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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O futuro que nunca chega: Brasil, decisões difíceis e o tempo da política



Circula há anos na internet uma frase atribuída a Margaret Thatcher, a chamada Dama de Ferro do conservadorismo britânico:


“O Brasil é o país do futuro, mas para tanto é preciso decidir que o ‘futuro’ é amanhã. E, como bem sabem, isto significa que as decisões difíceis têm que ser tomadas hoje.”


Ainda que eu não disponha denuna comprovação documental rigorosa sobre o contexto exato em que a frase teria sido pronunciada, a sua persistência no debate público não é casual. Ela sobrevive porque soa verdadeira, por tocar numa ferida histórica brasileira: a incapacidade recorrente de transformar diagnósticos consensuais em decisões políticas efetivas no tempo presente.

Mas o mais interessante da frase não é sua eventual autoria, e sim sua ambiguidade interpretativa. Vinda de Thatcher — símbolo de reformas neoliberais duras, rápidas e politicamente custosas — ela costuma ser lida como um chamado à austeridade, à redução do Estado e ao enfrentamento de interesses corporativos. No entanto, nada na lógica interna da afirmação limita seu alcance ao campo econômico liberal. Ao contrário: trata-se de um argumento sobre tempo político, custo de decisão e postergação histórica — elementos centrais de qualquer projeto de transformação social.

O Brasil, afinal, sempre soube qual é o seu “futuro”. O problema é que raramente o país esteve disposto a pagar o preço político de trazê-lo para o presente.


Jango e o futuro interrompido

No início dos anos 1960, o Brasil esteve talvez mais próximo do que nunca de enfrentar, de maneira explícita, suas contradições estruturais. As chamadas Reformas de Base do governo João Goulart não eram um conjunto improvisado de propostas radicais, mas um projeto de modernização social tardia: reforma agrária, urbana, educacional, tributária, bancária e política.

Nada ali era exótico no contexto internacional. Países centrais haviam realizado reformas agrárias, sistemas tributários progressivos e políticas educacionais universais décadas antes. O que tornava o projeto de Jango “perigoso” não era seu conteúdo, mas o fato de deslocar poder, renda e propriedade.

As reformas exigiam decisões difíceis — não no sentido técnico, mas político. Enfrentavam elites agrárias, setores financeiros, interesses urbanos consolidados e uma cultura política avessa à participação popular ampliada. O golpe de 1964 não interrompeu apenas um governo; interrompeu a possibilidade de o Brasil decidir, naquele momento, que seu futuro começaria “amanhã”.


A Ditadura: modernização sem democratização

O regime ilegítimo e brutal instaurado em 1964 promoveu uma modernização seletiva. Houve crescimento econômico, industrialização, grandes obras de infraestrutura e reorganização do Estado. Algumas reformas que Jango propunha foram implementadas de forma distorcida e controlada: o Estatuto da Terra, a criação do Banco Central, a reorganização tributária.

Contudo, o núcleo redistributivo foi neutralizado. A modernização ocorreu sem reforma agrária, sem justiça fiscal e sem inclusão política. O futuro prometido era tecnocrático, não social. Crescia o PIB, mas também crescia a desigualdade. Decisões difíceis foram tomadas, sim — porém sempre com o custo empurrado para os mesmos setores da sociedade.

Naqueles tempos sombrios, o Brasil avançava, mas avançava torto. Criava-se um país moderno sobre bases arcaicas, adiando novamente o acerto estrutural. E, como disse um ministro da economia daquela época, seria preciso esperar primeiro “o bolo crescer para depois partir, mas a distribuição era sempre adiada.


Os anos 1990: quando o Brasil decidiu rápido

É aqui que a frase atribuída a Thatcher ganha contornos quase irônicos. Nos anos 1990, o Brasil demonstrou algo que frequentemente se nega: o país é capaz de decidir rápido.

Privatizações em larga escala, abertura comercial acelerada, reforma do Estado, liberalização financeira, criação de agências reguladoras e estabilização monetária foram realizadas em menos de uma década. Em vários aspectos, o Brasil foi mais veloz do que países centrais nessas transformações!

O que mudou?

Mudou o alinhamento de interesses. As reformas neoliberais contaram com:


  • consenso entre elites políticas e econômicas;
  • legitimação internacional;
  • narrativa de inevitabilidade (“não há alternativa”).


