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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

15 anos da tragédia de Nova Friburgo: memória, solidariedade e lições para o futuro



Quinze anos se passaram desde aquela madrugada de janeiro de 2011, quando a cidade de Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, foi atingida por uma tragédia climática sem precedentes. Mais de 900 vidas foram ceifadas, milhares de pessoas ficaram desabrigadas, e o cenário de destruição marcou profundamente a memória da cidade e de todos que vivenciaram os acontecimentos.

Eu estava lá, morando no último andar de um edifício na rua Farinha Filho. Não imaginava, ao acordar naquela madrugada, que o que se seguiria mudaria minha percepção da vida, da solidariedade, da ética e do compromisso social.

O presente texto revisita esses acontecimentos, integrando memória pessoal, testemunho histórico, reflexão ética e aprendizado civilizatório — transformando a dor em lição para o futuro.


1. O impacto do desastre: viver a tragédia

Na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, acordei com estrondos que pensei serem trovões. Pela manhã, ao abrir o basculante e observar os morros próximos, notei sinais de deslizamento. Na escada do condomínio, a quantidade de lama e detritos me deixaram perplexo: a praça Getúlio Vargas estava coberta por lama, equipes de resgate trabalhavam incessantemente, pessoas choravam, e eu percebi que não seria possível realizar minhas atividades naquele dia.

O choque inicial misturava medo, incredulidade e impotência. Ao mesmo tempo, surgia uma necessidade urgente de solidariedade: o socorro às vítimas, doações e apoio imediato. Naquele momento, ficou clara a dimensão humana da tragédia: não apenas a força da natureza, mas a vulnerabilidade social e a fragilidade das políticas públicas.


2. Solidariedade e mobilização

Poucos dias após o desastre, após a energia elétrica restabelecida, publiquei textos incentivando a solidariedade, mobilização comunitária e doações para as vítimas de Nova Friburgo e região serrana, como neste SOS Nova Friburgo.

Entre os itens mais necessários estavam alimentos não perecíveis, produtos de higiene, material de limpeza e utensílios para embalar doações. Diversas igrejas e organizações voluntárias ajudaram na distribuição de recursos, revelando que, mesmo diante da tragédia, a humanidade podia brilhar em gestos de amor e compaixão.

Este período mostrou que a solidariedade não é apenas um ato de generosidade, mas também uma responsabilidade social e ética diante de crises humanas.


3. Reflexão ética: a Regra de Ouro em meio ao caos

Em outro texto escrito logo após a tragédia, explorei o conceito da Regra de Ouro, ensinada por Hillel, Confúcio e reinterpretada por Jesus:


Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas.” (Mateus 7.12)


Essa reflexão mostrou que a ética não é apenas uma escolha pessoal, mas fundamento para a convivência social e preservação da vida. A tragédia de Nova Friburgo expôs a necessidade de agir com responsabilidade, não apenas para salvar vidas imediatamente, mas também para prevenir futuras catástrofes, respeitando o meio ambiente e promovendo justiça social.

Como escreveu Leonardo Boff:


Bom é tudo aquilo que aproxima as pessoas ou que corresponde de forma benéfica às realidades circunstantes; bom é tudo o que cuida e expande a vida em todas as formas; mau é tudo o que ameaça, diminui e destrói a vida.


Essa reflexão ética permanece central: a dor das vítimas de 2011 nos obriga a questionar políticas públicas, práticas urbanas e atitudes individuais, para que tragédias como essa não se repitam.


4. Fé e responsabilidade pública

No mesmo período, também escrevi sobre a atuação da Igreja diante da tragédia, destacando a necessidade de uma fé que se manifesta em ação, como neste artigo de maio de 2011.


Não basta crer; é necessário protestar, agir, confrontar injustiças e apoiar os mais vulneráveis — mesmo quando isso custa conforto, reputação ou poder.


A reflexão se estende para a responsabilidade de todas as instituições e cidadãos: a tragédia não é apenas natural, mas social e política. A fé, assim como a memória histórica, serve para despertar a consciência ética, promover solidariedade e exigir justiça.


5. Dez anos depois: memória e aprendizado

Em janeiro de 2021, ao revisitar os acontecimentos, escrevi:


A maior tragédia que já vi marcou a minha vida e a de toda a Região Serrana. A cidade nunca mais foi a mesma, e a memória daqueles dias permanece viva em cada gesto de solidariedade e cada lacuna deixada pela negligência.” (link)


O olhar retrospectivo permitiu perceber padrões estruturais, como ocupação irregular em áreas de risco, ausência de políticas habitacionais eficazes e fragilidade na gestão de crises. Mais do que registrar fatos, o exercício de memória mostrou a importância de aprender com o passado para proteger vidas futuras.


6. Memória ativa: lições para o presente e futuro

Ao olhar para o presente, 15 anos depois, recordo também os desastres recentes, como a tragédia de Petrópolis em 2022, que mostrou que a Região Serrana continua vulnerável.

A memória ativa exige:


  • Solidariedade contínua: apoio às vítimas e mobilização comunitária.
  • Atenção ética: compreender a dimensão humana das tragédias.
  • Responsabilidade social e política: planejamento urbano adequado, políticas públicas eficazes, prevenção e mitigação de riscos.
  • Consciência ambiental: mudanças climáticas e impactos humanos sobre ecossistemas aumentam a frequência e intensidade de desastres.


Além disso, existem instrumentos legais como a Lei Estadual 7.345/2016, que prevê a regularização e prevenção em áreas de risco. Porém, tragédias recentes mostram que a existência da lei não é suficiente sem fiscalização, planejamento urbano e compromisso político contínuo.

Memória não é apenas lembrança; é aprendizado. É a voz das vítimas que nos convoca a agir com justiça, ética e humanidade.


Conclusão

Quinze anos depois da tragédia de Nova Friburgo, percebemos que a experiência pessoal, a solidariedade e a reflexão ética são essenciais não apenas para recordar, mas para transformar.

As lições de 2011 permanecem atuais: cada desastre climático é também uma oportunidade para testar nossa humanidade, ética e responsabilidade coletiva. O desafio permanece: construir cidades mais seguras, promover políticas públicas eficientes e cultivar uma cultura de cuidado mútuo — para que vidas sejam preservadas, dignidade seja respeitada e a memória se transforme em ação concreta.


📝Nota sobre a Lei Estadual 7.345/2016

É relevante lembrar que, em meio aos debates sobre ocupações em áreas de risco e prevenção de desastres na Região Serrana, o Estado do Rio de Janeiro promulgou a Lei Estadual nº 7.345, de 2016, que trata da regularização de áreas urbanas em encostas e regiões de risco.

A lei estabelece critérios para:

- Identificação e mapeamento de áreas de risco.

- Proibição de construções em locais inapropriados.

- Programas de reassentamento de famílias em áreas seguras.

- Responsabilidade do poder público na fiscalização e prevenção de desastres.

Embora a lei represente um avanço na proteção da vida e na prevenção de tragédias, sua efetividade depende da implementação rigorosa, fiscalização contínua e conscientização das comunidades. As tragédias de 2011 e 2022 evidenciam que leis existem, mas o cumprimento e a fiscalização ainda são cruciais para que vidas sejam preservadas.


Sugestão de links no blog

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Sob a sombra do Jequitibá: memórias do Macacu



O jequitibá já se erguia com majestade, suas raízes enredadas na terra fértil e seu tronco grosso carregando séculos de chuva e sol. Embora jovem para os padrões do mundo que viria, a árvore já dominava o vale, sua copa enorme lançando sombras frescas sobre o solo onde pequenos animais se escondiam. Ali, sob sua proteção, os povos da região vinham honrar os espíritos da floresta, colher frutos e aprender com os sinais da natureza.

Foi sob essa sombra que Araúna, guerreiro da tribo Guapixana, descansava após a caçada, observando o voo das araras sobre os rios. Seus passos eram firmes, mas respeitosos com a terra, pois desde criança aprendera que a vida se sustentava na harmonia com o mundo vegetal e animal.

Nesse mesmo dia, Itaní, da tribo Tamoio, aproximava-se do jequitibá, recolhendo frutos e ervas medicinais. Seus olhos negros refletiam a luz dourada do sol filtrada pelas folhas, e em seu coração batia uma inquietação. Ao tocar a casca da árvore, sentiu um pressentimento profundo — um futuro desconhecido, onde outros passos além dos humanos, de pele diferente da sua, viriam modificar o mundo que conhecia. Mas naquele instante, o vento apenas sussurrava segredos do presente.

