente para o filho do ex-presidente a preferência que tinham por Jair Bolsonaro.

Se essa tendência persistir, a ascensão de uma terceira candidatura poderá produzir um efeito aparentemente paradoxal: um candidato que se apresenta contra a polarização pode, num primeiro momento, causar mais dificuldades ao polo bolsonarista do que ao lulista.


Mas o eleitor de Cury não é simplesmente um bolsonarista procurando outro candidato

Há outro dado que impede uma interpretação simplista. A Nexus perguntou aos eleitores dos candidatos do primeiro turno o que fariam numa eventual disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Entre os atuais eleitores de Augusto Cury, aproximadamente 50% escolheriam Lula e 37% Flávio Bolsonaro, enquanto 12% tenderiam a branco ou nulo. Já entre os eleitores de Renan Santos, a situação é muito diferente pois 69% escolheriam Flávio Bolsonaro e 20% Lula. E, entre os eleitores de Zema, Flávio também levaria vantagem.

Isso demonstra que Cury está reunindo um eleitorado peculiar.

Embora encontre proporcionalmente maior penetração entre antigos eleitores de Bolsonaro, seus eleitores não constituem simplesmente uma reserva de votos para Flávio num eventual segundo turno.

Há ali eleitores de origens políticas diferentes unidos, ao menos momentaneamente, pela procura de outra alternativa no primeiro turno.


Existe realmente um eleitorado para uma terceira via?

Talvez esta seja a pergunta mais importante.

Durante boa parte da pré-campanha, diversos candidatos tentaram ocupar o espaço entre Lula e o bolsonarismo. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, cada um com perfil próprio, procuraram apresentar-se como alternativas aos dois polos.

O problema parecia não ser a inexistência desse eleitorado, mas sua fragmentação. Aliás, a própria Nexus fornece uma pista importante.

Quando o instituto pergunta quem o entrevistado preferiria que fosse eleito presidente, oferecendo alternativas políticas mais gerais, 38% escolhem Lula, 33% preferem Flávio Bolsonaro ou outro candidato indicado por Jair Bolsonaro e nada menos que 25% afirmam preferir alguém que não seja apoiado nem por Lula nem por Bolsonaro.

Um quarto do eleitorado, portanto, manifesta preferência por uma alternativa aos dois campos. E esse espaço já existia antes da ascensão de Augusto Cury.

A novidade, porém, pode estar em outra coisa. É que, pela primeira vez nesta campanha, um candidato parece estar conseguindo concentrar rapidamente uma parcela significativa dele. Obviamente que ainda é cedo para saber até onde essa concentração pode chegar.


Cury e Caiado apresentam problemas opostos

A comparação com Ronaldo Caiado talvez seja uma das mais interessantes desta eleição.

Caiado apresenta uma estabilidade impressionante no primeiro turno. Aparece com 5% na Vox, 5% na Indexa, 4% na PoderData e 5% na Nexus. Já na Atlas, tem 3,3%. Ou seja, é um candidato que, até agora, não consegue romper a barreira dos poucos pontos percentuais.

Entretanto, basta passar para as simulações de segundo turno para surgir um outro Caiado.

Na BTG/Nexus, Lula tem 45% contra 44% de Caiado — empate técnico. E, na PoderData/Aya divulgada na semana anterior, Caiado chegou a aparecer numericamente à frente: 44% contra 43% de Lula.

Temos, portanto, dois fenômenos quase inversos.

Cury começa a demonstrar capacidade de chegar ao segundo turno. Caiado demonstra capacidade de disputar o segundo turno, mas ainda não consegue chegar até ele.

Pode-se dizer que o desafio de Caiado é transformar sua elevada capacidade de agregação contra Lula em voto de primeiro turno.

Já o desafio de Cury é outro. Seria demonstrar que o eleitor que hoje experimenta sua candidatura permanecerá com ele quando a campanha entrar numa fase mais competitiva.

Além do mais, ainda falta uma informação fundamental. Nem Atlas nem Nexus testaram nesta rodada um eventual segundo turno entre Lula e Augusto Cury.

Depois dos resultados desta segunda-feira, essa simulação passou a ser uma das perguntas mais interessantes das próximas pesquisas.


Uma rejeição ainda baixa — mas falta medir o conhecimento

Crescer rapidamente em intenção de voto não basta, por si só, para transformar uma candidatura em alternativa competitiva.

