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domingo, 5 de abril de 2026

A ressurreição como processo: por que a história ainda não terminou



Há um detalhe pouco lembrado — mas profundamente revelador — no segundo evangelho da Bíblia.

Conforme observam exegetas como Bart D. Ehrman e Raymond E. Brown, os doze versículos finais do Evangelho de Marcos (Mc 16:9-20) não constam nos manuscritos mais antigos, sendo amplamente considerados uma adição posterior de tradição redacional. O texto original, ao que tudo indica, terminava de forma abrupta no verso 8, quando as mulheres deixam o túmulo vazio, tomadas pelo medo, e nada dizem a ninguém.


"Quando terminou o sábado, Maria Madalena, Salomé e Maria, mãe de Tiago, compraram especiarias aromáticas para ungir o corpo de Jesus. No primeiro dia da semana, bem cedo, ao nascer do sol, elas se dirigiram ao sepulcro, perguntando umas às outras: "Quem removerá para nós a pedra da entrada do sepulcro?" Mas, quando foram verificar, viram que a pedra, que era muito grande, havia sido removida. Entrando no sepulcro, viram um jovem vestido de roupas brancas assentado à direita, e ficaram amedrontadas. "Não tenham medo", disse ele. "Vocês estão procurando Jesus, o Nazareno, que foi crucificado. Ele ressuscitou! Não está aqui. Vejam o lugar onde o haviam posto. Vão e digam aos discípulos dele e a Pedro: ‘Ele está indo adiante de vocês para a Galiléia. Lá vocês o verão, como ele lhes disse’". Tremendo e assustadas, as mulheres saíram e fugiram do sepulcro. E não disseram nada a ninguém, porque estavam amedrontadas." (Marcos 16:1-8; NVI)


Sem dúvida, é um final estranho. Não há aparição triunfal, nem uma confirmação pública, e tão pouco um fechamento narrativo. Apenas o silêncio das três Marias.

Talvez não seja um defeito do texto — mas uma de suas chaves mais profundas.

Se a narrativa termina em aberto, é como se a ressurreição, embora anunciada, não estivesse plenamente apropriada no interior da narrativa, dependendo ainda de reconhecimento, de anúncio e de continuidade. Como se, de algum modo, a história permanecesse inacabada.

Ao longo dos séculos, não faltaram tentativas de preencher esse silêncio — seja pela tradição, pela teologia ou pela própria organização da vida social. Em muitos momentos, buscou-se transformar a promessa em estrutura, a esperança em sistema, a fé em ordem definitiva.

E, no entanto, a história insiste em permanecer ambígua: entre avanços e retrocessos, entre afirmações de vida e persistência de formas de morte, entre o que já se anunciou e o que ainda não se realizou.

Talvez a ressurreição não seja um ponto de chegada, mas um movimento que atravessa o tempo — algo que não se impõe como conclusão, mas que se oferece como possibilidade.


1. A tentação da ressurreição como estado

A história do cristianismo — e, de forma mais ampla, da própria civilização ocidental — revela uma tensão constante entre dois modos de compreender a ressurreição.

O primeiro é o da ressurreição como evento consumado, cuja consequência seria a possibilidade de organizar a realidade a partir de uma verdade já plenamente estabelecida. Nessa perspectiva, a história tende a ser interpretada como espaço de realização de um modelo previamente definido.

Foi essa lógica que, em diversos momentos, sustentou a ideia de sociedades ordenadas sob um horizonte religioso fechado — não apenas na Idade Média, mas também em experiências modernas que, embora seculares, reproduziram a mesma estrutura: a pretensão de encarnar, na história, um ideal definitivo.

Nesse ponto, a reflexão se aproxima da intuição de Walter Benjamin, para quem a história não é uma marcha linear de progresso, mas um campo de rupturas e interrupções, no qual a redenção não se identifica com a continuidade dos sistemas históricos.

O problema é conhecido.

Quando a promessa se transforma em sistema, a abertura desaparece. Quando o horizonte se converte em estrutura, a crítica perde espaço. E, quando a verdade se apresenta como plenamente realizada, o dissenso tende a ser percebido não como parte do processo, mas como ameaça a ser eliminada.

O resultado, em diversos contextos — especialmente quando religião e poder político se confundiram — foi, não raras vezes, a negação prática daquilo que se pretendia afirmar: a dignidade humana, a liberdade e a própria vida.

Não se trata de um fenômeno distante no tempo. Ainda hoje, sob diferentes formas, essa tensão se manifesta em realidades concretas: da exclusão social persistente à violência institucional, passando por conflitos fundiários e pressões sobre o meio ambiente, não são poucos os sinais de que a afirmação da vida continua sendo um desafio em aberto.


2. A ressurreição como processo: uma leitura possível

Uma segunda leitura — mais sutil e, talvez, mais fiel à própria estrutura dos textos — compreende a ressurreição não como estado, mas como processo.

Essa leitura encontra eco numa recente reflexão de Leonardo Boff, para quem a ressurreição não se limita a um evento encerrado no passado, mas se projeta como um processo histórico em que a vida se afirma contra as múltiplas formas de negação que atravessam a realidade.

Nesse sentido, a ressurreição não elimina a história, nem dissolve suas ambiguidades. Ao contrário, ela se manifesta dentro da história, como força que tensiona suas estruturas e aponta para além delas.

Essa leitura permite compreender por que, mesmo após quase dois mil anos de influência cristã, a humanidade não se transformou em um “mundo possível melhor” de forma plena.

Não se trata de fracasso da mensagem, mas de sua condição própria: a ressurreição não se impõe como realidade concluída — ela exige reconhecimento, mediação e, sobretudo, continuidade.


3. Do silêncio ao reconhecimento: o caminho de Emaús

Se o texto original do Evangelho de Marcos terminava em silêncio, o Evangelho de Lucas oferece uma resposta que não elimina, mas aprofunda esse enigma.

No festejado episódio dos discípulos no caminho de Emaús, dois homens caminham lado a lado com o ressuscitado sem reconhecê-lo. Conversam, interpretam os acontecimentos, expressam frustração — e, ainda assim, não percebem quem está com eles.

O reconhecimento só acontece mais tarde, no gesto simples de partir o pão.

E, no momento em que percebem, a presença desaparece.

Esse relato desloca completamente a compreensão do significado da ressurreição.

Ela não se impõe como evidência imediata.
Ela se revela no caminho.
Ela depende de um olhar que se forma ao longo da experiência.

E, sobretudo, ela não se fixa.

A presença que transforma é a mesma que escapa, impedindo sua captura definitiva.


4. Entre a promessa e a história

A articulação entre o silêncio de Marcos e o reconhecimento progressivo dos discípulos de Emaús permite uma leitura mais ampla da própria condição humana.

A história não é o lugar da realização plena da ressurreição — mas também não é um espaço vazio de sentido.

Ela é um campo de tensão permanente:


  • entre estruturas que reproduzem a exclusão e iniciativas que afirmam a dignidade;
  • entre sistemas que consolidam desigualdades e movimentos que buscam superá-las;
  • entre a destruição ambiental e a emergência de uma consciência ecológica;
  • entre o fechamento e a abertura.


A ideia de um horizonte aberto encontra ressonância na chamada “teologia da esperança”, desenvolvida por Jürgen Moltmann, inspirada, em parte, pela filosofia de Ernst Bloch, para quem a esperança não descreve o mundo como ele é, mas como ele pode vir a ser.

