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sábado, 24 de outubro de 2026

UM DOMINGO DECISIVO PARA O BRASIL



Amanhã, dia 25 de outubro, o Brasil voltará às urnas para escolher o seu presidente e o seu vice-presidente pelos próximos quatro anos.

Uma eleição não pode ser tratada como mero espetáculo, entretenimento ou disputa entre torcidas. Trata-se de uma decisão de enorme responsabilidade, cujas consequências alcançam a vida de milhões de brasileiros, o funcionamento da economia, das instituições, das políticas de proteção ambiental, a soberania nacional e o próprio Estado Democrático de Direito.

Quando penso na economia, lembro da importância do comércio internacional, da exploração responsável das nossas riquezas minerais, especialmente das terras raras, da industrialização do país e do agronegócio. O Brasil não pode se contentar com o papel de mero exportador de commodities. Precisamos agregar valor à nossa produção, desenvolver tecnologias e atrair investimentos capazes de gerar empregos e oportunidades para os brasileiros.

Penso também no respeito à ciência, na pesquisa e na produção de conhecimento. Para avançarmos tecnologicamente, precisamos investir nas universidades, nos institutos de pesquisa e, antes de tudo, na educação básica, onde começa a formação de cada cidadão. Daí a importância de valorizar os professores, assegurar recursos suficientes para a educação pública e fortalecer políticas de incentivo à permanência dos estudantes na escola, como o programa Pé-de-Meia.

Entretanto, para darmos qualquer passo na vida, precisamos cuidar do corpo e da mente. É indispensável um governo verdadeiramente comprometido com o Sistema Único de Saúde (SUS), capaz de transformar em realidade o princípio consagrado no artigo 196 da Constituição Federal: a saúde é direito de todos e dever do Estado.

A saúde, por sua vez, também depende das condições ambientais em que vivemos. A preservação das florestas, dos rios, dos mares e da biodiversidade não pode ser vista como obstáculo ao desenvolvimento econômico, mas como condição para que o progresso aconteça de maneira sustentável, respeitando as presentes e futuras gerações.

Há ainda a preocupação com a Previdência Social e os benefícios assistenciais, instrumentos fundamentais de proteção à dignidade humana e de garantia das condições mínimas de existência. Não podemos admitir retrocessos que comprometam a renda de aposentados, pensionistas, idosos e pessoas com deficiência que dependem da proteção social. A garantia constitucional do salário mínimo para os benefícios que substituem a renda do trabalho e a preservação do poder de compra dessas prestações representam conquistas que precisam ser defendidas.

Todas essas decisões, entretanto, devem ser tomadas em um ambiente de liberdade, democracia e participação popular.

Não basta escolher presidentes, deputados e senadores a cada quatro anos. É preciso continuar debatendo publicamente os problemas nacionais, fiscalizando os governantes, cobrando resultados e participando das decisões que afetam o nosso futuro. A democracia não pode se resumir ao ato de votar. Ela precisa ser exercida permanentemente.

É por todas essas razões que considero fundamental escolher um presidente comprometido com as instituições democráticas, com a justiça social, com a soberania nacional e com um projeto de desenvolvimento que não deixe os mais pobres para trás.

Diante disso, minha escolha é conceder mais quatro anos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na minha avaliação, Lula reúne as melhores condições para fazer o Brasil avançar, com crescimento econômico, inclusão social, valorização da educação, fortalecimento do SUS e compromisso com a preservação ambiental. Em seus três mandatos, já demonstrou sua capacidade de conduzir o país, com realizações que considero importantes para a população brasileira.

Reconhecer essas conquistas não significa ignorar problemas ou dispensar a cobrança por resultados. Ao contrário, apoiar um governante também significa exigir que ele cumpra seus compromissos e esteja permanentemente aberto ao diálogo com a sociedade.

É essa a democracia em que acredito e o Brasil que desejo ajudar a construir.

Por isso, neste domingo, meu voto é 13.

Vem pra urna e faz o L!


📷: Manifestação do dia 12/10/2026, em Copacabana.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Ela não sabe que está extinta

 


"Age de tal modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana na Terra." — Hans Jonas, O Princípio Responsabilidade (1979)


Na madrugada em que Nieda começou a ter coração, havia feito quarenta e seis graus em Teresina durante a tarde do dia anterior.

Às duas e dezessete, os termômetros instalados no campus ainda marcavam trinta e cinco. As aulas presenciais da tarde haviam sido suspensas pelo terceiro dia consecutivo, e um aviso da reitoria nos corredores recomendava que ninguém permanecesse nas áreas externas entre dez e dezesseis horas.

Clara, no entanto, estava no laboratório desde antes do pôr do sol.

Tinha vinte e três anos e nascera em outubro de 2026. Gostava de dizer que pertencia à última geração que podia ouvir dos pais histórias sobre um mundo no qual quarenta graus ainda eram notícia de jornal.

Naquela noite, porém, ela não pensava no clima. O pequeno monitor à sua frente mostrava pulsações regulares.

— Confere de novo — pediu Miguel.

Yasmin já verificava.

— Cento e vinte e oito.

— Não pode ser.

— Então olha você.

Miguel aproximou-se.

Durante alguns segundos, nenhum dos três falou.

O laboratório estava quase às escuras. Somente as luzes dos equipamentos permaneciam acesas. Do lado de fora, o sistema de refrigeração trabalhava com esforço contra o calor da madrugada.

No monitor, alguma coisa pulsava.

Clara aproximou o rosto do vidro.

— Tem coração.

Yasmin corrigiu:

— Tem atividade cardíaca.

— Qual é a diferença?

— Neste momento? Uma diferença ética enorme.

Miguel soltou uma risada nervosa.

Ninguém o acompanhou.

Aquilo começara como uma brincadeira.

Talvez todas as coisas realmente perigosas começassem assim.


O Projeto PaleoCaatinga não tinha qualquer propósito de ressuscitar animais.

Isso aparecia expressamente no protocolo aprovado pelo Comitê de Ética, repetido nos relatórios e lembrado pela professora Helena Farias sempre que algum jornalista utilizava a palavra “desextinção”.

O objetivo era outro.