Outro indicador relevante é a rejeição. Um candidato pode alcançar dois dígitos e, ao mesmo tempo, estar próximo de seu teto caso uma parcela muito grande do eleitorado declare que não votaria nele em nenhuma circunstância.

Nesse aspecto, a AtlasIntel apresenta um dado inicialmente favorável a Augusto Cury: sua rejeição aparece em 18,5%, a menor entre os principais nomes testados. Flávio Bolsonaro registra 52,7%, Lula 52%, Renan Santos 43,1%, Romeu Zema 33,9% e Ronaldo Caiado 28,5%.

À primeira vista, portanto, Cury não parece enfrentar uma barreira de rejeição semelhante à dos dois líderes.

Mas essa informação precisa ser lida com cautela.

Rejeição baixa pode significar espaço para crescer, mas também pode estar associada a menor conhecimento político do candidato. Uma pessoa sobre quem o eleitor ainda não formou opinião tende naturalmente a ser menos rejeitada do que figuras expostas durante muitos anos ao debate político.

E justamente aqui permanece uma lacuna importante.

Embora o relatório da BTG/Nexus possua uma seção específica sobre “potencial de voto e rejeição”, distinguindo quem considera determinado candidato sua única opção, quem poderia votar nele, quem não votaria de jeito nenhum e quem não o conhece, Augusto Cury não foi incluído nesse quadro. Foram testados Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Pablo Marçal, Renan Santos e Romeu Zema.

Assim, não é possível calcular pela Nexus desta rodada nem a rejeição de Cury nem a parcela que ainda afirma não conhecê-lo.

Pesquisas realizadas anteriormente à sua recente exposição ainda apontavam níveis elevados de desconhecimento eleitoral, mas os institutos divergiam bastante sobre a dimensão desse fenômeno. Depois do debate, da circulação massiva de vídeos e do crescimento de aproximadamente 2,5 milhões de seguidores em uma semana, uma nova aferição dessa variável seria particularmente importante.

Por isso, os 18,5% de rejeição encontrados pela Atlas são uma informação potencialmente relevante sobre o espaço de crescimento de Cury, mas ainda não permitem concluir qual seria seu teto eleitoral.

Falta saber quantos brasileiros já formaram uma opinião efetiva sobre sua candidatura — e quantos simplesmente ainda não a conhecem suficientemente para rejeitá-la ou apoiá-la.


Os 11% ainda são frágeis

O próprio relatório da Nexus contém a principal advertência contra uma interpretação exagerada de sua manchete.

Entre os eleitores de Lula, 85% afirmam que sua decisão de voto já está tomada e não deve mudar. Entre os de Flávio Bolsonaro, são igualmente 85% os que se consideram decididos. E, entre os eleitores de Augusto Cury, porém, somente 59% dizem que a escolha está definida enquanto outros 41% admitem que podem mudar de candidato até outubro.

A combinação entre baixa rejeição, crescimento rápido e elevada volatilidade descreve bem o estágio atual da candidatura: Cury parece ter espaço para conquistar novos eleitores, mas ainda não transformou boa parte da simpatia recente em voto firmemente consolidado.

Parte desses eleitores pode estar conhecendo Cury agora. Outra parcela pode estar manifestando entusiasmo após sua participação no debate. Alguns podem estar utilizando sua candidatura como forma de rejeitar momentaneamente os dois principais nomes.

Nada garante que todos permanecerão. O crescimento pode ser um típico impulso pós-debate, seguido posteriormente por acomodação, mas também pode produzir o fenômeno contrário.

Podemos dizer que pesquisas melhores geram cobertura jornalística enquanto a cobertura amplia o conhecimento do candidato. Por sua vez, maior conhecimento pode gerar novos eleitores e estes produzem pesquisas melhores, criando um círculo de retroalimentação política.

A repercussão nacional dos resultados desta segunda-feira demonstra que Cury já entrou nesse segundo estágio. 

Até poucos dias atrás, a pergunta era quem seria Augusto Cury como candidato. Agora, veículos nacionais e internacionais já discutem sua ascensão eleitoral.


Afinal, Cury tem 3%, 8% ou 11%?

Provavelmente essa é a pergunta errada.

Pesquisas eleitorais não são contagens antecipadas de votos. São fotografias produzidas por métodos diferentes, em momentos diferentes e sujeitas a margens de erro, composição amostral e efeitos próprios de cada metodologia.

