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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Três meses vendendo picolé



Dia 20 deste mês, completaram três meses que tenho vendido picolé na praia. Uma experiência que, em outros tempos, meu ego talvez não admitisse.

No entanto, não me envergonho desse trabalho. Graças a esta porta que Deus me abriu, consegui pagar minhas dívidas, a quota única do IPTU do imóvel onde moro em Muriqui e ainda a anuidade da OAB que, neste ano, sofreu alto reajuste.

Neste tempo todo, tive momentos bons e outros difíceis. Em algumas ocasiões em que, devido às chuvas frequentes ou ao movimento fraco, não vendi nem 20 sorvetes no palito. Já no período do Carnaval, mesmo competindo com muitos vendedores vindos de fora, conseguia fazer 100 reais em poucas horas de trabalho. Porém foram dias bastante cansativos em que folguei apenas nos sábados.

Poucos entendem por que não trabalho aos sábados, mas é que busco seguir o 4º mandamento da Bíblia - o shabat. Pra mim, não existe obrigatoriedade de descansar justamente no sábado, mas foi o dia que melhor me serviu desde que passei a observar o preceito por volta de 2008 quando tinha compromissos com a igreja aos domingos. Experimentei e deu certo!

Vender picolé na praia não é coisa tão fácil assim. O desgaste físico é grande. O ambulante expõe-se a insolação, a problemas vasculares e a desenvolver um câncer de pele. Daí a necessidade frequente do uso de um bom protetor solar de modo que minha esposa costuma me lembrar deste importante detalhe quando saio de casa.

Não tenho pretensões de ficar vendendo picolé na praia o resto da vida pois quero ampliar minha capacidade de renda. Voltar para a antiga profissão de advogado não sei se quero porque detesto qualquer coisa que me prenda (e ainda estou vinculado a umas poucas dezenas de processos judiciais). E, assim, posso dizer que sair andando pela praia gritando "olha o picolé" preenche um pouco essa minha necessidade de deslocamento no espaço que antes tentava saciar pelas caminhadas no meio rural.

Será a venda de picolés uma terapia pra mim?

Talvez sim. Por mais que eu veja os mesmos pontos geográficos quando estou andando pela praia de Muriqui (Jaguanum, Restinga de Marambaia, parte da Ilha de Itacuruçá, Ilha Grande e outras praias da Baía de Sepetiba), a paisagem nunca é a mesma. O céu com suas sempre está diferente e Deus sempre nos reserva uma experiência nova. Algo que vem para nos ensinar.

Um dos ensinamentos que tenho recebido com a venda de picolés diz respeito à valorização do trabalho. Logo que comecei, procurei saber qual era o preço dos outros vendedores para não ter problemas com ninguém. Disseram-me que o preço era de R$ 2,00 por cada picolé. Mas não demorou muito, eu estava fazendo promoções tipo "3 por R$ 5,00" ou "pague três e leve quatro". Comecei a arrumar encrenca e não demorou para meus colegas chamarem a minha atenção. Até o meu fornecedor veio me dar um toque.

Com o tempo, vi que o cartel dos vendedores na praia era mais do que justo (nem tudo o que é legal é justo). As coisas andam muito caras e o serviço tem que ser valorizado. Afinal, entregamos o produto no local onde o cliente se encontra sem que este precise se levantar, caminhar a alguma sorveteria, entrar numa fila e retornar com o picolé começando a derreter.

Assim, estou aprendendo algo que deveria ter posto em prática logo que comecei a advogar em 2005. Deveria ter valorizado mais o tempo que passei numa faculdade e cobrado pelos serviços. Não deveria ter dado tanta consulta e orientação de graça para as pessoas. Deveria ter sido mais profissional, talvez montado um escritório ao invés de atender na própria residência, e procurado praticar o mesmo que outros colegas mais experientes já faziam.

