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sábado, 17 de janeiro de 2026

Trump, Gaza e o Conselho da Paz: Entre o poder internacional e a soberania palestina



O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou recentemente a criação do chamado Conselho da Paz, órgão internacional destinado a supervisionar o governo tecnocrático da Faixa de Gaza. A iniciativa, que já incluiu nomes como o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e líderes como Marco Rubio, propõe uma governança transitória da região marcada por conflitos históricos e crises humanitárias. O convite estendeu-se também ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, ao argentino Javier Milei e ao turco Recep Tayyip Erdogan, embora o governo brasileiro ainda não tenha se posicionado oficialmente.


Um plano distante da criação de um Estado palestino

Apesar da retórica de “paz e estabilidade”, o plano de Trump não prevê a criação de um Estado palestino soberano, nem mesmo após um período de transição supervisionada. Gaza permaneceria sob a administração de tecnocratas e supervisão internacional, enquanto Israel manteria influência sobre a segurança do território. O Hamas, apesar da pressão internacional, ainda permanece ativo em diversas áreas de Gaza, mantendo funções administrativas e certo poder local.

Essa ausência de soberania efetiva contrasta diretamente com a solução de dois Estados, defendida historicamente pelo Brasil, por grande parte da comunidade internacional e reiterada em fóruns da ONU. Enquanto a política brasileira sempre apoiou a coexistência de Israel e Palestina como Estados independentes (Lula tem reiterado o apoio a dois Estados), o plano de Trump limita a autodeterminação palestina e mantém o controle de fato nas mãos de atores internacionais e do próprio governo americano.


A presença de Tony Blair e o peso simbólico do Conselho

A inclusão de Tony Blair é um elemento particularmente controverso. O ex-primeiro-ministro britânico é lembrado no Oriente Médio por seu papel na Guerra do Iraque, e sua participação em um órgão que supervisionaria a governança palestina suscita desconfiança. Para críticos, a presença de Blair reforça a percepção de interferência externa e “colonialismo” moderno, em vez de uma solução que respeite a soberania local.


O dilema brasileiro: riscos e benefícios

Para o Brasil, o convite para integrar o Conselho da Paz apresenta benefícios diplomáticos claros, incluindo a oportunidade de se colocar como mediador internacional e reforçar sua imagem global. No entanto, os riscos são igualmente relevantes. Participar de um órgão que supervisiona Gaza sem garantir soberania palestina pode ser interpretado como um desalinhamento da política histórica do país, que apoia a solução de dois Estados.

Além disso, há implicações internas: aceitar o convite pode gerar debates sobre neutralidade diplomática e alinhamento com os Estados Unidos, enquanto recusar poderia ser interpretado como ausência de protagonismo internacional. A decisão exigirá, portanto, uma avaliação cuidadosa do Itamaraty, envolvendo análise de riscos políticos, geopolíticos e humanitários.


Conclusão: entre pragmatismo e princípios

O plano de Trump para Gaza, com seu Conselho da Paz, representa um movimento audacioso na diplomacia internacional, combinando política, segurança e reconstrução humanitária. No entanto, sua distância da criação de um Estado palestino soberano, a presença de figuras controversas e a manutenção do poder de Israel sobre a região colocam limites claros à sua legitimidade.

Para o Brasil, a participação no conselho poderá ser uma oportunidade estratégica, mas desde que seja ponderada frente à política histórica de apoio à solução de dois Estados, ao respeito à autodeterminação palestina e à percepção internacional sobre imparcialidade diplomática. Em última análise, o desafio será equilibrar pragmatismo político e princípios históricos de soberania e direitos civis, evitando transformar uma iniciativa de estabilidade em um instrumento de controvérsia internacional.

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