Páginas

Mostrando postagens com marcador Igreja. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Igreja. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de dezembro de 2025

Padre Júlio Lancellotti faz 77 anos: fé, direitos humanos e coragem pública



O aniversário de 77 anos do Padre Júlio Lancellotti, celebrado neste ano, marca mais do que uma data pessoal. Marca a trajetória de um dos religiosos mais atuantes — e mais atacados — do país quando o assunto é direitos humanos, população em situação de rua e enfrentamento da desigualdade social.

Nascido em 1948, no interior de São Paulo, Júlio Renato Lancellotti formou-se sacerdote em meio às transformações provocadas pelo Concílio Vaticano II, que propôs uma Igreja mais próxima das realidades sociais e menos distante das dores do mundo. Ordenado em 1974, optou desde cedo por uma atuação pastoral voltada às periferias urbanas, longe do conforto institucional e perto dos conflitos reais da cidade.


Da infância vulnerável às ruas invisibilizadas

Nas décadas de 1980 e 1990, Padre Júlio teve papel central na defesa de crianças e adolescentes em situação de risco, em um período marcado por violência institucional, chacinas e políticas de internação arbitrária. Sua atuação integrou a ampla mobilização social que resultou no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), hoje referência legal na proteção da infância no Brasil.

A partir dos anos 2000, sua atuação voltou-se de forma ainda mais intensa à população em situação de rua, tornando-se seu principal campo de ação pública. Mais do que ações assistenciais, Padre Júlio passou a denunciar políticas de higienização social, práticas de remoção forçada, a chamada arquitetura hostil e a criminalização da pobreza nos centros urbanos.

Sua presença constante nas ruas de São Paulo — oferecendo acolhimento, escuta e orientação — tornou-se também um ato político: o de recusar a naturalização da miséria.


Perseguições e ataques

Essa postura firme trouxe consequências. Padre Júlio passou a ser alvo de ameaças, campanhas de difamação e ataques sistemáticos, especialmente de setores que associam segurança pública à repressão e confundem fé com punição moral. Ainda assim, mantém uma atuação pública coerente, sem recuos e sem concessões ao discurso do ódio.

O incômodo que provoca é direto: sua prática expõe as contradições de uma sociedade que aceita pessoas vivendo nas ruas enquanto discute soluções estéticas para “esconder” a pobreza.


Frases que viraram referência

Parte de sua força pública está na capacidade de traduzir questões complexas em frases diretas, que ganharam circulação nacional:


“Não existe ser humano invisível.”

 

“Direitos humanos não são para humanos direitos, são para humanos.”

 

“O problema não é a pessoa estar na rua. O problema é a sociedade achar normal que alguém viva na rua.”

 

“Grades, pedras e muros não resolvem problemas sociais.”

 

“O Evangelho não combina com indiferença.”


As frases não surgem como slogans, mas como sínteses de uma prática cotidiana que une fé, Constituição e dignidade humana.


Uma trajetória que interpela

Ao completar 77 anos, Padre Júlio Lancellotti segue como uma das vozes mais firmes na defesa dos que não têm voz. Sua biografia não é feita de cargos ou homenagens oficiais, mas de presença, conflito e coerência ética.

Celebrar seu aniversário é reconhecer que direitos humanos não são concessão, que fé não pode ser neutra diante da injustiça e que uma cidade se mede pela forma como trata seus mais vulneráveis.

Parabéns, Padre Júlio! Sua trajetória segue sendo um lembrete incômodo — e necessário — de que dignidade não é favor, é direito.

📷: Instagram 

O Guardião da Memória


Local tradicional do túmulo do apóstolo João em Éfeso


O sol poente tingia as colunas coríntias do Templo de Ártemis de dourado e púrpura, lançando sombras alongadas sobre as ruas de pedra de Éfeso. Entre o burburinho do mercado, barracas vendiam grãos, especiarias e tecidos finos, e o aroma de incenso se misturava ao sal do porto, onde navios carregavam oliveiras, vinho e cerâmica.


O velho João caminhava lentamente, apoiado em seu bastão de madeira gasta. Cada passo ecoava nas ruas pavimentadas, marcando o ritmo de uma memória que atravessava eras. Uma criança o seguia, olhos curiosos refletindo as cores do crepúsculo e as chamas distantes das tochas do porto.


— João… você viu Jesus mesmo? — perguntou a criança, com a voz tremendo entre o fascínio e o medo.


João parou e olhou para o horizonte, onde as ondas batiam nas embarcações, cintilando como prata ao sol.


— Vi, menino. Caminhei com Ele pelas colinas da Judeia, toquei seu manto, ouvi suas palavras que eram vida e amor. — Seus olhos se encheram de lembrança e dor. — Fui o único que permaneceu à cruz, e Ele confiou a mim sua mãe. A cruz, a dor… tudo se tornou uma luz que ninguém mais pode apagar.


Eles seguiram por uma rua estreita, ladeada por casas de tijolos e pátios internos com flores silvestres. Alguns artesãos moldavam cerâmica, outros afiavam facas em oficinas improvisadas, alheios à presença do apóstolo.


— E depois, João? — perguntou a criança, olhando para a cidade que parecia viva, mas diferente do mundo que o velho descrevia.


— Depois vim para Éfeso. — Ele apontou para as sete igrejas da Ásia Menor, espalhadas como pontos de luz no coração do império. — Aqui ensinei, escrevi, amei… e mesmo agora, neste fim de dia, ainda vejo o mundo antigo respirando em cada pedra e cada rosto. — João sorriu, mostrando a sabedoria de quem viu séculos passarem. — Escrevi cartas, visões do Apocalipse… mas tudo isso é apenas sombra do que vivi com Ele.


A criança se aproximou do porto, olhando os navios que balançavam suavemente.


— E você acredita que as pessoas vão se lembrar de você, João?


O apóstolo tocou a mão pequena da criança e respondeu com um brilho de eternidade:


— Alguns sim, muitos esquecerão. Nosso dia é 27 de dezembro, entre o Natal e o Ano Novo, quando todos estão ocupados com festas e fogos. Mas aqueles que guardam o amor de Jesus, que vivem a fé com o coração, nunca esquecerão. Eu sou apenas uma ponte… um último elo entre Jerusalém, o Templo destruído, e vocês, que vivem em um mundo diferente.


Eles caminharam pelo mercado, entre mosaicos coloridos, estátuas de deuses e o som distante de músicos ensaiando para festivais. Cada passo de João era uma história, cada gesto um ensinamento, e a criança sentia que caminhava por séculos em poucos metros.


Ao final do dia, João parou diante de uma colina, olhando Éfeso inteira: as ruas, o porto, o Templo de Ártemis e as casas iluminadas por tochas.


— Veja, menino — disse ele — o que foi vivido não desapareceu. Cada palavra de Jesus que guardei, cada lágrima e cada alegria, ainda vive em nós. Éfeso, Jerusalém… tudo se mistura no tempo e na memória. Nós somos o que permanece, mesmo quando o mundo muda.


E enquanto o sol desaparecia no horizonte, João continuava sendo o último contador de histórias, um avô espiritual, guardião de um amor que atravessava eras, lembrando que, mesmo que esquecido no calendário, seu dia permanece vivo naqueles que escutam e acreditam.


📝 Nota sobre o dia de João:

O dia 27 de dezembro, entre o Natal e o Ano Novo, celebra o apóstolo João. Apesar de muitas vezes esquecido pela maioria das pessoas, por cair em um período de festas e férias, ele simboliza memória, amor e fidelidade. É um lembrete de que João, o discípulo amado, testemunhou Jesus e transmitiu sua fé, permanecendo como ponte entre a igreja original de Jerusalém e o mundo que emergia em Éfeso e nas igrejas gentias.


📷: Julian Fong / Wikipédia, conforme extraído de https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tomb_of_St._John.jpg#mw-jump-to-license 

domingo, 13 de julho de 2025

Não se deixe engaiolar!



Sem querer generalizar, mas essa imagem acima retrata o que muitas das vezes acontece com as pessoas. 


Não permita que a sua igreja vire uma gaiola! 


Congregar com irmãos jamais significa abrir mão da sua liberdade de opinião, de VOTAR no candidato que acredita lhe representar e de fazer as suas escolhas existenciais.


Um ótimo domingo a tod@s!❤️

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Que a graça maravilhosa do Natal de Jesus possa despertar a Igreja!

 


 

"Graça maravilhosa! (quão doce é o som)

   Isso salvou um desgraçado como eu!

Uma vez eu estava perdido, mas agora fui encontrado,

   Fui cego, mas agora eu vejo."

(Trecho traduzido da música Amazing Grace)


Estava refletindo um pouco sobre a história da Igreja, mais precisamente sobre os tempos relativamente recentes, entre o final do século XVIII e o início do XIX, quando então um interessante personagem chamou a minha atenção. Trata-se do pastor anglicano John Newton (24 de julho de 1725 — 21 de dezembro de 1807), compositor da belíssima canção religiosa canção Amazing Grace (do inglês: "Graça Maravilhosa").


Para quem não sabe, John Newton, antes de se converter a Jesus, foi capitão de um navio negreiro e traficou escravos. Porém, em certa ocasião, a sua embarcação foi atingida por uma poderosa tempestade que o fez se sentir frágil e desamparado, havendo buscado refúgio na graça divina. Após essa marcante experiência, ele decidiu mudar de vida vindo a se tornar uns dos mais influentes abolicionistas de seu tempo a ponto de haver influenciado os trabalhos do referenciado deputado inglês William Wilberforce (1759 — 1833) em relação a essa importante causa social.


Fato é que, nessa época, apesar de todas as suas contradições, houve no meio da Igreja um movimento genuíno de avivamento espiritual que levou homens e mulheres a lutarem contra o milenar cativeiro de seres humanos e exploração da mão-de-obra escrava. Foram os tempos  em que vários líderes, a exemplo de Anthony Benezet, Benjamin Franklin, Granville Sharp, Thomas Clarkson e o próprio William Wilberforce, todos autênticos cristãos, abrilhantaram o mundo com a coragem como enfrentaram o forte sistema escravista até então vigente.


