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sábado, 15 de agosto de 2026

Eleições 2026: um resumo cidadão do plano de governo de Coronel Busnello



Em período eleitoral, os planos de governo não deveriam permanecer escondidos nos sistemas da Justiça Eleitoral nem ser tratados apenas como documentos burocráticos necessários ao registro das candidaturas. Eles podem — e deveriam — servir como instrumentos para que o eleitor conheça propostas, identifique prioridades e, posteriormente, cobre os compromissos assumidos.

É com esse propósito que venho fazendo uma leitura cidadã dos programas apresentados pelos candidatos ao Governo do Estado do Rio de Janeiro nas eleições de 2026. A intenção não é dizer ao eleitor em quem votar, nem transformar a análise em propaganda ou oposição a qualquer candidatura. O objetivo é traduzir documentos muitas vezes extensos, destacar propostas relevantes e apontar questões que ainda precisam de esclarecimento durante a campanha.

Desta vez, examinamos o plano apresentado pelo Partido Missão para a candidatura do ex-subcomandante do BOPE da PMERJ, Coronel Busnello, ao Governo do Estado, tendo como candidato a vice-governador o Bombeiro Rafa Luz.

O documento disponível possui 81 páginas e se apresenta como “Resumo Executivo” de um trabalho mais amplo denominado Livro Amarelo – Plano de Governo do Rio de Janeiro. Segundo o próprio texto, trata-se de uma edição condensada de um diagnóstico e de propostas elaboradas pelo partido para o Estado.

Isso deve ser levado em consideração: algumas respostas que não aparecem no resumo executivo poderão eventualmente estar desenvolvidas no documento integral. Ainda assim, as propostas apresentadas ao eleitor já permitem uma análise bastante ampla.


Segurança, reforma do Estado e “desfavelização”

A identidade política do plano aparece claramente desde sua introdução.

O documento organiza sua concepção de governo em três pilares: Reforma do Estado, Segurança Pública e Ordem; Reformas de Base e Eficiência dos Serviços Públicos; e Desfavelização e Reindustrialização como Desenvolvimento Estratégico.

Segurança pública é apresentada como prioridade número um da candidatura, mas o programa procura articulá-la com educação, saúde, assistência social, habitação, desenvolvimento econômico e presença permanente do Estado nos territórios.

Essa integração talvez seja uma das características mais interessantes do documento.

Em vez de tratar violência exclusivamente como problema de policiamento, o programa procura conectar retomada territorial, serviços públicos, urbanização e atividade econômica.

Mas é justamente aí que surgem algumas das perguntas mais importantes.


Segurança: recompor o efetivo significa contratar quantos profissionais?

O diagnóstico trabalha com a existência de um déficit expressivo nas forças de segurança e o programa propõe recomposição de efetivos, novo Plano de Cargos, Carreiras e Salários, equalização do adicional de serviço entre corporações, assistência jurídica aos agentes e uma rede de saúde física e mental específica para policiais.

Há, portanto, uma política que não se limita à compra de equipamentos.

O programa parte da ideia de que valorizar e reter profissionais deve anteceder parte dos investimentos tecnológicos.

Mas surge uma questão objetiva: quantos profissionais serão efetivamente incorporados às forças de segurança até 2030?

E qual será o impacto permanente dessas contratações, reajustes e adicionais sobre a folha estadual?

O próprio plano reconhece os limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal e pelas restrições financeiras do Estado.

Por isso, transformar “recomposição do efetivo” em meta numérica permitiria ao eleitor saber exatamente o compromisso assumido.


Retomada de territórios: entrar é uma coisa, permanecer é outra

A proposta de retomada territorial segue uma sequência claramente definida: inteligência e asfixia financeira; intervenção operacional; consolidação da presença estatal.

Depois da operação, seriam instaladas Unidades de Controle Territorial, integrando segurança, serviços sociais e regulação econômica, inicialmente com projetos-piloto na Baixada Fluminense e em Jacarepaguá.

O programa identifica explicitamente o que considera ter sido uma fragilidade das antigas UPPs: a presença inicial seguida pelo refluxo do Estado.

Esse diagnóstico merece atenção. Porém, exatamente por isso, a pergunta mais importante talvez não seja como entrar no território, e sim como permanecer nele.

Quantos policiais e servidores serão necessários em cada área retomada?

Quanto custará essa presença permanente?

Quantos territórios poderão ser atendidos simultaneamente?

E quantas comunidades o governo assume o compromisso de efetivamente retomar durante os quatro anos de mandato?

Sem essas metas, a estratégia está formulada, mas sua escala ainda permanece aberta.


“Desfavelização”: o que exatamente significa?

Poucos termos do programa chamam tanta atenção quanto a “desfavelização”.

É importante, entretanto, compreender o conteúdo da proposta antes de julgá-la apenas pelo nome.

O documento não propõe simplesmente demolir comunidades. Ele prevê uma sequência envolvendo segurança territorial, diagnóstico técnico, cadastramento fundiário e social, infraestrutura, reurbanização e, quando necessário, realocação.

O próprio plano estabelece que a realocação deve ficar restrita a situações de risco real ou adensamento que torne a urbanização inviável.

Também prevê habitação, regularização fundiária, qualificação profissional, formalização econômica, equipamentos públicos e serviços.

No entanto, a meta é extraordinariamente ambiciosa.

Segundo o programa, o Rio possui 1.724 favelas e comunidades urbanas, e a intenção seria transformar esse universo, em dez anos, em bairros formais, chegando ao que o documento denomina “fim da favela como modalidade de moradia popular”.

É uma proposta que exige respostas proporcionais à sua dimensão.

Afinal, quantas comunidades serão efetivamente atendidas entre 2027 e 2030?

Quantas famílias?

Qual será o custo médio da intervenção?

Quanto custaria executar o programa em escala estadual durante dez anos?

E quais serão as fontes de financiamento?

O plano menciona captação internacional, integração com contratos de saneamento, CEHAB e ITERJ. Porém, ainda seria importante conhecer ao menos a ordem de grandeza financeira dessa transformação.


Título de propriedade “sem exceção”: a realidade jurídica permite?

Outra afirmação especialmente forte aparece na política fundiária.

O plano diz que, no processo de desfavelização, cada morador receberá título individual de propriedade, “sem exceção”.

A intenção de garantir segurança jurídica ao morador é compreensível.

Entretanto, a própria diversidade fundiária do Estado levanta uma questão.

As comunidades podem ocupar terrenos públicos ou privados, áreas ambientalmente protegidas, locais de risco, imóveis submetidos a litígio possessório ou terrenos com situações dominiais muito distintas.

O programa também reconhece que algumas famílias precisarão ser realocadas.

Por isso, a promessa de propriedade individual universal precisa ser melhor explicada: quais instrumentos jurídicos serão utilizados em cada situação e em quais casos a titulação individual poderá ser substituída por outra solução habitacional ou fundiária? Trata-se de um exemplo em que uma formulação politicamente forte pode enfrentar uma realidade jurídica muito mais complexa...


Educação: piso salarial, carreira e cobrança por resultados

Na educação, o programa procura combinar duas agendas frequentemente apresentadas como opostas.

De um lado, o candidato promete valorização salarial. O governo adequaria os vencimentos das categorias ao piso nacional do magistério, por meio de cronograma plurianual compatível com a responsabilidade fiscal, e enviaria à Assembleia Legislativa um novo Plano de Cargos, Carreiras e Salários.

De outro, o programa propõe gestão por resultados, bonificação, avaliação, progressão por mérito e processo técnico para seleção de diretores.

Há ainda uma preocupação interessante em comparar escolas de características socioeconômicas semelhantes, evitando tratar realidades muito diferentes como se fossem iguais.

Mas permanecem duas perguntas importantes.

Primeiramente, em qual ano toda a rede estadual estará efetivamente adequada ao piso nacional?

