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sábado, 12 de setembro de 2026

Onde morarão as máquinas? Energia, água e soberania na nova geografia brasileira da computação




Durante boa parte da história industrial, países e cidades disputaram fábricas, portos, ferrovias, fontes de energia e acesso a matérias-primas. A revolução da inteligência artificial acrescentou um novo elemento a essa geografia econômica: a capacidade de processar dados em escala gigantesca.

Os grandes centros de dados deixaram de ser apenas galpões onde ficam armazenados servidores. Tornaram-se parte da infraestrutura estratégica das economias modernas. Inteligência artificial, computação em nuvem, sistemas financeiros, plataformas digitais, pesquisa científica, serviços públicos e inúmeras atividades empresariais dependem cada vez mais de instalações capazes de concentrar milhares de computadores e consumir quantidades de eletricidade comparáveis às de cidades inteiras.

É por isso que uma pergunta aparentemente técnica está se transformando em questão econômica, ambiental e até geopolítica: onde morarão as máquinas?

Não se trata simplesmente de encontrar terrenos baratos para instalar computadores. Na economia da inteligência artificial, localização significa energia disponível em grande quantidade e com elevada confiabilidade; redes de transmissão capazes de suportar novas cargas; fibras ópticas redundantes; proximidade dos grandes corredores internacionais de dados; refrigeração eficiente; mão de obra qualificada; segurança; estabilidade regulatória e capacidade de expansão.

O Brasil reúne condições raras para participar dessa transformação. Possui uma matriz elétrica relativamente limpa, extraordinário potencial eólico e solar, grandes hidrelétricas, amplo território, um enorme mercado consumidor e posição geográfica favorável às comunicações com diferentes continentes.

No entanto, possuir essas vantagens não significa que qualquer lugar do país seja igualmente adequado para receber qualquer tipo de centro de dados. E, talvez, seja justamente aí que esteja faltando uma discussão nacional, inclusive no debate eleitoral.


Energia: o novo minério da economia digital

Por trás da aparente imaterialidade da inteligência artificial existe uma infraestrutura intensamente física.

Modelos de IA são treinados e executados por milhares de processadores que precisam funcionar continuamente. Esses equipamentos consomem eletricidade e produzem calor, que também precisa ser retirado. Quanto maior o sistema, maior a demanda por energia, refrigeração e conexão.

Um grande complexo destinado à inteligência artificial pode exigir centenas de megawatts. Projetos internacionais já começam a ser planejados na escala de um gigawatt ou mais.

Isso modifica a lógica tradicional dos investimentos digitais. Não basta saber se um Estado possui energia no conjunto de sua matriz. É preciso saber se existe potência disponível exatamente no ponto onde o empreendimento pretende se instalar, com transmissão, subestações e redundância suficientes para mantê-lo funcionando vinte e quatro horas por dia.

Uma região pode produzir muita eletricidade e, ainda assim, não ter infraestrutura para conectar imediatamente uma nova carga de 500 MW.

Esse problema já entrou no planejamento elétrico brasileiro. Em junho de 2026, a Empresa de Pesquisa Energética apresentou solução de transmissão destinada a ampliar em até 4 GW a capacidade de conexão de grandes cargas nas regiões de Pecém, no Ceará, e Parnaíba, no Piauí, mencionando expressamente data centers e plantas de hidrogênio entre os potenciais consumidores.

A própria escala do planejamento mostra que não estamos falando apenas de tecnologia da informação. Estamos falando de uma nova categoria de infraestrutura industrial.

Entretanto, há ainda uma diferença que muitas vezes desaparece no debate: contratar energia não é a mesma coisa que conseguir recebê-la fisicamente.

Grandes consumidores podem atuar no mercado livre de energia e negociar diretamente preço, prazo, volume e fonte de eletricidade. Podem celebrar contratos de longo prazo, os chamados PPAs, participar de estruturas de autoprodução e contratar energia proveniente de fontes renováveis. A CCEE registra esses contratos e organiza o funcionamento desse mercado.

Também existem mecanismos para certificar a origem renovável da eletricidade. A plataforma CCEE Origem, por exemplo, permite rastrear atributos ambientais e dar suporte à emissão de certificados de energia renovável, reduzindo o risco de dupla contagem.

Isso é importante para uma empresa que pretenda afirmar que sua operação é abastecida, em termos contratuais, por fontes limpas.

Todavia, um certificado de origem não cria uma linha de transmissão. Uma empresa pode contratar 300 MW de geração eólica durante vinte anos e ainda assim não conseguir instalar imediatamente um centro de dados de 300 MW em determinado município se a subestação local e os corredores de transmissão não suportarem a nova demanda.

Também é preciso distinguir energia renovável contratada de fornecimento fisicamente renovável a cada hora do dia. Eólica e solar variam com vento e insolação; a rede elétrica faz o balanceamento instantâneo entre diferentes fontes. Armazenamento, geração firme, transmissão e mecanismos de reserva permanecem essenciais.

Por isso, planejamento energético para data centers envolve simultaneamente energia contratada, capacidade de conexão e segurança sistêmica.

Mercado livre, PPAs, autoprodução, certificados de origem, baterias, geração de reserva e expansão da transmissão deixam então de ser assuntos separados. Tornam-se partes da infraestrutura necessária à inteligência artificial.


Água, calor e eficiência: nem todo data center é igual

A discussão sobre água exige cuidado semelhante.

É comum ouvir que data centers necessariamente consomem enormes volumes de água. Isso pode ser verdade em determinadas configurações, mas não é uma característica inevitável de todo empreendimento.

O consumo depende, sobretudo, da tecnologia utilizada para remover o calor.

Sistemas com torres de resfriamento evaporativo podem apresentar boa eficiência energética, mas dissipam calor por evaporação e, portanto, consomem água. Sistemas adiabáticos utilizam água apenas em determinadas condições ambientais. Soluções secas rejeitam calor diretamente para o ar. Arquiteturas híbridas podem alternar entre métodos conforme temperatura e umidade.

Com a enorme densidade dos novos processadores de inteligência artificial, cresce ainda a utilização de refrigeração líquida direta. Como líquidos transportam calor de maneira mais eficiente que o ar, essa tecnologia pode reduzir o gasto energético com ventiladores e permitir racks muito mais densos.

Entretanto, refrigeração líquida não significa automaticamente consumo hídrico zero. O circuito que atravessa servidores pode ser fechado, mas o calor recolhido ainda precisa ser rejeitado em algum lugar e pode acabar transferido para uma torre evaporativa. É necessário analisar o sistema completo.

Dois indicadores ajudam a comparar instalações.

O PUE — Power Usage Effectiveness relaciona toda a eletricidade utilizada pelo centro de dados com aquela consumida diretamente pelos equipamentos de tecnologia. Se o PUE for 1,20, significa, de forma simplificada, que para cada unidade consumida pelos servidores outras 0,20 são utilizadas com refrigeração, conversão elétrica e demais sistemas.

A média mundial apurada pelo Uptime Institute em 2026 ficou em 1,52, embora grandes instalações modernas frequentemente consigam operar em 1,30 ou menos.

Já o WUE — Water Usage Effectiveness relaciona o consumo de água com a energia utilizada pelos equipamentos de tecnologia, normalmente em litros por quilowatt-hora.

A escala pode ser compreendida com um exemplo. Um centro com 1 MW de carga de TI funcionando continuamente utiliza cerca de 8,76 milhões de kWh por ano. Com WUE de 1 litro por kWh, isso representaria aproximadamente 8,76 milhões de litros de água por ano para cada MW de TI. Um campus de 100 MW, mantida a mesma relação, alcançaria a ordem de milhões de litros por dia.

Por isso é especialmente relevante que o texto do REDATA aprovado pelo Congresso tenha estabelecido, entre as condições do regime, WUE igual ou inferior a 0,05 L/kWh. A mesma redação exige atendimento da demanda elétrica contratual por fontes limpas ou renováveis e investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Assim, a pergunta correta para o licenciamento não é simplesmente se “data centers gastam muita água”.

É preciso perguntar qual tecnologia será utilizada, qual será seu WUE, qual será o PUE, de onde virá a água, como estará o manancial nos períodos críticos e como o sistema funcionará durante ondas de calor ou secas.

PUE e WUE poderiam inclusive ser utilizados como critérios graduais de política pública em que quanto mais eficiente o empreendimento em energia e água, melhores poderiam ser determinadas condições de incentivo.

Essa discussão torna ainda mais evidente por que diferentes regiões brasileiras apresentam vocações distintas.


Fortaleza: quando eletricidade se transforma em dados

Fortaleza talvez seja o exemplo brasileiro mais evidente de como geografia energética e geografia digital podem se encontrar.

O Ceará possui enorme potencial eólico e solar e já apresenta excedentes relevantes de geração renovável em determinados períodos. Ao mesmo tempo, Fortaleza consolidou-se como um dos principais pontos de conexão internacional da internet na América Latina. Segundo o governo estadual, 16 cabos submarinos estão ancorados na cidade.

Essa combinação produz uma vantagem peculiar.

Historicamente, grande parte da eletricidade gerada no Nordeste precisa ser transportada pelas redes de transmissão até os principais centros consumidores do país. Com data centers, torna-se possível converter parte dessa energia localmente em processamento computacional.

Em termos simplificados, em vez de transportar apenas elétrons por milhares de quilômetros, o país pode transformar eletricidade em dados, inteligência artificial, serviços de nuvem e capacidade computacional e transportar esse resultado por fibra óptica.

Essa possibilidade não elimina a necessidade de transmissão — até porque fontes renováveis variáveis continuam dependendo da integração ao Sistema Interligado Nacional —, mas altera a geografia econômica da energia.

Fortaleza tem ainda a vantagem de estar próxima das rotas transatlânticas. Para aplicações que dependem de baixa latência entre Brasil, América do Norte, Europa e África, poucos lugares no país possuem posição comparável.

Isso não significa ausência de desafios. Eólica e solar apresentam baixas emissões, porém variam ao longo do tempo. Um data center não pode desligar porque o vento diminuiu ou o sol se pôs. São necessários contratos adequados, transmissão, armazenamento, capacidade firme e redundância.