Embora naqueles anos sombrios o Brasil ainda se achasse tão distante do abolicionismo, movimento que apenas floresceu entre nós na segunda metade do século XIX, muitas pessoas da sociedade inglesa se engajaram, inclusive mulheres cujos nomes raras vezes a História chegou a registrar. E, segundo relata o jornalista Laurentino Gomes, no segundo volume de seu livro Escravidão, elas organizavam comitês regionais, promoviam reuniões, coletavam assinaturas para as petições públicas e cooperavam no boicote ao consumo do açúcar produzido nas colônias escravistas do Caribe, sendo que citou em sua obra a acertada análise do historiador português João Pedro Marques acerca desse período:


"O abolicionismo era mais do que uma filosofia (...) Era ativista, queria mudar o mundo e tinha um plano de ação política para o conseguir: visava à abolição imediata ou a curto prazo do tráfico de escravos e, a médio prazo, da própria escravidão" (Revoltas escravas: mistificações e mal entendidos, págs 34-35)


Todavia, por mais tenebrosos que tenham sido as décadas do século XVIII, com o tráfico de escravos ainda em alta, eis que uma luz resplandeceu na escuridão pois, de fato, aquele se tornou um momento em que cristãos fizeram diferença no mundo, alcançando resultados. Graças a eles, foi colocado um tijolo a mais na evolução da humanidade, fazendo com que os entes federados do norte dos EUA pusessem fim a essa hedionda importação de cativos nos seus respectivos territórios. Na Inglaterra, em março de 1807, ano do falecimento de John Newton, aprovou-se a abolição do tráfico de escravos a partir do dia 1º de janeiro do ano seguinte.


Refletindo a respeito, minha oração é que os cristãos de hoje sejam despertados para lutar incansavelmente por justiça social e uma boa gestão ambiental nesses tempos atuais. Torço para que as igrejas deixem de cultivar o discurso retrógrado do conservadorismo e passem a se organizar para que os seus membros se tornem pessoas ativas dentro das comunidades onde se encontram inseridos, cobrando mais eficiência das autoridades quanto à escola de seus filhos, a qualidade dos serviços de saúde, o planejamento quanto ao saneamento básico e a boa aplicação dos recursos financeiros pagos com o sacrifício do contribuinte.


Mais do que nunca, os milhões e milhões de cristãos ao redor do mundo precisam colaborar com o desenvolvimento de uma economia sustentável, solidária e inclusiva, socorrendo pessoas em situação de vulnerabilidade, a exemplo do Padre Júlio Lancellotti, em São Paulo, e ampliando a assistência entre os próprios membros para que vivam todos em moradias dignas, tenham acesso a serviços básicos, redes de água/esgoto, e até mesmo a instalação de painéis solares.


Enfim, há muito o que lutar para que os valores graciosos do Reino de Deus se tornem uma realidade na sociedade na qual nos encontramos e os cristãos precisam hoje compreender qual o papel transformador que devem desempenhar.


Um feliz Natal a tod@s!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A importância de nos congregarmos em igreja



"Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros" (Hebreus 10:25a)

As narrativas bíblicas e a história do cristianismo são testemunhos de que a vida com Deus é um projeto para ser experimentado coletivamente. Não existe e jamais haverá a "igreja do eu sozinho". O próprio nome igreja vem de ekklesia, termo que foi originalmente empregado nas reuniões políticas das cidades gregas, sendo, pois, um sinônimo cabível para a assembleia do povo de Israel mencionada nas Escrituras hebraicas (o Antigo Testamento).

Quando Abraão foi chamado à fé, o objetivo do Altíssimo foi formar uma nação através dele. Não somente uma só nação, mas várias como diz o próprio nome do patriarca. E, se Deus a princípio lhe falou individualmente, foi com a finalidade de incluir outras pessoas no seu plano sagrado de modo que o Eterno esteve tratando também com Hagar, Sara e Isaque em outras passagens, no desejo de ser o Deus de todos aqueles personagens bíblicos (e de todos nós).

No Novo Testamento, também não foi diferente. Jesus buscou fazer discípulos. Não para ter numerosos seguidores atrás dele, mas para iniciar um ministério lidando com gente. E escolheu pessoas comuns do povo, impuros pescadores e coletores de impostos ao invés de contar com escribas, sacerdotes e toda aquela nata moral da Jerusalém de seu tempo. Aí, quando chegou o momento de experimentá-los e ensiná-los a pregar o Evangelho do Reino nas cidades de Israel, o Mestre ordenou que os doze apóstolos (e depois os setenta seguidores) andassem de dois em dois. Jamais saíssem sozinhos por aí.

Também com Paulo, depois que o Senhor revelou-se ao "apóstolo dos gentios", o Espírito Santo não o enviou sozinho pelo mundo. A princípio, Paulo andou junto com Barnabé em sua primeira missão. Na vez seguinte, seu companheiro de ministério foi Silas. E, a partir de então, o livro de Atos passa a fazer menção de diversos nomes novos como Timóteo, Tito, o casal Áquila e Priscila, dentre outros colaboradores.

No comecinho de 2010, li com entusiasmo o "subversivo" livro Por que Você Não Quer mais Ir à Igreja?, de Wayne Jacobsen e Dave Coleman. Fiquei empolgado demais com a desconstrução proposta pelos autores que transmitem uma mensagem através de uma narrativa ficcional no estilo A Cabana. Na obra, o personagem pastor Jake Colsen, sentindo-se interiormente vazio, depara-se com João, um homem que fala de Jesus como se o tivesse conhecido e que percebe a realidade de uma forma que desafia a visão tradicional de religião.

Sem dúvida que as críticas do livro não deixam de ser uma interessante contribuição ao mundo eclesiástico quando levamos em conta a importância da pluralidade de ideias e aceitamos a possibilidade de que a Igreja, por ser formada por homens, é passível de cometer erros. Só que, analisando por outro aspecto, os autores parecem não dar a mínima chance de êxito ao bimilenar trabalho desenvolvido até hoje pelos herdeiros do discipulado de Jesus. É como se tudo aquilo que se vê no presente não prestasse mais para nada e precisasse ser consumido no fogo.

Mas será que nada mais presta na Igreja?! Pois eu penso justamente o contrário e percebo coisas muito positivas que não devem ser descartadas, mas sim aprimoradas, melhoradas, reformadas e apoiadas pelas brilhantes mentes dos críticos da religião.

"E ele disse-lhes: Por isso, todo o escriba instruído acerca do reino dos céus é semelhante a um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas." (Mateus 13:52)

Penso que, se temos críticas em relação à Igreja e desejamos mudar seus rumos, não temos que nos afastar dela e muito menos abandonarmos a vivência coletiva da fé que é a comunhão com os irmãos. E também, quando temos em nosso coração a proposta de um ministério inovador, devemos aprender a aguardar em Deus o momento certo de agir tal como fez Paulo quando se congregava em Antioquia e que, provavelmente, já deveria sentir a vontade de levar a Palavra aos gentios da Ásia Menor e de outras regiões, bem como aos judeus da diáspora distantes de Jerusalém.

No começo do ano, tão logo ter deixado de Nova Friburgo, cometi o erro de querer iniciar um ministério sozinho nos curtos meses em que morei no Rio de Janeiro. Minha cabeça estava cheia de conceitos, ideias e propostas, as quais não descarto por serem coisas positivas. Entretanto, em minha vaidade intelectual e tendo grande dificuldade desde os tempos de criança quanto aos trabalhos de grupo, acabei não me congregando em lugar nenhum. Nem mesmo fui capaz de encontrar e me integrar com algum grupo informal de irmãos. Apenas visitei por três ocasiões uma igreja Presbiteriana no bairro onde morava sem que fosse estabelecida uma relação de compromisso. Aí, logo que vieram as lutas, os problemas e as necessidades, acabei ficando só tentando orientar-me para superar as situações. Lancei sementes, mas não pude cultivá-las como deveria. Precisei cuidar da família e, mais recentemente, de minha esposa Núbia.

Já neste semestre, resolvi fazer diferente. Tão logo fui iniciando a minha mudança do Rio para o Município de Mangaratiba, decidi que não continuaria a caminhar só. Deixei meus sonhos ministeriais nas mãos de Deus e fui logo buscando o apoio de meus irmãos em Cristo, pelo que me dispus a procurar a igreja evangélica mais perto de minha casa que está situada na mesma rua Primeiro de Maio aqui no distrito de Muriqui. Deixei de lado o orgulho, os conceitos teológicos adquiridos e fui reunir-me com os novos irmãos pouco importando o fato de se denominarem "batistas pentecostais".

Assim, tenho crescido com meus irmãos nestes últimos dias quando, definitivamente, vim morar aqui em 21/08. Pela manhã, nossa congregação reúne-se para orar diariamente às 07:30 e, por várias vezes, já tomei o meu café da manhã na igreja com a pastora Delvânia e o mano Johnny. Ontem (09/09), fizemos nossa Ceia e temos tido a oportunidade de nos encontrarmos com satisfatória frequência. E, no domingo retrasado (02/09), conheci uma missionária que esteve nos visitando e compartilhou a experiência no seu ministério com os chineses, aqui no Brasil, e de sua marcante viagem à China feita neste ano de 2012.

Não é maravilhoso poder viver num país como o nosso onde ninguém é perseguido pelas autoridades só porque lê a Bíblia ou vai numa igreja?!

Glória a Deus por isto! Mas ainda assim, os crentes daqui no Ocidentes têm caminhado com muito menos assiduidade do que os irmãos da China, sendo que a maioria deles por lá parece se reunir mesmo em congregações clandestinas. No outro lado do mundo, cada oportunidade de se congregar e adorar a Deus é algo de enorme valor.


OBS: Ilustração extraída do acervo da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:AugsburgConfessionArticle7OftheChurch.jpg

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O pastor que comprava cigarros

Era uma vez um pastor chamado Oseias que vivia numa pacata cidade do interior. Com vocação desde jovem, casou-se cedo e logo iniciou seu ministério como um obreiro auxiliar. Teve dois filhos com sua esposa Rute e, no ano seguinte ao nascimento do mais velho, foi dirigir uma congregação.