Nesse cenário, a ideia de uma “humanidade ressurreta” não pode ser compreendida como estado alcançado, mas como horizonte em construção.


5. A ressurreição como princípio crítico

Talvez a função mais profunda da ressurreição, quando compreendida nesse registro, seja a de operar como um princípio crítico permanente.

Ela impede que qualquer ordem histórica se declare definitiva.
Ela questiona estruturas que naturalizam a morte sob formas diversas.
Ela mantém aberta a possibilidade de transformação.

E, ao mesmo tempo, preserva a liberdade — porque não se impõe como conclusão, mas como um convite.


6. O desafio contemporâneo

Se essa leitura é correta, então a questão central deixa de ser teórica e se torna prática:


- onde, hoje, a vida ainda é negada?
- quais estruturas continuam produzindo exclusão, desigualdade e destruição?
- em que medida reconhecemos — ou deixamos de reconhecer — os sinais de transformação já presentes?


A resposta não está dada.

Como no final de Marcos, há silêncio.
Como em Emaús, há caminho.


7. Uma ressurreição a ser continuada

Talvez o ponto decisivo seja este: a ressurreição não é um evento a ser apenas celebrado, mas um processo a ser continuado.

Ela não se realiza por decreto, nem se encerra em estruturas.
Ela se manifesta onde a vida é afirmada — e se torna tarefa onde ela ainda é negada.

Nesse sentido, a pergunta final não é se a ressurreição aconteceu,
mas o que fazemos com ela.

Porque, se o relato permanece aberto, talvez isso não seja uma falha da narrativa — mas um inquietante convite. 
Um convite não apenas à reflexão, mas à responsabilidade histórica de reconhecer, no presente, onde a vida precisa ser afirmada — e de agir para que ela, de fato, prevaleça.

Feliz Páscoa a tod@s!


📝 Nota

A imagem que acompanha este texto é a obra As Mulheres Sagradas no Sepulcro de Cristo (1876), do pintor francês William-Adolphe Bouguereau
A cena retrata o momento descrito no Evangelho de Marcos (Mc 16:1-8), em que as mulheres encontram o túmulo vazio e recebem o anúncio da ressurreição.
Mais do que representar a vitória já consumada, a pintura capta o instante de transição entre o anúncio e o reconhecimento — marcado por perplexidade, silêncio e expectativa. 
Nesse sentido, o quadro dialoga diretamente com a ideia desenvolvida neste artigo: a ressurreição não apenas como evento, mas como realidade que se revela progressivamente na história e na experiência humana.

sábado, 27 de dezembro de 2025

O Guardião da Memória


Local tradicional do túmulo do apóstolo João em Éfeso


O sol poente tingia as colunas coríntias do Templo de Ártemis de dourado e púrpura, lançando sombras alongadas sobre as ruas de pedra de Éfeso. Entre o burburinho do mercado, barracas vendiam grãos, especiarias e tecidos finos, e o aroma de incenso se misturava ao sal do porto, onde navios carregavam oliveiras, vinho e cerâmica.


O velho João caminhava lentamente, apoiado em seu bastão de madeira gasta. Cada passo ecoava nas ruas pavimentadas, marcando o ritmo de uma memória que atravessava eras. Uma criança o seguia, olhos curiosos refletindo as cores do crepúsculo e as chamas distantes das tochas do porto.


— João… você viu Jesus mesmo? — perguntou a criança, com a voz tremendo entre o fascínio e o medo.


João parou e olhou para o horizonte, onde as ondas batiam nas embarcações, cintilando como prata ao sol.


— Vi, menino. Caminhei com Ele pelas colinas da Judeia, toquei seu manto, ouvi suas palavras que eram vida e amor. — Seus olhos se encheram de lembrança e dor. — Fui o único que permaneceu à cruz, e Ele confiou a mim sua mãe. A cruz, a dor… tudo se tornou uma luz que ninguém mais pode apagar.


Eles seguiram por uma rua estreita, ladeada por casas de tijolos e pátios internos com flores silvestres. Alguns artesãos moldavam cerâmica, outros afiavam facas em oficinas improvisadas, alheios à presença do apóstolo.


— E depois, João? — perguntou a criança, olhando para a cidade que parecia viva, mas diferente do mundo que o velho descrevia.


— Depois vim para Éfeso. — Ele apontou para as sete igrejas da Ásia Menor, espalhadas como pontos de luz no coração do império. — Aqui ensinei, escrevi, amei… e mesmo agora, neste fim de dia, ainda vejo o mundo antigo respirando em cada pedra e cada rosto. — João sorriu, mostrando a sabedoria de quem viu séculos passarem. — Escrevi cartas, visões do Apocalipse… mas tudo isso é apenas sombra do que vivi com Ele.


A criança se aproximou do porto, olhando os navios que balançavam suavemente.


— E você acredita que as pessoas vão se lembrar de você, João?


O apóstolo tocou a mão pequena da criança e respondeu com um brilho de eternidade:


— Alguns sim, muitos esquecerão. Nosso dia é 27 de dezembro, entre o Natal e o Ano Novo, quando todos estão ocupados com festas e fogos. Mas aqueles que guardam o amor de Jesus, que vivem a fé com o coração, nunca esquecerão. Eu sou apenas uma ponte… um último elo entre Jerusalém, o Templo destruído, e vocês, que vivem em um mundo diferente.


Eles caminharam pelo mercado, entre mosaicos coloridos, estátuas de deuses e o som distante de músicos ensaiando para festivais. Cada passo de João era uma história, cada gesto um ensinamento, e a criança sentia que caminhava por séculos em poucos metros.


Ao final do dia, João parou diante de uma colina, olhando Éfeso inteira: as ruas, o porto, o Templo de Ártemis e as casas iluminadas por tochas.


— Veja, menino — disse ele — o que foi vivido não desapareceu. Cada palavra de Jesus que guardei, cada lágrima e cada alegria, ainda vive em nós. Éfeso, Jerusalém… tudo se mistura no tempo e na memória. Nós somos o que permanece, mesmo quando o mundo muda.


E enquanto o sol desaparecia no horizonte, João continuava sendo o último contador de histórias, um avô espiritual, guardião de um amor que atravessava eras, lembrando que, mesmo que esquecido no calendário, seu dia permanece vivo naqueles que escutam e acreditam.


📝 Nota sobre o dia de João:

O dia 27 de dezembro, entre o Natal e o Ano Novo, celebra o apóstolo João. Apesar de muitas vezes esquecido pela maioria das pessoas, por cair em um período de festas e férias, ele simboliza memória, amor e fidelidade. É um lembrete de que João, o discípulo amado, testemunhou Jesus e transmitiu sua fé, permanecendo como ponte entre a igreja original de Jerusalém e o mundo que emergia em Éfeso e nas igrejas gentias.


📷: Julian Fong / Wikipédia, conforme extraído de https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tomb_of_St._John.jpg#mw-jump-to-license 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Preparar o coração para o Natal verdadeiro



O ano voou e já entramos em dezembro — tempo em que a atmosfera natalina se faz sentir nas ruas, nas casas, nas músicas, nas vitrines e nas emoções. Porém, apesar de todo o brilho que o comércio exala, este mês sempre nos coloca diante de uma pergunta essencial: como estamos, de fato, nos preparando para o Natal?