Justamente por isso, o planejamento da EPE para permitir até 4 GW adicionais de grandes cargas no Ceará e no Piauí é tão significativo. A vantagem regional só poderá ser plenamente utilizada se a rede estiver preparada para transformar potencial energético em disponibilidade efetiva.

Ainda assim, a combinação entre renováveis e conectividade internacional faz de Fortaleza e do Pecém candidatos naturais a um dos grandes polos brasileiros da infraestrutura digital do futuro.


Foz do Iguaçu: a força computacional de Itaipu

Foz do Iguaçu representa uma lógica diferente.

Se Fortaleza possui como grande vantagem a combinação entre renováveis e cabos submarinos, Foz está ao lado de uma das maiores concentrações de geração elétrica do continente.

Itaipu possui 14 mil MW de potência instalada em vinte unidades geradoras, e sua energia chega ao sistema brasileiro a partir da subestação de Foz do Iguaçu.

Para compreender a dimensão dessa vantagem, basta imaginar um gigantesco centro de inteligência artificial consumindo 500 MW. Seria uma carga monumental em praticamente qualquer cidade brasileira, mas representaria uma fração relativamente pequena da potência instalada de Itaipu.

Naturalmente, isso não significa que um investidor possa simplesmente instalar servidores ao lado da barragem e adquirir diretamente energia da usina a preço privilegiado.

Itaipu é uma empresa binacional, sua energia está submetida a regras específicas e o acesso de um grande consumidor envolve comercialização, transmissão, contratação e conexão ao sistema elétrico.

Todavia, a concentração de infraestrutura energética na região é um ativo territorial difícil de reproduzir.

Foz possui ainda crescente integração digital com a região da tríplice fronteira. A presença de infraestrutura de troca de tráfego e conexões com Ciudad del Este reforça a possibilidade de constituir ali um corredor tecnológico transfronteiriço.

Falta-lhe, porém, a vantagem atlântica de Fortaleza.

Para alcançar os principais sistemas internacionais, o tráfego precisa percorrer longas rotas terrestres até grandes centros de conectividade. Essa diferença pode ser menos importante para determinadas aplicações de inteligência artificial.

O treinamento de um grande modelo não precisa necessariamente estar a poucos milissegundos de Nova York ou Lisboa. Durante semanas, milhares de processadores podem executar cálculos sobre dados já armazenados no próprio centro. Nessa atividade, a disponibilidade de energia firme, de baixa emissão e competitiva pode valer mais que a menor latência possível.

Assim, a região de Itaipu apresenta vocação potencial para aquilo que poderíamos chamar de computação eletrointensiva.

Há ainda uma dimensão geoeconômica: o Paraguai também percebeu que sua disponibilidade relativa de eletricidade pode ser transformada em vantagem na economia digital. A competição por determinados investimentos poderá ocorrer literalmente dos dois lados do rio Paraná.

O desafio brasileiro, portanto, será converter a proximidade de Itaipu não apenas em fornecimento de eletricidade, mas em ecossistema tecnológico, conectividade, pesquisa e capacidade empresarial.


Manaus: água não resolve tudo

Manaus apresenta outro conjunto de vantagens.

Há um grande mercado regional, a Zona Franca, indústria eletrônica, disponibilidade hídrica e uma necessidade evidente de ampliar a infraestrutura digital da Amazônia Ocidental.

A conectividade avançou consideravelmente. O programa Norte Conectado implantou, por exemplo, uma infovia subfluvial de aproximadamente 1.100 quilômetros entre Santarém e Manaus, ampliando as redes amazônicas de fibra óptica.

No entanto, Manaus demonstra por que benefícios tributários e abundância de água não bastam para criar um polo mundial de data centers.

A região está integrada ao Sistema Interligado Nacional, porém ainda possui vulnerabilidades de transmissão.

Não se trata de preocupação abstrata. Em 15 de agosto de 2025, o desligamento automático dos dois circuitos Lechuga–Manaus provocou o desligamento do subsistema Manaus e a interrupção de aproximadamente 408 MW de carga, segundo o próprio boletim de ocorrências do ONS.

Agora imaginemos acrescentar sozinho um centro de inteligência artificial consumindo 300 ou 500 MW.

Seria possível? Tecnicamente, investimentos podem tornar muitas coisas possíveis. Entretanto, seria necessário planejar geração, transmissão, subestações e redundância conjuntamente com o empreendimento.

Também existe o problema das comunicações internacionais. Manaus está no interior do continente. A expansão das infovias melhora enormemente sua integração digital, mas a cidade continua dependendo de longos caminhos de fibra até os grandes pontos de saída internacional.

Isso não torna Manaus inadequada. Ao contrário, talvez signifique que sua vocação seja diferente.

Um forte polo de centros de dados em Manaus poderia atender empresas da Zona Franca, governos estaduais e municipais, universidades, serviços de nuvem, distribuição de conteúdo, aplicações de inteligência artificial e usuários de toda a Amazônia Ocidental. Poderia reduzir a necessidade de transportar informações por milhares de quilômetros para processamento no Sudeste.

O erro seria imaginar que todo data center precisa desempenhar a mesma função.


Belém: a ponte entre a Amazônia e o Atlântico

Belém ajuda a compreender essa diversidade.

Um centro de dados dedicado à inteligência artificial foi anunciado na capital paraense em 2026, com capacidade inicial relativamente pequena diante dos grandes projetos internacionais, mas possibilidade de expansão para cerca de 100 MW.

Seu interesse estratégico, porém, vai além da dimensão.

Belém ocupa uma posição diferente de Manaus: está na entrada atlântica da Amazônia e pode funcionar como elo entre as redes regionais e os grandes corredores nacionais e internacionais.

Há ainda uma lição importante sobre água.

Embora o empreendimento esteja localizado em região associada à abundância hídrica, seu projeto prevê circuito fechado de refrigeração e consumo operacional extremamente reduzido de água para esse fim. Isso demonstra como tecnologia e projeto podem ser mais importantes que generalizações sobre a localização.

Belém e Manaus, portanto, não precisam ser tratadas como concorrentes.

É mais interessante imaginá-las como nós complementares de uma infraestrutura digital amazônica: Belém aproximando a região do Atlântico; Manaus aproximando capacidade computacional do interior da Amazônia e da Zona Franca.


Rio de Janeiro: energia, conectividade e ciência em escala metropolitana

O Rio de Janeiro também ocupa uma posição que merece atenção própria nessa nova geografia da computação.

À primeira vista, sua vantagem pode parecer menos evidente que a de Fortaleza, beneficiada pelos cabos submarinos e pelas renováveis nordestinas, ou a de Foz do Iguaçu, localizada ao lado da gigantesca capacidade de geração de Itaipu.

Entretanto, o Rio reúne um conjunto particularmente diversificado de ativos. Isto é, grande mercado consumidor, forte sistema de telecomunicações, infraestrutura energética, universidades e centros de pesquisa, proximidade de São Paulo e conexão internacional.

E já existe uma tentativa concreta de transformar essas condições em vantagem competitiva.

O projeto Rio AI City, previsto para a região do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, pretende formar um grande campus dedicado a inteligência artificial e computação em nuvem. A configuração divulgada em junho de 2026 prevê capacidade energética inicial de aproximadamente 1,5 GW, com possibilidade de chegar a 3 GW até 2032.

Convém tratar esses números pelo que ainda são: capacidade projetada, e não infraestrutura efetivamente instalada.

Entretanto, a escala pretendida demonstra a transformação. Um complexo de 3 GW deixaria de ser apenas um empreendimento imobiliário ou tecnológico e passaria a representar uma nova grande carga no sistema elétrico nacional.

Não por acaso, a EPE programou estudo específico para o Estado do Rio destinado a avaliar reforços necessários para viabilizar a conexão da ordem de 4 GW em novos projetos de grandes cargas. O estudo deverá analisar capacidade remanescente de subestações, corredores de transmissão, critérios de confiabilidade e alternativas de expansão.

Esse talvez seja um dos melhores exemplos do argumento central deste artigo: não basta anunciar data centers; é preciso planejar a energia que os alimentará antes que sejam ligados.

O Rio, contudo, não apresenta uma vantagem energética tão simples de explicar quanto Itaipu. Sua oferta regional reúne diferentes fontes e forte presença de geração térmica e nuclear, dentro de um sistema nacional amplamente interligado.

Para que grandes complexos possam reivindicar baixa pegada de carbono, tornam-se importantes contratos renováveis, certificação da origem e expansão adequada da rede.

Na conectividade, entretanto, a posição fluminense é particularmente favorável. A cidade está ligada a múltiplos sistemas internacionais e possui um ecossistema significativo de telecomunicações e interconexão.

Existe ainda uma vantagem que não pode ser medida apenas em megawatts ou quilômetros de fibra. Trata-se da capacidade científica acumulada.

Em Petrópolis funciona o Laboratório Nacional de Computação Científica, responsável pelo supercomputador Santos Dumont, uma das principais infraestruturas brasileiras de computação de alto desempenho dedicadas à comunidade científica.

Somam-se universidades, centros de pesquisa e instituições tecnológicas situadas na capital e em outras regiões do Estado.

Para uma estratégia de soberania tecnológica, esse fator é tão importante quanto oferecer terreno e eletricidade: um verdadeiro polo de inteligência artificial necessita não apenas de servidores, mas de pesquisadores, engenheiros, empresas e capacidade de transformar computação em conhecimento.

O Rio pode, portanto, ocupar posição peculiar no mapa brasileiro.

Não possui exatamente a mesma vocação atlântica de Fortaleza, nem a concentração hidrelétrica de Foz, nem a função amazônica de Manaus e Belém. Sua vantagem, porém, está na combinação entre conectividade internacional, grande mercado, infraestrutura urbana e energética, proximidade de São Paulo e capacidade científica.

Isso permite imaginar algo mais ambicioso do que simplesmente um conjunto de data centers na Barra da Tijuca.