Esta manhã estou um pouco cansado porque trabalhei cerca de oito horas direto ontem. Neste momento, estou em Mangaratiba digitando o texto num local de acesso grátis da Prefeitura. Tenho um compromisso às 10 horas e, à tarde, pretendo estar novamente caminhando na areia de Muriqui. Se Deus quiser.


OBS: Imagem extraída da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Icepop-green.jpg

26 comentários:

  1. Acabei chegando na praia pouco antes das 15 horas ficando até quase 17:30. Hoje foi legal! Menos gente que no domingo mas foi tranquilo. Mais agradável caminhar na areia com a praia assim.

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  2. "Graças a esta porta (...) consegui pagar (...) a anuidade da OAB que, neste ano, sofreu alto reajuste.
    (...)
    Voltar para a antiga profissão de advogado não sei se quero porque detesto qualquer coisa que me prenda (...)"


    Curioso. Se vender picolé está mais interessante, por que pagar a cara anuidade da OAB intao?

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    1. Vender picolé,embaixo de sol escaldante, é pra poucos meu amigo. eu que o diga.Entretanto, vendendo picolé ,não consegui adquiri quase nada,somente pagar o meu aluguel da kitinete e comida.Só o basico.Vender picolé é interessante pois se conhece muita gente, ouve-se muitas historias,as vezes,triste,as vezes alegre.

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    2. Concordo com o comentário de resposta acima a quem escreveu anonimamente. Hoje falo com a experiência de quem já está há 27 meses vendendo picolé na praia e passado por três temporadas de verão. Dá para sobreviver mas não é fácil se capitalizar se o ambulante tem família e despesas consideráveis como um aluguel, um ente com problemas de saúde em casa ou se de para com situações que acabam lhe obrigando a gastar. Isto sem falar dos dias chuvosos, de baixa temporada, dos atrasos na renovação da licença de ambulante pelas prefeituras, das vezes em que ocorrem invasões de camelôs irregulares em ocasiões de grande movimento, etc. Por conta disso, o vendedor precisa ganhar no verão o que dificilmente conseguirá arrumar no inverno, devendo ele mesmo pagar sua contribuição previdenciária e zelar por sua saúde.

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    3. Em tempo!

      Concordo que o trabalho tem o seu lado interessante, entre os quais a oportunidade de se conhecer pessoa, sejam os clientes, os demais vendedores e até mesmo os que jamais vão consumir o produto. Como todo trabalho na rua, o ambulante acaba se tornando alguém mais acessível ao público do que um empresário lojista, um médico que atende em consultório, um advogado que anda de terno e gravata, um PM que veste farda ou um funcionário do governo. Umas pessoas aproximam-se para pedir informação enquanto outras chegam a contar histórias de suas vidas, emitir opiniões e até cantadas já levei (tanto de mulher quanto de homem). Frequentemente uns turistas querem saber de casa "baratinha" para alugar e preferem me procurar do que um corretor de imóvel...

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  3. Rodrigão, tiro o chapéu para você. É bom encontrar a sabedoria em cada esquina...

    Realmente não desejo que você continue vendendo picolé, você tem muito para dar. Peço a Deus que lhe direcione para o que lhe apraz e leve uma renda digna dos seus anos de estudos e capacidade, finalmente: digno é o obreiro do seu salário.

    Como está a sua esposa?
    Abraço.

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  4. Olá, Guiomar.

    Novamente agradeço por sua participação e por preocupar-se positivamente comigo.

    Como tem passado?

    Núbia vai progredindo a seus passos no tratamento. Desde ontem, voltou a andar sozinha na rua, coisa que não podia fazer desde julho/2012 quando começou a sua internação de quase dois meses.

    Tenho gostado de vender picolés e descobri que trabalhar com vendas é bem satisfatório. Talvez eu resolva me aprofundar nesse ramo e buscar maneiras de potencializar as atividades já que vender picolés numa caixa de isopor (ou mesmo numa carrocinha) tem suas limitações diárias ainda que eu pegue a praia com um extraordinário movimento de pessoas. Claro que terei muito o que aprender ainda para ampliar minha atuação no mercado e não bastará apenas acumular capital. Hoje em dia, quase todas as atividades estão exigindo estudos.