Essa reflexão vale não apenas para quem segue a tradição cristã ou participa das celebrações católicas do Advento, mas também para todos aqueles que, independentemente de religião, reconhecem na mensagem do Natal um convite universal à sensibilidade, ao amor, à solidariedade e à paz. Afinal, há um Natal de superfície — feito de pressa, consumo e aparência — e há um Natal profundo, silencioso, que nos chama à transformação interior.

É nesse sentido que vale a pena escutar vozes que nos ajudam a recuperar o significado mais humano e espiritual dessa época. Uma dessas vozes é a do deputado Chico Alencar, que publicou ontem, em sua página no Facebook, uma reflexão belíssima e provocadora sobre o Advento, os sinais dos tempos e o verdadeiro sentido da preparação natalina.

Sua mensagem, voltada tanto “para cristãos quanto para não cristãos”, aponta algo que muitas vezes esquecemos: preparar-se para o Natal é um exercício de sensibilidade, de atenção ao que nasce dentro de nós e ao que acontece ao nosso redor, para distinguir o essencial do supérfluo, a luz das trevas, a esperança do desânimo.

Com esse espírito, compartilho abaixo o texto "ESCUTAMOS OS SINAIS?" do deputado, que nos convida a repensar o caminho deste mês e a reencontrar um Natal mais verdadeiro, mais humano e mais transformador:


"Hoje é o primeiro domingo do Advento, tempo de preparação para a festa do Natal. Quem se prepara de fato? Como fazê-lo?

Há um Natal que a sociedade de consumo já anunciava, para criar o "espírito" das compras, dos bens materiais que nos governam. Mundo acelerado das coisas, que produz sobretudo ansiedade e frustração. AntiNatal.

O verdadeiro desafio é estar atento e vigilante,  como se não houvesse amanhã (cf Mateus, 24, 37-44). O principal lugar e momento da vida é aqui e agora. Urge entender os sinais de Quem está sempre vindo, para renovar a face da Terra.

Trata-se de ter olhos, ouvidos, razão e coração para distinguir o essencial do supérfluo.

Os sinais estão aí, de luz ou de trevas. Podem ser do dilúvio que tudo arrasta, nesses tempos de colapso climático (e, entre nós, de aval irresponsável à devastação) ou de bendita água brotando, que impede a desertificação.

Podem ser de matança, armamentismo, guerras de dominação. Ou de construção de um caminho de paz, rumo ao tempo da delicadeza.

Há sinais persistentes de ódio, misoginia, preconceitos reiterados, mas também há sinais luminosos de fraternura, respeito, beleza e serenidade.

Há sinais de doença e sofrimento, em meio aos do que é saudável e dá alento.

Nesse domingo há sinais litúrgicos bonitos: a coroa de velas do Advento começa a ser formada. A primeira a ser acesa, nesse 2025, é de cor verde, símbolo da Esperança.

Assim a árvore, montada ou iluminada também hoje - irmã que nos dá sombra, folhas e frutos. Assim o presépio, com seus muitos elementos - animais, vegetais e minerais - para acolher, na simplicidade, o humano Sem Teto e Sem Terra, mas pleno de Amor.

Chegou o tempo do Natal: com alma e calma, estejamos atentos para escutar os seus sinais. Tem dor, que nos abate e desvia, mas há vereda de alegria!"



Que a reflexão de Chico Alencar nos inspire a reencontrar o Natal que nasce dentro, e não apenas aquele que enfeita por fora. Preparar-se para essa data é cultivar sensibilidade — a mesma sensibilidade que, segundo a tradição, levou os Magos do Oriente a perceberem algo incomum no céu. Eles viram uma estrela diferente e, movidos por um pressentimento profundo, caminharam centenas de quilômetros até Belém. Não por obrigação, mas por atenção ao mistério, por abertura ao novo que nascia no mundo.

Assim também deve ser conosco: perceber os sinais discretos, escutar o que o coração aponta, permitir que a esperança nos mova.

Que este dezembro seja mais do que correria e consumo — que seja caminho, luz e descoberta.

Que cada um, à sua maneira, encontre a estrela que o conduz ao essencial.


📷: Sites Idemais e Autoinforme, conforme consta na postagem original do autor no Facebook 

domingo, 27 de julho de 2025

São essas as nossas armas!



Quase vinte anos depois, a camisa que usamos num retiro eclesiástico em Nova Friburgo, na primeira década do século XXI, chegou aos seus últimos dias de uso já desbotada e rasgada. 


Imitando um uniforme de treinamento militar na selva, havia as seguintes palavras estampadas juntamente com a figura de um soldado: "GUERREIROS DE CRISTO ARMADOS PARA AMAR". Certamente é algo que geraria divisão nos dias de hoje com as igrejas contaminadas pelo bolsonarismo mas, na época, ninguém naquele evento pensava literalmente nas armas humanas, exceto como metáforas dos recursos espirituais dos quais o apóstolo Paulo teria escrito em sua epístola aos cristãos da cidade de Éfeso:


"Finalmente, sejam fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Vistam‑se de toda a armadura de Deus para poderem ficar firmes contra as ciladas do Diabo, pois a nossa luta não é contra sangue e carne, mas contra os poderes e as autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas e contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais. Por isso, vistam‑se de toda a armadura de Deus, para que possam resistir no dia mau e permanecer inabaláveis depois de terem feito tudo. Assim, permaneçam firmes, cingindo‑se com o cinto da verdade, vestindo‑se com a couraça da justiça e tendo os pés calçados com a prontidão do evangelho da paz. Além disso, usem o escudo da fé, com o qual vocês poderão apagar todas as setas inflamadas do Maligno. Usem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. Orem no Espírito em todas as ocasiões, com toda oração e súplica. Tendo isso em mente, estejam atentos e perseverem na oração por todos os santos." (Ef 6:10-18; NVI)


Curioso como valores como a verdade, a justiça, as boas novas da paz, a fé, a salvação, a mensagem divinamente inspirada e as orações se tornam armamentos num campo de batalha que não é como uma guerra entre tropas, milícias ou facções, porém numa disputa que ultrapassa até os limites da ideologia. Ou seja, é a luta por um ambiente regido pelos princípios superiores da vida, metaforicamente os valores do Reino dos Céus, ou de Deus.


Apesar de muitos verem a Igreja como instituição conservadora, não creio ter sido este o desejo de Jesus que em momento algum tentou manter o sistema de injustiças de sua época que se perpetua até hoje com novas faces. E o Mestre propôs transformar o ser humano de dentro para fora, trabalhando a ética e não a moral social, de maneira que a justiça seria alcançada não pela observância literal da Lei e sim pelo exercício do amor ao próximo.


Hoje em dia, como já dito, temeria pelo uso de uma estampa dessas num evento religioso para que alguns irmãos na fé não deturpassem a mensagem como se Jesus fosse apoiador do armamento defendido pelos bolsonaristas. Contudo, o texto bíblico é excelente para curar a Igreja nesses dias de cegueira espiritual e nos conduzir de volta à essência do Evangelho.


Ótima semana a tod@s!

domingo, 20 de abril de 2025

Que nossos olhos se abram para a missão que temos nesta vida!



