Páginas

terça-feira, 26 de maio de 2026

Da canalização à despavimentação: o Brasil urbano diante da emergência climática



A natureza artificializada marca uma grande mudança na história humana da natureza.” (Milton Santos)


Em 1999, quando participei do ato cívico e ecológico “Abraço ao Rio Bengalas”, morando na época em Nova Friburgo, o debate ambiental urbano ainda parecia relativamente periférico para grande parte do país. Estudantes, professores e moradores se mobilizavam não apenas contra a poluição do principal rio da cidade, mas também contra um modelo de urbanização baseado na canalização crescente dos cursos d’água.

Naquele período, algumas pessoas já mencionavam algo que parecia quase exótico para a realidade brasileira: cidades alemãs começavam a remover concretos das margens dos rios, recuperar áreas verdes e discutir formas de “renaturalização” urbana. Em certos círculos ambientais, dizia-se que a Europa começava a perceber os limites da excessiva artificialização das cidades.

No Brasil, entretanto, o imaginário do progresso seguia fortemente associado ao concreto.

Canalizar rios, retificar córregos, impermeabilizar margens e asfaltar ruas eram vistos como símbolos visíveis de modernidade administrativa. O asfalto representava desenvolvimento. O concreto transmitia sensação de ordem, crescimento e domínio da natureza.

O Rio Bengalas tornou-se, ao longo das décadas seguintes, um exemplo emblemático dessa lógica.

As obras de canalização iniciadas em 1999 atravessaram governos municipais distintos, foram ampliadas ao longo dos anos 2000, absorveram recursos do PAC e continuaram após a tragédia climática de janeiro de 2011, consumindo centenas de milhões de reais em intervenções hidráulicas e de macrodrenagem.

Nada disso significa que tais obras fossem irracionais ou desnecessárias. As cidades brasileiras convivem há décadas com enchentes, crescimento urbano acelerado, ocupações vulneráveis e enormes déficits históricos de infraestrutura. Após tragédias humanitárias, a pressão social por respostas imediatas do poder público é compreensível.

O problema talvez esteja em algo mais profundo: a permanência de uma cultura urbanística concebida para um mundo climático que já não existe mais.

Durante grande parte do século XX, acreditou-se que rios urbanos precisavam ser “domados”. A engenharia tradicional buscava acelerar o fluxo das águas, ampliar vazões, reduzir curvas naturais e expulsar rapidamente a água das cidades.

No entanto, do ponto de vista hidrológico, a excessiva impermeabilização urbana reduz drasticamente a infiltração da água da chuva no solo e aumenta o escoamento superficial.

Com menos áreas permeáveis, a água chega mais rapidamente aos rios e galerias pluviais, elevando a velocidade e a força das enxurradas. Em muitos casos, a canalização rígida acelera ainda mais o fluxo hídrico e transfere o risco de enchentes para outras áreas da cidade. Sistemas de drenagem concebidos para um determinado regime climático passam então a operar próximos do colapso diante de eventos extremos mais intensos e frequentes.

O próprio Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em seu Sexto Relatório de Avaliação (AR6), passou a destacar a crescente vulnerabilidade das áreas urbanas diante de eventos extremos e a importância da infraestrutura verde e das soluções baseadas na natureza para adaptação climática.

Hoje, entretanto, muitas cidades do mundo começam a revisar justamente esse paradigma, passando a incorporar soluções híbridas entre engenharia urbana e recuperação ambiental. 

Em Seul, a recuperação do córrego Cheonggyecheon tornou-se referência internacional de renaturalização urbana. 

Na Alemanha, projetos de restauração fluvial passaram a devolver espaço aos rios após décadas de artificialização. 

No Brasil, experiências como o Parque Orla de Piratininga, em Niterói, e iniciativas de drenagem sustentável em cidades como Curitiba e Recife começam gradualmente a incorporar conceitos de infraestrutura verde e convivência ecológica com a água.

O artigo recente do ambientalista e ex-prefeito de Niterói Axel Grael sobre “despavimentação” urbana chama atenção exatamente para essa realidade. Em diferentes países, cidades começam a quebrar concreto, recuperar margens de rios, criar parques inundáveis, ampliar áreas permeáveis e investir em soluções baseadas na natureza.

O objetivo não é “voltar ao passado”, mas adaptar as cidades a uma nova realidade climática.

O século XXI passou gradualmente a revelar um fenômeno que ainda não era plenamente compreendido no início dos anos 2000: a intensificação dos impactos das mudanças climáticas sobre as áreas urbanas.

Chuvas mais intensas, ondas de calor, eventos extremos mais frequentes e sistemas de drenagem sobrecarregados passaram gradualmente a desafiar modelos urbanos construídos sob premissas climáticas mais estáveis.

As tragédias da Região Serrana em 2011, de Petrópolis, de São Sebastião e das enchentes históricas do Rio Grande do Sul em 2024 talvez tenham tornado evidente algo que antes parecia distante: as cidades brasileiras estão entrando em uma era de vulnerabilidade climática crescente.

E isso expõe uma contradição importante.

Enquanto parte do mundo discute cidades-esponja, drenagem sustentável, renaturalização de rios e infraestrutura verde, o Brasil ainda frequentemente trata asfaltamento e concretagem como linguagem política do progresso.

Em inúmeras cidades brasileiras, o anúncio de novas pavimentações continua sendo celebrado eleitoralmente como símbolo de desenvolvimento. E, de fato, muitas vezes essas obras trazem benefícios concretos: redução de lama, melhoria da mobilidade, valorização urbana e acesso a serviços públicos.

Isso não ocorre por acaso. Em grande parte do Brasil, sobretudo nas periferias urbanas e cidades pequenas, o asfaltamento continua associado a melhorias concretas de qualidade de vida. Ruas pavimentadas reduzem poeira, lama, isolamento territorial e dificuldades de mobilidade. Para populações historicamente negligenciadas pelo poder público, o asfalto frequentemente simboliza não apenas infraestrutura, mas reconhecimento político e inclusão urbana.

O problema surge quando o debate urbano permanece limitado apenas à expansão impermeabilizante, sem incorporar drenagem sustentável, arborização, infiltração e adaptação climática.

Raramente o debate é acompanhado de uma reflexão mais ampla sobre esses assuntos que envolvem também a ocupação territorial e a capacidade de absorção das cidades.

O resultado é que, frequentemente, o próprio modelo urbano amplia vulnerabilidades futuras.

Não se trata de defender um romantismo antiengenharia ou imaginar soluções simplistas para problemas extremamente complexos. Grandes cidades continuarão precisando de obras hidráulicas, drenagem e infraestrutura pesada.

A questão talvez seja outra: como construir cidades capazes de coexistir com a água, e não apenas tentar expulsá-la indefinidamente?

Isso talvez exija uma nova geração de políticas públicas urbanas: integração efetiva entre planos diretores e gestão de águas pluviais, metas mínimas de permeabilidade urbana, programas de retrofit climático de bairros já consolidados, financiamento de infraestrutura verde e mecanismos de participação comunitária na gestão de bacias urbanas e áreas de risco.

Sem dúvidas estamos diante de uma das grandes encruzilhadas urbanas e climáticas do Brasil contemporâneo.

Durante décadas acreditamos que desenvolvimento significava dominar completamente rios, encostas e fluxos naturais. O século XXI começa lentamente a mostrar que a natureza não desaparece sob o concreto — apenas acumula tensões que retornam de forma cada vez mais intensa.