Por isso, não seria metodologicamente correto colocar Vox, PoderData, Atlas e Nexus numa mesma linha e afirmar que Cury passou literalmente de 2,6% para 4%, depois 7,8% e finalmente 11%.

Não são rodadas do mesmo instituto.

O que podemos dizer é algo mais limitado — mas ainda politicamente importante.

Institutos que entrevistaram eleitores antes ou durante os primeiros dias posteriores ao debate encontraram Cury entre aproximadamente 1% e 4%. Dois levantamentos que alcançaram os últimos dias de agosto detectaram uma candidatura muito mais forte: 7,8% na Atlas e 11% na Nexus.

Ora, quando observamos cada série histórica separadamente, o movimento continua existindo. Na Atlas, Cury passou de 1,6% para 7,8%. E, na Nexus, ele passou de 2% para 11%.

Portanto, pode haver grande incerteza sobre a dimensão do crescimento de Cury, embora haja bem menos dúvida de que algum crescimento aconteceu.


Uma eleição que pode estar começando a mudar

Lula e Flávio Bolsonaro continuam sendo, com larga distância, os dois principais candidatos à Presidência.

Nada nas pesquisas desta segunda-feira autoriza afirmar que Augusto Cury esteja próximo de ultrapassar qualquer um deles.

Também seria prematuro falar em uma terceira via consolidada.

Entretanto, alguma coisa mudou.

Duas pesquisas diferentes detectaram, simultaneamente, forte crescimento de um candidato que até poucos dias atrás permanecia no grupo dos pequenos. A Nexus encontrou ainda 8% de voto espontâneo e revelou uma candidatura particularmente forte entre jovens e eleitores mais escolarizados, mas territorialmente distribuída entre regiões, capitais, periferias metropolitanas e interior.

Os cruzamentos mostram também que Cury penetra nos dois eleitorados da eleição de 2022 e encontra espaço expressivo entre não polarizados e entre eleitores antipetistas que não estão rigidamente vinculados ao bolsonarismo. Ao mesmo tempo, a Atlas registra rejeição de apenas 18,5%, enquanto a Nexus mostra que 41% de seus atuais eleitores ainda admitem mudar de voto.

É uma combinação eleitoral incomum: crescimento rápido, rejeição ainda baixa e voto pouco consolidado. Pode representar tanto um grande espaço para expansão quanto a fragilidade típica de uma candidatura que acaba de receber enorme exposição.

Ao mesmo tempo, as pesquisas imediatamente anteriores e a elevada volatilidade de seu eleitorado recomendam cautela.

Talvez estejamos assistindo apenas ao pico de um efeito debate.

Talvez os próximos levantamentos devolvam Cury à faixa dos 4% ou 5%.

Ou, talvez, Atlas e Nexus tenham sido as primeiras pesquisas a registrar uma mudança que ainda estava acontecendo enquanto os demais institutos encerravam seus trabalhos de campo.

É justamente essa incerteza que torna os próximos dias tão importantes.

Se novas pesquisas realizadas integralmente depois de 28 de agosto encontrarem Cury novamente próximo de 8%, 9% ou 10%, ficará muito mais difícil tratar o episódio como uma oscilação passageira.

E, se algum instituto passar a testar Lula contra Augusto Cury no segundo turno, teremos uma informação ainda mais importante: saberemos se o escritor está apenas reunindo o voto de protesto e de terceira via no primeiro turno ou se começa a ser percebido como uma alternativa efetivamente competitiva para a Presidência.

Por enquanto, duas conclusões parecem possíveis.

A primeira é que ainda não sabemos se Augusto Cury tem 8%, 11% ou algo significativamente abaixo disso.

A segunda é que já não parece prudente analisar a eleição presidencial de 2026 como se ele continuasse tendo apenas 2%.

A pergunta que as pesquisas desta segunda-feira deixaram para setembro não é mais simplesmente se Augusto Cury cresceu.

É até onde ele pode crescer — e se esse crescimento veio para ficar.


📝 NOTA: 

A margem de erro informa a incerteza estatística de cada levantamento isoladamente, mas não elimina diferenças produzidas por desenho amostral, modo de entrevista, formulação das perguntas, período de campo e composição da lista apresentada aos entrevistados.

Os institutos também não utilizaram necessariamente o mesmo conjunto de candidatos em todos os cenários.