Fragmentos de material genético recuperados de fósseis encontrados em diferentes áreas do Nordeste estavam sendo comparados com genomas de espécies atuais. Novos sistemas de inteligência artificial permitiam reconstruir relações evolutivas, inferir proteínas e estudar características de animais desaparecidos havia milhares de anos.

Era uma maneira de compreender o passado para interpretar o presente.

A Serra da Capivara ocupava lugar especial no projeto.

Ali, entre cânions, paredões e abrigos rochosos, gerações de pesquisadores haviam encontrado vestígios de seres humanos e de uma fauna que já não existia. Preguiças gigantes, grandes felinos, cavalos americanos, toxodontes e parentes enormes dos tatus haviam habitado paisagens diferentes da Caatinga que os visitantes conheciam no século XXI.

Clara gostava especialmente dos pampatérios.

Havia alguma coisa quase absurda na ideia de um tatu daquele tamanho caminhando pelo Piauí.

Foi Miguel quem, numa noite de trabalho, perguntou:

— Quanto dele você acha que a gente conseguiria reconstruir?

Clara nem levantou os olhos.

— Do quê?

— Do bicho.

— Qual bicho?

— Seu tatu gigante.

— Não é tatu gigante.

— Para alguém que não é paleontólogo, é.

Yasmin girou a cadeira.

— Reconstruir como?

Miguel apontou para a tela.

— Genoma.

Clara riu.

— Completo?

— O mais próximo possível.

— Para quê?

— Para nada.

Foi provavelmente aquela resposta que decidiu tudo.

Para nada.

Não havia projeto, financiamento, autorização ou objetivo.

Era um desafio entre três estudantes.

Um quebra-cabeça impossível.


Em 2049, as máquinas sabiam preencher ausências melhor do que no tempo em que Clara nascera.

Um fragmento incompleto de DNA podia ser comparado em segundos com milhares de genomas, relações evolutivas, proteínas conhecidas e sequências preservadas. A máquina propunha possibilidades.

Mas possibilidade não era memória.

E inferência não era fóssil.

A professora Helena repetia isso.

— Quando a inteligência artificial preencher uma lacuna, lembrem-se que ela não encontrou o passado. Ela calculou uma hipótese sobre ele.

Talvez os três tivessem esquecido a segunda parte.

Começaram reconstruindo sequências.

Depois compararam com espécies vivas.

Depois corrigiram incompatibilidades.

Miguel chamou o arquivo de TATU_FINAL.

Yasmin acrescentou: TATU_FINAL_AGORA_VAI.

Clara renomeou: PPH-17.

— Sem graça — reclamou Miguel.

— Ciência costuma ser.

Nenhum deles sabia exatamente quando a brincadeira deixou de ser brincadeira.

Testaram proteínas.

Depois células.

Era para verificar se determinadas sequências reconstruídas seriam funcionais.

Foram.

Então veio outra pergunta.

E depois outra.

Cada experiência parecia apenas a continuação lógica da anterior.

Nenhuma parecia suficientemente grave para exigir que parassem.

Até aquela madrugada.

Até as pulsações.


— Temos que chamar a Helena — disse Yasmin.

Miguel virou-se imediatamente.

— Você ficou louca?

— Louca eu estava quando concordei com isso.

— Se chamarmos a Helena, acabou.

— Miguel, já acabou.

Clara permanecia diante do monitor.

— Ainda não.

Os dois olharam para ela.

— Clara...

Ela não respondeu.

Havia alguma coisa profundamente desconfortável em saber que aquele ritmo só existia porque eles haviam decidido testar uma hipótese.

Não deveria estar ali.

Não tinha história.

Não tinha mãe.

Não tinha espécie.

Mas tinha coração.


A professora Helena descobriu dois dias depois.

Não porque algum deles confessou, mas foi porque laboratórios registravam tudo.

Quando entrou na sala, trazia no rosto uma expressão que Clara jamais esqueceria.

Não era raiva.

Era medo.

— Digam que não fizeram isso.

Ninguém respondeu.

Helena caminhou até o equipamento.

Olhou os dados.

Depois olhou para os três.

— Vocês têm ideia do que fizeram?

Miguel tentou explicar.

— Tecnicamente...

— Não quero saber tecnicamente. Tecnicamente eu sei exatamente o que vocês fizeram.

Ela respirou fundo.

— Quero saber em que momento três pessoas inteligentes decidiram que inteligência era autorização.

Yasmin começou a chorar.

Miguel sentou-se.

Clara permaneceu em pé.

— O que vai acontecer agora?

Helena olhou para ela.

— Agora nós interrompemos.

Clara demorou alguns segundos para compreender.

— Não.

— Não é uma discussão.

— É um organismo viável.

— Justamente.

— Tem coração.

Helena aproximou-se.

— Clara, vocês produziram um embrião sem autorização, utilizando reconstrução genética incompleta de uma espécie extinta, com regiões inferidas computacionalmente e um modelo gestacional experimental. Não sabemos sequer exatamente o que vocês produziram.

— Então precisamos descobrir.

— Não. Precisamos impedir que um erro fique maior.

Clara olhou novamente para o monitor.

— Para corrigir o que fizemos?

— Sim.

— Ou para matar o que fizemos?

Helena fechou os olhos.

Talvez tenha sido naquele momento que Clara se tornou mãe.

Não biologicamente.

Não juridicamente.

Talvez nem moralmente.

Mas alguma coisa dentro dela atravessou uma fronteira da qual jamais retornaria.


O caso chegou à reitoria.

Depois ao conselho de ética.

Depois às autoridades ambientais.

Depois aos advogados.

Durante semanas, discutiu-se se aquilo era uma experiência, um embrião, um híbrido, um organismo geneticamente reconstruído ou apenas uma aberração científica que deveria ser interrompida antes que adquirisse qualquer outra definição.

Clara utilizava uma palavra muito mais simples.

Vida.

Helena discordava.

— Você está confundindo duas questões.

— Quais?

— Se está vivo e se deveria existir.

— Para mim uma responde à outra.

— Esse é justamente o seu erro.

Helena puxou uma cadeira.

— Estar vivo não responde à pergunta principal.