Sendo homem íntegro, Oseias sempre procurou ser um marido e pai presente, desejando que seus filhos seguissem seus passos. Educou ambos na instituição de ensino mantida pela Igreja e os exortava através da Bíblia para que os meninos aprendessem a viver segundo a verdade. Nunca deixava de dialogar com eles por mais que estivesse compromissado com as tarefas do ministério eclesiástico ou de seu trabalho como professor de Filosofia na faculdade.

Com doze anos de idade, morreu o seu primeiro filho Paulo, ficando apenas Marcelo que veio a se tornar um adolescente rebelde. E, apesar do rapaz ter se batizado nas águas, foi rapidamente afastando-se dos ensinamentos da Bíblia preferindo andar com as más companhias do colégio.

Na época em que Marcelo entrou no ensino médio, ele se envolveu com drogas. As coisas começaram a sumir dentro de casa e o pai sentiu-se desconfiado dos furtos domésticos, mas em momento algum duvidando da idoneidade da empregada embora a esposa a culpasse. Um dia foi o dinheiro que estava na carteira. No outro, as jóias de Rute, E, finalmente, Marcelo facilitou que bandidos entrasse na garagem e levassem o automóvel da família para um desmanche, entregando aos bandidos as chaves do veículo afim de saldar uma dívida contraída com o tráfico.

Quando este fato ocorreu, Oseias ficou sabendo de tudo pela confissão do próprio filho e pediu ajuda ao pastor dirigente da convenção das igrejas. Com isto, a família conseguiu logo uma vaga para Marcelo ser internado numa clínica religiosa que cuida de dependentes químicos na capital do estado. Ali o rapaz permaneceu por um semestre para desintoxicar-se. Todavia, Oseias foi orientado a não expor em púlpito todo o seu problema para a congregação, exceto para o conselho da igreja.

No dia da alta de Marcelo, Oseias fez uma festa e o recebeu com muitos abraços e beijos. Animou sua esposa para que ela vencesse o sentimento de decepção com o filho e chamou os amigos íntimos. Todos fizeram um culto de ação de graças e se fartaram com um delicioso bolo de chocolate.

Consciente de que precisava encaminhar o filho para tratamento médico, Oseias conseguiu que Marcelo fosse rapidamente atendido por um psiquiatra e uma psicóloga. Sob o efeito de remédios controlados, ele permaneceu por uns tempos longe da cocaína já que estava substituindo uma droga ilícita por outra lícita. E, apesar de ter perdido o período letivo, voltou a estudar no ano seguinte.

Infelizmente, pouco antes de completar seus 18 anos, Marcelo sofreu outra recaída. Parou de tomar os comprimidos do psiquiatra, não mais compareceu às sessões de psicoterapia e passou a beber. Não demorou muito ele voltou a cheirar e a apresentar um comportamento estranho. Andando com falsos amigos, o rapaz engravidou uma moça que era usuária como ele e a fez abortar. Para sustentar o vício, desta vez a sua opção foi sair de casa e se juntar ao tráfico de drogas na cidade.

Com terrível desgosto sentido por Oseias, o filho ainda desencaminhou outros jovens de cabeça fraca da própria igreja que o imitaram em alguns de seus erros. Todos na congregação focaram sabendo da má conduta de Marcelo e alguns irmãos desligaram-se da membresia por não aceitarem a liderança de um pastor que tivesse um filho envolvido com as drogas.

- “Se este homem é incapaz de cuidar da própria família, como vai administrar a casa de Deus?!” – disse um senhor revoltado.

- “Duvido que este pastor seja realmente ungido por Deus. Se fosse o seu filho não estaria metido nessas coisas. Quero estar numa igreja onde pessoas são curadas e libertas dos vícios. Amanhã mesmo eu vou na corrente da igreja do tal apóstolo Argemiro que assisto diariamente na televisão!” – comentou uma mulher que estava há poucos meses congregando.

Certo dia, Marcelo foi pego pela polícia portando drogas e armas. Ele estava na cidade vizinha transportando a “mercadoria” para a boca de fumo da qual era cliente e já era investigado por um assalto a uma farmácia. Mas tão logo ocorreu o flagrante, o jornal local, sem ter nenhum assunto importante na pauta, noticiou o fato com letras grandes na primeira página:

“FILHO DE PASTOR É PEGO COM MEIO QUILO DE PÓ”

Assistindo o próprio filho algemado pela TV, Oseias correu para a delegacia. Contratou um influente advogado que era diácono da igreja (um dos melhores da cidade) e evitou que Marcelo recebesse apoio jurídico do tráfico. Porém, com toda a experiência do profissional não era possível ao indiciado responder o processo em liberdade. O rapaz teria que permanecer em custódia até o julgamento e depois, quando já sentenciado, ser transferido para um presídio.

Embora fosse membro da igreja, o advogado não aceitou diminuir os honorários e ainda exigiu pagamento adiantado. Oseias precisou vender rapidamente o carro e a casa, passando a viver de aluguel com a esposa. O comprador pagou pelos bens menos do que o valor de mercado, aproveitando-se da urgência da família, e o dinheiro mal serviu para custear as despesas e o trabalho do causídico. Até para contratar o frete da mudança o casal precisou contrair um empréstimo junto ao banco.

Ainda assim, Oseias não deixou de amar o filho e, toda semana, no único dia de visita, jamais deixava de comparecer à penitenciária levando algo de comer e maços de cigarro já que o psiquiatra tinha recomendado à família sobre a substituição de um vício pior por outro de menor nocividade. Além do mais, numa cadeia, os cigarros tornam-se uma espécie de moeda de troca formando um mercado paralelo entre os presos já que é uma das maneiras que os detentos encontram para aliviar a ansiedade.

Entretanto, certo dia, um membro de outra igreja viu Oseias saindo de um boteco com um pacote de cigarros na mão. Perplexo, querendo também arrumar motivos para escandalizar o pastor e arruinar seu ministério, o homem registrou o fato através da câmera do celular, transmitindo as imagens por email ao conhecimento do conselho da congregação. Como ninguém lhe respondeu, o homem compartilhou o arquivo com outras pessoas na internet e a notícia logo espalhou-se pelas redes sociais no meio religioso.

- “O pastor Oseias anda fumando!” – alardeou uma senhora fofoqueira da igreja.

- “Se ele estivesse firme com Deus, não faria algo deste tipo. Este homem não está liberto!” – julgou uma das lideranças dos jovens.

- “Já que até o pastor está fumando, quem é ele pra me dar conselhos dizendo que preciso largar a bebida?! Vou continuar tomando minhas pingas depois do serviço. Afinal, eu me garanto e quando quiser consigo parar.” – disse o marido alcoólatra de uma irmã chamada Maria José que andava desviado da igreja e já tinha agredido a esposa duas vezes.

Secretamente o conselho da igreja reuniu-se para discutir a situação de Oseias sem nem ao menos ouvi-lo previamente. O líder do coral assim propôs aos presentes:

- “Irmãos, vocês sabem que os problemas do pastor com o filho têm causado terríveis danos à imagem da igreja. Pessoas estão pedindo o desligamento do rol de membros e andam até comentando que o chefe da congregação passou a fumar. Agente sabe não ser isto verdade, mas o fato é que aquela foto divulgada no Facebook tem causado um impacto negativo bem forte e a situação está ficando cada vez mais difícil de se explicar. Até a denominação acabou levando má fama! Sendo assim, proponho convencermos o nosso mano Oseias a pedir por ele mesmo um afastamento provisório afim de cuidar da família e que escreva uma carta justificando o porquê de ter comprado aquele pacote de cigarros.”

O parecer foi do agrado de todos exceto da própria irmã Maria José esposa do homem alcoólatra. Sendo ela uma liderança feminina dentro da igreja, reagiu nestes termos:

- “Discordo de todos vocês! A Bíblia ensina que o poder de Deus aperfeiçoa-se na fraqueza. A cada pregação do pastor, tenho aprendido mais sobre a graça de Deus. Mesmo convivendo com o vício, a ignorância e a agressividade do meu marido, sei que ele é responsável por suas escolhas e está usando como desculpa a imputação injusta feita ao nosso irmão Oseias. E, ainda que ele comprasse cigarros para si, compreendo que cada qual tem suas próprias dificuldades pessoais, não sendo o uso de cigarros algo que desabone sua conduta. Logo, cabe à Igreja incluir as pessoas no Reino de Deus ao invés de afastá-las. Seja do convívio ou mesmo do ministério.”

Ainda assim, o conselho eclesiástico preferiu dar ouvidos às palavras ministro do coral e fechou a sua posição por decisão da maioria antes da reunião formal com o pastor que foi extraordinariamente convocada para apurar sua conduta tida como indecorosa.

Notificado então do que se tratava, Oseias orou e, apresentando-se ao conselho, deu a seguinte resposta aos presentes:

- “Irmãos, visto que não é do agrado de Deus que eu me afaste do ministério pastoral, pois o Senhor tem me usado para a sua obra até mais intensamente do que antes destes últimos problemas, não vejo razões para afastar-me das funções que exerço aqui. Sempre que visito meu filho no presídio, falo do amor de Cristo para muitos jovens que estão lá perdidos e percebo que eles estão se convertendo. Amanhã mesmo faremos um culto lá na cadeia e convido vocês a virem comigo.”

Um senhor enraivecido e que era membro antigo da igreja interrompeu com arrogância:

- “O irmão não vai fazer mais nenhum trabalho em nome da nossa igreja! Um pastor que entra num bar de prostitutas para manter o vício do seu filho desviado não está demonstrando fé no poder divino. Mesmo assim, este conselho está te dando a chance de se sair bem desta situação, afastar-se por uns tempos do ministério e recomeçar tudo em outra congregação fora da cidade. Propomos que você mesmo peça o afastamento das funções eclesiásticas que exerce e continuaremos a pagar o seu salário por um ano até que a convenção te indique para assumir um novo serviço. Também terá que escrever uma carta explicando porque comprou cigarros para seu filho aquele dia assumindo seu lamentável erro.”