A presença de Pablo Marçal, por exemplo, pode ser relevante para a distribuição do voto de protesto, da direita não bolsonarista e dos eleitores que buscam alternativas aos dois principais polos.

Na Indexa/Broadcast, Cury marcou 1% no cenário sem Marçal e não pontuou quando ele foi incluído. A própria BTG/Nexus, entretanto, permite um controle interessante desse possível efeito: Cury permaneceu com 11% tanto no cenário sem Marçal quanto naquele em que o candidato do PRTB aparece com 3%. AtlasIntel, PoderData/Aya e Vox Brasil também incluíram Marçal nos cenários aqui citados. A Nexus registra 11% para Cury no cenário principal e também 11% quando Marçal é incluído.

Portanto, as diferenças entre as pesquisas não podem ser atribuídas automaticamente à presença ou ausência de um único candidato. A comparação mais segura continua sendo a evolução dentro da mesma série e, quando possível, entre cenários com listas equivalentes.


🚨ATUALIZAÇÃO — 1º de setembro:

Uma nova pesquisa divulgada na manhã desta terça-feira reforçou a hipótese apresentada neste artigo. A Real Time Big Data encontrou Augusto Cury com 11%, mesmo percentual registrado pela BTG/Nexus no dia anterior. O levantamento, realizado entre 27 e 31 de agosto, mostra Lula com 38% e Flávio Bolsonaro com 30%. Na rodada anterior do próprio instituto, divulgada em julho, Cury tinha apenas 1%. Com isso, três séries independentes passaram a registrar forte crescimento do candidato: Nexus, de 2% para 11%; AtlasIntel, de 1,6% para 7,8%; e Real Time Big Data, de 1% para 11%. A divergência sobre a dimensão exata permanece, mas a hipótese de que o crescimento seja apenas uma anomalia de um único levantamento tornou-se consideravelmente mais fraca. 

A Real Time acrescenta ainda duas informações relevantes: Cury aparece com 4% no voto espontâneo e possui 28% de rejeição, abaixo de Lula e Flávio Bolsonaro, ambos com 50%. Curiosamente, porém, os recortes sociodemográficos divergem bastante dos encontrados pela Nexus: enquanto esta apontava maior força de Cury entre jovens, a Real Time encontra seu melhor desempenho entre eleitores com 60 anos ou mais. As próximas pesquisas serão importantes não apenas para confirmar quanto Cury tem, mas também para esclarecer quem é, afinal, o eleitor de Augusto Cury.

Paes, Garotinho e o relógio da Justiça Eleitoral: dois registros, dois caminhos e uma eleição que não espera



A disputa pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro chega ao final de agosto com dois de seus principais registros de candidatura submetidos a questionamentos na Justiça Eleitoral. Embora os processos envolvendo Eduardo Paes e Anthony Garotinho sejam bastante diferentes entre si — tanto nos fatos alegados quanto nos fundamentos jurídicos —, os últimos acontecimentos permitem observar algo que poderá adquirir importância crescente nas próximas semanas: a relação entre o tempo da Justiça e o tempo da eleição.

No registro de Eduardo Paes, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro começou a delimitar o alcance da impugnação apresentada por Carlos Jordy, rejeitando uma extensa série de diligências probatórias requeridas pelo impugnante. Também não conheceu, por intempestividade, de notícia de inelegibilidade posteriormente apresentada por Garotinho, embora tenha preservado a possibilidade de apreciar de ofício fatos juridicamente relevantes, assegurado o contraditório.

No processo sobre o registro de candidatura de Garotinho, a situação é diferente e mais complexa. Depois de o TRE-RJ impor cautelarmente restrições ao financiamento público e ao horário eleitoral gratuito, uma decisão monocrática do ministro Floriano de Azevedo Marques, no Tribunal Superior Eleitoral, suspendeu os efeitos dessa medida. Agora, no próprio processo de registro, entrou formalmente em discussão a constitucionalidade da Lei Complementar nº 219/2025, que alterou diversos dispositivos da Lei das Inelegibilidades.

E, enquanto o TRE-RJ examina o registro, o Supremo Tribunal Federal ainda não concluiu o julgamento da ADI nº 7.881, que questiona justamente parte dessas alterações legislativas.

São processos diferentes, questões jurídicas diferentes e resultados que não devem ser antecipados. Porém, todos estão submetidos a um elemento comum: o calendário eleitoral continua correndo.