A transição para cidades mais resilientes também envolve tensões econômicas, sociais e políticas profundas. Renaturalizar rios, ampliar áreas permeáveis ou rever modelos de ocupação urbana exige enfrentar interesses imobiliários, custos elevados de readequação e estruturas urbanas consolidadas ao longo de décadas. 

Em sociedades profundamente desiguais, a adaptação climática também precisa dialogar com justiça social: proteger cidades sem transformar sustentabilidade em privilégio de poucos.

Talvez o futuro das cidades brasileiras dependa justamente da capacidade de superar uma lógica puramente impermeabilizante e reaprender algo que durante muito tempo esquecemos: rios não são apenas canais de drenagem. São parte viva da própria cidade.

O desafio climático das cidades brasileiras não será apenas tecnológico ou ambiental, mas também político, fiscal e social. Adaptar cidades ao século XXI exigirá coordenação entre engenharia, planejamento urbano, justiça territorial e capacidade institucional de longo prazo — algo particularmente difícil em sociedades marcadas por desigualdades históricas e ciclos curtos de planejamento público.

O papa, a escravidão e a memória das instituições



A batalha da abolição, como perceberam alguns abolicionistas, era uma batalha nacional. Esta batalha continua hoje e é tarefa da nação. A luta dos negros, as vítimas mais diretas da escravidão, pela plenitude da cidadania, deve ser vista como parte desta luta maior. Hoje, como no século XIX, não há possibilidade de fugir para fora do sistema. Não há quilombo possível, nem mesmo cultural. A luta é de todos e é dentro do monstro.” — José Murilo de Carvalho


O pedido de perdão feito pelo papa Leão XIV pelo envolvimento histórico da Igreja Católica com a escravidão talvez represente um dos gestos institucionais mais simbólicos deste início de século XXI.

À primeira vista, trata-se apenas de uma declaração histórica ou moral.

Mas talvez seja algo maior.

O episódio parece revelar uma transformação silenciosa na forma como as grandes instituições contemporâneas passaram a lidar com o próprio passado.

Durante muito tempo, organizações políticas, religiosas e econômicas buscaram legitimidade pela ocultação de suas contradições históricas. O silêncio institucional era frequentemente percebido como mecanismo de preservação da autoridade.

Hoje, porém, parece ocorrer exatamente o oposto.

Instituições passaram gradualmente a compreender que a legitimidade contemporânea depende também da capacidade de reconhecer erros históricos, reinterpretar trajetórias e enfrentar publicamente heranças morais desconfortáveis.

Mas esse novo regime de memória também produz ambiguidades. Em alguns casos, a revisão crítica do passado amplia transparência e responsabilização institucional. Em outros, transforma-se em instrumento cosmético de reconstrução reputacional, sem alterações reais nas estruturas que perpetuam desigualdades históricas. 

Fato é que a política contemporânea da memória oscila constantemente entre democratização histórica e administração simbólica de crises morais.

Nesse sentido, o gesto do pontífice talvez dialogue menos com o passado e mais com a crise moral do presente.

A Igreja Católica, afinal, não está sozinha.

Universidades europeias revisam vínculos com o tráfico atlântico de escravos. Museus discutem devolução de patrimônio obtido em contextos coloniais. Governos ocidentais debatem pedidos formais de desculpas. Empresas e bancos reconhecem conexões históricas com sistemas de exploração.

Pode-se dizer que, nos últimos anos, algumas dessas revisões deixaram o plano abstrato e assumiram contornos concretos. Por exemplo, a Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, reconheceu oficialmente a venda de 272 escravizados realizada por jesuítas em 1838 para salvar financeiramente a instituição, criando posteriormente programas voltados aos descendentes dessas famílias. 

Em 2019, a Universidade de Glasgow, na Escócia, anunciou um programa de reparações acadêmicas relacionado a recursos historicamente vinculados ao tráfico escravista. 

Já a Igreja Anglicana reconheceu investimentos históricos associados à escravidão colonial e anunciou fundos destinados a iniciativas reparatórias. 

No Brasil, embora esse debate ainda avance de forma mais lenta e fragmentada, também surgiram iniciativas relevantes. A criação do Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), no Rio de Janeiro, e a ampliação das políticas de ações afirmativas nas universidades públicas representam parte desse esforço de revisão histórica e reconstrução da memória nacional em torno da escravidão e de suas consequências sociais.

A própria consolidação das políticas de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras, especialmente após a Lei nº 12.711/2012, durante o governo Dilma, passou a incorporar institucionalmente a percepção de que a escravidão deixou desigualdades estruturais que não poderiam ser enfrentadas apenas por mecanismos formais de igualdade.

O século XXI parece ter transformado a memória histórica em parte da própria disputa por legitimidade institucional.

Nem todo reconhecimento histórico, contudo, produz transformação concreta. Em alguns casos, pedidos de desculpas funcionam apenas como gestos simbólicos de reconstrução reputacional. Em outros, vêm acompanhados de medidas estruturais: bolsas acadêmicas, fundos reparatórios, abertura de arquivos históricos, restituições patrimoniais, reformas curriculares ou políticas institucionais permanentes. 

A diferença entre memória crítica e cosmética institucional talvez esteja justamente na disposição de transformar reconhecimento moral em consequências práticas. Daí decorre uma constatação importante: nenhuma grande instituição consegue mais se apresentar como completamente exterior às contradições da história.

Talvez seja justamente aí que a reflexão de José Murilo de Carvalho se torne tão atual: “A luta é de todos e é dentro do monstro.

A frase possui enorme profundidade.

Ela sugere que a escravidão não foi apenas uma distorção periférica da história ocidental, mas parte constitutiva das estruturas econômicas, políticas, culturais e até religiosas que moldaram as sociedades modernas.

O “monstro” não era apenas econômico. Era civilizacional.

A própria Igreja Católica viveu historicamente essa ambivalência.

Houve setores eclesiásticos ligados ao sistema escravista, ordens religiosas proprietárias de escravos e legitimações morais do colonialismo.

Mas houve também religiosos abolicionistas, movimentos humanistas cristãos e documentos papais que gradualmente passaram a condenar a escravidão.

As próprias posições da Igreja variaram conforme os contextos históricos, econômicos e geopolíticos. Houve documentos papais ambíguos durante a expansão colonial europeia, experiências missionárias contraditórias e ordens religiosas simultaneamente envolvidas na catequese e integradas às estruturas escravistas. Em outros momentos, porém, setores católicos participaram ativamente do abolicionismo e da formulação de discursos universais de dignidade humana. 

Ademais, a relação entre cristianismo, colonialismo e escravidão raramente seguiu uma linha simples ou homogênea.

Aliás, a história raramente é simples.

E, talvez, uma das maiores dificuldades do presente esteja justamente em evitar dois riscos simultâneos: o apagamento moral do passado e o anacronismo histórico.

Isso porque instituições históricas precisam ser compreendidas dentro das estruturas de seu tempo, sem que isso signifique relativizar violências cometidas.

A escravidão foi uma brutalidade humana de proporções civilizatórias. Mas também foi, durante séculos, um elemento estrutural de praticamente todas as grandes sociedades humanas.

A ruptura moral universal contra ela é relativamente recente na história.

