Quinze anos se passaram desde aquela madrugada de janeiro de 2011, quando a cidade de Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, foi atingida por uma tragédia climática sem precedentes. Mais de 900 vidas foram ceifadas, milhares de pessoas ficaram desabrigadas, e o cenário de destruição marcou profundamente a memória da cidade e de todos que vivenciaram os acontecimentos.
Eu estava lá, morando no último andar de um edifício na rua Farinha Filho. Não imaginava, ao acordar naquela madrugada, que o que se seguiria mudaria minha percepção da vida, da solidariedade, da ética e do compromisso social.
O presente texto revisita esses acontecimentos, integrando memória pessoal, testemunho histórico, reflexão ética e aprendizado civilizatório — transformando a dor em lição para o futuro.
1. O impacto do desastre: viver a tragédia
Na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, acordei com estrondos que pensei serem trovões. Pela manhã, ao abrir o basculante e observar os morros próximos, notei sinais de deslizamento. Na escada do condomínio, a quantidade de lama e detritos me deixaram perplexo: a praça Getúlio Vargas estava coberta por lama, equipes de resgate trabalhavam incessantemente, pessoas choravam, e eu percebi que não seria possível realizar minhas atividades naquele dia.
O choque inicial misturava medo, incredulidade e impotência. Ao mesmo tempo, surgia uma necessidade urgente de solidariedade: o socorro às vítimas, doações e apoio imediato. Naquele momento, ficou clara a dimensão humana da tragédia: não apenas a força da natureza, mas a vulnerabilidade social e a fragilidade das políticas públicas.
2. Solidariedade e mobilização
Poucos dias após o desastre, após a energia elétrica restabelecida, publiquei textos incentivando a solidariedade, mobilização comunitária e doações para as vítimas de Nova Friburgo e região serrana, como neste SOS Nova Friburgo.
Entre os itens mais necessários estavam alimentos não perecíveis, produtos de higiene, material de limpeza e utensílios para embalar doações. Diversas igrejas e organizações voluntárias ajudaram na distribuição de recursos, revelando que, mesmo diante da tragédia, a humanidade podia brilhar em gestos de amor e compaixão.
Este período mostrou que a solidariedade não é apenas um ato de generosidade, mas também uma responsabilidade social e ética diante de crises humanas.
3. Reflexão ética: a Regra de Ouro em meio ao caos
Em outro texto escrito logo após a tragédia, explorei o conceito da Regra de Ouro, ensinada por Hillel, Confúcio e reinterpretada por Jesus:
“Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas.” (Mateus 7.12)
Essa reflexão mostrou que a ética não é apenas uma escolha pessoal, mas fundamento para a convivência social e preservação da vida. A tragédia de Nova Friburgo expôs a necessidade de agir com responsabilidade, não apenas para salvar vidas imediatamente, mas também para prevenir futuras catástrofes, respeitando o meio ambiente e promovendo justiça social.
Como escreveu Leonardo Boff:
“Bom é tudo aquilo que aproxima as pessoas ou que corresponde de forma benéfica às realidades circunstantes; bom é tudo o que cuida e expande a vida em todas as formas; mau é tudo o que ameaça, diminui e destrói a vida.”
Essa reflexão ética permanece central: a dor das vítimas de 2011 nos obriga a questionar políticas públicas, práticas urbanas e atitudes individuais, para que tragédias como essa não se repitam.
4. Fé e responsabilidade pública
No mesmo período, também escrevi sobre a atuação da Igreja diante da tragédia, destacando a necessidade de uma fé que se manifesta em ação, como neste artigo de maio de 2011.
“Não basta crer; é necessário protestar, agir, confrontar injustiças e apoiar os mais vulneráveis — mesmo quando isso custa conforto, reputação ou poder.”
A reflexão se estende para a responsabilidade de todas as instituições e cidadãos: a tragédia não é apenas natural, mas social e política. A fé, assim como a memória histórica, serve para despertar a consciência ética, promover solidariedade e exigir justiça.
5. Dez anos depois: memória e aprendizado
Em janeiro de 2021, ao revisitar os acontecimentos, escrevi:
“A maior tragédia que já vi marcou a minha vida e a de toda a Região Serrana. A cidade nunca mais foi a mesma, e a memória daqueles dias permanece viva em cada gesto de solidariedade e cada lacuna deixada pela negligência.” (link)
O olhar retrospectivo permitiu perceber padrões estruturais, como ocupação irregular em áreas de risco, ausência de políticas habitacionais eficazes e fragilidade na gestão de crises. Mais do que registrar fatos, o exercício de memória mostrou a importância de aprender com o passado para proteger vidas futuras.
6. Memória ativa: lições para o presente e futuro
Ao olhar para o presente, 15 anos depois, recordo também os desastres recentes, como a tragédia de Petrópolis em 2022, que mostrou que a Região Serrana continua vulnerável.
A memória ativa exige:
- Solidariedade contínua: apoio às vítimas e mobilização comunitária.
- Atenção ética: compreender a dimensão humana das tragédias.
- Responsabilidade social e política: planejamento urbano adequado, políticas públicas eficazes, prevenção e mitigação de riscos.
- Consciência ambiental: mudanças climáticas e impactos humanos sobre ecossistemas aumentam a frequência e intensidade de desastres.
Além disso, existem instrumentos legais como a Lei Estadual 7.345/2016, que prevê a regularização e prevenção em áreas de risco. Porém, tragédias recentes mostram que a existência da lei não é suficiente sem fiscalização, planejamento urbano e compromisso político contínuo.
Memória não é apenas lembrança; é aprendizado. É a voz das vítimas que nos convoca a agir com justiça, ética e humanidade.
Conclusão
Quinze anos depois da tragédia de Nova Friburgo, percebemos que a experiência pessoal, a solidariedade e a reflexão ética são essenciais não apenas para recordar, mas para transformar.
As lições de 2011 permanecem atuais: cada desastre climático é também uma oportunidade para testar nossa humanidade, ética e responsabilidade coletiva. O desafio permanece: construir cidades mais seguras, promover políticas públicas eficientes e cultivar uma cultura de cuidado mútuo — para que vidas sejam preservadas, dignidade seja respeitada e a memória se transforme em ação concreta.
📝Nota sobre a Lei Estadual 7.345/2016
É relevante lembrar que, em meio aos debates sobre ocupações em áreas de risco e prevenção de desastres na Região Serrana, o Estado do Rio de Janeiro promulgou a Lei Estadual nº 7.345, de 2016, que trata da regularização de áreas urbanas em encostas e regiões de risco.
A lei estabelece critérios para:
- Identificação e mapeamento de áreas de risco.
- Proibição de construções em locais inapropriados.
- Programas de reassentamento de famílias em áreas seguras.
- Responsabilidade do poder público na fiscalização e prevenção de desastres.
Embora a lei represente um avanço na proteção da vida e na prevenção de tragédias, sua efetividade depende da implementação rigorosa, fiscalização contínua e conscientização das comunidades. As tragédias de 2011 e 2022 evidenciam que leis existem, mas o cumprimento e a fiscalização ainda são cruciais para que vidas sejam preservadas.

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