    Aproveitando a oportunidade, respondo ao questionamento anônimo acima pois ainda tenho expectativas de conseguir benefícios com a advocacia, inclusive o direito de postular em Juízo em causa própria, em favor de familiares ou da coletividade. Nunca se sabe o dia de amanhã, se surge uma ótima ação que vale a pena eu me dedicar.

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    1. Boa tarde que eu preciso para começar o trabalho algum tipo de licença da prefeitura, e se precisa, ė demorado? Obrigado

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    2. Olá, Thiago.

      Em via de regra para alguém poder fazer comércio em locais públicos (dentro da área urbana), quer seja colocando uma barraca num ponto qualquer, levando algum veículo ou mesmo caminhando com uma caixinha de isopor, costuma-se exigir autorização da Prefeitura. E, caso a pessoa vá produzir o alimento ou mesmo manipulá-lo, pode ser exigido que se passe pelo órgão de vigilância sanitária. Mas este não seria o caso de quem retende vender picolé que é algo já industrializado em que o comerciante entrega o sorvete já embalado ao consumidor.

      Os prazos de autorização e inspeção podem variar conforme cada prefeitura. Não dá para dizer se, no seu caso, vai conseguir uma licença ou autorização na mesma semana, dentro de um mês, se vão ficar te enrolando ou ainda se irão indeferir o pedido. Negócio é tentar.

      Quando iniciei minhas atividades, em novembro de 2012, não tinha licença alguma de prefeitura. Apenas comprei meu instrumento de trabalho, procurei saber qual era o preço de venda dos demais ambulantes e meti as caras. No mês seguinte, buscando me precaver, entrei com um pedido de autorização e obtive logo em janeiro de 2013. Já em 2014, só deferiram a renovação depois do Carnaval...

      Boa sorte!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Bom dia gostaria de saber ser de inicio os ambulante não empricaram com você.

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  7. Bom dia gostaria de saber ser de inicio os ambulante não empricaram com você.

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    1. Olá, Camila.

      Realmente implicaram sim e quando comecei a vender aqui já previa que isso fosse ocorrer. Depois se acostumaram.

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  8. Rodrigo eu e meu esposo estamos desempregados e com ideia de vender sanduiche e suco na praia, vc sabe me informar se precisa de alguma autorização da prefeitura. Obrigada Aline (estou usando a conta da minha filha)

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    1. Boa noite.

      Geralmente as prefeituras costumam exigir autorização, sim, pois o vendedor está utilizando o solo público para desenvolver a sua atividade.

      Muitas pessoas começam sem licença e depois solicitam autorização. Há cidades onde a fiscalização é mais severa e em outras mais branda. Porém, o certo é entrar com o requerimento e inscrever-se legalmente como ambulante.

      Voa sorte!

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    2. Boa noite.

      Geralmente as prefeituras costumam exigir autorização, sim, pois o vendedor está utilizando o solo público para desenvolver a sua atividade.

      Muitas pessoas começam sem licença e depois solicitam autorização. Há cidades onde a fiscalização é mais severa e em outras mais branda. Porém, o certo é entrar com o requerimento e inscrever-se legalmente como ambulante.

      Voa sorte!

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  9. Cara, eu tava gostando até ler a parte de você guardar o sábado, a partir dali comecei a amar, pois também sou Adventista do Sétimo Dia

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    1. Boa tarde, Gabriel.

      Embora eu não seja adventista, reconheço um grande valor em se trabalhar seis dias na semana e descansar no sétimo.Baseando no que disse Jesus, seria para o próprio bem do homem.

      Obrigado pela leitura. Participe sempre que desejar.

