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sábado, 24 de janeiro de 2026

Todos os pré-candidatos deveriam responder um questionário explicando por que querem ser deputados



(Uma boa prática democrática para 2026: mais transparência, mais política, menos improviso)

A escolha de candidaturas nos partidos brasileiros ocorre nas convenções, por lei. O debate aqui é outro: como os partidos se preparam para esse momento? 

Em 2026, com a desconfiança crescente na política, sugiro uma prática simples e transparente aos partidos: após o prazo de filiação para fins eleitorais (06/04/2025), pedir voluntariamente que filiados interessados em cargos proporcionais respondam a um questionário político-programático. 

Não se trata de pré-seleção ilegal, mas de organização e respeito ao eleitor/filiado.


⚖️ É juridicamente possível? Sim.

A adoção de questionários programáticos por partidos políticos encontra amparo direto no ordenamento jurídico brasileiro, especialmente na Constituição Federal e na legislação eleitoral.

A nossa Carta Magna de 1988, em seu artigo 17, assegura aos partidos políticos autonomia para definir sua organização interna, funcionamento e critérios de atuação, desde que respeitados os princípios democráticos. Essa independência não se limita à escolha formal de candidatos em convenção, mas abrange também procedimentos internos de debate, formação política, transparência e organização programática.

O Código Eleitoral (Lei nº 4.737/1965) e a Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) regulam o processo eleitoral propriamente dito, mas não proíbem que partidos, antes do período oficial de campanha, promovam debates internos, solicitem manifestações políticas de seus filiados ou divulguem posições programáticas. O que a legislação veda é a propaganda eleitoral antecipada, especialmente quando há pedido explícito ou implícito de voto, o que não se confunde com a apresentação de ideias, trajetórias ou motivações políticas.

A própria Lei das Eleições, em seu artigo 36-A, reconhece como lícitas diversas formas de manifestação política pré-eleitoral, desde que ausente o pedido de voto, incluindo a divulgação de posicionamentos, opiniões e debates públicos. Questionários que tratem de visão de mandato, prioridades legislativas e compromisso institucional se enquadram nesse campo do debate político legítimo.

Assim sendo, quando adotados com linguagem neutra, padronização e ausência de pedido de voto, esses instrumentos não configuram propaganda eleitoral antecipada, mas sim exercício legítimo da autonomia partidária, do direito à informação e da transparência política.

Frise-se que a legislação eleitoral brasileira não proíbe:


  • a coleta de informações programáticas;
  • a divulgação de posições políticas;
  • a apresentação pública de pré-candidatos;
  • a comunicação institucional dos partidos.


Todavia, como já dito, o que a lei veda é a propaganda eleitoral antecipada, especialmente quando há pedido explícito ou implícito de voto, exaltação pessoal com finalidade eleitoral com o uso de linguagem típica de campanha.

Formulários com perguntas sobre trajetória, ideias, prioridades e visão de mandato, divulgados de forma impessoal, padronizada e sem pedido de voto, não configuram propaganda antecipada. São, na verdade, debate político legítimo.

Por fim, quanto à Lei dos Partidos Políticos (Lei nº 9.096/1995), a norma reforça esse entendimento ao reconhecer que os partidos são instrumentos essenciais da democracia, responsáveis pela formação da vontade política e pela mediação entre sociedade e Estado. Solicitar que pré-candidatos expliquem por que pretendem disputar determinado cargo é parte dessa função democrática, não sua negação.

De qualquer modo, é importante ressaltar: tais questionários não podem ser impostos como requisito legal para candidatura, nem utilizados para impedir a participação de filiados nas convenções. Seu caráter deve ser moral, político e organizacional, jamais coercitivo. A adesão terá que ser voluntária, porém o procedimento sempre igual para todos, com regras previamente divulgadas e prazos objetivos.


🧭 Não é obrigatório — e justamente por isso é transparente

Como já exposto, a prática aqui sugerida não pode e nem deve ser obrigatória. Nenhum filiado pode ser impedido de participar da convenção por deixar de preencher e enviar os formulários. Porém, todos podem — e devem — ser tratados igualmente e daí partido pode:

  • divulgar previamente as regras;
  • fixar um prazo claro para envio;
  • disponibilizar o mesmo formulário a todos os interessados;
  • publicar os conteúdos recebidos de forma padronizada.


