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domingo, 11 de janeiro de 2026

Entre a memória e o futuro: Darcy Ribeiro, Brizola e o vazio de uma esquerda realizadora no Rio



Inegavelmente, o Rio de Janeiro é um estado marcado por contrastes: potência cultural, relevância histórica e, ao mesmo tempo, fragilidade social e política crônica, conforme temos visto nas últimas décadas. 

Em momentos como esse, revisitar figuras como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola não é nostalgia, mas, sim, um instrumento de reflexão crítica sobre o que fomos, o que deixamos de ser e o que ainda poderíamos construir.

Darcy não falava apenas de educação. Ele tinha um projeto de país

Brizola não disputava poder pelo poder. Ele buscava um sentido histórico

Ambos compreenderam que não há nação possível quando o povo é abandonado e quando a política se reduz a jogo de conveniências.

A frase de Darcy continua dolorosamente atual:


“Enquanto houver uma criança sem escola, um velho sem casa e um povo sem história, não teremos pátria.”


Não seria exagero dizer que o Rio vive há décadas um ciclo de instabilidade política, improviso administrativo e alianças que atendem mais à sobrevivência de elites políticas do que às necessidades da população. 

Todavia, a marca mais triste desse período é a ausência de uma esquerda combativa, realizadora e capaz de liderar um projeto sólido de transformação.

Durante anos, parte da esquerda fluminense oscilou entre dois polos: a retórica combativa sem criar condições capazes para governar, e o pragmatismo excessivo, que acaba cedendo à lógica dos arranjos fáceis.

Assim, perdeu-se espaço político, identidade e a oportunidade de oferecer uma alternativa real ao conservadorismo de ocasião e ao liberalismo precarizante que dominaram boa parte da agenda estadual.

O legado de Darcy e Brizola não era sobre slogans e sim sobre obra concreta, sobre escolas, sobre políticas sociais com lastro, sobre coragem de enfrentar interesses instalados. 

O Rio carece hoje de algo semelhante: uma liderança que una espírito combativo com capacidade executiva; que dialogue com as periferias, com o mundo do trabalho, com a juventude, com os movimentos sociais, mas que também saiba administrar, construir políticas públicas e sustentar institucionalmente suas propostas.

Não se trata de saudosismo político. Trata-se de reconhecer que a história já nos mostrou que o caminho existe — mas exige coragem, coerência e responsabilidade.

À medida que caminhamos para um novo ciclo político, a grande questão é se continuaremos apostando em arranjos de ocasião, ou se recuperaremos o fio histórico de uma esquerda que não se limita a discursar, mas transforma?

Entre a memória e o futuro, o Rio de Janeiro ainda é um projeto inacabado. Cabe a nós decidir se queremos mantê-lo assim, ou se teremos coragem de recolocar o povo no centro das decisões, como Darcy e Brizola tanto insistiram em fazer.



Ótimo final de domingo!

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