Replicou Oseias:

- “Caro irmão, sei que o senhor é um dos fundadores daqui, mas eu obedecerei a Deus primeiramente e estou de consciência limpa quanto a ter comprado cigarros para meu filho, pelo que vou continuar fazendo isto enquanto for necessário, inclusive indo naquele mesmo bar onde um dia desses uma jovem largou a prostituição para seguir a Jesus. Também um bêbado arrependeu-se de sua vida errante e disse que pretende visitar nossa igreja. Ora, sinceramente não desejo que meu filho continue viciado, nem mesmo em cigarros que, como bem sabemos, fazem mal à saúde. Só que, por enquanto, não vejo outra razão para agir diferente.”

A reunião durou até tarde e terminou com Oseias sendo excluído das funções de pastor e, depois disto, ele mesmo pediu sua retirada do rol de membros acompanhado pela irmã Maria José e também pelas professoras da escola bíblica dominical das crianças. Em seu lugar, ficou o líder do coral até que a convenção das igrejas enviasse outro pastor substituto. Nenhum detalhe foi dito à congregação sobre o que ocorreu e as lideranças optaram por abafar os acontecimentos com o intuito de evitar comentários a respeito da saída do pastor.

Contando apenas com o seu salário na faculdade, Oseias precisou sobrar a carga de trabalho dando aulas pela manhã e à noite. Continuou serrvindo a Deus e celebrando cultos aos domingos dentro de sua própria casa na companhia de uns poucos irmãos corajosos. Jamais abandonou o filho e, todo dia de visita, ele e um grupo tomavam um ônibus até o presídio trazendo bíblias, lanches e um pacote de cigarros.

No mês seguinte, o grupo informal de cristãos reuniu-se para a primeira Ceia e, no final do culto, a irmã Maria José levantou uma questão:

- “Amados! Um novo mês acaba de começar e até agora nada foi falado sobre o que faremos com os nossos dízimos e ofertas. Amanhã a Prefeitura depositará o meu pagamento de enfermeira do posto de saúde e quero saber o que devo fazer com aquela parte do dinheiro que costumava contribuir para a igreja?”

Oseias respondeu:

- “Minha prezada irmã! No momento, esta congregação não necessita de nenhum centavo para se manter. Dobrei o meu salário trabalhando na faculdade e este acréscimo representa muito mais do que a antiga congregação pagava e mais o que economizaria caso não tivesse aluguel, visto que estou sendo promovido a diretor. Os gastos do nosso grupo, por enquanto, não são mais do que os humildes elementos desta ceia que acabamos de fazer, coisas que resolvemos com uma vaquinha dividindo as despesas de dez reais do supermercado. Então, como não tenho ainda um propósito em vista, sugiro que cada irmão, por enquanto, destine um percentual de sua respectiva renda para ajudar o próximo que cruzar seus caminhos. Pode colaborar também com um orfanato, um asilo, um missionário em outro país ou até mesmo aquela instituição de ajuda às pessoas portadoras de necessidades especiais que fica na esquina do Fórum com a praça.”

Mais uma vez a irmã Maria José interveio:

- “Irmão Oseias, eu discordo de você sobre esta ausência de propósitos. A nossa igreja já tem um grande ministério acontecendo que o irmão talvez não tenha percebido. Todas as vezes quando vamos ao presídio visitar seu filho, mais e mais pessoas estão entregando suas vidas a Cristo, dentre os quais encontram-se homens totalmente esquecidos por suas famílias. Então, proponho que passemos a contribuir trazendo para cá pacotes de cigarros, além de roupas e alimentos não perecíveis para as próximas visitas na cadeia.”

A proposta da irmã Maria José foi aprovada por unanimidade e ninguém se opôs à idéia de que parte das ofertas fossem apresentadas através de pacotes de cigarros. Com isto, novos irmãos cujos partentes tinham problemas com álcool, drogas ou estavam presos, foram juntando-se ao grupo que, dentro de pouco tempo, virou uma associação de pais e amigos cristãos de dependentes químicos. Ou seja, uma verdadeira Igreja em ação.


OBS: Ilustração extraída de http://www.ufv.br/dah/tabaco/04.html 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A vergonha de Cristo pela Igreja

Alguma vez em sua vida você carregou uma má fama por algo que não cometeu? Como se sentiu?

É muito ruim ser injustiçado dessa maneira. Fico imaginando a situação de muitos pais cujos filhos escolheram o caminho errado em que, ao invés da sociedade compreender melhor a dor daquela família, ainda penaliza moralmente os genitores de um jovem viciado. Penso também no cônjuge que é frequentemente envergonhado por atitudes escandalosas de seu marido ou esposa como se ele fosse cúmplice de obras más.

São situações bem difíceis de suportar ainda mais porque muitas pessoas no meio social preferem afundar o outro ao invés de darem a mão. Se o ente querido foi visto num bar enchendo a cara de cachaça, a língua maligna da sociedade ainda diz que tal homem ou mulher rouba, prostitui-se, provoca confusões, usa outros tipos de drogas, é preguiçoso, faz dívidas e não paga, tem caráter ruim, etc.

Nestas horas, lembro-me de Jesus e do castigo infame que este Justo suportou pelas nossas transgressões sendo punido como um malfeitor.

Jesus não cometeu nenhum pecado que justificasse a sua prisão, condenação, açoites ou morte de cruz. Se o seu julgamento foi antecedido pelo episódio da expulsão dos vendilhões do Templo (Mc 11.15-19), este tratou-se de um ato de justiça, consubstanciado em ira santa, e que se reporta aos protestos dos antigos profetas de Israel (Jr 7.1-15; 2Cr 24.20-21). Pois nenhum crime pôde ser imputado a sua pessoa. Jesus apenas fez o bem!

Foi pelo pecado de sua nação e de toda a humanidade representada na injusta sentença de Pilatos que Jesus sofreu um dos mais vergonhosos castigos. Ali, no Gólgota, nosso Senhor amargou a dor do abandono, do escárnio, de estar sendo apenado pelo próprio Deus e foi tratado como um pecador. Foi como se um pai íntegro de um filho problemático levasse um cuspe ou uma bofetada na cara por resolver amar até o fim a sua semente.

Recentemente, um homem honesto começou a ser mal falado por seus parentes e pessoas próximas porque decidiu continuar amando sua esposa apesar da conduta escandalosa dela. Andando bêbada pelas ruas, a mulher chegava tarde em casa, adotou uma conduta ridícula e contou para terceiros coisas da intimidade do casal.

Pois bem. Na cabeça da sociedade estava configurada uma possível situação de infidelidade matrimonial. Já o marido, não se convencendo cabalmente disto, optou por perdoar mantendo o seu casamento, mas passou a ser visto até como alguém que estivesse se aproveitando de uma situação para participar de supostas imoralidades sexuais junto com a sua companheira. Diante de mentes bem maliciosas e julgadoras, a sua reputação foi a zero, tornando desacreditado o ministério por ele desenvolvido.

Acontece que Jesus sofreu muito mais do que isso! Em seu tempo, o fato de alguém sofrer uma morte vergonhosa como a sua seria sinal de punição divina. Na mentalidade de sua geração, não muito diferente da visão dos amigos de Jó, o infortúnio era interpretado como sinal de um castigo dos céus contra o pecador. Logo, se o nosso Senhor foi condenado aos trinta e nove açoites e à crucificação seria porque, no entendimento da maioria, ele estaria recebendo a recompensa por erros praticados.

Incrível como que, na cruz, Jesus ficou despojado de tudo o que tinha. Os soldados romanos deixaram-no completamente nu (aquele paninho nos quadros e imagens sacras que os artistas põem sobre o local da genitália não condiz com a realidade), porém a sociedade despiu-o da honra. A sua miséria foi tanta naquela hora que até o valor de seu nome ficou esvaziado diante dos homens. Aliás, diga-se de passagem que, muitas das vezes, o único bem que resta ao pobre é o nome. Só que até isto foi tirado de Jesus durante o seu martírio.

“Depois de o crucificarem, repartiram entre si as suas vestes, tirando a sorte. E, assentados ali, o guardavam. Por cima de sua cabeça puseram escrita a sua acusação: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS. E foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita, outro à sua esquerda. Os que iam passando blasfemavam dele, meneando a cabeça e dizendo: Ó tu que destróis o santuário e em três dias o reedificas! Salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz! De igual modo, os principais sacerdotes, com os escribas e anciãos, escarnecendo, diziam: Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se. É rei de Israel! Desça da cruz, e creremos nele. Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus. E os mesmos impropérios lhe diziam também os ladrões que haviam sido crucificados com ele.” (Mt 27.33-44; ARA)

Todavia, Deus conhece os corações e sabe dos nossos mais profundos motivos quando fazemos escolhas. O mundo inteiro pode achar que estamos vivendo de maneira errada, mas o nosso Pai Celestial, que nos vê em segredo, pode realmente julgar se estamos sendo sinceros ou não. Aos olhos do Onisciente, o seu justo é visto como de fato é, de modo que mais importa receber o louvor de Deus do que a bajulação hipócrita dos homens.

Assim Deus ressuscitou a Jesus com o seu poder e lhe deu um nome acima de todos os outros. Assentado à direita do Onipotente, foi-lhe dado o senhorio e o messiado sobre toda a Terra para que diante dele se dobre todo joelho. No tempo certo, as nações estarão submetidas ao governo de Cristo e caberá à Igreja tomar a frente de todo esse processo. Será a tão aguardada manifestação dos filhos de Deus como nos ensina o apóstolo Paulo:

“Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados. Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus.” (Rm 8.17-19)

É certo que, em seus terríveis erros, até hoje a Igreja ainda continua envergonhando Jesus e seu santo nome. Por nossa causa, o Justo é blasfemado entre os que não obedecem à Palavra. Quando agimos mal, os inimigos da fé logo acusam a Igreja semelhantes o que fazem certas pessoas da sociedade com os pais, cônjuges e amigos de pessoas problemáticas:

“Vocês estão vendo esse casal de pastores ladrões detidos no aeroporto?! E o padre pedófilo que abusou do garoto?! Que coisa feia o comportamento daquela crente fofoqueira! Esse pessoal de igreja promete as coisas e não cumpre! Fulaninho se converteu e piorou mais ainda! Se seguir a Jesus fosse coisa boa, não haveria tantos escândalos no cristianismo...”