Se os projetos forem articulados ao LNCC, às universidades, às empresas nacionais de tecnologia, à indústria fluminense e aos instrumentos de política científica, o nosso Estado poderá tentar converter capacidade computacional em verdadeiro ecossistema de inteligência artificial e computação de alto desempenho.

Novamente surge a mesma escolha estratégica. O Rio pode apenas hospedar máquinas pertencentes a grandes empresas globais ou aproveitar essas máquinas para produzir também pesquisa, empresas, profissionais, propriedade intelectual e tecnologia brasileira.


São Paulo: a infraestrutura que dificilmente poderá ser deslocada

A emergência desses novos polos não significa desaparecimento da centralidade paulista.

Pelo contrário, qualquer estratégia nacional de descentralização precisa começar reconhecendo a enorme vantagem já acumulada por São Paulo.

Segundo o relatório Data Center Brasil 2026, da JLL, o Estado concentra aproximadamente 38% da capacidade instalada brasileira, sobretudo nos eixos Capital/Barueri e Campinas.

Na interconexão, a concentração é ainda mais expressiva. Em 11 de setembro de 2026, o IX.br São Paulo reunia 2.703 participantes, entre provedores, operadoras, redes de conteúdo, instituições e empresas.

Também é em São Paulo que se concentram regiões de computação em nuvem dos principais provedores globais, além de bancos, fintechs, empresas de tecnologia, companhias de comércio eletrônico, sistemas de pagamento e milhares de grandes clientes empresariais.

Isso cria um poderoso efeito de aglomeração: empresas querem permanecer próximas das redes, serviços e clientes que já estão ali; novos provedores se instalam porque outros provedores já estão presentes; e o crescimento reforça a vantagem anteriormente existente.

São Paulo, portanto, não será simplesmente substituída por Fortaleza, Foz, Rio de Janeiro ou qualquer outro polo.

O mais provável é surgir uma divisão mais sofisticada das cargas computacionais.

O treinamento de grandes modelos de inteligência artificial tende a ser relativamente mais sensível à disponibilidade e ao custo da eletricidade do que à proximidade física do usuário final. São operações intensivas em processamento, frequentemente executadas durante longos períodos, o que permite que determinadas cargas procurem regiões nas quais grandes blocos de energia estejam disponíveis em condições mais vantajosas.

A inferência, por outro lado, pode ser extremamente sensível à latência. Sistemas financeiros, prevenção de fraudes, comércio eletrônico, aplicações corporativas em tempo real, jogos e determinados serviços de inteligência artificial se beneficiam de permanecer próximos dos usuários e das redes às quais estão conectados.

Essa distinção não é absoluta.

Há inferência realizada em lote e treinamento que precisa permanecer próximo a grandes conjuntos de dados ou a outros sistemas. Hardware, redes e arquiteturas de IA continuarão modificando essa fronteira.

Portanto, não seria prudente tentar calcular desde já uma porcentagem da capacidade paulista que “migrará”.

No entanto, a tendência pode ser resumida da seguinte maneira: cargas muito eletrointensivas e menos sensíveis à distância tornam-se geograficamente mais móveis; cargas dependentes de latência, mercado e interconexão permanecem mais fortemente ancoradas nos grandes centros digitais.

Assim, a descentralização pode não significar declínio paulista.

São Paulo poderá continuar como grande coração digital e empresarial do país enquanto outros territórios se especializam em processamento eletrointensivo, conectividade internacional ou atendimento regional.

A nuvem, apesar do nome, não apenas tem endereço.

Ela começa a adquirir uma geografia própria.


Os benefícios não eliminam as externalidades

A disputa por data centers não deveria conduzir à conclusão de que todo empreendimento é automaticamente vantajoso apenas porque envolve bilhões de reais.

Grandes instalações produzem externalidades que precisam ser conhecidas antes da concessão de incentivos.

A primeira delas é a pressão sobre o sistema elétrico.

Não basta comparar a demanda de um data center com a geração total de um Estado ou do Brasil. O impacto ocorre concretamente sobre subestações, linhas, transformadores e corredores de transmissão próximos ao empreendimento.

Esse é um dos motivos pelos quais os estudos da EPE ganharam importância. Após a edição inicial do REDATA, os pedidos relacionados a novos projetos de data centers enviados ao planejamento federal aumentaram fortemente. Em novembro de 2025, a EPE contabilizava 26,2 GW de projetos em processo no Ministério de Minas e Energia, deixando claro que nem todos necessariamente se concretizarão, mas evidenciando a dimensão da demanda potencial.

Antes de conceder grandes incentivos, portanto, deve existir avaliação da capacidade de conexão, dos reforços necessários e de quem será responsável pelos respectivos custos.

E outras externalidades também precisam ser consideradas.

Há ocupação territorial por edifícios, subestações e linhas; ruído de chillers, ventiladores e equipamentos elétricos; possível consumo de água; utilização de geradores de emergência; armazenamento de combustíveis e baterias; aumento da circulação durante a construção; impactos visuais e novas necessidades de segurança física e cibernética.

Esses efeitos dependem enormemente da localização.

Consumir água numa bacia abundante com tecnologia eficiente é diferente de ampliar demanda sobre região submetida a estresse hídrico. Conectar 100 MW numa subestação com capacidade disponível é diferente de fazê-lo numa rede operando perto do limite.

O objetivo dessa análise não deve ser impedir investimentos.

Ao contrário, regras previsíveis reduzem riscos tanto para a sociedade quanto para o próprio investidor.

Uma boa política pode exigir indicadores de eficiência, estudos prévios de conexão, plano de segurança hídrica, contingência energética, controle de ruído e divulgação periódica de PUE e WUE, variando a intensidade das exigências conforme escala e localização.

A questão é evitar que custos privados acabem socializados enquanto os benefícios econômicos e tecnológicos permanecem excessivamente concentrados.


Atrair data centers deve ser um meio, não um fim

É nesse ponto que a discussão deixa definitivamente de ser apenas técnica.

O Brasil poderia simplesmente competir para ser o lugar onde grandes empresas estrangeiras instalam servidores porque encontram terreno, eletricidade e benefícios tributários.

Só que isso seria pouco. Precisamos atrair data centers, mas também usá-los como instrumentos de construção da soberania tecnológica brasileira. 

Não basta transformar o país em um lugar economicamente competitivo para o capital internacional. É preciso aproveitar a revolução da inteligência artificial para desencadear uma nova etapa de industrialização tecnológica, capaz de gerar conhecimento, qualificação profissional, inovação e novas cadeias produtivas no próprio Brasil.

Um centro de dados isolado pode envolver investimento bilionário sem produzir, depois da construção, número proporcional de empregos permanentes.

O impacto econômico torna-se muito maior quando ao seu redor surgem pesquisa em inteligência artificial, universidades, empresas de software, serviços de nuvem, cibersegurança, fabricação de equipamentos, eletrônica de potência, refrigeração avançada, robótica, semicondutores e profissionais especializados.

O desafio não é apenas receber as máquinas. É aprender a construir cada vez mais aquilo que existe dentro e ao redor delas.

Todavia, isso exige compreender que manter servidores dentro das fronteiras não equivale, por si só, a possuir a tecnologia. A cadeia mundial de inteligência artificial encontra-se fortemente concentrada. Os três maiores provedores respondem por mais de 60% do mercado global de nuvem, segundo levantamento citado pela OCDE, e os grandes hyperscalers estão crescentemente integrados ao desenvolvimento de sistemas de IA.

Autoridades de concorrência britânicas também identificaram poder significativo de mercado, barreiras à interoperabilidade e custos que dificultam a migração entre provedores.

A mesma concentração aparece em outras etapas: aceleradores de IA, fabricação avançada de semicondutores, equipamentos de redes e determinadas camadas de software dependem de número limitado de fornecedores.

Isso não significa defender autarquia tecnológica.

Seria irreal imaginar que o Brasil produzirá sozinho, em curto prazo, todos os chips, aceleradores, equipamentos, softwares e serviços de que necessita.

Soberania tecnológica significa outra coisa: reduzir dependências críticas, manter alternativas, formar conhecimento nacional e aumentar progressivamente a quantidade de valor agregado que permanece no país.

Há muitos degraus possíveis: projeto de chips, encapsulamento e testes, eletrônica de potência, refrigeração, racks, integração de sistemas, softwares, cibersegurança, modelos de IA, serviços de nuvem, pesquisa científica e formação de profissionais.

O texto do REDATA aprovado pelo Congresso aponta nessa direção ao exigir, entre outras contrapartidas, destinação mínima de 10% da capacidade beneficiada ao mercado interno e investimento equivalente a 2% do valor dos equipamentos incentivados em pesquisa, desenvolvimento e inovação no país.

É justamente nessa articulação que parcerias com universidades, LNCC, institutos tecnológicos, empresas nacionais e programas de formação podem transformar investimentos privados em capacidade permanente.

Também é importante evitar dependências excessivas de um único fornecedor. Interoperabilidade, portabilidade dos dados, arquiteturas multicloud e padrões abertos podem ter valor estratégico.

Assim, soberania não é fechar o mercado às empresas internacionais. Significa fazer com que sua presença amplie, em vez de substituir, a capacidade tecnológica brasileira.


A política começa a perceber essa transformação

A dimensão estratégica desse processo já começa a aparecer na disputa presidencial de 2026.

Há convergências importantes entre candidaturas politicamente distintas, embora os instrumentos e prioridades sejam diferentes.

Lula chega à campanha com uma característica que inevitavelmente o distingue dos adversários: pode apresentar políticas já em execução.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028 prevê aproximadamente R$ 23 bilhões em investimentos, incluindo expansão da infraestrutura computacional e supercomputação nacional.

O governo também começou a estruturar uma Nuvem Brasileira, destinada a ampliar a capacidade nacional de armazenamento e processamento de dados estratégicos.

