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sábado, 10 de julho de 2010

O privilégio de ter convivido com um grande avô


Com sete anos de idade, perdi meu pai. Tal fato sucedeu no final do mês de setembro de 1983, o que prolongou para mim o inverno daquele difícil ano, tendo sido uma grande perda.

No entanto, ainda no final de 1983, aproximei-me de meu avô paterno, Sylvio Ancora da Luz, numa de suas visitas ao Rio de Janeiro, onde até então eu morava até então na companhia de minha mãe. Como de costume, vovô e sua segunda esposa Diva ficavam no apartamento da cunhada Leonor em Copacabana. E foi justamente naquela ocasião que pedi para a minha avó paterna Darcília, sua ex-esposa, lhe telefonasse afim de que ele viesse encontrar-se com o neto.

A oportunidade rendeu não somente um passeio pela Zona Sul carioca, mas uma grande aproximação entre mim e ele. A partir daí, foram várias visitas e estadias em sua residência na cidade de Juiz de Fora até que, no ano de 1985, aceitei o convite de ir morar com ele e Diva em Minas Gerais.

Venho de uma família desajustada de pais e de quatro avós separados, mas posso dizer que o relacionamento entre meu avô e Diva corria muito bem. Eu nunca os vi discutindo com gritos ou palavrões, se agredindo fisicamente ou praticando atitudes de desrespeito. Talvez até tivessem um ou outro desentendimento discreto do qual eu não participasse, coisa normal de um casal, mas a impressão que sempre tive é que ambos viviam um relacionamento exemplar, formando um lar bastante acolhedor.

Dei muito trabalho para meu avô, tanto no fim da infância, na adolescência e juventude. Só que não é disso que quero compartilhar hoje aqui, pois o que pretendo é me recordar de alguns traços de sua personalidade, gostos culturais, hábitos e, enfim, celebrar a existência de mais uma pessoa que passou por este planeta.

Geralmente as pessoas escrevem sobre a biografia de gente famosa como reis, rainhas, presidentes, atores, pintores, cantores, esportistas, empresários de sucesso, generais de guerra, ativistas políticos, líderes religiosos, etc. Só que nos esquecemos de valorizar aqueles que optaram por ficar ficar no anonimato, mas cumpriram as missões de suas vidas como pais, trabalhadores, donas de casa e simples membros de uma sociedade.

Alguns até chamavam meu avô de general, mas ele jamais teve esta patente das Forças Armadas. Foi um militar do exército brasileiro, da arma da artilharia e, por não ter feito curso de Estado Maior, terminou sua carreira como coronel no Quartel General de Juiz de Fora, somando 35 anos de serviço prestado ao Brasil. E, na época em que entrou para a reserva, ainda era permitido aos militares receber um vencimento correspondente a duas patentes superiores e reivindicar uma espécie de “promoção” quanto ao último posto que ocupava.

Modesto e prático, vovô preferiu apenas os vencimentos de general de divisão, sendo que jamais o vi sair às ruas com a farda nos dias de comemoração da independência, a qual de recordação permaneceu no armário da casa com a três estrelas e as medalhas. Aliás, ele se vestia de maneira bem simples e humilde. Seu automóvel era um Fusca ano 73 de cor verde clara e, quando viajava na época de minhas férias escolares, hospedava-se em acomodações convencionais na cidade mineira de Lambari, sem nenhum luxo ou ostentação.

Apesar de tudo, na época de minha infância, vovô tornou-se um grande motivo de orgulho pra mim. Eu que tinha deixado de morar com meu pai desde os três anos e havia ficado órfão aos sete, nesta ocasião já não me sentia tão inferior aos colegas de escola.

Vovô não foi à 2ª Guerra, mas ficou com os norte-americanos no Recife na década de 40 para defender o Brasil no caso de uma invasão dos alemães, coisa que ele parece ter acreditado até o final de sua vida. Porém, aquele foi o único período em que viveu no Nordeste e grande parte de sua carreira militar foi no Rio Grande do Sul, lugar onde tomou gosto pela música sertaneja gaúcha. No começo de sua carreira militar, ainda se usava bastante o cavalo e este era o animal que ele mais admirava.

Posso dizer que a convivência com meu avô permitiu que eu conhecesse cantores como o Gaúcho da Fronteira e Berenice, ambos do Sul. Porém, ele também gostava um pouco de Sérgio Reis, escutava fitas de Nélson Gonçalves e vez ou outra assistia uns clips de pagode que passavam aos domingos no Fantástico. Seu programa favorito era o Globo Rural, o que certamente lembrava a infância que teve no campo, quando meu bisavô administrou a fazenda de minha tataravó no Vale do Paraíba na década de 30.

Nossa alimentação também era simples, porém saudável. Sem negar o costume mineiro, o feijão era batido no liquidificador. Não jantávamos, mas tínhamos quase sempre uma sopa na hora do almoço. Leite, queijo branco e frutas também não faltavam, sendo que o doce ele me restringia por medo do neto desenvolver algum tipo de diabete a exemplo do que ocorreu com meu pai. Porém, engordei bastante quando fui pra casa dele e estive bem acima de meu peso até os 22 anos.

No relacionamento que tinha comigo, meu avô chegava a ser bem autoritário e, neste aspecto, digo que ele levou um pouco do quartel pra dentro de casa. Contudo, nós conversávamos bastante e, através do meu convívio com ele, aprendi a gostar de caminhadas ao ar livre e perdi o medo de andar de bicicleta sem aquelas rodinhas de apoio aos nova anos de idade. Inclusive, quando o conheci, antes de completar 70 anos, vovô tinha uma saúde de ferro de maneira que eu precisava me esforçar para acompanhar seus passos ligeiros pelas ruas.

Na adolescência, eu já não buscava manter tanto relacionamento com meu avô. Sua constante preocupação comigo me irritava e muitas vezes eu o entristeci querendo levar a vida do meu jeito. Não aceitava seus sábios conselhos para que aproveitasse as boas oportunidades que tinha para estudar e me preparar para concursos. Suas ideias de fazer do neto um funcionário público estável e bem remunerado não entravam na minha cabecinha ambiciosa, pois minha obsessão era me tornar um rico homem de negócios, coisa que jamais realizei.

Vovô nunca me deu carro, o que muito me revoltava, fazendo-me sentir inferior a outros colegas da faculdade e em desvantagem para conseguir namoradas. Quando andava com ele na rua, sentia vergonha de sua calça tergal com tênis e camisa velha, desprezando a maior riqueza que ele tinha para me transmitir – um bom caráter. E cheguei a evitar de apresentar meu avô aos meus colegas nesta época.

Seus últimos 10 anos de vida não foram nada fáceis. Aos poucos, vovô foi ficando com a memória esquecida e incapacitado para praticar vários atos normais do cotidiano. Um ano e pouco depois de minha vinda de Juiz de Fora para Nova Friburgo, ele deixou de me reconhecer por causa da doença, o que foi um grande choque pra mim. Por mais que eu tentasse me comunicar com ele, não conseguia mais estabelecer um diálogo e alegrá-lo com algumas boas notícias que na certa ele gostaria de saber depois de ter investido em mim durante tanto tempo. Quando finalmente me formei, no final de 2004 (uns seis meses antes de seu falecimento), era inviável lhe transmitir esta tão esperada mensagem.

Em 30 de maio de 2005, vovô faleceu num leito do Hospital Militar de Juiz de Fora, uns dois dias depois de minha visita. Seu corpo de quase 88 anos estava todo inchado e ele já nem conseguia mais ingerir alimentos sólidos. E, por causa dista situação, morte pode ter sido um alívio para seus sofrimentos que ele suportou sem o auxílio de qualquer igreja já que não fazia parte de nenhuma instituição religiosa.

