Que país queremos, mesmo que ainda não seja possível?
Como avançar agora, com o país que temos?
O debate recente em torno de um vídeo conciliador de Lula, gravado na Marambaia, revelou mais do que uma divergência pontual de estilo político. Ele escancarou uma tensão antiga e recorrente dentro da esquerda brasileira: a disputa entre pragmatismo eleitoral e radicalidade programática. Essa tensão não é apenas conjuntural ou tática — ela é filosófica, histórica e estratégica.
Em um cenário pré-eleitoral, como o que se desenha para 2026, esse dilema ganha contornos ainda mais decisivos. Afinal, não se trata apenas de vencer eleições, mas de dar sentido ao futuro.
O dilema fundamental: governar ou transformar?
De um lado, o pragmatismo eleitoral, associado ao lulismo e à experiência concreta de governo, parte da seguinte pergunta:
“Como avançar agora, com o país que temos?”
Do outro, a radicalidade programática, presente em setores mais à esquerda, insiste em outra questão:
“Que país queremos, mesmo que ainda não seja possível?”
Ambas são perguntas legítimas. O problema surge quando uma elimina a outra. Quando o pragmatismo perde o horizonte, a política vira mera administração do possível. Quando a radicalidade ignora a realidade, transforma-se em virtude sem eficácia.
Esse conflito interno da esquerda dialoga, de forma surpreendente, com uma tradição filosófica que começa em Platão e atravessa Aristóteles, Hegel e Gramsci.
Platão: o mundo como é e o mundo como deveria ser
O dualismo platônico distingue o mundo sensível, da aparência e da contingência, do mundo das Ideias, onde residem a justiça e o bem. O erro, para Platão, não é viver no mundo sensível — isso é inevitável — mas confundi-lo com a medida última da realidade.
Na política contemporânea, o pragmatismo corre o risco de aceitar a “caverna” como destino. Já a radicalidade, quando absolutizada, corre o risco inverso: contemplar o ideal sem retornar à pólis.
Platão, no entanto, propõe mediação: o filósofo deve voltar à cidade para governá-la à luz das Ideias. Política sem ideal vira cinismo; ideal sem política vira impotência.
Aristóteles: prudência sem oportunismo
Aristóteles corrige Platão ao rejeitar um dualismo rígido. Para ele, a política é o campo da phronesis, da prudência prática orientada pelo bem comum. Não se governa com abstrações, mas também não se governa sem fins éticos.
Aplicado à esquerda brasileira, Aristóteles lembraria que:
- o pragmatismo é necessário para governar;
- mas, sem finalidade moral clara, degenera em autopreservação;
- a radicalidade é virtuosa, mas precisa se traduzir em prática.
A prudência aristotélica não é renúncia ao ideal — é meio para realizá-lo.
Hegel: a história como processo, não como repouso
Hegel supera o dualismo mostrando que o ideal se realiza na história, por meio da dialética. O real não é estático; ele se transforma por negações e superações sucessivas.
Nesse sentido, o lulismo pode ser visto como uma síntese histórica: nem ruptura, nem autoritarismo. O problema surge quando a síntese se prolonga e passa a parecer fim da história, não etapa transitória.
A esquerda que governa sem tensionar o presente corre o risco de naturalizar o que é apenas provisório. Já a esquerda que apenas nega, sem construir síntese, permanece politicamente estéril.
Gramsci: hegemonia, guerra de posição e sentido histórico
É em Gramsci que o dilema encontra sua formulação mais concreta. Para ele, política não é apenas governo, mas direção moral e cultural da sociedade. Hegemonia se constrói na linguagem, no cotidiano, nos valores.
A esquerda brasileira, hoje, governa mais do que hegemoniza. A direita, mesmo com propostas frágeis, ocupa vazios fundamentais:
- fala a linguagem da moral cotidiana;
- organiza afetos, medos e identidades;
- oferece sensação de movimento e ruptura.
Enquanto isso, a esquerda frequentemente fala em defesa, gestão e contenção de danos.
Três cenários possíveis para 2026
1. Vitória apertada da esquerda
O cenário mais provável. Uma vitória defensiva, sustentada pelo medo do retrocesso. Garante a democracia, mas deixa uma hegemonia frágil e um governo permanentemente pressionado.
2. Vitória da direita
Possível se o desgaste do governo se combinar com discurso moral simples e sensação de mudança. Seria uma vitória narrativa antes de ser programática.
3. Fragmentação
O cenário mais perigoso. Abstenção alta, descrédito generalizado e abertura para aventuras autoritárias. Gramsci chamaria de crise orgânica: o velho não morreu, o novo não nasceu.
Uma estratégia gramsciana concreta para a esquerda hoje
Sem voluntarismo e sem conciliação vazia, uma estratégia gramsciana exigiria:
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Reorganizar a linguagem: Falar de trabalho, cuidado, futuro dos filhos, dignidade concreta — sem abandonar o conteúdo, mas mudando o enquadramento.
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Conectar política à vida material: Transformar políticas públicas em narrativas de conquista coletiva, com sentido moral e conflito visível.
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Disputar a moralidade: Não com moralismo, mas com uma ética do cuidado, da justiça social e da responsabilidade histórica.
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Nomear antagonismos: Negociar institucionalmente, mas deixar claro quem ganha e quem perde com determinados modelos econômicos e sociais.
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Produzir futuro: Não apenas evitar o passado, mas imaginar coletivamente o amanhã.
Conclusão
O desafio da esquerda brasileira não é escolher entre pragmatismo e radicalidade, mas articular prudência, conflito histórico e hegemonia cultural.
Como lembrariam Aristóteles, Hegel e Gramsci, cada um à sua maneira:
Governar bem é necessário.Dar sentido ao futuro é indispensável.
Sem isso, mesmo as vitórias eleitorais tendem a ser curtas — e as derrotas, duradouras.

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