O problema contemporâneo consiste justamente em compreender como sociedades democráticas podem reconhecer essas heranças sem destruir completamente a continuidade histórica das próprias instituições.

O reconhecimento histórico, porém, raramente ocorre sem custos. 

Reparações financeiras, revisão de currículos, mudanças institucionais, abertura de arquivos, disputas sobre patrimônio simbólico e participação de grupos historicamente afetados tornam esse processo politicamente complexo. A tensão entre continuidade institucional e justiça histórica talvez só possa ser enfrentada de forma democrática, mediante mecanismos permanentes de participação social e reconstrução da memória coletiva.

Possivelmente seja exatamente isso que o pedido do papa procura fazer: não negar a história da Igreja, mas reinterpretá-la criticamente.

No Brasil, esse debate ganha contornos ainda mais sensíveis.

Fomos o maior território escravista das Américas e o último grande país ocidental a abolir formalmente a escravidão.

Mais do que isso, a escravidão moldou profundamente nossa estrutura social, econômica e política. Ela influenciou a distribuição de renda, o acesso à educação, a formação das elites, a organização do trabalho, a cidadania e até as formas de pertencimento nacional.

Por isso, talvez a abolição nunca tenha sido apenas um evento jurídico ocorrido em 13 de maio de 1888. A Lei Áurea selou o fim formal da escravidão no Brasil, mas não alterou de maneira radical as estruturas econômicas, sociais e políticas construídas ao longo de mais de três séculos de ordem escravista.

Nesse sentido , não seria exagero dizer que a escravidão continue sendo um processo histórico inacabado.

A ausência de políticas amplas de integração dos libertos após a Lei Áurea produziu permanências estruturais que atravessaram gerações.

Talvez seja justamente aí que a ideia de “abolição inacabada” adquira dimensão concreta. Pois o debate contemporâneo envolve não apenas memória histórica, mas políticas públicas relacionadas à educação racial, ações afirmativas, preservação da cultura afro-brasileira, combate ao trabalho escravo contemporâneo, acesso à moradia, saúde, mobilidade social e inclusão econômica. 

Acrescente-se que a disputa em torno da escravidão deixou de ser apenas historiográfica. Tornou-se também uma discussão sobre cidadania democrática no presente.

E isso ajuda a compreender por que o debate contemporâneo sobre escravidão deixou de ser apenas uma discussão sobre o passado para se transformar também numa reflexão sobre o presente.

O próprio Papa Leão, ao mencionar “novas formas de escravidão”, parece reconhecer isso.

As formas explícitas de servidão desapareceram em grande parte do Ocidente. No entanto, surgiram novas modalidades de dependência: precarização extrema do trabalho, hiperendividamento, exploração econômica invisível, captura algorítmica da atenção, dependência tecnológica, submissões psicológicas e sociais cada vez mais sofisticadas.

Evidentemente, o uso contemporâneo da expressão “novas formas de escravidão” exige cautela analítica. 

Há diferenças importantes entre categorias jurídicas precisas — como tráfico humano, trabalho análogo à escravidão e servidão por dívida — e metáforas sociológicas voltadas à crítica das novas formas de dependência econômica, tecnológica ou psicológica. 

No Brasil, essa distinção possui relevância prática, pois o trabalho análogo à escravidão não é apenas metáfora histórica, mas categoria jurídico-penal e trabalhista, combatida por órgãos como o Ministério Público do Trabalho, a fiscalização do trabalho e o sistema de Justiça, especialmente diante de situações de servidão por dívida, jornadas exaustivas, condições degradantes ou restrição da liberdade.

Certamente, sem essa distinção, existe o risco de diluir a brutalidade histórica da escravidão atlântica. Porém, ainda assim, a metáfora continua relevante para refletir sobre mecanismos modernos de perda de autonomia humana.

Talvez a modernidade não tenha eliminado completamente as estruturas de dominação. Talvez apenas as tenha tornado menos visíveis.

E isso torna o debate ainda mais complexo.

Porque a verdadeira questão pode não ser apenas a maneira como julgamos o passado, mas como reconhecemos as formas contemporâneas de servidão que continuam sobrevivendo dentro de sociedades formalmente livres.

Admitir que a abolição permanece inacabada implica também em reconhecer responsabilidades institucionais concretas. Isso envolve fortalecer políticas de igualdade racial, ampliar transparência sobre patrimônios históricos vinculados à escravidão, preservar a memória afro-brasileira, combater o trabalho análogo à escravidão contemporânea e assegurar participação efetiva das comunidades historicamente afetadas nos processos de reconstrução da memória nacional. Sem mecanismos democráticos permanentes de inclusão e reparação, o risco é que o reconhecimento histórico permaneça restrito ao plano simbólico.

O gesto do pontífice, portanto, não encerra o debate histórico. Antes, revela algo mais profundo: a percepção crescente de que a abolição — moral, social e humana — permanece inacabada.

domingo, 24 de maio de 2026

Depois da Forca



Naquela noite de junho de 1794, o Rio de Janeiro parecia respirar mais devagar.

Do alto do Morro do Castelo, as luzes dispersas da cidade mal conseguiam vencer a escuridão úmida que subia da Baía de Guanabara. O vento trazia o cheiro do porto: sal, peixe, madeira molhada, açúcar embarcado, corpos apertados nos porões dos navios negreiros recém-chegados da costa africana.

Ao longe, os sinos do Carmo marcaram as horas.

Pelas ruas estreitas da cidade, soldados caminhavam em pares. Não havia toque de recolher oficial, mas todos compreendiam que certas conversas já não pertenciam à noite.

Desde a execução de Tiradentes, dois anos antes, o Rio mudara.

Mudara no tom das vozes. Mudara na maneira como as portas eram fechadas. Mudara no silêncio repentino quando algum desconhecido atravessava uma botica ou uma venda.

As ideias agora tinham peso.

E perigo.


Joaquim de Almeida apertou o passo pela Rua Direita, desviando das poças deixadas pela chuva recente.

Tinha vinte e dois anos e os olhos inquietos dos homens que começavam a desconfiar do mundo em que nasceram.

Filho de um pequeno negociante ligado ao porto, aprendera latim com padres carmelitas e adquirira o hábito inconveniente da leitura. Nos últimos meses passara a frequentar certas reuniões discretas em casas próximas ao Largo de São Francisco, onde médicos, estudantes, boticários e funcionários régios discutiam livros vindos da França.

Livros proibidos.

Ou quase.

Falava-se ali de filosofia natural, química, república, direitos do homem, navegação, comércio livre, eletricidade, igualdade perante a lei.

As palavras misturavam-se.

Ninguém sabia exatamente onde terminava a ciência e começava a sedição.

Talvez já não houvesse diferença.

O comentário surgira na botica de Manuel Ribeiro, entre frascos de cânfora, raízes secas e pequenos papéis dobrados dentro de livros de medicina.

Havia ali homens muito diferentes.

O doutor Francisco, cirurgião de hospital militar, falava da França com entusiasmo científico, menos pela república do que pelos novos tratados de anatomia e química. Manuel, o boticário, queria saber se certas plantas da terra poderiam substituir drogas caras vindas de Lisboa. Já Bento Rodrigues, comerciante do cais, interessava-se menos pelos direitos do homem do que pela promessa de comércio livre e menores tributos.

— A liberdade é bela palavra — murmurou Bento, olhando para a rua antes de continuar. — Mas só enquanto não atrapalha os negócios.

