Nos últimos dias, o mundo assistiu a uma escalada de declarações do ex-presidente norte-americano Donald Trump sobre a Groenlândia. Trump afirmou que “qualquer coisa menos do que o controle dos EUA sobre a ilha é inaceitável”, insistiu que a NATO deve apoiar essa mudança radical de soberania, e até sugeriu que os Estados Unidos poderiam agir mesmo “se eles não gostarem”.
Embora tais afirmações tenham sido amplamente rejeitadas por líderes dinamarqueses e groenlandeses, que reafirmaram que a ilha permanecerá sob soberania da Dinamarca, apoiada pela NATO e pela União Europeia, essas declarações de Trump tiveram um efeito indireto e não desprezível no xadrez geopolítico global: reforçaram a narrativa ideológica que a Rússia e seus aliados promovem há anos sobre a política externa ocidental.
🧠 O poder da narrativa no sistema internacional
A Rússia há muito tempo critica o que chama de “ordem internacional baseada em regras” defendida pelo Ocidente, particularmente pelos Estados Unidos e seus aliados europeus. Moscou argumenta que essa ordem é, na prática, seletiva, usada para justificar intervenções ou pressões quando convém aos interesses americanos e ocidentais — mas seria negada quando se trata de limitar ações de potências rivais. Mesmo quando ruidosamente declaradas para fins políticos, essas tensões permitem a Rússia fortalecer sua crítica à hegemonia americana e minar a credibilidade normativa do Ocidente perante públicos neutros ou hostis.
Analistas observam que o Kremlin tem interesse em desacreditar Washington aos olhos de aliados e de países não alinhados, retratando os EUA como um ator impulsivo, preocupado com própria segurança e interesses econômicos acima de normas internacionais. Essa estratégia inclui instrumentalizar declarações como as relativas à Groenlândia para sugerir que os Estados Unidos não respeitam soberania de outros países e podem pressionar aliados históricos.
🇷🇺 Como a Rússia interpreta e explora a crise
Embora o Kremlin tenha dito oficialmente que a questão da Groenlândia “é uma disputa específica entre os EUA e os países nórdicos” e que não está diretamente envolvido, líderes russos — inclusive o presidente Vladimir Putin em declarações anteriores — aproveitaram a situação para criticar publicamente a postura norte-americana e chamar a atenção para a crescente militarização do Ártico.
Em comentários anteriores ao longo de 2025, Putin chegou a afirmar que não era tolice considerar o interesse americano na Groenlândia como algo significativo, lembrando que os EUA já haviam considerado aquisição do território no passado e que o Ártico é uma região de importância estratégica crescente para todos os atores principais.
Essa retórica — mesmo que diplomática ou moderada no discurso oficial — cria espaço para que Moscou promova duas linhas narrativas simultâneas:
- Ocidente fragmentado e incoerente: Washington pressiona para mudanças territoriais em pleno século XXI, o que seria uma contradição em relação aos princípios de soberania que costumava defender.
- Rússia como garantidora da estabilidade: ao se posicionar como um ator que observa a situação com “normalidade” e chama a atenção para os riscos de militarização acrítica, Moscou se apresenta como favorável à paz e à estabilidade do Ártico.
Esses dois vetores discursivos são reforçados sempre que aliados europeus se veem forçados a criticar um parceiro histórico ou a ajustar suas próprias políticas de defesa no Norte. A necessidade de responder coletivamente às declarações americanas — inclusive com movimentos como o envio de tropas europeias à Groenlândia por iniciativa da Dinamarca, Alemanha, Suécia e Noruega — alimenta a narrativa russa de um Ocidente dividido e incapaz de conduzir consensos estratégicos claros.
⚖️ Vitória ideológica sem disparar um tiro
O ponto central é que não se trata de uma vitória militar ou territorial para Moscou, mas sim de uma “vitória” no campo das ideias:
- Demonstração de incoerência normativa: as declarações americanas sobre usar a força ou ignorar normas internacionais reforçam narrativas que a Rússia usa para criticar o Ocidente.
- Ameaça às alianças tradicionais: a pressão sobre a NATO para apoiar uma mudança radical de soberania dá margem para que a Rússia diga que a aliança é disfuncional ou subserviente aos EUA.
- Exploração de tensões internas: ao observar aliados europeus reagirem, Moscou pode usar isso para inflamar divisões dentro da própria aliança, algo que ajuda sua percepção de influência nos debates estratégicos globais.
- Narrativas no Sul Global: em regiões sensíveis ao discurso de soberania e não alinhamento, como América Latina, África ou Ásia, a percepção de que “normas internacionais são flexíveis quando convêm aos EUA” pode reforçar discursos favoráveis a narrativas anticoloniais ou multipolares.
Essa vitória ideológica é particularmente valiosa para a Rússia porque, em outras frentes — como o conflito na Ucrânia — seus ganhos militares e diplomáticos são controversos e contestados. Explorar fracassos ou incoerências do Ocidente em fóruns públicos e diplomáticos é uma forma de ampliar sua influência sem mover um único soldado.
📌 Conclusão
Embora a proposta americana sobre a Groenlândia — incluindo sugestões de uso de força militar — tenha sido amplamente rejeitada por aliados e pela própria população groenlandesa, ela acabou servindo aos interesses narrativos da Rússia ao reforçar percepções de que:
- os Estados Unidos podem agir fora das normas tradicionais do direito internacional;
- a NATO enfrenta divisões internas diante de pressões unilaterais;
- potências não alinhadas ganham argumentos para questionar a legitimidade normativa ocidental.
Essa dinâmica ilustra como, na geopolítica contemporânea, a batalha pela narrativa pode ser tão influente quanto a batalha pela posição territorial, e por isso Moscou pode colher benefícios simbólicos — ou ideológicos — mesmo sem ter controle efetivo da região.

Nenhum comentário:
Postar um comentário