Os olhos de Araúna encontraram os de Itaní. Um silêncio se fez, carregado de curiosidade e respeito. A menina da tribo Tamoio e o jovem Guapixana partilhavam, sem palavras, a linguagem que só a natureza compreende: o murmúrio do vento, o canto do sabiá, o farfalhar das folhas do jequitibá. Com o tempo, ali sob a árvore, começaram a se encontrar, trocando histórias de caçadas, rituais, danças e cantos. Aprenderam sobre os mitos de cada povo: a Guapixana reverenciava o jequitibá como um “guardião da memória dos ancestrais”, enquanto os Tamoio acreditavam que sob sua sombra os sonhos se transformavam em ensinamentos para as gerações futuras.

O namoro cresceu com a estação das chuvas e a seca, com a mesma constância das marés do rio. Cada encontro reforçava o respeito pela terra, o cuidado com as plantas e o equilíbrio com os animais. Itaní ensinava Araúna a reconhecer plantas medicinais e ervas de proteção; Araúna mostrava a força e a paciência da caça, sempre com reverência à vida que ceifava.

Chegou o dia em que, com o consentimento das duas tribos, Araúna passou a pertencer ao povo de Itaní. A união não era apenas de corpos, mas de culturas, línguas, crenças e histórias. Realizaram a cerimônia sob o jequitibá, oferendo frutos e flores ao espírito da árvore, pedindo que guardasse suas vidas e as vidas que viriam. A copa alta parecia abraçá-los, testemunhando aquele momento sagrado.

Ao longo dos anos, mais de cem ciclos solares, o casal assistiu ao nascimento de muitas gerações, cada uma aprendendo a respeitar o mundo natural como eles haviam aprendido. O jequitibá permaneceu firme, testemunha silenciosa das alegrias, tristezas e festas. Sob sua sombra, crianças brincavam, aprendiam as canções dos pássaros e os segredos das ervas. Itaní às vezes sentia o pressentimento do futuro: viajantes de pele clara que chegariam e mudariam o curso da floresta e das aldeias. Mas também percebia que a árvore guardaria a memória de seu povo, mesmo diante da mudança.

O casal ensinou aos descendentes que o jequitibá não era apenas árvore, mas ancestral vivo, guardião da memória da terra, das águas e do ar. E enquanto a terra respirava, enquanto os rios corriam, e enquanto os ventos carregavam sementes e canções, Araúna e Itaní souberam que sua história se entrelaçava para sempre com a do Patriarca que os abrigava.


Os Descendentes: História Continua


Araúna e Itaní já haviam partido há muito tempo, mas sob a copa do jequitibá, seus descendentes continuavam a trilhar os caminhos da floresta, aprendendo com os rios, os ventos e os espíritos das árvores. Os tamoios, agora espalhados por vales e serras, guardavam a memória dos ancestrais e a reverência pela natureza que seus antepassados haviam ensinado.

No século XVI, a chegada dos portugueses à Baía de Guanabara trouxe conflitos, que os cronistas chamariam depois de “Guerra dos Tamoios”. Os descendentes de Araúna e Itaní sentiram o peso da guerra e da doença, mas muitos escaparam para os sertões do Macacu, mantendo viva a cultura indígena. Ali, o jequitibá continuava a crescer, já uma árvore impressionante, testemunha de vidas, encontros e despedidas, guardando sob sua sombra histórias que o colonizador jamais compreenderia.

Com o tempo, a região ao redor do jequitibá começou a se transformar. As trilhas indígenas foram sendo vigiadas pela Coroa portuguesa, que mantinha o controle rigoroso de ingresso de pessoas, para combater contrabandistas que vinham das minas de ouro e de outros pontos do litoral. Boatos sobre um "bandido" apelidado de Mão de Luva corriam pelas serras, assustando viajantes e moradores, mas o vale do Macacu ainda oferecia refúgio a quem conhecia suas curvas e riachos.

No século XVIII, um jovem mestiço de nome Manoel, filho de pai negro e mãe indígena, escravizado em uma fazenda jesuítica de Santo Antônio de Sá, conseguiu escapar. Com passos cautelosos, ele se embrenhou pelos sertões do Macacu, carregando consigo as palavras e cantos que sua mãe lhe ensinara em língua indígena. Entre vales e riachos, chegou ao jequitibá, onde encontrou Potira, uma jovem indígena oriunda de uma tribo situada na atual Nova Friburgo. O encontro foi silencioso, carregado de curiosidade e reconhecimento mútuo entre as almas, como se a própria árvore os chamasse para se aproximar.

Ali, sob a sombra do Patriarca, o jovem mestiço e a indígena iniciaram um vínculo que cresceria com o tempo. Ele aprendeu os caminhos da mata, a língua do povo dela e os segredos das ervas medicinais. Ela, por sua vez, compartilhava o conhecimento dos ciclos da floresta, das estrelas e dos rios. Eventualmente, com o consentimento do povo de Potira, Manoel passou a integrar sua tribo, e a união foi celebrada com ofertas ao jequitibá, que guardava, como sempre, a memória dos ancestrais.

Ao longo de décadas, o casal assistiu à transformação do entorno. As florestas, no começo, ainda eram densas, mas as clareiras começaram a surgir no século XIX com a lavoura do café, que se expandia gradualmente para os vales férteis.

Pequenos sítios e fazendas como a Morro Queimado surgiram, mas, apesar disso, o casal conseguia viver em relativa paz, caçando, cultivando e celebrando os ciclos da natureza.

Quando já eram idosos, viram naturalistas estrangeiros, curiosos com a riqueza da Mata Atlântica, passando pelas serras, os quais admiravam a biodiversidade que florescia sob a guarda do Patriarca, sem imaginar que o jequitibá já tinha testemunhado séculos de histórias humanas.

Todavia, mudanças avançavam inexoráveis: a chegada dos colonos suíços e alemães trouxe novos assentamentos, estradas e plantações, fragmentando a floresta e alterando o curso de rios e trilhas. O café tornou-se cada vez mais dominante, e a pressão sobre as terras indígenas aumentou. Os descendentes do casal presenciaram a destruição gradual de grandes trechos de Mata Atlântica, a diminuição dos animais, e a morte de muitos membros de suas comunidades pelo contato forçado com os brancos, doenças e violência.

Manoel e Potira envelheceram sob o jequitibá, vendo as gerações se sucedendo e sobrevivendo, apesar da alta taxa de mortalidade, testemunhando também a devastação da terra que sempre fora sagrada. Ainda assim, eles permaneciam fiéis aos ensinamentos dos antepassados, cultivando respeito pelos espíritos da floresta, contando histórias às crianças e mantendo vivas as canções que ensinavam a ler os sinais da natureza.

Mesmo diante da chegada de novos povos, da transformação das florestas e da expansão das plantações, o jequitibá resistia, continuando a ser a testemunha silenciosa de séculos, carregando na casca e nas raízes a memória de indígenas, mestiços, negros e todos aqueles que sob sua sombra aprenderam a respeitar a terra e a vida.


Séculos de Memória




Com o passar dos anos, os descendentes de Potira e do jovem mestiço foram diminuindo em número e já não viviam em tribos. Muitos foram assassinados por fazendeiros ou colonos, enquanto outros tornaram-se escravizados de forma ilegal ou fugiam indo cada vez mais para o interior, e pouco a pouco a presença indígena tornou-se quase imperceptível nos vales e nas serras do Macacu. Ainda assim, a memória da terra, a reverência pelo jequitibá e os cantos antigos sobreviviam em alguns poucos, transmitidos de avós a netos.

No século XIX, com a influência do Barão de Nova Friburgo, a ferrovia chegou a Cantagalo, passando por Nova Friburgo e passando não muito distante do jequitibá. Menos de duas décadas depois, a Abolição da Escravatura mudaria novamente a paisagem social da região. Nova Friburgo cresceu, tornando-se uma cidade industrial e também turística, enquanto Cachoeiras de Macacu, após o fim do ciclo do café na década de 1930, mudava suas culturas agrícolas, com áreas de pasto, bananas e hortaliças.

A mata, aos poucos, começou a se regenerar espontaneamente, beneficiada pelas chuvas abundantes, mas os habitantes indígenas originais não mais estavam presentes. As onças grandes tornaram-se raras e algumas espécies desapareceram. A ferrovia precisou de cortes de árvores para fornecer combustível às locomotivas, mas com a construção da estrada de ferro moderna, a antiga linha foi desativada. 