O processo contra Eduardo Paes começa a ser delimitado

No RRC nº 0601714-98.2026.6.19.0000, Carlos Jordy impugnou o registro de Eduardo Paes sustentando, em síntese, a existência de relações políticas e administrativas envolvendo terceiros investigados por supostas ligações com organizações criminosas.

Para desenvolver essa tese, o impugnante requereu duversas diligências, abrangendo compartilhamento de peças de investigações e ações penais, informações de órgãos públicos, atos de nomeação, contratos, agendas, repasses financeiros e até dados eleitorais territorializados.

O relator, desembargador eleitoral Bruno Bodart, indeferiu neste final de semana essas diligências. 

Na decisão, o magistrado considerou que os requerimentos não estavam direcionados à comprovação de fato específico e determinado atribuído diretamente a Paes, mas à investigação de condutas de terceiros e de suas possíveis relações com o candidato. Para o relator, admitir esse caminho transformaria o procedimento de registro de candidatura em uma investigação ampla, incompatível com a especialidade e a celeridade próprias do processo eleitoral.

A expressão empregada na decisão é particularmente significativa: “pescaria probatória” (fishing expedition).

Isso não significa que a impugnação tenha sido julgada improcedente. O que houve, até agora, foi uma delimitação da produção probatória que Jordy pretendia realizar dentro do próprio processo de registro. O mérito da impugnação ainda deverá ser apreciado.


A notícia de inelegibilidade apresentada por Garotinho no processo de Paes

Outro acontecimento relevante foi a notícia de inelegibilidade apresentada por Anthony Garotinho no RRC de Eduardo Paes.

Ela reproduzia, em boa medida, questões semelhantes às levantadas na impugnação de Jordy e também requeria novas diligências perante órgãos como o Tribunal de Justiça, Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal, Ministério Público e Prefeitura do Rio.

Bodart não conheceu da notícia por considerá-la intempestiva.

Segundo a decisão, o edital referente ao registro havia sido publicado em 12 de agosto e o prazo de cinco dias terminou em 17 de agosto, enquanto a notícia somente foi protocolada em 26 de agosto.

Há, porém, uma ressalva importante. O relator recordou a Súmula nº 45 do TSE, segundo a qual, em processo de registro, a Justiça Eleitoral pode conhecer de ofício da existência de causa de inelegibilidade ou da ausência de condição de elegibilidade, desde que sejam preservados o contraditório e a ampla defesa.

Por isso, embora não tenha conhecido formalmente da notícia apresentada por Garotinho e tenha igualmente rejeitado as diligências nela requeridas, o relator determinou que Paes se manifeste sobre documentos juntados depois de sua contestação e sobre fatos eventualmente passíveis de apreciação de ofício. Depois disso, os autos deverão seguir para parecer da Procuradoria Regional Eleitoral.

Portanto, seria precipitado afirmar tanto que a impugnação contra Paes “acabou” quanto que ela caminha necessariamente para determinado resultado.

O que se pode afirmar, neste momento, é que seu objeto probatório foi consideravelmente delimitado pelo relator.


No caso das impugnações contra Garotinho, a controvérsia tomou outro rumo

O RRC nº 0602359-26.2026.6.19.0000 apresenta uma situação bastante diferente.

Garotinho enfrenta impugnações da coligação adversária, do Ministério Público Eleitoral e do Partido Novo, além das notícias de inelegibilidade apresentadas por cidadãos.

No dia 27 de agosto, o TRE-RJ havia deferido, por unanimidade, tutela de urgência suspendendo seu acesso aos recursos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, determinando a devolução de recursos públicos ainda não utilizados e impedindo sua participação no horário eleitoral gratuito.

A medida, entretanto, teve curta duração.

Na noite de 28 de agosto, o ministro Floriano de Azevedo Marques, relator da Reclamação nº 0601745-49.2026.6.00.0000 no TSE, concedeu monocraticamente liminar suspendendo os efeitos do acórdão regional.

A distinção continua sendo indispensável: o TSE não julgou a elegibilidade de Garotinho, tampouco houve ainda decisão colegiada da Corte Superior sobre a Reclamação. O ministro decidiu provisoriamente que, enquanto o registro permanecer sub judice, deveriam ser preservados os direitos de campanha assegurados pelos arts. 16-A e 16-B da Lei nº 9.504/1997, diante da interpretação de que a cessação dessa condição compete ao TSE nas circunstâncias examinadas.

