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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Entre o possível e o necessário: esquerda, hegemonia e os dilemas de 2026



Que país queremos, mesmo que ainda não seja possível?

Como avançar agora, com o país que temos?


O debate recente em torno de um vídeo conciliador de Lula, gravado na Marambaia, revelou mais do que uma divergência pontual de estilo político. Ele escancarou uma tensão antiga e recorrente dentro da esquerda brasileira: a disputa entre pragmatismo eleitoral e radicalidade programática. Essa tensão não é apenas conjuntural ou tática — ela é filosófica, histórica e estratégica.

Em um cenário pré-eleitoral, como o que se desenha para 2026, esse dilema ganha contornos ainda mais decisivos. Afinal, não se trata apenas de vencer eleições, mas de dar sentido ao futuro.


O dilema fundamental: governar ou transformar?

De um lado, o pragmatismo eleitoral, associado ao lulismo e à experiência concreta de governo, parte da seguinte pergunta:

“Como avançar agora, com o país que temos?”

Do outro, a radicalidade programática, presente em setores mais à esquerda, insiste em outra questão:

“Que país queremos, mesmo que ainda não seja possível?”

Ambas são perguntas legítimas. O problema surge quando uma elimina a outra. Quando o pragmatismo perde o horizonte, a política vira mera administração do possível. Quando a radicalidade ignora a realidade, transforma-se em virtude sem eficácia.

Esse conflito interno da esquerda dialoga, de forma surpreendente, com uma tradição filosófica que começa em Platão e atravessa Aristóteles, Hegel e Gramsci.


Platão: o mundo como é e o mundo como deveria ser

O dualismo platônico distingue o mundo sensível, da aparência e da contingência, do mundo das Ideias, onde residem a justiça e o bem. O erro, para Platão, não é viver no mundo sensível — isso é inevitável — mas confundi-lo com a medida última da realidade.

Na política contemporânea, o pragmatismo corre o risco de aceitar a “caverna” como destino. Já a radicalidade, quando absolutizada, corre o risco inverso: contemplar o ideal sem retornar à pólis.

Platão, no entanto, propõe mediação: o filósofo deve voltar à cidade para governá-la à luz das Ideias. Política sem ideal vira cinismo; ideal sem política vira impotência.


Aristóteles: prudência sem oportunismo

Aristóteles corrige Platão ao rejeitar um dualismo rígido. Para ele, a política é o campo da phronesis, da prudência prática orientada pelo bem comum. Não se governa com abstrações, mas também não se governa sem fins éticos.

Aplicado à esquerda brasileira, Aristóteles lembraria que:


  • o pragmatismo é necessário para governar;
  • mas, sem finalidade moral clara, degenera em autopreservação;
  • a radicalidade é virtuosa, mas precisa se traduzir em prática.


A prudência aristotélica não é renúncia ao ideal — é meio para realizá-lo.


Hegel: a história como processo, não como repouso

Hegel supera o dualismo mostrando que o ideal se realiza na história, por meio da dialética. O real não é estático; ele se transforma por negações e superações sucessivas.

Nesse sentido, o lulismo pode ser visto como uma síntese histórica: nem ruptura, nem autoritarismo. O problema surge quando a síntese se prolonga e passa a parecer fim da história, não etapa transitória.

A esquerda que governa sem tensionar o presente corre o risco de naturalizar o que é apenas provisório. Já a esquerda que apenas nega, sem construir síntese, permanece politicamente estéril.


Gramsci: hegemonia, guerra de posição e sentido histórico

É em Gramsci que o dilema encontra sua formulação mais concreta. Para ele, política não é apenas governo, mas direção moral e cultural da sociedade. Hegemonia se constrói na linguagem, no cotidiano, nos valores.

A esquerda brasileira, hoje, governa mais do que hegemoniza. A direita, mesmo com propostas frágeis, ocupa vazios fundamentais:


  • fala a linguagem da moral cotidiana;
  • organiza afetos, medos e identidades;
  • oferece sensação de movimento e ruptura.


Enquanto isso, a esquerda frequentemente fala em defesa, gestão e contenção de danos.


Três cenários possíveis para 2026


1. Vitória apertada da esquerda

O cenário mais provável. Uma vitória defensiva, sustentada pelo medo do retrocesso. Garante a democracia, mas deixa uma hegemonia frágil e um governo permanentemente pressionado.


2. Vitória da direita

Possível se o desgaste do governo se combinar com discurso moral simples e sensação de mudança. Seria uma vitória narrativa antes de ser programática.


3. Fragmentação

O cenário mais perigoso. Abstenção alta, descrédito generalizado e abertura para aventuras autoritárias. Gramsci chamaria de crise orgânica: o velho não morreu, o novo não nasceu.


Uma estratégia gramsciana concreta para a esquerda hoje

Sem voluntarismo e sem conciliação vazia, uma estratégia gramsciana exigiria:


  1. Reorganizar a linguagem: Falar de trabalho, cuidado, futuro dos filhos, dignidade concreta — sem abandonar o conteúdo, mas mudando o enquadramento.

  2. Conectar política à vida material: Transformar políticas públicas em narrativas de conquista coletiva, com sentido moral e conflito visível.

  3. Disputar a moralidade: Não com moralismo, mas com uma ética do cuidado, da justiça social e da responsabilidade histórica.

  4. Nomear antagonismos: Negociar institucionalmente, mas deixar claro quem ganha e quem perde com determinados modelos econômicos e sociais.

  5. Produzir futuro: Não apenas evitar o passado, mas imaginar coletivamente o amanhã.


Conclusão

O desafio da esquerda brasileira não é escolher entre pragmatismo e radicalidade, mas articular prudência, conflito histórico e hegemonia cultural.

Como lembrariam Aristóteles, Hegel e Gramsci, cada um à sua maneira:


Governar bem é necessário.
Dar sentido ao futuro é indispensável.


Sem isso, mesmo as vitórias eleitorais tendem a ser curtas — e as derrotas, duradouras.

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