Há ainda o REDATA. O projeto aprovado pelo Senado em 1º de setembro de 2026 seguiu para sanção presidencial e estabelece incentivos tributários à instalação de centros de dados. Sua redação associa os benefícios a compromissos de eficiência hídrica, energia limpa ou renovável, capacidade para o mercado brasileiro e investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

A orientação é relativamente clara: atrair investimento, mas tentar vinculá-lo à formação de capacidade tecnológica doméstica.

Flávio Bolsonaro apresenta uma ênfase diferente. Seu programa relaciona explicitamente a atração de data centers à oferta de energia abundante, barata e confiável, propõe expansão e modernização da transmissão e um programa de armazenamento de energia com baterias de grande porte. Também conecta data centers, minerais críticos e novas cadeias tecnológicas, defendendo que o Brasil aproveite simultaneamente sua matriz energética e suas reservas minerais para agregar valor no território nacional.

A lógica é mais fortemente orientada à competitividade do investimento privado: tornar o Brasil suficientemente atraente para disputar empreendimentos que poderiam se instalar em outros países. Porém, seria simplificador reduzir uma proposta apenas à atração de capital. O programa do opositor de Lula afirma que o Brasil não deveria ser somente consumidor, mas também desenvolvedor e produtor de tecnologia, embora detalhe menos do que o REDATA quais as contrapartidas específicas que seriam impostas aos operadores de centros de dados.

Já Augusto Cury parte de uma terceira construção. Seu discurso programático associa inteligência artificial, educação, ciência, semicondutores, computação em nuvem e reindustrialização tecnológica. 

Antes mesmo da formalização da candidatura, Cury já defendia expressamente que o país ampliasse sua geração renovável e convidasse grandes centros de dados dedicados à inteligência artificial a instalar-se no Brasil utilizando energia limpa.

Sua proposta procura inserir data centers dentro de uma transformação tecnológica mais abrangente, associada a formação científica e novas cadeias industriais.

Entretanto, quando a discussão passa da estratégia geral à engenharia específica da instalação desses empreendimentos, há ainda menor detalhamento sobre conexão ao sistema elétrico, regime tributário, localização territorial, contrapartidas e relação com os instrumentos já aprovados.

As diferenças podem ser resumidas sem transformá-las em caricaturas.

Lula, porém, enfatiza mais diretamente política industrial, infraestrutura pública e nacional, pesquisa, contrapartidas e soberania tecnológica, apoiado em instrumentos que já começaram a ser implantados.

Flávio enfatiza competitividade econômica, energia, infraestrutura, armazenamento, minerais estratégicos, capital privado e redução de entraves, combinando atração de investimentos com ambição de produzir mais tecnologia no país. Só que lhe falta um detalhamento suficiente.

Cury, por sua vez, procura conectar inteligência artificial, educação, ciência, semicondutores, energia renovável e uma nova industrialização tecnológica, embora ainda apresente menor detalhamento operacional especificamente para data centers.

Talvez a política nacional mais consistente não precise escolher integralmente uma dessas perspectivas.

O Brasil pode ser competitivo para atrair capital, exigir contrapartidas que aumentem sua autonomia e utilizar os investimentos para formar pesquisadores, empresas, fornecedores e cadeias industriais brasileiras.

A divergência política continuará existindo sobre o tamanho do Estado, os incentivos, a regulação e o papel do capital privado. Porém, uma pergunta deveria antecedê-la: o Brasil quer simplesmente hospedar a infraestrutura mundial da inteligência artificial ou pretende utilizar essa infraestrutura para mudar sua posição na economia tecnológica mundial?


Um mapa brasileiro da computação

Há ainda uma dimensão insuficientemente desenvolvida no debate: onde e em que escala essa infraestrutura deve ser instalada?

O Brasil poderia elaborar um verdadeiro Mapa Nacional de Infraestrutura Computacional, integrando planejamento energético, telecomunicações, política industrial, ciência, meio ambiente e desenvolvimento regional.

Não seria simplesmente um mapa dos data centers existentes. Ele deveria indicar, para cada grande região potencial, quanta carga computacional poderia ser conectada no curto, médio e longo prazo sem comprometer a segurança da rede elétrica; quais ampliações seriam necessárias; quais fontes poderiam abastecê-la; que disponibilidade hídrica existe; quais rotas de fibra estão presentes; qual a proximidade dos cabos internacionais e que tipo de atividade computacional teria maior racionalidade naquele território.

Esse planejamento permitiria distinguir áreas aptas a receber instalações de algumas dezenas de megawatts daquelas capazes de comportar complexos de 200, 500 ou 1.000 MW.

Também permitiria responder antecipadamente a uma questão que muitas vezes surge apenas depois do anúncio do investimento: quem pagará pela infraestrutura necessária para conectar a nova carga?

A existência de um contrato de energia renovável não significa que haja linha ou subestação capaz de entregar fisicamente aquela eletricidade ao local desejado. Por isso, grandes projetos deveriam ser confrontados previamente com estudos de capacidade, cronogramas de expansão e definição transparente das responsabilidades pelos investimentos necessários.

O mapa poderia cruzar, entre outros fatores: capacidade atual e futura de geração e transmissão; proximidade de subestações; preço e origem da eletricidade; possibilidade de armazenamento; redundância das redes de fibra; acesso aos cabos submarinos; disponibilidade e segurança hídrica; PUE e WUE projetados; riscos climáticos; disponibilidade territorial; universidades e centros de pesquisa; mão de obra; mercado consumidor; segurança física e cibernética; e capacidade de expansão.

Isso evitaria uma política baseada simplesmente na disputa entre Estados oferecendo benefícios fiscais.

Seria profundamente irracional conceder bilhões em incentivos para instalar carga eletrointensiva em determinada região e descobrir posteriormente que o próprio poder público terá de executar obras emergenciais de transmissão de bilhões de reais apenas para mantê-la conectada.

Planejamento não significa determinar burocraticamente onde uma empresa privada deve investir. Significa reduzir incertezas para investidores e sociedade, identificar previamente as verdadeiras vantagens territoriais e preparar infraestrutura antes que o gargalo se transforme em crise.

Nesse mapa, as regiões não precisariam disputar necessariamente a mesma função.

Fortaleza e Pecém poderiam consolidar uma vocação atlântica e internacional, combinando energia renovável e extraordinária conectividade submarina.

Foz do Iguaçu poderia desenvolver um polo de computação eletrointensiva associado à escala energética de Itaipu e à integração continental.

Belém poderia funcionar como ponte digital entre a Amazônia e o Atlântico.

Manaus poderia tornar-se o principal núcleo computacional da Amazônia Ocidental, articulado à Zona Franca e às novas infovias.

O Rio de Janeiro poderia combinar conexão internacional, infraestrutura energética, universidades, LNCC e seus novos projetos para formar grande polo de inteligência artificial e computação de alto desempenho integrado ao mercado do Sudeste.

São Paulo permaneceria como o maior núcleo de interconexão, cloud, serviços empresariais, instituições financeiras e demanda digital do país, ainda que algumas das cargas mais eletrointensivas encontrem condições mais favoráveis em outras regiões.

E outras áreas certamente apareceriam quando energia, transmissão, conectividade, ciência e demanda fossem analisadas conjuntamente.

O resultado não deveria ser uma única “capital brasileira dos data centers”.

Uma economia continental precisa de uma arquitetura nacional de computação: distribuída, redundante, especializada e interligada.


A próxima infraestrutura do desenvolvimento

Ferrovias transportaram a industrialização do século XIX. Redes elétricas sustentaram a indústria pesada do século XX. Rodovias, portos, aeroportos e telecomunicações moldaram as décadas seguintes.

A inteligência artificial acrescenta uma nova camada a essa infraestrutura.

Energia e dados estão cada vez mais ligados. Um país capaz de produzir eletricidade limpa e abundante poderá transformá-la não apenas em alumínio, aço ou outros produtos industriais, mas também em capacidade computacional, conhecimento e serviços de alto valor agregado.

O Brasil possui vantagens extraordinárias para participar dessa nova economia. No entanto, possuir sol, vento, rios, território e cabos submarinos não garante desenvolvimento tecnológico por si só.

Da mesma forma que países ricos em minério podem continuar exportando matéria-prima e importando produtos sofisticados, um país rico em eletricidade pode terminar fornecendo energia, água, terrenos e incentivos para máquinas concebidas, controladas e exploradas economicamente a partir do exterior.

A escolha estratégica está no que construiremos ao redor dessa infraestrutura.

Precisaremos decidir onde cada tipo de centro de dados faz sentido; quem financiará as redes necessárias para conectá-lo; quanta água e eletricidade poderá consumir; quais padrões de eficiência deverá cumprir; que redundância e segurança serão exigidas; e que contrapartidas em pesquisa, formação profissional e desenvolvimento de fornecedores justificarão os incentivos recebidos.

Precisaremos também reconhecer que soberania tecnológica não significa produzir tudo dentro das fronteiras, mas tampouco significa depender integralmente de poucos fornecedores estrangeiros para chips, aceleradores, computação em nuvem e sistemas dos quais atividades econômicas e serviços públicos essenciais passarão a depender.

Atrair data centers, portanto, deve ser um meio, e não um fim.

A questão fundamental não é simplesmente quantas máquinas conseguirão encontrar endereço no Brasil. É saber onde elas morarão, com que energia funcionarão, quanta água utilizarão, por quais redes conversarão com o mundo, quem controlará as tecnologias que carregam e, sobretudo, quanto conhecimento, capacidade produtiva e desenvolvimento permanecerão conosco depois que forem ligadas.


📝 Nota metodológica:

Ao comparar projetos de data centers, é importante observar que números expressos em megawatts nem sempre representam a mesma coisa. Um anúncio pode referir-se à potência destinada diretamente aos equipamentos de tecnologia — a carga de TI —, à demanda elétrica total da instalação, à capacidade contratada de conexão ou à capacidade máxima prevista para futuras expansões.

O PUE ajuda a compreender a diferença. Um data center com 200 MW de carga de TI e PUE de 1,25, por exemplo, necessitaria aproximadamente 250 MW de potência total em plena utilização. Por isso, valores anunciados para projetos distintos não devem ser comparados automaticamente como se medissem exatamente a mesma grandeza.

