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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Cambuís floridos e a memória da democracia



Em Brasília, entre dezembro e janeiro, é comum vermos os cambuis floridos a enfeitar centrais avenidas e ruas da cidade. São pequenas flores delicadas que surgem ao mesmo tempo em que o ano começa a ganhar vida — um sinal de renovação, resiliência e cuidado com o tempo que se inaugura

Assim como essas flores do Cerrado, nossa jovem democracia precisa ser vista como algo que se cultiva com atenção, respeito e responsabilidade.

Jamais percamos a consciência de que a democracia brasileira que hoje vivemos não é um fenômeno imutável. Ela foi reconquistada após 21 anos de ditadura militar, que vigorou de 1964 a 1985, substituindo autoritarismo por eleições livres e pelo Estado de Direito. 

Depois de tanto tempo sob um regime que cerceou liberdades fundamentais, censurou, perseguiu, prendeu, torturou e matou, o Brasil abriu caminho para que o poder retornasse ao povo — um processo histórico que exigiu coragem, mobilização social e um compromisso contínuo com a justiça e a liberdade.

No entanto, não podemos esqueceram de que essa conquista ainda enfrenta desafios!

Um episódio doloroso em nossa história recente ocorreu há três anos, em 8 de janeiro de 2023, logo após a posse presidencial daquele ano. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrava em Araraquara, no interior de São Paulo, acompanhando a situação de enchentes e dando assistência à população local, uma multidão de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro inconformados com a derrota nas urnas invadiu a Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Milhares de manifestantes ultrapassaram barreiras de segurança e invadiram e depredaram os edifícios que abrigam os três pilares do Estado Democrático de Direito — o Palácio do Planalto (Executivo), o Congresso Nacional (Legislativo) e o Supremo Tribunal Federal (Judiciário) — em uma tentativa explícita de derrocar um governo eleito e instaurar uma intervenção militar para restaurar o poder político de seu líder.

Durante horas, vidraças foram estilhaçadas, móveis e documentos destruídos, obras de arte danificadas e fachadas vandalizadas em uma cena que chocou o país e o mundo. A ação foi amplamente interpretada como uma tentativa de golpe de Estado, um ataque direto aos pilares que sustentam a democracia brasileira.

Esse episódio nos lembra que a democracia não é um dado adquirido, mas sim um compromisso vivo que se renova a cada dia. Como disse o filósofo francês Alexis de Tocqueville, “a democracia não é a obra de um dia, nem o trabalho de um homem; é uma grande obra coletiva que exige perseverança e vigilância constantes.”

O ataque de 8 de janeiro foi um alerta: a fragilidade institucional pode ser explorada por aqueles que confundem ideologia com imposição e que acreditam que a força pode sobrepor-se à vontade do povo. Como escreveu Hannah Arendt, o poder decorre unicamente da capacidade humana de agir em comum — e não pela destruição, violência ou intimidação.

Assim como os cambuis florescem no início do ano, a democracia floresce quando é cuidada com diálogo, respeito às instituições e compromisso com os direitos civis de todas as pessoas. É um chamado para que cada cidadão — seja no campo político, social ou cultural — seja guardião dessa conquista histórica, lembrando sempre que sua preservação depende da ação conjunta de todos nós.

Defender a democracia é defender o espaço onde as diferenças podem existir e transformar-se através de debate e escolha livre. É afirmar que, mesmo sob tempestades, continuamos — como os cambuis floridos sob o céu de Brasília — a brotar, renovar e resistir.

Que a lembrança de 8 de janeiro nos fortaleça na busca por um Brasil mais justo, pacífico e democrático, hoje e sempre.


📷: Agência Brasília

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