(Por que o caminho escolhido pelos EUA pode definir não apenas a economia cubana, mas a estabilidade política do continente)
As recentes declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dirigidas a Cuba — nas quais aconselha Havana a “fazer um acordo antes que seja tarde demais” — reacendem uma discussão histórica: o confronto e o embargo realmente produzem mudanças políticas ou apenas aprofundam crises e sofrimento social?
A matéria divulgada pela BBC ao tratar do tema encerra lembrando três pontos-chave: o histórico conflituoso entre EUA e Cuba desde 1959, a breve fase de aproximação diplomática no governo Barack Obama, e a reversão dessa abertura após a volta de Trump, que restabeleceu Cuba na lista de Estados patrocinadores do terrorismo. Esses elementos ajudam a entender que a atual escalada não é inevitável — é uma opção política.
Mas a pergunta essencial é outra: se os EUA adotassem respeito diplomático, integração econômica e estímulo a investimentos internacionais, Cuba teria mais chances de avançar politicamente e socialmente sem convulsões internas?
China e Vietnã apontam caminhos — e lições
Comparações internacionais ajudam a iluminar o cenário.
No Vietnã, um regime também socialista-militar manteve seu sistema político, mas passou por reformas econômicas profundas que permitiram crescimento, redução da pobreza e maior inserção no mundo. A China, sob Deng Xiaoping, já havia se afastado do radicalismo maoista quando abriu sua economia — e embora não tenha democratizado politicamente, tornou-se social e economicamente mais complexa, e, nos anos recentes, avançou até em temas ambientais que antes desprezava.
Ou seja, a integração econômica não transforma regimes por mágica, mas estimula racionalidade administrativa, melhora condições de vida e cria pressões internas gradativas por eficiência, direitos e governança. Por sua vez, o isolamento punitivo faz o contrário: fortalece setores radicais, empobrece a população e legitima repressões sob o argumento da “ameaça externa”.
Cenários possíveis para Cuba — entre 5 e 10 anos
🔴 1) Continuidade da hostilidade
Se prevalecer a linha dura — sanções, retórica agressiva e isolamento diplomático —, Cuba tende a:
- permanecer mergulhada em crise econômica;
- conviver com desabastecimento crônico;
- ver crescer migração forçada para EUA e América Latina;
- fortalecer alas duras do regime e reduzir espaço para reformas.
Neste cenário, o governo não cai; pelo contrário, se blinda. Quem paga o preço é a população.
🟡 2) Normalização parcial pragmática
Em um cenário de diálogo limitado, com flexibilizações pontuais, acordos técnicos e algum fôlego econômico:
- a economia cubana melhora gradualmente;
- turismo e pequenos negócios ganham impulso;
- o regime permanece, mas mais pressionado a funcionar.
É o caminho mais realista: lento, menos traumático e socialmente mais humano.
🟢 3) Normalização ampla
Se houver retomada diplomática robusta, retirada de designações punitivas e estímulo forte a investimentos estrangeiros:
- a economia respira de forma consistente;
- a sociedade ganha estabilidade e renda;
- o país se integra cultural e economicamente ao mundo.
O regime ditatorial, neste caso, não desaparece instantaneamente, mas evolui sob pressão civilizada, não pela dor.
Por que os EUA nem sempre escolhem esse caminho?
A resposta está menos em Havana e mais em Washington.
Nos Estados Unidos, a política em relação a Cuba não é apenas geopolítica — é eleitoral. Parte do lobby cubano-americano, especialmente na Flórida, apoia historicamente a linha dura, vista por republicanos como símbolo ideológico e instrumento político. Já democratas tendem a apoiar a normalização, mas enfrentam receio do custo eleitoral e da pressão no Congresso.
Assim, a hostilidade costuma ser o padrão fácil, enquanto a normalização exige coragem política e visão de longo prazo.
Entre a arma econômica e a ponte diplomática
A experiência internacional, a evolução recente da China e o exemplo vietnamita apontam na mesma direção: quando há abertura mínima interna, integração econômica e respeito diplomático produzem resultados mais estáveis, mais humanos e potencialmente transformadores a médio e longo prazo.
No caso cubano, há sinais claros de pragmatismo econômico recente e reformas graduais — exatamente o tipo de ambiente que costuma evoluir melhor com apoio e não com cerco.
A normalização pode não entregar mudanças rápidas — mas oferece dignidade, estabilidade regional e cria condições reais para evolução política orgânica, sem convulsão social. Em última instância, a escolha dos Estados Unidos determinará se Cuba caminhará para o empobrecimento endurecido ou para uma transformação lenta, porém concreta.
No fim, trata-se menos de punir regimes e mais de decidir quem deve pagar o preço da política externa: os governos ou os povos.

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