— E qual é a pergunta principal?

A professora apontou para o equipamento.

— Para que mundo vocês trouxeram esse ser?

Clara riu.

Não porque tivesse achado graça.

— Engraçado.

— O quê?

— Ninguém perguntou isso quando trouxe a minha geração.

Helena permaneceu em silêncio.

Clara continuou:

— Vocês sabiam do aquecimento. Sabiam das florestas. Sabiam dos oceanos. Sabiam das extinções. Sabiam de tudo.

— “Vocês” quem, Clara?

Ela não respondeu.

— Eu tinha dezesseis anos quando começou a pandemia de COVID — disse Helena. — Passei meses sem abraçar minha avó. Vi professores morrerem. Vi gente trabalhando para desenvolver vacina enquanto outros espalhavam mentiras sobre elas. Vi médicos entrando em hospitais sem saber se voltariam para casa. Qual desses era o “vocês” de que você está falando?

Clara abaixou os olhos.

— Uma geração não é uma pessoa — continuou Helena. — Houve quem destruísse e houve quem tentasse impedir. Houve quem lucrasse e houve quem alertasse. Houve governos que avançaram e governos que fizeram o contrário negando a ciência. Se você transformar todos os que vieram antes numa única culpa, vai acabar encontrando uma desculpa para não olhar para a sua.

A frase doeu.

Talvez porque fosse verdadeira.


A autorização provisória veio com tantas condições que parecia uma negativa escrita ao contrário.

O desenvolvimento poderia prosseguir sob supervisão extraordinária.

Nenhuma reprodução seria permitida.

Todo o processo seria acompanhado por especialistas independentes.

Os estudantes foram afastados das decisões técnicas.

Clara continuaria vendo o embrião somente porque os responsáveis concluíram que sua presença não interferia no protocolo.

Interferia.

Todas as noites ela entrava na sala.

Conversava.

Sabia que era ridículo.

Contava sobre o calor, sobre os professores, sobre Miguel e Yasmin.

Às vezes lia artigos em voz alta.

Foi assim que encontrou Niède Guidon.

Já conhecia o nome, naturalmente. Qualquer pessoa envolvida com a Serra da Capivara conhecia.

Mas naquela noite leu sobre a mulher que atravessara décadas defendendo a importância daquele território, enfrentando controvérsias científicas, lutando pela preservação de sítios arqueológicos e insistindo que a história do povoamento das Américas talvez fosse mais complexa do que as narrativas dominantes admitiam.

Na tela ao lado, o embrião movia-se.

Clara sorriu.

— Você precisava de um nome.

No dia seguinte, Miguel perguntou:

— PPH-17?

— Nieda.

— Com “a”?

— Com “a”.

Yasmin entendeu primeiro.

— Por causa da Niède.

Clara assentiu.

Miguel olhou para o equipamento.

— Nieda.

E foi assim que um animal que não deveria existir recebeu um nome.


A mãe de Clara soube pela imprensa.

A notícia vazou antes que a universidade conseguisse preparar qualquer comunicado:  ESTUDANTES CRIAM EMBRIÃO DE MAMÍFERO EXTINTO NO PIAUÍ.

Depois: TATU GIGANTE PODE VOLTAR À VIDA APÓS MILHARES DE ANOS.

Depois: DESEXTINÇÃO OU IRRESPONSABILIDADE?

A mãe ligou.

— Clara, me diz que não foi você.

Clara ficou em silêncio.

— Meu Deus.

— Mãe...

— Você ficou maluca?

— Não foi assim.

— Nunca é “assim”. Quando dá errado, nunca foi assim.

Clara sentou-se no chão do corredor.

— Eles queriam interromper.

Do outro lado da chamada houve silêncio.

— E você?

— Eu não deixei.

— Por quê?

Clara não sabia responder.

A mãe respirou fundo.

— Você sempre foi assim.

— Assim como?

— Achando que salvar alguma coisa é impedir que ela morra.

— E não é?

— Nem sempre.

Clara irritou-se.

— Fácil dizer.

— Não, Clara. Quase nada que importa é fácil dizer.


Dias depois, a mãe viajou para Teresina.

Encontraram-se numa cafeteria próxima ao campus. O ar-condicionado estava no máximo, mas as portas permaneciam fechadas para evitar desperdício energético.

Na televisão, uma reportagem mostrava novas crateras de degelo no Ártico.

Clara apontou para a tela.

— Olha isso.

A mãe olhou.

— Estou olhando há trinta anos.

— E fizeram o quê?

— Outra vez?

— Outra vez o quê?

— “Vocês.”

Clara ficou calada.

Na televisão, cientistas explicavam que o degelo do permafrost liberava carbono, alterava ecossistemas e expunha materiais biológicos preservados havia milhares de anos. Depois das crises sanitárias das décadas anteriores, qualquer descoberta de microrganismos antigos despertava imediatamente manchetes alarmistas.

A mãe mudou de assunto.

— Quando você nasceu, ainda falavam muito da COVID.

— Eu sei.

— Não sabe. Você estudou. É diferente.

Clara olhou para ela.

— Você nasceu em outubro de 2026. No mês das eleições.

— Já me contou.

— Não contei tudo.

A mãe pegou o telefone e procurou uma fotografia antiga.

Clara já a conhecia, mas nunca prestara muita atenção.

Na imagem, sua mãe aparecia mais jovem, diante de uma escola. Ao lado dela havia um carrinho.

Dentro, quase invisível sob uma manta fina, estava Clara.

— Levei você para votar comigo.

— Com poucas semanas?

— Não tinha com quem deixar.

Clara ampliou a fotografia.

Havia pessoas ao fundo. Cartazes. Uma árvore. Um céu muito azul.

— Estava quente naquele dia — disse a mãe. — Lembro porque fiquei preocupada com você no carrinho. Uma senhora perguntou seu nome. Depois disse: “Quando ela crescer, esse mundo vai estar muito diferente.”

Clara sorriu.

— E você respondeu?

A mãe demorou.

— “Tomara que esteja melhor.”

Clara olhou novamente para a fotografia.

— Você achava que estaria?

— Achava.

— E está?

A mãe olhou pela janela.