"E aconteceu que, estando com eles à mesa, tomando o pão, o abençoou e partiu-o, e lho deu. Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram, e ele desapareceu-lhes." (Lucas 24:30-31)


O Domingo de Páscoa creio eu que não é para encerrarmos o dia tristes ou melancólicos... 

Umas das narrativas dos Evangelhos que mais curto é quando o autor de Lucas fala sobre os discípulos de Emaús, os quais não perceberam a presença de Jesus enquanto caminhava com eles. 

Prosseguiram na estrada conversando até que convidaram o Mestre para uma ceia quando chegaram em casa, já na aldeia. Nesse tempo todo, estavam eles muito tristes por causa da sua morte e se sentindo desesperançados. 

No entanto, Jesus foi paciente e pedagógico com os dois seguidores até que os olhos do entendimento se lhes abriram. Ou seja, compreenderam que tinham uma missão a cumprir nesse mundo e o trabalho de anúncio das boas novas iria continuar.

A ressurreição, meus amigos, é o sinal de um novo começo, uma nova história. Se Jesus tivesse vivido na terra como Davi, teria sido uma repetição de algo que só deu certo para uma época e não resolveria o problema espiritual do ser humano.

Acredito na ressurreição como algo que nos inspira a continuar o trabalho do Mestre e construirmos o Reino de Deus aqui por meio da aplicação do Evangelho nas nossas relações.

De olhos abertos, os dois discípulos trataram de voltar logo para Jerusalém onde se encontraram com os demais irmãos. Entenderam qual seria o papel deles aqui e se acharam novamente com Jesus, na comunidade.

Há muito o que fazermos nesse mundo. Passada a celebração da Semana Santa, devemos prosseguir na nossa caminhada. Porém, melhor será com o entendimento aberto acerca do nosso papel e da nossa missão na vida que recebemos de Deus.

Ótima semana a todos e muita luz nos nossos caminhos.


OBS: Imagem acima referente ao quadro do pintor francês Laurent de La Hyre, 1656.

domingo, 13 de abril de 2025

Alegria, tristeza e uma alegria superior



"Passamos da alegria de acolher Jesus, que entra em Jerusalém, à tristeza de O ver condenado à morte e crucificado. É uma atitude interior que nos acompanhará ao longo da Semana Santa" (Papa Francisco, em 28/03/2021)


Há quatro anos atrás, na Basílica de São Pedro, enquanto rezava a missa do Domingo de Ramos, em plena pandemia por COVID-19, o papa partilhou o pensamento acima que resume, em sentimentos, esse período que os cristãos celebram como a "Semana Santa".


Ao contrário do poema bíblico da criação, quando Deus terminou a sua obra com a vida pulsando em plenitude, a Semana Santa teria um sentido aparentemente contrário. Pois ela se inicia com uma entrada triunfal de Jesus em Jerusalém sendo saudado como o "filho de Davi", isto é, como um novo rei, e termina num sepulcro, após o Mestre ter sido condenado num julgamento injusto, onde os que estavam presentes perante Pilatos pediram a sua crucificação.


De fato, há uma inversão em que o tão esperado messias levou ao túmulo a esperança de libertação política de um povo que, desde a invasão dos babilônicos, no século VI a.C., tentava reconquistar a independência perdida. Porém, de certo modo, foi justamente essa expectativa terrena que Jesus pretendeu enterrar, possivelmente para que valores mais elevados pudessem sobressair, ainda que incompreendidos (ou pouco entendidos) até os dias atuais.


Seria Jesus um líder contrário à vida por haver se entregue aos adversários num autocídio? Afinal, as Escrituras Sagradas não mandam que escolhamos a vida ao invés da morte?!


Não é tão fácil entender a obra do Cristo Jesus que veio a este mundo morrer negando-se a viver e reinar como fizera o seu ancestral Davi cerca de mil anos antes. Contudo, as narrativas dos evangelistas a seu respeito vieram mostrar um Messias que transcende o limitado plano físico onde tudo tende a terminar na morte, ainda que venhamos a cumprir todos os nossos ciclos.


Se a obra de Jesus terminou em tristeza, com as mulheres que o acompanhavam desde a Galiléia vivendo um sábado angustiante a ponto de aguardarem a madrugada para prepararem uma ida ao sepulcro, o domingo seguinte nos mostrará uma nova alegria que é a ressurreição.


Numa reflexão para a atualidade, eu ousaria dizer que a obra de Jesus é uma inspiração para nos sacrificarmos pela construção de um novo mundo. O caminho da humilhação, da dor e da morte pelo qual o Mestre passou significa a renúncia aos valores seculares da riqueza, do poder e da acomodação para que possamos também lutar pela construção do Reino de Deus aqui através de uma árdua dedicação.


Assim, a obra de Jesus, que só se completa no começo da semana seguinte, no Domingo de Páscoa, é, na verdade, a reafirmação da vida e, consequentemente da alegria. E, analisando dialeticamente, seria uma espécie de "síntese" que, por sua vez, é a nova tese.


Levando em conta os dois sentimentos, eis que a alegria, quando contrastada com a tristeza, pavimenta a estrada para nos conduzir a um superior estado de satisfação. Isto é, aprendemos a nos alegrar independe das circunstâncias terrenas e materiais que cercam a nossa existência porque passamos a vislumbrar projetos de vida superiores ao acúmulo de coisas perecíveis.


A todas e todos desejo uma feliz manhã de domingo e uma semana com elevadas reflexões de vida.


OBS: Imagem da pintura “A entrada triunfal de Cristo em Jerusalém”, de Harry Anderson.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Feliz Natal e amanhã também!


Monumento aos Reis Magos em Angra dos Reis


Hoje, 6 de janeiro (primeira segunda-feira de 2025), tradicionalmente considerado Dia de Reis, em homenagem aos magos do Oriente que vieram presentear o menino Jesus, ainda é considerado Natal para quem não sabe (ou se esqueceu). Ou seja, ainda há tempo de dar seu presente para alguém. 

Todavia, o Natal não é só presentes, embora tais ofertas fizeram parte do início da vida terrena de Jesus, sendo não  somente atos de amor, reverência e adoração, como símbolos do que representou a sua vinda ao mundo. Tentem refletir sobre o que pode significar ouro, incenso e mirra.

Pelo que conhecemos acerca de Jesus, através dos evangelhos, ele nunca exigiu receber nada, nem mesmo o simples reconhecimento, mas sempre valorizou qualquer coisa que fizessem por ele. Inclusive a extravagância da ousada mulher que derramou sobre seu corpo um precioso perfume, assim como percebeu a atitude do leproso samaritano quando retornou para agradecer a cura, ou o homem chamado Simão que teria lhe ajudado a carregar a cruz, neste caso difícil ou impossível dizer algo ao cirineu num momento de tão grande sofrimento.

Hoje, se algo queremos fazer por Jesus, realizemos então pelo nosso próximo! Sejamos generosos com aqueles que passam por necessidades e nunca nos esqueçamos também dos que estão conosco na caminhada diária porque devem ser reconhecidos e honrados.

Quem sabe esse seu próximo não será aquela pessoa que lhe dá forças nas horas mais difíceis? O seu professor? Seu colega de trabalho? Um amigo? Um orientador espiritual?

Fato é que os (reis?) magos presentearam não só uma criancinha de colo como também podem ter ajudado uma pobre família a se manter num auto-exílio no exterior, enquanto um governante maligno queria matar indefesos. 

