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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Na mesa do bar



A mesa era de madeira, dessas de bar de esquina com cadeiras dobráveis. Quatro cadeiras. Garrafas suadas de cerveja. O barulho distante de motos subindo a rua misturava-se ao noticiário que vinha da televisão pendurada no alto do lado de dentro.


Mais um assalto ali na esquina de baixo, — disse Rogério, balançando a cabeça. — Não tem conversa. Bandido bom é bandido morto.


Dona Celeste, que morava no bairro desde antes do asfalto, suspirou: — Eu já ouvi isso a vida inteira… e a violência só piorou.


Marcos, motorista de aplicativo, entrou no embalo: — O problema é que o Brasil não tem jeito. Corrupção é cultural. Sempre foi assim. Troca governador, troca prefeito… nada muda.


Lucas, professor de História da rede pública, mexia no copo sem responder. Sabia que, se falasse errado, a conversa acabava ali.


— Posso tentar dizer uma coisa sem briga? — perguntou, com cuidado.


Rogério deu de ombros: — Fala aí, professor. Mas sem passar pano pra bandido.


Lucas assentiu. — Justo. Então… quando a gente diz “bandido bom é bandido morto”, eu entendo o sentimento. É medo, cansaço, revolta. Só que isso resolve o quê, na prática?


— Resolve que tira um vagabundo da rua! — rebateu Rogério.


— Às vezes tira — respondeu Lucas. — Mas e depois? Quem investiga quem manda? Quem lucra? Porque o número de mortos sobe, mas o tráfico continua. A pergunta não é moral. É prática.


Dona Celeste apoiou o cotovelo na mesa: — Meu sobrinho foi morto numa operação. Não era bandido. Até hoje ninguém investigou nada.


Rogério ficou em silêncio por um instante.


Marcos então puxou outro fio: — Mas isso tudo vem de fora, né? O Estado não fabrica droga nem arma. O problema é a fronteira. Sempre foi.


Lucas sorriu de leve, não de deboche. — Fronteira importa, sim. Mas deixa eu perguntar uma coisa: depois que a arma entra no país, quem guarda? Quem vende? Quem protege? Quem lava o dinheiro?


— Aí já é outra história… — murmurou Marcos.


— Pois é — disse Lucas. — O mantra ajuda a explicar uma parte, mas quando vira explicação única, a gente para de olhar pra dentro.


Rogério tomou um gole longo. — Tá, mas o Brasil é corrupto mesmo. Isso é da nossa cultura.


Lucas respirou fundo. — A corrupção existe, claro. Mas dizer que ela é “cultural” parece que absolve quem se beneficia dela hoje. Como se ninguém tivesse responsabilidade, como se fosse culpa do DNA do país.


Dona Celeste concordou: — Meu pai era estivador. Nunca roubou um prego.


— Exato — disse Lucas. — Tem corrupção institucional, estrutural, incentivada. Isso é diferente de dizer que “todo mundo é assim”.


A TV anunciou mais uma pesquisa eleitoral.


Marcos apontou para a tela: — Por isso que eu digo: o problema do Brasil é o político. Troca tudo e pronto.


Lucas não discordou de cara. — Político erra muito. Mas deixa eu te perguntar: quem elege? Quem pressiona? Quem fiscaliza? Se a política é o problema, abandonar ela resolve ou piora?


Silêncio de novo. Só o tilintar de copos.


Rogério tentou mudar o rumo: — No fim das contas, só educação salva isso aqui.


Lucas sorriu, agora com mais tristeza. — Educação é fundamental. Eu vivo disso. Mas se fosse solução mágica, professor não morria, escola não era alvo de tiro, aluno não chegava com fome. Educação funciona junto com segurança, renda, saúde, justiça.


Dona Celeste resumiu, olhando a rua escura: — Então a gente repete essas frases porque elas aliviam a cabeça. Mas não resolvem a vida.


Lucas assentiu. — Mantra dá sensação de controle. Pensar dá trabalho. E votar bem, mais ainda.