— Algumas coisas estão. Outras não.

— Então vocês erraram.

— Erramos muitas vezes.

A resposta desarmou Clara.

A mãe continuou:

— Mas agora chegou a sua vez de errar também.


Nieda nasceu numa manhã de janeiro de 2050.

O mundo soube algumas horas depois.

Não houve transmissão.

Não houve anúncio triunfal.

O parto foi acompanhado por veterinários, geneticistas e representantes dos órgãos responsáveis.

Clara assistiu atrás de um vidro.

Durante alguns segundos, nada aconteceu.

Depois o pequeno animal respirou.

Alguém disse alguma coisa.

Clara não ouviu.

Nieda mexeu as patas.

Era menor do que Clara imaginara.

Desajeitada.

Úmida.

Assustada.

Nenhuma fotografia de reconstrução paleontológica havia preparado Clara para aquilo.

Extinção era uma palavra enorme.

Aquele animal era pequeno.

Quando finalmente permitiram que Clara se aproximasse, Nieda ergueu o focinho.

Cheirou sua mão.

E recuou.

Clara chorou.

Miguel, ao lado dela, sussurrou:

— Ela não sabe.

— O quê?

— Que está extinta.

Clara olhou para ele.

Depois para Nieda.

— Não.

Passou o dedo lentamente sobre o vidro.

— E talvez seja melhor que nunca saiba.


Nieda cresceu.

E com ela cresceu o problema.

O genoma podia sugerir a forma de um corpo.

Não ensinava como aquele corpo deveria viver.

Nieda cavava.

Muito.

Destruía instalações, arrancava estruturas, procurava coisas que os pesquisadores não sabiam identificar.

Algumas plantas ela comia.

Outras ignorava.

Demonstrava preferência por determinados solos.

Reagia a cheiros.

Reconhecia pessoas.

E reconhecia Clara.

Não havia outro pampatério para ensiná-la a ser pampatério.

Tudo o que se sabia sobre sua espécie vinha de ossos, dentes, carapaças, sedimentos e inferências.

Pela primeira vez, a ciência tinha diante de si um animal vivo.

E, paradoxalmente, continuava sem saber quem ele era.


A discussão sobre criar outro indivíduo começou antes do primeiro aniversário.

Clara surpreendeu a todos.

Foi contra.

Miguel não entendeu.

— Você brigou para manter Nieda viva.

— Nieda já estava viva.

— E agora vai deixá-la sozinha?

Clara não respondeu imediatamente.

Essa era a pergunta que mais temia.

— Criar outro para resolver a solidão que nós criamos não corrige a primeira decisão.

— Então o quê?

— Eu não sei.

— Você sempre sabe.

— Não. Eu só achava que sabia.


Aos três anos, Nieda foi transferida para uma extensa área controlada próxima à Serra da Capivara.

Não era liberdade.

Também não era zoológico.

Era o melhor compromisso que seres humanos conseguiram inventar para um problema que seres humanos haviam inventado.

Ali havia terra suficiente para cavar.

Vegetação.

Abrigos.

Pouca presença humana.

Clara mudou-se para perto.

Concluiu o doutorado.

Abandonou a engenharia genética aplicada e passou a estudar ética da conservação e paleobiologia.

Alguns diziam que fizera isso por culpa.

Ela não negava.


Certa tarde, Clara levou a mãe para conhecer Nieda.

As duas permaneceram numa plataforma distante.

O animal caminhava lentamente entre arbustos.

— Então é ela — disse a mãe.

— É.

— Maior do que imaginei.

Clara sorriu.

— Todo mundo diz isso.

Ficaram em silêncio.

— Você se arrepende? — perguntou a mãe.

Clara demorou.

— De ela estar viva?

— De ter feito o que fez.

— São perguntas diferentes.

A mãe assentiu.

Clara percebeu que aquela era exatamente a resposta que Helena tentara lhe ensinar anos antes.


O tempo passou.

Nieda envelheceu.

Clara também.

O mundo continuou mudando.

Não houve uma grande manhã em que a humanidade acordou responsável.

Algumas florestas foram recuperadas.

Outras desapareceram.

Cidades adaptaram-se.

Outras foram parcialmente abandonadas.

Tecnologias reduziram emissões e recuperaram ecossistemas, mas não apagaram tudo o que já havia acontecido.

O Ártico continuou diferente daquele que os avós de Clara conheceram.

O permafrost continuou recuando em muitas regiões.

A COVID tornou-se capítulo nos livros de história, acompanhada por outras epidemias que ensinaram novamente lições que os seres humanos pareciam ter extraordinária capacidade de aprender e esquecer.

Nieda não sabia de nada disso.

Continuava cavando.


Quando Nieda completou vinte e seis anos, deixou de cavar.

Clara percebeu antes dos veterinários.

Viajava quando recebeu a mensagem.

Voltou ao Piauí no mesmo dia.

Nieda estava deitada sob uma formação rochosa que escolhera havia anos como abrigo.

Não havia doença grave.

Seu corpo simplesmente chegava ao fim.

Os veterinários permitiram que Clara entrasse.

Ela caminhou devagar.

Nieda levantou a cabeça.

Talvez a reconhecesse.

Talvez Clara precisasse acreditar nisso.

Sentou-se a alguns metros.

Durante toda a vida de Nieda, pessoas haviam medido sua temperatura, sequenciado células, analisado fezes, registrado movimentos, estudado alimentação, observado comportamento.

Naquela tarde, Clara pediu que desligassem tudo o que não fosse indispensável.

— Por quê? — perguntou um pesquisador jovem.

— Porque hoje ninguém vai aprender nada com ela.

Sentou-se novamente.

Nieda respirava devagar.

Clara ficou ali até o anoitecer.

Quando a respiração cessou, não havia câmeras próximas.

Pela primeira vez desde que fora concebida, Nieda morreu sem estar sendo estudada.


No dia seguinte começaram os pedidos.

Universidades.

Museus.

Centros de pesquisa.

O corpo daquele animal era cientificamente inestimável.

Uma equipe propôs preservar o esqueleto completo.

Outra queria tecidos.

Outra defendia taxidermia para exposição pública.

