Finalmente chegamos ao dia da votação do primeiro turno das eleições de 2026 e uma impressão permanece depois de semanas acompanhando propaganda eleitoral, redes sociais, atos de campanha e manifestações políticas: falou-se muito sobre os adversários e relativamente pouco sobre o Brasil que se pretende construir a partir de 2027.
Isso não significa que tenham faltado programas de governo ou propostas. Eles existem. A questão é outra: quanto dessas propostas efetivamente chegou ao centro do debate eleitoral?
Ao longo da disputa presidencial, ganharam espaço os ataques e contra-ataques, as mensagens identitárias, os apelos religiosos, a mobilização das bases e outras formas de comunicação características de uma eleição fortemente polarizada.
Em setembro, um acontecimento extraordinário agravou esse quadro. A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal praticamente sequestrou a agenda política durante parte importante da primeira quinzena. As campanhas não chegaram a parar, evidentemente, mas perderam boa parte da capacidade de escolher os assuntos sobre os quais desejavam falar.
Quando a disputa eleitoral voltou a ocupar o centro das atenções, já estávamos entrando na reta final.
E então surge uma pergunta que ultrapassa as estratégias adotadas pelos candidatos nesta eleição: será que encurtamos demais nossas campanhas eleitorais?
De julho para agosto
Até as eleições de 2014, a propaganda eleitoral podia começar em 6 de julho. A legislação então vigente proporcionava aproximadamente 90 dias entre o início da campanha e o primeiro turno. O calendário oficial daquele ano confirma que a propaganda eleitoral foi autorizada a partir daquela data.
A chamada minirreforma eleitoral de 2015, promovida pela Lei nº 13.165, modificou profundamente esse calendário. Desde então, a propaganda eleitoral somente é permitida após 15 de agosto.
Na prática, passamos de campanhas próximas de 90 dias para campanhas de aproximadamente 45 dias.
Entre os objetivos declarados da reforma estava a redução dos custos das campanhas eleitorais, além da simplificação de aspectos da administração partidária e de outras modificações na legislação político-eleitoral.
Passados mais de dez anos, entretanto, talvez seja o momento de perguntar se a mudança produziu também uma consequência menos evidente: ao encurtarmos a campanha, não encurtamos igualmente o espaço destinado ao debate público?
Campanhas longas não eram necessariamente melhores
É importante evitar a nostalgia.
As eleições anteriores a 2016 não eram seminários acadêmicos sobre políticas públicas. Também havia ataques pessoais, escândalos, marketing, slogans, jingles e estratégias destinadas muito mais à emoção do que à reflexão.
Uma campanha de 90 dias pode perfeitamente produzir 90 dias de ataques.
Portanto, não existe uma relação automática segundo a qual campanhas mais longas necessariamente produzam debates melhores.
O problema pode estar em outro lugar.
Uma campanha longa oferecia algo que o modelo atual oferece em quantidade muito menor: tempo para diferentes fases da disputa eleitoral.
Quando a campanha começava no início de julho, ainda havia três meses pela frente. Os candidatos podiam apresentar-se, contar suas trajetórias, diagnosticar os problemas do país e começar a introduzir suas propostas.
Depois poderia vir o confronto entre programas.
Somente gradualmente a eleição entrava naquela atmosfera típica das semanas finais: consolidação do voto, busca pelos indecisos, voto útil, mobilização das bases e aumento da temperatura dos ataques.
Hoje, praticamente começamos a campanha já olhando para a reta final.
Quarenta e cinco dias passam muito depressa
A campanha de 2026 foi um bom exemplo.
A propaganda eleitoral começou em 16 de agosto. Pouco mais de duas semanas depois, entramos em setembro.
Justamente naquele momento, quando seria razoável esperar o amadurecimento da discussão sobre os projetos para o próximo governo, a crise no STF tomou conta do noticiário político.
Durante vários dias, candidatos, partidos, jornalistas e eleitores passaram a discutir as consequências da crise institucional.
