Páginas

Mostrando postagens com marcador Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de junho de 2026

RJ-126 e a oportunidade de criar um Programa Estadual de Estradas-Parque no Rio de Janeiro



Recentemente, chamou minha atenção uma manifestação num vídeo do pré-candidato ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, defendendo melhorias na RJ-126, rodovia que liga os municípios de Silva Jardim e Cachoeiras de Macacu.

A proposta merece ser analisada com atenção. Trata-se de uma ligação regional importante, capaz de facilitar o escoamento da produção rural, estimular o turismo e fortalecer a integração econômica entre diferentes regiões do estado.

Ao mesmo tempo, a discussão desperta uma reflexão mais ampla: como conciliar infraestrutura, desenvolvimento e preservação ambiental em um estado que abriga alguns dos mais importantes remanescentes de Mata Atlântica do país?

A pergunta não é nova.

Há mais de duas décadas participei, juntamente com moradores, ambientalistas e lideranças comunitárias da Região Serrana, dos debates em torno da pavimentação da RJ-142, entre Lumiar e Casimiro de Abreu, conhecida como rodovia Serramar. Naquela época, muitos de nós defendíamos que a obra fosse concebida dentro do conceito de estrada-parque, compatibilizando mobilidade, turismo e conservação ambiental.

A proposta não prosperou. O tempo passou. A estrada foi construída e, posteriormente, foram registrados episódios relacionados à estabilidade de encostas, processos erosivos e questões de segurança viária. Não se trata de afirmar que uma estrada-parque teria resolvido todos os problemas, mas de reconhecer que algumas preocupações levantadas à época mereciam ter recebido maior atenção pela administração da então governadora Rosinha Garotinho.

As discussões daquele período também se relacionavam com a proteção da bacia do Rio Macaé, com a preservação da Mata Atlântica e com a necessidade de se pensar o desenvolvimento regional de forma integrada.

Anos depois, já morando em Mangaratiba, continuei acompanhando temas semelhantes. Entre eles, passei a defender a preservação dos trechos históricos da RJ-149, na Serra do Piloto, parte integrante do patrimônio cultural e paisagístico fluminense.

Em todos esses casos, a questão central sempre foi a mesma: determinadas rodovias possuem valor que ultrapassa sua função de transporte.

Elas atravessam paisagens singulares.

Conectam comunidades.

Cruzam áreas protegidas.

Possuem relevância histórica, turística, cultural e ambiental.

Por isso, talvez seja o momento de o Rio de Janeiro discutir a criação de um Programa Estadual de Estradas-Parque e Corredores Cênicos.

A ideia não parte do zero. O próprio Estado do Rio de Janeiro possui instrumentos normativos relacionados ao tema, entre eles o Decreto Estadual nº 40.979/2007, que estabeleceu parâmetros para a implantação de estradas-parque, e a Lei Estadual nº 6.371/2012, que disciplinou aspectos relacionados ao acesso e à circulação nessas vias especiais. Isso demonstra que o conceito já integra o ordenamento jurídico fluminense, ainda que de forma limitada e pouco explorada pelo planejamento estadual.

Um eventual Programa Estadual de Estradas-Parque também poderia dialogar com instrumentos já existentes de planejamento territorial e desenvolvimento sustentável, como o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE), os planos estaduais de turismo, as políticas de conservação da Mata Atlântica, os planos de manejo das unidades de conservação e os Planos Diretores dos municípios diretamente envolvidos. Dessa forma, a iniciativa deixaria de ser apenas uma política rodoviária para se tornar um instrumento de integração entre infraestrutura, conservação ambiental e desenvolvimento regional, sendo que sua elaboração também poderia contar com processos de consulta pública e participação social, especialmente junto às comunidades diretamente afetadas pelas intervenções.

Diversos países e estados brasileiros adotaram modelos de estradas-parque ou rodovias cênicas, embora com formatos e objetivos distintos, variando desde a proteção de paisagens naturais até a valorização do patrimônio histórico, do turismo e da biodiversidade.

O próprio Rio de Janeiro possui experiências que podem servir de referência para esse debate. A RJ-165, em Paraty, conhecida como Estrada Parque Comendador Antônio Cônti, e iniciativas adotadas na RJ-163, na região de Visconde de Mauá, demonstram que o estado já experimentou soluções voltadas à compatibilização entre circulação de veículos, preservação ambiental e valorização da paisagem.

Uma estrada-parque não significa impedir o desenvolvimento.

Significa planejar melhor.

Significa incorporar medidas como passagens de fauna, monitoramento geotécnico permanente, controle de velocidade em áreas sensíveis, valorização da paisagem, criação de mirantes, incentivo ao turismo sustentável e proteção do patrimônio natural e cultural.

A própria RJ-126 pode representar uma excelente oportunidade para esse debate.

A região atravessa áreas rurais, fragmentos de Mata Atlântica e trechos serranos potencialmente sensíveis do ponto de vista ambiental, especialmente na Serra do Bertholdo, entre Gaviões e Japuíba. Qualquer projeto de modernização da rodovia certamente precisará considerar não apenas aspectos econômicos e logísticos, mas também os impactos sobre a vegetação, a fauna e a estabilidade das encostas.

Além disso, será indispensável avaliar com precisão a eventual interferência sobre áreas de preservação permanente, cursos d'água, corredores ecológicos e zonas de amortecimento de unidades de conservação, especialmente na Serra do Bertholdo, entre Gaviões e Japuíba, região situada na área de influência do Parque Estadual dos Três Picos. Tais avaliações deverão orientar o processo de licenciamento ambiental e a definição das medidas mitigadoras e compensatórias eventualmente necessárias.

Evidentemente, qualquer avaliação mais aprofundada dependerá de estudos técnicos específicos sobre fluxo de veículos, perfil da produção regional, impactos econômicos esperados, sensibilidade ambiental dos diferentes trechos da rodovia e custos de implantação e manutenção. O objetivo desta reflexão não é substituir tais análises, mas sugerir diretrizes que possam orientar o planejamento público desde suas etapas iniciais.

Mas a reflexão não deve se limitar à RJ-126.

O nosso estado possui outros exemplos que poderiam ser estudados sob essa perspectiva, como a RJ-149 na Serra do Piloto, a RJ-142 entre Lumiar e Casimiro de Abreu, a RJ-165 em Paraty e diversas outras rodovias inseridas em áreas de elevado interesse ambiental, histórico e paisagístico.

Além dos benefícios ambientais, um programa dessa natureza poderia fortalecer atividades econômicas compatíveis com a conservação, como o turismo de natureza, o turismo histórico, o cicloturismo e o turismo rural, contribuindo para a geração de emprego e renda no interior fluminense.

A implementação de iniciativas dessa natureza também exigiria atuação coordenada entre diferentes instituições públicas. Caberia ao DER-RJ planejar e executar as intervenções viárias; ao INEA conduzir o licenciamento ambiental e acompanhar os impactos ecológicos; aos municípios adequar seus instrumentos de ordenamento territorial; e às comunidades locais participar das discussões e contribuir para a construção de soluções compatíveis com as características de cada região.