Clara recusou.

— Não é sua decisão — disseram.

— Eu sei.

Mas lutou mesmo assim.

A discussão durou semanas.

Amostras já coletadas durante a vida foram preservadas. Pequenos materiais indispensáveis foram autorizados.

O restante seria enterrado.

Um antigo colega protestou:

— Você é cientista. Sabe quanto conhecimento estamos perdendo.

Clara olhou para ele.

— Sei.

— Então por quê?

Ela pensou na madrugada de 2049.

No monitor.

Nas pulsações.

Na primeira vez em que acreditara que poder fazer alguma coisa era argumento suficiente para fazê-la.

— Porque foi exatamente assim que tudo começou.

— Como?

— Achando que tudo aquilo que podíamos estudar também nos pertencia.


Não construíram monumento.

Clara pediu isso.

Nieda foi enterrada numa área protegida, não muito distante dos paredões que guardavam pinturas feitas por seres humanos milhares de anos antes.

Havia entre aquelas figuras uma representação antiga que alguns pesquisadores interpretavam como um grande cingulado.

Durante décadas discutira-se se poderia representar um pampatério.

Nieda não resolveu a controvérsia.

Clara gostava disso.

Depois de tudo, ainda existiam perguntas que a ciência não conseguira transformar em certeza.


Muitos anos depois, Clara voltou ao parque.

Seus cabelos estavam quase inteiramente brancos.

Caminhava mais devagar.

A mãe havia morrido havia muito tempo.

Miguel vivia na Europa.

Yasmin tornara-se professora.

Helena, aposentada, ainda lhe escrevia.

Naquela manhã, um grupo escolar visitava um dos abrigos.

Clara ouviu uma criança perguntar:

— É verdade que fizeram um desses de novo?

O guia respondeu:

— Fizeram um.

— Só um?

— Só.

— Por quê?

O guia procurou uma resposta.

— Porque perceberam que conseguir fazer uma coisa não significa necessariamente que devemos fazê-la.

A criança pensou.

Depois fez uma pergunta muito mais difícil:

— Então ela ficou sozinha?

Clara fechou os olhos.

Durante todos aqueles anos, nenhuma comissão de ética, nenhum congresso científico e nenhum tribunal formulara o problema de maneira tão simples.

Sim.

Nieda ficara sozinha.

Não porque estivesse abandonada.

Nunca estivera.

Ficara sozinha porque nenhum cuidado humano poderia lhe devolver aquilo que os humanos haviam decidido recriar sem poder reconstruir.

Sua espécie.

Seu tempo.

Seu mundo.


Na saída do abrigo, Clara viu uma jovem mulher empurrando um carrinho.

Dentro dele dormia um bebê.

Por algum motivo, parou.

A mulher percebeu seu olhar e sorriu.

— Dois meses.

Clara aproximou-se.

— Como se chama?

A mãe respondeu.

Clara não conhecia o nome.

Era bonito.

Uma senhora que acompanhava o grupo inclinou-se sobre o carrinho.

— Quando ela crescer, esse mundo vai estar muito diferente no século XXII.

A jovem mãe ajeitou a manta.

E respondeu:

— Tomara que esteja melhor.

Clara sentiu alguma coisa atravessá-la.

Não uma lembrança exatamente.

Uma frase.

Uma fotografia.

Outubro de 2026.

Uma escola.

Uma eleição.

Sua mãe muito jovem ao lado de um carrinho.

Ela própria dormindo dentro dele enquanto adultos entravam e saíam de uma seção eleitoral acreditando, cada um à sua maneira, que estavam escolhendo alguma parte do futuro.

Clara jamais escolhera nascer naquele mundo.

Nieda também não.

A diferença era que, no caso de Nieda, Clara estivera do outro lado da escolha.

Olhou para o bebê.

Depois para os paredões.

Ali, seres humanos mortos havia milhares de anos haviam deixado imagens para pessoas que jamais conheceriam.

Mais adiante, sob a terra, repousava um animal que pertencera ao passado, fora arrancado dele por uma geração curiosa e devolvido à mesma terra sem jamais compreender por que existira duas vezes.

Clara finalmente percebeu que passara a vida fazendo a pergunta pela metade.

Durante anos perguntara: Para que mundo estamos trazendo esse ser?

Agora compreendia que havia outra pergunta, talvez mais importante: Que mundo estamos deixando para aqueles que não participaram da decisão de recebê-lo?

A mãe do bebê despediu-se.

Clara observou o carrinho afastar-se pela trilha.

Lembrou-se de Nieda recém-nascida, pequena demais para carregar o peso de todas as discussões que sua existência provocara.

Lembrou-se da própria mãe dizendo: Tomara que esteja melhor.

O mundo não ficara simplesmente melhor no final do século XXI. Nem simplesmente pior.

Ficara diferente porque milhões de pessoas, durante décadas, haviam feito escolhas — algumas generosas, outras egoístas; algumas sábias, outras desastrosas; muitas irreversíveis.

Era isso que nenhuma geração conseguia evitar.

Recebia um mundo que não escolhera.

E entregava outro que ajudara a construir.

Clara voltou os olhos uma última vez para a figura desenhada na pedra.

Depois seguiu lentamente pela trilha.

Quando nascera, recebera um mundo que não escolhera.

Quando Nieda nasceu, fora Clara quem escolhera por ela.

Só muito tarde compreendera que ninguém escolhe nascer.

Mas todos nós participamos da escolha do mundo que receberá quem vier depois.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A faixa de domínio da Rio-Santos: a história que começou antes da duplicação da rodovia



A primeira audiência pública promovida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), realizada na noite de 30 de junho de 2026, em Mangaratiba, para discutir o licenciamento ambiental da duplicação da BR-101/RJ (Rio-Santos), revelou que um dos principais temas de preocupação da população vai muito além dos impactos ambientais e das soluções de engenharia previstas para o empreendimento.

Embora o objetivo formal da audiência fosse debater o Estudo de Impacto Ambiental e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), boa parte das manifestações concentrou-se na situação das famílias que vivem há décadas na faixa de domínio da rodovia.