Da mesma forma, capacidades futuras anunciadas — como complexos planejados na escala de gigawatts — devem ser entendidas como projetos e possibilidades de expansão, e não como carga já conectada à rede. A distinção é particularmente importante num setor em rápida expansão, no qual pedidos de conexão, anúncios de investimento e capacidade efetivamente instalada podem apresentar diferenças consideráveis.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

De 2% a 11% em poucos dias: o que as pesquisas revelam sobre a ascensão de Augusto Cury



Duas pesquisas divulgadas nesta segunda-feira colocaram o escritor em novo patamar na disputa presidencial. A diferença em relação aos levantamentos realizados poucos dias antes, porém, recomenda cautela — e torna o fenômeno ainda mais interessante.


Até poucos dias atrás, Augusto Cury aparecia como um candidato periférico na disputa pela Presidência da República. Seus percentuais oscilavam na faixa dos poucos pontos e a eleição continuava sendo apresentada, essencialmente, como uma disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro.

Nesta segunda-feira, 31 de agosto, duas pesquisas obrigaram quem acompanha a eleição de 2026 a olhar novamente para esse cenário.

Na pesquisa BTG Pactual/Nexus, Cury chegou a 11% das intenções de voto, atrás de Lula, com 39%, e Flávio Bolsonaro, com 33%, no cenário estimulado analisado neste artigo. No levantamento anterior da Nexus, realizado apenas uma semana antes, o escritor aparecia com 2%.

Na AtlasIntel/Bloomberg, divulgada no mesmo dia, o movimento foi semelhante, embora de menor intensidade: Cury passou de 1,6% para 7,8%, ficando tecnicamente empatado com Renan Santos, que marcou 7,6%. Lula apareceu com 43,4% e Flávio Bolsonaro com 33,7%. A Atlas ouviu 5.014 eleitores entre 25 e 30 de agosto.

Dois institutos diferentes, utilizando metodologias distintas, portanto, detectaram simultaneamente uma forte ascensão do candidato.

Isso torna difícil simplesmente descartar o movimento como uma anomalia estatística. Mas também seria precipitado concluir que Augusto Cury já possui 8%, 10% ou 11% de um eleitorado consolidado.

A razão está nas pesquisas realizadas poucos dias antes.


Uma mudança que parece ter ocorrido em questão de dias

O contraste é impressionante.

Na pesquisa PoderData/Aya, cujo levantamento foi realizado entre 23 e 26 de agosto, Augusto Cury aparecia com 4%.

Na Vox Brasil, que entrevistou eleitores entre 25 e 27 de agosto, tinha 2,6%. Lula registrava 37,1%, Flávio Bolsonaro 34,8%, Ronaldo Caiado 5%, Renan Santos 3,3% e Romeu Zema 2,8%. A pesquisa ouviu 2.100 pessoas e tinha margem de erro de 2,15 pontos percentuais.

Já a Indexa/Broadcast, com campo realizado entre 20 e 23 de agosto, encontrou Cury com 1% no cenário sem Pablo Marçal. No cenário com Marçal — o reproduzido em alguns cards que circularam nas redes — Cury não pontuou. A pesquisa ouviu 2 mil pessoas, com margem de erro de 2,2 pontos.

Colocando os levantamentos em ordem cronológica, temos uma sequência bastante peculiar:


- Indexa/Broadcast (20 a 23/8): 0% a 1%, conforme o cenário

- PoderData/Aya (23 a 26/8): 4%

- Vox Brasil (25 a 27/8): 2,6%

- AtlasIntel (25 a 30/8): 7,8%

- BTG/Nexus (28 a 30/8): 11%


Não se deve construir uma série histórica misturando institutos diferentes. Cada pesquisa possui metodologia, amostragem e procedimentos próprios. Mas as datas de campo permitem formular uma hipótese que merece atenção.

Se houve efetivamente uma onda Cury, ela parece ter se acelerado nos últimos dias de agosto.


O debate pode ter sido o ponto de inflexão

Há um acontecimento que coincide temporalmente com essa mudança: o debate presidencial da Band, realizado em 23 de agosto.

A participação de Cury ganhou grande repercussão nas redes sociais nos dias seguintes. Em apenas uma semana, sua conta no Instagram saltou de aproximadamente 8,4 milhões para 10,8 milhões de seguidores, crescimento próximo de 2,5 milhões. Cortes de suas intervenções no debate também tiveram forte circulação digital.

Isso ajuda a compreender por que pesquisas realizadas em períodos tão próximos podem estar captando momentos diferentes.

A Indexa encerrou seu campo justamente no dia do debate. Já o PoderData começou a entrevistar naquele dia enquanto a Vox terminou no dia 27. E a Nexus, por sua vez, realizou todo o seu levantamento entre os dias 28 e 30, quando a repercussão digital já estava disseminada.

Não significa que a diferença entre 2,6% e 11% seja explicada exclusivamente pelo tempo. Certamente há também efeitos metodológicos. No entanto, existe uma sequência temporal suficientemente coerente para que a hipótese de crescimento real não possa ser ignorada.


Os 8% espontâneos talvez sejam ainda mais importantes que os 11%

Um dos dados mais interessantes do relatório completo da BTG/Nexus passou quase despercebido nas manchetes.

Na pergunta espontânea — quando o entrevistador não apresenta uma lista de candidatos e simplesmente pergunta em quem o eleitor votaria — Cury aparece com 8%.

Lula registra 37%, Flávio Bolsonaro 30%, Cury 8%, Ronaldo Caiado 2%, Renan Santos 2% e Romeu Zema 1%.

Esse resultado merece atenção porque reduz uma possível explicação para os 11%.

Augusto Cury é um escritor extremamente conhecido. Seria razoável imaginar que parte de seu desempenho na pesquisa estimulada decorresse simplesmente do reconhecimento do nome quando apresentado ao entrevistado.

Todavia, 8% espontâneos significam que uma parcela relevante dos eleitores já consegue lembrar dele como candidato presidencial sem qualquer estímulo. Isso sugere que, pelo menos para parte do eleitorado, sua candidatura começou efetivamente a entrar no debate político.


Quem é o eleitor que está levando Cury para cima?

O crescimento de Augusto Cury, entretanto, não se distribui de maneira uniforme pelo eleitorado.

Na BTG/Nexus, o recorte mais evidente é geracional. O candidato chega a 22% entre os eleitores de 16 a 24 anos e a 16% entre aqueles de 25 a 40 anos. Depois disso, sua votação cai significativamente: são 8% entre 41 e 59 anos e apenas 4% entre os eleitores com 60 anos ou mais. 

A escolaridade produz uma diferença igualmente expressiva. Cury registra somente 3% entre os entrevistados com ensino fundamental, sobe para 14% entre aqueles com ensino médio e alcança 17% entre os que possuem ensino superior. Entre as mulheres, aparece com 13%; entre os homens, com 9%.

Esse perfil mais jovem e escolarizado aparece também na AtlasIntel, embora utilizando metodologia e faixas etárias diferentes. Nesse levantamento, Cury chega a 19,8% entre os entrevistados de 25 a 34 anos e cai para apenas 0,3% entre aqueles com 60 anos ou mais. Entre eleitores que se declaram independentes, marca 19,2%.

Isso não significa, porém, que sua candidatura esteja confinada aos grandes centros ou às faixas superiores de renda.

Na Nexus, Cury registra 8% entre famílias com renda de até um salário mínimo, 11% entre aquelas que recebem de um a dois salários, outros 11% entre dois e cinco salários e 13% acima de cinco salários mínimos.

Regionalmente, aparece com 14% no Nordeste, 10% no Sudeste, 10% no Sul e 9% no Norte/Centro-Oeste. Também há pouca diferença entre capitais, regiões metropolitanas e interior: 10%, 12% e 11%, respectivamente.

Até no recorte religioso a votação se mostra relativamente distribuída: 9% entre católicos, 13% entre evangélicos, 11% entre outras religiões e 12% entre pessoas sem religião.

Os números sugerem, portanto, que Cury ainda possui um eleitorado socialmente assimétrico — especialmente jovem e escolarizado —, mas não parece limitado a uma única região, faixa de renda, religião ou tipo de município.

Esse ponto é importante porque diferencia uma candidatura nacional emergente de um fenômeno restrito a nichos altamente mobilizados nas redes sociais.


De onde estão vindo esses votos?

O relatório da Nexus permite avançar mais um pouco.

Quando o instituto cruza a intenção de voto atual com o voto declarado no segundo turno presidencial de 2022, aparece uma informação especialmente interessante.

Entre os entrevistados que dizem ter votado em Lula em 2022, 77% continuam com Lula, enquanto 7% aparecem agora com Cury.

Entre aqueles que declararam voto em Jair Bolsonaro, 68% estão com Flávio Bolsonaro, mas nada menos que 13% aparecem com Augusto Cury.

É preciso cuidado com a interpretação. Pois isso não significa que todos os pontos perdidos por Flávio Bolsonaro nas últimas semanas tenham migrado diretamente para Cury, mas demonstra que a candidatura do escritor está penetrando nos dois antigos eleitorados — e, até agora, proporcionalmente mais entre os eleitores de Bolsonaro.

Esse dado ajuda a compreender outro movimento observado na Nexus. Enquanto Cury passou de 2% para 11%, Lula recuou dois pontos e Flávio Bolsonaro quatro.

Não é possível estabelecer uma transferência automática entre essas variações. Porém, os cruzamentos mostram que a maior permeabilidade do antigo eleitorado bolsonarista a Cury não é apenas uma hipótese.


Uma ameaça maior a Flávio Bolsonaro?

Outro cruzamento ajuda a compreender melhor a composição desse crescimento — e mostra que chamar Cury simplesmente de candidato da “terceira via” talvez seja uma simplificação.

A Nexus divide o eleitorado em seis grupos, conforme sua relação com o lulismo e o bolsonarismo.

Cury alcança 19% entre os não polarizados e também 19% entre aqueles que se identificam simultaneamente como anti-Lula e anti-Bolsonaro. Entre lulistas convictos, porém, registra apenas 3%; entre bolsonaristas convictos, chega a 8%. 

