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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Venezuela em disputa: petróleo, poder e quatro cenários para o mundo — e para o Brasil



A crise venezuelana deixou de ser uma questão regional para se transformar em um dos temas centrais da geopolítica global. O ataque dos Estados Unidos à Venezuela e o controle direto sobre parte das receitas do petróleo elevaram o grau de instabilidade internacional, recolocando no centro do debate três temas sensíveis: soberania, legalidade internacional e disputa estratégica por energia.

Se inicialmente se falava apenas em ocupação política e operação militar, o quadro recente revelou algo mais complexo. A Venezuela não está apenas sob pressão política: ela se tornou um laboratório de um novo modelo de poder — onde força militar, diplomacia seletiva e controle econômico caminham juntos.

Hoje, 08/01/2026, quatro cenários se desenham no horizonte — e cada um deles tem consequências diretas para o Brasil, para a Petrobras e para a ordem internacional.


Cenário 1 — Consolidação de um controle estratégico americano sobre o petróleo venezuelano

Nesse cenário, a operação de Trump não recua. Os EUA mantêm controle de receitas, direcionam exportações e passam a operar, de fato, como fiadores econômicos do país.
O discurso seria moldado em torno de “estabilidade”, “reconstrução”, “proteção do povo venezuelano”. Na prática, configura-se uma relação de tutela político-econômica.


Impactos:


  • Ordem internacional sofre abalo: cria-se precedente para intervenções econômicas forçadas.
  • Brasil perde margem diplomática e vê crescimento da dependência energética regional em relação aos EUA.
  • Petrobras enfrenta concorrência geopolítica, não apenas comercial.
  • América Latina se divide entre pragmatismo e denúncia de neocolonialismo.


Cenário 2 — Reação internacional e caminho multilateral

A ONU, União Europeia, CELAC e outros organismos ganham protagonismo. Sanções internas ao governo americano, pressões institucionais e resistências diplomáticas modificam o jogo.
Não é um cenário de neutralização total dos EUA, mas de contenção institucional, reinserindo regras e limites.


Impactos:


  • Redução de tensões militares.
  • Restauração gradual do princípio de não intervenção.
  • O Brasil recupera papel mediador e fortalece diplomacia regional.
  • Menor risco para a estabilidade de preços internacionais do petróleo.


Cenário 3 — Prolongamento da instabilidade e crise aberta

Aqui, não há vitória clara de nenhum lado. A Venezuela permanece tensionada: disputas internas, resistência social, pressão militar e desgaste prolongado.


Impactos:


  • Aumento de fluxos migratórios.
  • Risco de militarização regional.
  • Insegurança energética.
  • Altos custos humanitários e políticos.


Para o Brasil, esse é o cenário mais oneroso socialmente e mais perigoso politicamente.


Cenário 4 — Estabilização econômica tutelada via Chevron e supervisão americana

Este é o cenário novo — e talvez o mais sofisticado.

Não há ocupação direta plena, nem caos econômico absoluto. Em vez disso, surge uma “estabilidade administrada”: empresas americanas, especialmente a Chevron, conduziriam a reorganização do setor petroleiro, com forte supervisão política dos EUA, mas com aparência de normalização econômica.

Não se resolve a crise democrática.
Não se restabelece soberania plena.
Mas se cria uma funcionalidade econômica.


O que isso significa na prática?


  • Redução do barulho político imediato.
  • Poder americano exercido via economia, não só via força.
  • A Venezuela passa a operar como um “protettorado energético empresarial”.
  • A legitimidade jurídica continua contestável, mas a situação social melhora parcialmente.


Impactos:


  • Brasil perde influência estratégica, mas ganha alívio momentâneo de instabilidade.
  • Petrobras encara concorrência respaldada geopoliticamente.
  • Região fica menos explosiva a curto prazo, porém mais dependente dos EUA.
  • Direito Internacional permanece pressionado por uma zona cinzenta: estabilidade construída sobre base jurídica contestável.


O papel do Brasil, Colômbia e México


Brasil

  • Precisa equilibrar diplomacia, autonomia energética e defesa da legalidade internacional.
  • Riscos econômicos: competição e dependência estrutural.
  • Riscos políticos: perda de protagonismo diplomático latino-americano.


Colômbia

  • Petro ganha peso político interno e internacional ao defender soberania regional.
  • A crise venezuelana influencia diretamente sua segurança e estabilidade política.


México

  • Mantém posição de defesa da não intervenção.
  • Reforça crítica ao unilateralismo americano.


A disputa jurídica — internacional e interna nos EUA

Do ponto de vista do Direito Internacional:


  • Há forte debate sobre violação do artigo 2º(4) da Carta da ONU.
  • Discute-se apropriação coercitiva de recursos estratégicos.
  • Podem surgir demandas na Corte Internacional de Justiça e organismos regionais.


Dentro dos Estados Unidos, porém, há outro campo decisivo:


  • o Congresso,
  • a Suprema Corte,
  • o sistema de freios e contrapesos.


Trump enfrenta questionamentos constitucionais sobre:


  • poderes presidenciais em matéria externa,
  • controle de recursos estrangeiros,
  • limites de intervenção sem autorização legislativa.


Caminhos possíveis para conter Trump


  • ações judiciais internas,
  • investigações legislativas,
  • pressão da opinião pública,
  • resistência institucional do Departamento de Estado e setores do Executivo.


Nada disso é garantido — mas é decisivo.


Médio prazo: para onde vamos?

A Venezuela continuará no centro do tabuleiro mundial.

O petróleo é o eixo.

A legalidade internacional, o campo de disputa.

A América Latina, o palco das consequências.

Entre tutela econômica, reação multilateral, tensão prolongada ou consolidação hegemônica, o que está em jogo não é apenas o destino da Venezuela — mas a própria forma de funcionamento do sistema internacional.

E, como sempre na história, quando petróleo, poder e legalidade entram em conflito, o efeito nunca fica restrito às fronteiras de um país.


E você, leitor?

👉 Qual cenário você vê como mais provável?

👉 Acredita que as instituições internacionais conseguirão conter esse avanço unilateral ou estamos diante de um novo paradigma geopolítico?

Deixe sua opinião nos comentários — o debate qualificado é essencial para compreender os rumos desta crise e seus impactos no Brasil e no mundo.


📷: Federico Parra/AFP

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