Será que José não usou daquele recurso em sua viagem ao Egito, no pagamento do aluguel de uma casa, na compra de alimentos roupas e dos primeiros utensílios domésticos?!

Curiosamente, hoje é também o 523° aniversário da cidade vizinha de Angra dos Reis, a qual foi "descoberta" pelos portugueses justamente no dia 6 de janeiro de 1502, através da expedição portuguesa comandada por Gonçalo Coelho. Por ocasião da data, batizaram a linda baía da Ilha Grande em homenagem à visita dos magos ao menino Jesus que, conforme a tradição cristã, seriam três reis vindos do Oriente. 

Algumas décadas depois da expedição portuguesa, o povoado ali formado que, já no século seguinte, foi elevado à categoria de vila, teria inicialmente recebido o nome de Vila dos Três Santos Reis, depois Vila de Angra dos Reis e, finalmente, Angra dos Reis. Claro que toda aquela terra já era possuída pelos tupinambás, povo que habitava toda a região da Costa Verde, inclusive aqui em Mangaratiba, o que, talvez, venha a sugerir mais um outro nome ao Município que poderia ser, quem sabe, a Angra do Cunhambebe, o qual foi o cacique líder da resistência ao colonizador.

De qualquer forma, a homenagem aos magos, os quais não sei se realmente seriam apenas três ou se reinavam em algum país, pode e deve coexistir com todas as homenagens devidas. Por isso, acho bem oportuno recordar deles e lembrarmos que hoje também é Natal.

Justamente porque o Natal não acabou, quero ainda reforçar a ideia para nós culturalmente cristãos (crentes ou não) que o significado do nascimento de Jesus nunca tem fim. O próprio Mestre, quando ascendeu aos céus, prometeu estar todos os dias com os seus discípulos sendo que nós o tornamos presente em nosso cotidiano quando entendemos a sua mensagem de amor e a praticamos.

Portanto, bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme o fuso horário em que se encontra, e tenha sempre um feliz Natal.


📷: Autor desconhecido / Facebook

segunda-feira, 29 de julho de 2024

A polêmica cena das drags na abertura das Olimpíadas


 

Até hoje as pessoas ainda não pararam de comentar sobre a representação do célebre quadro A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris, ocorrida na sexta-feira passada (26/07). Durante o evento, a cena que recorda o último momento de comunhão entre Jesus e seus discípulos foi protagonizada por drag queens, num interessante desfile de moda.


Para muitos, inclusive os franceses mais conservadores e o episcopado católico, tal encenação teria sido uma ofensa à religião e aos valores cristãos, tendo outras apresentações também despertado críticas da extrema direita. Segundo reagiu a eurodeputada francesa Marion Marechal nas redes sociais, sobrinha de Marine Le Pen, que é a atual presidente do Reagrupamento Nacional:


"Difícil apreciar as estranhas cenas entre Maria Antonietas decapitadas, um trouple [trio amoroso] que se beija, drag queens, a humilhação da Guarda Republicana obrigada a dançar com Aya Nakamura, a feiura dos trajes e das coreografias"


A meu ver, considerando o basilar direito à liberdade de expressão, do qual decorre o dever de respeitar o livre exercício da criação, produção e divulgação de obras de arte, sem submeter-se a censura, jamais veria qualquer ilegalidade na referida encenação ainda que fosse executada aqui no Brasil. Aliás, já tivemos eventos de Carnaval polêmicos envolvendo a figura de Jesus, como foi nos desfiles da Mangueira e da Gaviões da Fiel, os quais despertaram a ira de muitos fundamentalistas cristãos.


No caso da abertura dos jogos olímpicos deste ano, confesso que não me senti nem um pouco ofendido com a encenação das drag queens. Muito pelo contrário, vi ali uma importante mensagem de inclusão.


Ora, a Santa Ceia, antes de se tornar uma tradição religiosa, foi um ato de comunhão entre Jesus e os seus discípulos na noite anterior à sua crucificação. Ao distribuir o pão e depois o vinho, respectivamente simbolizando o seu corpo e o seu sangue, o Mestre referenciou-se ao sacrifício que faria em favor da humanidade:


"Tomando o pão, deu graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: "Isto é o meu corpo dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim". Da mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês." (Evangelho de Lucas 22:19-20; NVI)


Pois bem. A Ceia representou uma inclusão daqueles homens simples e humildes no Reino de Deus. Pessoas que não ocupavam altas posições no meio político, religioso ou econômico da sociedade da época, dentre as quais havia rudes pescadores e até um ex-cobrador de impostos, foram as primeiras a se tornar participantes de uma sagrada comunhão.


Assim, foi por toda uma humanidade perdida que Jesus morreu e nos propôs uma nova aliança, conforme bem ensina o Novo Testamento da Bíblia. Tal sacrifício incluiu não só os discípulos presentes no cenáculo como também todos os demais seres humanos do planeta, independentemente de gênero, raça, origem, nacionalidade, condição social, profissão e opção sexual.


Caros leitores, por acaso seria ofensivo se alguém indagasse que Jesus também verteu o seu sangue na cruz também pelas drag queens?!


Entretanto, apesar de ter essa visão e, como já dito, não me sentir em nada ofendido pelas cenas da abertura dos jogos olímpicos de Paris, faço aqui o meu juízo de ponderação acerca do que seria mais adequado praticar num evento do tipo.


Vale recordar que, desde a Antiguidade na Grécia, os jogos pan-helênicos estiveram associados com o antigo conceito grego de "trégua olímpica" (ἐκεχειρία, ekecheiria). Desse modo, para que as competições pudessem ocorrer, as guerras eram suspensas, permitindo que os atletas viajassem até à cidade de Olímpia, disputassem os jogos, e retornassem para suas terras de origem em segurança.


No final do século XIX, quando os jogos olímpicos renasceram, tal proposta não foi esquecida. Pierre de Coubertin, o segundo presidente do COI (1896-1925), acreditava na possibilidade de promover paz por meio do esporte: 


"Exportemos remadores, corredores e esgrimistas: eis o livre comércio do futuro, e no dia em que for introduzido nos costumes da velha Europa, a causa da paz terá recebido um novo e poderoso apoio"


Dentro desse contexto, não ignoraria que o tema da inclusão social se torne pertinente a uma ideia ampla de paz, considerando que esta não se restringiria apenas a um mero armistício entre as nações. Contudo, precisamos refletir acerca da maneira como um assunto vem a ser pautado para que não gere conflitos num momento em que se propicia um entendimento comum.


Tratando-se as Olimpíadas de algo muito mais amplo do que os desfiles do Carnaval brasileiro, em que uma cidade se torna temporariamente a anfitriã de várias competições esportivas internacionais, penso que o evento deveria ser uma espécie de "território neutro", muito embora não exista uma total neutralidade nas ações humanas. Logo, diferentemente das ruas, onde as pessoas se manifestam politicamente, creio que o bom senso deve conduzir a recepção do público numa competição esportiva, criando uma atmosfera em que possamos pausar até mesmo as nossas questões ideológicas.


Em todo caso, não podemos deixar de reconhecer o quanto foi bonita a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Paris 2024. Apesar da chuva, vimos um inesquecível passeio pela capital francesa, tendo se tornado uma inovação com barcos navegando pelo rio Sena, levando delegações, autoridades e celebridades a céu aberto, fora do confinamento dos estádios.