A experiência internacional demonstra que paisagens preservadas não constituem obstáculos ao desenvolvimento. Pelo contrário. Quando adequadamente planejadas, tornam-se ativos econômicos valiosos e permanentes.

O Rio de Janeiro possui uma combinação rara de montanhas, florestas, patrimônio histórico, áreas rurais e paisagens costeiras. Poucos estados brasileiros reúnem tamanha diversidade em um território relativamente pequeno.

Talvez esteja aí uma oportunidade.

Mais do que construir estradas, podemos pensar em como transformá-las em instrumentos de integração regional, valorização do patrimônio e desenvolvimento sustentável.

O desafio não é escolher entre desenvolvimento e preservação, mas encontrar formas de fazer com que ambos caminhem juntos.

A discussão sobre a RJ-126 pode ser apenas o começo.


📝 Nota:

Compartilho que minha atenção em relação à RJ-126 também possui uma dimensão pessoal. Há cerca de vinte e cinco anos, quando ainda residia em Nova Friburgo, percorri a pé um longo trajeto entre Rio Bonito de Lumiar e Japuíba, em Cachoeiras de Macacu, passando por Bananeiras, Gaviões e pela Serra do Bertholdo. A caminhada permitiu observar, em escala humana, a diversidade de paisagens da região, alternando áreas rurais abertas, fragmentos de Mata Atlântica, cursos d'água e trechos serranos. 

Essa experiência certamente contribuiu para que eu passasse a enxergar a discussão sobre essa rodovia não apenas como um tema de engenharia ou transporte, mas também como uma questão de planejamento territorial, conservação ambiental e valorização da paisagem.

Passado um quarto de século, a possibilidade de modernização da RJ-126 recoloca em debate a mesma questão: como promover integração regional e desenvolvimento econômico sem comprometer os atributos ambientais e paisagísticos que tornam aquela região singular?

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O que a última decisão do TSE revelou sobre a crise fluminense



"O direito vive da interpretação." — Hans Kelsen


A disponibilização, em 15 de junho, do acórdão que julgou os embargos de declaração nas ações envolvendo as eleições fluminenses de 2022 trouxe elementos que ajudam a compreender melhor um dos julgamentos mais relevantes da atual crise institucional do Rio de Janeiro.

À primeira vista, a publicação do acórdão poderia parecer apenas uma formalidade processual.

O resultado já era conhecido desde a sessão realizada em 2 de junho.

O Tribunal Superior Eleitoral havia rejeitado, por maioria, os embargos da Procuradoria-Geral Eleitoral e mantido a estrutura essencial do julgamento que reconheceu abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022, declarou a inelegibilidade do ex-governador Cláudio Castro e determinou a realização de novas eleições.

Mas essa leitura seria incompleta.

A leitura do acórdão e, sobretudo, dos votos escritos disponibilizados posteriormente revela algo mais importante: a verdadeira controvérsia jurídica remanescente já não diz respeito à existência dos abusos eleitorais.

Ela passou a se concentrar nos efeitos da renúncia e na relação entre diploma, mandato e legitimidade da eleição.


Uma condenação que deixou de ser controvertida

O primeiro dado relevante é aquilo que praticamente desapareceu do debate.

Os embargos apresentados pelas defesas buscavam apontar omissões, contradições e nulidades no julgamento realizado em março.

O relator, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, rejeitou essas alegações e reafirmou os fundamentos centrais da condenação.

Os votos da maioria acompanharam essa conclusão.

Na prática, o acórdão consolida o entendimento de que houve utilização indevida de estruturas estatais ligadas à CEPERJ e à UERJ em contexto eleitoral, preservando a inelegibilidade dos principais investigados.

Isso não significa que novos recursos estejam excluídos.

Mas significa que a discussão sobre a existência dos ilícitos eleitorais encontra-se significativamente mais estabilizada do que estava há alguns meses.


A controvérsia que sobreviveu ao julgamento

A parte mais interessante do acórdão surge justamente onde o consenso terminou.

A Procuradoria-Geral Eleitoral sustentava que a renúncia de Cláudio Castro teria tornado prejudicada apenas a perda do mandato, mas não impediria a cassação formal do diploma obtido nas eleições de 2022.

A distinção pode parecer técnica, mas está longe de ser irrelevante.

O diploma é o ato jurídico pelo qual a Justiça Eleitoral reconhece a regularidade da eleição e habilita o candidato ao exercício do cargo. Já o mandato decorre dessa diplomação.

Sob essa perspectiva, a renúncia extinguiria o exercício do cargo, mas não necessariamente impediria o reconhecimento posterior da invalidade da própria diplomação.

Foi exatamente esse o raciocínio defendido pela Procuradoria-Geral Eleitoral.


O que revelou a divergência

Os votos escritos dos ministros Floriano de Azevedo Marques e Estela Aranha mostram que essa tese não era marginal dentro da Corte.

Ambos entenderam que os embargos deveriam ser acolhidos para explicitar a cassação dos diplomas de Castro e Thiago Pampolha.

A divergência não se limitou à interpretação de uma expressão ou de um detalhe processual. Ela alcançou a própria natureza jurídica da diplomação.

Em um dos trechos mais expressivos do julgamento, Floriano de Azevedo Marques sustenta que "cassa-se o mandato porque foi cassado o diploma, e não o contrário".

A frase ajuda a compreender o núcleo da controvérsia.

Se o diploma é a fonte jurídica do mandato, a perda deste não necessariamente elimina a possibilidade de desconstituição daquele.


A posição vencedora

A maioria, contudo, seguiu caminho diverso.

O relator concluiu que não houve formação de maioria para a cassação formal dos diplomas.

Segundo essa interpretação, apenas três ministros manifestaram-se expressamente nesse sentido.

Consequentemente, os embargos da Procuradoria-Geral Eleitoral foram rejeitados.

O resultado prático foi a preservação da redação original do acórdão. A condenação permaneceu assim como a inelegibilidade, mas a cassação formal dos diplomas não foi acrescida ao julgamento.


Uma discussão que pode ultrapassar o Rio de Janeiro

Talvez o aspecto mais relevante da leitura do acórdão seja outro.

A controvérsia revelada pelos votos possui potencial para transcender o caso fluminense.

A questão de saber se a renúncia impede ou não a cassação posterior do diploma não interessa apenas ao Rio de Janeiro.

Ela pode surgir em processos envolvendo governadores, prefeitos, senadores ou parlamentares que deixem seus cargos antes do julgamento definitivo das ações eleitorais.

Por essa razão, não parece improvável que a discussão ainda produza novos capítulos nos tribunais superiores. 

A questão não interessa apenas ao processo eleitoral fluminense. Ela dialoga diretamente com temas constitucionais atualmente submetidos ao Supremo Tribunal Federal, especialmente no âmbito da ADI 7942, em que se discutem os parâmetros da sucessão governamental decorrente da vacância do cargo de governador no Estado do Rio de Janeiro. 

Embora os objetos processuais não sejam idênticos, a forma como se compreendem os efeitos da renúncia, da diplomação e da condenação eleitoral influencia o contexto jurídico em que o STF será chamado a decidir.