Hoje reconheço o quanto meu avô foi importante pra mim. Ele nada me ensinou acerca da Bíblia ou do cristianismo pois de certa forma era um dos últimos seguidores de doutrinas do positivismo de Augusto Comte, coisa que se pregava muito nas Forças Armadas brasileiras nas décadas de 30 e 40. Porém, aprendi com ele a ter caráter, honestidade e decência. E, apesar das coisas absurdas que eu já fiz em minha vida, hoje tenho na pessoa de meu avô uma boa referência de um grande homem.

Acho que muitos filhos só dão valor a seus pais após uma certa idade ou depois do falecimento de seus descendentes. No auge da juventude, muitas vezes não valorizamos nossos pais, mas um dia começamos a reconhecê-los. E ainda que não tenham sido pessoas perfeitas e possam ter falhado conosco em determinados momentos, tiveram alguma contribuição positiva para transmitir.

Na Bíblia, o quinto mandamento assim diz: “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá” (Êxodo 20.12). E, no Novo Testamento, Paulo diz que este é “o primeiro mandamento com promessa” (Efésios 6.2), identificando, além da longevidade, o verdadeiro sucesso do filho.

De fato, se eu tivesse respeitado mais meu avô e seguido suas instruções, provavelmente estaria hoje vivendo dias melhores sobre a terra. Poderia ser já um funcionário público estável, com uns 15 anos de contribuição previdenciária, e um salário capaz de satisfazer minhas principais necessidades, coisas que, embora não devam ser consideradas como elementos de culpa, servem de um rico aprendizado.

Penso que todos nós temos também a oportunidade de honrar o nosso Pai Celestial que é Deus, dando ouvidos à sua instrução. Atender a voz de Deus com temor (reverência) também nos conduz a uma vida virtuosa e que nos gera frutos além dos nossos dias aqui na terra.

Neste sentido, honrar pai e mãe é apenas uma sombra de um mandamento muito maior que se refere a uma obediência reverente ao nosso Criador. E, mesmo que venhamos a enterrar nossos ascendentes, teremos para sempre o Pai Celeste, cujo Nome (caráter) é santo.

Se temos ainda vivos pais, mães, avós e tutores, devemos aproveitar as oportunidades que nos restam para amá-los sem reservas, dando-lhes atenção e gosto de viver, servindo-os da melhor maneira que podemos, apesar de todas as dificuldades que podem envolver qualquer relação. E esta é a vontade de Deus para o nosso próprio bem.

sábado, 3 de julho de 2010

Não leve a vida tão a sério: que vença a Holanda!

Sei que muita gente ficou satisfeita com a goleada sofrida pela Argentina hoje, mas não acho nada bom que a Alemanha venha a ganhar esta Copa da África.

Se a Alemanha sair vencedora, será tetracampeã e estará a apenas uma Copa para dividir a hegemonia mundial do futebol com o Brasil, visto que o mundo inteiro ainda tenta, mas somente nós somos penta.

Apesar de toda a inveja que existe entre vizinhos, rivalidade de pobre comum entre torcedores de uma mesma cidade, país ou continente subdesenvolvidos, seguindo o raciocínio já exposto, melhor seria para a nossa posição que os argentinos tivessem ganhado o jogo de hoje.

Agora em diante, a nossa América do Sul conta apenas com as seleções mais fracas e no fundo até que eu gostaria de ver a conquista inédita do Paraguai, mas acho que é uma façanha quase impossível. Para jogarem uma final contra Holanda (ou dificilmente com o Uruguai), os paraguaios sem Cabañas terão que primeiramente passar pela Espanha logo mais e depois pela terrível seleção da Alemanha nas semifinais.

Por outro lado, não quero ver uma final entre clubes que já sejam campeões pelo mesmo motivo que já compartilhei no começo deste texto de modo que prefiro ver a Espanha passar pelo Paraguai e quem sabe barrar a Alemanha nas semi-finais.

Mas se der Espanha e Holanda na final? Será que deveríamos pensar numa vingança contra os holandeses?

Nada disso! Não quero que este outro sentimento baixo me domine como, involuntariamente, aconteceu com as minhas emoções de pobre na primeira partida de hoje, pois considero vingança uma coisa tão burra quanto a inveja.

Pensem bem! Se a Holanda for campeã da Copa da África, não só estará conquistando um mundial pela primeira vez como também permitirá que os brasileiros possam tirar a onda por quatro anos de que talvez sejam a segunda melhor seleção do planeta durante o momento e a melhor de todos os tempos.

Mas por quê?

Neste caso, o raciocínio é simples, meus amiguinhos virtuais. Digamos que o Brasil tivesse ficado no lugar de Portugal e fosse disputar as oitavas com a Espanha. Como o jogo não aconteceu, poderíamos sonhar que mandamos a Fúria mais cedo pra casa, bateríamos o Paraguai, venceríamos a Holanda e depois decidiríamos a fina com a Holanda.

Entenderam?

Então, que vença a Holanda!

Um abraço a todos e tenham um ótimo final de semana.


PS: Suponho que os internautas que costumam acessar este blogue estão mais acostumados a encontrar por aqui artigos sobre assuntos mais sérios de teologia, política, questões sociais, etc. Desculpem se saí do padrão (nem quero estabelecer um tipo padrão para meu site), mas o entretenimento e a sociabilidade fazem parte da vida. Para uns futebol é alienação, mas pra mim é só mais um motivo de diversão. Ontem, por exemplo, não me importei tanto com a derrota do Brasil de 2 a 1 para a Holanda. Achei muito pior um de nossos jogadores ter machucado o adversário a ponto de tomarmos um segundo cartão vermelho na competição (corrijam-me se foram mais de dois). Futebol não é tudo e acho que o Brasil ainda precisa vencer as partidas da educação, da saúde e da habitação (o que assistimos com as enchentes no Nordeste durante as festas da torcida foi lamentável).

PS 2: Embora eu pense que não se deve levar a vida tão a sério, conforme diz o título do livro de Hugh Prather, reconheço a grande seriedade do trabalho desenvolvido pelos jogadores brasileiros que estava em campo, bem como para o técnico Dunga. Infelizmente, o nosso torcedor apenas sabe valorizar o primeiro lugar numa competição esportiva, mas é preciso reconhecer que o Dunga, assim como Parreira em 2006, fizeram o que lhes era possível. Em todo jogo se inclui o fator sorte. O talento dos jogadores, a técnica e o controle das emoções podem decidir uma partida, mas nem sempre dá. Brasil e Holanda se equivaliam tecnicamente, mas os holandeses mostraram mais tranquilidade e domínio próprio quando o placar ainda lhes era desfavorável. Ficamos entre as oito melhores seleções do mundo e desejo que aquela derrota seja para os campeões mundiais de 2010, não para um time que fique em segundo, terceiro ou quarto lugar. E se a Holanda não ganhar e a Alemanha ou Uruguai forem campeões, paciência. Ainda assim, continuaremos sendo os melhores no futebol de todos os tempos e bola pra frente porque neste ano ainda teremos eleições, momento importantíssimo para o futuro desta nação.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Milagres e perdão: por que Jesus veio ao mundo?

Um leproso aproximou-se dele e suplicou-lhe de joelhos: “Se quiseres, podes purificar-me!” Cheio de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: “Quero. Seja purificado” Imediatamente a lepra o deixou, e ele foi purificado. Em seguida Jesus o despediu com uma severa advertência: “Olhe, não conte isso a ninguém. Mas vá mostrar-se ao sacerdote e ofereça pela sua purificação os sacrifícios que Moisés ordenou, para que sirva de testemunho”. Ele, porém, saiu e começou a tornar público o fato, espalhando a notícia. Por isso Jesus não podia mais entrar publicamente em nenhuma cidade, mas ficava fora, em lugares solitários. Todavia, assim mesmo vinha a ele gente de todas as partes. (Evangelho de Marcos 1.40-45; tradução da NVI)

Não só nesta passagem bíblica, mas também em várias outras, Jesus pediu que as pessoas guardassem sigilo a respeito de seus milagres e da sua identidade como o Messias esperado por Israel. Sua conduta é sem dúvida bem intrigante e uma das primeiras coisas que o leitor dos dias atuais logo percebe na narrativa acima diz respeito a uma atitude de modéstia adotada por Jesus.