Expansões urbanas deram origem a bairros e pequenas propriedades de veraneio. Apenas trechos da mata foram preservados nas áreas mais altas e por sorte as margens da rodovia mantiveram-se com poucas ocupações, em especial por causa de uma captação da CEDAE , garantindo água limpa e sombra para o trecho do vale.

No início do século XXI, mais precisamente em meados de 2002, durante a curta gestão de uma mulher negra que governou o Rio de Janeiro, foi criado o Parque Estadual dos Três Picos. A unidade de conservação passou a proteger fragmentos importantes da Mata Atlântica e, consequentemente o jequitibá.

Dez anos depois, em 2012, durante os dias da conferência Rio+10, um jovem chamado Roberto, morador de Nova Friburgo, descendente de uma das últimas indígenas da região — bisneto, portanto, de uma das últimas descendentes do casal ancestral — decidiu descer a serra com amigos para uma expedição na floresta.

O passeio era uma celebração da vida. Roberto havia sobrevivido à terrível enchente de janeiro de 2011, sendo resgatado pelos bombeiros apenas três dias depois. Agora recuperado, podia caminhar novamente, sentindo o cheiro da terra molhada e ouvindo o canto dos pássaros nas trilhas que seguiam o leito da antiga ferrovia.

Chegando em Boca do Mato, seus amigos decidiram pegar um ônibus de volta pela RJ-116, pois a noite se aproximava e o frio aumentava. Roberto, porém, continuou sozinho pelo caminho do antigo trem, determinado a encontrar o jequitibá que tantas histórias guardava.

Quando se aproximou da árvore, sentiu algo inesperado: uma presença antiga e familiar, mesmo que estranha. Sob a sombra imensa, encontrou uma jovem indígena do Acre, participante de alguns dos eventos da Rio+10. 

Seu nome era Yaraê, da tribo Kaxinawá, conhecida por sua ligação profunda com a floresta e os rios. Havia algo nos olhos dela, na maneira como tocava a casca da árvore, que o fez sentir que já se conheciam há séculos.

O encontro foi inevitável. Sem palavras, mas com uma compreensão profunda que transcendia o tempo, eles se aproximaram e se beijaram, sentindo correr o sangue indígena que ambos carregavam, mesmo que Roberto pouco soubesse sobre seus ancestrais já que conviveu tão pouco tempo com sua bisavó que, por sua vez, não nasceram numa tribo. 

Com promessas silenciosas, os dois combinaram de se reencontrar no Rio de Janeiro, durante a conferência, e mais tarde, em janeiro de 2013, numa viagem que Roberto faria até o Acre, onde começaria uma nova vida ao lado de Yaraê com quem se casou. 

O casal passou a trabalhar no projeto ambiental de uma ONG em Cruzeiro do Sul. Somente depois do fim da pandemia por COVID-19 é que voltaram a Nova Friburgo trazendo consigo os filhos para que eles conhecessem os avós paternos. No trajeto, fizeram questão de parar o carro no caminho a fim de mostrar às três crianças a grande árvore onde os pais se viram e se beijaram pela primeira vez.

O jequitibá, patriarca da serra e guardião das memórias do Macacu, permanece lá até os dias de hoje. Sempre imponente, como uma testemunha silenciosa de séculos de encontros, despedidas, amor, perdas e renascimentos.

sexta-feira, 11 de março de 2022

Quadros censurados... Que retrocesso é esse que estamos vivendo no Brasil?!

 


Na tarde desta sexta-feira, deparei-me com uma notícia na internet que considerei um verdadeiro absurdo. Um amigo meu havia compartilhado a seguinte postagem, feita originalmente na data de 09/03/2022, no sítio de relacionamentos Facebook, com o seguinte teor:


"Quadros da artista Elis Pinto censurados ontem na exposição promovida pela prefeitura de Nova Friburgo em homenagem ao dia das mulheres. Inaceitável!" - https://www.facebook.com/liaccaldas/posts/5380674121942610  


Morei na formosa cidade de Nova Friburgo de 1999 até 2011, saindo de lá justamente no ano em que houve aquela tragédia climática com centenas de mortos e desaparecidos, pior do que a enchente deste ano em Petrópolis. Depois, fiquei uns meses no Rio e então fixei minha residência em Mangaratiba, mais precisamente em Muriqui, uma localidade praiana. Durante esse tempo, vários prefeitos se sucederam pela belíssima localidade serrana e, à distância, apenas fui acompanhando a política de lá, às vezes interagindo com alguns amigos atuantes em relação às eleições municipais, e, geralmente, trocando ideias com alguns deles que pretendiam vir como candidatos ou apoiar alguém. 


Pois bem. No mandato passado, fiquei sabendo que o prefeito que estava no cargo ia mal nos seus trabalhos, com poucas chances de reeleição. E, no pleito de 2020, a disputa pela cadeira número um da cidade pulverizou com mais de 15 chapas tal como foi também por aqui num dos municípios da Costa Verde, mais precisamente em Itaguaí. 


Esperava que, dessa vez, ganharia alguém de esquerda em Nova Friburgo, porém quem venceu um jovem conservador do partido do Crivella, o qual mal me recordo de haver conhecido quando ainda morava lá (devemos ter uma diferença de uns 10 anos de idade). Ao assumir o cargo, desejei que ele tivesse sucesso e me admirei positivamente quando soube pela internet que o mesmo estava dando um choque de gestão, limpando ruas e atendendo com celeridade às reivindicações dos moradores logo nos primeiros dias em seu cargo. 


No entanto, agora me deparo com essa triste notícia de haver a Prefeitura de Nova Friburgo censurado uma exposição artística e, sinceramente, fiquei perplexo. Pois mesmo sem conhecer suficientemente o atual prefeito de lá, considerei um absurdo o mesmo ter esse tipo de posicionamento moralista. Isto porque é algo que não cabe mais nos dias de hoje e acho que, nem na minha época de criança, já no fim do regime militar, a censura da época da abertura democrática não proibia mais a manifestação artística como tinha sido nos tenebrosos tempos do AI-5. 


Lamento que gestores da atualidade, eleitos pela população que um dia depositou neles sua confiança, estejam perdendo tempo em reprimir a cultura quando, na verdade, deveriam estar mais focados nos cuidados com a saúde, a educação, o meio ambiente, o trânsito, os transportes, o desenvolvimento econômico local, a assistência aos mais pobres e o urbanismo. 


Assim sendo, sem querer tomar parte na política de uma cidade onde não tenho mais o vínculo de residência, desejo que o seu jovem alcaide não se afaste do bom senso e repense sua conduta. Do contrário, como tem acontecido com a maioria dos políticos de hoje, corre-se o risco de vir a ser esquecido pelo desempenho de um mandato sem realizações que de fato interessam à coletividade. 


Ótimo final de semana a todos!


OBS: Foto e citação de Lia Caldas em https://www.facebook.com/liaccaldas/posts/5380674121942610

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

A maior tragédia que já vi



Assim se passaram dez anos depois que tivemos a maior tragédia climática da nossa história. 


Estava lá no dia! Aliás, na madrugada de 11 para 12 de janeiro de 2011, eu ainda era um morador da cidade serrana de Nova Friburgo, município onde me formei em Direito, casei com Núbia e trabalhava. 


Recordo que, durante a longa tempestade, por várias vezes ouvia os estrondos imaginando que fossem apenas trovões... 


Num determinado momento, levantei da cama para ir ao banheiro e percebi que a luz acabou. Tentei novamente dormir, mas apenas a coberta de lençol não esquentava o corpo. E, estando ainda acordado , lembrei de comer o resto da gelatina que havia feito antes que o doce derretesse. Peguei uma manta e outra vez retornei para a cama tentando pegar no sono com os pés gelados. 


Pela manhã, escutei o barulho de um helicóptero sobrevoando a cidade e imaginei que algo de ruim pudesse ter acontecido. Afinal, a região costuma passar por enchentes e deslizamentos de terra devido à ocupação irregular das áreas de risco. Porém, ao abrir o basculante do corredor, fiquei perplexo diante da paisagem que havia se modificado em minha volta com inúmeros desabamentos dos morros que circundam o Centro. 