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    2. Há muitos ensinamentos que os adventistas seguem e as outras igrejas deveriam observar também. Um deles seria a alimentação saudável. Vejo hoje uma necessidade de que haja ministrações sobre isso. Ainda mais numa época em que a obesidade virou um problema nacional. Vejo que os adventistas prezam muito essa parte.

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  10. Olá Boa noite vi que vc vendeu picolé em praias em 2013... gostaria de saber quando parou definitivamente é e se não parou ...nao vou nem perguntar porque...ate pq sei que o Sr é advogado .Moro no Rio será que posso começar sem autorização...moro próximo a praia sou super envergonhada... e como o Sr disse o meu ego é intolerante porém ele não paga contas...se puder me dá uma força sobre isso...obrigado

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    1. Bom dia!

      Por enquanto não tenho vendido aqui onde moro é, durante a semana, nem poderia mais fazer por causa de meu horário de trabalho num órgão público, em irá possua autorização da Prefeitura válida até o fim do ano.

      Não sei como são as coisas aí no Rio, quanto à ação dos fiscais na repressão aos camelôs em situação irregular. Acredito que, como aqui, eles apertam mesmo é no verão. Porém, vc pode pedir na Prefeitura daí a autorização para venda ambulante e a central de atendimento da Prefeitura vai mostrar como proceder. E, neste aspecto, acredito que as coisas no Rio devam ser mais transparentes que em cidades pequenas nas quais existe um apadrinhamento político muito forte com pessoas protegidas por prefeitos, vereadores, secretários de governo, etc.

      Um dos problemas que se enfrenta costuma ser com os colegas de trabalho. Porém, sugiro conhecer antes o local onde eles compram o produto para vc adquirir ali também e praticar o mesmo preço de venda. Isto porque o seu fornecedor vau exercer certa influência sobre a situação perante os fiscais e demais colegas. Até porque a autorização nunca sai de imediato e ninguém consegue ficar sem trabalhar.

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    2. Em tempo!

      O telefone da central de atendimento da Prefeitura daí é o 1746.

      Boa sorte!

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  11. Ola, tudo bem? Estou super empolgada para começar a vender picole, hoje sou universitária, porem tenho sonhos como comprar a minha casa e acho que vendendo picole nos finais de semana terei uma renda extra, muito boa a sua historia, me incentivou ainda mais! Abraco!

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  12. Bom dia!
    Vou iniciar uma pequena produção de picolés caseiros e pretendo vender nas ruas com carrinhos ambulantes, colocar vários carrinhos pela cidade. Você acha que é uma boa idéia, dá um lucro bom? Tem alguma idéia que você acha legal para incrementar o negócio? Abraços e Deus te abençoe.

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  13. Bom dia!
    Vou iniciar uma pequena produção de picolés caseiros e pretendo vender nas ruas com carrinhos ambulantes, colocar vários carrinhos pela cidade. Você acha que é uma boa idéia, dá um lucro bom? Tem alguma idéia que você acha legal para incrementar o negócio? Abraços e Deus te abençoe.

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    1. Bom dia, Gláucio.

      Acho uma boa ideia, porém deve perceber que o verão está chegando ao fim e que, dentro de algumas semanas, vai começar o outono e a venda de picolés tende a diminuir.

      O lucro é bom quando se vende em quantidade, mas você estará competindo com fábricas que têm muito mais tempo de mercado.

      Para se ter um carrinho na rua, geralmente é o próprio ambulante quem deve solicitar na Prefeitura autorização. Você como dono do negócio deve ter cautela para que a sua relação com o ambulante não se caracterize como sendo de vínculo empregatício senão pode lhe trazer problemas jurídicos no futuro.

      Sugiro estudar bem o lugar onde vai iniciar suas atividades sabendo que lucro mesmo só deve ter em meados do próximo semestre e que não poderá contar só com os ambulantes assim como não poderá dependar apenas dos picolés em seu ponto de venda.

      Boa sorte!

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