A crise venezuelana deixou de ser uma questão regional para se transformar em um dos temas centrais da geopolítica global. O ataque dos Estados Unidos à Venezuela e o controle direto sobre parte das receitas do petróleo elevaram o grau de instabilidade internacional, recolocando no centro do debate três temas sensíveis: soberania, legalidade internacional e disputa estratégica por energia.
Se inicialmente se falava apenas em ocupação política e operação militar, o quadro recente revelou algo mais complexo. A Venezuela não está apenas sob pressão política: ela se tornou um laboratório de um novo modelo de poder — onde força militar, diplomacia seletiva e controle econômico caminham juntos.
Hoje, 08/01/2026, quatro cenários se desenham no horizonte — e cada um deles tem consequências diretas para o Brasil, para a Petrobras e para a ordem internacional.
Cenário 1 — Consolidação de um controle estratégico americano sobre o petróleo venezuelano
Impactos:
- Ordem internacional sofre abalo: cria-se precedente para intervenções econômicas forçadas.
- Brasil perde margem diplomática e vê crescimento da dependência energética regional em relação aos EUA.
- Petrobras enfrenta concorrência geopolítica, não apenas comercial.
- América Latina se divide entre pragmatismo e denúncia de neocolonialismo.
Cenário 2 — Reação internacional e caminho multilateral
Impactos:
- Redução de tensões militares.
- Restauração gradual do princípio de não intervenção.
- O Brasil recupera papel mediador e fortalece diplomacia regional.
- Menor risco para a estabilidade de preços internacionais do petróleo.
Cenário 3 — Prolongamento da instabilidade e crise aberta
Aqui, não há vitória clara de nenhum lado. A Venezuela permanece tensionada: disputas internas, resistência social, pressão militar e desgaste prolongado.
Impactos:
- Aumento de fluxos migratórios.
- Risco de militarização regional.
- Insegurança energética.
- Altos custos humanitários e políticos.
Para o Brasil, esse é o cenário mais oneroso socialmente e mais perigoso politicamente.
Cenário 4 — Estabilização econômica tutelada via Chevron e supervisão americana
Este é o cenário novo — e talvez o mais sofisticado.
Não há ocupação direta plena, nem caos econômico absoluto. Em vez disso, surge uma “estabilidade administrada”: empresas americanas, especialmente a Chevron, conduziriam a reorganização do setor petroleiro, com forte supervisão política dos EUA, mas com aparência de normalização econômica.
O que isso significa na prática?
- Redução do barulho político imediato.
- Poder americano exercido via economia, não só via força.
- A Venezuela passa a operar como um “protettorado energético empresarial”.
- A legitimidade jurídica continua contestável, mas a situação social melhora parcialmente.
Impactos:
- Brasil perde influência estratégica, mas ganha alívio momentâneo de instabilidade.
- Petrobras encara concorrência respaldada geopoliticamente.
- Região fica menos explosiva a curto prazo, porém mais dependente dos EUA.
- Direito Internacional permanece pressionado por uma zona cinzenta: estabilidade construída sobre base jurídica contestável.
O papel do Brasil, Colômbia e México
Brasil
- Precisa equilibrar diplomacia, autonomia energética e defesa da legalidade internacional.
- Riscos econômicos: competição e dependência estrutural.
- Riscos políticos: perda de protagonismo diplomático latino-americano.
Colômbia
- Petro ganha peso político interno e internacional ao defender soberania regional.
- A crise venezuelana influencia diretamente sua segurança e estabilidade política.
México
- Mantém posição de defesa da não intervenção.
- Reforça crítica ao unilateralismo americano.
A disputa jurídica — internacional e interna nos EUA
Do ponto de vista do Direito Internacional:
- Há forte debate sobre violação do artigo 2º(4) da Carta da ONU.
- Discute-se apropriação coercitiva de recursos estratégicos.
- Podem surgir demandas na Corte Internacional de Justiça e organismos regionais.
Dentro dos Estados Unidos, porém, há outro campo decisivo:
- o Congresso,
- a Suprema Corte,
- o sistema de freios e contrapesos.
Trump enfrenta questionamentos constitucionais sobre:
- poderes presidenciais em matéria externa,
- controle de recursos estrangeiros,
- limites de intervenção sem autorização legislativa.
Caminhos possíveis para conter Trump
- ações judiciais internas,
- investigações legislativas,
- pressão da opinião pública,
- resistência institucional do Departamento de Estado e setores do Executivo.
Nada disso é garantido — mas é decisivo.
Médio prazo: para onde vamos?
A Venezuela continuará no centro do tabuleiro mundial.
O petróleo é o eixo.
A legalidade internacional, o campo de disputa.
A América Latina, o palco das consequências.
Entre tutela econômica, reação multilateral, tensão prolongada ou consolidação hegemônica, o que está em jogo não é apenas o destino da Venezuela — mas a própria forma de funcionamento do sistema internacional.
E, como sempre na história, quando petróleo, poder e legalidade entram em conflito, o efeito nunca fica restrito às fronteiras de um país.
E você, leitor?
👉 Qual cenário você vê como mais provável?
👉 Acredita que as instituições internacionais conseguirão conter esse avanço unilateral ou estamos diante de um novo paradigma geopolítico?
Deixe sua opinião nos comentários — o debate qualificado é essencial para compreender os rumos desta crise e seus impactos no Brasil e no mundo.
📷: Federico Parra/AFP

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