As decisões difíceis, nesse caso, eram difíceis para alguns, mas aceitáveis — ou até desejáveis — para quem detinha maior poder de veto. O custo social foi difuso; o custo político, administrável.

Isso desmonta um mito confortável: o de que o Brasil não reforma porque é incompetente ou culturalmente avesso a mudanças. O país reforma, sim — quando as reformas não ameaçam estruturas profundas de desigualdade.


A Nova República e o futuro eternamente adiado

Desde a Constituição de 1988, o Brasil construiu um sólido arcabouço jurídico e institucional de direitos sociais. Educação, saúde, assistência, participação política e reconhecimento formal de desigualdades avançaram enormemente no plano normativo.

Entretanto, a implementação concreta foi — e segue sendo — desigual, incompleta e lenta.

A reforma tributária progressiva nunca veio.
A reforma agrária permanece residual.
A reforma urbana avança mais no papel do que no território.
A educação se universalizou no acesso, mas não na qualidade.

O discurso do “futuro” tornou-se um mecanismo de acomodação: todos concordam com os objetivos, mas as decisões que enfrentariam privilégios são sistematicamente adiadas para o próximo governo, o próximo ciclo, o próximo pacto.

Decidir que o futuro é amanhã continua sendo politicamente custoso demais.


O sentido profundo da frase

Lida à luz da história brasileira, a frase atribuída a Thatcher pode ser reinterpretada para além de sua origem ideológica. Ela não fala apenas de mercado ou Estado. Ela fala de coragem política intertemporal: a disposição de assumir custos hoje para que benefícios sociais se materializem amanhã.

O Brasil nunca foi um país sem projeto. Foi — e talvez ainda seja — um país que teme o preço do próprio projeto.

Enquanto decisões estruturais continuarem sendo adiadas em nome da governabilidade imediata, o futuro seguirá sendo uma promessa confortável, porém vazia. E o país do futuro continuará sendo, paradoxalmente, o país do eterno presente.


📝 A transposição do Rio São Francisco: uma ideia centenária e sua execução tardia



Carlos Drummond de Andrade escreveu, em diferentes momentos, sobre um país que parece sempre à espera de algo que não chega, preso a um tempo em que o futuro é continuamente adiado. A história da transposição do Rio São Francisco dialoga diretamente com esse sentimento: uma ideia concebida ainda no século XIX, reiterada ao longo do século XX e executada apenas de forma tardia no século XXI.

A transposição do Rio São Francisco é um dos exemplos mais emblemáticos da distância histórica entre diagnóstico, decisão política e execução no Brasil. A ideia de levar as águas do chamado Velho Chico para regiões semiáridas do Nordeste não é recente: suas primeiras formulações remontam ao século XIX, ainda no Império, com registros de estudos técnicos e propostas debatidas durante o reinado de Dom Pedro II.

Ao longo do século XX, a transposição reapareceu ciclicamente na agenda pública. Governos republicanos, a Era Vargas e o período desenvolvimentista produziram novos estudos, diagnósticos e projetos preliminares. Em todos esses momentos, reconhecia-se o potencial da obra para mitigar os efeitos da seca, garantir segurança hídrica e promover desenvolvimento regional. Ainda assim, a iniciativa permanecia no campo da promessa — seja por disputas políticas, resistências regionais, restrições orçamentárias ou falta de consenso federativo.

Somente no século XXI o projeto começou, de fato, a sair do papel. As obras foram iniciadas em 2007, no governo Lula, estruturadas em dois grandes eixos — Norte e Leste — com o objetivo de beneficiar milhões de pessoas em estados do Nordeste setentrional. A conclusão física dos principais canais ocorreu de forma escalonada entre 2017 e 2021, atravessando diferentes governos e contextos políticos.

No entanto, a transposição não se encerra com a construção dos canais principais. Persistem desafios relevantes: a operação contínua do sistema, a manutenção das estruturas, a execução dos ramais secundários e a integração efetiva com sistemas estaduais e municipais de abastecimento. Em muitas localidades, a água transposta ainda não chega de forma regular à população final, revelando que infraestrutura sem governança não garante política pública plenamente eficaz.

A história da transposição do São Francisco ilustra um traço recorrente da trajetória brasileira: ideias reconhecidas como necessárias podem levar mais de um século para serem executadas, e mesmo quando o são, enfrentam dificuldades para alcançar plenamente seus objetivos sociais. É um caso exemplar de como o “futuro” pode ser longamente consensual no discurso, mas reiteradamente adiado na prática.

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