Se alguns optarem por não enviar, isso não geraria exclusão — apenas informação objetiva. E, devido a isso, fica a sugestão de alguns exemplos de avisos públicos adequados:


  • “Formulário recebido e publicado”
  • “Aguardando o envio do formulário pelo filiado”
  • “Formulário não enviado até o prazo limite (xx/06/2026)”


Tudo deve ser feito sem juízo de valor e sem exposição negativa. Apenas transparência.


🌐 Transparência para dentro e para fora

Nada impede — e tudo recomenda — que essas informações sejam disponibilizadas:


  • no site do partido;
  • em páginas institucionais;
  • nos canais oficiais de comunicação.


Digo e repito que, quando feitas com linguagem neutra, padronização visual e igualdade de espaço, essas divulgações fortalecem o partido, qualificam o debate político e ajudam o eleitor a entender quem pretende representá-lo e por quê.

O próprio pré-candidato também pode divulgar seu formulário, desde que o faça como manifesto político, sem pedido de voto, sem slogans e sem estética de campanha.


🗳️ E mais: essas perguntas não são só para o partido — são para o eleitor

Talvez o ponto mais importante seja este:
muitas dessas perguntas deveriam ser feitas pelo eleitor aos pré-candidatos.

Por que essa pessoa quer disputar o mandato?
Que interesses representa?
Que limites éticos assume?
Que tipo de atuação pretende exercer?

Sem isso, continuaremos escolhendo nomes antes de discutir projetos.


📌 Perguntas que deveriam orientar esse processo

A seguir compartilho exemplos de algumas perguntas que os partidos poderiam opcionalmente fazer constar em seus questionários aos candidatos e candidatas, todas condensadas num formulário objetivo, com a possibilidade de adaptarem ao contexto do ano eleitoral e aos princípios ideológicos da agremiação.


1️⃣ Perguntas aos pré-candidatos a deputado federal


  • Por que você quer ser deputado federal, e qual sua visão de país?
  • Quais são suas prioridades legislativas com impacto nacional?
  • Qual sua posição sobre orçamento, responsabilidade fiscal e políticas sociais?
  • Como você enxerga a relação entre Congresso, Executivo e Judiciário?
  • Que postura adotará diante de crises institucionais e pressões eleitorais?
  • Como pretende usar emendas parlamentares e prestar contas do mandato?
  • Está disposto a atuar em bancada e respeitar decisões coletivas do partido?


2️⃣ Perguntas aos pré-candidatos a deputado estadual


  • Por que disputar um mandato estadual, e que papel você atribui à assembleia legislativa?
  • Quais problemas do seu estado você conhece em profundidade?
  • Que áreas pretende priorizar: fiscalização, legislação, articulação regional?
  • Como pretende atuar no orçamento estadual?
  • Qual sua visão sobre políticas públicas essenciais (saúde, educação, segurança, mobilidade)?
  • Como será sua relação com prefeitos, sociedade civil e o Executivo estadual?


3️⃣ Perguntas específicas para candidatos no Rio de Janeiro 

(cada Executiva Estadual pode preparar suas próprias questões regionais)


  • Qual sua leitura sobre a crise fiscal e institucional do Estado do RJ?
  • Que soluções propõe para segurança pública sem abrir mão do Estado de Direito?
  • Como enfrentar desigualdades regionais entre capital, Baixada, interior e regiões metropolitanas?
  • Qual sua posição sobre transporte público, mobilidade e políticas urbanas?
  • Como conciliar desenvolvimento econômico, cultura e preservação ambiental no estado?
  • Que compromisso assume com transparência, fiscalização e controle do gasto público no RJ?


✳️ Conclusão

Adotar isso em 2026 não é radical: é maturidade. 
Partidos sérios publicam respostas padronizadas, fortalecendo o debate. 
Eleitores, façam essas perguntas! 
Só assim, recuperaremos credibilidade: quem representa, por quê e para quê.

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