Quando esse assunto começou a perder intensidade, já estávamos na segunda metade de setembro.
Faltavam poucas semanas para votar.
Nesse estágio, os incentivos das campanhas são completamente diferentes.
Quem está na frente tende a evitar riscos. Quem busca reduzir uma diferença precisa conquistar novos eleitores. Crescem a mobilização das bases, a disputa pelos últimos indecisos, a exploração das vulnerabilidades dos adversários e as tentativas de evitar a dispersão dos votos.
É também nessa fase que costuma ganhar espaço o discurso do voto útil.
Nesse ambiente, quanto espaço sobra para explicar uma reforma tributária, uma política nacional de segurança pública ou uma estratégia de desenvolvimento industrial para os próximos dez anos?
Muito pouco...
Há também um problema para a própria Justiça Eleitoral
Existe ainda uma consequência menos evidente da compressão do calendário eleitoral.
Quanto menor o intervalo entre o registro das candidaturas e o dia da votação, menor também é o tempo disponível para que a Justiça Eleitoral resolva controvérsias sobre quem efetivamente possui condições jurídicas para concorrer.
O problema aparece principalmente nas candidaturas que chegam à eleição sob questionamentos de inelegibilidade.
A legislação brasileira protege o direito de defesa e estabelece regras específicas para as candidaturas cujo registro permanece sub judice. Isso permite que determinadas controvérsias continuem sendo examinadas pela Justiça Eleitoral enquanto a campanha prossegue.
A regra possui uma justificativa evidente: seria igualmente problemático retirar prematuramente da eleição alguém que posteriormente obtivesse na Justiça o reconhecimento de seu direito de concorrer.
Mas existe o outro lado dessa equação.
Quando todo esse processo ocorre dentro de um calendário extremamente comprimido, podemos chegar às semanas finais da campanha sem uma solução jurídica definitiva para determinadas candidaturas.
E isso não é apenas um problema jurídico.
É também uma questão democrática, econômica e eleitoral.
Uma candidatura posteriormente inviabilizada pode ter ocupado espaço na propaganda eleitoral, utilizado recursos de campanha, mobilizado apoiadores, influenciado pesquisas e debates e disputado votos durante parte relevante do processo eleitoral.
Em eleições proporcionais e municipais, a questão pode tornar-se ainda mais sensível. Uma candidatura com expressiva presença na disputa pode interferir na dinâmica da competição local enquanto sua situação jurídica permanece controvertida.
Não se trata, evidentemente, de antecipar julgamentos nem de eliminar o direito ao recurso.
Trata-se de perguntar se o nosso calendário oferece tempo suficiente para que o devido processo legal eleitoral produza respostas em momento útil para a própria eleição.
Nesse aspecto, simplesmente ampliar a propaganda de 45 para 90 dias não resolveria o problema. Seria necessário pensar o calendário como um todo.
Se convenções, registros e impugnações também fossem antecipados, haveria maior possibilidade de que as controvérsias sobre elegibilidade percorressem as instâncias da Justiça Eleitoral antes da fase decisiva da campanha.
Quando a situação jurídica de uma candidatura fosse resolvida a tempo, haveria também melhores condições para ajustar a propaganda e, quando juridicamente cabível e tecnicamente possível, a própria urna; os partidos teriam maior margem para avaliar eventual substituição; e seria possível reduzir o período em que recursos e estruturas de campanha fossem empregados por candidaturas que acabassem juridicamente inviabilizadas.
Isso também interessa diretamente ao eleitor.
Uma das consequências possíveis de uma controvérsia solucionada somente depois da votação é que alguém tenha escolhido conscientemente determinado candidato e descubra posteriormente que aquele voto não pôde produzir o efeito eleitoral inicialmente esperado.
Portanto, a discussão sobre a duração das campanhas possui uma dimensão que vai além da propaganda.