O deslocamento da crise

Quando observamos o conjunto do processo, percebe-se uma transformação importante.

No início, a crise fluminense girava em torno da existência dos abusos eleitorais. Em seguida, o debate deslocou-se para as consequências jurídicas desses ilícitos. Agora, após a disponibilização do acórdão e dos votos escritos, a controvérsia concentra-se em questão ainda mais específica: os limites da renúncia diante da jurisdição eleitoral e a relação entre diploma, mandato e legitimidade da eleição.

A pergunta já não é apenas se houve abuso de poder. A questão passa a ser quais efeitos jurídicos sobrevivem à saída voluntária do agente do cargo e como esses efeitos devem ser compreendidos pelo sistema constitucional.

Talvez seja justamente aí que a observação de Hans Kelsen encontre sua melhor aplicação ao caso fluminense. A divergência revelada pelos votos escritos não decorre dos fatos apurados pela Justiça Eleitoral, mas da interpretação de seus efeitos jurídicos. A distinção entre diploma e mandato, bem como o alcance da renúncia diante da condenação eleitoral, demonstram como diferentes leituras de um mesmo conjunto normativo podem conduzir a conclusões distintas mesmo entre ministros que concordam quanto à existência dos ilícitos.

E é precisamente nessa zona de interseção entre direito eleitoral e direito constitucional — que também dialoga com as discussões atualmente travadas no Supremo Tribunal Federal sobre a sucessão governamental fluminense — que parecem estar os próximos capítulos da crise institucional do Rio de Janeiro.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O favoritismo de Paes e as incógnitas da política fluminense



"A política consiste em transformar incertezas em decisões." — Karl Deutsch


A nova pesquisa do Instituto Paraná divulgada nesta quinta-feira (04/06) sobre a sucessão estadual fluminense produziu uma impressão inicial bastante clara: Eduardo Paes (PSD) aparece como favorito ao governo do Estado e surge, ao menos neste momento, em posição potencialmente capaz de vencer a disputa já no primeiro turno.

À primeira vista, os números parecem sugerir uma corrida eleitoral relativamente definida.

Mas essa leitura talvez seja precipitada.

Segundo os números divulgados, Paes aparece com 48,3% das intenções de voto, seguido pelo atual presidente da Alerj, Douglas Ruas (PL), com 12,6%, e pelo ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos), com 9,2%. A pesquisa ouviu 1.680 eleitores entre os dias 1º e 3 de junho, possui margem de erro de 2,4 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento, entretanto, foi registrado sem a divulgação pública do relatório tabulado completo, circunstância que recomenda cautela adicional na interpretação dos resultados.

No entanto, a própria conjuntura política do Rio de Janeiro continua marcada por uma crise institucional sem solução definitiva e por variáveis que dificilmente podem ser capturadas integralmente por levantamentos quantitativos realizados quando ainda faltam cerca de quatro meses para o primeiro turno.

Mais do que responder perguntas, a pesquisa talvez ajude a identificar quais perguntas continuam em aberto.


Um favoritismo que se mostra consistente

Mesmo sem acesso ao relatório tabulado completo, alguns elementos podem ser observados.

Eduardo Paes reúne vantagens difíceis de ignorar.

Mesmo após sua desincompatibilização da Prefeitura do Rio, o pré-candidato do PSD preserva um ativo político relevante: a continuidade administrativa e partidária de seu grupo na capital fluminense, atualmente governada por Eduardo Cavaliere. Ao mesmo tempo, vem consolidando alianças com prefeitos e lideranças regionais que até poucos meses atrás orbitavam a base política do ex-governador Cláudio Castro (PL).

Em um Estado marcado por forte influência das estruturas municipais, esse movimento possui relevância estratégica.

Os números divulgados tendem a reforçar a percepção de que parte significativa dos agentes políticos já começa a se posicionar em torno da hipótese de vitória de Paes.

Não se trata apenas de transferência de apoio eleitoral.

Trata-se também de reposicionamento institucional diante da possibilidade de mudança de ciclo político.


A disputa pela segunda colocação

Talvez o dado mais interessante esteja justamente atrás do líder.

Douglas Ruas aparece com cerca de 12,6%, enquanto Anthony Garotinho registra aproximadamente 9,2%. Considerando a margem de erro de 2,4 pontos percentuais, a distância observada recomenda cautela antes de se concluir pela consolidação definitiva da segunda colocação.

Garotinho continua demonstrando elevada capacidade de comunicação direta com setores do eleitorado, especialmente fora dos circuitos partidários tradicionais e em parcelas do eleitorado evangélico.

Por outro lado, Douglas Ruas conta com um ativo político relevante: a vinculação ao campo bolsonarista e às estruturas partidárias associadas ao PL e seus aliados.

Enquanto Garotinho depende fortemente de sua capacidade pessoal de mobilização, Douglas parece depender mais da força das redes políticas que o sustentam.

São estratégias eleitorais bastante distintas.


O espaço vazio entre a política tradicional e a renovação

Talvez o aspecto mais curioso da pesquisa esteja em outro lugar.

Nenhuma candidatura apresentada como alternativa à polarização estadual parece conseguir consolidar espaço relevante.

Os nomes de PSOL, NOVO e Missão permanecem com desempenhos modestos.

Isso sugere que o eleitorado fluminense continua preferindo figuras amplamente conhecidas, mesmo quando algumas delas carregam elevado desgaste político.

A constatação é relevante.

Ela pode indicar não apenas dificuldade de renovação, mas também uma espécie de ceticismo produzido pelas experiências recentes da política estadual.

O caso Wilson Witzel talvez continue exercendo influência silenciosa sobre parte do eleitorado.

A promessa de renovação absoluta deixou de produzir o mesmo entusiasmo observado em ciclos anteriores.

Um dado utilizado na composição da amostra ajuda a compreender esse fenômeno. Segundo a distribuição do eleitorado adotada no plano amostral registrado no TSE, 53% dos eleitores fluminenses têm mais de 45 anos de idade. Embora não constitua um resultado da pesquisa — mas uma característica demográfica considerada na construção da amostra —, o dado sugere um eleitorado no qual faixas etárias mais elevadas possuem peso expressivo. Isso ajuda a compreender por que figuras amplamente conhecidas continuam ocupando posições centrais na disputa.


O fator Ricardo Couto

Existe ainda uma variável pouco capturada pelas pesquisas atualmente disponíveis.

O governador interino Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça, parece desfrutar de percepção pública favorável para alguém que sequer participa da disputa eleitoral.

Seu perfil institucional, marcado por discrição, previsibilidade administrativa e distanciamento das disputas partidárias, tem contribuído para avaliações positivas em diferentes segmentos.

O paradoxo é evidente: uma das figuras mais bem avaliadas da atual conjuntura não é candidata e nem pode disputar o pleito de 2026.

A impossibilidade não decorre apenas de uma escolha pessoal. O exercício da magistratura submete seus integrantes a regras constitucionais e eleitorais rigorosas de afastamento e desincompatibilização. 