Dizer que haverá um cronograma compatível com a LRF preserva a responsabilidade financeira, mas ainda não permite saber se o compromisso será cumprido em 2027, 2028, 2029 ou somente ao final do mandato.

Segundo, deve ser esclarecido como serão construídos os indicadores utilizados para bonificar professores e gestores?

Uma política de resultados precisa evitar que escolas que atendem populações mais vulneráveis sejam penalizadas pelas próprias desigualdades que enfrentam.


E os CIEPs?

O programa faz uma observação particularmente interessante sobre um patrimônio educacional fluminense.

Segundo o documento, existem mais de 500 CIEPs, muitos deles subutilizados fora do período regular, e a diretriz é aproveitar e ampliar estruturas educacionais existentes antes de criar novas.

Isso abre uma questão importante para a campanha: qual será concretamente a política do governo para os CIEPs e para a educação em tempo integral?

Quantos passarão a funcionar em jornada ampliada?

Quantos abrirão aos fins de semana?

Haverá uma meta de expansão do número de alunos em educação integral?

Um estado que possui uma rede física concebida originalmente para esse modelo deveria aproveitar o debate eleitoral para discutir seu futuro.


Mobilidade: vários projetos, mas qual será a prioridade?

O plano de mobilidade combina recuperação do que já existe com algumas expansões bastante significativas.

Para os trens metropolitanos, o programa prevê execução de um plano de recuperação já estimado em R$ 2,1 bilhões, aquisição de 55 novos trens, modernização da sinalização e requalificação das 104 estações. Também aparecem propostas para a Linha 2 até Niterói, Linha 3 até São Gonçalo, VLT entre Pavuna e Nova Iguaçu e dois corredores BRT.

São investimentos relevantes.

No entanto, um programa de governo precisa estabelecer hierarquia.

Quais desses projetos estarão efetivamente concluídos até 2030?

Quais serão apenas iniciados?

Quais dependerão integralmente de concessões e PPPs?

Qual será o investimento estadual necessário?

Essa distinção é especialmente importante em obras metroferroviárias, cujos cronogramas frequentemente ultrapassam um mandato.


Integração tarifária: quem absorve a diferença?

O programa identifica um problema real de governança metropolitana: os diferentes sistemas de bilhetagem e a falta de coordenação entre trens, metrô, ônibus, BRT e VLT.

A proposta é integrar bilhetagem e horários mediante convênios entre Estado e municípios.

Isso pode facilitar muito a vida do passageiro. Porém, a integração tarifária não é apenas um problema tecnológico. É também uma equação financeira.

Quando o passageiro utiliza dois ou três modais e paga menos do que a soma das respectivas tarifas, quem remunera os operadores pela diferença?

Estado?

Municípios?

Empresas concessionárias?

Um fundo metropolitano?

Para avaliar a proposta, seria importante conhecer também o modelo de repartição dessa receita e o eventual custo do subsídio público.


Fundo Soberano: protegido contra gastos, mas utilizado como garantia

No capítulo econômico, o plano defende uma política de responsabilidade fiscal e procura preservar o Fundo Soberano.

O documento afirma que pretende impedir seu uso para folha, serviço ordinário da dívida ou custeio e, ao mesmo tempo, utilizá-lo como aval e garantia para PPPs e concessões estruturantes.

A ideia é usar o patrimônio para alavancar investimentos privados sem necessariamente realizar desembolso imediato.

Mas existe uma distinção importante.

Garantia não significa gasto imediato, mas também não significa ausência de risco fiscal.

Se o evento garantido ocorrer, o patrimônio do fundo poderá ser chamado.

Por isso, algumas perguntas precisam ser respondidas:

Qual parcela do Fundo Soberano poderá ser comprometida com garantias?

Haverá limite por projeto?

Qual será o limite total de exposição?

Quem fará a avaliação de risco?

E quais projetos serão considerados suficientemente estratégicos para utilizar esse patrimônio como garantia?


E quanto das receitas do petróleo ficará comprometido?

O programa pretende ainda capitalizar o Fundo Soberano com 8% a 12% das receitas do petróleo, direcionando os recursos a investimentos estruturantes ligados à economia azul.

A proposta merece dimensionamento.

Quanto representam 8% ou 12% em valores anuais?

Que receita entra nessa base de cálculo?

Royalties?

Participações especiais?

Outras receitas petrolíferas?

E, sobretudo, de quais outras utilizações esses recursos deixarão de participar?

Em um Estado cuja situação fiscal ainda exige cautela, definir novas vinculações de receitas significativas exige mostrar também seu custo de oportunidade.


Previdência: auditoria não é a mesma coisa que solução estrutural

O programa de gestão pública contém uma das propostas mais sensíveis do documento.

Além de auditoria permanente da folha, pretende instituir planejamento da força de trabalho, previdência complementar para novos servidores e uma “reforma previdenciária paramétrica gradual”, acompanhada de avaliação atuarial anual.

Aqui o eleitor — e principalmente o servidor — merece maior clareza.

O que significa exatamente uma reforma “paramétrica”?

Alteração de idade?

Alíquota?

Cálculo dos benefícios?

Pensão?

Regras de transição?

Quais categorias seriam atingidas?

Qual economia atuarial se espera obter?

Combater pagamento irregular e melhorar gestão são medidas de controle. Modificar parâmetros previdenciários, porém, é algo diferente e pode produzir efeitos importantes sobre direitos e expectativas dos servidores.

Uma proposta dessa natureza precisa ser explicada diretamente durante a campanha.


Reindustrialização: o governo pode induzir, mas nem tudo depende dele

O programa apresenta uma agenda relativamente definida de reindustrialização. Prevê uma zona industrial no Leste Fluminense, aproveitando Itaboraí, BR-101 e a futura EF-118, além de setores como óleo e gás, construção, transformação, pescado e indústria de motocicletas.

O candidato também propõe o Vale dos Fertilizantes, com polo de amônia e ureia em Porto do Açu e Macaé e meta de colocar ao menos uma planta industrial de escala mundial em funcionamento até o final do mandato.

É uma meta muito concreta, mas justamente por isso precisa ser testada.

Um governador pode criar incentivos, melhorar infraestrutura, negociar regimes tributários e organizar políticas de atração. No entanto, a decisão final de instalar uma planta industrial depende também do investidor, licenciamento, mercado, infraestrutura de gás, financiamento e, neste caso, de um convênio tributário no CONFAZ.

Portanto, a pergunta é: o compromisso da candidatura é criar todas as condições necessárias para atrair a planta ou garantir que ela estará efetivamente em operação até 2030?

Essa distinção ajuda a separar aquilo que o governo controla daquilo que pretende induzir.


Costa Verde: há vocação reconhecida, mas como integrar desenvolvimento, turismo, ambiente e segurança?

O programa identifica expressamente a Costa Verde entre as regiões cujas vocações produtivas devem orientar a política de desenvolvimento e associa o território principalmente aos setores naval e de energia nuclear. 

Paraty e Angra dos Reis também aparecem entre os municípios priorizados nos roteiros estaduais relacionados ao patrimônio histórico, à cultura e ao turismo. 

Além disso, a Costa Verde é expressamente apontada como uma das áreas prioritárias da política de resiliência climática e prevenção de desastres, com modernização dos sistemas de alerta e utilização de reflorestamento técnico de encostas como instrumento de proteção. 

Portanto, a região não foi simplesmente mencionada de maneira protocolar no programa. Há diferentes políticas que alcançam diretamente o território.

No entanto, justamente essa diversidade produz uma questão que merece ser melhor desenvolvida durante a campanha.

Como o eventual governo pretende articular, na Costa Verde — e especialmente em Angra dos Reis — energia nuclear, turismo, proteção ambiental, defesa civil, mobilidade e segurança territorial?

São atividades que podem coexistir e contribuir para o desenvolvimento regional, mas exigem planejamento integrado.

