Em um mundo de incertezas geopolíticas e mudanças rápidas nas tecnologias de guerra — como drones, mísseis de precisão e ataques cibernéticos — a ideia de que a América do Sul pode continuar sem uma agenda integrada de defesa é, no mínimo, ingênua.
Os eventos recentes na Europa e no Oriente Médio, a reconfiguração de alianças externas e as vulnerabilidades expostas em conflitos contemporâneos mostram que não existem “ilhas de segurança” no cenário global. Isso vale tanto para países isolados como para blocos regionais com ambições de autonomia.
Se olharmos para o passado recente, veremos tentativas de integração que fracassaram ou perderam fôlego, não por falta de necessidade, mas por dificuldades institucionais, políticas internas divergentes e insuficiente compromisso coletivo.
O legado de UNASUL e do Conselho de Defesa Sul-Americano
Em 2008 foi assinado o Tratado Constitutivo da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) — um projeto de integração que buscava unir os países da América do Sul em diversos níveis, incluindo segurança e defesa.
No mesmo ano, surgiu o Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) no âmbito da UNASUL, com o objetivo de criar um espaço permanente de diálogo, coordenação militar, intercâmbio de forças armadas e até exercícios conjuntos.
O CDS não era uma aliança militar como a OTAN, mas sim um espaço para construir confiança, coordenar políticas de defesa e unir esforços diante de desafios comuns — algo até então inédito para a região.
Por um curto período (2008–2016), esse mecanismo funcionou como um processo institucional positivo, inclusive com uma escola de defesa regional e trocas de experiências que ampliaram a convergência de políticas de financiamento de defesa.
O fracasso parcial e o que aprendemos com isso
Com o passar dos anos, a UNASUL e o CDS sofreram uma forte erosão institucional:
- A partir de 2016 vários países suspenderam participação ou reduziram engajamento por divergências políticas, mudanças de governo e crises internas.
- Alguns governos passaram a priorizar relações bilaterais externas, ao invés de projetos regionais de defesa conjunta.
- O bloco foi, por vezes, substituído por iniciativas menos robustas, como o Fórum para o Progresso e Desenvolvimento da América do Sul (PROSUL), que se concentrou em diálogo político econômico sem foco estratégico de segurança ou defesa.
O resultado foi um processo de integração que gerou lições valiosas, mas não consolidou mecanismos efetivos de defesa coletiva. As tensões políticas internas dificultaram a continuidade e o fortalecimento de uma arquitetura sustentável de segurança regional.
A principal lição é clara: sem compromisso político conjunto e instituições permanentes de cooperação, qualquer esforço de defesa regional tende a perder fôlego diante de crises internas ou políticas divergentes.
O cenário atual de defesa e gasto militar na América do Sul
Historicamente, os gastos militares na América do Sul são baixos se comparados a outras regiões do mundo. Em um estudo referente aos anos entre 2006 e 2010, a média sul-americana ficou em cerca de 0,9% do PIB em defesa, um patamar inferior a outros continentes e bastante distante de padrões de alianças militares maduras.
Brasil foi responsável por quase metade desse gasto total regional, seguido por países como Colômbia e Venezuela, enquanto muitas nações investiam menos de 1% do PIB em defesa nesse período.
Esses números refletem dois fatores importantes:
- Falta de integração das políticas de defesa, que tende a “diluir” a necessidade coletiva desses investimentos.
- Foco tradicional em problemas internos (crime organizado, segurança pública, desastres naturais), ao invés de uma visão estratégica de defesa externa comum.
Por que esse fracasso importa — e o que propomos agora?
A ausência de uma política de defesa coletiva não apenas deixa a região vulnerável em cenários extremos, mas também perde a chance estratégica de afirmar uma posição própria no sistema internacional, reduzindo dependência de potências externas, sejam elas EUA, União Europeia, China ou outras.
A América do Sul tem desafios únicos:
- vigilância do vasto espaço amazônico
- proteção de recursos naturais estratégicos
- defesa do Atlântico Sul
- segurança cibernética, eletrônica e espacial
- resposta coordenada a ameaças híbridas
Nenhum país isoladamente pode otimizar esses desafios com eficiência. É aqui que um projeto de defesa sul-americano sólido e gradual faz sentido.
Como construir essa aliança passo a passo?
Uma aliança sustentável hoje deveria ser planejada em três pilares coordenados:
1. Estrutura política e institucional
- Restabelecer um Conselho de Defesa permanente, respeitando a diversidade democrática de cada Estado.
- Decisões por consenso ou maioria qualificada, com cláusulas claras de não intervenção em assuntos internos.
- Princípios democráticos obrigatórios e mecanismos de transparência civil.
2. Integração operacional
- Centros regionais de vigilância e defesa aérea compartilhados.
- Exercícios conjuntos programados.
- Coordenação naval no Atlântico Sul.
- Defesa cibernética e inteligência partilhada.
3. Capacidade de dissuasão e indústria própria
- Padronização tecnológica onde possível.
- Investimento em pesquisa e produção de equipamentos de defesa regionais.
- Centros de treinamento conjuntos e educação militar compartilhada.
Esses passos permitem que a aliança evolua de forma incremental, realista e sustentável — sem rupturas traumáticas nem custos desproporcionais.
Quanto investir e por que vale a pena?
Não há fórmula mágica, mas alguns princípios devem orientar a aliança:
- Cada país deveria mirar, como referência mínima, um patamar de 1,5% a 2% do PIB em defesa integrada, com foco em cooperação, interoperabilidade e tecnologia comum (valor ainda abaixo da média de países com defesa coordenada em blocos como a OTAN).
- Os recursos seriam canalizados gradualmente, integrando sistemas em vez de competir entre compras desconexas de armamentos.
- Países com orçamentos menores podem contribuir com capacidades específicas (ex.: vigilância cibernética, logística humanitária, patrulha marítima, etc.), criando uma divisão de trabalho inteligente.
O objetivo não é militarizar a região, mas fortalecer soberanias, defender fronteiras e criar dissuasão legítima, econômica e política.
Conclusão
A América do Sul já tentou — e em parte conseguiu — criar mecanismos de cooperação em defesa. No entanto, a queda dos projetos como UNASUL e seu Conselho de Defesa ─ substituídos por fóruns sem poder operacional concreto ─ mostrou um fracasso parcial que custou autonomia e coesão estratégica à região.
Hoje, diante de desafios geopolíticos e tecnológicos inéditos, é hora de aprender com o passado e construir uma aliança de defesa sul-americana que seja democrática, gradual, autônoma e alinhada à realidade regional.
Uma aliança assim não ameaça ninguém — protege a paz e a soberania de todos.
📷: IBGE

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