Naquela quarta-feira, eu iria acompanhar a perícia judicial do local onde ficava a casa de um cliente que havia sido destruída nas chuvas de 2007, no bairro Vale dos Pinheiros. Porém, quando me arrumei e fui pra rua, vi que seria impossível desenvolver qualquer trabalho habitual naquele dia. Encontrei pessoas chorando, muita lama (até na saída do meu edifício) e várias equipes de salvamento fazendo buscas nos escombros das residências atingidas ali mesmo pelo Centro. 


Ainda tentei ligar para o cliente e para o perito, tendo em vista o senso do dever que tanto me massacra, mas os telefones não funcionavam. Então, sem nada poder fazer, retornei para casa e, aos poucos, tomei conhecimento da dimensão da coisa. 


Bairros inteiros tinham deixado de existir num verdadeiro "apocalipse" que nos chegou como o ladrão sem avisar. Pessoas que eu conhecia, fui saber dias após que tinham sido mortas. Afinal, foram centenas de vidas que se perderam numa só noite, alem de milhares de famílias que ficaram desalojadas/desabrigadas precisando agora viver em escolas. 


Por umas poucas semanas, Nova Friburgo viveu momentos de solidariedade com doações chegando do país inteiro e voluntários se apresentando para distribuir o alimento. Por outro lado, outros tentaram lucrar com a tragédia vendendo um galão de água mineral a 40 reais. Mas pior de tudo fizeram os políticos sendo que, meses depois, o então prefeito em exercício foi afastado do seu cargo por una decisão do Tribunal de Justiça e quem assumiu foi o vereador que presidia a Câmara Municipal. 


Nossa luz somente foi restabelecida dias depois da tragédia e o abastecimento de água pouco mais de uma semana. Por sua vez, toda aquela lama insalubre também demorou a ser removida das vias públicas e foram feitos muitos contratos sem licitação de valores elevados. 


Até mesmo as doações não estavam chegando às famílias que precisavam e recordo quando os irmãos da igreja trouxeram uma caminhonete cheia de donativos de Bento Ribeiro e foram praticamente obrigados a descarregar no prédio da antiga fábrica de Ypu. Ou seja, os políticos chegaram a tentar monopolizar o assistencialismo das doações e já tinha até comerciante reclamando que consumidores não estariam comprando nos seus estabelecimento. 


Enfim, pode-se dizer que aquilo não foi só uma tragédia climática e sim humana, social e política. Aliás, as três maiores cidades da região serrana fluminense jamais deveriam abrigar uma população tão grande assim e as autoridades menos ainda permitir loteamentos e construções nos ambientes perigosos. 


Pouco mais de onze meses, acabei me mudando e vim para o Rio de Janeiro tendo depois prosseguido a depois para Mangaratiba, onde ocupei a casa de veraneio que fora construída por meus familiares do lado paterno nos anos 60 em Muriqui. Sem nada a ver com a enchente, vim a perder minha avó paterna em setembro de 2011 e a materna no mês de março de 2012. 


Mantive uns poucos processos no Fórum da Comarca de lá sendo que três ações estão até hoje tramitando graças à rapidez de jabuti da Justiça brasileira. E a última vez que retornei a Friburgo foi em 2015 para cumprir uma exigência do INSS quanto ao benefício da esposa já que ainda não tínhamos transferido a agência dela para Itaguaí. 


Todavia, as lições das chuvas me mostraram o quanto nós brasileiros brincamos com a vida (com a nossa própria vida), por agirmos sem consciência diante de problemas que são previsíveis. E, antes que houvesse a pandemia da COVID, eu já tinha experimentado as limitações da nossa relativa solidariedade que, apesar do descontrole emocional manifesto diante das situações de dor, não chegamos nem à metade da medida de amor dos povos mais conscientes dos perigos, os quais reputamos erroneamente por sociedades de temperamento "frio". 


Em todo caso, posso dizer que sempre colhemos bons exemplos de atitudes nobres em qualquer canto do mundo e até hoje me recordo das pessoas de alma elevada que, naqueles dias tenebrosos, deixaram a luz do interior brilhar.


OBS: Créditos autorais da imagem atribuídos a Marino Azevedo/ Governo do estado RJ

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

A necessidade de união das forças progressistas na política




Embora eu esteja em campanha em Mangaratiba, vou falar um pouco do panorama geral político aqui no RJ, incluindo o que tenho visto em outros municípios no que diz respeito às eleições de 2020.


Uma das coisas que venho observando  tanto aqui quanto em várias cidades do estado é a falta da união das forças progressistas capazes de contribuir com avanços nos aspectos políticos, sociais, culturais, ambientais e/ou até mesmo econômicos, se olharmos de uma ótica distinta da maioria dos grandes empresários. E, para não ficar restrito ao antigo e ultrapassado binômio esquerda-direita, prefiro fazer menção ao termo progresso que, por sinal, encontra-se estampado na bandeira do nosso país juntamente com o vocábulo "ordem".


Como sabemos, Marcelo Freixo desistiu de disputar a eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro alegando haver falta de unidade na esquerda. Na ocasião, o deputado federal do PSOL disse que a estratégia para vencer o presidente Jair Bolsonaro em 2022 passaria pelas eleições deste ano, reconhecendo o erro cometido pela oposição em 2018:

 

"Bolsonaro não venceu as eleições apenas pelos seus acertos, mas também pelos nossos erros. De todos nós. Não tem como separar 2022 de 2020. Que a gente não saia derrotado de 2020 e tenha sabedoria no primeiro e segundo turnos"


Já não sei até que ponto os resultados em 2020 influenciarão em 2022, considerando que, no pleito de 2016, o PSDB foi o partido que mais conquistou prefeituras no Brasil e o tucano Geraldo Alckmin terminou com apenas 4,76% dos votos em todo o país, tendo, praticamente, um terço da votação do terceiro colocado, Ciro Gomes. Já em 2000, dois anos antes da primeira vitória de Lula (2002), o PT e partidos de esquerda foram vitoriosos na maioria das capitais brasileira, reconquistando, inclusive, a administração paulistana, através da candidata Martha Suplicy.


Todavia, independente de se concordar ou não por completo com raciocínio do citado parlamentar, fato é que, pelo menos no âmbito no RJ, na maioria dos municípios fluminenses, as forças progressistas do país encontram-se desunidas e poderiam estar compondo alianças pelo menos visando uma melhora na gestão de cada município. Inclusive sem se importarem tanto com o que enfrentarão daqui uns dois anos, no pleito geral.


Na capital fluminense, uma pesquisa do Datafolha, divulgada na semana passada (deve estar vindo uma nova por esses dias), apontou, com base num levantamento feito nos dias 05 e 06 deste mês, Eduardo Paes com 30%, Marcelo Crivella com 14%, Martha Rocha com 10% e Benedita da Silva com 8%. Estas duas estão quase que empatadas tecnicamente. Já a quantidade de brancos e nulos pontuou em 22% entre os cariocas entrevistados, sendo que 3% não souberam se posicionar (ou não quiseram responder), não tendo nenhum dos outros dez concorrentes chegado a 4%. Três deles tiveram menos de 1% das intenções de voto!


Ora, por que toda a esquerda da cidade do Rio não apoia Martha Rocha que é deputada estadual pelo PDT e ex-delegada de polícia?! Ou, por que o PSOL não compôs uma aliança com o PDT lançando ela e Freixo numa mesma chapa?! Pois isso, certamente, ampliaria as chances de competir com a máquina e com a prejudicial influência religiosa, viabilizando uma colocação da dita esquerda no segundo turno. Porém, além do PT ter lançado a Benedita, que não é um nome novo na política, o próprio PSOL apresentou a candidatura da deputada estadual Renata Souza (com 3% das intenções de votos) e a REDE fez o mesmo com Bandeira de Mello, cuja pontuação se equipara à da parlamentar psolista.


Na maioria dos municípios do interior do RJ, os quais pouco influenciam a corrida presidencial, também tenho visto situações semelhantes, sendo que as regras eleitorais nem ao menos permitem um segundo turno em mais de 80 desses colégios eleitorais por terem menos de 200 mil votantes. Em Nova Friburgo, onde morei de 1999 até 2011, além do atual prefeito Renato Bravo (PP), que tenta a reeleição, há outras 15 candidaturas disputando a cadeira número 1 da cidade. Dessas, pelo menos três ou quatro poderiam estar unida, apenas por identidade ideológica, em torno do ex-vereador Cláudio Damião e, talvez, umas oito ou nove teriam motivos para compor com ele levando em conta um interesse comum de governar o município. Só que a oposição preferiu se fragmentar.