Por outro lado, o texto torna-se auto-explicativo ao demonstrar que a ampla divulgação dos milagres de Jesus comprometia a sua obra de pregação nas cidades da Palestina, por onde o Senhor andava acompanhado pelos seus discípulos. Notas de rodapé da “Bíblia de Estudo de Genebra” sobre os versículos 34 e 45 do capítulo acima referenciado, tentam elucidar o assunto:

“(...) A revelação de Jesus como o Messias tinha de começar discretamente e avançar por estágios, de modo que o plano de Deus, para a morte de seu servo, não fosse comprometido por qualquer excesso de entusiasmo popular (…) Este não é o tempo para a proclamação desenfreada, ainda que devesse chegar o tempo, na história da redenção (depois da ressurreição), quando a pregação aberta seria adequada (Mt 10.27; Lc 12.2-3)”

Evidentemente são comentários teológicos respeitáveis e dignos de uma ponderação profunda. E uma suposição que, a partir daí, pode ser suscitada seria a antecipação de seu assassinato pelas autoridades religiosas de seu povo, caso Jesus fizesse seus milagres abertamente e num ritmo acelerado.

Contudo, lendo o Manual Bíblico da SBB (uma ótima opção para quem não dispõe de uma Bíblia de estudo com comentários), verifiquei ali outra perspectiva, além de uma interessante indagação que de certa maneira me inspirou a escrever este artigo:

“Mas será que esta era a única razão pela qual Jesus pediu às pessoas (pelo menos nove vezes neste Evangelho) que não revelassem a sua verdadeira identidade? Por que manter em segredo o fato de que ele era o Messias? A razão parece estar nas idéias erradas sobre o Messias e sua missão que eram comuns na época. O povo esperava um líder político para livrá-los dos romanos. Jesus precisava de tempo para explicar o tipo de 'reino' que ele viera inaugurar: era algo que até seus seguidores mais próximos teriam dificuldades em entender.”

No século I, quando os judeus agonizavam debaixo da opressão greco-romana, a coletividade dos israelitas aguardava a chegada do Messias. Com base em profecias das Escrituras, as pessoas nutriam a expectativa de restauração do reinado de Davi, o que não só protegeria a cultura judaica como traria tempos de paz e de prosperidade à toda nação.

Aproveitando esse gancho, posso colocar aqui mais uma questão que considero pertinente aos nossos dias: será que o principal motivo da vinda de Jesus era fazer milagres?

Vivemos um tempo em que “pastores” que dizem pregar o Evangelho vão para suas igrejas e programas de TV prometendo soluções imediatas para os problemas das pessoas. Diversos líderes de denominações evangélicas saem por aí anunciando convites para “campanhas de milagres”, “correntes de prosperidade” e “cultos de libertação”, o que acaba criando expectativas erradas a respeito da obra que Jesus veio iniciar na terra. Usando de estratégias de marketing, não muito diferentes dos anúncios publicitários que tentam promover um produto qualquer no mercado, tais pregadores de uma “teologia de prosperidade” fazem justamente o contrário que Jesus praticava.

Ainda que alguns deles preguem também sobre o arrependimento de pecados e a graça de Deus, tenho dúvidas se a mensagem de salvação ordenada pelo Senhor está sendo de fato compreendida pelos ouvintes. Tenho preocupações se as pessoas que participam dessas “correntes” de cura e de prosperidade estejam entendendo o significado de vir a Cristo, aceitando-o como o único Senhor de suas vidas. Causa-me a impressão de que muitos frequentadores acabam se tornando mais ambiciosos em relação ao dinheiro e passam a dar uma super valorização às riquezas materiais.

Retornando ao texto do Evangelho (precisamos estar sempre voltando ao Evangelho), encontro logo no começo do capítulo 2 de Marcos outra passagem que ajuda a ampliar o meu entendimento, parecendo se tratar de um fato ocorrido não muito tempo depois da cura do leproso, relatando uma polêmica que surgiu porque Jesus perdoou os pecados de um paralítico:

Poucos dias depois, tendo Jesus entrado novamente em Cafarnaum, o povo ouviu falar que ele estava em casa. Então muita gente se reuniu ali, de forma que não havia lugar nem junto à porta; e ele lhes pregava a palavra. Vieram alguns homens, trazendo-lhe um paralítico, carregado por quatro deles. Não podendo levá-lo até Jesus, por causa da multidão, removeram parte da cobertura do lugar onde Jesus estava e, pela abertura no teto, baixaram a maca em que estava deitado o paralítico. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: “Filho, os seus pecados estão perdoados”. Estavam sentados ali alguns mestres da lei, raciocinando em seu íntimo: “Por que esse homem fala assim? Está blasfemando! Quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus?” Jesus percebeu logo em seu espírito que era isso que eles estavam pensando e lhes disse: “Por que vocês estão remoendo essas coisas em seu coração? Que é mais fácil dizer ao paralítico: Os teus pecados estão perdoados, ou: Levante-se, pegue a sua maca e ande? Mas para que vocês saibam que o Filho do homem tem na terra autoridade para perdoar pecados” - disse ao paralítico - “eu lhe digo: Levante-se, pegue a sua maca e vá para casa”. Ele se levantou, pegou a maca e saiu à vista de todos, que, atônitos, glorificaram a Deus, dizendo: “Nunca vimos nada igual!” (Mc 2.1-12)

Muitos ensinamentos podem ser extraídos deste outro texto, mas quero chamar a atenção para o fato de que Jesus veio curar uma doença muito mais grave que qualquer outra enfermidade conhecida pela Medicina. O Messias veio tratar de uma chaga espiritual chamada pecado!

O pecado é um mal que destrói o ser humano em todos os aspectos. É a causa de inúmeras doenças não só do corpo como da mente, mas também do espírito. Foi por causa do pecado, a humanidade perdeu o relacionamento que tinha no começo com o seu Criador, sentindo medo e vergonha de se aproximar de Deus. Sua consequência inevitável se acha representada através da nossa morte física, o que nos trás a ideia de uma separação contínua da presença divina, conforme compôs o salmista Davi quando disse “não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu Santo Espírito”.

Para a nossa lógica pessoal, parece ser muito mais difícil uma cura física do que apenas dizer que os pecados de alguém estão perdoados. Isto porque a nossa mente geralmente fica limitada a um raciocínio que procura explicações dentro de um universo material. Mas pergunto: quem é que tem autoridade para perdoar pecados? Jesus, o Messias, tem e foi pra isto que ele veio ao mundo.

Antes de Jesus, muitos profetas realizaram milagres perante o povo de Israel, só que nenhum deles perdoou pecados. Podemos citar aqui Elias e Eliseu que ressuscitaram mortos, além dos prodígios registrados nos ministérios de Moisés e de Josué, tais como as dez pragas derramadas sobre o Egito, a abertura do Mar Vermelho, as vezes que brotou água da rocha em pleno deserto, a comida do maná, a nuvem que cobria os israelitas do abrasador calor do dia e a coluna de fogo que os aquecia de noite, a passagem com pés enxutos pelo rio Jordão, a destruição das muralhas de Jericó e o dia em que o sol (ou a Terra) parou. Já o ministério de Jesus não deixa nada a dever e podemos destacar, dentre muitos outros acontecimentos, as duas multiplicações de pães, a ressurreição de Lázaro, a cura de um cego de nascença, a vez em que o Senhor acalmou a tempestade no Mar da Galileia e a transfiguração que foi vista somente por três discípulos.

Curiosamente, na hora de sua morte, Jesus não fez nenhum milagre, tendo se entregado voluntariamente aos seus assassinos como uma ovelha é levada a um matadouro. Mas foi ali, na cruz, no auge de sua vulnerabilidade, que o maior milagre de todos os tempos aconteceu – a reconciliação entre Deus e o homem.

