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| Prefeitura/divulgação |
Sou morador de Mangaratiba desde agosto de 2012 e veranista desde a infância. Vi a cidade em fases muito diferentes: o auge do turismo nas ilhas da Baía de Sepetiba nos anos 90, o crescimento desordenado dos carnavais mais massivos, os períodos de tensão na segurança e na infraestrutura, e agora um momento que parece ser de transição.
Nos últimos anos, especialmente neste último período festivo (dias 13 a 18 de fevereiro de 2026), tive uma percepção clara: menos carros nas ruas de Muriqui, menos filas em estabelecimentos, menor pressão sobre o abastecimento de água — algo que historicamente sempre foi um termômetro dos anos mais cheios. A sensação foi de um Carnaval menos inflado.
Mas isso significa um pior Carnaval? Não necessariamente.
O dilema: volume ou qualidade?
Por mais de duas décadas, o Carnaval em Mangaratiba foi alvo de críticas de moradores. Não pela festa em si, mas pelos efeitos colaterais:
- Conflitos de ordem pública;
- Pressão excessiva sobre infraestrutura;
- Falta d’água nos dias de pico;
- Comércio formal pouco beneficiado;
- Visitantes que trazem bebida e comida no carro, consomem pouco e deixam alto impacto urbano, principalmente quanto ao lixo.
Em cidades pequenas, existe um limite físico e social para o volume de visitantes. Quando esse limite é ultrapassado, o custo para o morador passa a ser maior do que o benefício econômico.
Talvez estejamos vivendo agora um momento em que a redução do público não represente decadência, mas sim um necessário ajuste.
Segurança como ativo estratégico
É perceptível que a segurança pública melhorou na última década. Mangaratiba passou a ser vista por muitos como uma “ilha segura” em comparação com cidades vizinhas como Angra dos Reis e Itaguaí.
Essa percepção é um ativo valioso!
Carnavais massivos costumam tensionar a segurança. Já um modelo mais organizado e controlado pode fortalecer a imagem de destino tranquilo e familiar — algo extremamente estratégico para uma cidade que deseja consolidar turismo de qualidade.
O Carnamar e o diferencial náutico
O grande diferencial de Mangaratiba não está apenas nos blocos de rua. Está no mar.
O Carnamar, realizado na Baía de Sepetiba, é um evento singular na Costa Verde. Festa embarcada, identidade náutica, integração com o cais de Itacuruçá e com as ilhas tropicais que já foram protagonistas do turismo regional.
Esse é um patrimônio simbólico e estratégico.
Talvez o futuro do Carnaval de Mangaratiba não esteja em competir por volume com cidades maiores, mas em consolidar um modelo náutico organizado, seguro e diferenciado.
O impacto do pedágio Free Flow
A implantação do pedágio eletrônico (Free Flow) na BR-101 (Rodovia Rio–Santos), no final de março de 2023, trouxe mudanças estruturais na dinâmica de acesso à Costa Verde. Embora existam questionamentos legítimos quanto à cobrança para moradores e ao sistema de autuação automática, é inegável que o modelo alterou o comportamento de parte dos visitantes.
O turista de última hora — especialmente o excursionista de um único dia — pode ter sido reduzido. O custo adicional, ainda que não seja elevado individualmente, funciona como um fator de decisão para deslocamentos impulsivos.
Se isso de fato ocorreu, pode ter funcionado como um filtro natural.
Menos público espontâneo e mais público planejado tende a gerar maior permanência, mais consumo local e menor pressão sobre serviços públicos.
Cidade de passagem ou destino consolidado?
Mangaratiba hoje vive um desafio estrutural: não se tornar apenas município de passagem rumo à Ilha Grande ou Paraty.
Para isso, precisa fortalecer sua própria identidade turística.
Nos anos 80 e 90, as ilhas acessadas a partir de Itacuruçá tinham forte protagonismo. Recuperar esse posicionamento — com organização, planejamento e controle ambiental — pode recolocar o município no circuito principal da Costa Verde.
Três caminhos possíveis
O município, sob a nova gestão do prefeito Luís Cláudio Ribeiro, tem diante de si três caminhos:
- Retomar o modelo massivo, com grandes shows e alto volume, assumindo os custos urbanos.
- Consolidar um Carnaval seletivo, organizado e sustentável.
- Transformar o Carnamar no eixo de um Carnaval náutico premium, diferenciado na região.
A pergunta que precisa ser feita
O que Mangaratiba quer ser?
Como morador, percebo que parte significativa da população prefere menos tumulto e mais organização. E talvez o futuro do Carnaval esteja justamente nesse equilíbrio.
Menos pode ser mais!
Mais qualidade, mais planejamento, mais identidade...
Se Mangaratiba souber transformar essa fase em estratégia — integrando o cais de Itacuruçá, fortalecendo o Carnamar, preservando a segurança e valorizando o comércio local — poderá não apenas ter um bom Carnaval, mas um projeto turístico consistente para as próximas décadas.
Nota – Números oficiais do Carnaval de Mangaratiba 2026
Conforme dados divulgados pela Prefeitura de Mangaratiba, em balanço oficial do Carnaval 2026, o evento registrou:
Entretenimento e Público:
- 50 mil visitantes por dia
- 120 horas de programação
- 45 shows realizados
- 33 blocos carnavalescos
- 8 palcos montados
- 90% de ocupação na rede hoteleira
Operação e Logística:
- Mais de 1.000 colaboradores envolvidos
- 144 horas de Operação Verão
- Mais de 200 mil panfletos distribuídos
Saúde, Fiscalização e Ordem Pública:
- Mais de 3.300 atendimentos médicos
- 1.790 infrações de trânsito registradas
- Mais de 240 apreensões (churrasqueiras, tendas e itens proibidos)
- 160 estabelecimentos fiscalizados
- 6 acampamentos irregulares desmontados
Limpeza Urbana:
- Divulgação oficial aponta “mais de 432 mil toneladas de lixo recolhidas”.O número aparenta possível inconsistência técnica, podendo tratar-se de 432 toneladas ou 432 mil quilos — volume que, ainda assim, representa impacto significativo para o município.


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