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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Petróleo, Poder e Legalidade: Trump, Venezuela e o retorno de uma lógica colonial



A sequência de anúncios do governo Trump acerca da Venezuela — especialmente a decisão de controlar receitas do petróleo venezuelano e impor que parte dos recursos seja usada exclusivamente na compra de produtos dos Estados Unidos — recoloca o debate internacional em um terreno sensível e historicamente perigoso: o choque entre soberania nacional, legalidade internacional e intervenção unilateral.

Mais do que um episódio isolado, trata-se de um movimento que desafia a arquitetura jurídica construída desde 1945, com o fim da Segunda Guerra. O caso venezuelano ultrapassa o campo de sanções tradicionais e avança para um modelo que pode ser comparado ao colonialismo econômico, ao recriar uma relação de dependência direta entre uma potência e os recursos estratégicos de outro Estado.


Da sanção à coerção econômica: o salto qualitativo

Sanções internacionais são instrumentos reconhecidos — ainda que controversos — do Direito Internacional. Elas se diferenciam, entretanto, das medidas impostas por Trump à Venezuela por três razões fundamentais:


  1. Não há respaldo multilateral

    • Ausência de autorização do Conselho de Segurança da ONU
    • Inexistência de consenso regional
    • Decisão inteiramente unilateral
  2. Não há consentimento do Estado venezuelano

    • Não se trata de regime fiduciário ou tutela técnica
    • Não há enquadramento em acordos internacionais reconhecidos
  3. Há apropriação econômica direta

    • Controle externo de riqueza estratégica
    • Restrição comercial forçada
    • Subordinação econômica a um único fornecedor


Esse arranjo aproxima-se mais da lógica mercantilista colonial, onde a metrópole controla recursos e define o fluxo comercial, do que de qualquer mecanismo contemporâneo legítimo de pressão diplomática.


O precedente internacional: quando a exceção vira método

Ao agir fora dos marcos da Carta da ONU — especialmente do artigo 2º, §4º, que proíbe o uso da força e formas de coerção contra a integridade política dos Estados — os EUA criam um precedente que pode reverberar globalmente. Se normalizada, essa prática pode:


  • enfraquecer o sistema de segurança coletiva da ONU;
  • estimular intervenções unilaterais em outros contextos, como Ucrânia, Taiwan e disputas africanas;
  • deslocar a política internacional de normas para força.


A advertência é antiga, mas atual: quando a legalidade cede espaço à conveniência geopolítica, o Direito vira retórica e a estabilidade internacional perde fundamentos.


Impactos regionais: América Latina no centro do tabuleiro


Brasil

O Brasil, historicamente defensor do princípio da não intervenção e de soluções multilaterais, enfrenta três dilemas:


  • preservar coerência diplomática e jurídica;
  • equilibrar posição geopolítica com relações comerciais com os EUA;
  • evitar abrir precedente que um dia possa atingi-lo.


A tendência esperada é uma postura crítica à ação unilateral, mas sem ruptura diplomática — afirmando o Direito Internacional como parâmetro.


Colômbia

A Colômbia ocupa posição dramática:


  • é vizinha direta da crise,
  • tem papel estratégico no equilíbrio regional,
  • enfrenta pressão política interna e externa.


A postura firme do presidente Gustavo Petro — ao rejeitar ações militares externas e reafirmar soberania regional — fortalece o debate democrático e impede normalização do intervencionismo.


México

O México assume papel essencial no equilíbrio continental:


  • discurso crítico à intervenção,
  • defesa explícita da autodeterminação dos povos,
  • atuação diplomática ativa.


Ao fazer contraponto direto a Trump, o México reforça não apenas sua própria posição, mas o peso da América Latina como bloco político.


O papel da América Latina

Há uma convergência incomum entre governos ideologicamente distintos: a maioria condena a ação norte-americana. Isso reativa uma tradição histórica latino-americana que é a defesa da soberania, do multilateralismo e da solução negociada. Se coordenada, essa posição pode:


  • limitar efeitos políticos do precedente;
  • fortalecer organismos regionais;
  • impedir fragmentação diplomática do continente.


Reações jurídicas internacionais possíveis


Na ONU

Mesmo sob o bloqueio político esperado no Conselho de Segurança, há caminhos:


  • resoluções condenatórias na Assembleia Geral;
  • registro formal do ato como violação potencial da Carta;
  • manutenção da legalidade como referência institucional.


Em tribunais internacionais


  • contestações perante a Corte Internacional de Justiça (CIJ);
  • acionamento de mecanismos regionais;
  • apelos em instâncias de direitos humanos.


Ainda que de eficácia política variável, essas ações constroem jurisprudência e preservam o registro histórico da ilegalidade.


Dentro dos Estados Unidos: limites institucionais a Trump

A crítica jurídica não se limita ao plano internacional. No âmbito interno, as medidas de Trump podem colidir com:


  • separação de poderes: controle do Congresso sobre política externa e comércio internacional;
  • War Powers Resolution, caso haja conexão com ações militares;
  • Constitutional limits on executive overreach, especialmente se caracterizada apropriação arbitrária de riqueza estrangeira;
  • ações judiciais promovidas por partidos afetados, organizações civis e empresas atingidas.


Trump pode enfrentar:

1️⃣ bloqueios legislativos;
2️⃣ decisões judiciais restritivas;
3️⃣ contestação política baseada em opinião pública amplamente contrária às incursões externas.


Cenário de médio prazo

Há três caminhos possíveis:


  • normalização perigosa → aceitação tácita e replicação por outras potências;
  • contenção institucional → limites impostos por tribunais, Congresso e sistema internacional;
  • conflito prolongado de legitimidades, com instabilidade política e jurídica.


O desfecho dependerá do grau de resistência das instituições — internas e internacionais — e da capacidade diplomática dos países latino-americanos.


Conclusão

A política de Trump para a Venezuela não é apenas dura. Ela desafia frontalmente pilares do sistema internacional e reproduz práticas historicamente associadas ao colonialismo.

Em uma ordem global já tensionada, essa escolha não coloca apenas a Venezuela em risco —
coloca em xeque a lógica que impede que o mundo volte a ser governado pela força. Por isso, a resposta que se constrói agora não é apenas diplomática: é civilizatória.

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