No momento em que Jesus foi sentenciado por Pilatos, sendo ele inocente de qualquer crime, todos os pecados da humanidade foram punidos na sua pessoa. Através da sua execução, a pena que todos nós cumpriríamos, suportando uma eterna separação de Deus, foi de uma só vez aplicada em Jesus, afastando definitivamente a nossa culpa e permitindo que o relacionamento com o Criador seja restabelecido.

Como prova de seu triunfo, Jesus ressuscitou vencendo a morte, proporcionando a esperança de vida eterna a todos os que de coração lhe aceitarem como Salvador, submetendo-se ao seu domínio.

Mais tarde Jesus apareceu aos Onze enquanto eles comiam; censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração, porque não acreditaram nos que o tinham visto depois de ressurreto. E disse-lhes: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se, beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados”. (Mc 16.14-18)

Ora, esta é a mensagem que deve ser proclamada pelos pregadores deste tempo que se chama hoje. Uma mensagem acessível e simples, porém suficiente, a qual deve ser destinada a todos sem qualquer tipo de discriminação. Uma mensagem que não exclui os milagres e nem a cura para as enfermidades que tanto afligem a humanidade, mas que tem como foco a pregação do Evangelho de Jesus Cristo, a chegada do Reino de Deus aos corações das pessoas.

O tempo que se chama hoje é o momento para as pessoas se arrependerem a se reconciliarem com Deus. É o momento de abrirmos mão de nós mesmos, deixando de lado as ambições do dinheiro, nos desprendermos dos planos terrenos e servirmos a Deus de coração, fazendo o bem ao nosso próximo. É o momento de pregarmos a mensagem da salvação e que, através de Jesus, os pecados são definitivamente cancelados.

Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galiléia, proclamando as boas novas de Deus. “O tempo é chegado”, dizia ele. “O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas!” (Mc 1.14-15)

domingo, 27 de junho de 2010

Conhecimento intelectual e amor ao próximo

Gosto muito de entrar em discussões na internet que falam sobre história, política, filosofia e teologia. Tem vezes que fico horas debatendo sobre tais assuntos e, frequentemente, acabo transformando minhas ideias em textos que compartilho no meu blog.

A busca do conhecimento pra mim é algo delicioso e não nego que às vezes chego a ficar meio que embriagado com esta “cachaça intelectual”, a qual considero como uma opção melhor do que sofrer pelos decepcionantes jogos do Flamengo em 2010. E não condeno quem goste de Copa do Mundo, novelas, filmes, Ratinho ou da "Dança dos Famosos" no programa do Faustão. Cada um descobre sua própria diversão.

Entretanto, quando passo bastante tempo debatendo a respeito dos citados temas, tem horas que me sinto confrontado com a angustiosa situação presente. Pergunto a mim mesmo o que tenho feito diante de tanta miséria, violência e falta de assistência social? Qual a minha postura quando vejo meu semelhante precisando de algum tipo de ajuda?

Penso que posso fazer uma coisa sem deixar de lado a outra.

Também sou um ativista social, mas, ao mesmo tempo, me interesso pela investigação histórica, por filosofia e por teologia. Não me considero um ativista nota 10, nem o melhor filantropo ou o marido mais dedicado do mundo. Conforme meu interesse e possibilidade, tenho denunciado os absurdos do SUS e da Unimed aqui em minha cidade. Frequentemente faço minhas representações ao Ministério Público, denunciando as irregularidades e desrespeitos que são praticados contra os interesses coletivos. Ter adquirido conhecimentos ao longo dos anos, ajuda-me a olhar para o caótico sistema de saúde e compreender melhor suas falhas, entender que o médico que atende aos idosos que ficam desde madrugada nas filas não está prestando nenhum favor e sim efetivando o dever estatal previsto no art. 196 da nossa Constituição Federal.

Contudo, atuo como militante político há bastante tempo e a conclusão que chego hoje é que, apesar das lutas coletivas nas quais me envolvo, nada se compara ao bem que podemos fazer pessoalmente a alguém. É dando uma atenção especial a cada pessoa, ouvindo-a e compreendendo sua situação que realmente podemos manifestar amor. Aí nenhum programa social do governo ou de ONGs substitui a prática do amor agape que encontramos muito bem registrado em Jesus lendo o Evangelho de João, quando o Senhor conversa com a mulher samaritana junto ao poço de Jacó, curando o desamparado paralítico do tanque de Betesda, amando Marta e Maria pela morte de Lázaro a ponto de gemer e chorar (o versículo mais curto da Bíblia é "Jesus chorou") e depois morrendo numa cruz para redimir toda a humanidade de seus pecados.

Se o planeta anda desse jeito não é apenas porque faltam políticas públicas eficientes, pois estas sempre existiram (mesmo quando há omissão) e são direcionadas para o interesse dos que comandam o poder. Mas eu digo que o problema do sofrimento humano está ligado á falta de amor, o qual não é um sentimento e sim um comportamento que escolhemos. Neste sentido cito o apóstolo Paulo na sua brilhante carta aos Coríntios:

Passo agora a mostrar-lhes um caminho ainda mais excelente. Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor, nada serei. Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá. O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca perece; mas as profecias desaparecerão, as línguas cessarão, o conhecimento passará. Pois em parte conhecemos e em parte profetizamos; quando, porém, vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino. Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido. Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor. (1Co 12.b-13.13; NVI)

Lendo o texto acima, percebo que o amor está acima das obras assistenciais, sejam elas filantrópicas ou políticas públicas, bem como supera qualquer tipo de conhecimento, os serviços prestados numa comunidade eclesiástica, a própria fé e até mesmo uma atitude de auto-sacrifício. É algo que ainda não tenho suficientemente na minha vida, mas que desejo aprender e para isto não vejo outro meio senão tentar aceitar e praticar o amor.

Mas como amaremos o próximo se não permitimos ser amados por Deus? Num mundo sem amor, como foi no primeiro século com injustiças não muito diferentes do que na atualidade, Deus manifestou todo o seu amor, dando seu único Filho para sofrer em nosso lugar a pena do pecado. Quando Jesus foi crucificado, era por nós homens pecadores, adúlteros, egoístas, omissos, blasfemos, homicidas e ladrões que ele estava sendo morto afim de que, uma vez cumprida a nossa sentença de morte, pudéssemos viver sem culpa para retribuir tão grande amor fazendo o bem ao nosso semelhante.

Que sejamos felizes olhando para Cristo, pois é apenas ele quem pode nos mostrar o imenso amor de Deus.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pensamentos sobre o Livro de Rute



Uma interpretação do Livro de Rute tem causado algumas polêmicas no meio cristão ultimamente. Trata-se da passagem em que Rute, seguindo as orientações de sua sogra, Noemi, aproxima-se de Boaz com uma certa dose de ousadia, sendo sugerido que talvez eles tivessem chegado a um envolvimento sexual antes do casamento.

Quase todos rejeitam a tese, mas há uma minoria que afirma que sim. Entretanto, vejamos o que diz a tradução do nosso texto bíblico em português, segundo a Nova Versão Internacional (NVI):

“Certo dia, Noemi, sua sogra, lhe disse: “Minha filha, tenho que procurar um lar seguro, para a sua felicidade. Boaz, senhor das servas com quem esteve, é nosso parente próximo. Esta noite ele estará limpando cevada na eira. Mas não deixe que ele perceba você até que tenha comido e bebido. Quando ele for dormir, note bem o lugar em que ele se deitar. Então vá, descubra os pés dele e deite-se. Ele lhe dirá o que fazer”. Respondeu Rute: Farei tudo o que você está me dizendo”. Então ela desceu para a eira e fez tudo o que a sua sogra lhe tinha recomendado. Quando Boaz terminou de comer e beber, ficou alegre e foi deitar-se perto do monte de grãos. Rute aproximou-se sem ser notada, descobriu os pés dele, e deitou-se. No meio da noite, o homem acordou de repente. Ele se virou e assustou-se ao ver uma mulher deitada a seus pés. “Quem é você?”, perguntou ele. “Sou sua serva Rute”, disse ela. “Estenda a sua capa sobre a sua serva, pois o senhor é resgatador.” (3.1-9)

Igualmente, na edição revista e atualizada de João Ferreira de Almeida, talvez a versão da Bíblia mais utilizada no Brasil hoje em dia, a tradução também manteve a expressão “descobriu os pés”, conforme se lê no versículo 7: “Havendo, pois, Boaz comido e bebido e estando já de coração um tanto alegre, veio deitar-se ao pé de um monte de cereais; então, chegou ela de mansinho, e lhe descobriu os pés, e se deitou.”