Angra dos Reis reúne infraestrutura nuclear, patrimônio natural e turístico, comunidades costeiras, áreas urbanas situadas entre o mar e encostas e importantes eixos de circulação regional. Uma política voltada ao desenvolvimento desse território não pode tratar cada uma dessas dimensões isoladamente.

Se a energia nuclear integra a estratégia econômica para a região, é importante saber como essa atividade se relacionará com planejamento territorial, proteção ambiental, preparação para emergências e infraestrutura de mobilidade.

Da mesma forma, estimular o turismo exige preservar justamente os ativos ambientais e paisagísticos que sustentam essa atividade e assegurar capacidade de deslocamento, saneamento, serviços públicos e proteção diante de eventos extremos.

Há, portanto, perguntas bastante concretas que poderiam ser dirigidas à candidatura:

Qual será o planejamento integrado para Angra dos Reis diante da coexistência entre o complexo nuclear, turismo e proteção da Mata Atlântica?

Como serão articulados Estado, municípios e órgãos federais em matéria de riscos tecnológicos e ambientais?

Qual será a estratégia para mobilidade e evacuação em situações de emergência?

Que investimentos serão previstos para proteção costeira, encostas, saneamento e ocupação do solo?

Como compatibilizar expansão econômica e turística com a capacidade ambiental e urbana da região?

Também permanece uma questão mais ampla sobre a territorialização do programa.

Quais projetos estão previstos especificamente para Mangaratiba, Angra dos Reis e Paraty, e como se dará a integração da Costa Verde com Itaguaí?

Qual será a política para a Rio-Santos, transporte intermunicipal, turismo sustentável, pesca e economia do mar, saneamento costeiro, prevenção de deslizamentos e infraestrutura regional de saúde?

A presença da Costa Verde no diagnóstico é positiva. O passo seguinte seria transformar essa presença em projetos, metas, valores, responsabilidades institucionais e cronogramas.


Um plano técnico precisa apresentar uma conta técnica

O programa do Partido Missão possui uma característica que merece reconhecimento: há uma concepção de governo identificável e várias propostas com nível razoável de elaboração.

Segurança, urbanização, educação, mobilidade, gestão fiscal e reindustrialização não aparecem como capítulos completamente independentes.

Existe uma tentativa de conectá-los. Porém, ao mesmo tempo, o próprio documento se apresenta como projeto técnico e executável.

Essa autodefinição aumenta a responsabilidade do candidato demonstrar como todas essas políticas cabem juntas na realidade fiscal do Estado.

Quanto custará recompor as forças de segurança?

Quanto custará adequar os professores ao piso?

Quanto exigirá a desfavelização?

Quanto será investido na recuperação dos trens?

Quanto será necessário para os grandes projetos de mobilidade?

Quanto do Fundo Soberano poderá ser comprometido?

Quanto das receitas petrolíferas será vinculado?

E quais despesas serão reduzidas ou adiadas se a receita estadual não crescer como esperado?

Essa talvez seja a pergunta que sintetiza todas as demais: qual é a conta consolidada do plano para 2027–2030?


Ler os programas é também participar da eleição

Apontar essas questões não significa rejeitar as propostas de Coronel Busnello.

Ao contrário, algumas delas merecem debate justamente porque são mais concretas do que simples slogans eleitorais.

Uma estratégia de ocupação territorial que reconhece a necessidade de permanência estatal merece ser discutida.

Por sua vez, uma política de transformação urbana das comunidades precisa ser examinada em seus aspectos sociais, financeiros e jurídicos.

Prometer o piso dos professores merece ser acompanhado do respectivo cronograma para que a proposta não fique apenas sendo uma promessa.

Utilizar o patrimônio público para alavancar investimento privado exige conhecer os riscos.

E grandes projetos de infraestrutura precisam indicar claramente quais serão entregues dentro do mandato.

A mesma metodologia deve valer para todos os candidatos.

Antes de comparar programas, é importante compreender cada um individualmente — seus méritos, suas prioridades, suas lacunas e aquilo que ainda precisa ser esclarecido.

Ao final, talvez a pergunta mais útil não seja simplesmente “qual candidato apresentou o melhor plano?”

Antes disso, o eleitor pode perguntar: o que exatamente cada candidato promete entregar, quanto isso custará, quais decisões dependem dele e como poderemos saber, em 2030, se aquilo que foi prometido realmente foi cumprido?

É dessa forma que o plano de governo deixa de ser apenas um arquivo burocraticamente entregue à Justiça Eleitoral e passa a exercer sua função democrática mais importante: servir como compromisso público entre candidato e eleitor.

domingo, 9 de agosto de 2026

Eleições 2026: o que falta esclarecer no plano de governo de Douglas Ruas?



A apresentação dos planos de governo à Justiça Eleitoral oferece ao eleitor uma oportunidade que não deveria ser desperdiçada. Mais do que peças formais necessárias ao registro das candidaturas, esses documentos podem — e devem — servir de ponto de partida para um debate público sobre aquilo que cada candidato pretende fazer, de que maneira pretende fazê-lo e quais resultados se compromete a entregar.

O candidato a governador do PL, Douglas Ruas, apresentou o “Plano do Rio Real 2027–2030”, documento de 51 páginas estruturado em quatro grandes eixos: Rio Seguro, Rio que Cuida, Rio Próspero e Rio que Avança. Segurança pública ocupa posição central, enquanto municipalismo e políticas para as mulheres aparecem como temas transversais.

O programa merece ser lido e discutido. Há propostas concretas e questões importantes para o futuro do Estado, algumas das quais podem encontrar concordância inclusive entre eleitores que não estejam politicamente identificados com a candidatura. Entretanto, justamente porque um plano de governo deve permitir que a sociedade conheça e posteriormente cobre os compromissos assumidos, há pontos que ainda precisam de esclarecimento.

A própria carta de apresentação oferece um excelente parâmetro para essa análise. Douglas Ruas afirma que, como governador, comandará as prioridades “com metas, prazos, responsáveis e transparência” e acrescenta que o cidadão saberá o que está sendo feito, “quanto custa” e quais resultados estão sendo alcançados.

A primeira pergunta, portanto, nasce do próprio programa: onde estão as metas, os prazos e os custos das principais propostas apresentadas?


Quanto custará o “Rio Real”?

Talvez essa seja a principal questão a ser esclarecida.

O programa reúne uma quantidade expressiva de compromissos que demandarão recursos públicos: ampliação do efetivo policial, revisão de carreiras e bonificações; novas estruturas de saúde; expansão de serviços especializados; investimentos em escolas; políticas habitacionais; infraestrutura; mobilidade e integração tarifária, entre outros.

Não há problema algum em um candidato apresentar um programa ambicioso. O problema surge quando não conseguimos saber quanto dessa ambição cabe no orçamento estadual.

Se todas as propostas forem executadas, qual será seu custo estimado nos quatro anos? Quais terão prioridade? Haverá aumento permanente das despesas correntes? Quais serão as fontes de financiamento? Quanto virá do Tesouro estadual, da União, de operações de crédito, concessões e parcerias público-privadas?

Mais do que mencionar “responsabilidade fiscal”, seria importante explicar como ela será compatibilizada com a expansão prometida dos serviços e investimentos.


Segurança: “mais efetivo” significa quantos policiais?

Não há dúvida de que a segurança pública constitui o coração político do programa.

O diagnóstico apresentado é duro: Douglas caracteriza a situação fluminense como uma “crise de soberania territorial” e sustenta que operações policiais episódicas não resolvem o problema. Sua proposta combina inteligência, asfixia financeira das organizações criminosas, tecnologia, atuação policial e presença permanente do Estado nos territórios retomados.

Há mérito em reconhecer que retirar uma barricada ou realizar uma operação sem garantir posteriormente a presença estatal pode apenas reproduzir indefinidamente o problema.

Entretanto, a permanência custa dinheiro e exige pessoal.