Ninguém respondeu.

Perto da porta, Tomás, um homem pardo livre que trabalhava no porto e levava recados entre casas e armazéns, ouviu em silêncio. Depois comentou, quase para si:

— Dizem que na França cortaram a cabeça do rei. Aqui, porém, continuam chegando correntes.

A frase calou a sala por alguns instantes.

Foi então que alguém falou das investigações. Homens ligados ao vice-reinado, dizia-se, haviam voltado a vigiar reuniões privadas. Surgiam rumores de listas, denúncias e correspondências abertas no porto.

Um médico fora interrogado.

Outro deixara de aparecer.

Joaquim, ao chegar em casa, encontrou um bilhete curto sobre a mesa.


“Venha esta noite.

Seu tio deseja falar-lhe.

Não demore.”


O tio, doutor Antônio de Almeida, raramente chamava alguém àquela hora.



A casa ficava próxima ao antigo Largo do Paço.

Era antiga, de paredes grossas, janelas altas e corredores escuros que conservavam o cheiro de livros velhos, ervas secas e papéis úmidos.

Antônio o aguardava sozinho no gabinete.

Uma única vela iluminava o aposento.

Sobre a mesa repousavam mapas amarelados, instrumentos de medição, frascos de vidro e cadernos encadernados em couro.

O velho ergueu os olhos lentamente.

Já passara dos sessenta anos. Os cabelos brancos caíam sobre o rosto magro. As mãos, embora envelhecidas, ainda possuíam firmeza de cirurgião.

— Sente-se.

Joaquim obedeceu.

Por alguns segundos, ouviram apenas o vento batendo nas venezianas.

Então Antônio abriu uma pequena gaveta da escrivaninha.

De dentro retirou um caderno antigo.

As páginas estavam cobertas por desenhos de plantas, observações sobre febres tropicais, correntes marítimas, notas em latim.

Joaquim reconheceu imediatamente a caligrafia refinada de outra época.

— O que é isso?

O velho passou os dedos sobre a capa.

— Restos de um tempo que terminou antes de você nascer.

Silêncio.

— Eu participei da Academia.

Joaquim ergueu os olhos.

A Academia Científica do Rio de Janeiro.

Quase ninguém falava mais dela.

Alguns diziam que nunca passara de reunião de curiosos. Outros afirmavam que ali haviam circulado ideias perigosas para o reino.

Antônio soltou um leve sorriso cansado.

— No tempo do Lavradio acreditávamos que o conhecimento poderia melhorar esta terra sem destruí-la.

A chama da vela oscilou.

— Falávamos de medicina, agricultura, navegação, matemática. O vice-rei queria homens úteis ao império. Estudávamos plantas, febres, minerais… Havia esperança naquele tempo.

Parou por um instante.

— Éramos ingênuos.

Do lado de fora, ouviu-se o trote distante de cavalos.

O velho esperou o som desaparecer antes de continuar.

— Depois vieram a América… — A França… — completou Joaquim.

Antônio assentiu lentamente.

— E Minas.

O nome permaneceu suspenso entre os dois.

Minas.

Todos sabiam o que significava.

A forca. O esquartejamento. A cabeça exposta.

O exemplo.

— Depois daquilo — disse o velho em voz baixa — toda palavra começou a parecer ameaça.

Joaquim hesitou.

— Mas o senhor não acredita que algumas mudanças sejam necessárias?

Antônio ergueu os olhos.

Não havia raiva neles. Apenas cansaço.

— Necessárias? Sim. 

— Então por que o medo?

O velho aproximou-se da janela.

Lá fora, o Largo do Paço dormia sob a névoa úmida que vinha do mar.

— Porque eu vi o que acontece quando os homens do poder passam a temer ideias.

Virou-se lentamente.

— Você acha que estão perseguindo conspiradores. — Não estão.

Aproximou-se da mesa.

— Estão perseguindo conversas.

A frase atingiu Joaquim com estranha força.

Antônio então abriu outro compartimento da escrivaninha.

Retirou um pequeno livro de capa azul já desgastada.

Voltaire.

Proibido.

— Sabe há quantos anos escondo isto?

Joaquim permaneceu calado.

— Desde antes da morte daquele alferes.

Sentou-se novamente.

— Você é jovem. E os jovens acreditam que as ideias entram no mundo como claridade. 

— E não entram?

O velho observou a chama da vela por alguns segundos.

— Não. — Entram como incêndio.

Lá fora, os sinos voltaram a tocar.

Talvez meia-noite.

Talvez mais.

Antônio fechou os olhos brevemente antes de continuar.

— O Rio mudou, Joaquim. — Esta cidade escuta demais. — O porto traz mais do que mercadorias. — Traz rumores. — Traz livros. — Traz revoluções.

A voz tornou-se ainda mais baixa.

— E a Coroa sabe disso.

Por um instante, Joaquim sentiu vergonha de sua própria empolgação juvenil.

As reuniões. As frases repetidas em voz alta. As discussões inflamadas sobre liberdade.

Tudo lhe pareceu subitamente frágil.

O tio empurrou o velho caderno da Academia em sua direção.

— Guarde isto.

Joaquim o tomou nas mãos com cuidado.

As páginas carregavam o cheiro de um século que ainda tentava sobreviver.

— Por quê?

Antônio olhou para ele longamente.

— Porque um dia esta cidade talvez aprenda a ouvir ideias sem pedir sangue em troca.

O vento soprou mais forte.

A chama quase se apagou.

Ao longe, vindo do porto, ouviu-se o ranger pesado de correntes sendo arrastadas na madrugada.

E então Joaquim compreendeu.

A cidade inteira estava suspensa entre dois mundos: um que morria lentamente e outro que ainda não podia nascer.


Setembro de 1832



O Rio de Janeiro despertara cedo naquele 7 de setembro.

Desde as primeiras horas da manhã, os sinos repicavam pelas igrejas do centro da cidade. Tropas atravessavam as ruas em marcha lenta, enquanto pequenas bandeiras do Império surgiam penduradas nas janelas das casas próximas ao Campo de Santana e ao Largo do Paço.

Dez anos.

Dez anos desde a Independência.

Ainda assim, Joaquim de Almeida tinha dificuldade em compreender quanto tempo realmente passara.

Parado junto ao cais, observava o movimento da cidade com a estranha sensação de quem sobreviveu a mais de uma época.

Agora tinha cabelos grisalhos e o rosto marcado pelas décadas. As mãos, antes inquietas, tornaram-se lentas. Os olhos, porém, continuavam atentos — talvez mais do que na juventude.

O Rio mudara profundamente desde aquela noite distante em que ouvira o tio falar à luz de uma vela.

A cidade crescera.

As ruas estavam mais movimentadas. As fachadas mais refinadas. Carruagens cruzavam vias antes percorridas apenas por tropas e liteiras. Novos comerciantes chegavam diariamente. Funcionários do Império enchiam repartições. Oficiais militares discutiam política em cafés. Jornais circulavam pelas esquinas. Livros já não precisavam ser escondidos como antigamente.

Até mesmo o velho Largo do Paço parecia diferente.

O antigo centro do vice-reinado transformara-se no coração do Império brasileiro.

Um menino passava oferecendo folhas impressas ainda úmidas de tinta.

— Notícias da Regência! Festejos da Independência! Progresso do Império!