Seu melhor resultado aparece em outro grupo: entre os eleitores classificados pela Nexus como aqueles para quem Bolsonaro é uma alternativa, Cury chega a nada menos que 26%. Trata-se de um segmento identificado com o antilulismo, mas sem a mesma vinculação ao antibolsonarismo que caracteriza o núcleo mais fiel ao ex-presidente.

Entre aqueles para quem Lula aparece apenas como alternativa, Cury tem 14%. O dado sugere que sua ascensão pode combinar pelo menos dois movimentos diferentes: a procura por uma candidatura fora da polarização e a existência de um eleitor antipetista que não está necessariamente comprometido com Flávio Bolsonaro.

A AtlasIntel, porém, encontra um desenho semelhante por outro critério. Cury chega a 19,2% entre independentes e a 11,6% entre eleitores de direita que não se consideram bolsonaristas, enquanto praticamente desaparece nos núcleos mais identificados com Lula ou Bolsonaro.

Isso aponta para uma possível vulnerabilidade da candidatura de Flávio Bolsonaro.

Cury parece especialmente competitivo entre eleitores que rejeitam Lula ou não se identificam com o lulismo, mas que também não estão dispostos a transferir automaticamente para o filho do ex-presidente a preferência que tinham por Jair Bolsonaro.

Se essa tendência persistir, a ascensão de uma terceira candidatura poderá produzir um efeito aparentemente paradoxal: um candidato que se apresenta contra a polarização pode, num primeiro momento, causar mais dificuldades ao polo bolsonarista do que ao lulista.


Mas o eleitor de Cury não é simplesmente um bolsonarista procurando outro candidato

Há outro dado que impede uma interpretação simplista. A Nexus perguntou aos eleitores dos candidatos do primeiro turno o que fariam numa eventual disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Entre os atuais eleitores de Augusto Cury, aproximadamente 50% escolheriam Lula e 37% Flávio Bolsonaro, enquanto 12% tenderiam a branco ou nulo. Já entre os eleitores de Renan Santos, a situação é muito diferente pois 69% escolheriam Flávio Bolsonaro e 20% Lula. E, entre os eleitores de Zema, Flávio também levaria vantagem.

Isso demonstra que Cury está reunindo um eleitorado peculiar.

Embora encontre proporcionalmente maior penetração entre antigos eleitores de Bolsonaro, seus eleitores não constituem simplesmente uma reserva de votos para Flávio num eventual segundo turno.

Há ali eleitores de origens políticas diferentes unidos, ao menos momentaneamente, pela procura de outra alternativa no primeiro turno.


Existe realmente um eleitorado para uma terceira via?

Talvez esta seja a pergunta mais importante.

Durante boa parte da pré-campanha, diversos candidatos tentaram ocupar o espaço entre Lula e o bolsonarismo. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, cada um com perfil próprio, procuraram apresentar-se como alternativas aos dois polos.

O problema parecia não ser a inexistência desse eleitorado, mas sua fragmentação. Aliás, a própria Nexus fornece uma pista importante.

Quando o instituto pergunta quem o entrevistado preferiria que fosse eleito presidente, oferecendo alternativas políticas mais gerais, 38% escolhem Lula, 33% preferem Flávio Bolsonaro ou outro candidato indicado por Jair Bolsonaro e nada menos que 25% afirmam preferir alguém que não seja apoiado nem por Lula nem por Bolsonaro.

Um quarto do eleitorado, portanto, manifesta preferência por uma alternativa aos dois campos. E esse espaço já existia antes da ascensão de Augusto Cury.

A novidade, porém, pode estar em outra coisa. É que, pela primeira vez nesta campanha, um candidato parece estar conseguindo concentrar rapidamente uma parcela significativa dele. Obviamente que ainda é cedo para saber até onde essa concentração pode chegar.


Cury e Caiado apresentam problemas opostos

A comparação com Ronaldo Caiado talvez seja uma das mais interessantes desta eleição.

Caiado apresenta uma estabilidade impressionante no primeiro turno. Aparece com 5% na Vox, 5% na Indexa, 4% na PoderData e 5% na Nexus. Já na Atlas, tem 3,3%. Ou seja, é um candidato que, até agora, não consegue romper a barreira dos poucos pontos percentuais.

Entretanto, basta passar para as simulações de segundo turno para surgir um outro Caiado.

Na BTG/Nexus, Lula tem 45% contra 44% de Caiado — empate técnico. E, na PoderData/Aya divulgada na semana anterior, Caiado chegou a aparecer numericamente à frente: 44% contra 43% de Lula.

Temos, portanto, dois fenômenos quase inversos.

Cury começa a demonstrar capacidade de chegar ao segundo turno. Caiado demonstra capacidade de disputar o segundo turno, mas ainda não consegue chegar até ele.

Pode-se dizer que o desafio de Caiado é transformar sua elevada capacidade de agregação contra Lula em voto de primeiro turno.

Já o desafio de Cury é outro. Seria demonstrar que o eleitor que hoje experimenta sua candidatura permanecerá com ele quando a campanha entrar numa fase mais competitiva.

Além do mais, ainda falta uma informação fundamental. Nem Atlas nem Nexus testaram nesta rodada um eventual segundo turno entre Lula e Augusto Cury.

Depois dos resultados desta segunda-feira, essa simulação passou a ser uma das perguntas mais interessantes das próximas pesquisas.


Uma rejeição ainda baixa — mas falta medir o conhecimento

Crescer rapidamente em intenção de voto não basta, por si só, para transformar uma candidatura em alternativa competitiva.

Outro indicador relevante é a rejeição. Um candidato pode alcançar dois dígitos e, ao mesmo tempo, estar próximo de seu teto caso uma parcela muito grande do eleitorado declare que não votaria nele em nenhuma circunstância.

Nesse aspecto, a AtlasIntel apresenta um dado inicialmente favorável a Augusto Cury: sua rejeição aparece em 18,5%, a menor entre os principais nomes testados. Flávio Bolsonaro registra 52,7%, Lula 52%, Renan Santos 43,1%, Romeu Zema 33,9% e Ronaldo Caiado 28,5%.

À primeira vista, portanto, Cury não parece enfrentar uma barreira de rejeição semelhante à dos dois líderes.

Mas essa informação precisa ser lida com cautela.

Rejeição baixa pode significar espaço para crescer, mas também pode estar associada a menor conhecimento político do candidato. Uma pessoa sobre quem o eleitor ainda não formou opinião tende naturalmente a ser menos rejeitada do que figuras expostas durante muitos anos ao debate político.

E justamente aqui permanece uma lacuna importante.

Embora o relatório da BTG/Nexus possua uma seção específica sobre “potencial de voto e rejeição”, distinguindo quem considera determinado candidato sua única opção, quem poderia votar nele, quem não votaria de jeito nenhum e quem não o conhece, Augusto Cury não foi incluído nesse quadro. Foram testados Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Pablo Marçal, Renan Santos e Romeu Zema.

Assim, não é possível calcular pela Nexus desta rodada nem a rejeição de Cury nem a parcela que ainda afirma não conhecê-lo.

Pesquisas realizadas anteriormente à sua recente exposição ainda apontavam níveis elevados de desconhecimento eleitoral, mas os institutos divergiam bastante sobre a dimensão desse fenômeno. Depois do debate, da circulação massiva de vídeos e do crescimento de aproximadamente 2,5 milhões de seguidores em uma semana, uma nova aferição dessa variável seria particularmente importante.

Por isso, os 18,5% de rejeição encontrados pela Atlas são uma informação potencialmente relevante sobre o espaço de crescimento de Cury, mas ainda não permitem concluir qual seria seu teto eleitoral.

Falta saber quantos brasileiros já formaram uma opinião efetiva sobre sua candidatura — e quantos simplesmente ainda não a conhecem suficientemente para rejeitá-la ou apoiá-la.


Os 11% ainda são frágeis

O próprio relatório da Nexus contém a principal advertência contra uma interpretação exagerada de sua manchete.

Entre os eleitores de Lula, 85% afirmam que sua decisão de voto já está tomada e não deve mudar. Entre os de Flávio Bolsonaro, são igualmente 85% os que se consideram decididos. E, entre os eleitores de Augusto Cury, porém, somente 59% dizem que a escolha está definida enquanto outros 41% admitem que podem mudar de candidato até outubro.

A combinação entre baixa rejeição, crescimento rápido e elevada volatilidade descreve bem o estágio atual da candidatura: Cury parece ter espaço para conquistar novos eleitores, mas ainda não transformou boa parte da simpatia recente em voto firmemente consolidado.

Parte desses eleitores pode estar conhecendo Cury agora. Outra parcela pode estar manifestando entusiasmo após sua participação no debate. Alguns podem estar utilizando sua candidatura como forma de rejeitar momentaneamente os dois principais nomes.

Nada garante que todos permanecerão. O crescimento pode ser um típico impulso pós-debate, seguido posteriormente por acomodação, mas também pode produzir o fenômeno contrário.

Podemos dizer que pesquisas melhores geram cobertura jornalística enquanto a cobertura amplia o conhecimento do candidato. Por sua vez, maior conhecimento pode gerar novos eleitores e estes produzem pesquisas melhores, criando um círculo de retroalimentação política.

A repercussão nacional dos resultados desta segunda-feira demonstra que Cury já entrou nesse segundo estágio. 

Até poucos dias atrás, a pergunta era quem seria Augusto Cury como candidato. Agora, veículos nacionais e internacionais já discutem sua ascensão eleitoral.


Afinal, Cury tem 3%, 8% ou 11%?

Provavelmente essa é a pergunta errada.

Pesquisas eleitorais não são contagens antecipadas de votos. São fotografias produzidas por métodos diferentes, em momentos diferentes e sujeitas a margens de erro, composição amostral e efeitos próprios de cada metodologia.

Por isso, não seria metodologicamente correto colocar Vox, PoderData, Atlas e Nexus numa mesma linha e afirmar que Cury passou literalmente de 2,6% para 4%, depois 7,8% e finalmente 11%.