Rogério levantou-se. — Não concordo com tudo, não. Mas confesso… nunca tinha pensado desse jeito.


Lucas sorriu, aliviado. Não era vitória. Era abertura.


A moto passou de novo, acelerando.

A eleição vinha aí.

A violência continuava.

Mas, naquela mesa de madeira, pelo menos o debate não tinha virado guerra.


Depois das urnas, a mesma mesa...


A mesa era a mesma. O bar também. Só a televisão parecia falar mais alto.


— Governador eleito promete choque de ordem já nos primeiros cem dias — anunciou o jornal.


Rogério pediu para o garçom desligar a TV 


— Ganhou. Vamos ver se agora muda alguma coisa.


Marcos riu sem humor. — Promessa não falta. O problema é que depois dizem que a culpa é do sistema, do outro governo, da herança maldita…


Dona Celeste ajeitou a bolsa no colo: — Eu só queria voltar a sair de casa sem medo depois das seis.


Lucas chegou por último, puxando uma cadeira. — E aí, sobreviveram à eleição?


Rogério respondeu: — Sobreviver, sim. Acreditar… já não sei.


Marcos foi direto: — Agora quero ver você desmontar mantra, professor. Porque o discurso já começou: “agora vai”, “agora resolve”, “era só tirar os políticos errados”.


Lucas respirou fundo. — Posso tentar de novo, sem briga?


— Manda — disse Rogério.


— Repara como o discurso pós-eleição muda pouco. Antes era “bandido bom é bandido morto”. Agora virou “vamos endurecer”. Mas ninguém fala de investigação, de inteligência, de cadeia funcionando.


— Mas tem que endurecer mesmo — insistiu Rogério.


— Pode endurecer — respondeu Lucas. — A questão é: endurecer como? Se for só subir morro com fuzil e descer com estatística, a gente já sabe o final.


Dona Celeste concordou: — Toda eleição é assim. Depois dizem que educação resolve tudo e mandam esperar vinte anos.


Lucas apontou: — Esse é outro mantra. Educação é longo prazo, sim. Mas usar isso como desculpa para não agir agora é covardia política.


Marcos cruzou os braços: — Eu continuo achando que o problema é o político. Esse novo já está cercado dos mesmos de sempre.


Lucas não negou. — A política brasileira tem vícios reais. Mas quando a gente reduz tudo a “o problema é o político”, a gente desiste de exigir política melhor. Vira só xingamento.


Rogério coçou a barba. — Então você está dizendo que a gente erra até quando reclama?


— Não — respondeu Lucas. — Reclamar é legítimo. O problema é quando a reclamação vira slogan. Aí ela não constrói nada.


A TV voltou a falar sozinha: — Novo governador promete reforço nas fronteiras em parceria com o governo federal.


Marcos apontou para a tela: — Tá vendo? De novo isso. Fronteira.


Lucas sorriu de canto. — Fronteira ajuda. Mas se fosse solução total, o Rio já estaria em paz. O crime não atravessa o país sozinho. Ele cria raiz aqui.


Dona Celeste suspirou: — Parece que o discurso muda, mas o roteiro é o mesmo.


— Porque é mais fácil repetir o que já funcionou eleitoralmente — disse Lucas. — Mantra ganha voto. Política pública ganha inimigo.


Rogério ficou em silêncio por um tempo. Depois falou, mais baixo: — Sabe o que é pior? A gente acaba torcendo pra dar certo, mesmo desconfiando.


Lucas assentiu. — Isso não é ingenuidade. É sobrevivência.


Marcos levantou-se para pagar a conta. — Então o que sobra pra gente?


Lucas respondeu sem pose: — Cobrar sem slogan. Desconfiar sem desistir. Discordar sem virar inimigo.


Dona Celeste sorriu pela primeira vez naquela noite. — Se todo mundo conversasse assim, talvez mudasse alguma coisa.


A rua continuava barulhenta.


A violência não tinha ido embora.


O governo era novo.


Os problemas, antigos.


Mas naquela mesa, mais uma vez, ninguém saiu gritando.


E, no Rio, isso já era um começo.

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