Joaquim comprou uma delas.

Leu, em letras irregulares: “Celebra-se hoje a liberdade política do Brasil, conquistada pela firmeza de seus filhos e pela marcha constitucional do Império.”

Dobrou o papel com cuidado.

A palavra liberdade, agora impressa e vendida em praça pública, já não precisava esconder-se em gavetas. Mas talvez por isso mesmo doesse mais vê-la circular tão perto do cais.

Entretanto, havia algo de incompleto naquele dia.

As celebrações possuíam certa melancolia difícil de explicar.

O homem que proclamara a Independência estava ausente.

Dom Pedro I partira no ano anterior, deixando para trás um trono ocupado apenas simbolicamente por uma criança que ainda mal compreendia o peso da própria coroa.

O país parecia suspenso.

Nem colônia. Nem plenamente estável.

Ao longe, ouviu-se salva de canhões vinda da Baía de Guanabara.

A multidão aplaudiu.

Joaquim permaneceu em silêncio.

À sua frente, jovens oficiais discursavam sobre pátria, liberdade, soberania e o destino nacional, palavras que, quarenta anos antes, quase podiam levar um homem à forca.

Um deles, oficial ainda jovem, aproximou-se de Joaquim ao perceber sua expressão reservada.

— Belo dia para o Brasil, não acha, senhor?

Joaquim o observou. O rapaz trazia o uniforme impecável, a voz firme e a confiança dos que haviam nascido tarde demais para temer o vice-reino.

— É um dia importante — respondeu.

— Importante? É mais que isso. Hoje celebramos o fato de que esta terra pertence a si mesma.

Joaquim voltou os olhos para o cais.

Do outro lado, homens e mulheres desembarcavam em silêncio.

O oficial acompanhou seu olhar e, por um instante, perdeu a segurança.

— O Império ainda é jovem — disse, como quem se desculpa diante da própria época. — Nem tudo se resolve em dez anos.

Joaquim assentiu lentamente.

— Algumas coisas talvez não tenham sequer começado a ser resolvidas.

O rapaz nada respondeu.

A banda voltou a tocar.

O silêncio do rapaz fez Joaquim lembrar-se novamente do tio Antônio.

Daquela noite de 1794. Do gabinete escuro. Da chama oscilando. Do velho caderno da Academia Científica. Da voz baixa dizendo: “Estão perseguindo conversas.”

Joaquim fechou os olhos por um instante.

Quantas coisas haviam mudado desde então.

A Coroa portuguesa já não governava o Brasil. A censura diminuíra. O país possuía Constituição. Havia imprensa. Debates parlamentares. Faculdades começavam a surgir. Homens discutiam política abertamente nas ruas.

O velho tio talvez jamais tivesse imaginado tamanha transformação.

E, no entanto…

Joaquim abriu os olhos lentamente.

Do outro lado do cais, uma fila avançava em silêncio.

Homens e mulheres negros desciam de uma embarcação recém-chegada.

Alguns traziam marcas recentes nos pulsos. Outros mal conseguiam caminhar.

Mercadores observavam os corpos como quem examina animais de carga.

Um menino africano tropeçou ao descer a prancha de madeira.

O feitor gritou.

A multidão desviou o olhar.

As comemorações continuavam.

Bandeiras agitavam-se ao vento. Bandas militares executavam hinos. Crianças corriam pelas ruas celebrando a Independência do Brasil.

Mas os navios negreiros continuavam chegando.

Talvez em número ainda maior do que em sua juventude.

O café enriquecia fazendeiros do Vale do Paraíba. Novas plantações avançavam pelo interior. E com elas crescia também a fome por braços escravizados.

Joaquim sentiu um peso antigo atravessá-lo lentamente.

Na juventude, acreditara que a liberdade chegaria como aurora inevitável. Depois pensara que o medo impediria qualquer mudança.

Agora compreendia algo mais doloroso: a história não caminhava inteira.

Avançava por partes.

Libertava alguns. Aprisionava outros.

Naquele instante, o som dos sinos misturou-se ao ranger metálico das correntes descarregadas no porto.

O mesmo som que ouvira quarenta anos antes.

O mesmo.

Joaquim então percebeu que o Rio de Janeiro mudara de bandeira, de governo e de destino político — mas continuava sustentado por uma ferida que a Independência não tocara.

A cidade estava mais iluminada.

Mais rica. Mais culta. Mais imperial.

Mas ainda profundamente escravista.

E talvez fosse justamente isso que tornasse tudo tão inquietante.

Porque agora já não era possível culpar apenas Portugal. O Brasil independente escolhera continuar assim.

Uma rajada de vento atravessou o Largo do Paço.

Por um breve instante, Joaquim imaginou o velho tio Antônio caminhando novamente por aquelas ruas estreitas do século passado, observando o Império nascer sobre as mesmas pedras onde antes funcionara o vice-reinado.

Talvez o velho sorrisse ao ver jornais circulando livremente. Talvez se espantasse com os debates parlamentares. Talvez se emocionasse ao perceber que livros já não precisavam ser escondidos em gavetas.

Mas talvez também baixasse os olhos ao contemplar o cais.

E o silêncio dos homens acorrentados.

A multidão começou a dispersar-se lentamente.

O céu da tarde adquiria tons dourados sobre a Baía de Guanabara.

Joaquim permaneceu parado por alguns instantes antes de retirar do bolso um pequeno caderno envelhecido pelo tempo.

O velho caderno da Academia.

As páginas estavam frágeis. A tinta quase apagada.

Ainda assim, ele conseguia ler no alto de uma folha antiga: “O conhecimento deve servir ao aperfeiçoamento dos homens.”

Joaquim passou os dedos sobre a frase.

Então ergueu os olhos para a cidade.

E compreendeu, com amarga serenidade, que algumas independências levam muito mais de dez anos para começar.

O Império nascera. Mas algumas correntes ainda permaneciam intactas.


As Velhas Páginas



Rio de Janeiro, 2026.

A chuva começara no fim da tarde.

Da janela do apartamento em Botafogo, Lucas Almeida observava as luzes da cidade refletidas no asfalto molhado enquanto tentava organizar livros, papéis e caixas acumuladas após a conclusão da faculdade.

Tinha vinte e quatro anos.

Naquela semana recebera finalmente o diploma universitário — um ritual que lhe parecera menos grandioso do que imaginara durante a adolescência. O país atravessava mais uma crise política. As redes sociais transformavam tudo em disputa instantânea. Notícias envelheciam em horas. A sensação constante era a de viver dentro de um ruído permanente.

Talvez por isso o telefonema da bisavó o tivesse surpreendido tanto.

— Preciso lhe entregar uma coisa da família.

A velha Matilde já passara dos noventa anos. A memória falhava às vezes, mas havia momentos em que sua lucidez surgia quase intacta, como luz atravessando nuvens antigas.

Lucas a visitara dois dias depois.

A casa, em Laranjeiras, parecia parada no tempo: relógios antigos, fotografias amareladas, móveis escuros e cheiro de madeira envelhecida e livros guardados.

No fim da conversa, a bisavó levantou-se lentamente e caminhou até um pequeno armário no corredor.

Retornou trazendo uma caixa de madeira.

Simples. Escura. Gasta pelo tempo.

Entregou-a com cuidado.

— Isso era do avô do meu avô. — Achei que alguém ainda devia guardar.

