O avanço político do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul reacendeu um debate crucial para o futuro econômico do Brasil: como a indústria nacional será afetada?
Enquanto parte da opinião pública teme que o país se torne apenas um exportador de commodities e um importador de produtos industrializados europeus, entidades empresariais e industriais veem o tratado com cautela, mas também como uma oportunidade estratégica.
Aprofundando meu artigo anterior União Europeia aprova acordo com Mercosul, mas ainda há obstáculos antes da efetivação, hoje debato sobre a situação da indústria nacional.
🏭 Como a indústria brasileira está reagindo
Federações industriais como FIESP, FIRJAN, FIEMG e CNI têm adotado um tom pragmático. Em linhas gerais, elas apoiam o acordo, identificando potencial para:
- ampliar exportações industriais e agrícolas;
- aumentar a corrente de comércio;
- atrair investimentos estrangeiros;
- integrar o Brasil a cadeias globais de valor;
- fortalecer setores com vantagens estratégicas.
Ao mesmo tempo, essas entidades defendem cautela e acompanhamento técnico. Não se trata de celebração automática. Há preocupação com segmentos industriais mais vulneráveis, impacto tarifário gradual e a necessidade de preparar o parque fabril brasileiro para competir em padrões europeus de qualidade, tecnologia e sustentabilidade.
⚠️ Mas o risco existe — e ele é estrutural
Quem critica o acordo, em geral, aponta três temores centrais:
Esses receios não são irreais. Mas também é verdade que eles revelam problemas que já existem, independentemente do acordo:
- cortes e fragilização de universidades federais e centros de pesquisa;
- baixos investimentos nacionais em inovação e tecnologia;
- fuga de cérebros para outros países;
- políticas industriais instáveis;
- produtividade menor que a de economias desenvolvidas.
A Europa não é competitiva apenas por abrir mercados — ela é competitiva porque investe pesado e continuamente em ciência, tecnologia, indústria 4.0, formação acadêmica e integração entre universidades e setor produtivo.
Se o Brasil não enfrentar essas questões, continuará vulnerável com ou sem acordo.
🏛️ O acordo “define o destino do Brasil”? Não — mas pressiona escolhas
Um erro comum no debate é ver o acordo como determinante do modelo econômico brasileiro. Ele não obriga o país a ser só fornecedor de matéria-prima nem condena a indústria ao enfraquecimento automático.
- programas de incentivo à inovação;
- políticas industriais inteligentes e de longo prazo;
- fortalecimento do ensino superior e científico;
- investimentos em tecnologia e transição energética;
- apoio aos setores industriais mais sensíveis.
🔍 O debate político ainda é legítimo — e necessário
Mesmo avançado, o acordo não está totalmente concluído. Ainda depende de etapas políticas e jurídicas, inclusive ratificação parlamentar. Isso significa que:
- a opinião pública ainda pode influenciar;
- parlamentos podem impor condições;
- governos podem defender salvaguardas;
- anexos, revisões e garantias podem ser negociados.
Em vez de uma oposição binária, setores críticos poderiam apresentar um plano B responsável, defendendo:
- cláusulas de proteção a setores sensíveis;
- mecanismos de revisão periódica;
- condicionantes ambientais e sociais;
- políticas compensatórias para modernização industrial.
Democracia madura não é apenas negar — é propor alternativas.
✅ Conclusão: risco ou oportunidade?
Mas também pode:
Ou aceitaremos, por inércia, o destino de fornecedor de commodities?
A resposta não depende apenas da União Europeia — depende sobretudo do Brasil.
📝 Temas centrais para debate no Congresso Nacional sobre o Acordo UE–Mercosul
Certamente alguns pontos exigirão atenção especial dos parlamentares:
📌 Proteção e transição industrial — definição de mecanismos de salvaguarda e defesa comercial para setores sensíveis no período de adaptação.
📌 Competitividade e inovação — reforço em políticas públicas, pesquisa, tecnologia e formação qualificada.
📌 Normas técnicas e conformidade sanitária — custos, prazos e capacidade da indústria nacional de atender às exigências europeias.
📌 Compras públicas e preferência nacional — limites, exceções estratégicas e impacto em políticas de desenvolvimento interno.
📌 Mecanismos de reequilíbrio — cláusulas que permitam revisões, compensações e proteção de interesses industriais.
📌 Sustentabilidade e regras ambientais — impactos sobre a produção, exigências de rastreabilidade e competitividade.
📌 Propriedade intelectual e digitalização — equilíbrio entre proteção, acesso a tecnologia e autonomia produtiva.
📌 Plano de desenvolvimento industrial — necessidade de o acordo dialogar com uma estratégia nacional de reindustrialização.

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