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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Porto do Meio em Itaguaí: desenvolvimento para quem, impactos para quem?



Nesta quinta-feira (22/01/2026), HOJE às 19 horas, Itaguaí sediará uma audiência pública de licenciamento ambiental para discutir o projeto denominado Porto do Meio, empreendimento voltado à movimentação e exportação de minério de ferro na região da Baía de Sepetiba. Trata-se de um momento institucional decisivo, pois é nessa etapa que o poder público, o empreendedor e a sociedade devem confrontar expectativas econômicas com riscos ambientais e sociais reais.

Audiências públicas não são mera formalidade administrativa. Elas existem para garantir o direito da população à informação, à participação e ao questionamento diante de projetos que podem alterar profundamente o território, o modo de vida das comunidades e o equilíbrio ambiental de uma região já intensamente pressionada.


Itaguaí e a lógica dos grandes empreendimentos

Itaguaí ocupa posição estratégica no cenário logístico nacional. Nas últimas décadas, a cidade concentrou portos públicos e privados, siderúrgicas, terminais de minério, pátios ferroviários e sucessivas dragagens na Baía de Sepetiba. Esse histórico não pode ser ignorado.

Projetos como o Porto do Meio não surgem em território neutro. Eles se somam a impactos já existentes sobre:


  • a qualidade da água e do ar;
  • os manguezais e ecossistemas costeiros;
  • a pesca artesanal;
  • a mobilidade urbana e ferroviária;
  • a saúde e o cotidiano da população local.


Por isso, qualquer análise séria precisa ir além do discurso genérico de “desenvolvimento” e enfrentar a pergunta central: desenvolvimento para quem, a que custo e sob quais garantias?


O papel do EIA/RIMA

O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e seu Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) existem justamente para responder a essas questões. Eles deveriam:


  • apresentar um diagnóstico ambiental realista da área;
  • identificar impactos negativos, positivos e cumulativos;
  • propor medidas mitigadoras e compensatórias claras;
  • estabelecer programas de monitoramento contínuo;
  • reconhecer incertezas e riscos.


Quando o RIMA minimiza impactos, fragmenta análises ou trata efeitos cumulativos como se fossem inexistentes, ele deixa de cumprir sua função social e passa a operar como peça de legitimação do empreendimento.


Impactos ambientais: o silêncio que preocupa

Entre os pontos que exigem atenção especial estão:


  • a possibilidade de novas dragagens e o destino do material dragado;
  • os efeitos sobre a dinâmica da Baía de Sepetiba;
  • a dispersão de pó de minério no ar;
  • a pressão adicional sobre manguezais e áreas sensíveis;
  • o aumento do tráfego marítimo e ferroviário.


Esses impactos não afetam apenas “o meio ambiente” de forma abstrata: afetam diretamente comunidades humanas, especialmente pescadores artesanais e moradores de áreas já vulnerabilizadas.


Dimensão social e econômica: promessas e limites

Empreendimentos portuários costumam anunciar geração de empregos e crescimento econômico. No entanto, experiências anteriores mostram que:


  • muitos empregos são temporários, concentrados na fase de obras;
  • postos permanentes exigem alta especialização, muitas vezes não absorvendo mão de obra local;
  • os custos sociais e ambientais permanecem no território mesmo quando os ciclos econômicos se encerram.


Sem compromissos formais de capacitação, priorização de mão de obra local e compensações socioeconômicas, o discurso do benefício coletivo torna-se frágil.


A audiência pública como espaço democrático (ou ritual vazio)

A audiência pública é o único momento institucional em que a população pode:


  • fazer perguntas diretamente;
  • registrar críticas em ata;
  • influenciar condicionantes ambientais;
  • exigir transparência e compromissos verificáveis.


Quando esse espaço é tratado apenas como cumprimento de tabela, esvazia-se o próprio sentido da democracia ambiental prevista na legislação brasileira.

Participar, perguntar e cobrar respostas claras não é ser “contra o desenvolvimento”. É exigir responsabilidade, planejamento e justiça territorial.


PERGUNTAS PARA A AUDIÊNCIA PÚBLICA

(instrumento de participação cidadã)


Sobre o licenciamento e o RIMA

  1. O licenciamento ambiental do Porto do Meio é estadual ou federal? Quais critérios justificam essa escolha?
  2. O RIMA considera os impactos cumulativos do empreendimento somados aos demais portos e indústrias já existentes em Itaguaí?
  3. Os dados ambientais utilizados são atuais? Qual o período de referência dos levantamentos?
  4. Quais impactos o próprio RIMA classifica como negativos e significativos?


Meio ambiente e Baía de Sepetiba

  1. O projeto prevê dragagem? Qual o volume estimado e o destino do material dragado?
  2. Quais os riscos identificados para a Baía de Sepetiba e como serão mitigados?
  3. Que medidas estão previstas para controle de poeira de minério?
  4. Haverá monitoramento contínuo da qualidade do ar e da água? Esses dados serão públicos?


Comunidades tradicionais e pesca

  1. O RIMA reconhece impactos sobre a pesca artesanal? Quais?
  2. Pescadores e comunidades tradicionais participaram da elaboração do estudo?
  3. Existem medidas compensatórias ou indenizatórias previstas para esses grupos?


Logística e impactos urbanos

  1. O estudo avalia o aumento do tráfego ferroviário em áreas urbanas?
  2. Quais bairros serão mais impactados por ruído, vibração e riscos operacionais?
  3. Há medidas específicas para mitigação do ruído, inclusive no período noturno?


Empregos e economia local

  1. Quantos empregos permanentes estão previstos após a fase de obras?
  2. Existe compromisso formal de priorização da mão de obra local?
  3. Há programas de capacitação profissional para moradores de Itaguaí?


Fiscalização e controle social

  1. Quem será responsável por fiscalizar o cumprimento das condicionantes ambientais?
  2. O Ministério Público terá acesso contínuo aos relatórios de monitoramento?
  3. Existirá canal permanente de diálogo com a população após a licença?
  4. Se os impactos reais forem maiores que os previstos, quais medidas corretivas estão previstas?


Conclusão

O debate sobre o Porto do Meio não é apenas técnico: é político, social e ético. Ele envolve escolhas sobre o futuro de Itaguaí, sobre quem decide, quem se beneficia e quem arca com os riscos.

A audiência pública é um direito da sociedade. Participar dela de forma informada, crítica e organizada é essencial para que decisões de grande impacto não sejam tomadas à revelia da população.

Desenvolvimento verdadeiro não se mede apenas em toneladas exportadas, mas em qualidade de vida, justiça ambiental e democracia.


📍Informações sobre a Audiência Pública 

🗓 Hoje – 22/01/2026

🕖 19h

📍 Igreja Dunamis

(Rua Coronel Macedo Soares, 19 – Progresso)


📺 Transmissão AO VIVO pelo YouTube

https://www.youtube.com/live/g2ttm1o5fHk?si=eKn757Qwk6YCJrbN


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https://audienciaportodomeio.com.br/ 

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