Como Ricardo Couto chegou ao governo precisamente em razão de sua posição institucional no Poder Judiciário, sua eventual participação na disputa eleitoral de 2026 não se apresenta juridicamente viável no contexto atual. O resultado é um paradoxo político: uma das figuras mais bem avaliadas da atual conjuntura estadual encontra-se fora do universo de candidatos possíveis.

Mas suas características talvez revelem algo importante sobre as expectativas do eleitorado.

Parte dos fluminenses parece demonstrar preferência por estabilidade institucional, moderação e previsibilidade administrativa — atributos que nem sempre aparecem com clareza nas candidaturas atualmente colocadas.


As limitações da própria pesquisa

Aqui surge uma observação indispensável.

O relatório completo da pesquisa não foi disponibilizado ao público.

Sem as tabulações detalhadas, permanecem desconhecidos aspectos fundamentais:


  • distribuição regional das intenções de voto;
  • comportamento do eleitorado da capital, da Baixada e do interior;
  • índices de rejeição dos candidatos;
  • taxa de indecisos;
  • avaliação do governo interino;
  • percepção sobre a crise institucional fluminense.


Essas informações poderiam alterar significativamente a interpretação dos números divulgados.

A ausência dessas informações é particularmente relevante porque pesquisas realizadas com vários meses de antecedência costumam ser mais úteis para medir conhecimento público dos candidatos e tendências iniciais de posicionamento do eleitorado do que para antecipar o comportamento definitivo das urnas.

Por isso, qualquer análise responsável deve reconhecer os limites do material atualmente disponível, conforme divulgado pelos portais de notícias.


Uma eleição que continua dependente da crise institucional

Talvez a principal conclusão seja justamente esta.

A pesquisa oferece um retrato importante do momento.

Mas não necessariamente do desfecho.

A sucessão fluminense continua condicionada por fatores extraordinários.

A ADI 7942 permanece pendente de conclusão no Supremo Tribunal Federal, onde ainda deverá ser definida, entre outras questões, a modalidade de eventual eleição suplementar: direta ou indireta.

A Reclamação nº 92.644, da relatoria do ministro Cristiano Zanin, por sua vez, continua produzindo efeitos, mantendo na interinidade do governo o desembargador Ricardo Couto.

Desse modo, a definição sobre a natureza da vacância estadual ainda não foi encerrada.

E, além disso, os desdobramentos das investigações relacionadas ao antigo núcleo de poder estadual continuam produzindo repercussões políticas.

Em circunstâncias normais, uma pesquisa como esta poderia ser lida apenas como fotografia eleitoral desse início de junho.

No Rio de Janeiro de 2026, porém, ela talvez represente algo mais complexo.

Não apenas um retrato da disputa pelo futuro governo do Estado.

Mas também um retrato provisório de um sistema político que ainda aguarda o desfecho de sua própria crise institucional.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O governo interino do Rio e a reconstrução simbólica da confiança administrativa

 


A administração pública vive da confiança.” — Max Weber


O anúncio feito nesta semana pelo governo interino do Rio de Janeiro sobre o pagamento das parcelas restantes da recomposição salarial dos servidores estaduais talvez represente um dos movimentos politicamente mais relevantes desde o início da atual crise sucessória fluminense.

À primeira vista, trata-se apenas de medida administrativa envolvendo folha de pagamento e cumprimento de recomposição prevista em lei estadual.

Mas essa leitura talvez seja insuficiente.

Na prática, a decisão revela algo mais profundo: a interinidade exercida pelo desembargador Ricardo Couto começa a ultrapassar os limites de uma simples administração provisória e passa gradualmente a produzir efeitos estruturais sobre o ambiente político, administrativo e simbólico do Estado do Rio de Janeiro.


A recomposição salarial como gesto institucional

O anúncio envolve a retomada do pagamento das parcelas restantes da recomposição prevista na Lei Estadual nº 9.436/2021 — reivindicação histórica de diferentes categorias do funcionalismo estadual.

A norma estabeleceu recuperação parcelada das perdas inflacionárias acumuladas entre 2017 e 2021, totalizando cerca de 26%. 

Embora a primeira parcela tenha sido implementada em 2022, permaneceram pendentes duas parcelas adicionais de aproximadamente 6,55% cada, cuja suspensão passou a simbolizar parte importante do desgaste entre o governo estadual e o funcionalismo.

Nos últimos anos, o tema consolidou-se como um dos principais focos de tensão entre o governo estadual e os servidores públicos.

A justificativa predominante para o atraso no cumprimento integral da recomposição girava em torno do desequilíbrio fiscal, das limitações impostas pelo Regime de Recuperação Fiscal e da alegada insuficiência orçamentária do Estado.

Segundo declarações divulgadas após reuniões com representantes do funcionalismo, o governo interino passou a trabalhar com expectativa de aumento de arrecadação vinculada à elevação dos royalties do petróleo, à adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) e a medidas de reorganização administrativa e contenção de despesas.

O governo interino, porém, passou a adotar postura distinta.

Além da antecipação de salários e do décimo terceiro, a nova administração passou a abrir canais de interlocução direta com categorias organizadas do funcionalismo. 

Em comunicado divulgado após reunião com o governo interino, o Sepe afirmou que o encontro representou a reabertura de um espaço de negociação inexistente havia cerca de dez anos.

E isso altera significativamente o ambiente político-administrativo da crise fluminense.


O contraste silencioso com a gestão anterior

Talvez o aspecto politicamente mais interessante da medida seja o efeito comparativo que ela inevitavelmente produz.

Mesmo sem ataques diretos ao antigo governo, a atual administração interina começa a estabelecer novo parâmetro comparativo de governabilidade administrativa em relação às gestões recentes.

Porque, na prática, o cenário passa a transmitir uma mensagem implícita: se determinadas medidas estão sendo implementadas agora, cresce inevitavelmente o questionamento público sobre por que não foram executadas antes.

Esse tipo de comparação possui enorme peso político.

Especialmente em um Estado que ainda carrega a memória recente de atrasos salariais, da crise fiscal, de colapso financeiro e das severas restrições impostas ao funcionalismo ao longo da última década.

Nesse contexto, a recomposição salarial deixa de ser apenas questão financeira.

Ela passa a operar também como mecanismo de reconstrução simbólica de confiança administrativa.


A neutralidade técnica que produz efeitos políticos

Existe aqui um paradoxo importante.

Ricardo Couto continua sustentando discurso de neutralidade institucional e de atuação estritamente técnica no exercício da interinidade.

Isso não significa, necessariamente, que exista intenção deliberada de capitalização política por parte do governo interino. Em administrações provisórias, medidas tecnicamente justificáveis podem produzir efeitos políticos relevantes independentemente da finalidade subjetiva de seus formuladores.

No entanto, administrações públicas raramente permanecem politicamente neutras quando começam a reorganizar prioridades orçamentárias, relações corporativas e estruturas administrativas, ainda que não haja interesse eleitoral ou partidário.

Pagamentos produzem repercussões políticas.

Auditorias produzem efeitos políticos.

Revisões de contratos produzem efeitos políticos.

E recomposições salariais talvez produzam alguns dos efeitos políticos mais relevantes de todos, especialmente em estados marcados por histórico prolongado de crise fiscal.