Ao longo de várias horas de debates, moradores relataram insegurança quanto ao futuro de suas residências, questionaram os critérios adotados para o reassentamento e demonstraram preocupação com as propostas de compensação financeira apresentadas pela concessionária. Diversos participantes afirmaram que os valores oferecidos seriam insuficientes para a aquisição de outro imóvel na própria região, tema que certamente ainda deverá ser objeto de esclarecimentos por parte da empresa e de análise pelos órgãos públicos responsáveis.

Hoje, 1º de julho, às 19 horas, será realizada a segunda audiência pública, desta vez em Angra dos Reis, oferecendo nova oportunidade para que moradores, instituições, pesquisadores, entidades da sociedade civil e demais interessados apresentem suas contribuições ao processo de licenciamento ambiental.

Entretanto, para compreender por que esse assunto ocupou espaço tão significativo na audiência realizada em Mangaratiba, é preciso voltar alguns anos no tempo.


As notificações de 2019

Em meados de julho de 2019, centenas de moradores de Mangaratiba passaram a receber notificações expedidas pelo então Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), em conjunto com a Prefeitura Municipal, determinando a desocupação da faixa de domínio da BR-101 no prazo de apenas quinze dias.

Naquele momento, muitos acreditaram que as notificações estivessem relacionadas ao futuro projeto de duplicação da rodovia, cuja possibilidade já começava a ser discutida.

Posteriormente, porém, em resposta encaminhada à Defensoria Pública da União (DPU), o próprio DNIT esclareceu que aquelas notificações não estavam vinculadas ao projeto de duplicação do trecho entre Itacuruçá e a divisa com São Paulo.

Mesmo assim, aquele episódio revelou um problema social que permanecia praticamente invisível havia décadas.


Um problema construído ao longo do tempo

Desde a construção da Rio-Santos, na década de 1970, os municípios da Costa Verde expandiram-se gradativamente em direção à rodovia.

Novos bairros surgiram. Comunidades cresceram. Foram implantadas ruas, iluminação pública, abastecimento de água, coleta de lixo, pontos de ônibus, áreas de lazer e diversos outros equipamentos urbanos.

Em muitos casos, os imóveis passaram inclusive a integrar o cadastro imobiliário municipal e a recolher tributos.

Em outras palavras, embora parte dessas ocupações permanecesse localizada na faixa de domínio da União, consolidou-se uma realidade urbana construída ao longo de décadas, frequentemente acompanhada pela atuação — ou pela omissão — do próprio Poder Público.

Não se trata, evidentemente, de afirmar a regularidade jurídica de todas as ocupações existentes, mas de reconhecer que a formação dessas comunidades ocorreu dentro de um contexto social e urbano complexo. Em muitos locais, a própria rodovia acabou funcionando como eixo estruturador do crescimento urbano, tornando insuficiente uma análise exclusivamente patrimonial da questão.


A atuação da DPU e do MPF

Diante das notificações ocorridas em 2019, apresentei representação ao Ministério Público Federal e comunicação à Defensoria Pública da União.

Na ocasião, sustentei que o conflito não poderia ser analisado apenas sob a perspectiva da proteção patrimonial da faixa de domínio.

Era indispensável considerar direitos igualmente protegidos pela Constituição Federal, como o direito social à moradia, a dignidade da pessoa humana, a função social da propriedade e da posse, bem como a necessidade de políticas públicas capazes de assegurar alternativas habitacionais às famílias eventualmente atingidas.

Essa atuação deu origem ao PAJ nº 2019/016-08211, conduzido pelo Defensor Público Federal Dr. Thales Arcoverde Treiger, bem como ao Inquérito Civil nº 1.30.001.002905/2019-38, instaurado pelo Procurador da República Dr. Sérgio Gardenchi Suiama.

No âmbito do Ministério Público Federal, foram requisitadas informações à Associação de Moradores da Comunidade São Sebastião (Morro da Encrenca), que confirmou a situação vivenciada pelas famílias e ressaltou a inexistência de soluções habitacionais concretas.


A pandemia e as ações judiciais

Enquanto o país enfrentava a pandemia da Covid-19, o conflito ganhou novos contornos.

A partir do segundo semestre de 2020, o DNIT passou a ajuizar diversas ações possessórias perante a Justiça Federal buscando a demolição de imóveis localizados na faixa de domínio.

Em manifestações encaminhadas à Defensoria Pública da União, destaquei que inúmeras famílias estavam sendo submetidas a processos judiciais justamente durante uma das maiores crises sanitárias da história recente, defendendo que eventual remoção deveria observar o devido processo legal, a proporcionalidade e a necessidade de soluções habitacionais adequadas.

Também chamei atenção para as alterações promovidas pela Lei Federal nº 13.913/2019, que modificou a Lei de Parcelamento do Solo Urbano, permitindo, em determinadas situações, a redução da faixa não edificável ao longo das rodovias e estabelecendo regras voltadas à regularização de edificações situadas em áreas urbanizadas.


A concessão da rodovia e o Plano Executivo de Reassentamento (PER)

Com a concessão da BR-101 à Concessionária do Sistema Rodoviário Rio-São Paulo S.A., iniciou-se uma nova etapa da discussão envolvendo as ocupações existentes na faixa de domínio.

Além da continuidade das medidas relacionadas às futuras intervenções, passaram a ser realizados levantamentos socioeconômicos das famílias potencialmente atingidas, etapa que posteriormente subsidiaria a elaboração do Plano Executivo de Reassentamento (PER).

O PER não consiste apenas em um cadastro de moradores. Trata-se de um instrumento destinado a identificar os ocupantes, avaliar os impactos sociais decorrentes das intervenções e definir medidas relacionadas ao reassentamento, às compensações e à mitigação dos impactos provocados pelo empreendimento.

Em julho de 2022 encaminhei nova manifestação à Defensoria Pública da União relatando que equipes contratadas pela concessionária estavam realizando pesquisas socioeconômicas nas comunidades de Mangaratiba e que diversos moradores manifestavam receio de fornecer informações ou assinar documentos diante da insegurança quanto ao futuro de suas moradias.

