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| Donald Trump ao sair do Air Force One após chegar na Flórida |
A atual conjuntura internacional reacendeu um debate antigo: até que ponto os Estados Unidos, com seu poder militar e econômico, representam atualmente um perigo para o mundo? Entre ações unilaterais recentes — como a intervenção na Venezuela e declarações sobre Colômbia, México, Cuba e Groenlândia — e o funcionamento de suas instituições democráticas, o cenário é complexo e exige uma análise detalhada.
Capacidade de ação
Não há dúvidas de que os EUA continuam a ser a principal potência militar global. Com um orçamento de defesa superior a US$ 1 trilhão por ano, presença em quase todos os continentes e tecnologia de ponta — incluindo forças nucleares, drones de ataque e guerra cibernética — o país possui meios para projetar poder praticamente em qualquer região do planeta.
Essa capacidade cria uma responsabilidade internacional enorme, porque qualquer decisão unilateral tem potencial de afetar a estabilidade regional ou global. O controle de recursos estratégicos, como o petróleo venezuelano, exemplifica como decisões políticas podem gerar efeitos econômicos e geopolíticos imediatos.
Limites institucionais e internos
Apesar de sua força, os EUA não são um Estado sem freios. Diferentemente de governos autoritários, suas ações externas estão sujeitas a sistemas de checagem interna:
- Congresso: autorizações para ações militares e controle orçamentário;
- Suprema Corte e tribunais: podem questionar abusos de poder;
- Mídia e opinião pública: influência direta sobre decisões de guerra, diplomacia e sanções;
- Sistema federal e burocracia: Departamentos do Estado, Defesa e Energia atuam como freios técnicos e diplomáticos.
Mesmo um presidente popular pode ter sua margem de ação limitada, sobretudo em operações militares extensas ou controle de recursos externos sem respaldo legal interno.
Impacto no mundo
Desde a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro, a reação global — especialmente fora da América Latina — tem sido ampla e, em muitos casos, crítica ao uso da força sem amparo claro nas normas do direito internacional. Na Europa, países como França e Alemanha expressaram “preocupação” com a operação americana, lembrando que o uso da força contraria o princípio da não utilização da força que sustenta a ordem jurídica global, e que qualquer solução duradoura deve emergir de processos negociais e soberanos, não de ações externas.
Organismos regionais e Estados africanos também levantaram questionamentos. O Departamento de Relações Internacionais da África do Sul, por exemplo, pediu ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que trate o episódio como uma questão urgente, reforçando que conflitos entre Estados soberanos devem ser analisados pelos mecanismos multilaterais previstos na Carta das Nações Unidas.
Na Ásia, países como China criticaram fortemente a intervenção, afirmando que a ação dos EUA viola o direito internacional, ameaça a soberania estatal e prejudica a paz e a segurança regionais e globais.
Outros governos asiáticos optaram por uma postura mais cautelosa, enfatizando a necessidade de respeito à legalidade internacional e ao princípio da solução pacífica de conflitos, ao mesmo tempo que navegam relações econômicas e diplomáticas complexas com Washington.
Líderes europeus e instituições multilateralistas veem na operação uma ameaça à ordem multilateral construída após a Segunda Guerra Mundial, alertando que a normalização de intervenções extraterritoriais pode enfraquecer mecanismos de paz e segurança coletiva e abrir caminho para uma “lei do mais forte” como régua das relações entre Estados.
Em conjunto, essas reações refletem um entendimento crescente em diversas regiões do mundo: a soberania e o direito internacional não são meros enunciados retóricos, mas pilares essenciais para a estabilidade global — e a erosão desses princípios por meio de ações unilaterais, por mais justificadas que sejam politicamente, alimenta incertezas e tensões que podem repercutir muito além de uma crise pontual na América Latina.
Desse modo, devemos reconhecer que, quando os EUA agem de forma unilateral ou improvisada, podem gerar:
- Tensões internacionais: aumento de conflitos latentes, instabilidade regional e rivalidades estratégicas (ex.: Venezuela, Taiwan, Ucrânia);
- Crises humanitárias indiretas: deslocamentos populacionais, escassez econômica ou pressões sociais;
- Precedentes geopolíticos perigosos: outras potências podem seguir a lógica do intervencionismo se perceberem que a força sem sanção multilateral é aceitável.
Por outro lado, quando operam em coalizões ou sob normas multilaterais, os EUA desempenham papel de estabilizador global, promovendo acordos diplomáticos, missões de paz e segurança econômica.
Grupos econômicos e influências internas
Não se deve ignorar a influência de setores privados e grupos de interesse nos EUA, especialmente ligados à indústria de defesa, energia e petróleo. A pressão desses atores pode impulsionar ações externas que nem sempre correspondem ao interesse público ou ao consenso internacional. Ainda assim, o sistema institucional americano é capaz de conter excessos, seja via Congresso, tribunais ou opinião pública.
Conclusão
- Capacidade de perigo ao mundo: alta, devido à força militar e influência econômica.
- Intenção realista de causar caos global: limitada, graças a freios internos e instituições democráticas.
- Risco principal: decisões unilaterais isoladas ou influenciadas por interesses econômicos, sem respaldo legislativo ou internacional.
Em outras palavras, os EUA permanecem uma superpotência indispensável, mas seu poder precisa ser exercido com equilíbrio e respeito a normas internacionais. O mundo observa atentamente, consciente de que erros de cálculo ou ações motivadas apenas por interesses internos podem gerar crises de proporções globais.
💬 E você, leitor? Como vê o papel dos EUA hoje: estabilizador global ou risco real para o mundo? Deixe sua opinião nos comentários e participe do debate.
📷: Kevin Lamarque/Reuters

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