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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Vitória Ideológica da Rússia na Crise da Groenlândia: Como a Retórica de Trump Reforça Narrativas de Moscou?



Nos últimos dias, o mundo assistiu a uma escalada de declarações do ex-presidente norte-americano Donald Trump sobre a Groenlândia. Trump afirmou que “qualquer coisa menos do que o controle dos EUA sobre a ilha é inaceitável”, insistiu que a NATO deve apoiar essa mudança radical de soberania, e até sugeriu que os Estados Unidos poderiam agir mesmo “se eles não gostarem”.

Embora tais afirmações tenham sido amplamente rejeitadas por líderes dinamarqueses e groenlandeses, que reafirmaram que a ilha permanecerá sob soberania da Dinamarca, apoiada pela NATO e pela União Europeia, essas declarações de Trump tiveram um efeito indireto e não desprezível no xadrez geopolítico global: reforçaram a narrativa ideológica que a Rússia e seus aliados promovem há anos sobre a política externa ocidental.


🧠 O poder da narrativa no sistema internacional

A Rússia há muito tempo critica o que chama de “ordem internacional baseada em regras” defendida pelo Ocidente, particularmente pelos Estados Unidos e seus aliados europeus. Moscou argumenta que essa ordem é, na prática, seletiva, usada para justificar intervenções ou pressões quando convém aos interesses americanos e ocidentais — mas seria negada quando se trata de limitar ações de potências rivais. Mesmo quando ruidosamente declaradas para fins políticos, essas tensões permitem a Rússia fortalecer sua crítica à hegemonia americana e minar a credibilidade normativa do Ocidente perante públicos neutros ou hostis.

Analistas observam que o Kremlin tem interesse em desacreditar Washington aos olhos de aliados e de países não alinhados, retratando os EUA como um ator impulsivo, preocupado com própria segurança e interesses econômicos acima de normas internacionais. Essa estratégia inclui instrumentalizar declarações como as relativas à Groenlândia para sugerir que os Estados Unidos não respeitam soberania de outros países e podem pressionar aliados históricos.


🇷🇺 Como a Rússia interpreta e explora a crise

Embora o Kremlin tenha dito oficialmente que a questão da Groenlândia “é uma disputa específica entre os EUA e os países nórdicos” e que não está diretamente envolvido, líderes russos — inclusive o presidente Vladimir Putin em declarações anteriores — aproveitaram a situação para criticar publicamente a postura norte-americana e chamar a atenção para a crescente militarização do Ártico.

Em comentários anteriores ao longo de 2025, Putin chegou a afirmar que não era tolice considerar o interesse americano na Groenlândia como algo significativo, lembrando que os EUA já haviam considerado aquisição do território no passado e que o Ártico é uma região de importância estratégica crescente para todos os atores principais.

Essa retórica — mesmo que diplomática ou moderada no discurso oficial — cria espaço para que Moscou promova duas linhas narrativas simultâneas:


  • Ocidente fragmentado e incoerente: Washington pressiona para mudanças territoriais em pleno século XXI, o que seria uma contradição em relação aos princípios de soberania que costumava defender.
  • Rússia como garantidora da estabilidade: ao se posicionar como um ator que observa a situação com “normalidade” e chama a atenção para os riscos de militarização acrítica, Moscou se apresenta como favorável à paz e à estabilidade do Ártico.


Esses dois vetores discursivos são reforçados sempre que aliados europeus se veem forçados a criticar um parceiro histórico ou a ajustar suas próprias políticas de defesa no Norte. A necessidade de responder coletivamente às declarações americanas — inclusive com movimentos como o envio de tropas europeias à Groenlândia por iniciativa da Dinamarca, Alemanha, Suécia e Noruega — alimenta a narrativa russa de um Ocidente dividido e incapaz de conduzir consensos estratégicos claros.


⚖️ Vitória ideológica sem disparar um tiro

O ponto central é que não se trata de uma vitória militar ou territorial para Moscou, mas sim de uma “vitória” no campo das ideias:


  1. Demonstração de incoerência normativa: as declarações americanas sobre usar a força ou ignorar normas internacionais reforçam narrativas que a Rússia usa para criticar o Ocidente.
  2. Ameaça às alianças tradicionais: a pressão sobre a NATO para apoiar uma mudança radical de soberania dá margem para que a Rússia diga que a aliança é disfuncional ou subserviente aos EUA.
  3. Exploração de tensões internas: ao observar aliados europeus reagirem, Moscou pode usar isso para inflamar divisões dentro da própria aliança, algo que ajuda sua percepção de influência nos debates estratégicos globais.
  4. Narrativas no Sul Global: em regiões sensíveis ao discurso de soberania e não alinhamento, como América Latina, África ou Ásia, a percepção de que “normas internacionais são flexíveis quando convêm aos EUA” pode reforçar discursos favoráveis a narrativas anticoloniais ou multipolares.


Essa vitória ideológica é particularmente valiosa para a Rússia porque, em outras frentes — como o conflito na Ucrânia — seus ganhos militares e diplomáticos são controversos e contestados. Explorar fracassos ou incoerências do Ocidente em fóruns públicos e diplomáticos é uma forma de ampliar sua influência sem mover um único soldado.


📌 Conclusão

Embora a proposta americana sobre a Groenlândia — incluindo sugestões de uso de força militar — tenha sido amplamente rejeitada por aliados e pela própria população groenlandesa, ela acabou servindo aos interesses narrativos da Rússia ao reforçar percepções de que:


  • os Estados Unidos podem agir fora das normas tradicionais do direito internacional;
  • a NATO enfrenta divisões internas diante de pressões unilaterais;
  • potências não alinhadas ganham argumentos para questionar a legitimidade normativa ocidental.


Essa dinâmica ilustra como, na geopolítica contemporânea, a batalha pela narrativa pode ser tão influente quanto a batalha pela posição territorial, e por isso Moscou pode colher benefícios simbólicos — ou ideológicos — mesmo sem ter controle efetivo da região.

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