Por sua vez, Itaguaí, cidade vizinha a Mangaratiba, com menos eleitores que a serrana Nova Friburgo, tem quase o mesmo número de candidatos a prefeito, sendo ao todo 15, incluindo o governante interino Rubem Vieira de Souza, o "Dr. Rubão". Este ocupa a cadeira de prefeito desde o impeachment de Charlinho e de seu vice Aberladinho.


Já aqui em Mangaratiba, foram sete os pedidos de candidatura para as eleições majoritárias, além de haver 229 cidadãos que disponibilizaram seus nomes para concorrer às 13 cadeiras na Câmara Municipal. Porém, para uma cidade com menos de 40 mil eleitores, é muita gente se lançando numa aventura política, sendo que nem todas as nominatas foram satisfatoriamente preenchidas com candidatos a vereador. Numa delas, por exemplo, há somente três homens e uma mulher, de modo que considero praticamente impossível os quatro concorrentes atingirem as chamadas "vagas de sobra" que foi uma inovação nas eleições brasileiras, graças à reforma de 2017 que alterou o § 2º do art. 109 da Lei Federal n.º 4.737/1965 (Código Eleitoral).


É certo que essa nova regra veio favorecer partidos com menor expressão ou com candidaturas alternativas no que diz respeito às eleições proporcionais para vereador, caso não alcancem o quociente eleitoral.


Vale destacar que, na eleição proporcional brasileira, é o partido que recebe as vagas, e não o candidato. Isso significa que, nesse tipo de pleito, o eleitor, ao votar no dia 15 de novembro, estará escolhendo ser representado por determinada legenda e, preferencialmente, pelo candidato por ele definido, mas que poderá entrar ou não. Ou seja, o voto para vereador indicará quantas vagas determinado partido vai ter direito, cabendo ressaltar que, mesmo se um candidato tiver votação expressiva, vindo a ser o mais votado na cidade, ele poderá não ser eleito, se o partido não conquistar a vaga.


Ressalte-se que é somente a partir daí que os candidatos mais votados poderão preencher as cadeiras recebidas pelos partidos, conforme a sua colocação. Isto é, o candidato que obtiver o maior número de votos dentro de determinado partido ficará em primeiro lugar na lista. É o que chamamos de "lista aberta".


Para não me alongar muito no texto, prefiro não explicar agora como se calculam o quociente eleitoral, o quociente partidário e as sobras, o que é feito em conjunto com a apuração da chamada "cláusula de barreira", a fim de ser definida a votação mínima para um candidato ser eleito (alcançar pelo menos 10% do quociente eleitoral). Porém, o que estou querendo dizer é que, até mesmo nas eleições para vereador, tem faltado estratégia e cooperação diante dessa matemática que é muitas das vezes cruel, sendo Niterói uma das poucas exceções no RJ onde a candidatura a prefeito do ambientalista Alex Grael do PDT, apoiado também por SOLIDARIEDADE, PT, CIDADANIA, PP, PL, PATRIOTA, AVANTE, PV, MDB, PSB, PRTB, REDE e PCdoB, muito tem me animado, levando a acreditar que o futuro governador possa vir do lado leste da Baía de Guanabara.


Concluo dizendo que, se queremos ver progresso na política das nossas cidades e do país, é fundamental haver união, consciência, foco nas questões principais e menos interesse pessoal ou corporativo. Pois, sem esse entendimento, a luta fica muito mais difícil. Mas, ainda assim, não se deve desistir de modo que tenho prosseguido com a minha candidatura a vereador em Mangaratiba, junto com Aarão e Brandão, componentes da chapa da coligação Resgatando Mangaratiba por Amor, formada por CIDADANIA, PSDB, PRTB, PL e AVANTE.


Ótimo feriado a todos!


RODRIGO ANCORA - 70272

CNPJ N.º 38.906.783/0001-40 ELEICAO 2020 RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ VEREADOR

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Despedindo-me desta inesquecível cidade

Neste primeira quinzena do mês de dezembro, estou deixando a cidade, com a mudança já agendada para o dia 11/12.

Foram quase 13 anos em Nova Friburgo desde que cheguei aqui para dar continuidade aos meus estudos na área jurídica, quando me transferi do Instituto Viana Júnior, em Juiz de Fora, para o campus local da Universidade Estácio de Sá.

Praticamente a metade desse tempo na cidade passei como estudante, formando-me só no final de 2004. E, quanto à outra parte dos meus anos, foi como um profissional do Direito através do exercício da advocacia autônoma, sem escritório próprio.

Foi em Nova Friburgo que me casei, mas não com uma moça daqui. Encontrei Núbia poucas semanas após ter me mudado pra cá, em 1999, durante o Carnaval, num lugar próximo do município chamado Sana (distrito serrano de Macaé). Ela, niteroiense, também estava a passeio com suas amigas. Dali em diante, passamos a nos encontrar tanto em Nova Friburgo quanto em Niterói.

Morando aqui é que descobri o enorme prazer das caminhadas. Sem ter muito o que fazer, pois são poucas as opções de lazer tradicional na cidade, tive que inventar o meu próprio passatempo. Assim, meus primeiros anos de faculdade foram marcados por incríveis passeios solitários pelo meio rural, percorrendo trilhas, estradas de chão, caminhos por dentro de fazendas, levando às vezes uma corrida de boi, ou sendo assustado por um cachorro latindo. Porém, eu sempre estava a descobrir novidades e experiências. E, após ter andado por todos os distritos e explorado a maioria dos roteiros, vim também conhecer os outros municípios da região.

Espiritualmente falando, este lugar me fez muito bem. Sem fazer loucas mistificações, posso dizer que, durante estes anos, pude olhar mais pra dentro de mim, arrepender-me de erros cometidos em Juiz de Fora, re-significar valores, retornar à fé que tinha deixado no final da adolescência e começado a lidar melhor com o álcool. E aí não posso me esquecer da força recebida de um vizinho do AA no bairro Cordoeira e também proprietário do primeiro imóvel onde morei aqui, alugando, na época, por apenas R$ 160,00 com água, luz e impostos incluídos.

Ao todo, habitei cinco residências em Nova Friburgo. Ao deixar o imóvel do seu Naélio, em agosto de 2000, fiquei uns sete meses numa casa situada no distrito de Amparo, numa área pouco afastada do perímetro urbano da vila, em estrada de terra. Depois, retornei pra sede do Município e vivi por quase dois anos numa apertada quitinete, num escadão que vai do Centro ao bairro Braunes. Dali, passei pra um lugar maior nas Braunes e numa distância menor da faculdade. Somente em meados de 2006, quando já estava casado e exercendo a advocacia, é que vim para o apartamento atual, situado numa área boa do Centro, no último andar de um prédio de cinco pavimentos sem elevador, tendo encontrado a sorte de pagar um aluguel que, hoje em dia, após os devidos reajustes, está ainda em torno dos seus R$ 400,00 mensais, sem contar condomínio e outra despesas.

Profissionalmente falando, posso dizer que, assim como a maioria dos moradores daqui, não fui muito feliz. Tentar a advocacia num mercado restrito, pobre e saturado de advogados pode tornar-se algo frustrante. E, com o tempo, veio o desânimo com a rotina da profissão e os problemas de saúde da esposa. Depois da tragédia climática de 12/01/2011, a economia regional ficou ainda pior.

Dia 27/09, vovó faleceu e herdei o seu imóvel de dois quartos onde ela residia no Rio de Janeiro, após minha tia renunciar a parte dela. Com isto, mesmo não pagando muito caro no aluguel, achei por bem voltar ao Rio, cidade onde nasci, afim de procurar melhores oportunidades de trabalho.

Sei que vou sentir saudades daqui e deste gostoso clima frio de serra que se torna bem suportável no verão, mas gelado no inverno. Também sentirei falta das deliciosas vendidas por aqui, da boa comida e da relativa tranquilidade de uma cidade de médio porte se comparada com a agitada metrópole do Rio de Janeiro.

Porém, a vida anda. Nestes dez primeiros dias do mês vou ficar absorvido com os preparativos da mudança junto com o pagamento das contas do mês e com o meu trabalho. Não sei se terei tanto tempo pra internet. Estou já transferindo os processos que tenho para outro advogado, buscando não deixar nenhuma pendência para trás e ainda me despedir de algumas pessoas. Depois da mudança, prevista para um domingo, preciso retornar outra vez para a entrega das chaves na imobiliária e, daí por diante, talvez só volte a Friburgo como turista.

