Há períodos na história em que a humanidade parece avançar, sonâmbula, para a beira de um precipício. Poucos momentos foram tão perigosos quanto os anos de 1950, quando a Guerra da Coreia transformou-se na primeira crise da Guerra Fria capaz de acionar, de fato, o gatilho nuclear. Foi um tempo em que Washington e Moscou se observavam através da fumaça das batalhas, e em que cada decisão presidencial — tanto no Salão Oval quanto no Kremlin — podia determinar o destino do século.
A Guerra da Coreia foi o estopim. Em um intervalo de meses, o conflito deixou de ser uma disputa regional para se tornar o primeiro tabuleiro global da era atômica. Os Estados Unidos, recém-saídos de Hiroshima e Nagasaki, ainda eram a única potência a ter usado armas nucleares. Porém, já não eram a única a possuí-las. A União Soviética detonara sua primeira bomba em 1949, alterando para sempre o equilíbrio das forças mundiais.
É nesse contexto — carregado de medo, cálculo e desconfiança — que o presidente Harry Truman, há exatos 75 anos, em 30 de novembro de 1950, pronunciou aquelas palavras enigmáticas diante de uma entrevista: “Todas as armas que temos estão sendo consideradas.”
Para muitos, isso soou como o anúncio de uma nova Hiroshima, agora sobre o solo coreano. A frase ecoou pelo planeta com a força de um trovão. Pela primeira vez, a humanidade entendeu que o pós-guerra não significara paz, mas apenas uma trégua tensa entre potências que agora tinham a capacidade de destruir a civilização.
No entanto, o que se seguiu foi o triunfo silencioso da prudência. Truman recuou. A diplomacia se impôs sobre a tentação militar. A percepção de que Moscou também tinha a bomba — e que qualquer ataque poderia desencadear uma espiral irreversível — conteve Washington no último instante. Pela primeira vez na história, a humanidade experimentou o paradoxo nuclear: a arma apocalíptica se tornava, ao mesmo tempo, um instrumento de poder e um freio moral quase absoluto.
Esse episódio retorna ao debate público hoje impulsionado por uma obra cinematográfica recente, premiada e debatida em todo o mundo, que revisita a mente inquieta do cientista que liderou o desenvolvimento da bomba. O filme devolveu ao público contemporâneo a angústia original dos laboratórios, o peso ético que esmagou seus criadores e a sensação de que, ao romper a estrutura do átomo, também se havia rompido um limite civilizatório.
Ao revisitar o cientista, a obra nos lembra de algo essencial: os homens que criaram a bomba atômica sabiam que estavam abrindo portas que talvez jamais conseguissem fechar. Viram, ainda nos anos 1940, aquilo que os governantes só conheceriam na década seguinte: o risco existencial, a fragilidade humana diante da própria engenhosidade tecnológica.
Setenta e cinco anos depois, quando tensões geopolíticas voltam a crescer em múltiplas regiões do planeta, revisitar a Guerra da Coreia é lembrar que a diplomacia já salvou o mundo antes. E pode ter de fazê-lo novamente.
É recordar que líderes, pressionados por militares ansiosos e conselheiros temerosos, já estiveram a segundos de uma decisão irreversível — e recuaram.
E é lembrar também que, por trás de todo grande risco nuclear, há sempre uma escolha humana. Uma escolha que separa o cálculo da imprudência, a sobrevivência da catástrofe.
Hoje, em tempos de discursos inflamados, nacionalismos agressivos e potências que exibem arsenais cada vez mais sofisticados, a lição permanece intacta: o mundo já esteve à beira do abismo! E só não caiu porque, naquele momento crítico, a diplomacia falou mais alto do que a força.
É essa memória — dura, incômoda, necessária — que a arte, a história e o jornalismo precisam continuamente reacender. Para que jamais esqueçamos o preço do silêncio, do descontrole e da soberba atômica. Para que jamais deixemos que o século XXI repita os erros do século passado. A bomba existe. No entanto, a humanidade também existe e ainda é ela quem decide.



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