O programa promete ampliar o efetivo através de novos concursos e convocação de concursados. Também fala em revisão de carreira e bonificação dos policiais que entregarem resultados.

Daí algumas perguntas objetivas: quantos novos policiais serão incorporados às forças estaduais até 2030? Qual seria o efetivo considerado adequado? Quanto custará essa ampliação da folha?

E, principalmente, quantos territórios o governo pretende retomar e manter sob presença permanente do Estado?

A promessa de que, “onde o Estado entrar, ele permanecerá”, é forte. Justamente por isso precisa ser transformada em planejamento verificável.


Gestão por resultados: quem fiscalizará as metas?

Outro elemento recorrente do programa é a gestão por resultados.

Na segurança, comandantes de batalhão, delegados titulares e diretores de presídios seriam escolhidos segundo critérios técnicos e assumiriam compromissos por resultados. As metas seriam acompanhadas mensalmente por um Gabinete Integrado de Segurança e Território, coordenado diretamente pelo governador.

A ideia merece discussão.

Indicadores podem melhorar a gestão pública. Mas também é necessário perguntar quem estabelece os indicadores, como os dados serão auditados e quais mecanismos impedirão distorções provocadas pela pressão por resultados.

Na segurança pública, por exemplo, como garantir que metas de redução da criminalidade não incentivem subnotificação de ocorrências? Na educação, quais fatores externos ao trabalho de professores e diretores serão considerados? Na saúde, produtividade será medida simplesmente pelo número de procedimentos ou também pela qualidade e resolutividade do atendimento?

Cobrar resultados é importante. Medir corretamente os resultados é igualmente importante.


Educação: disciplina e desempenho, mas qual será a política para os professores?

O plano reconhece problemas graves da educação fluminense, desde defasagens de aprendizagem até evasão, violência escolar, falta de climatização e insuficiência da alimentação oferecida aos estudantes.

Entre as respostas apresentadas estão recuperação em português e matemática, ensino técnico conectado às demandas econômicas regionais, melhoria da infraestrutura escolar, aproximação com universidades e bonificação de professores e escolas por resultados.

Há também uma opção política que certamente merecerá debate: a implantação de escolas cívico-militares, nas quais militares da reserva responderiam pela disciplina e pela ordem, enquanto a gestão pedagógica permaneceria civil.

Mas algumas perguntas permanecem.

Qual será a política de carreira para os profissionais da educação? Haverá recomposição remuneratória? Concursos? Como serão valorizados professores que trabalham em escolas localizadas em áreas socialmente mais vulneráveis e, portanto, enfrentam condições muito diferentes para alcançar determinadas metas?

E qual será a política estadual para a educação em tempo integral?

Curiosamente, o programa contém uma proposta que merece atenção: transformar escolas estaduais situadas nos territórios retomados do crime em complexos de cidadania, oferecendo ensino integral, qualificação profissional noturna, biblioteca, esporte e lazer.

Se esse conceito é considerado positivo, por que não estabelecer uma meta de expansão do ensino integral para toda a rede?

No Rio de Janeiro, estado onde surgiram os CIEPs idealizados por Darcy Ribeiro e concebidos arquitetonicamente por Oscar Niemeyer, seria especialmente oportuno que todos os candidatos explicassem qual futuro imaginam para a educação pública integral.


Saúde: quantas unidades e em quais municípios?

O capítulo da saúde contém algumas das propostas mais interessantes — e também algumas das que mais necessitam de dimensionamento.

Douglas propõe Centros Integrados de Atenção Médica e Exames (CIAMEs) em cada região, carretas atendendo municípios mais distantes, Hospitais de Alta Resolução, mutirões permanentes de cirurgias eletivas, funcionamento de centros cirúrgicos à noite e nos fins de semana e contratação complementar da rede privada.

O plano acrescenta um novo Instituto Estadual de Oncologia na capital, fortalecimento da oncologia no interior, transporte sanitário e incentivos para fixação de especialistas nas regiões.

São propostas que merecem ser debatidas pelo mérito.

Mas quantos CIAMEs serão instalados? Onde ficarão os Hospitais de Alta Resolução? Quantos especialistas se pretende contratar? Qual redução da fila de cirurgias será considerada satisfatória ao final do primeiro, segundo e quarto anos?

E, novamente: quanto custará essa nova estrutura?

Sem números, uma boa proposta permanece difícil de avaliar e, futuramente, de cobrar.


Condicionar recursos a resultados pode aumentar desigualdades?

Existe ainda uma questão mais sofisticada no modelo proposto.

Na educação, o programa fala em investimento condicionado ao cumprimento de metas de aprendizagem. Na saúde, prevê organização regional e repasses vinculados a metas.

A lógica é compreensível: quem administra dinheiro público deve prestar contas dos resultados.

Mas municípios não partem das mesmas condições.

Um município pequeno, pobre e com reduzida capacidade administrativa poderá apresentar indicadores piores justamente porque necessita de maior apoio estadual. Como evitar que a política de premiar resultados termine favorecendo quem já possui melhores condições e prejudicando quem mais necessita de recursos?

Talvez as metas possam ser diferenciadas conforme a realidade de cada território. Se for essa a intenção, seria importante explicitá-la.


E qual será a política para os servidores estaduais?

Esta é uma lacuna que merece especial atenção.

Boa parte das propostas depende justamente das pessoas que fazem o Estado funcionar: policiais, professores, profissionais da saúde, técnicos, fiscais e demais servidores.

Entretanto, embora haja medidas específicas para policiais e financiamento habitacional para servidores, não se encontra no programa uma política geral suficientemente desenvolvida para o funcionalismo estadual.

Qual será a política salarial? Haverá revisão das carreiras? Quais áreas necessitam de concursos? Como ficará a previdência estadual? Haverá mecanismos permanentes de negociação com as categorias?

Se a proposta é cobrar mais resultados da máquina pública, parece razoável que o eleitor — e principalmente o servidor — saiba também qual será a política de valorização de quem deverá entregar esses resultados.


PPPs e concessões: quem paga a conta no futuro?

O programa aposta fortemente na colaboração com a iniciativa privada. Na área econômica, propõe inclusive uma carteira pública de PPPs e concessões para apresentar antecipadamente aos investidores os projetos e prioridades estaduais.

Parcerias público-privadas podem viabilizar investimentos que o Estado não conseguiria realizar imediatamente com recursos próprios. Mas PPP não significa investimento gratuito.

Dependendo de sua modelagem, haverá contraprestações públicas durante muitos anos.

Por isso, seria importante conhecer qual nível de comprometimento futuro do orçamento o eventual governo considera aceitável, quais projetos pretende priorizar e quais critérios serão utilizados para decidir entre investimento público direto, concessão e PPP.


Linha 3: construir ou apenas buscar recursos?

Este é um ponto particularmente importante para o Leste Metropolitano e merece uma resposta inequívoca do candidato.

É preciso distinguir entre assumir compromisso de executar uma obra e assumir compromisso de avançar estudos, projetos ou captação de recursos.

Por isso, uma pergunta simples poderia esclarecer a posição da candidatura: Douglas Ruas assume o compromisso de executar e entregar a Linha 3 do Metrô durante o mandato de 2027 a 2030 ou seu compromisso é concluir etapas preparatórias e buscar financiamento para uma futura implantação?

Para uma obra discutida há tantos anos, o eleitor merece saber exatamente o alcance da promessa.


O plano está aberto ao debate — aproveitemos a oportunidade

Apontar essas questões não significa negar méritos ao programa de Douglas Ruas, tampouco presumir que suas propostas sejam inviáveis.

Significa fazer aquilo que deveria ser normal em uma campanha eleitoral: ler os programas, confrontá-los com a realidade e pedir aos candidatos respostas concretas.

Aliás, o próprio Plano do Rio Real convida a esse exercício. Em sua introdução, apresenta-se como um “documento em construção”, aberto ao diálogo, a revisões, ao aperfeiçoamento e à incorporação de novas contribuições.