Tempo eleitoral também é tempo processual. E, talvez, tenhamos comprimido ambos excessivamente.
Uma proposta complexa precisa de tempo
Existe também um problema de comunicação.
É possível fazer um ataque político em quinze segundos.
Também é possível despertar medo, indignação ou identificação religiosa e ideológica em poucos segundos.
Explicar uma política pública, porém, é algo muito diferente.
Imagine uma candidatura propondo uma profunda reforma da segurança pública do país.
Primeiro é necessário explicar o diagnóstico. Depois, apresentar a proposta. Em seguida, mostrar de onde virão os recursos, como União, Estados e municípios participarão e quais mudanças legislativas serão necessárias.
Outras candidaturas poderão apresentar objeções ou alternativas.
A proposta poderá ser analisada por especialistas, questionada por jornalistas e comparada pela sociedade com outros caminhos possíveis.
Isso é debate público.
E debate público necessita de uma mercadoria cada vez mais escassa nas eleições brasileiras: tempo.
O paradoxo das redes sociais
Existe ainda uma ironia histórica.
Enquanto diminuímos a duração da campanha formal, criamos, na prática, uma espécie de pré-campanha permanente.
Políticos passam praticamente o ano inteiro nas redes sociais. Participam de podcasts, concedem entrevistas, realizam encontros, publicam vídeos, criticam adversários e defendem posições.
À primeira vista, portanto, poderíamos imaginar que os 45 dias deixaram de ser problema.
A realidade parece mais complicada.
A pré-campanha digital não necessariamente substituiu o antigo período eleitoral como espaço de discussão programática.
As redes possuem seus próprios incentivos. A indignação circula rapidamente. A polêmica gera compartilhamentos. O conflito chama atenção. Uma frase provocativa pode atravessar o país antes que um documento de cinquenta páginas tenha sido lido por algumas centenas de pessoas.
Criamos, assim, uma situação paradoxal: temos uma disputa política quase permanente, mas uma campanha eleitoral formal cada vez mais curta.
Temos mais comunicação política e talvez não tenhamos, na mesma proporção, mais discussão política.
Uma eleição polarizada também pode reduzir o espaço programático
A eleição de 2026 oferece um exemplo interessante para essa reflexão porque os dois principais campos da disputa presidencial apresentam diferenças políticas significativas.
Justamente por isso, seria possível esperar que uma parte importante da campanha fosse dedicada ao confronto entre diferentes respostas para questões fundamentais.
Qual deve ser o papel do Estado na economia?
Como financiar políticas sociais?
Qual política ambiental o Brasil deve adotar?
Como enfrentar o crime organizado?
O que fazer com a Previdência Social?
Como preparar o país para a inteligência artificial e a automação?
Qual deve ser nossa política externa?
Como aumentar produtividade, renda e emprego?
O que fazer para dar mais qualidade à educação básica?
As candidaturas possuem programas de governo formalmente apresentados à Justiça Eleitoral. No caso da eleição presidencial de 2026, o próprio TSE criou uma página que reúne essas propostas, extraídas dos documentos apresentados pelas chapas e disponibilizados originalmente no DivulgaCandContas.
A questão que interessa aqui, portanto, não é a existência ou inexistência de propostas, mas o espaço que a discussão dessas propostas conseguiu ocupar no debate público durante o curto período da campanha eleitoral.
E isso nos leva novamente ao problema do tempo: quanto menor a campanha, maior pode ser a competição entre a discussão programática e todos os demais acontecimentos políticos capazes de dominar o noticiário e as redes sociais.
A polarização também produz seus próprios incentivos
Em uma eleição para o Executivo, duas candidaturas podem ser adversárias e, ainda assim, a própria estrutura polarizada da competição pode produzir incentivos semelhantes para ambas.
Quanto mais a eleição for percebida como uma escolha entre os dois principais nomes da disputa, menor tende a ser o espaço para as demais candidaturas.