Ainda assim, Jesus não desistiu de sua Igreja! Nós podemos ser infiéis e reincidentes pecadores. Ele, no entanto, em seu terno amor, continua apostando na causa do Evangelho e na ideia de que gente falha, limitada e complicada, como é o nosso caso, algum dia ainda será capaz de dar muito fruto e de reinar com ele. Tanto é que os doze discípulos do Senhor eram homens comuns e até problemáticos nos relacionamentos dentro do grupo.

Mas glória ao Eterno porque fomos comprados por um alto preço. Trata-se de preço de sangue! Portanto, vamos honrar o nome de Jesus! Vamos buscar retribuir esse imenso amor demonstrado na cruz para que outras vidas também sejam incluídas no Reino de Deus e cada homem ou mulher neste mundo compreenda o seu verdadeiro papel diante da vida.

Que a graça do Senhor Jesus Cristo seja com todos!


OBS: A ilustração acima trata-se do quadro Cristo crucificado (1631) do pintor espanhol Diego Rodrigues da Silva y Velázquez (1599-1660), considerado o principal artista da corte de D. Filipe IV de Espanha.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Deve a igreja virar coisa descartada?

Sou um crítico da religião. Isto não nego. Mas eu não diria que o trabalho das igrejas, em sua totalidade, seja um "placebo", pois vejo grande utilidade em diversas atividades que os cristãos fazem. Penso que, se não fosse a formação religiosa de muita gente, teríamos talvez um número maior de jovens viciados em crack no nosso país.

E não é só isto!

Você já parou para pensar em quantos matrimônios não foram recuperados pelo excelente ministério Casados para sempre? Pois, mesmo com suas limitações, vejo bastante coisa positiva sendo feita.

Ora, mas que as igrejas são passíveis de críticas, não tenho dúvidas. Se o discurso dos padres e pastores já está ficando obsoleto, também concordo. Tanto é que minhas posições têm sido não apenas para que haja uma reforma na igreja, mas sim a construção de um novo modelo de ação que, ressignificando tradições, trabalhe os valores da cosmoética, promova a educação de adultos, leve esclarecimentos em várias áreas, etc.

Ontem mesmo eu estava conversando com uma de minhas tias (a irmã da mamãe), a qual contou-me ter deixado a Igreja Bethesda para congregar-se numa Presbiteriana tradicional lá em Copacabana por não concordar com o fato de estarem "mudando a doutrina", tipo trazendo gente de outras religiões para pregar lá e "aceitando homossexuais. "Até espíritas e muçulmanos teriam ido dar mensagens lá", comentou ela.

Resolvi, então, confrontá-la dizendo mais ou menos assim:

"Tia, o importante de tudo é o amor. Não é o fato de uma igreja ser mais tradicional ou outra moderninha que ela se tornará a congregação ideal já que todos os ministérios são falhos. Conheço quase nada do trabalho da Betesda para dizer algo bom ou ruim sobre eles. Porém, entendo que a missão cristã é justamente a de acolher pessoas de tudo quanto for tipo, com seus defeitos e problemas, e dialogar com as outras religiões na construção do Reino de Deus, o que não significa necessariamente aderir a um completo ecumenismo."

Prossegui defendendo que a atuação de uma igreja precisa ser multifocal. Pois não é só adoração e estudo da Bíblia que satisfaz! As pessoas precisam falar de cidadania, saúde física e mental, problemas da comunidade, promover ações sociais em áreas carentes e cuidarem dos pobres que fazem parte da própria congregação através de uma assistência verdadeira. E estas coisas, no meu ponto de vista, são tão importantes e necessárias quanto ler a Bíblia e orar.

Enfim, se o placebo eclesiástico tá fraco, que venhamos com o remédio ou com o tratamento certo, para que seja despertada a consciência das pessoas. E, antes de pensarmos que a religião vai impedir mudanças, acredito ser mais sábio dialogar primeiro do que sairmos atacando todas elas.

Atualmente, assim como Ricardo Gondim, Caio Fábio e outros pensadores, não me identifico mais com o movimento que se diz evangélico e nem sou católico. Porém, mesmo assim continuo disposto a dialogar com todos os grupos dos quais fiz parte e com as demais religiões, afim de convocar a todos para que participem da construção do Reino de Deus.

Abraços e tenham todos uma excelente semana.


OBS: A foto acima refere-se à igreja Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, situada na Praça Edmundo Rego, Grajaú, Zona Norte do Rio de Janeiro. Ou seja, trata-se do logradouro onde eu moro.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

“Curai os enfermos”

Ultimamente tenho pensado sobre os “dons de curar”, os quais podem ter se manifestado verdadeiramente nos primeiros momentos da história eclesiástica e no período bíblico.

Citando o Santo Irineu em seu livro Além de toda a crença, a historiadora Elaine Pagels trás informações de que os milagres talvez pudessem fazer parte do cotidiano da Igreja no século II ou, ao menos, integrassem os discursos dos primeiros padres:

“Curamos os doentes impondo as mãos sobre eles, e expulsamos demônios (...) Até ressuscitamos mortos, muitos dos quais continuam vivos entre nós e perfeitamente saudáveis”.

Ao comissionar os discípulos para uma espécie de estágio experimental, Jesus orientou-os a oferecer cura aos enfermos, o que consta no modo imperativo em alguns textos dos evangelhos:

“Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; de graça recebestes, de graça dai” (Mateus 10.8; ARA).

Novamente, após ter ressuscitado, Jesus dá a ordem evangelística aos seus seguidores (Marcos 16.15). Esta é acompanhada pela manifestação das atividades de cura, exorcismos e a fala de “novas línguas” (glossolalia?), além de uma proteção sobrenatural contra a ingestão de veneno ou picada de serpentes (versos 17 e 18).

Lendo os textos do Novo Testamento, podemos constatar que essas coisas teriam sido confirmadas tanto no ministério de Jesus quanto dos seus discípulos (ver livro de Atos dos Apóstolos). E, igualmente, nas passagens das Escrituras hebraicas (o Antigo Testamento), podemos encontrar profetas como Elias e o seu sucessor Eliseu agindo como canais de milagres para o povo de Israel, precedendo assim aos relatos dos Evangelhos.

Ainda criança, por absorver um pouco da visão do tradicionalismo católico (se bem que a minha família não era religiosa), eu aceitava os milagres de uma maneira muito restrita. Assistindo uns filmes sobre Jesus em épocas de feriados santos, a ideia que fazia era de que as curas de cegos e de paralíticos estivessem relacionadas à bondosa pessoa de Jesus por ele ser considerado Deus. Porém, como o Cristo da Igreja foi morto e, quarenta dias depois de sua ressurreição, “subiu aos céus”, meu pensamento era que as curas prodigiosas só ocorreram mesmo durante o curto tempo da encarnação.

Quando tinha 10 anos e estudava catecismo num colégio de freiras de Juiz de Fora para poder receber a “primeira comunhão”, a vovó materna tornou-se frequentadora assídua da Igreja Universal do Reino de Deus. Nas férias de meio de ano de 1986, ao passar umas semanas em sua casa no Rio de Janeiro, fiquei perplexo com as supostas cenas de curas e de exorcismos presenciadas nas reuniões da IURD. E ali foi-me apresentada uma outra ideia de milagres como sendo um acontecimento contínuo, amplo e igual aos tempos de Jesus. Deste modo, as curas propagandeadas pelo bispo Edir Macedo na rádio Copacabana pareciam manifestar-se poderosamente nos prédios dos antigos cinemas comprados pela seita, como se a igreja dele fosse a verdadeira.

Apesar de ouvir muitos “testemunhos de fé” sobre cura divina nos cultos e nas pregações da IURD, nada de especial ocorria comigo durante os momentos de “oração forte” aos quais me submetia junto com a vovó. Ao comando do pastor, eu colocava aos mãos sobre os olhos e aguardava ficar livre da miopia e dos óculos dentro de instantes. Só que nada acontecia e eu me sentia até rejeitado por Deus quando abria as pálpebras sem conseguir enxergar com nitidez os objetos e pessoas mais distantes de mi. Ficava então indagando por que outros recebiam as bençãos e eu não. E, na minha mente, considerava as hipóteses sugestionadas pelos líderes e mebros da seita de que estivesse "faltando fé" pra receber a cura.

De lá pra cá muita coisa mudou e fui amadurecendo espiritualmente, tendo me interessado bastante por estudar a Bíblia. Conheci o entendimento de outras igrejas evangélicas mais céticas às atividades de curandeirismo dos pentecostais e que, neste ponto, não se diferem muito do tradicionalismo católico. Fui pra uma igreja batista renovada que não aceitou os batismos católico e da IURD, de modo que passei pelas águas mais uma vez. E, recebendo uma sólida formação doutrinária ali, passei a aceitar a ocorrência de milagres nos dias de hoje, desde que condicionados à vontade divina e que se operariam em contextos levemente distintos daqueles vistos nos meios neo-pentecostais.

Recordo-me do dia em que a então missionária Valnice Milhomens visitou aquela igreja em que eu, desde os tempos da IURD, estava super ansioso para ser agraciado com o “batismo no Espírito Santo”, o que, por uns tempos, via até como um pré-requisito para a salvação. Na ocasião, orei ardentemente entre pessoas que se amontoavam e se apegavam umas nas outras. Aí, quando menos dei conta, estava eu deitado no chão como se uma força poderosa vindo de cima tivesse me derrubado. Nesta hora, uns irmãos vieram orar impondo as mãos sobre minha cabeça para que eu “falasse em línguas”. Só que não houve jeito, mas saí do culto sugestionado que teria recebido o tal batismo.

Semanas depois, fui duvidando daquela experiência no meu íntimo. Cheguei ao ponto de suspeitar que alguém do meu lado tivesse me movimentado enquanto orava na “busca do Espírito”, de modo que a tontura pudesse ter decorrido de uma situação indutiva sem nenhum acontecimento sobrenatural. E, por muito tempo, este questionamento colocou-me em conflitos com a minha fé de adolescente imaturo.

Não faz muito tempo, um jovem perguntou-me pela internet sobre o que consistiam as “línguas dos anjos” das quais Paulo se refere na epístola aos Coríntios (1Co 13.1).