Então aproveitemos o convite.

Quanto custará o programa? Quantos policiais serão contratados? Quais serão as metas para saúde e educação? Como será valorizado o funcionalismo? Qual será o futuro dos CIEPs e da educação integral? Como serão financiadas as grandes obras? Qual é exatamente o compromisso com a Linha 3? Como serão auditadas as metas utilizadas para avaliar gestores e servidores?

Essas perguntas podem ser respondidas pelo próprio candidato e por sua equipe durante a campanha.

E seria saudável que o mesmo método fosse aplicado aos demais concorrentes.

A eleição para governador não deveria se resumir à comparação de slogans, ataques, pesquisas ou personalidades. Uma das melhores maneiras de qualificar a escolha do eleitor é transformar os planos registrados pelos candidatos em documentos vivos de debate público — e, depois das eleições, em instrumentos de cobrança.

É assim que um plano de governo deixa de ser apenas uma exigência apresentada à Justiça Eleitoral e passa a cumprir sua função mais importante: permitir que o eleitor saiba, antes de votar, o que cada candidato pretende fazer com o Estado do Rio de Janeiro nos quatro anos seguintes.

domingo, 3 de maio de 2026

Segurança pública, LRF e desigualdade federativa: o que revela a Lei nº 15.395/2026 assinada na semana passada



A recente sanção da Lei nº 15.395, de 27 de abril de 2026, pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva oferece um ponto de partida privilegiado para uma reflexão mais ampla — que ultrapassa o caso concreto e alcança a própria arquitetura fiscal do Estado brasileiro.

Não se trata apenas de um reajuste remuneratório. Trata-se, na verdade, de um sintoma: o de como determinadas funções estatais — especialmente a segurança pública — operam como vetores de reorganização do orçamento, tensionando limites jurídicos, redefinindo prioridades e, não raramente, induzindo processos de captura institucional.


1. A lógica política da priorização da segurança

A segurança pública ocupa uma posição singular no sistema decisório estatal.

Diferentemente de políticas estruturais como educação ou saneamento, seus efeitos são imediatos, visíveis e emocionalmente intensos.

Esse tripé produz um fenômeno conhecido como hiperpriorização reativa: a tendência de governos destinarem recursos e atenção desproporcionais à segurança pública em resposta a pressões imediatas — políticas, sociais e midiáticas — ainda que isso comprometa o equilíbrio de longo prazo das contas públicas.

Governos não priorizam segurança apenas por convicção programática, mas por risco político elevado em caso de falha, capacidade de mobilização corporativa das categorias, e impacto direto na percepção de governabilidade.

A consequência é previsível: a segurança pública tende a capturar parcela crescente do orçamento dos estados, sobretudo na rubrica de pessoal.


2. A rigidez fiscal e o papel da Lei de Responsabilidade Fiscal

Do ponto de vista jurídico-financeiro, o problema se agrava.

A Lei de Responsabilidade Fiscal — que, de forma simplificada, limita a despesa total com pessoal a até 60% da Receita Corrente Líquida, no caso dos Estado — estabelece balizas fundamentais para o equilíbrio das contas públicas.

A segurança pública, contudo, apresenta características que tensionam esses limites:


  • forte dependência de carreiras estruturadas;
  • crescimento vegetativo (progressões, vantagens);
  • impacto relevante de inativos.


Não se trata de despesa discricionária. Trata-se de despesa rígida por excelência.

O resultado é um paradoxo: quanto maior a priorização política da segurança, menor a margem fiscal para políticas estruturais.


3. O caso do Distrito Federal: exceção que revela a regra

A Lei nº 15.395/2026 incide sobre um contexto institucional peculiar.

No Distrito Federal, as forças de segurança são financiadas por meio do Fundo Constitucional, custeado pela União.

Esse arranjo produz três efeitos relevantes:


  1. Redução da pressão direta da LRF local;
  2. Maior previsibilidade orçamentária;
  3. Capacidade ampliada de recomposição remuneratória.


Em outras palavras, o DF funciona como um laboratório institucional: demonstra o que ocorre quando a restrição fiscal é atenuada, e revela, por contraste, a intensidade da restrição nos Estados.

Um dado empírico ajuda a dimensionar a assimetria federativa descrita. No Distrito Federal, um policial militar em início de carreira costuma receber valores na faixa de R$ 7 mil, com médias remuneratórias que, ao longo da carreira, frequentemente superam a casa de R$ 12 mil.

Em diversos estados, contudo — especialmente aqueles com maior restrição fiscal —, os vencimentos iniciais tendem a situar-se, em termos aproximados, entre R$ 4 mil e R$ 5 mil, podendo variar conforme o ente federativo e a estrutura de carreira.

Esses números, aqui utilizados como referência ilustrativa de padrões remuneratórios observados, indicam uma discrepância que, em muitos casos, supera 50%. Trata-se de diferença que não decorre de distinções funcionais relevantes, mas do arranjo institucional que desloca o financiamento do DF para a União.

O resultado é a consolidação de um quadro em que servidores que exercem funções substancialmente idênticas estão submetidos a regimes remuneratórios profundamente distintos — evidência clara de que a questão não é apenas salarial, mas estrutural e federativa.


4. A captura orçamentária: conceito e manifestação

É nesse ponto que emerge o conceito central desta análise: captura orçamentária, entendida como a situação em que determinados setores, em razão de seu poder de pressão política ou institucional, passam a influenciar de forma desproporcional a alocação de recursos públicos, deslocando o orçamento de sua função de planejamento para uma lógica de acomodação de interesses organizados.

Não se trata de ilegalidade, mas de um desvio funcional, no qual a alocação de recursos passa a refletir de forma crescente a capacidade de pressão de determinados grupos.

Na prática, isso se manifesta por reajustes seletivos, expansão de vantagens específicas, resistência a reformas estruturais, e judicialização de pleitos remuneratórios.

O efeito sistêmico é conhecido: o orçamento deixa de ser instrumento de planejamento e passa a refletir a correlação de forças entre grupos organizados.


5. O papel do controle externo (TCEs)

Diante desse cenário, o controle externo assume função estratégica.

Os Tribunais de Contas — como o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro — não se limitam à verificação formal de limites.

Sua atuação mais sofisticada envolve a análise da sustentabilidade intertemporal da despesa, a avaliação da qualidade do gasto público e a  identificação de riscos de rigidez orçamentária excessiva.

Aqui reside um ponto sensível: a conformidade com a LRF não esgota o controle.

É possível cumprir formalmente os limites e, ainda assim, produzir desequilíbrios estruturais, compressão de investimentos, e deterioração de políticas públicas essenciais.


6. A responsabilidade do gestor: além da legalidade formal

A responsabilidade fiscal do gestor não se esgota na observância aritmética dos limites.

Ela envolve planejamento de médio e longo prazo, avaliação de trade-offs e preservação da capacidade de investimento.

A expansão desproporcional de gastos com pessoal — ainda que juridicamente amparada — pode caracterizar gestão temerária, ou, em cenários extremos, violação indireta dos princípios da administração pública.

O desafio é evidente: equilibrar a pressão política legítima com a racionalidade fiscal.

Esse cenário ganha contornos ainda mais relevantes diante do debate em torno da chamada PEC da Segurança Pública, que busca redefinir o papel da União na coordenação das políticas de segurança.

Nesse contexto, a Lei nº 15.395/2026 pode ser interpretada não como um ato isolado, mas como um movimento que já se insere — ainda que de forma localizada — nessa tendência de maior centralizaçã. Ao reforçar o financiamento federal de estruturas de segurança no Distrito Federal, a lei antecipa, em escala localizada, uma lógica que a PEC pode vir a expandir em nível nacional. 

Ainda que os contornos definitivos da PEC estejam em construção, a proposta indica uma tendência de maior centralização normativa e, possivelmente, financeira. 