Lucas sorriu com delicadeza.

— O que é?

Matilde demorou alguns segundos antes de responder.

— Um homem chamado Joaquim de Almeida. — Diziam que escrevia muito.

Fez breve pausa.

— E falava pouco.


Naquela noite, já em casa, Lucas abriu a caixa.

Dentro havia cadernos antigos, folhas soltas, cartas incompletas, anotações quase apagadas, pequenos desenhos botânicos, referências ao Rio antigo e um volume encadernado em couro já ressecado.

Ao tocar o material, sentiu o estranho desconforto de quem percebe imediatamente estar diante de algo maior do que simples documentos familiares.

Abriu o primeiro caderno.

A caligrafia era elegante, irregular em alguns trechos.

Na primeira página:


“Joaquim de Almeida.

Rio de Janeiro.

Ano de 1832.”


Lucas sentou-se lentamente.

As horas seguintes desapareceram.


Os textos não narravam grandes feitos.

Não havia batalhas. Nem ministros. Nem heróis.

Joaquim jamais parecera personagem importante da história brasileira.

No dia seguinte, Lucas pesquisou seu nome em arquivos digitais, bibliotecas e páginas de genealogia. Encontrou quase nada. Um possível registro paroquial. Uma referência duvidosa em inventário. Talvez uma assinatura perdida entre testemunhas de um documento antigo.

Nenhum verbete.

Nenhuma rua.

Nenhuma placa.

E, ainda assim, ali estava uma vida inteira tentando compreender o país.

Era apenas um homem observando o próprio tempo.

E talvez justamente por isso aquelas páginas possuíssem algo profundamente verdadeiro.

Lucas encontrou referências ao antigo Largo do Paço, à Independência, à escravidão, ao crescimento do Rio de Janeiro e, repetidas vezes, a outro nome: Antônio de Almeida.

O tio.

Havia também menções fragmentadas à antiga Academia Científica, a reuniões discretas, a livros escondidos e ao medo que se espalhara pela cidade após a execução de Tiradentes.

Uma folha particularmente envelhecida chamou sua atenção.

Nela, Joaquim escrevera:


“Meu tio acreditava que as ideias poderiam iluminar os homens.

Depois aprendeu que também podiam assustar os governos.”


Lucas releu a frase várias vezes.

Do lado de fora, ouviu-se o som distante de motocicletas atravessando a praia de Botafogo.

Pegou outro caderno.

Agora as anotações tornavam-se mais melancólicas.

Joaquim descrevia o Rio de 1832: os festejos da Independência, a ausência de Dom Pedro, o imperador ainda menino, os navios no porto, e os escravizados desembarcando enquanto a cidade celebrava liberdade.

Lucas sentiu um desconforto crescente.

Aquelas páginas pareciam estranhamente contemporâneas.

Mudavam as roupas, os governos e os nomes. 

Mas certas tensões permaneciam reconhecíveis.

Poder. Medo. Desigualdade. Disputas sobre liberdade. Controle das ideias.

Em outro trecho, Joaquim escrevera: “Há correntes que sobrevivem mesmo quando as bandeiras mudam.”

Lucas fechou lentamente o caderno.

Ficou em silêncio por alguns minutos.

Então caminhou até a janela.

Lá fora, o Rio de Janeiro de 2026 brilhava: prédios iluminados, helicópteros cruzando o céu, sirenes, carros, celulares acesos nas calçadas e anúncios digitais refletidos nos vidros dos edifícios.

A cidade parecia infinita.

E, ainda assim, estranhamente ligada àquelas páginas frágeis escritas quase dois séculos antes.

No dia seguinte, Lucas decidiu caminhar pelo centro histórico.

Desceu na Praça XV no início da tarde.

Turistas tiravam fotografias diante do Paço Imperial. Barcas atravessavam lentamente a Baía de Guanabara. Camelôs gritavam ofertas junto às calçadas. Executivos apressados cruzavam a praça sem olhar ao redor.

Lucas permaneceu imóvel por alguns instantes.

Tentou imaginar o velho Joaquim, o tio Antônio, o Rio colonial, soldados patrulhando ruas estreitas, conversas sussurradas em boticas e o medo após a forca.

Tudo parecia absurdamente distante.

E ao mesmo tempo presente.

Caminhou devagar até próximo do cais.

O vento vindo da Baía trouxe cheiro de maresia.

Então abriu novamente um dos cadernos.

Na última página havia apenas uma frase: “Algumas independências levam séculos para começar.”

Lucas ergueu os olhos para a cidade.

Pela primeira vez compreendeu que talvez a história do Brasil não estivesse apenas nos monumentos, nas datas oficiais ou nos nomes gravados em livros escolares.

Talvez estivesse também em papéis esquecidos, em memórias fragmentadas, em famílias comuns e em homens que atravessaram silenciosamente as mudanças do país sem jamais imaginar que um descendente distante ainda escutaria suas vozes.

O céu começava a escurecer sobre a Baía de Guanabara.

E por um instante, parado sobre as mesmas pedras atravessadas por gerações anteriores, Lucas teve a sensação de que o tempo no Rio de Janeiro jamais passava completamente.

Ele apenas mudava de forma.

sábado, 23 de maio de 2026

João Cândido, a Justiça Federal e o avanço do direito à memória no Brasil



Um povo sem memória é um povo sem futuro.” — Jacques Le Goff


Em dezembro de 2025, escrevi um texto no blog sobre aquilo que me parecia representar uma mudança silenciosa, mas profunda, na atuação institucional brasileira: a transformação da memória histórica em objeto direto de tutela jurídica.

Naquele momento, destaquei uma série de iniciativas do Ministério Público Federal envolvendo a preservação de centros de memória ligados à ditadura, a proteção de acervos históricos, debates sobre reparação institucional e, sobretudo, a ação civil pública ajuizada contra a União em razão de manifestações oficiais da Marinha consideradas ofensivas à memória de João Cândido Felisberto (1880 - 1969).

Agora, em maio de 2026, o caso produziu seu primeiro grande desdobramento judicial.

Em uma sentença histórica, a 4ª Vara Federal do Rio de Janeiro condenou a União ao pagamento de R$ 200 mil por dano moral coletivo em razão do uso, pela Marinha do Brasil, de expressões consideradas estigmatizantes e degradantes ao se referir a João Cândido e aos marinheiros da Revolta da Chibata.

Mais do que o valor da condenação, contudo, talvez seja a fundamentação da sentença aquilo que efetivamente merece atenção.

Porque o que está em discussão não é apenas um episódio histórico de 1910.

O que a decisão enfrenta é algo maior: o lugar da memória, do racismo estrutural e da linguagem institucional dentro do constitucionalismo brasileiro contemporâneo.


A Revolta da Chibata e a disputa pela memória

A Revolta da Chibata permanece como um dos episódios mais ambivalentes da história republicana brasileira.

De um lado, tratou-se de um levante militar armado, envolvendo tomada de encouraçados, ruptura de hierarquia e ameaça de bombardeio da então capital federal.

De outro, ocorreu em um contexto no qual marinheiros negros e pardos ainda eram submetidos a castigos físicos herdados diretamente da lógica escravista, mesmo após a abolição formal da escravidão.

João Cândido tornou-se símbolo exatamente dessa contradição histórica brasileira: um homem simultaneamente tratado, ao longo das décadas, como rebelde, subversivo, mártir, liderança popular e símbolo da resistência negra.