Desejo o bem desta cidade e das pessoas que moram aqui. Como cidadão, tentei contribuir com minha ideias (escrevi por uns tempos no jornal local A Voz da Serra) e atuei também na política partidária até 2009, sem ter me candidatado a nada e nem ocupado cargos públicos. Assim, deixo Friburgo com a consciência limpa de que minha presença aqui tenha ajudado mais do que prejudicado, esperando que o povo friburguese possa cuidar bem deste pedacinho do nosso planeta e se reconstruir em todos os aspectos após esta última tragédia das chuvas, prevenindo-se também contra outras catástrofes naturais.

Boa sorte, Nova Friburgo!


OBS: A foto acima foi extraída do site da Câmara Municipal de Nova Friburgo em http://www.camaranf.rj.gov.br:8180/cmnf/noticias/camara-aprova-projeto-de-lei-que-proibe-a-poluicao-visual-em-nova-friburgo

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Manifesto do Movimento Nova Friburgo em Transição

Muito interessante esta ideia! Resolvi divulgá-la!




“Os problemas do mundo não podem ser resolvidos por céticos ou cínicos, cujos horizontes sejam limitados por realidades óbvias. Nós precisamos de pessoas que sonhem com algo que nunca existiu”. John F. Kennedy







Um dos maiores desafios na tarefa de reconstrução da cidade de Nova Friburgo, duramente atingida pelo maior desastre ambiental da história do Brasil, é o da provisão de moradias em larga escala e em locais seguros, a partir da adoção de soluções técnicas que não repitam os erros do passado. O desastre ambiental provocado pelas chuvas torrenciais que devastaram a região serrana fluminense, em janeiro deste ano, colocou em foco na mídia mundial a situação de vulnerabilidade em que se encontram nossas cidades, em razão de um desenvolvimento urbano pautado na sobreposição dos interesses privados sobre os da coletividade, trazendo à tona a urgência de reformularmos radicalmente a maneira como nos relacionamos com o nosso habitat. Apesar das tragédias como essa repetirem-se, ano após ano, com frequência e intensidade crescentes, pode-se constatar que as ações do poder público têm se limitado a seus aspectos emergenciais, não resolvendo a questão em termos estruturais.







O Nova Friburgo em Transição tem como propósito inserir o município no Movimento Mundial das Cidades em Transição (Transition Towns), a partir da articulação da sociedade civil organizada e o poder público, para a realização das mudanças necessárias para que a cidade atinja uma situação de sustentabilidade urbana, tornando-se menos vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas, crise econômica e/ou energética. Entendemos que todo momento de crise é, também, um momento de novas oportunidades e de possibilidade de correção de rumos. Não se trata, portanto, de apenas construir casas para os desabrigados, mas de repensar essas cidades sob novos enfoques, construindo, ao invés dos imensos conjuntos habitacionais situados em áreas distantes dos locais de trabalhos, bairros planejados sob a perspectiva de criação de ecossistemas sustentáveis.



A proposta básica do movimento é a realização de um projeto-piloto de um ecobairro, de forma que essa experiência possa ser replicada em outros lugares, estimulando uma mudança radical no modelo de urbanização vigente, e promovendo uma repercussão positiva mais imediata em direção à transição desejada, do que apenas a aplicação de uma legislação urbanística que, embora indispensável, apresenta resultados num horizonte mais a longo prazo.







O projeto desse ecobairro poderia ser realizado a partir de um concurso nacional de idéias, onde os primeiros colocados participariam, de forma cooperativa, no desenvolvimento do projeto, a partir de um termo de referência elaborado por uma equipe técnica transdisciplinar (arquitetos, sociólogos, geólogos, engenheiros, geógrafos, antropólogos, economistas, etc.) e representantes dos futuros moradores. Paralelamente, seriam realizadas amplas campanhas ecopedagógicas, especialmente com a população-alvo do projeto (desabrigados e moradores de áreas de risco). Na região existem institutos e oficinas-escolas como o TIBÁ (Instituto de Tecnologia Intuitiva e Bio-Arquitetura), o Instituto Pindorama, o Bambu-Rio, o CECNA, a Mãos de Luz, a Escola da Mata Atlântica etc., que poderiam promover a capacitação de jovens voluntários para trabalhar, sob a orientação de arquitetos e engenheiros, na construção das novas edificações e infraestruturas urbanas, mediante a aplicação de tecnologias sustentáveis e princípios ecológicos como a permacultura.



Numa perspectiva de inversão da atual tendência de urbanização extensiva e predatória, esse novo assentamento urbano deveria ser um ecobairro vertical, dentro da concepção de “cidade compacta”, com uma qualidade urbanística similar à das superquadras de Brasília, mas com várias diferenças:





1.o sistema de circulação deverá privilegiar os pedestres (com calçadas largas e espaços públicos atrativos), os ciclistas (com uma ampla rede de ciclovias e bicicletários públicos), e o transporte coletivo de massa (movido à eletricidade ou biocombustível);



2. a implantação urbanística deverá se adequar as características geomorfológicas locais, tirando partido das declividades topográficas, no intuito de se evitar o uso de elevadores (vide exemplo do Conjunto Pedregulho, de autoria do arquiteto Reidy) e movimentos de terra, através do uso de pilotis;



3. emprego de materiais locais e ecotécnicas construtivas, respeitando-se as características geográficas e culturais do lugar e dos futuros moradores;



4. utilização de energias limpas e renováveis, tratamento biológico do esgoto, separação e reciclagem do lixo, paisagismo produtivo, hortas orgânicas, agroflorestas etc.



5. capacitação de jovens voluntários para trabalhar na construção das edificações e infraestruturas urbanas (a exemplo do Movimento Oasis, em Santa Catarina).



A ideia fundamental é a criação coletiva de uma experiência modelo, radicalmente nova em relação ao status vigente, e que sirva de referência na transição do atual padrão de urbanização predatório e caótico para um modelo de desenvolvimento sustentável, numa espécie de metástase benigna. O momento é altamente oportuno para a concretização dessa proposta, que vem de encontro à realização da Conferência Rio+20 no próximo ano, quando o Rio de Janeiro estará recebendo ambientalistas do mundo inteiro para avaliar os avanços da ECO-92.





Para concluir, podemos acrescentar que a perspectiva de uma transição para um modelo urbano sustentável envolve também, e necessariamente, a transição dos atores sociais, mediante a integração de valores como a cooperação, a convivialidade, a solidariedade, a criatividade e a consciência de pertencimento ao planeta, sob pena de inviabilizarmos a continuidade da vida na Terra.



Contatos através do grupo “Nova Friburgo em Transição”, no Facebook.





Movimento Nova Friburgo em Transição

Nova Friburgo, julho de 2011

Sandra Mara Ortegosa

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Iremos permitir que os oportunistas de sempre sejam novamente eleitos em 2012?

Não consigo entender a estranha mania que o friburguense tem de continuar elegendo as mesmas pessoas que, após chegarem ao poder, simplesmente dão as costas para nossa população. Parece até coisa de esquizofrênico!

Nas eleições de 2008, a população elegeu o engenheiro Dr. Heródoto Bento de Mello (PSC), com 47% dos votos, o qual, por mais uma vez, ocupou a cadeira número um da cidade, coisa que tem feito desde quando assumiu pela primeira vez a Prefeitura em 1964 (ano do golpe militar). E, durante um longo tempo da história local, o cargo foi revezado entre HBM e o seu rival Paulo Azevedo.

Entretanto, as eleições de 2008 foram mais uma vez vergonhosas. Heródoto propôs coisas mirabolantes como um trem de alta velocidade passando sobre o rio Bengalas, um aeroporto, a construção de um novo hospital, o projeto Cidade Nova, etc. Só que o mais ridículo de tudo foi a população ter dado o seu precioso voto a uma candidatura que não tinha um pingo de seriedade, propondo coisas absurdas sem nenhuma condição de serem concretizadas.

Antes de morrer soterrado sob as lamas da enchente de 12 de janeiro, Paulo Azevedo prometia voltar como prefeito nas próximas eleições. Com a justificativa de estar tratando de sua saúde, Heródoto já se encontrava licenciado do cargo de modo que o seu vice, Demerval Barboza Moreira Neto (PMDB), já respondia pela Prefeitura. E era comentado nas ruas que o comandante da cidade era de fato o finado Paulinho Azevedo.