Não são rodadas do mesmo instituto.

O que podemos dizer é algo mais limitado — mas ainda politicamente importante.

Institutos que entrevistaram eleitores antes ou durante os primeiros dias posteriores ao debate encontraram Cury entre aproximadamente 1% e 4%. Dois levantamentos que alcançaram os últimos dias de agosto detectaram uma candidatura muito mais forte: 7,8% na Atlas e 11% na Nexus.

Ora, quando observamos cada série histórica separadamente, o movimento continua existindo. Na Atlas, Cury passou de 1,6% para 7,8%. E, na Nexus, ele passou de 2% para 11%.

Portanto, pode haver grande incerteza sobre a dimensão do crescimento de Cury, embora haja bem menos dúvida de que algum crescimento aconteceu.


Uma eleição que pode estar começando a mudar

Lula e Flávio Bolsonaro continuam sendo, com larga distância, os dois principais candidatos à Presidência.

Nada nas pesquisas desta segunda-feira autoriza afirmar que Augusto Cury esteja próximo de ultrapassar qualquer um deles.

Também seria prematuro falar em uma terceira via consolidada.

Entretanto, alguma coisa mudou.

Duas pesquisas diferentes detectaram, simultaneamente, forte crescimento de um candidato que até poucos dias atrás permanecia no grupo dos pequenos. A Nexus encontrou ainda 8% de voto espontâneo e revelou uma candidatura particularmente forte entre jovens e eleitores mais escolarizados, mas territorialmente distribuída entre regiões, capitais, periferias metropolitanas e interior.

Os cruzamentos mostram também que Cury penetra nos dois eleitorados da eleição de 2022 e encontra espaço expressivo entre não polarizados e entre eleitores antipetistas que não estão rigidamente vinculados ao bolsonarismo. Ao mesmo tempo, a Atlas registra rejeição de apenas 18,5%, enquanto a Nexus mostra que 41% de seus atuais eleitores ainda admitem mudar de voto.

É uma combinação eleitoral incomum: crescimento rápido, rejeição ainda baixa e voto pouco consolidado. Pode representar tanto um grande espaço para expansão quanto a fragilidade típica de uma candidatura que acaba de receber enorme exposição.

Ao mesmo tempo, as pesquisas imediatamente anteriores e a elevada volatilidade de seu eleitorado recomendam cautela.

Talvez estejamos assistindo apenas ao pico de um efeito debate.

Talvez os próximos levantamentos devolvam Cury à faixa dos 4% ou 5%.

Ou, talvez, Atlas e Nexus tenham sido as primeiras pesquisas a registrar uma mudança que ainda estava acontecendo enquanto os demais institutos encerravam seus trabalhos de campo.

É justamente essa incerteza que torna os próximos dias tão importantes.

Se novas pesquisas realizadas integralmente depois de 28 de agosto encontrarem Cury novamente próximo de 8%, 9% ou 10%, ficará muito mais difícil tratar o episódio como uma oscilação passageira.

E, se algum instituto passar a testar Lula contra Augusto Cury no segundo turno, teremos uma informação ainda mais importante: saberemos se o escritor está apenas reunindo o voto de protesto e de terceira via no primeiro turno ou se começa a ser percebido como uma alternativa efetivamente competitiva para a Presidência.

Por enquanto, duas conclusões parecem possíveis.

A primeira é que ainda não sabemos se Augusto Cury tem 8%, 11% ou algo significativamente abaixo disso.

A segunda é que já não parece prudente analisar a eleição presidencial de 2026 como se ele continuasse tendo apenas 2%.

A pergunta que as pesquisas desta segunda-feira deixaram para setembro não é mais simplesmente se Augusto Cury cresceu.

É até onde ele pode crescer — e se esse crescimento veio para ficar.


📝 NOTA: 

A margem de erro informa a incerteza estatística de cada levantamento isoladamente, mas não elimina diferenças produzidas por desenho amostral, modo de entrevista, formulação das perguntas, período de campo e composição da lista apresentada aos entrevistados.

Os institutos também não utilizaram necessariamente o mesmo conjunto de candidatos em todos os cenários.

A presença de Pablo Marçal, por exemplo, pode ser relevante para a distribuição do voto de protesto, da direita não bolsonarista e dos eleitores que buscam alternativas aos dois principais polos.

Na Indexa/Broadcast, Cury marcou 1% no cenário sem Marçal e não pontuou quando ele foi incluído. A própria BTG/Nexus, entretanto, permite um controle interessante desse possível efeito: Cury permaneceu com 11% tanto no cenário sem Marçal quanto naquele em que o candidato do PRTB aparece com 3%. AtlasIntel, PoderData/Aya e Vox Brasil também incluíram Marçal nos cenários aqui citados. A Nexus registra 11% para Cury no cenário principal e também 11% quando Marçal é incluído.

Portanto, as diferenças entre as pesquisas não podem ser atribuídas automaticamente à presença ou ausência de um único candidato. A comparação mais segura continua sendo a evolução dentro da mesma série e, quando possível, entre cenários com listas equivalentes.


🚨ATUALIZAÇÃO — 1º de setembro:

Uma nova pesquisa divulgada na manhã desta terça-feira reforçou a hipótese apresentada neste artigo. A Real Time Big Data encontrou Augusto Cury com 11%, mesmo percentual registrado pela BTG/Nexus no dia anterior. O levantamento, realizado entre 27 e 31 de agosto, mostra Lula com 38% e Flávio Bolsonaro com 30%. Na rodada anterior do próprio instituto, divulgada em julho, Cury tinha apenas 1%. Com isso, três séries independentes passaram a registrar forte crescimento do candidato: Nexus, de 2% para 11%; AtlasIntel, de 1,6% para 7,8%; e Real Time Big Data, de 1% para 11%. A divergência sobre a dimensão exata permanece, mas a hipótese de que o crescimento seja apenas uma anomalia de um único levantamento tornou-se consideravelmente mais fraca. 

A Real Time acrescenta ainda duas informações relevantes: Cury aparece com 4% no voto espontâneo e possui 28% de rejeição, abaixo de Lula e Flávio Bolsonaro, ambos com 50%. Curiosamente, porém, os recortes sociodemográficos divergem bastante dos encontrados pela Nexus: enquanto esta apontava maior força de Cury entre jovens, a Real Time encontra seu melhor desempenho entre eleitores com 60 anos ou mais. As próximas pesquisas serão importantes não apenas para confirmar quanto Cury tem, mas também para esclarecer quem é, afinal, o eleitor de Augusto Cury.

sábado, 22 de agosto de 2026

Juntos em defesa da democracia, da soberania e da reconstrução do Rio



Neste sábado, 22 de agosto, tive a oportunidade de acompanhar, no Estádio Moça Bonita, em Bangu, o primeiro grande encontro da campanha presidencial de Lula no Rio de Janeiro. No palanque estavam: o prefeito da capital, Eduardo Cavaliere; Eduardo Paes, candidato ao Governo do Estado; os deputados federais Benedita da Silva e Pedro Paulo, candidatos ao Senado; a primeira-dama Janja; além de representantes de diferentes partidos e outras lideranças políticas.

Entre bandeiras, militantes de diferentes legendas e milhares de pessoas que chegaram à Zona Oeste carioca desde as primeiras horas da manhã, uma fala de Eduardo Paes me chamou particularmente a atenção.

Ao explicar sua presença no mesmo palanque do presidente Lula, Paes não procurou esconder as diferenças existentes entre eles. Fez justamente o contrário: reconheceu-as.

Em síntese, o ex-prefeito afirmou que o que os une hoje, respeitadas as diferenças, é o desejo de recuperar o Estado do Rio de Janeiro e a compreensão de que o Brasil também precisa de um Rio forte.

Há algo politicamente relevante nessa formulação. Em tempos de polarização, tornou-se comum imaginar que uma aliança somente seria coerente quando formada por pessoas que compartilham praticamente as mesmas posições. Paes apresentou uma lógica diferente: a unidade não decorreria da inexistência de divergências, mas da existência de um propósito comum considerado maior do que elas.

Aquela fala imediatamente me remeteu a uma reflexão que fiz há menos de um mês. No dia 28 de julho, depois de participar da Convenção Estadual do PDT, publiquei neste blog o artigo Frentes amplas e a democracia: uma lição da Nova República para as eleições de 2026.

Naquela ocasião, uma das intervenções que mais haviam despertado minha atenção foi a do ex-deputado Miro Teixeira, então apresentado como pré-candidato ao Senado pelo PDT e que, posteriormente, tornou-se primeiro suplente de Pedro Paulo.

Ao defender a união de diferentes forças do campo democrático, Miro recuperou experiências da redemocratização brasileira e chamou atenção para algo que muitas vezes esquecemos: a democracia não exige que aqueles que constroem juntos pensem da mesma maneira sobre tudo.

Foi daquela reflexão que surgiu uma frase que sintetizava o que eu havia compreendido da convenção: Frentes amplas não se constroem sobre unanimidades. Constroem-se sobre prioridades comuns.

Menos de um mês depois, em Moça Bonita, encontrei essa mesma ideia saindo do ambiente das convenções partidárias para ganhar as ruas.


Das convenções para as ruas

Há uma diferença importante entre o que presenciei na convenção do PDT, em julho, e o que vi neste sábado em Bangu.

Na convenção, a frente ampla ainda se apresentava principalmente em sua dimensão institucional e partidária. PSD, PDT, PSB, Federação Brasil da Esperança, Federação PSDB-Cidadania, MDB e outras forças políticas haviam decidido convergir em torno da candidatura de Eduardo Paes ao Governo do Estado.

Era uma composição ampla e, justamente por isso, heterogênea.

No entanto, toda coalizão eleitoral enfrenta, em algum momento, uma questão que não pode ser respondida apenas pela fotografia de seus dirigentes ou pela relação das siglas que a integram: afinal, o que justifica politicamente estarem todos juntos?