Assim, Garotinho recuperou, por enquanto, o acesso aos fundos públicos e ao horário eleitoral gratuito. O mérito de seu RRC, porém, continua aguardando julgamento no TRE-RJ.


O TRE agora olha também para o STF

Depois da decisão do TSE, surgiu um novo movimento no processo. O desembargador Bruno Bodart determinou que as partes se manifestassem sobre a constitucionalidade da Lei Complementar nº 219/2025, considerando que fundamentos apresentados nas impugnações envolvem dispositivos da LC nº 64/1990 modificados pela nova legislação.

A questão possui relação direta com a ADI nº 7.881, aguardando julgamento no Supremo Tribunal Federal. A ação questiona diversas mudanças introduzidas pela LC nº 219/2025 na disciplina das inelegibilidades. 

No julgamento já iniciado, a ministra Cármen Lúcia votou pela inconstitucionalidade de determinadas alterações, entre elas a promovida na alínea “l” do art. 1º, I, da LC nº 64/1990, que trata da inelegibilidade decorrente de determinadas condenações por improbidade administrativa. O ministro Luiz Fux acompanhou a relatora. O caso, entretanto, ainda não terminou.

Após pedido de vista do ministro Gilmar Mendes, os autos foram devolvidos e o julgamento está previsto para prosseguir em sessão virtual entre 11 e 18 de setembro.

Até que haja decisão do STF com eficácia própria, portanto, não seria correto tratar os votos já apresentados como resultado definitivo da ADI.


Nem todos os fundamentos contra Garotinho dependem da ADI

Essa ressalva é especialmente importante.

Em sua manifestação mais recente, a Procuradoria Regional Eleitoral sustentou que sua própria impugnação não depende das alterações promovidas pela LC nº 219/2025.

Para o Ministério Público, haveria fundamento autônomo na ausência da condição constitucional de elegibilidade referente ao pleno exercício dos direitos políticos. A PRE mantém a tese de que a suspensão decorrente da condenação por improbidade teve início em 11 de julho de 2025, conforme a certidão de trânsito em julgado expedida pelo STF.

Há ainda a discussão sobre a eficácia da filiação partidária.

Consequentemente, o eventual resultado da ADI nº 7.881 poderá ser muito importante para uma parcela da controvérsia, sobretudo aquela relacionada à causa de inelegibilidade da alínea “l”, mas não necessariamente resolverá sozinho o RRC de Garotinho.

Essa distinção evita uma conclusão simplista segundo a qual o futuro do registro estaria inteiramente nas mãos do STF.


A defesa pede maior delimitação do debate constitucional

A defesa de Garotinho, por sua vez, apresentou embargos de declaração questionando a amplitude do despacho que determinou manifestação sobre a constitucionalidade da LC nº 219/2025.

O argumento não é, segundo os próprios embargos, impedir que o TRE realize controle de constitucionalidade. A defesa pede que sejam delimitados os dispositivos efetivamente questionados, os parâmetros constitucionais envolvidos e a questão que deverá ser enfrentada pelas partes.

A preocupação possui relevância processual porque a LC nº 219/2025 modificou diversas normas diferentes, enquanto a própria ADI nº 7.881 teve seu objeto delimitado pela relatora.

Ainda será necessário verificar como o relator enfrentará esses embargos e qual será o alcance definitivo do contraditório constitucional aberto no RRC.


Os noticiantes não se tornam partes

Outro despacho recente trouxe uma delimitação processual importante.

O relator Bruno Bodart esclareceu que Joaquim Pedro de Morais Filho, George Costa de Farias e Victor Rosa Travancas, autores de notícias de inelegibilidade contra Garotinho, não são partes da ação de impugnação.

Como não integram o rol de legitimados previsto no art. 3º da Lei Complementar nº 64/1990, sua participação no processo de registro limita-se à apresentação da notícia de inelegibilidade. Por essa razão, não foram chamados a participar do contraditório aberto sobre a constitucionalidade da LC nº 219/2025.

Essa distinção já foi enfrentada pelo próprio TRE-RJ em pleitos anteriores.

