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| Manifestantes em protesto contra o governo |
Os protestos que tomam o Irã não são apenas mais um episódio de tensão política. Eles expressam um processo histórico mais amplo: o esgotamento de um modelo de poder que combina teocracia, controle militarizado e restrição de liberdades, confrontado por uma sociedade cada vez mais urbana, conectada e cansada da deterioração econômica e social.
Desde a Revolução de 1979, o Irã vive sob um sistema político peculiar, no qual existe uma aparência institucional — presidente, parlamento e eleições —, mas o poder real permanece concentrado na figura do Guia Supremo e na poderosa Guarda Revolucionária (IRGC). Isso significa que a democracia existe apenas de forma limitada e tutelada.
Os protestos mais recentes seguem uma tendência histórica que já vimos em 2009, 2019 e, com grande intensidade, em 2022 após a morte de Mahsa Amini. Eles sempre começam por uma questão concreta — fraudes eleitorais, preço dos combustíveis, crise econômica, direitos das mulheres — e evoluem para algo maior: o questionamento da própria legitimidade do regime.
A crise econômica é um fator decisivo. Inflação alta, desemprego, perda de direitos sociais e as consequências das sanções internacionais degradam a vida cotidiana. Quando a mesa do povo esvazia, esvazia também a autoridade moral e religiosa do Estado. Por isso, não surpreende que juventude, mulheres, trabalhadores e setores da classe média empobrecida estejam na linha de frente das mobilizações.
A resposta do regime, no entanto, repete o padrão autoritário: repressão violenta, falta de transparência sobre mortos e feridos e o bloqueio das comunicações — internet e telefonia — para impedir organização e visibilidade internacional. O apagão digital, longe de ser apenas um detalhe técnico, é sintoma de medo político. Governos seguros não precisam silenciar o país.
Ao mesmo tempo, o governo iraniano aumenta sua retórica de confronto externo, ameaçando Estados Unidos e Israel. Esse recurso não é apenas militar, é político: serve para reforçar a narrativa de “nação sitiada”, tentar unificar a população e desqualificar os protestos como manipulação estrangeira. Por outro lado, declarações como as de Donald Trump — de que os EUA estariam “prontos para ajudar” — embora soem solidárias, também reforçam a narrativa interna do regime sobre interferência externa.
Estamos diante de três possibilidades históricas: a repressão esmagar momentaneamente os protestos; o regime conceder pequenas flexibilizações controladas; ou, no médio prazo, a crise de legitimidade se aprofundar a ponto de comprometer a própria sustentação do sistema. Ainda que a ruptura imediata seja improvável, é inegável que o regime sai mais desgastado a cada ciclo.
O que ocorre no Irã hoje é, portanto, mais do que um conflito circunstancial. É a tensão entre um Estado que se apoia na força, na religião institucionalizada e na ameaça externa para se manter, e uma sociedade que, com dor, sangue e resistência, tenta afirmar sua dignidade, seus direitos e sua vontade de futuro.
Além disso, é importante observar que o Brasil, mesmo integrando o BRICS, não está impedido — moral nem diplomaticamente — de se posicionar diante da repressão no Irã. O bloco não é uma aliança ideológica, mas um arranjo estratégico de cooperação econômica e política, o que permite que o Brasil defenda firmemente os direitos humanos sem romper pontes diplomáticas. Um posicionamento responsável e independente, que critique violações e apoie a sociedade civil iraniana, reafirma o papel histórico brasileiro de promoção do diálogo, da paz e da dignidade humana, ao mesmo tempo em que demonstra que parcerias internacionais não podem significar conivência com abusos.
Também não se pode ignorar um fator decisivo para o futuro iraniano: a sucessão do aiatolá Ali Khamenei. O regime vive um momento sensível, pois a eventual troca de liderança pode abrir disputas internas entre setores conservadores, militares e clericais, criando incertezas que tanto podem endurecer ainda mais o sistema quanto abrir brechas para mudanças controladas. Esse cenário dialoga, ainda, com experiências já vistas na chamada Primavera Árabe, onde mobilizações populares expressaram profundas demandas sociais e políticas, mas encontraram respostas diversas: de transições frustradas a tragédias e guerras civis. O Irã carrega sua própria especificidade histórica e institucional, mas a comparação revela uma lição essencial: quando um Estado tenta eternamente governar pela força, a pressão da sociedade não desaparece — ela acumula, amadurece e, cedo ou tarde, se impõe como questão incontornável.
O que acontece hoje no Irã não é apenas um drama nacional, mas um espelho para o Sul Global. Ele nos desafia a pensar que desenvolvimento econômico sem liberdades, nacionalismo sem democracia e poder estatal sem legitimidade social têm prazo de validade. As lições iranianas dizem respeito a todos os países que aspiram liderança internacional: não basta crescer — é preciso garantir dignidade, participação política e respeito à vida. É esse o verdadeiro sentido de uma agenda global que se pretenda humana e civilizatória.
📝NOTA:
Nos últimos anos, a inflação no Irã tem sido persistentemente alta, refletindo a grave deterioração econômica que se tornou um dos principais motores da insatisfação popular. Dados econômicos apontam que a taxa de inflação anual já chegou a cerca de 48,6 % em outubro de 2025, um dos níveis mais altos da sua história recente e significativamente acima da média histórica do país — o que tem corroído o poder de compra da população e elevado o custo de bens básicos e alimentos no cotidiano dos iranianos.
Registros históricos mostram que a inflação era consistentemente elevada mesmo antes disso, com valores acima de 30 % nos anos recentes, refletindo dificuldades crônicas da economia iraniana em conter a inflação e estabilizar sua moeda sob pressão de sanções internacionais e desequilíbrios fiscais internos.
Essa espiral de preços não apenas agrava o sofrimento social como alimenta diretamente a mobilização popular — quando famílias percebem que salários e economias perdem rapidamente valor, cresce a indignação e se amplia a composição social das manifestações.

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