Caso avance nesse sentido, poderá atenuar desigualdades hoje existentes entre os entes federativos — mas também traz o risco de ampliar a pressão sobre o orçamento federal e intensificar disputas corporativas em escala nacional. 

Em outras palavras, a PEC não elimina o problema da captura orçamentária; ela tende a deslocá-lo para outro nível, exigindo mecanismos ainda mais sofisticados de controle e governança.

Importa registrar que a PEC da Segurança Pública ainda se encontra em fase de discussão no Congresso Nacional, tendo sido objeto de diferentes versões e propostas ao longo dos últimos meses. Esse caráter em construção reforça a importância de análises que não apenas descrevam o cenário atual, mas também antecipem seus possíveis desdobramentos institucionais.


7. O espelho municipal: a lógica se reproduz

Esse padrão de pressão corporativa e expansão de despesa rígida, no entanto, não se limita à esfera federal e estadual, irradiando-se também para o plano municipal.

Importa destacar que os municípios também se encontram submetidos às mesmas balizas da Lei de Responsabilidade Fiscal, especialmente no que se refere ao limite global de despesa com pessoal. 

Essa incidência simultânea da LRF em diferentes níveis federativos tende a potencializar os riscos de captura orçamentária: pressões por expansão de gasto em uma esfera não apenas se reproduzem, mas se acumulam no sistema como um todo, reduzindo progressivamente o espaço fiscal disponível para políticas estruturantes.

Embora os municípios não mantenham forças policiais próprias nos moldes constitucionais clássicos, o padrão se replica — e vem sendo tensionado pela expansão das Guardas Municipais.

Vale observar que, em áreas como saúde, educação e na estrutura administrativa em geral, incluindo as Guardas Municipais, observa-se dinâmica semelhante: pressão política concentrada, expansão de despesas obrigatórias, e redução da margem de investimento.

No plano local, isso frequentemente se combina com o crescimento de cargos comissionados, o uso politicamente instrumentalizado da máquina administrativa, e a baixa capacidade de planejamento de longo prazo.

Esse quadro, contudo, vem se alterando com a crescente expansão das Guardas Municipais, que, embora formalmente vocacionadas à proteção de bens, serviços e instalações, têm assumido, na prática, funções cada vez mais próximas da segurança pública tradicional. 

Esse movimento — impulsionado por demandas sociais imediatas e pela percepção de insuficiência das polícias estaduais — tende a reproduzir, no plano municipal, a mesma lógica observada nos estados: fortalecimento de carreiras armadas, pressão por valorização remuneratória e crescente rigidez da despesa de pessoal. 

O risco, aqui, é a formação de uma nova camada de vinculação orçamentária sensível, capaz de tensionar ainda mais os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal nos municípios e de induzir, em escala local, fenômenos de captura orçamentária similares aos já identificados na esfera estadual.


8. Conclusão: entre a política e a sustentabilidade

A Lei nº 15.395/2026 não deve ser lida isoladamente.

Ela é expressão de um fenômeno mais amplo: a centralidade política da segurança pública e sua capacidade de reorganizar o orçamento estatal.

O desafio contemporâneo não é negar essa prioridade, mas discipliná-la institucionalmente.

Isso exige o fortalecimento do controle externo, a atuação técnica dos Tribunais de Contas, e, sobretudo, gestores capazes de resistir à captura orçamentária.

Porque, no limite, a questão não é quanto se gasta com segurança — mas, sobretudo, o que se deixa de fazer quando o orçamento perde sua função de planejamento e passa a operar apenas como resposta à pressão política.


📷: Ricardo Stuckert/Presidência da República.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

STF fixa limite nominal às guardas municipais — e abre debate sobre seu papel real na segurança urbana



Na sessão virtual encerrada em 13 de abril de 2026, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n.º 1214 e decidiu, por maioria, vedar a utilização da expressão “Polícia Municipal” pelas Guardas Municipais em todo o país. A controvérsia teve origem na Emenda n.º 44/2025 à Lei Orgânica do Município de São Paulo, que passou a permitir a denominação “Polícia Municipal de São Paulo” como referência adicional à Guarda Civil Metropolitana.

Segundo a orientação fixada — ainda pendente de acórdão —, o artigo 144, § 8º, da Constituição, regulamentado pelas Leis nº 13.022/2014  (Estatuto Geral das Guardas Municipais) e nº 13.675/2018 (Sistema Único de Segurança Pública - SUSP), impõe a adoção uniforme da expressão “Guardas Municipais”, vedando substituições ou denominações similares. A decisão foi noticiada pelo próprio STF e consolida uma linha que já vinha sendo delineada em decisões anteriores do Tribunal.

À primeira vista, trata-se de um julgamento sobre nomenclatura. Mas essa leitura é superficial. O que está em jogo é algo mais profundo: o lugar institucional das guardas municipais no sistema de segurança pública brasileiro.


O STF fechou a porta do nome — mas não a da função

A decisão não pode ser compreendida isoladamente. Nos últimos anos, o próprio Supremo promoveu uma inflexão relevante na interpretação do papel das guardas municipais.

Em precedentes recentes, a Corte reconheceu que essas corporações integram o sistema de segurança pública do país, bem como exercem atividades de policiamento ostensivo e comunitário, não se limitando à proteção patrimonial. 

Essa evolução foi consolidada no julgamento do RE 608.588 (Tema 656 da repercussão geral) e dialoga diretamente com o Estatuto Geral das Guardas Municipais e com o Sistema Único de Segurança Pública.

O resultado é inequívoco: houve uma expansão funcional das Guardas Municipais.

Mas o STF, agora, estabeleceu um freio claro: essa expansão não autoriza a redefinição simbólica da instituição.

Em termos simples, a função pode evoluir, porém o nome não pode mudar


Identidade institucional não é detalhe semântico

Ao vedar a expressão “Polícia Municipal”, o Supremo adotou uma leitura estrutural do texto constitucional. A nomenclatura “Guarda Municipal” não foi tratada como um detalhe técnico, mas como um elemento essencial da arquitetura do art. 144 da nossa Constituição.

Essa interpretação dialoga com uma preocupação legítima: evitar a fragmentação institucional do sistema de segurança pública.

Se cada município pudesse redefinir suas estruturas por meio de simples alteração legislativa, haveria risco de multiplicação de modelos incompatíveis, sobreposição de competências e confusão quanto aos limites de atuação de cada força.

A vedação, nesse sentido, funciona como um mecanismo de estabilização do sistema federativo.


O Estatuto das Guardas já apontava esse caminho

A Lei nº 13.022/2014, frequentemente citada no debate, já desenhava um modelo institucional próprio para as guardas municipais.

O Estatuto define princípios de atuação baseados em direitos humanos e na prevenção, além de admitir variações de nomenclatura dentro do gênero “guarda”, porém não autoriza a equiparação com as polícias previstas no art. 144 da Carta Magna.

Em outras palavras, o legislador federal infraconstitucional construiu deliberadamente uma identidade institucional: uma força civil de segurança urbana, com atuação própria e limites definidos.

Desse modo, o STF, ao vedar a expressão “polícia”, apenas reforça essa moldura normativa estabelecida de maneira geral para todo o país pelo Congresso Nacional.


O verdadeiro debate começa agora

Encerrada a discussão nominal, o debate relevante se desloca para outro plano.

A pergunta não é mais “como chamar” essas instituições.

A pergunta passa a ser: como estruturá-las para que cumpram adequadamente seu papel na segurança urbana?

E aqui surge um ponto sensível.

O Brasil possui mais de 5.500 municípios. As guardas municipais já estão presentes em uma parcela significativa deles, com graus variados de estrutura, formação e controle.

Sem um desenho institucional consistente, a expansão dessas corporações pode gerar assimetrias operacionais relevantes, risco de uso desproporcional da força e conflitos com as polícias estaduais.

A decisão do STF, nesse contexto, pode ser lida também como um alerta.