Seriam tais línguas realmente um fato sobrenatural ou um modo de expressão usado pelo autor para escrever sobre o amor? Foi mais ou menos isto que ele quis saber conforme o teor da mensagem escrita em internetês:

“eu tenho duvida a respeito ao dom de linguas q paulo fala pq acredito q seja outro idioma pq paulo andou por varios lugares c idiomas diferentes pq acho q hashalabasuriancas eh viagem kkk e lingua dos anjos acredito q paulo fala metaforicamente + paulo fala q eh p edificaçao propria + como uma pessoa vai edificar a si mesma se ela mesma n entende o q ela fala? + paulo fala p a pessoa orar p interpretar e q a pessoa fala misterios a Deus tipo e Paulo fala q haja interprete p outras pessoas serem edificadas tipo acredito q ou seja uma parada mt sobrenatural ou eh um idioma jah existente, qual a sua opiniao em relaçao a isso?”

Respondi então ao rapaz com as palavras a seguir transcritas do meu Facebook, tendo alertado-o que, embora pudéssemos compreender melhor pela experimentação, eu duvido de muitas das manifestações que se vê por aí no meio pentecostal:

“Sinceramente não tenho muito a opinar sobre algo que careço de experimentação. Muita coisa sobre o cristianismo primitivo perdeu-se durante a história eclesiástica, assim como dos antigos hebreus (p. ex. o "transe profético" do livro de I Samuel). Existiu de fato uma "língua dos anjos" ou o autor de 1Coríntios fala apenas metaforicamente no cap. 13 sobre a excelência do amor? Não sabemos. Logo, restam-nos apenas inconclusivas hipóteses. Abraços.”

Voltando à questão da cura e refletindo sobre o que diz a Bíblia, eis que, no capítulo precedente ao amor, Paulo faz uma lista de dons espirituais concedidos por Deus. Ali, o apóstolo menciona os “dons de curar” e as “operações de milagres”, além da “variedade de línguas” e a “capacidade de interpretá-las” (ver 1Co 12.8-10), dando a entender que também são capacidades buscadas pelas próprias pessoas da congregação (verso 31a).

Ora, o que significa “procurar os dons espirituais”? E em que isto poderia ser aplicado em relação à ordem dada por Jesus para que os seus discípulos curassem os enfermos?

Sem dúvida que o emprego dos dons espirituais deve estar voltado para a satisfação das necessidades das pessoas pertencentes a uma comunidade eclesiástica. Tanto é que, no capítulo 14 da epístola, Paulo orienta os seus destinatários a buscarem o “dom de profecia” numa comparação com a utilidade (circunstancial?) das línguas. E o capítulo 13, situado entre os direcionamentos do 12 e do 14, esclarece sobre o contexto amoroso no qual as atividades espirituais devem ser desenvolvidas.

Mesmo sem experimentar ministerialmente os “dons de curar” faço aqui algumas suposições sobre o que vem a ser isto.

Estaria este dom relacionado à percepção ou ao diagnóstico do estado de saúde físico, mental e espiritual da pessoa enferma?

Por acaso o desenvolvimento de um dom de cura não teria mais a ver com a sensibilidade de quem se dispõe a promover a saúde total dos outros?

Pode-se dizer que, em suas origens, os estudos e práticas da Medicina sempre estiveram ligados à busca de explicações sobrenaturais, tal como fazia Hipócrates que viveu entre os anos 460 a 377 antes da era comum, assemelhando-se de certo modo com a percepção dos hindus e chineses. Antes dele, magos egípcios tentavam curar pessoas através de encantamentos e práticas baseadas na tradição empírica. E, na Bíblia, tem-se o diagnóstico da “lepra” pelos sacerdotes hebreus através da observação (ver capítulo 13 de Levítico).

Neste sentido, eis que, no começo da era cristã, mesmo com os relativos avanços obtidos pelos gregos sucessores de Hipócrates, a saúde humana ainda era relacionada com a fé nos deuses, com as bênçãos e maldições decorrentes da obediência aos preceitos religiosos, a prática de rituais, sacrifícios, uso de amuletos, etc. No próprio Judaísmo antigo, podemos constatar pela leitura bíblica de que a doença era encarada como uma situação decorrente do pecado. Tanto é que, no capítulo 9 de João, o autor mostra os discípulos perguntando a Jesus se a enfermidade de um cego de nascença seria decorrente de seu próprio pecado ou de seus pais. Já em outras situações descritas pelos evangelhos, tem-se uma ligação direta entre um assédio demoníaco e o estado de saúde do sujeito.

Felizmente a Medicina avançou muito. Tanto em termo de diagnóstico quanto aos métodos de tratamento hoje empregados. Desvinculado dos dogmas religiosos, o saber científico contribuiu para libertar a humanidade de terríveis preconceitos e das maneiras equivocadas de se lidar com os problemas. Porém, a grande maioria dos nossos doutores parece ter perdido aquela sensibilidade que poderíamos chamar de visão holística, alienando-se quanto à dimensão espiritual. E isto se vê claramente quando os médicos entopem os seus paciente de remédios. Principalmente os antidepressivos e drogas para aliviar dores ou inflamações.

Acredito que, mesmo nos dias de hoje, os “dons de curar” continuam tendo lugar na nossa sociedade, funcionando como uma respeitável leitura da realidade total com possibilidade de se harmonizar com a ciência. Pois, ajudar uma pessoa a tomar consciência da relação que há entre o seu modo de vida errado e a enfermidade pode significar a cura dos doentes como talvez acontecesse nos tempos bíblicos.

Logicamente que há muita enganação nos meios daqueles que dizem oferecer curas espirituais ou falam em “métodos alternativos”. Ainda mais quando a proposta está baseada na concessão de resultados imediatos ou em barganhas financeiras, criando expectativas em torno de uma ação mágica. Uns usam os nomes de Jesus, Maria, de anjos, entidades das religiões afro, cristais, energia cósmica ou “cirurgias” de espíritos “iluminados”. Porém, há sempre uma negação da graça nesses casos.

Lembrando o já citado versículo do Evangelho de Mateus, de graça nós recebemos e, de graça, devemos compartilhar. Logo, se o conhecimento foi dado graciosamente por Deus, o exercício dos dons de curar jamais deve ser transmitido em cursos com fins lucrativos, sendo que a transmissão de conhecimentos sobre cura precisa estar baseada no amor e buscando sempre o bem das pessoas da comunidade na qual nos encontramos.

Espero que a Igreja deste século XXI possa voltar-se com sinceridade e seriedade para estudos sobre a cura para que, deste modo, comece a oferecer aquilo que de alguma maneira pode ter sido parte integrante das boas novas de Jesus.


OBS 1: A ilustração acima retrata a cura de um cego feita por Jesus. Foi pintado com óleo sobre madeira, por volta da metade do século XVII, pelas mãos do pintor francês Eustache Le Sueur (1616–1655). A obra encontra-se na galeria de imagens do palácio de Sanssouci, situado em Potsdam, Alemanha.

OBS 2: Este texto de minha autoria foi inicialmente publicado no blogue da Confraria Teológica Logos e Mythos em http://logosemithos.blogspot.com/2012/02/curai-os-enfermos.html

sábado, 30 de julho de 2011

Por uma igreja que busque a pesquisa e a reflexão!

Ora, estes de Bereia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.” (Atos dos Apóstolos 17.11; ARA) - destacou-se


Na noite deste último dia 29/07/2011, participei de uma acalorada reunião na Igreja Batista da Serra, aqui em Nova Friburgo, onde foram tratados vários temas internos da congregação, dentre os quais o horário do culto dominical. Ao final, o pastor presidente, o irmão Robson Rodrigues, propôs que refletíssemos seriamente sobre que tipo de igreja queremos afim de que o debate tivesse a sua continuidade no próximo encontro, no culto de domingo pela manhã.

Como tem ocorrido comigo ultimamente, venho sentindo a necessidade urgente de que as pessoas dentro das suas igrejas tornem-se capazes de praticar o exercício do discernimento de uma maneira prática e aberta, aplicando-o em todas as esferas de suas vidas, bem como no ambiente coletivo.

Desde julho do ano passado, tenho experimentado o prazer de me relacionar com um grupo e irmãos cujo trabalho é fruto de uma interessante desconstrução doutrinária. Há cinco anos, Robson e sua esposa Rosane iniciaram uma proposta de igreja bem inovadora aqui na cidade, propondo repensar a ideia de culto a Deus, questionando a submissão à autoridade pastoral (todos somos ministros da obra divina), revendo práticas como o “apelo à conversão”, além do tradicionalismo religioso. E muitas destas iniciativas foram inspiradas nos excelentes estudos de Frank Viola, autor do brilhante livro “Reconsiderando o Odre”.

Confesso que, juntamente com as ideias do Frank Viola, tenho observado as propostas de diversos outros autores e blogueiros igualmente envolvidos com a desconstrução do conceito de Igreja. E, graças a essas oportunidades, pude romper com muitas prisões do fundamentalismo religioso, sendo que ainda continuo lutando em relação a determinados posicionamentos integrantes da minha formação cristã anteriormente elaborada desde a adolescência.

Atualmente, uma das coisas que eu busco é provar o conteúdo da mensagem bíblica em razão de minha consciência, procurando entender e dialogar com o texto ao invés de sair aplicando irrefletidamente o preceito. Só que este meu comportamento chega a surpreender até as pessoas que se envolveram com o tal processo de desconstrução dos conceitos religiosos. Principalmente para aqueles que buscam absolutizar a sua própria concepção da verdade e tropeçam sempre naquela velha falácia do argumento circular ou petição de princípio, ao utilizarem a mesma conclusão como premissa (algo como afirmar que isto ou aquilo seria errado simplesmente porque a Bíblia diz que é).

Ainda neste mês, estive participando num interessante debate sobre a alteridade no blogue “Confraria dos Pensadores Fora da Gaiola” em que o assunto acabou sendo direcionado para um detalhamento do tema principal. Falamos então sobre a aceitação da homossexualidade nas igrejas (tema sobre o qual ainda não tenho posições totalmente definidas).