Em 2008, a Lei nº 11.756 concedeu anistia post mortem a João Cândido e aos demais revoltosos, reconhecendo formalmente os valores de justiça e igualdade envolvidos na resistência aos açoites.

Mas a disputa sobre o significado histórico da revolta jamais desapareceu.

E foi justamente essa disputa que voltou ao centro do debate quando a Marinha encaminhou manifestação à Câmara Federal criticando o Projeto de Lei nº 4.046/2021, de autoria do deputado Lindbergh Farias (PT/RJ), que propõe a inscrição de João Cândido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

Na manifestação institucional, a Revolta da Chibata foi descrita como uma “deplorável página da história nacional” e os marinheiros foram chamados de “abjetos”, sendo que João Cândido foi tratado como “reprovável exemplo”.

Foi a partir daí que o Ministério Público Federal ajuizou a ação civil pública nº 5138220-44.2025.4.02.5101.


O argumento central da União

A defesa da União sustentou tese relativamente sofisticada: a de que a anistia de 2008 não obrigaria a Marinha a rever sua interpretação histórica sobre a revolta.

Segundo a Advocacia-Geral da União (AGU), seria legítimo preservar leitura crítica sobre a quebra de hierarquia, relembrar mortes ocorridas durante o levante e se opor politicamente à concessão do título de herói nacional.

Sob esse prisma, eventual condenação judicial poderia representar censura institucional e limitação indevida da liberdade de expressão estatal.

A tese possui densidade jurídica relevante.

E, talvez, exatamente por isso a sentença mereça atenção: porque o juiz não afastou integralmente esse argumento.


A distinção decisiva construída pela sentença

O ponto mais sofisticado da decisão talvez esteja justamente na distinção construída entre a crítica histórica legítima e a linguagem institucional degradante.

A sentença reconhece expressamente que a Marinha pode sustentar visão crítica sobre a Revolta da Chibata, bem como defender a importância da hierarquia militar e, inclusive, opor-se ao acréscimo do nome de João Cândido no Livro dos Heróis da Pátria.

Ou seja, o Judiciário não impôs uma “verdade oficial” sobre a história.

O ilícito reconhecido pelo juiz não foi a divergência historiográfica em si.

O problema estaria na utilização de linguagem considerada estigmatizante, humilhante, pejorativa e incompatível com os deveres institucionais do Estado.

Segundo a sentença, expressões como “abjetos” ultrapassariam os limites da crítica histórica e ingressariam no campo do discurso institucional degradante.


A memória como dimensão constitucional da dignidade 

Um dos aspectos mais relevantes da fundamentação está na construção do chamado “direito à memória”.

Embora a Constituição Federal não utilize expressamente essa nomenclatura, a decisão sustenta que esse direito emerge da conjugação de diversos princípios constitucionais: dignidade da pessoa humana, direito à informação, patrimônio histórico-cultural, igualdade racial e proteção da memória dos grupos formadores da sociedade brasileira.

A Revolta da Chibata passa então a ser interpretada não apenas como evento militar, mas como patrimônio imaterial ligado à resistência da população negra contra práticas herdadas da escravidão.

A sentença dá mais um passo.

Ela afirma que a própria Lei nº 11.756/2008 funciona como verdadeira “lei de memória”, e não apenas como simples anistia administrativa ou penal.

Em outras palavras, o Estado brasileiro não apenas deixou de punir João Cândido.

O Estado reconheceu formalmente a legitimidade histórica da luta contra os açoites.

Daí surge a conclusão central da decisão: não seria juridicamente coerente que o próprio Estado, anos depois, passasse a degradar institucionalmente a memória que ele próprio restaurou por lei.


Racismo estrutural e perspectiva racial

Outro elemento decisivo da sentença é a utilização explícita do conceito de racismo estrutural como vetor interpretativo obrigatório.

O juiz aplica o Protocolo de Julgamento com Perspectiva Racial do CNJ e utiliza precedentes recentes do Supremo Tribunal Federal sobre discriminação estrutural.

Nesse contexto, a linguagem utilizada pela Marinha deixa de ser analisada de forma abstrata.

Ela passa a ser examinada à luz da história da escravidão, da exclusão racial nas Forças Armadas e da condição social dos marinheiros negros submetidos ao açoitamento.

A decisão sustenta que chamar esses marinheiros de “abjetos” não representa simples adjetivação neutra, mas reprodução contemporânea de uma lógica histórica de inferiorização racial.

É precisamente nesse ponto que a sentença conecta memória histórica, racismo estrutural, dignidade coletiva e responsabilidade civil do Estado.


A condenação e seus limites

Embora tenha reconhecido o dano moral coletivo, a sentença também demonstrou cautela.

O Ministério Público Federal havia pedido indenização de R$ 5 milhões.

No entanto, o juiz fixou a condenação em R$ 200 mil.

Além disso, a decisão rejeitou o pedido que buscava impedir genericamente a Marinha de se posicionar sobre o mérito da homenagem legislativa.

Essa moderação talvez revele uma tentativa de equilíbrio: reconhecer o excesso estatal, sem transformar o Judiciário em árbitro absoluto da interpretação histórica nacional.


Um precedente importante — e ainda aberto

A sentença certamente não encerra o debate.

A União provavelmente recorrerá ao TRF2.

E há questões relevantes que ainda poderão ser discutidas:


  • os limites da liberdade de expressão institucional;
  • a extensão do conceito de discurso discriminatório;
  • e o próprio alcance jurídico do chamado direito à memória.


Ainda assim, a decisão já representa algo importante.

Ela sinaliza que o Estado brasileiro começa gradualmente a admitir que memória coletiva, dignidade racial e reparação simbólica também podem integrar o campo da responsabilidade civil pública.

Mais do que uma condenação financeira, a decisão talvez represente um marco discursivo no constitucionalismo brasileiro contemporâneo.

O caso de João Cândido talvez esteja ajudando a consolidar, no Brasil, uma ideia que há décadas já permeia experiências internacionais de justiça de transição: o Estado pode interpretar criticamente seu passado — mas não pode utilizar sua autoridade institucional para humilhar simbolicamente aqueles cuja memória ele próprio decidiu reparar.


📷: O marinheiro João Cândido. Fotografia publicada em "A Illustração Brazileira", Rio de Janeiro, nº. 37, p. 176, 1º de dezembro de 1910 (Acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo)

Aécio Neves, o PSDB e a crise do centro político brasileiro



Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem sob circunstâncias escolhidas por eles.” — Karl Marx


A simples cogitação de uma eventual candidatura presidencial de Aécio Neves em 2026 talvez diga mais sobre a crise estrutural do centro político brasileiro do que propriamente sobre a viabilidade eleitoral do ex-governador mineiro.

Durante muitos anos, Aécio foi tratado como um dos nomes mais fortes da política nacional. Em 2014, alcançou mais de 51 milhões de votos no segundo turno presidencial e quase interrompeu a permanência do PT no Palácio do Planalto. À época, o PSDB ainda preservava musculatura institucional robusta, forte presença nos estados e influência significativa no Congresso Nacional.

Dois anos depois, em 2016, os tucanos sairiam das eleições municipais como o partido que mais elegeu prefeitos no país. Havia naquele momento a percepção de que o PSDB poderia finalmente retornar ao governo federal após mais de uma década de oposição.