Na ocasião, solicitei que a Defensoria Pública da União e o Ministério Público Federal acompanhassem institucionalmente esse processo, oferecendo orientação jurídica às famílias e fortalecendo a confiança da população nas tratativas então iniciadas.

Passados quase quatro anos, verifica-se que parte dessas preocupações permanece atual. Durante a audiência pública realizada em Mangaratiba, diversos moradores afirmaram que os valores atualmente oferecidos para compensação pela desocupação não seriam suficientes para a aquisição de outro imóvel na própria região, reforçando a importância de que o PER seja conduzido com ampla transparência, participação social e respeito aos direitos das populações atingidas.


A duplicação amplia o debate

Paralelamente, o projeto de duplicação da Rio-Santos foi sendo estruturado.

Aquilo que, em 2019, ainda não fazia parte do planejamento informado pelo DNIT passou posteriormente a integrar o contrato de concessão e, mais recentemente, o processo de licenciamento ambiental conduzido pelo Ibama.

Com isso, dois debates que inicialmente caminhavam de forma paralela acabaram convergindo.

De um lado, a necessidade de modernizar uma das principais rodovias do país.

De outro, a proteção das comunidades que, ao longo de décadas, consolidaram-se às margens da estrada.

Além das questões relacionadas à mobilidade, os estudos ambientais passaram a contemplar aspectos ligados à vegetação de Mata Atlântica, recursos hídricos, fauna silvestre, patrimônio arqueológico e histórico, travessias urbanas, comunidades indígenas, comunidades quilombolas e demais impactos sociais e ambientais decorrentes da implantação da obra.

O próprio licenciamento ambiental ampliou significativamente o debate, incorporando mecanismos formais de participação popular previstos na legislação brasileira e permitindo que diferentes segmentos da sociedade apresentassem contribuições técnicas ao processo decisório.


As audiências públicas de 2026

A audiência pública realizada em Mangaratiba demonstrou claramente essa convergência.

Embora convocada para discutir a viabilidade ambiental da duplicação, parcela significativa das manifestações concentrou-se justamente na dimensão social do empreendimento.

Questões relacionadas às desapropriações, aos reassentamentos, aos critérios de indenização, à avaliação das benfeitorias, à preservação dos vínculos comunitários e ao futuro das famílias atingidas ocuparam grande parte dos debates.

Também foram levantadas dúvidas sobre a metodologia utilizada para definir as compensações financeiras e sobre as alternativas disponíveis para as famílias que eventualmente não consigam adquirir outra moradia na própria região.

Tudo isso evidencia que a análise da viabilidade ambiental da obra não pode ignorar seus impactos sociais.

Grandes empreendimentos de infraestrutura exigem soluções integradas, capazes de conciliar engenharia, proteção ambiental, planejamento urbano, patrimônio cultural, políticas habitacionais e direitos humanos.


Um debate que continua

Logo mais, às 19 horas, Angra dos Reis sediará a segunda audiência pública promovida pelo Ibama.

As audiências públicas não encerram o processo de licenciamento ambiental. Ao contrário, representam uma etapa importante da participação social prevista na legislação brasileira. Após sua realização, ainda haverá prazo para apresentação de manifestações escritas ao Ibama, que serão incorporadas ao processo administrativo e analisadas pela equipe técnica responsável pela avaliação da viabilidade socioambiental do empreendimento.

Independentemente da posição de cada cidadão sobre a duplicação da Rio-Santos, trata-se de uma oportunidade importante para que moradores, universidades, associações, entidades profissionais, pesquisadores e demais interessados contribuam para o aperfeiçoamento do projeto.

Sete anos depois das primeiras notificações expedidas pelo DNIT, permanece atual o desafio de compatibilizar desenvolvimento regional, proteção ambiental e respeito aos direitos fundamentais das comunidades afetadas.

Ao longo desse período, a discussão deixou de ser apenas uma questão relacionada à proteção da faixa de domínio da União. Passou a envolver direito à moradia, regularização fundiária, planejamento urbano, políticas habitacionais, reassentamento involuntário, participação social, licenciamento ambiental e desenvolvimento sustentável.

A história das ocupações na faixa de domínio da Rio-Santos demonstra que esse não é apenas um debate sobre uma rodovia. É uma discussão sobre o modelo de desenvolvimento que se pretende construir para a Costa Verde.

Se a duplicação da BR-101 representa um investimento estratégico para a mobilidade, a segurança viária, o turismo e a economia regional, ela também oferece uma oportunidade para que o Poder Público enfrente, de forma definitiva e socialmente responsável, um problema que foi sendo construído ao longo de várias décadas. Somente conciliando infraestrutura, proteção ambiental e respeito à dignidade das pessoas será possível alcançar um desenvolvimento verdadeiramente sustentável e inclusivo para a região.


 Nota:

A gravação integral da audiência pública realizada em Mangaratiba, em 30 de junho de 2026, pode ser assistida no canal oficial do Ibama no YouTube:

https://www.youtube.com/live/nmxLG7-pfiQ?is=zcqcugJrbJ1bw7Yb

O vídeo constitui importante registro dos debates, das manifestações da sociedade civil, dos esclarecimentos prestados pelos representantes do Ibama e da concessionária, bem como das contribuições apresentadas ao processo de licenciamento ambiental.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Duplicação da Rio-Santos: audiências públicas serão realizadas em Mangaratiba e Angra dos Reis



O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) realizará, nos dias 30 de junho e 1º de julho de 2026, audiências públicas sobre o licenciamento ambiental das obras de duplicação da BR-101/RJ (Rio-Santos), no trecho compreendido entre os quilômetros 416 e 496, abrangendo os municípios de Mangaratiba e Angra dos Reis.

O empreendimento é objeto do Processo Administrativo nº 02001.006798/2023-13, de interesse da Concessionária do Sistema Rodoviário Rio-São Paulo S.A.

As audiências ocorrerão em formato híbrido, permitindo participação presencial e acompanhamento pela internet.


📍 Mangaratiba

Data: 30 de junho de 2026 (terça-feira)

Horário: 19h

Local: Centro de Convenções Condado, Aldeia dos Reis, Rodovia Rio-Santos, km 428 (sentido Rio de Janeiro), bairro Sahy.