Isso ajuda a explicar por que algumas medidas adotadas pelo governo interino passaram a repercutir positivamente em setores do funcionalismo e, paralelamente, a gerar reações críticas em segmentos ligados ao antigo núcleo político estadual.


O funcionalismo volta ao centro da estabilidade institucional

A movimentação também revela algo frequentemente subestimado no debate político fluminense: o funcionalismo estadual permanece como um dos principais atores de estabilização institucional do Rio de Janeiro.

A experiência traumática da crise fiscal entre 2015 e 2017 deixou marcas profundas: atrasos salariais, parcelamentos, insegurança financeira e deterioração da confiança entre Estado e servidores.

Por isso, medidas envolvendo previsibilidade de pagamentos, recomposição salarial e reorganização financeira produzem efeitos que vão muito além da folha de pessoal.

Elas afetam diretamente a percepção de governabilidade, legitimidade administrativa e estabilidade política.


A interinidade deixa de ser apenas sucessória

Talvez esse seja o ponto central.

A crise fluminense começou como controvérsia sucessória relacionada à cassação eleitoral de Cláudio Castro, à vacância do governo estadual, à ADI 7942 no STF, à Reclamação 92.644 e à disputa sobre eleição direta ou indireta.

Mas, gradualmente, a interinidade passou a produzir consequências concretas sobre contratos, ocupações administrativas, auditorias, relação com servidores e reorganização da máquina pública.

E isso altera profundamente a natureza da crise.

O debate já não gira apenas em torno de quem ocupará temporariamente o Palácio Guanabara.

A questão passa lentamente a envolver algo mais profundo: quais práticas administrativas continuarão politicamente sustentáveis no Rio de Janeiro depois de 2026.


O paradoxo político da administração provisória

Existe, por fim, um paradoxo inevitável.

Quanto mais o governo interino insiste em apresentar suas medidas como atos meramente técnicos e transitórios, maiores parecem se tornar seus efeitos políticos permanentes.

Porque administrações provisórias também criam referências públicas.

E referências públicas inevitavelmente geram comparação.

A recomposição salarial anunciada nesta semana talvez simbolize exatamente isso: a interinidade fluminense começa a deixar de ser apenas mecanismo de contenção institucional e passa gradualmente a influenciar os próprios parâmetros pelos quais o próximo ciclo político estadual será julgado.

Nesse cenário, a crise sucessória já não produz apenas efeitos eleitorais ou jurídicos.

Ela começa também a reorganizar expectativas administrativas e a redefinir silenciosamente os próprios limites da legitimidade política no Estado do Rio de Janeiro.


📷: Felipe Cavalcanti/TJERJ

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A crise do Rio começa a produzir efeitos nacionais no STF



A política é feita de escolhas entre inconvenientes.” — Raymond Aron


A decisão proferida pelo ministro Cristiano Zanin, na quarta-feira (13/05), nos autos da Reclamação nº 92.644 talvez revele uma das transformações mais relevantes — e menos percebidas — da atual crise institucional fluminense: o caso do Rio de Janeiro começa a irradiar efeitos nacionais antes mesmo de o Supremo Tribunal Federal consolidar uma tese sucessória.

Até pouco tempo atrás, a controvérsia parecia essencialmente localizada.

O debate girava em torno da sucessão estadual fluminense, da interinidade exercida pelo presidente do Tribunal de Justiça, da ADI 7942, da Reclamação 92.644 e da disputa sobre eleição direta ou indireta no Estado do Rio de Janeiro.

Agora, porém, um novo elemento surge no horizonte: o próprio sistema político começa a tentar replicar, em outros estados, a lógica cautelar construída no caso fluminense.

E foi exatamente isso que aconteceu com Roraima.


O caso Roraima entra no radar do STF

O episódio surgiu após manifestação apresentada pelo Diretório Nacional do Republicanos perante o Supremo Tribunal Federal.

A legenda tentou utilizar a Reclamação nº 92.644 — originalmente vinculada ao caso do Rio — para pedir a suspensão das eleições suplementares diretas marcadas para o Estado de Roraima.

O pano de fundo é importante.

No caso de Roraima, a Justiça Eleitoral reconheceu abuso de poder nas eleições de 2022 envolvendo o ex-governador Antônio Denarium, o que resultou no encerramento de seu mandato em 27 de março deste ano e determinou a realização de novas eleições suplementares diretas no Estado.

Segundo a petição apresentada pelo partido ao STF, haveria identidade de fundamentos entre os casos do Rio de Janeiro e de Roraima.

O argumento é sofisticado: se o Supremo suspendeu cautelarmente os efeitos do acórdão do TSE no Rio até definição mais clara sobre o modelo constitucional de sucessão aplicável, o mesmo raciocínio deveria ser aplicado em Roraima.

O pedido avança além da mera analogia processual.

Sustenta que a organização imediata das eleições suplementares — já em curso pela Justiça Eleitoral local — estaria ocorrendo antes mesmo da estabilização definitiva da controvérsia constitucional sobre a modalidade de sucessão aplicável.


A decisão de Zanin: cautela sem expansão automática

A resposta do ministro Cristiano Zanin foi extremamente cuidadosa.

Formalmente, a decisão apenas determina o desentranhamento da petição, sua autuação como nova reclamação constitucional e a posterior submissão à Presidência do STF para análise de eventual prevenção.

À primeira vista, trata-se de medida meramente procedimental. Porém, institucionalmente, o significado é muito maior.

O ministro evita duas coisas simultaneamente.

De um lado, ele evita transformar automaticamente a Reclamação do Rio em precedente nacional imediato para crises sucessórias estaduais.

Do outro, o magistrado não rejeita frontalmente a possibilidade de conexão estrutural entre os casos.

Essa dupla cautela é reveladora.

O STF parece perceber que a controvérsia fluminense começa a extrapolar os limites do Rio de Janeiro e pode afetar futuras disputas sobre vacância, cassação e eleições suplementares em outros estados da federação.


O paradoxo da liminar fluminense

Existe aqui um paradoxo institucional importante.

A liminar concedida originalmente no caso do Rio nasceu como mecanismo excepcional de estabilização provisória de uma crise sucessória específica.

Contudo, à medida que o STF demora a fixar uma solução definitiva sobre a natureza jurídica da vacância, os efeitos da cassação eleitoral e o modelo de eleição aplicável, a decisão começa a produzir um efeito inesperado: passa a gerar expectativa de replicabilidade.

Em outras palavras, atores políticos de outros estados começam a agir como se o Supremo estivesse construindo uma nova doutrina sucessória estadual — mesmo sem decisão final consolidada.

Isso ocorre porque, embora a Reclamação possua natureza processual subjetiva e vinculada ao caso concreto, decisões cautelares proferidas pelo STF — sobretudo em temas federativos sensíveis — frequentemente acabam produzindo efeitos persuasivos e expectativas institucionais para além dos limites formais do processo.

Esse movimento aumenta significativamente a complexidade institucional do problema.

Isso não significa, contudo, que a lógica cautelar construída no caso fluminense necessariamente será replicada em outros estados.