Inegavelmente, a popularidade de Heródoto já estava péssima poucos meses após o começo de seu mandato em 2009, o que leva qualquer analista político a desconfiar de seu licenciamento. E a maior prova dessa baixa popularidade foi o fraco desempenho de seu candidato Helinho para disputar as eleições de 2010 tentando uma vaga na ALERJ ao passo que Glauber Braga, filho da ex-prefeita Dra. Saudade Braga (PSB), conseguiu subir para a Câmara Federal. Logo, os que se encontravam no poder perceberam a necessidade de que HBM permanecesse afastado afim de que, através do vice-prefeito, o grupo governista de peemedebistas tivesse uma alternativa na provável disputa que haverá com Saudade Braga em 2012.

Alguns observadores da política local supõem que, além de Saudade e Demerval, um outro nome possa surgir nas eleições majoritárias do ano que vem. Seria o deputado estadual Rogério Cabral vindo não mais pelo PSB e sim concorrendo pelo partido novo fundado por Gilberto Kassab - o PSD.

Olhando este quadro, fico entristecido com a nossa falta de opção dentro de Nova Friburgo já que a política gira sempre em torno dos mesmos velhos nomes. Pessoas novas nunca têm chances e aqueles que fazem uma oposição sincera, lutando pelos direitos da maioria, como fazem os vereadores Cláudio Damião (PT) e Professor Pierre (PDT), nem sempre são reconhecidos. E até seus próprios partidos não os acompanham.

Mas o curioso é que o eleitor se acomoda e faz suas escolhas pelas opções com maiores chances de elegibilidade adotando o raciocínio dos mesmos parasitas da política que dependem da nomeação de cargos públicos. Apático, o nosso cidadão permite que a cidade seja governada por pessoas que, ao chegarem no poder, chutam o traseiro do pobre, sendo que o mesmo acontece na Câmara Municipal onde a maioria dos vereadores não passa de um bando de oportunistas, traidores e mentirosos.

Tudo isso me faz lembrar uma velha parábola judaica que se encontra nas nossas bíblias, mais precisamente no livro de Shofetim (Juízes):

"Certo dia as árvores saíram para ungir um rei para si. Disseram à oliveira: 'Seja o nosso rei!' A oliveira, porém, respondeu: 'Deveria eu renunciar ao meu azeite, com o qual se presta honra aos deuses e aos homens, para dominar sobre as árvores?' Então as árvores disseram à figueira: 'Venha ser o nosso rei!' A figueira, porém, respondeu: 'Deveria eu renunciar ao meu fruto saboroso e doce, para dominar sobre as árvores?' Depois as árvores disseram à videira: 'Venha ser o nosso rei!' A videira, porém, respondeu: 'Deveria eu renunciar ao meu vinho, que alegra os deuses e os homens, para ter domínio sobre as árvores?' Finalmente todas as árvores disseram ao espinheiro: 'Venha ser o nosso rei!' O espinheiro disse às árvores: 'Se querem realmente ungir-me rei sobre vocês, venham abrigar-se à minha sombra; do contrário, sairá fogo do espinheiro e consumirá os cedros do Líbano!'"
(Jz 9.8-15; NVI)

Até quando nós cidadãos friburguenses elegeremos o "espinheiro" ao invés da "oliveira", da "figueira" ou da "videira"?

Será que os homens de bem não querem nada com a política?

Desejo que esta situação um dia mude e este seria o momento para que um dos dois vereadores mais combativos (o Professor Pierre ou o Cláudio Damião) pensasse em se inserir ativamente na disputa pelas eleições majoritárias colocando o nome à disposição.

Por outro lado, não acredito em falsos messias ou salvadores da pátria, mito que Jesus desconstruiu quando se recusou a ser coroado rei pelo seu povo. E, neste sentido, entendo ser necessário mudar também a Câmara Municipal e também a passividade da população diante de qualquer governo.

Então fica a pergunta sobre como que um candidato honesto conseguirá fazer uma política correta contando com um diretório partidário cheio de gente traidora e que, na verdade, só está apenas se importando em conseguir cargos no governo?

Se Cláudio e Pierre andam com problemas em seus respectivos partidos, não seria melhor que unissem forças numa nova legenda?

Talvez só eles mesmos possam me dar esta resposta. Porém, se nenhum deles vier colocando seus nomes para disputar a Prefeitura, iremos nos conformar com os velhos espinheiros de sempre?

Espero que, após a catástrofe de janeiro e o relaxamento dos governantes quanto à situação da população desabrigada, o eleitor consiga cair na real e se curar desta esquizofrenia histórica que é votar repetidamente nas mesmas pessoas erradas esperando um resultado diferente.

terça-feira, 24 de maio de 2011

A Igreja precisa influenciar e transformar a sociedade onde se encontra!

"A igreja precisa de homens sem a fantasia do diploma de teologia e com a certeza diplomada pelo conhecimento do Deus da teologia."
(trecho dos comentários do Pr. Newton Carpinteiro na postagem "Minha agenda na Paraíba para o período de carnaval" no Blog do Ciro)


A última vez que preguei na igreja, aqui em Nova Friburgo (RJ), dia 06/03/2011, eu me propus não ficar gastando o meu tempo e o das pessoas com a transmissão de conhecimentos teológicos na reunião daquele domingo. Surpreendi-me com a boa presença de jovens na igreja durante um culto ocorrido durante o feriado de Carnaval e com a ausência do nosso amado pastor-presidente Robson Rodrigues, o qual precisou viajar com a família por motivo de saúde de seu sogro.

Neste ano, minha cidade havia resolvido deixar de lado a fantasia carnavalesca e se pôs de luto pelas centenas de mortes ocorridas na tragédia climática de 12/01 na Região Serrana fluminense, a qual abalou o país com notícias que permaneceram como destaque diário na mídia por duas semanas. E a decisão de não realizar o Carnaval em 2011 pela Prefeitura (não demonizo a festa), tornou-se bem adequada ao momento triste que estamos vivendo coletivamente, visto que é tempo de chorar, não de rir.

Antes de pregar naquela noite de domingo, havia refletido junto com minha esposa sobre o que dizer num momento difícil desses, visto que fazia menos de 02 (dois) meses das chuvas que arrasaram a região serrana do Rio de Janeiro. Então ela me ajudou com uma frase que traduz reconstrução e união. E, sem muitos "logismos", procurei assim transmitir uma mensagem que se mostrasse prática para aquele público ali presente sendo que, no final, resolvemos orar por necessidades específicas de cada pessoa ali presente.

O ânimo que precisamos para reconstruir Nova Friburgo é algo que me fez lembrar das palavras ditas por Deus a Josué antes da conquista de Canaã pelos israelitas, quando o Deus Eterno lhe exortou:

"Seja forte e corajoso, porque você conduzirá este povo para herdar a terra que prometi sob juramento aos seus antepassados" (Js 1.6; tradução da NVI)

Lembrei-me também da situação das tribos de Ruben e de Gade que, antes de Israel tomar posse da Terra Prometida, já tinham se estabelecido na Transjordânia (terras situadas na margem oriental do rio Jordão), mas com o compromisso assumido com o restante da nação israelita de parmanecerem lutando pela conquista de Canaã:

"Não retornaremos aos nossos lares enquanto todos os israelitas não receberem a sua herança". (Nm 32.18; NVI)

Felizmente, o bairro Cascatinha, onde fica a minha congregação, assim como várias outras localidades de Nova Friburgo, não foi atingido pela catástrofe. Porém, penso que todas as comunidades devem participar ativamente do processo de reconstrução da cidade e não se omitirem. Logo, vi alguma pertinência quanto à atitude solidária dos rubenitas e dos gaditas no texto que se encontra em Bamidbar (Números) que é o quarto livro de Moisés, da Torah.

Atualmente já fazem algumas semanas e temos tido o prazer de receber aqui uma equipe de voluntários da JOCUM, sigla que corresponde à uma denominação evangelística que é "Jovens Com Uma Missão". Na semana passada, este grupo esteve num dos bairros mais atingidos pela catástrofe de 12/01 que foi a comunidade de Córrego Dantas. Ali aqueles rapazes e moças oriundos de diversos lugares do país (havia também uma americana no meio deles) puderam participar do processo de reconstrução da localidade e compartilhar da alegria estampada nos rostos de seus moradores em ver suas casas sendo limpas da lama da enchente mas que agora estão sendo reparadas e pintadas.