Com toda sinceridade (não escondo a minha falta de conhecimento a respeito do idioma original das Escrituras hebraicas), jamais posso aqui afirmar cabalmente o que significa o termo “descobrir os pés”, mas continuo guardando minhas reservas sobre a certeza das alegações quanto à suposta relação sexual entre Boaz e Rute que alguns reputam ter ocorrido naquele dia em que todos estavam comemorando colheita da cevada na eira do bisavô do rei Davi.

Todo estudo bíblico requer cautela. E, sendo assim, considero prudente investigarmos o contexto que envolvem os acontecimentos da época afim de que possamos buscar conclusões fundamentadas.

O Livro de Rute fala da história de um casal com dois filhos que migrou da cidade judia de Belém para o país de Moabe (a fértil região da Transjordânia). Por causa de um período de fome, Elimeleque deixou a terra da promessa e veio a falecer num país estrangeiro. Seus dois filhos, Malom e Quiliom, ao invés de seguirem o costume de procurar esposas israelitas, casaram-se com mulheres moabitas, Rute e Orfa. Entretanto, Malom e Quiliom também vieram a morrer de modo que Noemi tornou-se uma viúva sem filhos.

Naqueles tempos, a vida de uma viúva não era nada fácil. Se ela fosse jovem ainda poderia arranjar um novo casamento. Se tivesse filhos, seu sustento dependeria da assistência de seu descendente. Mas, se fosse uma mulher idosa e sem filhos, poucas chances teria de sobreviver, ainda mais num país estrangeiro onde lhe faltariam parentes mais próximos para prestar algum tipo de ajuda. E, por causa disto, muitos órfãos e viúvas passavam necessidades numa sociedade onde as mulheres tinham poucos direitos e ainda não disputavam o mercado de trabalho com os homens.

Prevenindo determinadas situações de risco social, a lei mosaica adotava mecanismos que evitariam o desamparo total às viúvas sem filhos, impondo à própria família do marido o dever de prestar a assistência. Deste modo, a Torá acolheu o costume do casamento de levirato que já existia entre os povos do Oriente, assim determinando em Deuteronômio:

“Se irmãos morarem juntos, e um deles morrer sem filhos, então, a mulher do que morreu não se casará com outro estranho, fora da família; seu cunhado a tomará, e a receberá por mulher, e exercerá para com ela a obrigação de cunhado. O primogênito que ela lhe der será sucessor do nome do seu irmão falecido, para que o nome deste não se apague de Israel. Porém, se o homem não quiser tomar sua cunhada, subirá esta à porta, aos anciãos, e dirá: Meu cunhado recusa suscitar a seu irmão nome em Israel; não quer exercer para comigo a obrigação de cunhado. Então, os anciãos da sua cidade devem chamá-lo e falar-lhe; e, se ele persistir e disser: Não quero tomá-la, então sua cunhada se chegará a ele na presença dos anciãos, e lhe descalçará a sandália do pé e lhe cuspirá no rosto, e protestará, e dirá: Assim se fará ao homem que não quer edificar a casa de seu irmão; e o nome de sua casa se chamará em Israel: A casa do descalçado.” (ARA, Dt 25.5-10)

Voltando à história de Rute, eis que a narrativa prossegue informando que Noemi resolveu retornar para sua terra em Belém de Judá. Orfa conformou-se em deixá-la e permaneceu em Moabe, na certa retornando para a casa dos seus pais. Rute, porém, insistiu em acompanhar sua sogra, escolhendo o seu povo e também o seu Deus, o que foi uma verdadeira decisão de fé, sem saber o que lhe aguardaria na terra de seu falecido marido.

Pobre, retornou Noemi para Belém e, como não tinha recursos para comprar alimento, Rute precisou pedir aos fazendeiros da redondeza que lhe deixasse apanhar as espigas de cevada caídas pelo campos, conforme outro mecanismo de proteção social previsto por Moisés (Levítico 19.9-10; 23.22). Por acaso, Rute acabou entrando justamente nas terras de um parente do marido de Noemi que se chamava Boaz.

Tendo notado a presença de Rute nas suas roças de cereais, Boaz agiu generosamente com ela, permitindo não só a sua permanência naquelas terras como lhe ofereceu segurança, água para beber (em regiões do Oriente Médio este é um bem precioso) e alimento em quantidade suficiente tanto para Rute quanto para Noemi. Tal postura demonstra que Boaz era realmente um homem justo, pois conhecia também os seus deveres sociais como um parente próximo que tinha a obrigação de amparar pessoas do seu meio familiar nas situações críticas.


“Assim, passou ela [Rute] à companhia das servas de Boaz, para colher, até que a sega da cevada e do trigo se acabou; e ficou com a sua sogra.” (Rt 2.23)

Bem, com as explicações dadas até aqui, penso que temos uma certa base para compreendermos um pouco do que pode ter se passado no polêmico episódio do capítulo 3 do Livro de Rute, quando ela, ousadamente, descobre os pés de Boaz e se deita ao seu lado na eira.

Apesar do profeta Oseias ter se referido às eiras de cereais como lugares onde ocorriam frequentes imoralidades sexuais (Os 9.1), provavelmente por ocasião das festas de colheita durante a primavera do Hemisfério Norte, parece ser incompatível com o estilo de vida de um homem piedoso como Boaz incentivar o pecado da prostituição dentro de suas terras. E o próprio texto comprova a sua integridade quando Boaz havia dado ordens aos seus servos para que não a molestassem (Rt 2.9) e ainda se espantou quando acordou com uma mulher deitada aos seus pés (Rt 3.8).

Considerando uma possível interpretação literal, o ato de Rute ter descoberto os pés de Boaz pode ter sido um convite de casamento, lembrando-o acerca das obrigações quanto ao levirato, conforme a passagem citada em Deuteronômio 25.5-10. Numa época em que poucos conheciam a escrita, as pessoas também se comunicavam através de atitudes simbólicas de modo que a retirada dos calçados de Boaz por Rute, enquanto ele dormia, poderiam simbolizar um alerta quanto aos compromissos do parente próximo com a família dos falecidos Elimeleque e Malom.

Inegavelmente, a atitude de Rute foi bem diferente das práticas feitas pelas filhas de Ló (Gn 19.30-38), as quais, precisando gerar descendentes após a destruição de Sodoma, decidiram embriagar o próprio pai para dele conceberem, o que explica a origem incestuosa dos moabitas. O envolvimento entre Boaz e Rute baseou-se num relacionamento de compromisso e de amor, tendo tudo ocorrido conforme os planos de Deus. E, mesmo que Rute tenha se aproximado de Boaz com ousadia naquela eira, o que importa?

Atualmente, infelizmente temos visto o oposto nas relações entre homens e mulheres. As pessoas trocam determinados tipos de afeto e se relacionam sexualmente sem que haja qualquer tipo de compromisso. Sem estarem de fato se amando, as pessoas “ficam” numa só ocasião e depois um descarta o outro como se fosse objeto de consumo. Já não se vê mais santidade nos namoros e a relação sexual tornou-se algo banalizado, praticado num contexto meramente carnal onde se busca apenas o prazer.

