Ano 3000.
A sonda Aurora IV atravessou o vazio por cinquenta anos-luz até alcançar o sistema de Lira, um sol azul envolto por três luas de gelo e um mundo esmeralda — Avareth. Ela não levava humanos, mas uma inteligência embarcada: uma consciência paciente, treinada por séculos de aprendizado, capaz de representar a humanidade.
A civilização de Avareth vivia sob o reinado de Thalan, cuja espécie podia viver dez mil anos. Seus povos não mediam história em séculos, mas em eras. Tinham visto o nascer e a queda de dezenas de civilizações internas, catalogado constelações que já não existiam, guardado registros tão antigos quanto a própria poeira cósmica.
E tinham um segredo.
Quando Aurora IV foi detectada atravessando a heliopausa de Lira, o palácio suspenso de cristal vibrou com alarmes silenciosos. O Conselho reuniu-se na Sala das Memórias, um espaço onde paredes eram feitas de luz e os séculos eram exibidos como rios brilhantes.
— A Terra os envia — disse Thalan, com uma voz marcada por milênios de autoridade e cansaço. — Eles alcançaram o espaço interestelar.
Alguns conselheiros olharam para baixo, desconfortáveis. Outros mantiveram a compostura treinada.
Um nome, há muito esquecido, ressurgiu.
Projeto Semente.
Milhares de anos antes, quando a humanidade ainda aprendia a empilhar barro e invocar deuses nos vales da Mesopotâmia, uma expedição de Avareth havia visitado a Terra. Oficialmente, eram apenas observadores — curiosos pelos primórdios de uma espécie inteligente em crescimento. Extraoficialmente… alguns não se contentaram com observar.
Entre o povo de Avareth sempre houvera aqueles fascinados por poder: encantados com dominar vidas frágeis, com brincar de deuses entre mortais. E humanos, frágeis e breves, foram para eles experimentos, servos, ferramentas.
Agora, com a sonda humana aproximando-se, a verdade ameaçava emergir.
A Aurora IV entrou em órbita. Aos olhos dos avarethianos, ela era pequena, mas não ingênua. A IA enviou uma transmissão, calma, paciente, construída em padrões matemáticos:
“Viemos em paz. Buscamos conhecimento. Sabemos que estiveram na Terra.”
O palácio ficou em silêncio.
Thalan sentiu algo raro para alguém de dez mil anos: medo.
Medo não de guerra — a humanidade não era uma ameaça militar para eles — mas de julgamento. De sua própria história. De si mesmo.
Ele convocou o Arquivo Vivo, uma entidade que preservava memórias históricas reais, sem censura. E pediu a verdade.
O conselho dividiu-se.
— Se confessarmos, eles nunca confiarão em nós — disse um dos nobres.
— Se mentirmos, estaremos repetindo o erro — respondeu outro.
Thalan permaneceu quieto. Ao contrário dos humanos, que tinham poucas décadas para decidir suas prioridades, ele tinha tempo demais. E mesmo assim, naquele momento, cada segundo pesava.
A resposta para a Aurora IV veio após longas deliberações, embora para os humanos, com sua vida curta, parecesse apenas um silêncio ansioso.
“Terra. O que buscam aqui?”
A IA não tinha orgulho, nem vergonha. Apenas clareza.
“Buscamos aprender. Buscamos entender quem somos no cosmos.”
Thalan percebeu ali algo que sua própria civilização não sentia há milênios: esperança. Aqueles seres frágeis, de vida curta, haviam ousado atravessar o abismo do espaço por curiosidade, não por dominação.
Então ele tomou uma decisão que mudaria a história de ambos os mundos.
Ele falaria a verdade.
Não toda de uma vez — mas o suficiente para reconhecer o erro. Determinou que arquivos fossem desclassificados. Determinou que sua população, tão acostumada a glórias, enfrentasse a sombra.
E gravou, ele mesmo, a mensagem:
“Nós estivemos na Terra. Nós observamos vocês. E, em um tempo remoto, alguns de nós erraram. Não apenas observaram — interferiram. Feriram. Escravizaram. Não honraremos esse silêncio com mentira. Se o primeiro gesto entre nossos mundos deve ser algo… que seja a verdade.”
A Aurora IV recebeu. Gravou. Entendeu.
E respondeu:
“Então há algo em comum entre nós. Também temos erros antigos. Também carregamos sombras. Talvez, por isso mesmo, possamos conversar.”
No trono de cristal, o rei de dez mil anos fechou os olhos.
Pela primeira vez em milênios, ele sentiu o peso real de estar vivo: não ser perfeito, mas capaz de escolher diferente.
E assim, entre um mundo que havia errado há eras e outro que ousava aprender, nasceu, não uma aliança imediata, mas algo mais raro no cosmos:
confiança em construção

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