Viva as Olimpíadas! Que a paixão pelo esporte consiga transcender fronteiras, culturas e ideologias políticas, unindo o mundo em um só coração!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

As metas para o futuro



 

"Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas." (Jesus de Nazaré, Evangelho de Mateus 6:33; NVI)


É bem comum, nessas épocas de passagem de ano, fazermos as nossas reavaliações pessoais e traçarmos metas para o novo período de 365 dias que se inicia. Muitos fazem logo uma lista de desejos alcançáveis tipo dar entrada numa casa nova, arranjar um novo emprego, abrir um negócio, aumentar suas vendas, quitar as dívidas, iniciar uma faculdade, comprar um carro, viajar, casar, ter um filho, etc. 


Confesso que nada tenho contra tais planejamentos. Aliás, muito pelo contrário pois, na vida, a melhor maneira de alcançarmos resultados é avaliando condições e possibilidades, verificando previamente quais esforços podem ser feitos para conseguirmos isso ou aquilo, ainda que nem sempre possamos estar no controle de todos os eventos que se sucedem.


Pois bem. Estava na semana passada pesquisando no Google uma frase que fosse inspiradora para essa época quando, por acaso, deparei-me com o citado dito atribuído a Jesus no célebre Sermão da Montanha, uns dos mais belos discursos bíblicos e que ocupa os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de Mateus, primeiro livro do chamado Novo Testamento. No contexto da passagem, o Mestre vinha falando sobre a apreensão que o ser humano muitas das vezes sente pela sua própria vida, geralmente no que diz respeito às nossas preocupações cotidianas.


Por certo, o modelo de vida ensinado por Jesus diferencia-se dos projetos que costumamos elaborar. Isto é, das motivações que geralmente temos, as quais acabam por coincidir com aquilo que ele advertiu os discípulos que o ouviam sobre não acumularem riquezas sobre a terra, "onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam" (verso 19).


Inegavelmente, a sua mensagem é profunda porque envolve questões sobre os nossos interesses particulares, a doentia ansiedade quanto ao nosso sustento futuro (necessidades básicas como alimento e vestuário), quais os valores que devemos ter, mas nos impõe uma pequena dose de fé para crermos num cuidado divino sobre nossas vidas.


Buscar o Reino de Deus e a sua justiça não pode se resumir à ideia de ganharmos um visto de residência para a morada celestial quando morrermos, mediante à aceitação de um conjunto de crenças ofertado numa pregação religiosa. Pois o que Jesus estava falando ali seria a promoção de uma realidade bem mais abrangente, revolucionária, de relações amorosas, solidárias, distributivas, sadias, restauradoras e inclusivas.


Entender o que é o Reino de Deus, por sua vez, não pode se resumir a meros conceitos teológicos e nem se confundir com a forma monárquica de governo, muito bem utilizada como metáfora por Jesus para expressar o desejo de que toda a humanidade se torne uma bem-aventurada família praticante do amor ao próximo. Isso significa nos tornarmos súditos não de homens e sim da vontade divina consistente na prática do bem.


Obviamente a passagem bíblica não vai nos responder de imediato quais as metas específicas que cada um precisa adotar para o futuro e não me parece que Jesus tenha proibido os seus discípulos de fazer um planejamento para o amanhã que fosse adequado segundo os justos valores. Contudo, suas sábias palavras norteadoras poderão nos ajudar a definir o nosso caminhar em qualquer tempo, conforme as nossas necessidades e responsabilidades, no sentido de sabermos estabelecer com profundo alicerce sobre a rocha a verdadeira prioridade: o Reino de Deus e a sua justiça.


Que Deus nos abençoe em 2024 e sempre!


OBS: Imagem acima referente à pintura do artista dinamarquês Carl Heinrich Bloch (1834 - 1890), O Sermão da Montanha.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

O culto do Sol Invicto e a convenção do dia do nascimento de Jesus de Nazaré



Há 1748 anos, mais precisamente em 25 de dezembro do ano de 274 da era comum, um templo ao Sol Invicto era dedicado em Roma pelo Imperador Aureliano. Tratava-se de uma divindade oficial do Império Romano e, posteriormente, um patrono de soldados. 


Embora não fosse oficialmente identificado com o deus Mitra, o Sol de Aureliano tem muitas características próprias do mitraísmo, incluindo a representação iconográfica de um personagem divino ainda imberbe. E o culto do Sol Invicto continuou a ser base do paganismo oficial até à adesão do Império ao cristianismo, sendo que, antes da sua conversão, o jovem imperador Constantino tinha o Sol Invicto como a sua cunhagem oficial. 


Como se sabe, a escolha de 25 de dezembro para o nascimento de Jesus foi uma convenção, pois o dia exato de seu nascimento é desconhecido. 


Indaga-se se isso teria sido alguma estratégia da Igreja para assimilar as pessoas que seguiam o paganismo? Suponho que talvez possa ser. Mas creio que se trate de algo ideologicamente definido no início do século VI pelo monge Dionísio, o Exíguo. Pois, na época do denominado ano 284 da então "Era Diocleciana", Exíguo não queria usar um calendário cujo nome se referia a um tirano e perseguidor de cristãos de modo que resolveu datar os eventos a partir do suposto nascimento de Jesus.


De qualquer modo, as antigas crenças consideradas pagãs, com todas as modificações que passaram antes mesmo do advento do cristianismo, levam-nos às significações feitas com base no Solstício de Inverno, celebrado entre 20 e 25 de dezembro no Hemisfério Norte. Pois corresponde ao momento em que a luz do sol incide com menor força no hemisfério em questão, marcando o pico do inverno com o dia mais curto e a noite mais longa.


Numa época de maior ligação do homem com os eventos da natureza, principalmente pela sua dependência direta da agricultura, o Solstício de Inverno ganhava grande importância para diversas culturas antigas, que a associavam simbolicamente ao nascimento e ao renascimento. Algo relacionado à roda da vida e sua continuidade.


Dentro dessa visão, podemos compreender que o nascimento de Jesus se tornou o marco de uma nova era iniciada num momento de grande opressão dos romanos sobre o povo judeu e parte da humanidade. E, numa época de obscuridade, desamor, ódio e incompreensão, sua mensagem veio iluminar corações.


Embora dentro do cristianismo haja muitos críticos do sincretismo, procuro apreciar tudo isso já que toda religião surge tomando de empréstimo os costumes de uma cultura dando novos direcionamentos. Logo, os cristão de hoje não devem demonizar ou rejeitar essas convenções de muitos séculos atrás, mas sim entendê-las melhor com a devida reverência aos povos antigos.


Feliz Natal a todos e todas!


OBS: Disco de prata romano do século III d.C., encontrado em Pessino, atual Turquia e exposto no museu britânico.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Que possamos discernir o corpo partido e o sangue derramado!


 

"E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai." (Mateus 26:26-29)


Não dá para passar da noite de quinta para sexta-feira da Semana Santa sem nos lembrarmos desse conhecido trecho dos evangelhos onde Jesus celebra uma simbólica ceia com os seus discípulos, relacionando a partição dos alimentos (pão) com o seu corpo e agindo de modo semelhante com a bebida (vinho) quanto ao seu sangue. Em seguida, complementa estar realizando uma nova aliança (na citação "testamento"), por meio da sua morte, perdoando os pecados dos homens.