Entre o risco e a oportunidade

Apesar dos desafios, há um potencial estratégico que não pode ser ignorado.

As guardas municipais podem representar um modelo menos militarizado de atuação, ter maior proximidade com a realidade local de cada cidade e desenvolver a capacidade de prevenção e mediação de conflitos.

Em um cenário de crescente complexidade urbana, esse tipo de atuação tende a ganhar relevância.

Contudo, tudo isso exige um salto qualitativo — e os municípios brasileiros ainda não estão plenamente preparados.

Nesse contexto, o debate sobre o armamento das guardas municipais também merece tratamento técnico e responsável. A legislação federal admite o porte de arma de fogo para seus integrantes, nos termos da Lei nº 10.826/2003, especialmente em municípios de maior porte, o que reforça a natureza operacional dessas corporações. No entanto, a ampliação desse instrumento exige contrapartidas institucionais rigorosas, sob pena de potencializar riscos inerentes ao uso da força em um cenário marcado por profundas assimetrias entre os municípios brasileiros.

Mais do que a autorização formal para o armamento, o ponto central reside na capacidade estatal de estabelecer protocolos claros, treinamento contínuo e mecanismos efetivos de controle. Sem essas garantias, o fortalecimento das guardas municipais pode gerar distorções relevantes, comprometendo não apenas a eficiência da atuação, mas também a proteção de direitos fundamentais — aspecto que tende a permanecer no radar do controle judicial e do acompanhamento institucional.


Uma agenda possível — e necessária

À luz da Constituição e da orientação recente do STF, uma agenda juridicamente sustentável passa por três frentes principais:


1. Fortalecimento funcional:

Aprimorar a atuação em segurança urbana, com foco em patrulhamento preventivo, presença territorial e integração com políticas públicas locais


2. Governança e controle:

Estabelecer mecanismos robustos de controle do uso da força, atuação das corregedorias e das ouvidorias, além do acompanhamento pelo Ministério Público, especialmente por meio de instrumentos de controle e tutela coletiva, conforme a relevância da matéria, sendo fundamental que haja uma transparência institucional.


3. Integração sistêmica:

Consolidar a atuação das guardas no âmbito do SUSP, evitando sobreposição de funções e garantindo coordenação com outras forças.


Conclusão: o nome não muda — mas o papel está em construção

A decisão do Supremo Tribunal Federal não encerra o debate sobre as guardas municipais. Ao contrário, inaugura uma nova fase.

Ao vedar a expressão “Polícia Municipal”, a Corte preserva a coerência do modelo constitucional. Mas, ao mesmo tempo, mantém aberto o espaço para a evolução funcional dessas instituições.

O desafio, agora, não é simbólico. É institucional.

E talvez seja justamente nesse ponto que resida a verdadeira oportunidade: construir, a partir das Guardas Municipais, um modelo de segurança urbana mais eficiente, mais próximo da realidade local e mais compatível com os direitos fundamentais — sem, para isso, ultrapassar os limites impostos pela Constituição.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Chegar à cobertura: o novo enfoque da segurança pública no Brasil



O debate sobre segurança pública voltou ao centro da agenda nacional em um momento particularmente sensível: a troca no comando do Ministério da Justiça, a tramitação da PEC da Segurança Pública no Congresso e uma série de operações recentes de grande impacto contra o crime organizado. Longe de serem fatos isolados, esses elementos se conectam e ajudam a compreender o momento atual.

Em matéria publicada pela Agência Brasil, o presidente Lula afirmou que a política de segurança pública vive um “bom momento”, destacando operações estruturais de combate ao crime organizado, como a Operação Carbono Oculto, a apreensão de navios com combustível contrabandeado e investigações financeiras de grande alcance. Mais do que a enumeração de ações, o discurso sinaliza uma mudança de enfoque: o combate ao crime não pode se limitar à violência nas periferias, mas precisa alcançar as estruturas econômicas e decisórias que sustentam organizações criminosas.

A Operação Carbono Oculto, por exemplo, ilustra bem essa lógica estrutural. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, a investigação resultou no bloqueio judicial de mais de R$ 1 bilhão em bens, além da identificação de um esquema que movimentou dezenas de bilhões de reais em fraudes no setor de combustíveis. Estimativas oficiais apontam movimentações superiores a R$ 50 bilhões em operações financeiras suspeitas, envolvendo importações fraudulentas, créditos tributários indevidos e estruturas paralelas de lavagem de dinheiro. Trata-se de um ataque direto ao coração econômico do crime organizado — algo historicamente raro no país.

Esse cenário dialoga diretamente com os pontos que abordei em Saída de Lewandowski: o interino e os desafios da Justiça, ao analisar a importância da continuidade administrativa em um ministério estratégico. A transição no comando não pode significar paralisia institucional. Em áreas sensíveis como segurança pública, a previsibilidade e a manutenção das políticas em curso são essenciais para que operações complexas e investigações de longo prazo não sofram descontinuidade.

A própria fala do presidente reforça essa lógica: não se trata de ações pontuais ou espetaculares, mas de um esforço coordenado e persistente do Estado brasileiro. Para que isso ocorra, o fator institucional é tão importante quanto o operacional. Grandes investigações financeiras, cooperação entre Polícia Federal, Receita Federal, Ministérios Públicos e órgãos estaduais dependem de estabilidade administrativa e comando técnico permanente.

Esse debate já havia sido antecipado no texto Saída de Lewandowski e os desafios da segurança pública, no qual destaquei que o ano de 2026 se apresenta como decisivo para a consolidação — ou não — de uma política de segurança pública mais integrada. A tramitação da PEC da Segurança Pública surge justamente como tentativa de transformar diretrizes em política de Estado, superando a fragmentação histórica entre União, estados e municípios.

Os dados nacionais ajudam a contextualizar esse debate. De acordo com o Mapa da Segurança Pública, do próprio Ministério da Justiça, o Brasil registrou queda de 6,3% nos homicídios dolosos em 2024, em relação ao ano anterior. Foram mais de 2.300 mortes a menos em um único ano. Trata-se de uma tendência que vem se mantendo desde 2020, com uma redução acumulada próxima de 16% nos homicídios letais intencionais no período.

Por certo, esses números não autorizam triunfalismos. O Brasil ainda convive com índices elevados de violência, e as realidades regionais são muito desiguais. Ainda assim, os dados reforçam a ideia de que políticas baseadas em integração, inteligência e coordenação federativa produzem resultados mais consistentes do que respostas puramente repressivas e desarticuladas.

O otimismo possível, portanto, não reside na ideia de que o problema da violência está resolvido — ele não está. Mas há sinais de amadurecimento institucional importantes. O foco crescente na inteligência financeira, na integração entre órgãos e na coordenação entre União, estados e municípios indica uma compreensão mais realista do fenômeno criminal no Brasil.

A PEC da Segurança Pública, ainda em debate no Congresso, não é uma solução mágica. Ela exigirá ajustes, fiscalização rigorosa e debate público qualificado. Contudo, representa uma tentativa concreta de dar estabilidade, continuidade e racionalidade a um sistema historicamente marcado por improvisos e respostas emergenciais.

Se há algo positivo neste momento, é a percepção de que segurança pública não se constrói apenas com retórica ou força bruta, mas com governança, instituições fortes e políticas que sobrevivam a trocas de governo e crises políticas. Transformar o discurso em política permanente é o verdadeiro desafio — e também a principal oportunidade.

O “bom momento” citado pelo presidente só se sustentará se vier acompanhado de crítica responsável, controle democrático e compromisso com resultados de longo prazo. Otimismo, aqui, não é ingenuidade: é a aposta cautelosa de que o país pode (e precisa) aprender com seus erros e avançar com mais maturidade na construção de uma segurança pública eficaz, republicana e duradoura.

Sucesso ao novo ministro!