Nas eleições de 2022, no julgamento do RRC nº 0602080-79.2022.6.19.0000, relativo à candidatura de Daniel Silveira ao Senado, sob relatoria do Desembargador Eleitoral Luiz Paulo da Silva Araujo Filho, o Tribunal examinou uma notícia de inelegibilidade apresentada por cidadão paralelamente às impugnações ajuizadas pela Procuradoria Regional Eleitoral e pela Federação PSOL-Rede. O próprio acórdão registra separadamente as figuras do noticiante e dos impugnantes, evidenciando a diferença entre essas posições processuais.

Naquela oportunidade, a notícia de inelegibilidade também continha pedido de tutela de urgência para impedir a utilização de recursos públicos de campanha pelo candidato. Posteriormente, o Ministério Público Eleitoral reiterou e ampliou o requerimento, passando a formulá-lo na condição de parte legitimada na AIRC.

Ao julgar a questão, o TRE-RJ reconheceu, por unanimidade, a ilegitimidade do noticiante para formular o pedido de tutela de urgência, embora tenha apreciado o requerimento posteriormente formulado pelo Ministério Público Eleitoral. O voto condutor distinguiu expressamente a notícia de inelegibilidade — instrumento que pode ser apresentado por qualquer cidadão — da ação contenciosa de impugnação, reservada aos legitimados previstos no art. 3º da LC nº 64/1990.

O precedente ajuda a compreender o despacho agora proferido no processo de Garotinho. A notícia de inelegibilidade funciona como instrumento de provocação da Justiça Eleitoral, permitindo que fatos potencialmente relevantes sejam levados ao conhecimento do juízo. Contudo, sua apresentação não transforma o noticiante em parte, nem lhe confere automaticamente os mesmos poderes processuais atribuídos aos legitimados para ajuizar AIRC.

Essa distinção não diminui a relevância da notícia. Uma vez levados os fatos ao conhecimento da Justiça Eleitoral, eles podem ser examinados nos limites permitidos pelo ordenamento, inclusive diante da possibilidade de conhecimento de ofício de causas de inelegibilidade ou de ausência de condições de elegibilidade. O que não ocorre é a transformação do cidadão noticiante em sujeito da relação processual contenciosa.

Encerrada essa delimitação, Bodart determinou que se aguardem as manifestações das partes sobre a LC nº 219/2025 e, depois, que os autos voltem conclusos para julgamento.

A expressão sinaliza que o processo se encontra em estágio avançado, embora não permita prever exatamente quando o julgamento ocorrerá nem qual será seu resultado.


O calendário passa a integrar a equação

É aqui que surge uma característica especialmente interessante das eleições de 2026.

O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.

O julgamento da ADI nº 7.881 deverá prosseguir no STF em setembro. O RRC de Garotinho, por sua vez, poderá ser julgado pelo TRE-RJ antes ou depois disso.

Mas mesmo um eventual indeferimento regional não necessariamente encerraria imediatamente a controvérsia.

Existem instrumentos processuais que ainda poderão ser utilizados pela defesa, conforme o conteúdo da decisão, incluindo embargos de declaração e posterior recurso à instância superior. Não é possível antecipar quanto tempo cada etapa consumirá nem quais decisões poderão ser proferidas durante esse percurso.

Por isso, deve ser tratada apenas como possibilidade, e não como previsão, a hipótese de a situação jurídica de Garotinho continuar sub judice próxima ou até mesmo na data do primeiro turno.

A liminar atualmente vigente no TSE torna essa dimensão temporal particularmente relevante.


Estar na urna também possui significado político

Caso Garotinho permaneça na disputa até 4 de outubro, o resultado das urnas poderá produzir consequências políticas independentemente do destino jurídico posterior de seu registro.

As sondagens realizadas até agora, a exemplo do Datafolha, do Instituto Paraná e da Quaest, vêm colocando o ex-governador entre os candidatos competitivos, embora pesquisas sejam fotografias do momento e não permitam antecipar o resultado eleitoral.

Se, eventualmente, Garotinho terminar o primeiro turno fora das duas primeiras colocações, mas obtiver votação expressiva, essa votação poderá ser interpretada como demonstração de força eleitoral. Isso poderia aumentar sua relevância numa eventual disputa de segundo turno estadual e até nas articulações relacionadas ao segundo turno presidencial.

É preciso, novamente, cautela.

Votos não são propriedade dos candidatos e não podem ser simplesmente “transferidos” mediante declaração de apoio. Eleitores podem acompanhar ou não a orientação de quem apoiaram no primeiro turno.