Certamente que essa passagem não deve fazer sentido para a humanidade inteira e nem todos os cristãos entendem do mesmo modo. Porém, quem estuda a célebre citação da Bíblia sempre busca compreender qual o significado profundo da representação desse momento tão reverenciado.


Tem-se evidenciado no texto em tela não só o fato de Jesus haver transformado a sua morte em um sacrifício de substituição em favor dos homens como também tornado os seus discípulos co-participantes do que estava prestes a ocorrer com ele. Mesmo que o entendimento daquele episódio só viesse mais tarde e, na hora da prisão do Mestre todos fugissem e um o negasse expressamente.


Sob certo aspecto, quando Jesus estava inspirando seus discípulos a pactuar com ele, tal decisão abrangeria o seguimento dos seus passos num projeto de amor e de vida para a humanidade que é o alcance do Reino de Deus. Romperiam com os valores do mundo na conformação com a morte do Senhor a fim de que, numa reunião futura e eterna com Cristo, haja então uma nova celebração com o consumo outra vez do "fruto da vide", significando um momento de grande júbilo coletivo.


Evidente que esse ato de Jesus estava impregnado de fé, em que o Mestre apostava tudo contra as circunstâncias, não sendo a morte que aguardava experimentar em questão de horas um impedimento para a futura e eterna reunião com os discípulos no Reino do Pai. Aliás, ele encarava aquele momento como a passagem (Páscoa) que a humanidade precisaria trilhar para uma transformação coletiva, de modo que o seu corpo e o seu sangue estavam também representando os corpos e os sangues dos seguidores de Cristo.


Ora, enfrentamos hoje uma pandemia que já matou mais de 322 mil brasileiros, conforme os números divulgados recentemente. Porém, as atitudes de grande parte dos cristãos são de envergonhar. 


Triste saber que muitos crentes nestes dias estejam se aglomerando em templos e ignorando as orientações sanitárias. Estarão participando de uma ceia simbólica, sem o verdadeiro discernimento, comendo e bebendo para a própria destruição, como o apóstolo Paulo já havia advertido há quase 2.000 anos aos coríntios em sua primeira epístola a eles:


"Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior. Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na igreja, há entre vós dissensões; e em parte o creio. E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós. De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor. Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo. Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem." (1 Coríntios 11:17-30)


Pior ainda é quando vejo pastores demonizando a vacina! Pois usam a poderosa influência que têm a fim de conduzir pessoas para a morte, contrariando o ensino extraído do sacrifício de Jesus, o qual é representado como fonte de vida eterna.


Nessa Páscoa que celebramos num dos piores dias da pandemia no Brasil, não só podemos como devemos permanecer em nossas casas. Até porque não há necessidade de irmãos na fé estarem sempre todos juntos já que o próprio Jesus falou que onde estivessem dois ou três reunidos em seu nome, estaria no meio deles (Mt 18:20). E essa presença também não depende de um mesmo ambiente físico! Ainda mais quando se tem hoje em dia as tecnologias da comunicação, a exemplo das videoconferências, de modo que estar atento às interações é o que realmente deve importar.


Para finalizar, concluo que, nessa Páscoa, as pessoas pelas quais mais devemos orar e interceder seriam os fanáticos religiosos, pois não sabem o que fazem, visto que se tornaram grandes propagadores do coronavírus, precisando conhecer urgentemente qual a essência do Evangelho Cristo.


OBS: Foto  dos azulejos na igreja de São Mamede de Este, em Braga, Portugal, conforme extraído de https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%9Altima_Ceia#/media/Ficheiro:Azulejos_Sao_Mamede.JPG

terça-feira, 30 de março de 2021

A nossa Páscoa na pandemia



Judeus e cristãos comemoram a Páscoa cada um a seu modo, sendo essa uma antiga festa que relembra a vitoriosa saída dos israelitas escravizados no Egito rumo à Terra Prometida, sob a liderança de Moisés.


Entre os cristãos, a Páscoa ganhou novo significado com a ressurreição de Jesus, mas que se reporta à sua dolorosa morte na cruz. Daí surgiu a tradição de celebrar a chamada "Semana Santa", a qual inicia com a triunfal chegada do Mestre a Jerusalém, no Domingo de Ramos.


Em ambos os episódios, tem-se em comum a celebração de uma passagem, como nos ensina a própria etimologia do termo hebraico pessach (Páscoa). Pois, tanto na formação de um povo livre e soberano, chamado para ser "santo" (separado) entre as nações, quanto na vitória do Filho do Homem sobre os grilhões da morte, recebemos uma mensagem que se traduz em superação e em mudança de estado ou condição.


Acredito que sempre estamos de passagem e cabe ao ser humano tentar compreender qual o seu caminho a percorrer tanto no plano individual quanto no coletivo. Afinal, não queremos levar uma vida vazia, sem propósito e errante que, no fim das contas, acaba é produzindo separações/segregações ao invés de construções.


Nesta terceira década do século XXI, convivendo há mais de um ano com a pandemia, a humanidade foi confrontada com um grande desafio que nos impõe mudança de hábitos, mais compreensão, maior respeito pelo próximo e o enfrentamento de um inimigo invisível a olho nu, mas que causa verdadeiras tragédias.


Certamente que, em nossa primeira Páscoa durante a pandemia, não tínhamos ainda a consciência de quão grave esse problema seria para o mundo inteiro. Havia muitos negacionistas da doença e os ignorantes sentiam-se mais á vontade para discursar contra as medidas de afastamento social de prevenção à COVID-19. Sem falar nos áudios, memes e demais brincadeiras que circulavam pelas redes sociais de mensagens instantâneas.


Entretanto, o problema global tem mostrado a sua complexidade com sucessivas "ondas" de infecção do coronavírus e o surgimento das perigosas variantes do vírus. Apesar da chegada das vacinas, não há uma imunização totalmente eficaz. E hoje vivemos no nosso período mais mortal desde o início da pandemia, com recordes sucessivos do número de mortes e de casos de COVID-19, de modo que assumimos em março a liderança global do ranking de países com mais óbitos diários.


Por coincidência, a pandemia fez com que tivéssemos neste ano um longo período de descanso entre março e abril, apesar de nem todos estarem conseguindo paralisar suas atividades para desfrutar o momento. Pelo menos aqui, no Estado do Rio de Janeiro, os deputados aprovaram a criação de feriados circunstanciais, através da Lei n.º 9.224/2021, de maneira que, em tese, todos poderíamos celebrar por completo a Semana Santa, embora dentro das regras de afastamento social estabelecidas.



Mais do que nunca é preciso fazer a nossa passagem da morte para a vida e isso vai exigir de todos um certo grau de esforço e de atenção à ciência, incluindo uma postura de mais respeito às normas sanitárias. Pois adotar essa atitude saudável em toda a sua amplitude é a Páscoa que temos para viver em 2021!


Que nada será como antes, tenho total certeza disso, porém não duvido que a humanidade sairá machucada desse "deserto", com tantas perdas de parentes e amigos que têm nos deixado. Contudo, precisamos enfrentar a pandemia até que os sobreviventes celebrem a vitórias sabe-se lá quando.


Feliz Páscoa a todos!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A vergonha de Cristo pela Igreja

Alguma vez em sua vida você carregou uma má fama por algo que não cometeu? Como se sentiu?