Reiteradamente tentei explicar os meus motivos baseados na Bíblia segundo o qual ponderava ser pecado duas pessoas do mesmo sexo viverem numa condição análoga à conjugalidade, ainda que me posicionando favorável ao reconhecimento estatal da união estável homossexual. Então, um dos participantes, que também é o autor do artigo, compartilhou algumas palavras que me fizeram refletir ainda melhor sobre a maneira como tenho buscado me firmar na autoridade bíblica, baseando-se numa fantástica leitura das palavras de Jesus no célebre “Sermão da Montanha” (Mateus capítulos 5, 6 e 7):


“Agora, respondam-me com sinceridade: A igreja está preparada para aceitar um homossexual em seu meio, sem OPRIMÍ- LO? Como vocês definem o exercício da alteridade entre o HOMO e o HÈTERO, sem citar o bordão: “ A Bíblia diz...”, quando se sabe que a ALTERDADE diz: “ Eu porém vos digo...” ???”
(réplica do autor Levi Bronzeado aos comentários que fiz em seu artigo “Breves Considerações Sobre ALTERIDADE”, extraído de http://cpfg.blogspot.com/2011/07/breves-consideracoes-sobre-alteridade.html)


Esta colocação do instigante debatedor realmente me conduz a um caminho que considero mais apertado e estreito do que a larga estrada da bibliolatria onde a reflexão humana torna-se totalmente dependente das letras de um texto que se considera sagrado. Isto porque, ao renunciar à auto-pesquisa e à reflexão, o homem acaba cometendo um terrível suicídio intelectual e não encontra outro meio de respostas senão terceirizar as suas escolhas pessoais, permitindo que líderes eclesiásticos pensem por ele sobre o que vem a ser o certo e o errado, segundo a Bíblia.

Tenho pra mim que, se o Criador nos dotou da capacidade de pensar e refletir é porque o homem não deve se furtar ao estabelecimento de conexões lógicas entre as premissas e a conclusão do seu argumento, procurando aplicar uma leitura mais raciona às suas percepções, abandonando os dogmas religiosos que foram construídos por muitos séculos na história do cristianismo. Logo, o leitor consciente deve discernir cada texto bíblico e verificar se as coisas são, “de fato, assim”, tal como os crentes na cidade de Bereia.

Certamente que manejar a arte da dúvida em relação á Bíblia e buscar com avidez a essência do ensinamento da Palavra de Deus a ponto de romper com a rigidez daquilo que está escrito, não é tarefa fácil. Ainda mais quando recebemos uma formação que nos dificulta a olhar para dentro de nós mesmos, sem medo, nem máscaras, infantilidades, fantasias ou fugas, visto que, lamentavelmente, muitos de nós (inclusive eu) ainda estamos mais apoiados naquilo que muitos denominam de “crença na crença” ao invés de dependermos unicamente da mesma inspiração divina que um dia conduziu os profetas e demais autores das Escrituras.

Graças às contradições dos fatos da vida, os quais colocam em dúvida as dogmatizadas concepções religiosas, parece que Deus nos impulsiona a não tornarmos a razão dependente da literalidade bíblica, da tradição eclesiástica ou da autoridade teológica dos “doutores da lei”. Assim, ao invés de nos apegarmos às concepções absolutizadas da inalcançável Verdade, precisamos encarar o nosso neo-fobismo e mergulharmos fundo na auto-pesquisa. Devemos deixar de lado as decisões motivadas pela emoção e agirmos com mais racionalidade, dando lugar à inteligência evolutiva auto-consciente de seus erros, livre de culpas e com disposição a reparar o mal praticado semelhante à atitude de Zaqueu. Sempre com responsabilidade e maturidade ética que não esteja mais condicionada ao aprisionador sistema de recompensas e punições das religiões.

Que Deus possa acompanhe a Igreja em sua caminhada e ilumine os nossos olhos pela sua inspiradora instrução manifestada em cada consciência!

terça-feira, 24 de maio de 2011

A Igreja precisa influenciar e transformar a sociedade onde se encontra!

"A igreja precisa de homens sem a fantasia do diploma de teologia e com a certeza diplomada pelo conhecimento do Deus da teologia."
(trecho dos comentários do Pr. Newton Carpinteiro na postagem "Minha agenda na Paraíba para o período de carnaval" no Blog do Ciro)


A última vez que preguei na igreja, aqui em Nova Friburgo (RJ), dia 06/03/2011, eu me propus não ficar gastando o meu tempo e o das pessoas com a transmissão de conhecimentos teológicos na reunião daquele domingo. Surpreendi-me com a boa presença de jovens na igreja durante um culto ocorrido durante o feriado de Carnaval e com a ausência do nosso amado pastor-presidente Robson Rodrigues, o qual precisou viajar com a família por motivo de saúde de seu sogro.

Neste ano, minha cidade havia resolvido deixar de lado a fantasia carnavalesca e se pôs de luto pelas centenas de mortes ocorridas na tragédia climática de 12/01 na Região Serrana fluminense, a qual abalou o país com notícias que permaneceram como destaque diário na mídia por duas semanas. E a decisão de não realizar o Carnaval em 2011 pela Prefeitura (não demonizo a festa), tornou-se bem adequada ao momento triste que estamos vivendo coletivamente, visto que é tempo de chorar, não de rir.

Antes de pregar naquela noite de domingo, havia refletido junto com minha esposa sobre o que dizer num momento difícil desses, visto que fazia menos de 02 (dois) meses das chuvas que arrasaram a região serrana do Rio de Janeiro. Então ela me ajudou com uma frase que traduz reconstrução e união. E, sem muitos "logismos", procurei assim transmitir uma mensagem que se mostrasse prática para aquele público ali presente sendo que, no final, resolvemos orar por necessidades específicas de cada pessoa ali presente.

O ânimo que precisamos para reconstruir Nova Friburgo é algo que me fez lembrar das palavras ditas por Deus a Josué antes da conquista de Canaã pelos israelitas, quando o Deus Eterno lhe exortou:

"Seja forte e corajoso, porque você conduzirá este povo para herdar a terra que prometi sob juramento aos seus antepassados" (Js 1.6; tradução da NVI)

Lembrei-me também da situação das tribos de Ruben e de Gade que, antes de Israel tomar posse da Terra Prometida, já tinham se estabelecido na Transjordânia (terras situadas na margem oriental do rio Jordão), mas com o compromisso assumido com o restante da nação israelita de parmanecerem lutando pela conquista de Canaã:

"Não retornaremos aos nossos lares enquanto todos os israelitas não receberem a sua herança". (Nm 32.18; NVI)

Felizmente, o bairro Cascatinha, onde fica a minha congregação, assim como várias outras localidades de Nova Friburgo, não foi atingido pela catástrofe. Porém, penso que todas as comunidades devem participar ativamente do processo de reconstrução da cidade e não se omitirem. Logo, vi alguma pertinência quanto à atitude solidária dos rubenitas e dos gaditas no texto que se encontra em Bamidbar (Números) que é o quarto livro de Moisés, da Torah.

Atualmente já fazem algumas semanas e temos tido o prazer de receber aqui uma equipe de voluntários da JOCUM, sigla que corresponde à uma denominação evangelística que é "Jovens Com Uma Missão". Na semana passada, este grupo esteve num dos bairros mais atingidos pela catástrofe de 12/01 que foi a comunidade de Córrego Dantas. Ali aqueles rapazes e moças oriundos de diversos lugares do país (havia também uma americana no meio deles) puderam participar do processo de reconstrução da localidade e compartilhar da alegria estampada nos rostos de seus moradores em ver suas casas sendo limpas da lama da enchente mas que agora estão sendo reparadas e pintadas.

Aqui em Nova Friburgo, a Igreja de Cristo está tendo uma oportunidade bem distinta de amadurecer, crescer, atuar e influenciar a apática sociedade onde se encontra através do amor que vem de Deus. Temos hoje a possibilidade de trabalharmos solidariamente pelas vítimas dessa tragédia e nos interessarmos mais pela participação política, fiscalizando os recursos públicos, questionando as autoridades, denunciando a corrupção e nos interessando mais pelas coisas espirituais.

Ampliando este entendimento para uma realidade mais global, acho que é isto que a Igreja no mundo inteiro precisa fazer! Temos que ser agentes de transformação e de fato fazermos diferença no meio onde nos encontramos, coisa que os teólogos da prosperidade e do entretenimento geralmente não pregam.

Abraços fraternos e que Deus nos guie nesta jornada, renovando o amor em cada coração para que não venhamos a nos esquecer do nosso próximo cuidando só dos interesses próprios.

domingo, 8 de maio de 2011

Seguir a Cristo mesmo na adversidade

Pode-se dizer que ainda é recente a decepcionante atuação da Igreja europeia durante o contexto do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial. Tratou-se de uma época em que as instituições religiosas (católicas e também protestantes) silenciaram-se diante das brutalidades praticadas por Hitler.

O filme Amém (2002), dirigido por Costa-Gavras, retrata muito bem a omissão dos cristãos alemães quanto às pretensões e atrocidades do Regime Nazista em que o Papa Pio XII decidiu por não manifestar-se abertamente contra o genocídio dos judeus. Porém, contrariando a inoperância das instituições do cristianismo, houve indivíduos que não negaram sua fé e tentaram atos heroicos isolados como fez, por exemplo, um padre jesuíta italiano, personagem do filme que, desiludido com a omissão do Vaticano, optou pelo martírio no campo de concentração.

Refletindo sobre esta triste página da história eclesiástica, ocorrida há menos de um século, percebo o quanto é desafiador seguir a Cristo contrariando o jogo sujo do poder político e preservarmos a fé através de atitudes ousadas. Pois vejo que, nestas horas, o nosso discurso é provado.

Atualmente, em Nova Friburgo, vejo que a Igreja local enfrenta o seu momento de prova em face do jogo das autoridades municipais e regionais. Meses após a maior tragédia climática da história da cidade, pessoas ainda estão vivendo dentro de abrigos, a construção de casas populares continua sendo promessa só dos governantes, os donativos para as vítimas não são distribuídos como deveriam e políticos de má-fé ainda tentam tirar proveitos eleitorais com esta situação de necessidade.