Nos dias de hoje, para muita gente o casamento tornou-se mais uma celebração festiva do que um acontecimento de importância espiritual. Por motivo de tradição, é comum as pessoas casarem-se nas igrejas, mas nem sempre elas têm a consciência do compromisso que aquela união representa. Com pouco tempo de matrimônio, muita gente quebra a aliança com seu cônjuge pelos mais fúteis motivos.

Tenho pra mim, que o casamento não acontece apenas dentro das igrejas ou nos cartórios de registro civil. Em termos espirituais, basta que haja a união entre um homem e uma mulher para que o casamento ocorra perante Deus. Daí, tenho seguido a interpretação de que pessoas que já vivem em união estável devem ser acolhidas como se casadas fossem nas nossas comunidades cristãs, de maneia que devemos reconhecer e prestigiar a aliança já existente entre elas.

Alguém talvez possa perguntar: a Bíblia não rejeita a fornicação? Sim e este vocábulo é expresso nas nossas traduções em português, mas é preciso distinguir um casal que não assinou os papéis matrimoniais do comportamento imoral adotado pelo mundo em que pessoas solteiras transam sem nenhum compromisso umas com as outras. E, neste sentido, se, por acaso, houve algum envolvimento sexual entre Rute e Boaz antes do matrimônio, o que não acredito, obviamente que, nesta hipótese, estaríamos diante de uma situação bem diferente do que se vê hoje em dia por aí (na cultura judaica daqueles tempos até a violação de um noivado era considerada crime de adultério).

Finalmente, deixo a indagação se os acontecimentos da história de Rute foram mesmo coisas do acaso? Acredito claramente que não! Segundo a narrativa do livro, Boaz e Rute tiveram um filho, ao qual chamaram de Obede. Este veio a ser o pai de Jessé e, por sua vez, o bisavô do rei Davi. No Evangelho de Mateus, o autor faz menção expressa de Rute na genealogia do Messias de modo que uma simples história de fé tem grande relevância para as raízes humanas de Jesus.

Como se sabe, o Evangelho de Mateus não cita todos os ancestrais do Messias, pois omite vários nomes. Porém, propositadamente, o autor escolhe o nome de quarenta e dois ascendentes que se divide em três grupos: do patriarca Abraão até Davi, do primeiro monarca judeu até o último rei que foi deportado para o exílio na Babilônia e do cativo rei Jeconias até Jesus. No meio dos nomes de homens, são mencionadas algumas mulheres: a cananeia Tamar, a ex-prostituta Raabe, a moabita Rute, Bate-Seba com quem Davi traiu Urias e judia Maria que gerou o Cristo através de um nascimento virginal. Já o nome da perversa rainha Atália, mãe do rei Acazias, que tentou destruir a descendência da casa real de Judá, nem é citada pelo escritor de Mateus.

Creio que por mais simples que sejam determinados fatos, como o casamento entre um homem e uma mulher ou a procura de um emprego, não podemos deixar de ver o plano de Deus se cumprindo nos pequenos detalhes da vida. Através de gente humilde e, desconhecida, vieram grandes reis e sacerdotes de maneira que não podemos achar que coisas do nosso cotidiano sejam insignificantes para Deus. Assim, quem ainda não se casou, por exemplo, é importante pedir a direção de Deus para que a escolha seja conforme a vontade Dele, lembrando-se da história de Rute.


OBS: A ilustração inserida no artigo refere-se ao quadro Rute e Boaz pintado por Julius Schnorr von Carolsfeld (1828).

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Como podemos CONHECER a Mensagem da Bíblia?


Meus ancestrais gregos da Antiguidade souberam deixar importantes contribuições ao desenvolvimento inicial da Teologia cristã. Além de terem preservado, reunido e organizado as mensagens deixadas pelos apóstolos, formando o cânon do Novo Testamento, os gregos daqueles primeiros séculos do cristianismo elaboraram não só comentários aos textos bíblicos como também desenvolveram vários temas teológicos e métodos de interpretação.

Sem os gregos, não teria se formado a cultura cristã como nós a conhecemos. Sem eles, jamais existiriam as concepções eclesiásticas dos católicos e dos protestantes. A alegorização, por exemplo, foi muito utilizada por Orígenes para explicar a parte da Bíblica que chamamos de Antigo Testamento, conforme leciona Walter Wangerin Jr. em seu artigo “A Bíblia como uma história”, publicado em português pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB):

“Como método de interpretação, a alegorização entrou na igreja cristã por intermédio de Clemente de Alexandria (falecido por volta de 215 d.C.), que seguiu a linha de Filo. Orígenes (cerca de 185-254 d.C.), que foi discípulo de Clemente, a transformou numa sistemática de interpretação bíblica. Segundo Orígenes, havia três níveis de significado nas Escrituras: o literal, o moral e o espiritual. Estes correspondiam às três 'partes' do ser humano: corpo, alma e espírito.”

Por outro lado, toda essa tradição teológica, desenvolvida a partir da herança helênica, até hoje dificulta a compreensão do contexto cultural da Palestina de Jesus, sendo as nossas concepções bíblicas um sério obstáculo até para a propagação do Evangelho no Oriente porque nem sempre conseguimos estabelecer uma comunicação satisfatória com os outros povos. No Ocidente, segmentamos a pessoa humana em corpo, alma e espírito, criando uma desarmonia com a matéria entendimento baseado numa interpretação ampliativa da epístola de Paulo aos Romanos, quando o texto atribuído ao apóstolo diz que “com a mente” ele é servo da “lei de Deus”, mas “segundo a carne”, é escravo da “lei do pecado”.

Foi de grande proporção a desarmonia que os cristãos causaram em relação à saúde do próprio corpo e ao ambiente em que vivem, passando a ser escravos de falsas ideias sobre culpa com forte ênfase no pecado do sexo ilícito, ou então na subtração dos direitos patrimoniais, de modo que, por séculos, gerações inteiras viveram com medo de não entrar no céu. A noção temporal cronológica subordinada ao relógio foi outro ingrediente utilizado para aprisionar as pessoas, desintegrando a sociedade da natureza, sendo que também nos tornamos reféns de um conhecimento limitado ao campo da abstração, sem o aprendizado prático do cotidiano.

Melba Maggay em seu artigo “Perspectivas culturais – Oriente e Ocidente”, publicado também pela SBB, faz uma interessante comparação com a visão de mundo dos filipinos e a nossa tradição teológica, expondo uma considerável crítica a nós:

“Os filipinos, em sua cultura, ainda se impressionam com 'o poder... que pode ser claramente percebido... por meio das coisas que foram criadas'. Porém, o cristianismo ocidental se dirige a eles como se houvessem há muito passado da idade do misticismo e precisassem ser arduamente convencidos da existência de um Deus sobrenatural. Mosso povo [os filipinos] ainda não conhece a natureza 'desmistificada', desprovida do maravilhoso e do mágico. Mas o Ocidente defende a Bíblia na nossa cultura como se fôssemos todos racionalistas de uma era científica (…) Cada cultura tem um senso interno do que considera 'errado', ocasionando certa introspecção ou reflexão. Nas Filipinas, o rompimento da harmonia no nosso relacionamento com a sociedade ou com o cosmos é uma falha considerável. O Ocidente, que tende a individualizar e personalizar o 'pecado', considerando-o, antes de tudo, uma questão de traição e mentira e sexo ilícito, ou de coisas gerais relacionadas com violação da integridade interior e usurpação dos direitos de outras pessoas, precisa aprender a levar em conta a dimensão social e cósmica do pecado.”

Essa ideia de “dimensão social e cósmica do pecado” lida no artigo me chamou bastante a atenção, fazendo-me lembrar do profeta Daniel quando pediu perdão a Deus pelo seu povo. Lendo as Escrituras hebraicas (o Antigo Testamento), percebemos que os judeus tinham a noção do pecado coletivo, conforme aconteceu na época de Josué por causa do pecado de Acã, significando que a ação ou omissão de uma pessoa está em permanente interação com toda a sociedade, consciência esta que nós ocidentais perdemos.