O ambiente político brasileiro, contudo, mudaria de forma vertiginosa.

A partir de 2017, contudo, o ambiente político começou a sofrer nova inflexão. 

Se em um primeiro momento a Operação Lava Jato havia contribuído para fortalecer eleitoralmente forças oposicionistas ao PT — entre elas o próprio PSDB —, o avanço da radicalização política, a ascensão do bolsonarismo e episódios que atingiram importantes lideranças tucanas acabariam alterando profundamente aquele equilíbrio.

O partido que, após as eleições de 2016, parecia ocupar posição privilegiada para retornar ao Palácio do Planalto perderia espaço para uma nova direita mais digitalizada, emocionalmente mobilizada e menos vinculada às estruturas tradicionais da Nova República.

No caso de Aécio, determinados acontecimentos daquele período produziram consequências políticas que ultrapassaram sua trajetória individual. Na prática, acabaram simbolizando também o enfraquecimento definitivo da capacidade do PSDB de ocupar o espaço de principal alternativa nacional ao PT.

A erosão foi particularmente significativa em Minas Gerais.

Historicamente, o estado funcionava não apenas como base eleitoral, mas como verdadeiro centro gravitacional do chamado “aecismo”. O fato de Aécio não disputar a reeleição ao Senado em 2018 — optando por uma candidatura à Câmara dos Deputados — acabou sendo interpretado por muitos analistas como sinal claro da perda de viabilidade majoritária que outrora parecia natural em sua trajetória política.

Mas talvez a questão mais importante esteja além da figura individual do ex-senador.

O Brasil de 2026 já não se parece politicamente com o Brasil de 2014.

O país atravessou o impeachment presidencial de Dilma Rousseff em 2016, as prisões e os depoimentos bombásticos da operação Lava Jato, a ascensão do bolsonarismo, a hiperfragmentação digital, o fortalecimento das direitas populistas, a crise de confiança institucional, a transformação das campanhas eleitorais e um profundo enfraquecimento dos partidos tradicionais.

Nesse novo ambiente, antigas lideranças do ciclo político pré-2018 passaram a enfrentar enorme dificuldade de reconexão com o eleitorado.

A política tornou-se mais personalizada, emocional e digitalizada. As antigas máquinas partidárias perderam parte significativa de sua capacidade de organizar consensos nacionais. E o próprio centro político brasileiro passou gradualmente a ocupar posição defensiva dentro do debate público.

Talvez por isso a eventual candidatura de Aécio surja hoje mais como movimento especulativo ou instrumento de reposicionamento político do que propriamente como projeto presidencial consolidado.

A própria conjuntura recente ajuda a compreender o surgimento dessas especulações. A decisão de Ciro Gomes de priorizar uma disputa pelo governo do Ceará reduziu momentaneamente as alternativas de centro com maior densidade nacional já conhecida do eleitorado. 

Ao mesmo tempo, episódios recentes envolvendo Flávio Bolsonaro e a repercussão pública de suas conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro em torno do projeto cinematográfico ligado à trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro produziram ruídos políticos relevantes no campo conservador, inclusive com reflexos iniciais em pesquisas de opinião.

Nesse ambiente de instabilidade e rearranjo, antigos atores políticos voltam ocasionalmente ao radar não necessariamente por força eleitoral concreta, mas pela dificuldade estrutural do sistema em produzir lideranças nacionais competitivas capazes de ocupar espaços momentaneamente tensionados ou enfraquecidos.

Mas conjunturas fluidas nem sempre se convertem em projetos eleitorais consistentes.

O próprio calendário eleitoral parece reforçar essa percepção.

Estamos na segunda metade de maio de 2026, a poucos meses do início efetivo da disputa eleitoral. Candidaturas competitivas normalmente exigem construção nacional prévia, alianças estaduais estruturadas, presença digital consistente, captação de recursos, narrativa política clara e forte articulação federativa.

Até o momento, não parecem existir sinais públicos robustos dessa engenharia política em torno do nome do ex-governador mineiro.

Nesse contexto, a movimentação do PSDB-Cidadania talvez cumpra funções mais amplas: preservar relevância política, fortalecer posições negociais dentro da federação partidária, manter espaço no debate nacional ou até influenciar futuras composições eleitorais.

Há ainda uma dimensão simbólica importante nessa discussão.

O retorno de antigos protagonistas da política brasileira frequentemente revela menos nostalgia e mais dificuldade estrutural de renovação das forças tradicionais. 

Em certa medida, a própria cogitação do nome de Aécio evidencia as dificuldades organizacionais enfrentadas pelo centro político brasileiro desde o colapso do antigo sistema partidário da Nova República.

Isso não significa necessariamente ausência de quadros qualificados ou experiência institucional. O problema parece mais profundo: o centro político ainda não conseguiu reconstruir uma narrativa nacional capaz de dialogar simultaneamente com estabilidade institucional, insatisfação social e nova dinâmica comunicacional das redes.

Doze anos após a eleição presidencial de 2014, talvez a principal questão já não seja saber se Aécio Neves poderia voltar a ser competitivo nacionalmente.

A pergunta mais relevante talvez seja outra: o sistema político brasileiro ainda consegue recriar um espaço viável para candidaturas tradicionais de centro em um ambiente moldado pela polarização, pela fragmentação digital e pela desconfiança crescente em relação às antigas estruturas partidárias?

Além disso, outras indagações tornam esse debate ainda mais complexo.

O que exatamente impede o centro político brasileiro de produzir novas lideranças nacionais competitivas? Trata-se apenas de uma crise partidária ou também da ausência de um ecossistema midiático e digital capaz de sustentar narrativas moderadas em ambiente fortemente polarizado?

Até que ponto a personalização das campanhas e a hiperfragmentação das redes favorecem candidaturas outsiders em detrimento de políticos tradicionais apoiados em estruturas partidárias convencionais?

Também permanece em aberto a possibilidade de uma futura recomposição subnacional. Governos estaduais, administrações municipais e novas lideranças regionais poderiam, no médio prazo, servir como base para reconstrução de um projeto nacional de centro?

Da mesma forma, variáveis econômicas, institucionais e conjunturais ainda podem alterar significativamente o ambiente político brasileiro nos próximos anos. Inflação, emprego, crises fiscais, desgaste de governos e tensões institucionais historicamente já abriram espaço para reconfigurações eleitorais aparentemente improváveis.

Eventual recomposição do centro político brasileiro provavelmente exigirá mais do que a simples reciclagem de lideranças tradicionais. Talvez dependa da formação de novas coalizões programáticas, da renovação geracional de quadros, da construção de ecossistemas digitais próprios e de formas mais modernas de comunicação política capazes de dialogar simultaneamente com estabilidade institucional, eficiência administrativa e demandas sociais contemporâneas.

Também parece cada vez mais evidente que futuros projetos competitivos de centro dificilmente nascerão exclusivamente das antigas estruturas partidárias nacionais. Governadores, administrações municipais bem avaliadas, lideranças regionais e redes digitais descentralizadas tendem a desempenhar papel crescente na reorganização desse espaço político.

Longe de respostas definitivas, o fato é que o Brasil de 2026 ainda parece inserido em um ambiente profundamente polarizado, no qual o espaço para candidaturas de centro permanece reduzido, fragmentado e politicamente incerto.


📷: Marina Ramos/Câmara Federal