Há exatos 9 anos, em 21 de janeiro de 2017 — um dia após a posse de Donald Trump — acontecia a Women’s March on Washington, acompanhada por manifestações simultâneas em centenas de cidades dos Estados Unidos e também em diversos países ao redor do mundo. Aquela marcha não foi um episódio isolado, tampouco um protesto restrito a uma pauta específica. Ela marcou o início visível de um novo ciclo de resistência democrática diante do avanço global de uma extrema direita ruidosa, agressiva e profundamente avessa à reflexão crítica.
A Women’s March reuniu um amplo arco de reivindicações: direitos das mulheres, reformas na política migratória, direitos da população LGBT, enfrentamento das desigualdades raciais, defesa dos direitos trabalhistas e proteção ambiental. Essa diversidade não foi um sinal de dispersão, mas de maturidade política. Tratava-se do reconhecimento de que as opressões não operam de forma isolada e de que projetos autoritários costumam atacar simultaneamente múltiplos direitos e garantias.
Entre as inúmeras imagens daquele dia, uma em especial permanece simbólica. Um cartaz simples e engenhoso dialogava, de forma irônica, com o slogan da campanha de Trump, “Make America Great Again” (“Faça a América grande de novo”), propondo outra consigna: “Make America Think Again” — “Faça a América pensar de novo”. A força desse cartaz não estava apenas na ironia, mas na crítica direta ao empobrecimento do debate público promovido por discursos baseados no medo, na mentira repetida e na recusa deliberada à complexidade.
Pensar, refletir, contextualizar, dialogar com fatos e reconhecer contradições são atitudes incompatíveis com projetos políticos que dependem da simplificação extrema, da criação permanente de inimigos internos e da mobilização emocional contínua. A extrema direita, em diferentes países, mostra grande dificuldade em lidar com o pensamento crítico justamente porque ele desmonta slogans, expõe incoerências e exige responsabilidade histórica.
No Brasil, essa dinâmica não nos é estranha. As manifestações de resistência ocorridas em 21 de setembro de 2025, assim como os atos de dezembro do mesmo ano, inserem-se claramente nessa mesma tradição internacional de defesa da democracia. Embora enraizadas em nossa realidade social, institucional e cultural, elas dialogam diretamente com experiências como a Women’s March: a recusa do autoritarismo, a defesa dos direitos civis, o combate à desinformação e a afirmação de que democracia não se resume ao rito eleitoral, mas exige vigilância permanente.
Assim como nos Estados Unidos em 2017, as mobilizações brasileiras recentes reuniram uma pluralidade de vozes: mulheres, jovens, trabalhadores, movimentos negros, ambientalistas, juristas, cantores, artistas, educadores e cidadãos comuns que compreenderam que o silêncio, em determinados momentos históricos, deixa de ser neutralidade para se tornar cumplicidade. Houve, também aqui, a consciência de que slogans vazios não substituem políticas públicas, nem a agressividade substitui projetos de país.
O elo entre essas experiências — separadas por geografia, mas próximas em sentido — está na defesa do direito de pensar. Pensar criticamente sobre o passado, sobre o presente e sobre os caminhos possíveis para o futuro. Pensar contra a naturalização do ódio, contra a banalização da mentira e contra a corrosão lenta das instituições democráticas.
Recordar a Women’s March, portanto, não é apenas um exercício de memória internacional. É também um convite à reflexão sobre o Brasil contemporâneo. Um lembrete de que, diante de discursos autoritários travestidos de simplicidade, pensar continua sendo um ato político — e, muitas vezes, um ato de resistência.




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