É preciso que a Igreja se arrependa do pecado cometido pela cultura cristã gerada no Ocidente, a qual se contrapõe ao cristianismo em sua essência. Penso que, ao invés de alimentarmos temores infrutíferos acerca das ameaças com uma eternidade no inferno (sentimento que as suras do Alcorão ampliam), precisamos conhecer mais a Deus, o que só é possível cultivando um relacionamento reverente com o nosso Criador no nível da pessoalidade. Lembrarmos do aprendizado prático em nosso dia a dia, tal como ensinava Jesus através de suas parábolas, é o que hoje precisamos para compreendermos o Espírito da linguagem da Mensagem que os homens tentaram registrar na Bíblia durante os séculos.

Na atualidade, em que muitos acusam a Bíblia de ter sofrido modificações, pouco me importa se o texto de hoje guarda total fidelidade com os desaparecidos rolos originais deixados pelos autores das Escrituras. Não muito diferente de um contador de histórias do Oriente Médio, Jesus não escreveu livro nenhum e a semente de sua Mensagem oral produziu frutos nos corações dos homens, ficando bem registrada na memória de seus discípulos. Durante o período de três anos que seguiram o Mestre, os primeiros pregadores do Evangelho foram ensinados através da arte do discipulado, experimentando uma metodologia bem diferente dos nossos seminários teológicos.

Ora, do que adianta um acúmulo de informação se nos falta a habilidade de integrarmos o conhecimento com a vida? Penso que precisamos aprender a aplicar a sabedoria espiritual diante de cada situação e no relacionamento com as pessoas. Assim, ao invés de confiarmos tanto nas proposições teológicas, deveríamos meditar mais nas parábolas, nos enigmas e nos provérbios ricamente encontrados na Bíblia. Observemos, pois que, no primeiro Salmo, considerado como um poema de sabedoria, o autor considera feliz a pessoa que tem o seu prazer na lei de Deus, na qual medita de dia e de noite, sendo comparado a uma árvore plantada junto a um curso d'água:

“Bem-aventurado o homem
que não anda no conselho dos ímpios,
não se detém no caminho dos pecadores,
nem se assenta na roda dos escarnecedores.
Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR,
e na sua lei medita de dia e de noite.
Ele é como árvore
plantada junto a corrente de águas,
que, no devido tempo, dá o seu fruto,
e cuja folhagem não murcha;
e tudo quanto ele faz
será bem sucedido.” (Sl 1.1-3)

Mas o que significa o ato de meditar conforme consta na nossa tradução bíblica? Por acaso o salmista estava se referindo a uma atividade intelectual? Certamente não!

O meditar na cultura hebraica está associado com a obediência constante à vontade de Deus, pois o temor do SENHOR (reverência) é o “princípio da sabedoria”. E tal entendimento constitui a natureza do terreno espiritual onde está edificada uma casa segundo nos ensina Jesus nas palavras finais do Sermão da Montanha registradas em Mateus 7.24-27:

“Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, sendo grande a sua ruína”.

Em sua epístola, Tiago compara a pessoa que não pratica a Palavra de Deus ao homem que, depois de ver sua imagem no espelho, esquece da própria aparência:

“Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma. Tornai-vos, pois, praticantes e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência. Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar.” (1.21-25)

A palavra, meus amigos, é algo vivo que não pode se prender às letras de um livro escrito pelos homens. Conhecer a Bíblia apenas através da mente não produz a transformação de caráter desejada por Deus (muitos ateus estudam os livros bíblicos e não se convertem). A palavra Torah do Antigo Testamento que em muitas das nossas traduções aparece como sinônimo de “lei” é também uma instrução, uma conversa entre Deus e o seu povo que revela qual a Sua soberana vontade para as nossas vidas. Por trás de cada mandamento, há uma direção que vai além da literalidade, apontando para o estabelecimento de uma vida amorosa na qual se inclui uma harmonia da criatura com o seu Criador.

Atualmente, judeus convertidos ao cristianismo têm feito uma releitura do Novo Testamento, o que considero muito proveitoso para que possamos conhecer melhor o estudo da Bíblia através de uma perspectiva oriental vinda através dos sucessores da cultura onde nosso Senhor Jesus nasceu há 2000 anos. E uma das novidades da editora Vida é o “Novo Testamento Judaico”, em que os seus autores, judeus, enfrentam o grande desafio de apresentarem o personagem central dos Evangelhos, Yeshua (Jesus), procurando a Mensagem além das letras gregas e, obviamente, ultrapassando a cultura helênica.

Todavia, mais do que aprendermos a ler a Bíblia “da direita para a esquerda”, conforme se escreve em hebraico, também é necessário conhecermos as Escrituras através de uma experiência prática cotidiana, tal como ocorreu com os cristãos do século I que foram alcançados por uma Mensagem transformadora. Milhares de homens e mulheres analfabetos, que se converteram nas regiões gentílicas do Império Romano, muito pouco (ou nada) conheciam a respeito das tradições judaicas, mas foram de fato transformados apenas por ouvirem a Palavra de Deus. E, como bem sabemos, aqueles irmãos do passado resistiram às duras perseguições de Nero e de outros monarcas perversos, tornando-se para os nossos dias um dos maiores exemplos do que significa seguir a Jesus, visto que eles verdadeiramente desenvolveram a fé, a perseverança, a paciência, a esperança e o amor.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Nestas eleições, eu quero Marinar...

Conforme já preveni os leitores do meu blogue, aqui também se fala em política. E, nesta manhã de segunda-feira, acordei com uma forte vontade de escrever sobre dois assuntos: eleições presidenciais e leitura bíblica. Não sei se vou conseguir redigir os dois na mesma data, mas preferi começar pelas eleições antes de ir para o curso de língua inglesa.

Faz pouco mais de um ano que saí do PSDB. Desde então, estou sem partido, o que tem me deixado bastante livre para opinar a respeito dos candidatos que disputarão estas eleições de 2010. Tornei-me tucano por volta de 2003, através do Sr. César Iório, o qual foi vice-prefeito de minha cidade na gestão anterior e, na época, ocupava uma secretaria do governo municipal da ex-prefeita Saudade Braga (PSB). Ainda aluno de faculdade, eu pensava em ser candidato a vereador em 2004, mas acabei tomando a acertada decisão de me dedicar mais aos estudos, o que realizei com êxito nos três últimos períodos letivos. Já no ano de 2008, exercendo minha profissão há três anos, não pude por em prática meu projeto devido às mudanças de planos do então vereador do partido que antes afirmava suas pretensões pela disputa da Prefeitura, mas acabou tendo que buscar o caminho da re-eleição. Não somente eu, como muitos outros candidatos a candidato, fomos “pegos pelo pé” com aquela decisão de modo que a sonhada vaga na Câmara Municipal precisou ficar novamente postergada. Se bem que eu já conhecia as manobras da política e, ao contrário dos demais colegas, não me surpreendi com a esperada jogada.

Encontrando-me agora livre da filiação partidária, estou me sentindo mais a vontade para adequar o voto à minha consciência, servindo os meus envolvimentos passados de experiência para tomar uma decisão mais fundamentada quanto à escolha de um candidato este ano. Lógico que a corrida presidencial não se compara às medíocres disputas que ocorrem numa cidade do interior, mas quero dizer que, quando não temos mais obrigações partidárias, ficamos também livres de assumir compromissos eleitorais com quem não concordamos, o que é muito bom, porque, em tese, voltamos a ser nada mais do que simples cidadãos brasileiros.

Dentre os três principais nomes que têm apontado nas pesquisas eleitorais, Marina Silva parece ser a melhor opção. E não digo isto apenas pela sua pessoa, mas sim pelas forças que apoiam sua candidatura e pelo propósito ambientalista próprio do Partido Verde.