Diante de uma situação destas, como deve agir a Igreja? Calar-se como tem feito na maioria das vezes? Ou tomar o caminho da Cruz protestando publicamente mesmo que a posição assumida lhe custe a perda de certos benefícios ou privilégios de seus líderes?

Embora hoje não haja mais uma polícia secreta a exemplo do que ocorreu no Regime Nazista, sabemos que existem outros mecanismos de controle e repressão manipulados pelas autoridades na tentativa de silenciar a voz profética.

Numa cidade pequena como Nova Friburgo, quantos pastores não trabalham para uma Prefeitura ou têm parentes que dependem de um cargo no governo municipal?

Quantos líderes religiosos não têm interesses relativos às próximas eleições?

Quantas igrejas não buscam conseguir espaços na mídia para suas programações religiosas através do relacionamento com políticos?

Quantos líderes não dependem da preservação de sua boa imagem perante a opinião pública?

Ora, será que a Igreja de hoje está realmente disposta a passar por críticas, calúnias, difamações, injúrias, sofrer vergonha e falta de assistência oficial por amor a Cristo?

Talvez muitos pensem que suportam tudo pela fé que confessam em Deus e nos fundamentos do cristianismo. Porém, Jesus disse que quando praticamos algo em benefício dos "pequeninos" é a ele que estamos fazendo. E, quando negamos nossa assistência às pessoas necessitadas, estamos deixando de assistir o próprio Cristo.

Sinceramente, ando triste com a atuação da Igreja friburguense pois me parece que mais uma vez na história estamos deixando passar a oportunidade de nos conformar com os sofrimentos de Cristo.

Quatro meses depois da tragédia de 12 de janeiro, vejo as instituições retornando às suas atividades rotineiras como se nada tivesse acontecido. Lamentavelmente observo líderes mais uma vez promovendo a alienação do povo e, frequentemente, ainda ouço pessoas ignorantes querendo atribuir a causa da catástrofe a atos individuais isolados como se Deus tivesse resolvido castigar a cidade por causa do desejo sexual das pessoas, por estas terem optado por um modo de vida mais secularizado, ou pela ausência delas nos cultos eclesiásticos dentre outros argumentos proselitistas que não enfrentam o real problema.

Sinceramente, não desprezo o recado que a tragédia nos mandou visto que para mim cada acontecimento é rico em significado, mesmo os mais tristes. E, sem dúvida que, por trás dos desabamentos, existe não só o fato natural como também o nosso lado ético em relação à natureza e ao direito social do nosso próximo considerando que o Poder Público até hoje nega o direito das pessoas habitarem as áreas mais propícias para moradia do espaço geográfico em razão da especulação imobiliária. Isto sem nos esquecermos da falta de consciência do eleitor e de sua trágica omissão.

Minha oração é que, neste momento, a Igreja em Nova Friburgo desperte, não entre no jogo sujo da política e se lembre da sua missão profética, não deixando de denunciar as irregularidades na nossa cidade.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Por que falta autoridade às igrejas nos dias de hoje?


“Ao anjo da igreja em Filadélfia escreva: 'Estas são as palavras daquele que é santo e verdadeiro, que tem a chave de Davi. O que ele abre ninguém pode fechar, e o que ele fecha ninguém pode abrir. Conheço as suas obras. Eis que coloquei diante de você uma porta aberta que ninguém pode fechar. Sei que você tem pouca força, mas guardou minha palavra e não negou meu nome'” (Apocalipse 3.7-8; Nova Versão Internacional – NVI) - destacou-se


Nas cartas às sete igrejas do livro do Apocalipse, Jesus manda João escrever ao anjo da igreja na cidade de Filadélfia (situada na antiga Ásia Romana) que tinha diante de si “uma porta aberta”, a qual ninguém poderia fechar. E em tal passagem, o Senhor identifica-se como “aquele que tem a chave de Davi”.

Neste texto, gostaria de meditar a respeito desses os vocábulos portas e chaves, os quais nos dão pistas para o que vem acontecendo com muitas igrejas nos dias atuais. E, antes de chegar às minhas considerações, pretendo fazer o estudo de algumas passagens bíblicas, de modo que peço atenção dos leitores acertos detalhes.

A expressão “chave de Davi” aparece pela primeira vez em Isaías 22.22, na profecia contra Sebna, mordomo do rei Ezequias, o qual iria ser deposto do cargo que, por sua vez, seria entregue a Eliaquim filho de Hilquias. É dirigindo-se ao futuro intendente do palácio que o profeta anuncia que Deus lhe dará as chaves da casa real da dinastia davídica:


“Naquele dia convocarei o meu servo Eliaquim, filho de Hilquias. Eu o vestirei com o manto que pertence a você [Sebna], com o meu cinto o revestirei de força e a ele entregarei a autoridade que você exercia Ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para os moradores de Judá. Porei sobre os ombros dele a chave do reino de Davi; o que ele abrir ninguém conseguirá fechar, e o que ele fechar ninguém conseguirá abrir. Eu o fincarei como uma estaca em terreno firme; ele será para o reino de seu pai um trono de glória [ou assento de honra]” (Is 22.20-23; NVI) - os destaques e as palavras dentro dos colchetes são inserções minhas


O cargo de intendente do palácio real no Israel antigo tinha sua importância para aquela remota época na qual viveu o profeta Isaías, pois se tratava da função de chefiar a casa do rei que, numa linguagem mais simbólica, é descrita pelas atividades de “abrir” e de “fechar” as portas. Em outras palavras, o texto nos diz que Eliaquim iria tornar-se uma espécie de ministro da Casa Civil de Ezequias, um cargo de extrema confiança, equivalente também ao vizir egípcio.

Entretanto, é preciso observar que as chaves da casa real não pertenciam ao administrador e sim ao rei. Pois é o monarca ungido de Israel quem podia nomear e exonerar os seus funcionários, ato que seria praticado a qualquer tempo, conforme os interesses do reino. Logo, é bom frisar que o portador das chaves (o mordomo) só exercia alguma autoridade em nome do rei, encontrando-se numa condição de total subordinação e não podendo deixar de cumprir as direções que lhe foram dadas para agir como bem entendesse.

É neste mesmo sentido que podemos compreender a passagem bíblica de Mateus quando Jesus entrega a Pedro “as chaves do Reino dos Céus”:


“E eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la. Eu lhe darei as chaves do Reino dos céus; o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus”. (Mt 16.18-19; NVI) - negritei


Como se pode observar, podemos pensar na figura de duas portas: a do inferno e a do Reino dos Céus. Uma é a porta do império da morte física e espiritual. Já a porta do Reino dos Céus é o acesso para a vida e se relaciona com o apostolado de Pedro e da Igreja para levar os homens à graciosa Palavra do Evangelho que é suficiente para conduzir os homens à salvação completa, estabelecendo nos corações das pessoas o governo de Deus.

Cumpre dizer que contra esta obra da Igreja, os poderes do mal não podem prevalecer, pois se trata do domínio do Rei Messias, a quem foi dada toda a autoridade na terra e nos céus.

Ora, basta lembrarmos das obras feitas por Jesus para confirmarmos como de fato foi exercida a sua autoridade durante o curto ministério desenvolvido pelo Senhor na Galileia. Os demônios não resistiam a Jesus e eram expulsos. Os enfermos ficavam curados. E os mortos ressuscitavam mostrando o poder do Messias sobre a morte, conforme ocorreu na ressurreição do terceiro dia. Também a tempestade acalmava-se ao ouvir a ordem dada por Jesus, o qual humildemente sempre agiu em submissão total ao Pai e dirigido pelo Espírito Santo.

Olhando para a Igreja em Filadélfia, no Apocalipse, podemos ver nela uma diferença para outras igrejas que receberam mensagens de advertência e de juízo. Enquanto algumas igrejas andavam desobedientemente, vivendo uma verdadeira hipocrisia religiosa, Filadélfia perseverou em guardar a Palavra (Ap. 3.10). Assim, o Rei Messias colocou diante dela uma porta aberta qye ninguém jamais iria poder fechar.

Nos tempos de hoje, muitos questionam a ausência de milagres e de prodígios nas igrejas. Eu, em parte, considero esta crítica, mas sem compreender o milagre como um fim em si mesmo, ou muito menos como uma prova da existência do poder de Deus para as pessoas crerem na pregação feita pela Igreja (se alguém vê algo acontecendo não precisa mais de fé). Contudo, mesmo nas igrejas onde seus líderes afirmam haver milagres, o que se vê é muitas das vezes a mais pura farsa, meras encenações que têm por objetivo arrecadar dinheiro das pessoas ingênuas.

Penso que não é tempo de buscarmos as bençãos, mas sim o abençoador!

É tempo da Igreja submeter-se à autoridade absoluta de Jesus e se dispor a cumprir sua vontade!

É tempo para que os cristãos arrependam-se e se convertam com lágrimas e cinzas!

É tempo de retornarmos ao primeiros amor, torarmos o pecado do nosso meio, não tolerarmos as doutrinas perversas e vigiarmos aguardando o retorno do Senhor!

Precisamos reconhecer as nossas miserabilidade, pobreza, cegueira e nudez afim de nos aproximarmos novamente do Evangelho simples de Jesus, de quem podemos adquerir ouro puro, vestes brancas e colírio para os olhos.

Meus irmãos, este é o tempo que Deus tem dado à sua Igreja. E aqueles que ouvirem o seu recado e obedecerem à voz de seu Espírito certamente farão diferença no meio desta geração perversa, preparando o mundo para a volta do Rei Messias. Pois, só assim teremos diante de nós uma porta aberta como tiveram nossos antepassados de Filadélfia, os quais reconheciam o senhorio de Jesus sobre as obras da comunidade

Maranata! Vem Senhor Jesus!


----------------------------

OBS: A imagem acima, extraída do Flickr do Yahoo, é das ruínas da antiga Igreja de São José da Boa Morte, localidade situada no 3º distrito do município de Cachoeiras de Macacu (RJ). Sua construção é da primeira metade do século XIX, embora, anteriormente, já existisse uma capela no local desde 1734. O autor da foto, André Confort Rodrigues, cedeu-a para ilustrar este site. Para ver a imagem originalmente postada, favor acessar este link: http://www.flickr.com/photos/aconfort/3713438243/