📷: Ricardo Stuckert/PR

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Na mesa do bar



A mesa era de madeira, dessas de bar de esquina com cadeiras dobráveis. Quatro cadeiras. Garrafas suadas de cerveja. O barulho distante de motos subindo a rua misturava-se ao noticiário que vinha da televisão pendurada no alto do lado de dentro.


Mais um assalto ali na esquina de baixo, — disse Rogério, balançando a cabeça. — Não tem conversa. Bandido bom é bandido morto.


Dona Celeste, que morava no bairro desde antes do asfalto, suspirou: — Eu já ouvi isso a vida inteira… e a violência só piorou.


Marcos, motorista de aplicativo, entrou no embalo: — O problema é que o Brasil não tem jeito. Corrupção é cultural. Sempre foi assim. Troca governador, troca prefeito… nada muda.


Lucas, professor de História da rede pública, mexia no copo sem responder. Sabia que, se falasse errado, a conversa acabava ali.


— Posso tentar dizer uma coisa sem briga? — perguntou, com cuidado.


Rogério deu de ombros: — Fala aí, professor. Mas sem passar pano pra bandido.


Lucas assentiu. — Justo. Então… quando a gente diz “bandido bom é bandido morto”, eu entendo o sentimento. É medo, cansaço, revolta. Só que isso resolve o quê, na prática?


— Resolve que tira um vagabundo da rua! — rebateu Rogério.


— Às vezes tira — respondeu Lucas. — Mas e depois? Quem investiga quem manda? Quem lucra? Porque o número de mortos sobe, mas o tráfico continua. A pergunta não é moral. É prática.


Dona Celeste apoiou o cotovelo na mesa: — Meu sobrinho foi morto numa operação. Não era bandido. Até hoje ninguém investigou nada.


Rogério ficou em silêncio por um instante.


Marcos então puxou outro fio: — Mas isso tudo vem de fora, né? O Estado não fabrica droga nem arma. O problema é a fronteira. Sempre foi.


Lucas sorriu de leve, não de deboche. — Fronteira importa, sim. Mas deixa eu perguntar uma coisa: depois que a arma entra no país, quem guarda? Quem vende? Quem protege? Quem lava o dinheiro?


— Aí já é outra história… — murmurou Marcos.


— Pois é — disse Lucas. — O mantra ajuda a explicar uma parte, mas quando vira explicação única, a gente para de olhar pra dentro.


Rogério tomou um gole longo. — Tá, mas o Brasil é corrupto mesmo. Isso é da nossa cultura.


Lucas respirou fundo. — A corrupção existe, claro. Mas dizer que ela é “cultural” parece que absolve quem se beneficia dela hoje. Como se ninguém tivesse responsabilidade, como se fosse culpa do DNA do país.


Dona Celeste concordou: — Meu pai era estivador. Nunca roubou um prego.


— Exato — disse Lucas. — Tem corrupção institucional, estrutural, incentivada. Isso é diferente de dizer que “todo mundo é assim”.


A TV anunciou mais uma pesquisa eleitoral.


Marcos apontou para a tela: — Por isso que eu digo: o problema do Brasil é o político. Troca tudo e pronto.


Lucas não discordou de cara. — Político erra muito. Mas deixa eu te perguntar: quem elege? Quem pressiona? Quem fiscaliza? Se a política é o problema, abandonar ela resolve ou piora?


Silêncio de novo. Só o tilintar de copos.


Rogério tentou mudar o rumo: — No fim das contas, só educação salva isso aqui.


Lucas sorriu, agora com mais tristeza. — Educação é fundamental. Eu vivo disso. Mas se fosse solução mágica, professor não morria, escola não era alvo de tiro, aluno não chegava com fome. Educação funciona junto com segurança, renda, saúde, justiça.


Dona Celeste resumiu, olhando a rua escura: — Então a gente repete essas frases porque elas aliviam a cabeça. Mas não resolvem a vida.


Lucas assentiu. — Mantra dá sensação de controle. Pensar dá trabalho. E votar bem, mais ainda.


Rogério levantou-se. — Não concordo com tudo, não. Mas confesso… nunca tinha pensado desse jeito.


Lucas sorriu, aliviado. Não era vitória. Era abertura.


A moto passou de novo, acelerando.

A eleição vinha aí.

A violência continuava.

Mas, naquela mesa de madeira, pelo menos o debate não tinha virado guerra.


Depois das urnas, a mesma mesa...


A mesa era a mesma. O bar também. Só a televisão parecia falar mais alto.


— Governador eleito promete choque de ordem já nos primeiros cem dias — anunciou o jornal.


Rogério pediu para o garçom desligar a TV 


— Ganhou. Vamos ver se agora muda alguma coisa.


Marcos riu sem humor. — Promessa não falta. O problema é que depois dizem que a culpa é do sistema, do outro governo, da herança maldita…


Dona Celeste ajeitou a bolsa no colo: — Eu só queria voltar a sair de casa sem medo depois das seis.


Lucas chegou por último, puxando uma cadeira. — E aí, sobreviveram à eleição?


Rogério respondeu: — Sobreviver, sim. Acreditar… já não sei.


Marcos foi direto: — Agora quero ver você desmontar mantra, professor. Porque o discurso já começou: “agora vai”, “agora resolve”, “era só tirar os políticos errados”.


Lucas respirou fundo. — Posso tentar de novo, sem briga?


— Manda — disse Rogério.


— Repara como o discurso pós-eleição muda pouco. Antes era “bandido bom é bandido morto”. Agora virou “vamos endurecer”. Mas ninguém fala de investigação, de inteligência, de cadeia funcionando.


— Mas tem que endurecer mesmo — insistiu Rogério.


— Pode endurecer — respondeu Lucas. — A questão é: endurecer como? Se for só subir morro com fuzil e descer com estatística, a gente já sabe o final.


Dona Celeste concordou: — Toda eleição é assim. Depois dizem que educação resolve tudo e mandam esperar vinte anos.


Lucas apontou: — Esse é outro mantra. Educação é longo prazo, sim. Mas usar isso como desculpa para não agir agora é covardia política.


Marcos cruzou os braços: — Eu continuo achando que o problema é o político. Esse novo já está cercado dos mesmos de sempre.


Lucas não negou. — A política brasileira tem vícios reais. Mas quando a gente reduz tudo a “o problema é o político”, a gente desiste de exigir política melhor. Vira só xingamento.


Rogério coçou a barba. — Então você está dizendo que a gente erra até quando reclama?


— Não — respondeu Lucas. — Reclamar é legítimo. O problema é quando a reclamação vira slogan. Aí ela não constrói nada.


A TV voltou a falar sozinha: — Novo governador promete reforço nas fronteiras em parceria com o governo federal.


Marcos apontou para a tela: — Tá vendo? De novo isso. Fronteira.


Lucas sorriu de canto. — Fronteira ajuda. Mas se fosse solução total, o Rio já estaria em paz. O crime não atravessa o país sozinho. Ele cria raiz aqui.


Dona Celeste suspirou: — Parece que o discurso muda, mas o roteiro é o mesmo.


— Porque é mais fácil repetir o que já funcionou eleitoralmente — disse Lucas. — Mantra ganha voto. Política pública ganha inimigo.


Rogério ficou em silêncio por um tempo. Depois falou, mais baixo: — Sabe o que é pior? A gente acaba torcendo pra dar certo, mesmo desconfiando.


Lucas assentiu. — Isso não é ingenuidade. É sobrevivência.


Marcos levantou-se para pagar a conta. — Então o que sobra pra gente?


Lucas respondeu sem pose: — Cobrar sem slogan. Desconfiar sem desistir. Discordar sem virar inimigo.


Dona Celeste sorriu pela primeira vez naquela noite. — Se todo mundo conversasse assim, talvez mudasse alguma coisa.


A rua continuava barulhenta.


A violência não tinha ido embora.


O governo era novo.


Os problemas, antigos.


Mas naquela mesa, mais uma vez, ninguém saiu gritando.


E, no Rio, isso já era um começo.