Existem diferenças relevantes entre os casos concretos, tanto do ponto de vista fático quanto constitucional. A controvérsia do Rio envolve uma combinação muito específica de fatores: vacância estadual, interinidade judicial, ADI em curso e conflitos paralelos envolvendo a própria linha sucessória da Assembleia Legislativa.

Também há diferenças materiais relevantes entre os próprios processos eleitorais subjacentes. No Rio de Janeiro, a controvérsia envolve discussão simultânea sobre renúncia, cassação, interinidade judicial e conflitos em torno da própria linha sucessória estadual. Já em Roraima, o debate sucessório se apresenta de forma mais linear, sem controvérsia paralela sobre substituição interina do chefe do Executivo ou disputa institucional envolvendo a Assembleia Legislativa e o Tribunal de Justiça.

Além disso, os próprios fundamentos fáticos das condenações eleitorais possuem características distintas, o que dificulta eventual transposição automática da solução cautelar construída no caso fluminense.

E há ainda outro elemento relevante. O próprio caráter concentrado e excepcional do controle exercido pelo STF na Reclamação nº 92.644 pode funcionar como limite institucional à expansão automática da tese para outras situações estaduais.


O STF talvez esteja percebendo o alcance sistêmico da controvérsia

O caso de Roraima ajuda a explicar por que o Supremo parece cada vez mais cauteloso na condução da ADI 7942 e da própria Reclamação 92.644.

Quanto mais a discussão deixa de ser apenas fluminense e passa a produzir efeitos potenciais sobre outras unidades da federação, maior tende a ser a preocupação da Corte com coerência sistêmica, a busca por maioria robusta e a resistência a decisões precipitadas.

A definição sobre eleição direta ou indireta, cassação do diploma, natureza da vacância e sucessão estadual pode acabar irradiando efeitos nacionais muito além do caso concreto.

Roraima, talvez, seja apenas o primeiro exemplo explícito disso.


A crise do Rio deixa de ser apenas uma crise do Rio

Há um aspecto ainda mais relevante.

O próprio fato de partidos políticos já tentarem importar a lógica cautelar fluminense para outros estados demonstra que o caso do Rio começa a funcionar como laboratório institucional para futuras crises sucessórias estaduais.

Isso altera profundamente o papel do STF.

A Corte já não está apenas administrando uma disputa localizada.

Ela passa gradualmente a ocupar posição central na definição dos limites constitucionais da sucessão governamental em contextos de cassação eleitoral e vacância estadual.

E isso ajuda a compreender a prudência crescente dos ministros.

Quanto maior o potencial nacional da tese sucessória em construção, maior tende a ser o custo institucional de qualquer decisão mal calibrada.


Conclusão: a cautela do STF talvez seja também uma reação ao efeito multiplicador da crise

A decisão de Cristiano Zanin não resolve o mérito da controvérsia.

Entretanto, ela revela algo importante: a crise sucessória fluminense começa a produzir efeitos nacionais antes mesmo da conclusão do julgamento no próprio Rio de Janeiro.

Ao impedir a incorporação automática do caso de Roraima à Reclamação 92.644, o ministro preserva cautela procedimental e evita transformar provisoriamente o modelo fluminense em precedente nacional imediato.

Ao mesmo tempo, o simples surgimento dessa tentativa de replicação já demonstra que o debate sucessório deixou de ser uma questão exclusivamente regional.

Talvez a principal transformação da crise esteja justamente aí.

O problema já não é apenas definir quem governará temporariamente o Rio de Janeiro.

A questão passa lentamente a envolver algo mais amplo: quais parâmetros constitucionais disciplinarão futuras crises sucessórias estaduais no Brasil contemporâneo.

A partir desse novo quadro, ao menos três cenários institucionais parecem plausíveis.

No primeiro deles, o STF formaria maioria robusta para uniformizar nacionalmente a tese sucessória aplicável às hipóteses de cassação eleitoral de governadores, reduzindo insegurança jurídica futura — mas ampliando significativamente sua influência sobre crises políticas estaduais.

Em um segundo cenário, a Corte delimitaria os efeitos da controvérsia do Rio de Janeiro ao caso concreto, enfatizando a excepcionalidade fática e institucional da crise fluminense e evitando transformar a Reclamação nº 92.644 em paradigma nacional automático.

Há ainda uma terceira possibilidade: a multiplicação progressiva de controvérsias regionais semelhantes, levando partidos e atores estaduais a recorrerem ao STF em busca de soluções cautelares inspiradas no modelo fluminense. Nesse caso, o aumento da litigiosidade sucessória poderia acabar forçando a Corte a construir posição colegiada mais clara e abrangente.

Talvez seja justamente esse o ponto mais sensível da atual crise institucional: antes mesmo de o Supremo concluir a definição da tese aplicável ao Rio de Janeiro, o restante do sistema político já começa a reagir como se uma nova doutrina sucessória estadual já começasse a tomar forma.


📷: Nelson Jr./STF

sábado, 9 de maio de 2026

A neutralidade que reorganiza o poder no Rio de Janeiro



A política é a lenta perfuração de tábuas duras.” — Max Weber


A recente reportagem da Folha de S.Paulo sobre a atuação do desembargador Ricardo Couto no governo interino do Rio de Janeiro talvez revele uma das transformações mais profundas — e menos percebidas — da atual crise fluminense: a passagem de uma interinidade meramente sucessória para uma interinidade com efeitos estruturais sobre o próprio sistema político-administrativo do Estado.

A reportagem mostra que, embora Ricardo Couto mantenha discurso público de neutralidade institucional e afirme não possuir pretensões políticas, sua atuação já começa a produzir efeitos concretos no ambiente sucessório fluminense.

Segundo a Folha, setores ligados ao prefeito Eduardo Paes passaram a enxergar positivamente a condução administrativa do governo interino, especialmente diante das auditorias, revisões de contratos e medidas de reorganização da máquina pública implementadas nas últimas semanas.

Ao mesmo tempo, aliados do ex-governador Cláudio Castro e grupos políticos vinculados ao antigo núcleo de poder estadual passaram a intensificar críticas ao desembargador, acusando sua gestão de produzir desgaste político sobre estruturas administrativas construídas durante os últimos anos.

À primeira vista, o cenário parece relativamente simples.

De um lado, Ricardo Couto insiste em sustentar um discurso de neutralidade institucional, apresentando sua atuação como mero cumprimento transitório de uma missão constitucional excepcional. De outro, grupos políticos começam a interpretar essa mesma atuação dentro da lógica da disputa sucessória e eleitoral de 2026.

Mas a crise talvez já tenha ultrapassado esse estágio.

O ponto central parece ser outro: a gestão interina começa a produzir efeitos administrativos e simbólicos que poderão limitar politicamente — e até moralmente — a margem de atuação do futuro governo eleito.


A neutralidade que produz efeitos políticos

Esse talvez seja o paradoxo mais interessante do momento atual.

Em crises institucionais prolongadas, a neutralidade administrativa raramente permanece neutra por muito tempo.

Quando um governo interino amplia auditorias, revisa contratos, exonera ocupantes de cargos comissionados, reorganiza estruturas administrativas e reduz espaços tradicionais de ocupação política, ele inevitavelmente produz efeitos concretos sobre a distribuição de poder no Estado.