Ainda assim, um candidato que demonstre possuir eleitorado significativo pode adquirir capacidade de pautar debates, participar de alianças, mobilizar apoiadores e atuar como cabo eleitoral.

Nesse sentido, chegar às urnas poderá ter para Garotinho um valor político próprio, mesmo que a controvérsia judicial permaneça sem solução definitiva naquele momento.


Dois processos que hoje apontam para situações diferentes

A comparação entre Paes e Garotinho precisa ser feita com cuidado para não criar uma equivalência que os autos não demonstram.

No processo de Paes, a questão central neste momento é a suficiência dos fatos e provas trazidos por seus adversários para sustentar uma causa juridicamente apta a impedir o registro. O relator já rejeitou a tentativa de ampliar substancialmente a investigação por meio de vinte diligências e considerou intempestiva a notícia apresentada posteriormente por Garotinho.

No processo de Garotinho, existem questões jurídicas diretamente relacionadas à sua própria situação: efeitos de condenação por improbidade, suspensão dos direitos políticos, filiação partidária e incidência da legislação sobre inelegibilidades.

Além disso, seu processo já produziu um conflito relevante entre TRE e TSE sobre os limites dos direitos assegurados ao candidato sub judice.

São, portanto, processos com densidades jurídicas e estágios diferentes.

O ponto de contato está no calendário: ambos precisam ser decididos em uma Justiça especializada submetida à necessidade constitucional de rapidez, enquanto a campanha eleitoral continua acontecendo todos os dias.


Conclusão: a eleição acontece enquanto os tribunais decidem

Os últimos acontecimentos nos registros de Eduardo Paes e Anthony Garotinho mostram como a eleição fluminense de 2026 passou a ser disputada simultaneamente em duas arenas.

Na primeira estão os candidatos, partidos, pesquisas, programas, alianças e eleitores.

Na segunda estão o TRE-RJ, o TSE e, indiretamente, o STF, que examina uma lei capaz de interferir na interpretação de parte das causas de inelegibilidade discutidas nesta eleição.

Nenhuma dessas instituições, entretanto, trabalha sem limites.

O TRE precisa respeitar contraditório, ampla defesa e precedentes das Cortes superiores. O TSE poderá ser chamado a revisar decisões regionais, mas somente quando os processos e recursos adequados chegarem à Corte. E o STF decidirá a constitucionalidade da LC nº 219/2025 no âmbito próprio da ADI nº 7.881, sem que isso necessariamente resolva todos os fundamentos discutidos nos registros de candidatura.

Por isso, as próximas semanas recomendam sobretudo cautela com previsões.

É possível que os RRCs sejam julgados rapidamente. É possível que decisões sejam questionadas por embargos e recursos. É possível que o STF conclua a ADI antes de o TSE eventualmente precisar enfrentar determinadas questões no caso Garotinho. Também é possível que alguns desses acontecimentos ocorram em ordem diferente.

O que não depende dos tribunais é a passagem do tempo.

A cada dia, aproxima-se 4 de outubro. Campanhas ganham ou perdem força, candidatos acumulam exposição, pesquisas medem movimentos do eleitorado e decisões provisórias podem produzir efeitos políticos antes que exista uma solução judicial definitiva.

Essa talvez seja a característica mais delicada da judicialização eleitoral: o Direito pode posteriormente definir a validade jurídica de uma candidatura ou de seus votos, mas não consegue devolver ao processo político o tempo que já passou.

O Rio de Janeiro conhece bem as consequências de uma prolongada indefinição jurídico-eleitoral. A controvérsia originada nas eleições de 2022 em torno do mandato de Cláudio Castro contribuiu para um cenário institucional que, anos depois, ainda produz desdobramentos em diferentes tribunais.

Em 2026, essa experiência torna ainda mais importante que os processos de registro sejam julgados com celeridade, mas também com segurança jurídica suficiente para reduzir — e não ampliar — a instabilidade futura.

No fim, porém, existe um terceiro relógio além daquele dos tribunais e daquele das campanhas: o relógio do eleitor.

Se as controvérsias permanecerem abertas quando chegar o primeiro turno, caberá ao cidadão compreender que uma candidatura sub judice é exatamente isso: uma candidatura que participa da eleição enquanto sua situação jurídica ainda não recebeu definição final.

E, em 4 de outubro, independentemente de quantos processos ainda estejam tramitando, será o eleitor quem entrará na cabine e fará a escolha política que lhe cabe.