Há duas coisas que muito me preocupam neste país: (i) a preservação da nossa liberdade democrática e (ii) a necessidade de se desenvolver uma economia próspera que cresça respeitando o meio ambiente promovendo a inclusão social. Manter a moeda estável, atualmente, é um medo já superado e o que precisamos hoje é de um desenvolvimento que não repita os velhos paradigmas do passado, lixos ideológicos que continuamos a importar dos países ricos.

Fico perplexo em saber que, numa época em que o mundo se esforça para diminuir sua dependência energética dos combustíveis fósseis, o Brasil esteja inaugurando um novo ciclo econômico – a exportação do petróleo. Estamos dando uma menor importância ao desenvolvimento dos biocombustíveis e das fontes alternativas de energia para poluir mais ainda atmosfera do planeta através da exploração do pré-sal, utilizando de um recurso irrenovável e que, dentro de algumas décadas, obviamente irá acabar (se é que antes não seremos nós quem acabaremos primeiro).

Sempre que assisto na TV notícias sobre o derramamento de petróleo na costa leste dos Estados Unidos, fico imaginando que o mesmo pode vir a ocorrer por aqui pois não podemos nos considerar nem melhores e nem piores do que os norte-americanos em termos de poluição do meio ambiente. Depois do que já ocorreu com a nossa Baía de Guanabara, constantemente castigada por pequenos vazamentos de óleo, meu medo é que uma tragédia dessas venha a se repetir na Bacia de Campos, sujando as belíssimas praias de Búzios e de Arraial do Cabo.

Por outro lado, os recursos do petróleo acabam minando as mais genuínas iniciativas de desenvolvimento, incentivando a nociva guerra dos royalties entre estados e municípios. Olho para cidades como Macaé, que recebe vultuosas somas de dinheiro da Petrobrás, mas vejo umas das piores aplicações de recursos, pois a maioria dos prefeitos da Região dos Lagos fazem obras caras enquanto novas favelas proliferam atraindo cada vez mais violência. O estado do Rio de Janeiro que até hoje auferiu tanta receita em royalties, deveria ter os melhores hospitais, com os mais modernos equipamentos para cirurgia e médicos muito bem pagos. Porém, o que se encontra por aí são pacientes alojados pelos corredores instituições hospitalares porque as enfermarias estão lotadas, conforme já presenciei no Azevedo Lima de Niterói.

Além da acomodação dos entes federativos e da corrupção generalizada que impede o dinheiro do petróleo de chegar até o cidadão menos favorecido, temo ainda pelo declínio da produção industrial. Um país que vive da venda do petróleo costuma sobrevalorizar o câmbio, o que, por sua vez, dificulta a exportação de outros produtos arrebentando também o mercado interno com a entrada massacrante de importações. Com isto, a indústria perde competitividade e muitos empresários poderão fechar suas portas. O agricultor, desanimando com a produção rural, pode transferir suas terras para grandes latifundiários ou partir para a especulação imobiliária.

Quanto aos empregos, do jeito que as coisas vão, estes tendem ficar cada vez mais dependentes da atividade petrolífera e, consequentemente, do próprio Estado brasileiro, o que explica os excessivos gastos com o pagamento de funcionários. Acho lamentável que, nos dias de hoje, nossos jovens não tenham mais como ideal o exercício de uma profissão liberal, a abertura de um negócio ou a carreira de executivo dentro da iniciativa privada. A grande maioria, ao deixar suas faculdades, cai no objetivismo emburrecido das provas de concurso público, indo disputar cargos destinado para candidatos que tenham o 2º grau e ainda pagam melhor do que a iniciativa privada. E, infelizmente, tudo isto acontece não porque o governo valorize o profissional, mas sim porque boa parte da riqueza nacional se acha nas mãos do Estado.

Não me iludo pensando que Marina Silva, se eleita, desistirá do pré-sal, pois a maior burrada ambiental e econômica do governo Lula já foi tomada e não poderá ser revertida de imediato. Por sua vez, não sonho com uma Amazônia livre totalmente dos desmatamentos ou da mineração ainda nesta década. Contudo, acredito que, no governo de Marina Silva, haverá a possibilidade de se criar condições para o desenvolvimento de energias alternativas, a elaboração de melhores políticas de conservação da biodiversidade, serem destinados mais investimentos para reciclagem e quiçá estímulos maiores à revitalização das cidades.

Quanto à assistência, não temo retrocessos com a mudança de governo. Enquanto houver necessidade social, vejo que há uma tendência de ampliação dos benefícios assistenciais no Brasil, o que pode continuar a ser feito com sustentabilidade econômica e sem por em risco a nossa democracia. Aliás, esta é uma das minhas preocupações quanto à permanência do PT no poder, pois temo que a indispensável rotatividade dos cargos eletivos acabe sendo afetada como houve, por exemplo, na vizinha Venezuela.

Jamais podemos nos esquecer que o Partido dos Trabalhadores, após ter se estabilizado no poder, no segundo mantado de Lula, mostrou então suas unhas de gato. Para o PT interessa perpetuar-se no poder, o que pode levar a um fascismo de esquerda já que o “socialismo do século 21”, tão propagado por Chávez, nada mais é do que um pernicioso totalitarismo que condiciona a atividade empresarial ao controle estatal sobre a economia, retirando recursos do mercado pelo aumento da arrecadação sem uma justa distribuição da renda, bem como ampliando perigosamente a dívida pública. Com isto se vê a formação de uma nova elite de pessoas que se beneficiam do Estado. No lugar de empresas de alta tecnologia, ingrediente indispensável par ao desenvolvimento de um país, poderão restar somente aquelas sociedades que dependem das licitações do governo, obviamente que sujeitas a um repudiável direcionamento.

A princípio sou contra o voto útil no primeiro turno e acho que a oposição se iludiu com a vantagem inicial de José Serra, quando este aparecia destacado em primeiro lugar no começo do ano. Não diria que Serra seja uma má opção para o segundo turno, caso as eleições para Marina terminem no começo de outubro. Porém, sempre que converso nas ruas com as pessoas, percebo uma equivocada associação feita pelo eleitor com os traumas da primeira parte da era Fernando Henrique, quando foram feitas amargas reformas na previdência social, de modo que vejo grandes dificuldades para evitarmos uma vitória de Dilma logo no primeiro turno. Talvez se a oposição tivesse se dividido, com o DEM lançando César Maia e o PPS com Roberto Freire, mais votos seriam tirados da candidata governista. Isto porque um voto que poderia ser de César Maia, Freire ou Ciro Gomes tanto pode ir pra Serra quanto pra Dilma.

Independentemente de Marina ir ou não para o segundo turno, estou com ela. Nosso voto não pode estar condicionado apenas ao resultado de uma eleição e quero que, num posterior apoio a Serra, Marina tenha bastante “moeda de troca” para que os ambientalistas consigam influenciar o Ministério do Meio Ambiente através de integrantes do PV como foi no final do governo FHC quando gente talentosa, a exemplo de Aspásia Camargo daqui do estado do Rio de Janeiro, contribuiu para a magnífica apresentação do país na conferência Rio + 10, ocorrida em 2002 na África do Sul.

Para terminar, gostaria de dizer que voto em Marina Silva não pelo fato de ela ser cristã evangélica assim como eu. Acho um absurdo alguém escolher seu candidato por causa de identidade religiosa e hoje a bancada evangélica no Congresso é uma das grandes decepções neste país com deputados envolvidos em corrupção até o pescoço. Por mim, a Marina poderia ser católica, espírita, ateia ou até mesmo bebesse o chá do Santo Daime, pois nada disso tem a ver com a política. Já o caráter da pessoa influencia bastante, embora quase nunca podemos saber o que se passa por dentro de um político, exceto pelas suas atitudes manifestadas após a eleição. E, sendo assim, um dos poucos indícios a respeito de um candidato diz respeito às alianças políticas formadas e quanto à escolha das forças (ocultas ou não) que o apoiam durante a campanha.

E então? Vamos Marinar?