Ainda que o discurso oficial permaneça técnico, como de fato tem sido, as consequências passam a ser políticas.

E isso ajuda a explicar por que Ricardo Couto começa simultaneamente a ser capitalizado por setores ligados a Eduardo Paes e transformado em alvo crescente de grupos associados ao antigo núcleo de poder estadual.


A “faxina” como novo parâmetro administrativo

Talvez o efeito mais profundo da atual interinidade seja a criação de um novo padrão comparativo para o debate público fluminense.

As auditorias, exonerações e revisões administrativas implementadas pelo governo interino acabam funcionando como uma espécie de “janela de revelação” da máquina pública estadual.

Estruturas antes naturalizadas passam a se tornar visíveis.

Contratos, ocupações políticas, folhas de pagamento e padrões administrativos começam a ser observados sob nova ótica pública.

Isso produz um efeito importante: o próximo governador poderá ser permanentemente comparado com o ambiente de reorganização administrativa estabelecido em 2026.

As perguntas futuras talvez já estejam começando a ser formuladas desde agora para o próximo ocupante eleito do Palácio Guanabara:


  • por que determinadas estruturas retornaram?
  • por que certos gastos reapareceram?
  • por que antigos grupos voltaram a ocupar espaços estratégicos?
  • por que determinados contratos foram retomados?


A interinidade, nesse sentido, pode acabar criando limites políticos indiretos para o próximo ciclo de governo.


O risco para os grupos tradicionais

Esse fenômeno produz uma dificuldade adicional para setores ligados ao antigo arranjo político estadual.

Quanto mais a ideia de “faxina administrativa” ganha apoio social, mais complexo se torna defender a recomposição da máquina, a expansão de estruturas políticas tradicionais ou retorno de práticas associadas ao período anterior.

A tensão deixa então de ser apenas jurídica.

Ela passa a envolver legitimidade administrativa, moralização da gestão pública e disputa narrativa sobre eficiência estatal.

Nesse contexto, o desconforto de setores ligados ao antigo governo de Cláudio Castro talvez não decorra apenas da permanência de Ricardo Couto na chefia do Executivo.

O problema maior parece ser: o que a interinidade está permitindo descobrir — e comparar.


A crise sucessória começa a produzir efeitos eleitorais

A consequência política disso pode ser relevante para 2026.

Mesmo sem possibilidade jurídica de um projeto eleitoral próprio por parte de Ricardo Couto, sua atuação pode acabar favorecendo indiretamente o surgimento de novos espaços políticos no Estado.

Isso porque ambientes de reorganização institucional frequentemente estimulam fadiga dos grupos tradicionais, desgaste simultâneo de polos já conhecidos e valorização de discursos técnicos ou administrativos.

A crise sucessória fluminense talvez esteja abrindo espaço para algo que o Rio historicamente teve dificuldade de consolidar: uma alternativa política baseada menos na ocupação tradicional da máquina e mais na ideia de reconstrução institucional.

Não necessariamente uma “terceira via” clássica, mas uma reorganização do debate público em torno de eficiência, governança, transparência e contenção administrativa.


O STF e o custo crescente da reversão institucional

Esse cenário talvez também ajude a explicar a cautela crescente do Supremo Tribunal Federal.

Quanto mais tempo a interinidade reorganiza estruturas, produz auditorias, altera ocupações administrativas e estabiliza a máquina estatal, maior passa a ser o impacto sistêmico de qualquer mudança abrupta na chefia do Executivo.

A crise já não envolve apenas a interpretação abstrata da linha sucessória. Ela passa a atingir contratos da Administração Pública, estruturas administrativas, grupos políticos e expectativas públicas de reorganização estatal.

Nesse ambiente, a manutenção provisória do atual arranjo talvez deixe de ser apenas solução jurídica cautelar e passe também a funcionar como mecanismo de estabilização institucional.


A interinidade que deixa de ser apenas transitória

Existe, por fim, um paradoxo importante.

Quanto mais Ricardo Couto insiste na neutralidade institucional, mais a sua atuação tende a produzir consequências políticas objetivas.

E quanto maiores essas consequências, maior tende a ser a resistência dos grupos atingidos, mais intensa se torna a disputa narrativa e mais difícil passa a ser retornar integralmente ao modelo anterior.

Talvez a principal transformação da crise fluminense esteja justamente aí.

O debate já não gira apenas em torno de quem deve ocupar temporariamente o Palácio Guanabara.

A questão começa lentamente a se deslocar para algo mais profundo: quais práticas administrativas continuarão politicamente aceitáveis no Rio de Janeiro depois de 2026.

Afinal, a neutralidade institucional raramente permanece neutra quando começa a reorganizar estruturas de poder.

A Sentinela da Gávea



A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda para contá-la.” — Gabriel García Márquez


Chegou o inverno de 2026 e o Rio de Janeiro parecia viver num estado permanente de exaustão.

A estação mais fria do ano chegara estranha ao Rio devido ao fenômeno do El Niño. O calor persistia sobre as praias enquanto helicópteros cruzavam o céu da Zona Sul. As redes sociais fervilhavam a cada nova crise política, cada escândalo, cada julgamento televisionado, cada indignação de vinte e quatro horas, além da desinformação circulando pelos grupos de internautas no WhatsApp sobre qualquer tema relacionado à corrida eleitoral. Mas havia algo diferente no ar — uma sensação difusa de cansaço moral, como se o país inteiro estivesse preso numa conversa interminável consigo mesmo.

A Pedra da Gávea, no entanto, observava tudo em silêncio.

Da janela da universidade, Helena costumava enxergá-la ao longe entre os prédios e a névoa marítima. Havia alguma coisa naquela montanha que a inquietava desde criança. Talvez o formato severo da pedra. Talvez a impressão de que ela não pertencia completamente à cidade.

Desde adolescente, Helena conhecia as histórias que cercavam a Pedra da Gávea.

Havia teorias sobre inscrições fenícias escondidas na rocha, lendas sobre túneis subterrâneos conectando a montanha ao oceano e até narrativas esotéricas que associavam aquele lugar à entrada de Agartha — o mítico reino subterrâneo presente em tradições ocultistas modernas.

Como estudante de História, sempre tratara essas histórias com ceticismo acadêmico. Ainda assim, havia algo inquietante na persistência daqueles mitos através das gerações.

Talvez certas montanhas produzissem lendas porque algumas paisagens pareciam grandes demais para caber apenas na realidade cotidiana.

Helena tinha vinte e três anos e estudava História na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nos últimos meses, mergulhara obsessivamente em pesquisas sobre memória coletiva, mitologia indígena e a ideia de “portais simbólicos” nas civilizações antigas.

Enquanto colegas discutiam algoritmos, inteligência artificial e colapsos democráticos, ela passava horas lendo sobre passagens rituais maias, portas falsas egípcias, cavernas iniciáticas gregas e cosmologias indígenas brasileiras.

Quanto mais estudava, mais sentia que as sociedades modernas haviam perdido alguma coisa fundamental: a capacidade de atravessar.