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📍 Angra dos Reis

Data: 1º de julho de 2026 (quarta-feira)

Horário: 19h

Local: Instituto de Educação Médica da Faculdade Estácio, Avenida dos Trabalhadores, nº 179, Jacuecanga.


As sessões também serão transmitidas ao vivo pelo canal oficial do Ibama no YouTube.

A transmissão online permitirá que cidadãos que não possam comparecer presencialmente acompanhem as apresentações e discussões promovidas durante as audiências.

Não podemos esquecer que as audiências públicas integram o processo de licenciamento ambiental federal conduzido pelo Ibama e encontram fundamento na Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938/1981), bem como nas Resoluções CONAMA nº 01/1986 e nº 09/1987. Seu objetivo é ampliar a transparência do processo decisório e permitir que a sociedade conheça os estudos ambientais, formule questionamentos e apresente sugestões que poderão subsidiar a análise da viabilidade socioambiental do empreendimento.

A duplicação da BR-101 representa uma das mais importantes intervenções de infraestrutura previstas para a Costa Verde nas últimas décadas. Ao mesmo tempo em que poderá trazer ganhos para a mobilidade regional e para a segurança viária, o projeto também envolve questões ambientais, sociais e urbanísticas que merecem amplo debate público.

A análise dos documentos disponibilizados pelo Ibama mostra que o processo envolve temas como supressão de vegetação de Mata Atlântica, travessias de fauna, desapropriações, impactos sobre comunidades tradicionais, além de estudos específicos relacionados às comunidades quilombolas e à Terra Indígena Guarani do Bracuí.

Os estudos ambientais também contemplam avaliações de alternativas de engenharia e de implantação do empreendimento, bem como a análise de impactos positivos e negativos decorrentes da duplicação da rodovia. A forma como essas alternativas foram examinadas e os critérios utilizados para a definição do projeto constituem temas que poderão ser esclarecidos e debatidos durante as audiências públicas.

Diversas questões de interesse da população ainda merecem esclarecimentos mais detalhados, entre elas:


• Onde exatamente ocorrerão as desapropriações? 

• Quais bairros de Mangaratiba e Angra dos Reis serão mais afetados? 

• Qual será a área total de vegetação suprimida? 

• Quantas passagens de fauna estão previstas? 

• Como ficarão as travessias urbanas de Muriqui, Itacuruçá, Conceição de Jacareí e Sahy? 

• Quais medidas serão adotadas para proteger comunidades tradicionais e reduzir impactos socioambientais?


Além das questões ambientais, moradores potencialmente afetados por desapropriações, alterações de acessos ou intervenções próximas a imóveis podem aproveitar as audiências para buscar esclarecimentos específicos sobre suas localidades. Para isso, pode ser útil reunir previamente documentos como escrituras, registros imobiliários, contratos de compra e venda, comprovantes de posse, plantas, croquis, memoriais descritivos ou outros documentos que possam auxiliar na identificação da área eventualmente afetada.

Importante ressaltar que as audiências públicas constituem uma oportunidade para que moradores, comerciantes, pescadores, trabalhadores, usuários da rodovia, entidades da sociedade civil e demais interessados possam conhecer melhor o projeto, formular perguntas e apresentar sugestões aos órgãos responsáveis pela análise ambiental.

Independentemente da posição de cada cidadão sobre a duplicação da rodovia, a participação popular é fundamental para que as decisões sejam tomadas com transparência e levando em consideração os interesses da população da Costa Verde.

A audiência pública não é o momento de tomar uma decisão definitiva sobre a obra, mas de garantir que as decisões futuras sejam tomadas com o maior número possível de informações e contribuições da sociedade. Quanto mais pessoas conhecerem os estudos e participarem do debate, maior será a transparência do processo de licenciamento ambiental.


NOTA:

Os estudos ambientais relativos ao licenciamento da duplicação da BR-101/RJ (Rio-Santos), entre Mangaratiba e Angra dos Reis, encontram-se disponíveis para consulta pública. Entre os documentos disponibilizados está o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), elaborado em linguagem mais acessível, que apresenta um resumo do empreendimento, dos impactos ambientais identificados e das medidas propostas para prevenção, mitigação e compensação desses impactos.

Os interessados podem acessar os estudos por meio do endereço eletrônico disponibilizado pelo Ibama, bem como consultá-los presencialmente nos locais indicados pela autarquia, incluindo as Prefeituras e Câmaras Municipais de Mangaratiba e Angra dos Reis.

Além disso, conforme informado pelo próprio Ibama, aqueles que desejarem acesso à íntegra do Processo Administrativo nº 02001.006798/2023-13 poderão solicitar os documentos diretamente à Coordenação de Licenciamento Ambiental de Transportes, por meio do e-mail cotra.sede@ibama.gov.br

A consulta prévia aos estudos é uma importante oportunidade para que cidadãos, entidades e demais interessados conheçam melhor o projeto e participem das audiências públicas de forma mais informada e qualificada.

A participação da sociedade não se limita à formulação de perguntas durante as audiências. Associações comunitárias, universidades, entidades profissionais, organizações da sociedade civil, pesquisadores e cidadãos interessados podem analisar previamente a documentação disponibilizada e preparar contribuições técnicas relacionadas a aspectos ambientais, urbanísticos, sociais, culturais, econômicos e de mobilidade regional.

Os interessados em examinar mapas, plantas, estudos complementares e demais documentos técnicos poderão encontrar informações mais detalhadas na íntegra do processo administrativo disponibilizado pelo Ibama.

As audiências públicas têm por objetivo receber perguntas, críticas, sugestões e contribuições da população, que passam a integrar o processo de licenciamento ambiental e subsidiam a análise técnica do Ibama.

Até o momento da publicação deste artigo, não foi localizado por este autor um regulamento específico contendo detalhes sobre inscrição para fala, tempo de manifestação dos participantes, forma de encaminhamento de perguntas pela internet ou eventual prazo posterior para envio de contribuições escritas ao Processo Administrativo nº 02001.006798/2023-13.

Recomenda-se que os interessados acompanhem os canais oficiais do Ibama para atualização dessas orientações e, em caso de dúvida, entrem em contato pelo e-mail acima.