Há 337 anos, em 18 de janeiro de 1689, nascia Charles-Louis de Secondat, barão de Montesquieu, um dos mais influentes filósofos e juristas do Iluminismo europeu. Seu pensamento atravessou séculos e permanece vivo nas constituições modernas, na filosofia política e na própria ideia contemporânea de liberdade.
Montesquieu viveu em um período marcado por profundas tensões: o auge e o início do declínio do absolutismo, guerras dinásticas, sociedades ainda fortemente hierarquizadas e o surgimento de novas ideias sobre razão, direitos e limites do poder.
Contexto histórico: a Europa no tempo de Montesquieu
Montesquieu nasceu sob o reinado de Luís XIV, o “Rei Sol”, símbolo máximo do absolutismo francês, cujo lema implícito era “o Estado sou eu”. A França concentrava poder político, militar e simbólico na figura do monarca, com a corte instalada em Versalhes e uma nobreza dependente dos favores reais.
Durante sua vida, a França foi governada por:
- Luís XIV (1643–1715)
- Luís XV (1715–1774)
Enquanto isso, a Europa apresentava modelos contrastantes de poder:
- Inglaterra, após a Revolução Gloriosa de 1688, já vivia uma monarquia constitucional, com o poder do rei limitado pelo Parlamento.
- Prússia e Rússia combinavam absolutismo político com estruturas sociais ainda fortemente feudais, sobretudo no campo.
- O Sacro Império Romano-Germânico permanecia fragmentado, com múltiplos centros de poder.
Essas diferenças institucionais foram fundamentais para a reflexão de Montesquieu, que observou como o excesso de poder concentrado levava à arbitrariedade, enquanto sua divisão favorecia a liberdade.
Breve biografia
Montesquieu nasceu no castelo de La Brède, próximo a Bordeaux, em uma família da nobreza de toga. Formou-se em Direito, herdou um cargo no Parlamento de Bordeaux e teve contato direto com a prática jurídica.
Viajou amplamente pela Europa, especialmente pela Inglaterra, onde observou o funcionamento de um sistema político mais equilibrado entre rei, Parlamento e tribunais. Essas experiências moldaram decisivamente seu pensamento.
Além disso, na Itália, ele estudou o legado do Direito Romano, as repúblicas italianas históricas e a relação entre religião, poder e costumes. Essa experiência reforçou sua percepção de que as instituições políticas são moldadas pela história e pela cultura, não por fórmulas abstratas.
Já na Holanda, Montesquieu entrou em contato com uma sociedade mercantil e relativamente tolerante, com maior liberdade religiosa e de imprensa, além de instituições políticas menos centralizadas. E, neste sentido, a experiência holandesa foi essencial para a sua reflexão sobre liberdade civil, economia e moderação do poder.
Pode-se afirmar que as suas viagens consolidaram sua metodologia comparativa, que atingiria maturidade plena na obra O Espírito das Leis.
Montesquieu Morreu em Paris, em 1755, reconhecido internacionalmente como um dos grandes pensadores de seu tempo.
As cinco principais obras de Montesquieu
1. Cartas Persas (1721):
Uma sátira brilhante em forma de cartas fictícias, nas quais viajantes persas descrevem e criticam os costumes franceses. A obra questiona o etnocentrismo europeu, o absolutismo, a intolerância religiosa e os excessos da sociedade cortesã.
2. Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e de sua decadência (1734):
Análise histórica inovadora do Império Romano, relacionando política, virtude cívica, corrupção e decadência — antecipando uma visão quase “sociológica” da história.
3. Reflexões sobre a monarquia universal na Europa (1734):
Ensaio crítico sobre a impossibilidade e os riscos de um poder hegemônico continental. O próprio autor evitou ampla divulgação, ciente da sensibilidade política do tema.
4. O Espírito das Leis (1748):
Sua obra-prima. Nela, Montesquieu formula a teoria da separação dos poderes — Legislativo, Executivo e Judiciário — como condição essencial da liberdade política. Defende também que as leis devem considerar cultura, clima, economia e costumes, rejeitando modelos universais abstratos.
5. Defesa do Espírito das Leis (1750):
Texto escrito em resposta às críticas recebidas, especialmente de setores religiosos e conservadores, no qual esclarece e reforça seus argumentos.
Os tipos de governo segundo Montesquieu
Recepção política e reações ao seu pensamento
Embora crítico do absolutismo, Montesquieu não foi preso nem exilado. Sua posição social, prestígio intelectual e estilo moderado o protegeram de perseguições diretas do Estado francês.
Contudo, O Espírito das Leis:
- Incomodou setores da monarquia, ao defender limites institucionais ao poder.
- Foi colocado no Index Librorum Prohibitorum da Igreja Católica em 1751, sinal de que suas ideias eram vistas como perigosas para a ordem tradicional.
Ao mesmo tempo, sua obra foi amplamente lida e admirada em toda a Europa e nas colônias americanas, influenciando diretamente:
- A Constituição dos Estados Unidos
- O constitucionalismo moderno
- A filosofia do Direito contemporânea
Legado duradouro
Montesquieu ensinou que liberdade não é ausência de leis, mas a existência de leis justas que limitem o poder. Seu pensamento permanece atual sempre que se debate:
- Separação e equilíbrio entre poderes
- Constitucionalismo
- Garantias individuais
- Riscos da concentração de autoridade
Mais de três séculos depois, Montesquieu continua a nos lembrar que o poder precisa de freios — não por desconfiança do ser humano ou pessimismo, mas por respeito à liberdade e prudência.
📝 Nota: Montesquieu e o Brasil: 1824 e 1988
A influência de Montesquieu chegou também ao Brasil.
A Constituição Imperial de 1824 incorporou a ideia de separação dos poderes, ainda que com limitações. A criação do Poder Moderador revela tanto a influência quanto as tensões na aplicação do modelo montesquiano
Já a atual Constituição de 1988 retoma plenamente o ideal de equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Após a ditadura militar, a separação de poderes tornou-se um freio institucional contra abusos do Executivo. E, por sua vez, os Direitos fundamentais e o controle constitucional refletem diretamente o legado de Montesquieu.

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