Tudo agora parecia imediato: opiniões instantâneas, julgamentos instantâneos e revoltas instantâneas.

Mas nenhuma transformação verdadeira.

Numa sexta-feira de agosto, após uma madrugada inteira revisando textos sobre mitologia tupi, Helena decidiu subir a Pedra da Gávea sozinha.

Talvez precisasse de silêncio.

A trilha amanhecia úmida. A Mata Atlântica respirava lentamente sob a névoa. Gotas escorriam pelas folhas largas enquanto o som distante do oceano subia pelas encostas.

Por volta das sete horas, uma tempestade começou sem aviso.

Não uma chuva comum. Algo estranho.

O vento parecia circular em espiral entre as pedras. Os pássaros desapareceram subitamente. Até os insetos silenciaram.

Helena procurou abrigo perto de uma formação rochosa parcialmente encoberta por raízes antigas.

Foi então que viu algo que jamais estivera ali antes. Havia uma abertura estreita na pedra.

Ela tinha certeza absoluta de que aquela passagem não existia antes.

A entrada parecia natural e artificial ao mesmo tempo — como se a montanha houvesse sido aberta cuidadosamente por mãos invisíveis há milhares de anos.

Na superfície úmida da rocha, símbolos quase apagados surgiam sob a água da chuva.

Não eram letras conhecidas.

Mas Helena sentiu, inexplicavelmente, que compreendia o significado.

Passagem.

Memória.

Travessia.

Seu celular perdeu sinal. 

Depois desligou sozinho.

O vento cessou.

E um silêncio profundo caiu sobre a floresta.

Helena hesitou.

Toda sua formação acadêmica gritava cautela. Mas havia algo mais forte do que o medo: uma sensação estranha de reconhecimento.

Como se tivesse esperado aquela porta a vida inteira.

Corajosamente ela entrou.

O corredor era estreito e escuro no início, mas aos poucos uma luz âmbar começou a surgir das paredes.

Não havia tochas. Nem lâmpadas. A própria pedra parecia respirar luminosidade.

O túnel terminava numa enorme câmara circular.

E então Helena percebeu que não estava sozinha.

Do outro lado da caverna, entre sombras douradas, havia uma figura imóvel.

Alta. Magra. Coberta parcialmente por fibras, folhas e algo que lembrava galhos secos.

Os olhos brilhavam como brasas antigas.

E atrás da criatura havia um cervo branco.

Helena sentiu o corpo inteiro gelar.

Porque conhecia aquela imagem.

Era Anhangá, o espírito das matas. O guardião dos caminhos ocultos. A entidade que confundia caçadores, protegia animais e desorientava homens arrogantes na floresta.

Mas não havia monstruosidade na presença diante dela.

Havia tristeza.

Uma tristeza antiga demais para caber numa expressão humana.

— Você demorou — disse a entidade.

A voz não ecoava pelos ouvidos. Parecia surgir dentro da própria consciência de Helena.

— Isso é real? — perguntou ela, quase sem perceber.

Anhangá inclinou levemente a cabeça.

— O que vocês chamam de real muda a cada século.

A câmara começou a vibrar lentamente.

Então Helena viu.

As paredes transformaram-se em imagens vivas.

Primeiro, o Brasil colonial. Florestas queimando. Navios. Correntes. Ouro. Corpos indígenas. Corpos negros. Silêncios enterrados.

Depois vieram cidades infinitas. Concreto. Telas luminosas. Pessoas falando sem parar. Mas incapazes de se ouvir.

A velocidade aumentava.

Crises políticas. Fake news. Ódio. Algoritmos. Solidão. Fanatismos.

Tudo corria diante dela como uma correnteza impossível de deter.

— O que é isso? — perguntou Helena.

— Memória interrompida.

As imagens mudaram novamente.

Agora surgia outro Brasil.

Não perfeito. Nem utópico.

Mas diferente.

Cidades mais silenciosas. Rios recuperados. Escolas abertas à comunidade. Tecnologia integrada à natureza. Praças cheias com crianças brincando sem o medo da violência urbana. Pessoas discordando sem desejar destruição umas das outras.

Helena observava sem conseguir respirar direito.

— Isso… é o futuro?

— Não.

Anhangá aproximou-se lentamente.

— É apenas um dos caminhos.

A entidade tocou a parede de pedra.

Milhares de símbolos começaram a pulsar ao redor.

— Toda civilização abre portais.

Anhangá tocou lentamente a pedra.

— Algumas para a memória.

— Algumas para a sabedoria.

— Algumas para a destruição.

Helena sentiu um peso estranho no peito.

— E o Brasil?

Pela primeira vez, Anhangá pareceu cansado.

— O Brasil está diante de um portal há muito tempo. 

Anhangá ergueu lentamente os olhos.

— Mas esqueceu como atravessar.

O silêncio voltou.

Lá fora, muito distante, trovões cruzavam o céu sobre o Atlântico.

— Por que eu? — perguntou Helena.

Anhangá olhou para ela longamente.

— Porque ainda existem pessoas capazes de escutar. — Poucas. — Mas existem.

A luz da câmara começou a diminuir.

— O portal não mostra verdades. — Mostra responsabilidades.

A pedra inteira pareceu respirar.

— Nenhum país é salvo pela força. 

— Nem pela tecnologia. 

— Nem pelo medo. 

— Uma civilização sobrevive quando consegue lembrar quem é.

A última imagem surgiu então diante de Helena.

A própria Pedra da Gávea.

Imóvel. Observando séculos passarem. Impérios nascerem e desaparecerem. Governos. Guerras. Ideologias. Máquinas.

E permanecendo ali.

Como uma sentinela silenciosa entre floresta, cidade e oceano.

Quando Helena despertou, estava novamente na trilha.

O céu amanhecia limpo.

Seu celular funcionava normalmente.

Turistas passavam logo abaixo conversando alto. Nada parecia diferente.

Mas algo havia mudado.

Ao tocar a pedra úmida ao lado do caminho, Helena percebeu um pequeno símbolo gravado na superfície.

Um cervo.

E compreendeu, finalmente, que certos portais não existem para fugir do mundo.

Existem para devolver as pessoas a ele transformadas.

Quando Helena voltou o olhar para a montanha, por um breve instante teve a impressão de enxergar, muito acima da névoa, a silhueta imóvel de um cervo branco observando a cidade.

Depois, desapareceu.

A Pedra da Gávea permaneceu imóvel sobre a cidade.

Como se continuasse esperando.


📝 NOTA:

Anhangá é uma entidade presente em diversas tradições indígenas brasileiras, especialmente associada à cosmologia tupi.

Em algumas narrativas, aparece como espírito protetor das matas e dos animais, frequentemente associado à figura de um cervo branco de olhos flamejantes.

Ao longo da colonização, sua imagem foi parcialmente reinterpretada sob influências cristãs europeias, passando em certos contextos a ser associada de forma equivocada a uma figura demoníaca.

Neste conto, Anhangá é retratado como guardião simbólico da memória, da floresta e dos caminhos espirituais esquecidos.


📷: Karla F. Paiva/Wikimedia Commons