Essa pergunta é fundamental porque uma frente ampla não se legitima simplesmente por ser ampla. A quantidade de partidos reunidos não constitui, por si só, uma virtude democrática. Uma coalizão pode ser numerosa e ainda assim representar apenas conveniência eleitoral, distribuição de espaços ou soma de estruturas partidárias.

Para adquirir significado político, a amplitude precisa encontrar um propósito.

Em Moça Bonita, essa resposta começou a ganhar uma formulação pública mais clara.

Não estamos juntos porque passamos a concordar em tudo.

Estamos juntos porque, apesar das diferenças, identificamos determinados objetivos que consideramos maiores do que elas.

Esse princípio apareceu no discurso de Eduardo Paes e voltou a aparecer, depois do evento, em sua manifestação nas redes sociais. Ao lembrar sua relação de muitos anos com Lula, Paes reconheceu expressamente que pertencem a partidos diferentes e que não concordam sobre tudo.

Talvez justamente aí esteja a parte mais importante.

Uma frente ampla somente pode ser verdadeiramente ampla se houver diferenças dentro dela. Caso todos pensassem da mesma maneira, não estaríamos falando propriamente de uma frente ampla, mas da reunião de forças pertencentes a um mesmo campo político.

A questão, portanto, não é eliminar a diferença.

É descobrir o que pode ser construído apesar dela.


Divergir não impede construir

Existe uma tendência preocupante na política contemporânea de tratar qualquer aproximação entre antigos adversários como sinônimo de incoerência.

Naturalmente, alianças políticas devem ser examinadas criticamente. É legítimo — e necessário — perguntar quais objetivos as justificam, quais compromissos as sustentam, quais concessões foram realizadas e até onde diferenças relevantes poderão ser administradas no exercício do governo.

Uma frente ampla não deve significar um cheque em branco.

Entretanto, existe enorme distância entre exercer esse necessário espírito crítico e defender a ideia de que somente pessoas que concordam integralmente entre si possuem legitimidade para construir alguma coisa juntas.

A democracia é, por definição, o regime da pluralidade.

Partidos existem justamente porque a sociedade abriga diferentes concepções sobre economia, direitos, segurança, políticas sociais, desenvolvimento, papel do Estado e tantos outros temas. Eliminar essas diferenças não seria aperfeiçoar a democracia; seria eliminar uma das razões de sua própria existência.

O desafio democrático é outro: estabelecer procedimentos para administrar o dissenso e, quando necessário, encontrar consensos suficientes para agir coletivamente.

Foi isso que o movimento das Diretas Já demonstrou.

E foi também isso que a construção política da Nova República revelou.

Trabalhistas, liberais, socialistas, comunistas, democratas-cristãos e dissidentes das forças que haviam sustentado o regime militar encontraram, em determinado momento histórico, um objetivo que consideraram superior às divergências que continuavam existindo entre eles.

Não deixaram de ser diferentes.

Não apagaram suas trajetórias.

Não passaram a concordar sobre tudo.

Conseguiram, entretanto, caminhar juntos em torno de uma prioridade comum.

A história também ensina, naturalmente, que essas convergências possuem limites, contradições e prazo político. Frentes amplas não suspendem o conflito democrático para sempre. Superada determinada prioridade, diferenças antes colocadas em segundo plano podem voltar ao centro da disputa.

Isso não representa necessariamente o fracasso de uma frente.

Pode representar simplesmente o retorno à normalidade democrática.


Uma relação que começou pela divergência

O próprio presidente Lula trouxe ao encontro de Bangu uma história que ajuda a compreender essa lógica.

Ao recordar sua aproximação com Eduardo Paes em 2008, Lula contou que inicialmente não gostava dele e que provavelmente o sentimento era recíproco. Recordou a resistência inicial àquela aproximação e descreveu como o diálogo modificou sua percepção.

Dezoito anos depois, Lula descreve Paes não apenas como aliado político, mas como amigo, enquanto Paes recorda uma parceria que atravessou diferentes momentos de sua vida pública.

É uma história interessante justamente porque não começa pela afinidade.

Começa pela diferença.

E isso nos permite distinguir duas coisas que a política contemporânea frequentemente confunde: adversário e inimigo.

Adversários disputam projetos, eleições, ideias e poder. Podem discordar profundamente e continuar reconhecendo um no outro a legitimidade necessária para o diálogo democrático.

O inimigo, ao contrário, é aquele cuja própria presença no espaço político passa a ser considerada ilegítima.

Quando toda divergência transforma o outro em inimigo, o espaço para negociação desaparece. E, quando o diálogo passa a ser interpretado como traição, a democracia perde justamente um dos mecanismos que permitem seu funcionamento.

Não é necessário transformar a relação entre Lula e Paes em regra universal sobre alianças políticas. Mas ela demonstra algo elementar: adversários não precisam ser inimigos permanentes.

Pessoas podem divergir, conversar, construir relações institucionais e, em determinadas circunstâncias, descobrir objetivos comuns.


Os objetivos dessa frente ampla

É aqui que a reflexão deixa de ser apenas histórica e chega ao Rio de Janeiro de 2026.

Se em julho escrevi que frentes amplas se constroem sobre prioridades comuns, a fala de Eduardo Paes em Bangu acrescentou uma pergunta inevitável: qual é, afinal, a prioridade comum que justifica a frente formada no Rio de Janeiro?

A resposta apresentada no palanque foi a reconstrução do Estado, tendo em vista as mazelas deixadas por Wilson Witzel e Cláudio Castro.

Paes sustenta que funções fundamentais do poder público foram enfraquecidas e que recuperar o Rio exigirá articulação entre Governo do Estado, Governo Federal, Senado, municípios e diferentes forças políticas.

Pode-se concordar ou discordar desse diagnóstico — e as eleições existem justamente para que diferentes interpretações da realidade e diferentes projetos sejam submetidos ao julgamento popular.

Todavia, existe agora uma justificativa política mais claramente apresentada para a composição formalizada nas convenções.

A frente pretende dizer ao eleitor que não se reuniu simplesmente para somar partidos, tempo, estrutura ou votos. Sua tese é a de que a situação do Rio exige uma coalizão política suficientemente ampla para reconstruir a capacidade de atuação do Estado.

Essa distinção é importante.

Porque “frente ampla” não pode funcionar como argumento autossuficiente. A amplitude é um meio, não um programa de governo.

O verdadeiro teste começa quando a coalizão precisa transformar seu propósito comum em compromissos concretos: segurança pública, educação, saúde, transportes, desenvolvimento econômico, equilíbrio fiscal, combate às desigualdades e recuperação da capacidade institucional do Estado.

É nesse momento que a retórica da união precisa encontrar a realidade da administração.

E é esse argumento — não apenas a fotografia do palanque — que deverá ser submetido ao julgamento do eleitor durante a campanha.


A unidade não elimina a identidade

Existe ainda outro aspecto que considero fundamental.

Construir uma frente ampla não deveria exigir que PDT deixe de ser PDT, que PT deixe de ser PT, que PSD deixe de ser PSD ou que qualquer outra força política abandone sua história.

Ao contrário. A riqueza democrática de uma frente está justamente na possibilidade de diferentes tradições políticas contribuírem para um objetivo compartilhado sem dissolver suas identidades.

Isso também significa preservar o direito à divergência dentro da própria coalizão.

Uma frente democrática que exigisse silêncio absoluto de seus integrantes diante de qualquer diferença correria o risco de contradizer o princípio pluralista que utiliza para justificar sua existência.

Unidade não é uniformidade.

Talvez essa seja uma das distinções mais importantes para compreender não apenas as alianças de 2026, mas a própria democracia.


Da fotografia ao compromisso

O encontro de Moça Bonita produziu uma fotografia política poderosa: Lula, Eduardo Paes, Benedita da Silva, Pedro Paulo, Eduardo Cavaliere e representantes de diferentes forças dividindo o mesmo espaço.

No entanto, fotografias eleitorais são instantâneas. Governar exige muito mais.

Uma frente ampla somente demonstrará sua consistência se conseguir converter a imagem da diversidade em capacidade de diálogo; o diálogo em compromissos; os compromissos em políticas públicas; e as políticas públicas em resultados para a população.

Talvez esse seja o verdadeiro desafio colocado depois de Bangu.

A coalizão já mostrou que consegue reunir diferentes e poderá demonstrar o que pretende construir com essa diferença reunida.


Uma reflexão que continua

Quando deixei a convenção do PDT, no final de julho, escrevi que somente o tempo diria se as frentes amplas formadas em 2026 alcançariam seus objetivos eleitorais.

Continuo pensando exatamente da mesma maneira.

Quem decidirá se essa frente merece governar o Rio de Janeiro será o eleitor.

No entanto, o encontro de Moça Bonita acrescentou um novo capítulo à reflexão que comecei naquela noite na sede do PDT.

Em julho, vi diferentes partidos formalizarem uma convergência.

Em agosto, vi essa convergência começar a explicar publicamente a razão de sua existência.

Há uma diferença importante entre as duas coisas.

Uma aliança se forma quando partidos decidem caminhar juntos. Uma frente política adquire sentido quando consegue explicar à sociedade por que vale a pena caminharem juntos.

Talvez esteja justamente aí uma das questões mais interessantes destas eleições.

Uma frente ampla não precisa pedir que seus integrantes esqueçam suas histórias, abandonem suas convicções ou finjam concordar sobre aquilo em que efetivamente divergem.

Precisa, porém, responder permanentemente a uma pergunta muito mais exigente: o que somos capazes de construir juntos apesar das nossas diferenças?

Miro Teixeira, na convenção do PDT, buscou essa resposta nas lições da Nova República.

Eduardo Paes, em Moça Bonita, procurou respondê-la olhando para o futuro do Rio de Janeiro.

As circunstâncias são diferentes, mas a reflexão permanece atual.

Porque democracia não é apenas o direito de divergir.

É também a capacidade de conviver com a divergência, reconhecer a legitimidade do outro, construir pontes quando elas são necessárias e compreender que, em determinados momentos históricos, aquilo que temos em comum pode ser mais importante do que aquilo que nos separa.







Uma semana abençoada a tod@s!