Se, entretanto, o debate eleitoral se concentra em perguntas como “quais são as diferentes propostas para a segurança pública?”, abre-se naturalmente espaço para outra indagação: o que propõem as demais candidaturas?
O debate programático amplia as possibilidades de comparação e pode aumentar a visibilidade de alternativas que recebem menor atenção numa disputa organizada predominantemente em torno de dois polos.
Isso ajuda a compreender um dos efeitos possíveis de uma eleição altamente polarizada: o confronto entre os dois principais polos ocupa grande parte das atenções, e essa própria centralidade pode contribuir para reproduzir a estrutura bipolar da disputa.
Nesse contexto, ataques e contra-ataques podem ser compreendidos também como instrumentos da competição eleitoral.
O ponto relevante para esta reflexão é outro: os incentivos estratégicos das campanhas e as necessidades de um debate democrático amplo não são necessariamente idênticos.
Eleição não serve apenas para escolher vencedores
Esse talvez seja o ponto fundamental.
Uma campanha eleitoral não existe exclusivamente para que, ao final, sejam conhecidos os nomes dos próximos presidente, governadores, senadores e deputados.
Ela também constitui um dos raros momentos em que milhões de brasileiros discutem simultaneamente o futuro do país.
É quando propostas que normalmente permaneceriam restritas a universidades, governos, partidos e especialistas podem chegar à mesa do almoço, ao local de trabalho, às escolas, às igrejas, aos sindicatos, às associações de moradores e às conversas familiares.
A campanha eleitoral possui, portanto, uma função pedagógica e democrática.
O cidadão não escolhe apenas uma pessoa.
Idealmente, tem também a oportunidade de conhecer e comparar projetos coletivos e prioridades.
Quando a discussão programática perde espaço para formas de comunicação centradas predominantemente na rejeição, no conflito ou na identidade política, essa dimensão do processo eleitoral pode ficar reduzida.
Talvez seja hora de reabrir essa discussão
Não proponho simplesmente restaurar os antigos 90 dias.
O mundo mudou desde 2014. A comunicação mudou. As redes sociais mudaram. A televisão perdeu parte da centralidade que possuía. E campanhas excessivamente longas também possuem custos econômicos e sociais.
Mas talvez a experiência acumulada desde a reforma de 2015 justifique uma avaliação mais profunda.
Podemos discutir campanhas de 60 dias.
Podemos discutir a antecipação dos debates.
Podemos avaliar mecanismos que favoreçam apresentações programáticas antes do início da fase mais intensa da propaganda.
Podemos repensar formatos de debates televisivos e digitais que ofereçam maior espaço ao confronto de propostas concretas.
E podemos discutir a antecipação de etapas do próprio processo eleitoral, proporcionando maior tempo para o exame dos registros e das controvérsias sobre elegibilidade antes que a campanha alcance sua fase decisiva.
Há diversas possibilidades.
A questão que merece ser examinada é se os atuais 45 dias continuam constituindo a solução mais adequada para as necessidades do processo eleitoral contemporâneo.
A pergunta que fica
Neste domingo, daqui algumas horas após a publicação deste artigo, milhões de brasileiros irão às urnas.
Teremos diante de nós nomes, números, partidos e escolhas decisivas.
Mas talvez possamos fazer também uma avaliação da própria campanha que termina.
Quanto aprendemos, nesses 45 dias, sobre aquilo que cada candidatura pretende efetivamente fazer nos próximos quatro anos?
Se concluirmos que foi menos do que seria desejável para um debate público amplo, a explicação talvez não esteja apenas nas escolhas feitas pelas campanhas.
Pode estar também no modelo que construímos.
Ao tentar tornar nossas campanhas mais curtas e menos dispendiosas, talvez tenhamos produzido efeitos que, mais de uma década depois da reforma, mereçam ser novamente discutidos.
Encurtamos a campanha.
Resta saber se, junto com ela, não encurtamos também o debate.

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