Quando a expedição de Gaspar de Lemos chegou à Costa Verde, em janeiro de 1502, os portugueses certamente encontraram uma região rica em biodiversidade: restingas arenosas litorâneas, manguezais, Mata Atlântica em transição para encostas, árvores frutíferas e uma fauna abundante. Esse ecossistema estruturava o clima local, regulava rios e protegida as comunidades naturais.
Recuperar a identidade ambiental da região hoje, mesmo nas áreas urbanas, como quintais, jardins, praças, escolas e demais logradouros seria uma oportunidade de unir história, saúde pública e urbanismo sustentável.
Paisagismo urbano: direito e obrigação legal
A Constituição Federal, no artigo 225, garante a todos o direito a um meio ambiente equilibrado, impondo ao poder público e à sociedade o dever de preservação e recuperação ambiental. Municípios litorâneos, portanto, têm a obrigação de criar políticas urbanas que conciliem segurança, mobilidade, saúde e biodiversidade.
O paisagismo nativo é uma ferramenta concreta para isso: restaura o patrimônio vegetal, protege os moradores e fortalece a resiliência da cidade frente a ventos fortes e mudanças climáticas.
Espécies nativas: segurança, beleza e saúde
Para Mangaratiba, é essencial priorizar árvores e arbustos de porte pequeno a médio, com raízes não invasivas, copas compactas e resistentes a ventos e maresia. Algumas espécies-chave incluem:
Restinga litorânea
- Pitanga (Eugenia uniflora, 3–7m) – atrativa à fauna e repelente natural do mosquito da dengue.
- Aroeira-vermelha (Schinus terebinthifolius, 10m) – resistente à maresia.
- Goiabeira-serrana (Psidium myrtoides, 4–6m) – adequada para áreas próximas à fiação.
- Sapucaia-anã (Lecythis pisonis) – porte compacto, florescimento ornamental.
Transição encosta – Serra do Mar
- Tapirira guianensis (10–15m) – resistente a ventos fortes.
- Posoqueria latifolia (8–12m) – atrativa a aves e insetos benéficos.
- Garcinia brasiliensis (10–15m) – tolerante a solos costeiros.
- Guarea macrophylla (10–12m) – ideal para segurança e biodiversidade.
Uso sanitário e preventivo
- Pitanga, Aroeira-vermelha, Mulungu (Erythrina verna) e Pata-de-vaca (Bauhinia spp.) ajudam a repelir o mosquito da dengue, funcionando como barreiras naturais em quintais, ruas e praças.
Segurança e mobilidade urbana
O paisagismo deve considerar:
- Proteção da fiação elétrica: copas e galhos que não atinjam redes;
- Mobilidade nas calçadas: árvores com raízes não invasivas;
- Redução de riscos de quedas: espécies resistentes e podas preventivas;
- Resiliência urbana: árvores tolerantes a ventos fortes e solos arenosos que evitem danos as construções existentes.
Engajamento social e educação ambiental
Um paisagismo eficiente envolve toda a comunidade:
- Praças e áreas públicas como laboratórios vivos de demonstração;
- Escolas integradas em projetos educativos;
- Associações da sociedade civil e moradores envolvidos no plantio e manutenção;
- Parcerias com hortos privados para fornecimento de mudas certificadas e apoio técnico;
- Quintais residenciais beneficiados com distribuição de mudas e workshops de cuidados com a flora nativa.
Benefícios para a cidade
- Mais verde, sombra e frescor;
- Redução de ilhas de calor urbano;
- Combate natural ao Aedes aegypti;
- Engajamento comunitário e educação ambiental;
- Preservação da biodiversidade e da memória histórica da região;
- Cidades mais seguras, belas e resilientes.
Conclusão
Recuperar, ainda que em parte, a paisagem da Costa Verde de 1502 não é apenas um gesto simbólico: é planejamento urbano inteligente. Mangaratiba e outros municípios litorâneos podem se tornar referência em arborização nativa, integrando legislação ambiental, saúde pública, segurança urbana e educação. Cada árvore nativa plantada é um passo em direção a cidades mais sustentáveis, seguras e conectadas com sua história.



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