Aqui em Nova Friburgo, a Igreja de Cristo está tendo uma oportunidade bem distinta de amadurecer, crescer, atuar e influenciar a apática sociedade onde se encontra através do amor que vem de Deus. Temos hoje a possibilidade de trabalharmos solidariamente pelas vítimas dessa tragédia e nos interessarmos mais pela participação política, fiscalizando os recursos públicos, questionando as autoridades, denunciando a corrupção e nos interessando mais pelas coisas espirituais.

Ampliando este entendimento para uma realidade mais global, acho que é isto que a Igreja no mundo inteiro precisa fazer! Temos que ser agentes de transformação e de fato fazermos diferença no meio onde nos encontramos, coisa que os teólogos da prosperidade e do entretenimento geralmente não pregam.

Abraços fraternos e que Deus nos guie nesta jornada, renovando o amor em cada coração para que não venhamos a nos esquecer do nosso próximo cuidando só dos interesses próprios.

domingo, 8 de maio de 2011

Seguir a Cristo mesmo na adversidade

Pode-se dizer que ainda é recente a decepcionante atuação da Igreja europeia durante o contexto do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial. Tratou-se de uma época em que as instituições religiosas (católicas e também protestantes) silenciaram-se diante das brutalidades praticadas por Hitler.

O filme Amém (2002), dirigido por Costa-Gavras, retrata muito bem a omissão dos cristãos alemães quanto às pretensões e atrocidades do Regime Nazista em que o Papa Pio XII decidiu por não manifestar-se abertamente contra o genocídio dos judeus. Porém, contrariando a inoperância das instituições do cristianismo, houve indivíduos que não negaram sua fé e tentaram atos heroicos isolados como fez, por exemplo, um padre jesuíta italiano, personagem do filme que, desiludido com a omissão do Vaticano, optou pelo martírio no campo de concentração.

Refletindo sobre esta triste página da história eclesiástica, ocorrida há menos de um século, percebo o quanto é desafiador seguir a Cristo contrariando o jogo sujo do poder político e preservarmos a fé através de atitudes ousadas. Pois vejo que, nestas horas, o nosso discurso é provado.

Atualmente, em Nova Friburgo, vejo que a Igreja local enfrenta o seu momento de prova em face do jogo das autoridades municipais e regionais. Meses após a maior tragédia climática da história da cidade, pessoas ainda estão vivendo dentro de abrigos, a construção de casas populares continua sendo promessa só dos governantes, os donativos para as vítimas não são distribuídos como deveriam e políticos de má-fé ainda tentam tirar proveitos eleitorais com esta situação de necessidade.


Diante de uma situação destas, como deve agir a Igreja? Calar-se como tem feito na maioria das vezes? Ou tomar o caminho da Cruz protestando publicamente mesmo que a posição assumida lhe custe a perda de certos benefícios ou privilégios de seus líderes?

Embora hoje não haja mais uma polícia secreta a exemplo do que ocorreu no Regime Nazista, sabemos que existem outros mecanismos de controle e repressão manipulados pelas autoridades na tentativa de silenciar a voz profética.

Numa cidade pequena como Nova Friburgo, quantos pastores não trabalham para uma Prefeitura ou têm parentes que dependem de um cargo no governo municipal?

Quantos líderes religiosos não têm interesses relativos às próximas eleições?

Quantas igrejas não buscam conseguir espaços na mídia para suas programações religiosas através do relacionamento com políticos?

Quantos líderes não dependem da preservação de sua boa imagem perante a opinião pública?

Ora, será que a Igreja de hoje está realmente disposta a passar por críticas, calúnias, difamações, injúrias, sofrer vergonha e falta de assistência oficial por amor a Cristo?

Talvez muitos pensem que suportam tudo pela fé que confessam em Deus e nos fundamentos do cristianismo. Porém, Jesus disse que quando praticamos algo em benefício dos "pequeninos" é a ele que estamos fazendo. E, quando negamos nossa assistência às pessoas necessitadas, estamos deixando de assistir o próprio Cristo.

Sinceramente, ando triste com a atuação da Igreja friburguense pois me parece que mais uma vez na história estamos deixando passar a oportunidade de nos conformar com os sofrimentos de Cristo.

Quatro meses depois da tragédia de 12 de janeiro, vejo as instituições retornando às suas atividades rotineiras como se nada tivesse acontecido. Lamentavelmente observo líderes mais uma vez promovendo a alienação do povo e, frequentemente, ainda ouço pessoas ignorantes querendo atribuir a causa da catástrofe a atos individuais isolados como se Deus tivesse resolvido castigar a cidade por causa do desejo sexual das pessoas, por estas terem optado por um modo de vida mais secularizado, ou pela ausência delas nos cultos eclesiásticos dentre outros argumentos proselitistas que não enfrentam o real problema.

Sinceramente, não desprezo o recado que a tragédia nos mandou visto que para mim cada acontecimento é rico em significado, mesmo os mais tristes. E, sem dúvida que, por trás dos desabamentos, existe não só o fato natural como também o nosso lado ético em relação à natureza e ao direito social do nosso próximo considerando que o Poder Público até hoje nega o direito das pessoas habitarem as áreas mais propícias para moradia do espaço geográfico em razão da especulação imobiliária. Isto sem nos esquecermos da falta de consciência do eleitor e de sua trágica omissão.

Minha oração é que, neste momento, a Igreja em Nova Friburgo desperte, não entre no jogo sujo da política e se lembre da sua missão profética, não deixando de denunciar as irregularidades na nossa cidade.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O frio chega na serra!


Nesta semana, o frio do outono finalmente chegou a Nova Friburgo, pegando muita gente de surpresa.

Já costumado com o clima imprevisível daqui, tenho buscado me defender como posso, sem timidez para tirar os agasalhos do armário, dentre os quais o meu poncho boliviano comprado no ano passado.

Durante o dia, minha esposa Núbia tem assistido TV no sofá da sala, protegendo-se com o edredom enquanto passa a programação.


Possivelmente esta onda de frio deve passar dentro de alguns dias, mas é bem provável que, no próximo mês, tenhamos temperatura mais baixas na região. É quando o tempo muda radicalmente de modo que, no final de maio e começo de junho, chego a me sentir dentro de uma geladeira.

Tudo isto é bem convidativo para um bom vinho, um fondue ou tortas de chocolate. Coisas bem light, não?

sábado, 12 de março de 2011

Nossa sociedade precisa se unir mais e protestar!

Hoje, dia 12/03/2011, fazem dois meses que ocorreu a maior tragédia climática de Nova Friburgo e Região Serrana.

Durante a manhã, houve uma reunião na Praça Demerval Barbosa Moreira afim de protestar contra as coisas que vêm acontecendo em relação à má administração dos recursos destinados às vítimas das chuvas. Foi quando resolvi sair do meu apartamento, que fica a alguns metros, numa rua perpendicular, e fui participar do ato.

Quem organizou a manifestação foi o Fórum Sindical e Popular de Nova Friburgo, composto por entidades representativas dos trabalhadores, partidos políticos, o Conselho das Associações de Moradores e outros. Porém, resolvi não me importar com eventuais diferenças políticas ou ideológicas que eu pudesse ter com aquelas pessoas e resolvi dedicar algumas horas do meu descanso sabático a um movimento que considero como sendo de defesa da vida.

O que achei de mais positivo neste encontro é que não apenas autoridades e lideranças do movimento sindical tinham direito a voz. Qualquer cidadão podia ter acesso ao microfone e várias pessoas comuns, assim como eu, fizeram uso da palavra (aproveitei a ocasião para abordar a questão ecológica).

Na ocasiao, pude fazer contatos com a deputada estadual Janira Rocha do PSoL que esteve representando uma CPI da ALERJ que cuida dos assuntos relacionados à tragédia e está investigando as irregularidades cometidas no nosso município. Aproveitei para falar com ela sobre o que as igrejas daqui têm feito e recebi de sua parte elogios quanto a isto.

Além da deputada, fizeram uso da palavra os vereadores Renato Abi Râmia (PMDB) e Cláudio Damião (PT). E, ao final, quando o pessoal da InterTV já tinha se retirado, chegou o prefeito que foi sabatinado por alguns cidadãos.

A meu ver, a sociedade friburguense precisa se unir mais. Este ano mobilizou algumas dezenas de pessoas, mas é necessário que mais gente participe e se interesse. Por outro lado, creio ser indispensável haver um diálogo entre todos os grupos que estão atuando e vejo como uma ótima oportunidade a disposição demonstrada pela deputada Janira Rocha no sentido de ouvir denúncias de moradores e lideranças aqui da Região Serrana do Rio de Janeiro.