É muito ruim ser injustiçado dessa maneira. Fico imaginando a situação de muitos pais cujos filhos escolheram o caminho errado em que, ao invés da sociedade compreender melhor a dor daquela família, ainda penaliza moralmente os genitores de um jovem viciado. Penso também no cônjuge que é frequentemente envergonhado por atitudes escandalosas de seu marido ou esposa como se ele fosse cúmplice de obras más.

São situações bem difíceis de suportar ainda mais porque muitas pessoas no meio social preferem afundar o outro ao invés de darem a mão. Se o ente querido foi visto num bar enchendo a cara de cachaça, a língua maligna da sociedade ainda diz que tal homem ou mulher rouba, prostitui-se, provoca confusões, usa outros tipos de drogas, é preguiçoso, faz dívidas e não paga, tem caráter ruim, etc.

Nestas horas, lembro-me de Jesus e do castigo infame que este Justo suportou pelas nossas transgressões sendo punido como um malfeitor.

Jesus não cometeu nenhum pecado que justificasse a sua prisão, condenação, açoites ou morte de cruz. Se o seu julgamento foi antecedido pelo episódio da expulsão dos vendilhões do Templo (Mc 11.15-19), este tratou-se de um ato de justiça, consubstanciado em ira santa, e que se reporta aos protestos dos antigos profetas de Israel (Jr 7.1-15; 2Cr 24.20-21). Pois nenhum crime pôde ser imputado a sua pessoa. Jesus apenas fez o bem!

Foi pelo pecado de sua nação e de toda a humanidade representada na injusta sentença de Pilatos que Jesus sofreu um dos mais vergonhosos castigos. Ali, no Gólgota, nosso Senhor amargou a dor do abandono, do escárnio, de estar sendo apenado pelo próprio Deus e foi tratado como um pecador. Foi como se um pai íntegro de um filho problemático levasse um cuspe ou uma bofetada na cara por resolver amar até o fim a sua semente.

Recentemente, um homem honesto começou a ser mal falado por seus parentes e pessoas próximas porque decidiu continuar amando sua esposa apesar da conduta escandalosa dela. Andando bêbada pelas ruas, a mulher chegava tarde em casa, adotou uma conduta ridícula e contou para terceiros coisas da intimidade do casal.

Pois bem. Na cabeça da sociedade estava configurada uma possível situação de infidelidade matrimonial. Já o marido, não se convencendo cabalmente disto, optou por perdoar mantendo o seu casamento, mas passou a ser visto até como alguém que estivesse se aproveitando de uma situação para participar de supostas imoralidades sexuais junto com a sua companheira. Diante de mentes bem maliciosas e julgadoras, a sua reputação foi a zero, tornando desacreditado o ministério por ele desenvolvido.

Acontece que Jesus sofreu muito mais do que isso! Em seu tempo, o fato de alguém sofrer uma morte vergonhosa como a sua seria sinal de punição divina. Na mentalidade de sua geração, não muito diferente da visão dos amigos de Jó, o infortúnio era interpretado como sinal de um castigo dos céus contra o pecador. Logo, se o nosso Senhor foi condenado aos trinta e nove açoites e à crucificação seria porque, no entendimento da maioria, ele estaria recebendo a recompensa por erros praticados.

Incrível como que, na cruz, Jesus ficou despojado de tudo o que tinha. Os soldados romanos deixaram-no completamente nu (aquele paninho nos quadros e imagens sacras que os artistas põem sobre o local da genitália não condiz com a realidade), porém a sociedade despiu-o da honra. A sua miséria foi tanta naquela hora que até o valor de seu nome ficou esvaziado diante dos homens. Aliás, diga-se de passagem que, muitas das vezes, o único bem que resta ao pobre é o nome. Só que até isto foi tirado de Jesus durante o seu martírio.

“Depois de o crucificarem, repartiram entre si as suas vestes, tirando a sorte. E, assentados ali, o guardavam. Por cima de sua cabeça puseram escrita a sua acusação: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS. E foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita, outro à sua esquerda. Os que iam passando blasfemavam dele, meneando a cabeça e dizendo: Ó tu que destróis o santuário e em três dias o reedificas! Salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz! De igual modo, os principais sacerdotes, com os escribas e anciãos, escarnecendo, diziam: Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se. É rei de Israel! Desça da cruz, e creremos nele. Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus. E os mesmos impropérios lhe diziam também os ladrões que haviam sido crucificados com ele.” (Mt 27.33-44; ARA)

Todavia, Deus conhece os corações e sabe dos nossos mais profundos motivos quando fazemos escolhas. O mundo inteiro pode achar que estamos vivendo de maneira errada, mas o nosso Pai Celestial, que nos vê em segredo, pode realmente julgar se estamos sendo sinceros ou não. Aos olhos do Onisciente, o seu justo é visto como de fato é, de modo que mais importa receber o louvor de Deus do que a bajulação hipócrita dos homens.

Assim Deus ressuscitou a Jesus com o seu poder e lhe deu um nome acima de todos os outros. Assentado à direita do Onipotente, foi-lhe dado o senhorio e o messiado sobre toda a Terra para que diante dele se dobre todo joelho. No tempo certo, as nações estarão submetidas ao governo de Cristo e caberá à Igreja tomar a frente de todo esse processo. Será a tão aguardada manifestação dos filhos de Deus como nos ensina o apóstolo Paulo:

“Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados. Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus.” (Rm 8.17-19)

É certo que, em seus terríveis erros, até hoje a Igreja ainda continua envergonhando Jesus e seu santo nome. Por nossa causa, o Justo é blasfemado entre os que não obedecem à Palavra. Quando agimos mal, os inimigos da fé logo acusam a Igreja semelhantes o que fazem certas pessoas da sociedade com os pais, cônjuges e amigos de pessoas problemáticas:

“Vocês estão vendo esse casal de pastores ladrões detidos no aeroporto?! E o padre pedófilo que abusou do garoto?! Que coisa feia o comportamento daquela crente fofoqueira! Esse pessoal de igreja promete as coisas e não cumpre! Fulaninho se converteu e piorou mais ainda! Se seguir a Jesus fosse coisa boa, não haveria tantos escândalos no cristianismo...”

Ainda assim, Jesus não desistiu de sua Igreja! Nós podemos ser infiéis e reincidentes pecadores. Ele, no entanto, em seu terno amor, continua apostando na causa do Evangelho e na ideia de que gente falha, limitada e complicada, como é o nosso caso, algum dia ainda será capaz de dar muito fruto e de reinar com ele. Tanto é que os doze discípulos do Senhor eram homens comuns e até problemáticos nos relacionamentos dentro do grupo.

Mas glória ao Eterno porque fomos comprados por um alto preço. Trata-se de preço de sangue! Portanto, vamos honrar o nome de Jesus! Vamos buscar retribuir esse imenso amor demonstrado na cruz para que outras vidas também sejam incluídas no Reino de Deus e cada homem ou mulher neste mundo compreenda o seu verdadeiro papel diante da vida.

Que a graça do Senhor Jesus Cristo seja com todos!


OBS: A ilustração acima trata-se do quadro Cristo crucificado (1631) do pintor espanhol Diego Rodrigues da Silva y Velázquez (1599-1660), considerado o principal artista da corte de D. Filipe IV de Espanha.