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sábado, 29 de novembro de 2025

🌌 A LUZ QUE VOLTA

 


I – O CÉU QUE DESCE EM SILÊNCIO

A noite estava límpida, fria e tão rara que a família de Léron subira inteira ao terraço. O pai, Reitor da Universidade Central de Iridia, ajustou o telescópio enquanto o menino Kelm o rodeava com curiosidade inquieta.

Pai, por que a Lua parece mais pequena hoje? — perguntou o garoto, apertando os olhos contra o fundo negro pontilhado de estrelas.

Léron sorriu.
Porque ela está um pouco mais distante do que esteve para seus bisavós… e muito mais do que há muitos, muitos ciclos antes deles.
Ele ajustou o foco. — Veja: está agora a quase quatrocentos e trinta e oito mil quilômetros. Ela se afasta um pouco mais todos os anos.

Kelm inclinou a cabeça.
Ela vai embora de nós?

Devagar demais para temer. Em um milhão de anos, essa diferença é pouca. Mas o céu muda, filho. Sempre muda.

Ao redor, constelações deformadas pelo tempo brilhavam com geometrias novas — um Órion esticado, o Cruzeiro repartido, a Ursa transfigurada. Era o mesmo céu que seus ancestrais teriam visto? Quase. Mas há muito as estrelas tinham caminhado, dispersas por suas órbitas ao redor da galáxia, redesenhando figuras que seus antepassados não reconheceriam.

O vento soprou gelado. Desde que o ciclo climático havia entrado na longa fase interglacial tardia, a oscilação de temperaturas era mais estável, embora lenta. Os grandes desertos haviam migrado, as calotas polares encolhido e voltado a crescer. A Terra parecia ter encontrado um equilíbrio frágil, um respiro antes de mergulhar em um futuro novo — talvez uma glaciação mais severa que as anteriores, talvez um aquecimento irreversível. Ninguém sabia ao certo.

Mas naquela noite, tudo era apenas beleza.

Mirena, a mãe, aproximou-se, enrolando a manta nos ombros.
Venham. Está ficando frio. Amanhã será um dia longo.

Léron deu um beijo em Kelm na testa.
Vá descansar. Amanhã, na universidade, algo importante será anunciado. Talvez… algo que mude tudo o que achamos que sabemos.

Kelm franziu as sobrancelhas.
Sobre nós? Sobre quem fomos?

O reitor respirou fundo.
Talvez, meu filho. Talvez seja isso.


II – ECOS ENTERRADOS

Na manhã seguinte, a Universidade fervilhava. Léron atravessou corredores repletos de telas holográficas, onde estudantes debatiam as últimas pesquisas em geoarqueologia profunda.

O coordenador do Instituto de Origem Humana, Draev, correu ao seu encontro.

Reitor! As equipes retornaram do Vale Sul. Encontraram algo… diferente.

Restos de construções? — Léron indagou, tentando conter a expectativa.

Sim, mas não como antes. Não monólitos dispersos ou fragmentos de ferramentas primitivas. Encontraram formas… estruturais. Simétricas. Geométricas. Como se fossem parte de edificações imensas.

Léron sentiu a espinha gelar.

Edificações? Em escala urbana?

Se o que vimos for real, sim. E há mais:
Draev abriu um pequeno estojo metálico. Dentro dele havia algo que parecia um cristal fosco, mas com circuitos microscópicos no interior.

Encontrado em camadas profundas. Essa peça… não se parece com nada que produzimos hoje. Nada.

Léron fitou o objeto.
Alguma civilização desenvolvida teria existido antes de nós?

Não há registros. Nossas tradições falam apenas dos “Antepassados Nublados”, sobreviventes da grande catástrofe bioclimática, aqueles que recomeçaram tudo há centenas de milhares de anos.

Justamente. — Léron murmurou. — Mas nunca se supôs que tivessem tecnologia além de ferramentas simples.

Pois talvez estejamos muito enganados.


III – CHAMA ANTIGA

Naquela noite, durante o jantar, Léron contou à família parte do que havia visto.

Kelm largou a colher, fascinado.
Então existiram humanos antes de nós? Humanos que sabiam construir coisas grandes?

Mirena recostou-se.
Existiram várias eras antes da nossa. Mas todas parecem recomeços. Tudo o que sabemos é que o planeta passou por eventos extremos. Mudanças climáticas violentas. Períodos de frio e calor intensos. Extinções.

Mas se havia cidades, — insistiu Kelm — por que nada sobrou?

Léron pensou por um tempo.
O tempo é implacável. Terra, vento, gelo, mares, placas tectônicas… Depois de dezenas de milhares de anos, quase tudo vira pó. E em um milhão de anos… quase nada permanece.

Mas por que perderam tudo? — o menino sussurrou.

É isso que tentamos descobrir.


IV – AS VOZES DO PASSADO

Dois dias depois, os pesquisadores conseguiram ativar o objeto encontrado. Não era apenas uma peça: era um núcleo de dados.

E, surpreendentemente, continha um sistema de IA ainda funcional, embora fragmentado.

Os cientistas o utilizaram em modo seguro. A primeira frase que o núcleo pronunciou ecoou na sala branca:

“Registro do Último Século da Civilização Industrial — Ano 3081 do antigo calendário.”

Os pesquisadores prenderam a respiração.

A IA prosseguiu:

“Este arquivo foi criado para que, se a humanidade sucumbir, alguém um dia saiba quem fomos. Somos os descendentes de Homo sapiens, espécie que atingiu o auge tecnológico no terceiro milênio.”

Léron tocou a mesa, atônito.

“Fomos uma civilização interconectada, global, capaz de alcançar a órbita, projetar colônias lunares e sondas interestelares. Mas consumimos nossos recursos energéticos fósseis, alteramos o clima de modo irreversível e perdemos o equilíbrio com o planeta que nos sustentava.”

A sala ficou silenciosa.

“O colapso não foi súbito. Foi uma sequência de crises — ecológicas, econômicas, geológicas, bélicas. A humanidade quase se extinguiu, mas um pequeno remanescente sobreviveu graças a abrigos subterrâneos e zonas climáticas favoráveis.”

Um arqueólogo murmurou:
Meu Deus… estavam falando de nós.

“Se vocês ouvem isto, são nossos descendentes. Talvez tenham renascido de nossas cinzas no longo futuro da Terra.”

A IA então exibiu imagens fragmentadas de cidades elevadas, pontes colossais, máquinas voadoras, satélites, centros urbanos brilhantes… tudo perdido.

Kelm, que assistira à gravação permitido por Léron, segurou o braço do pai.

Então… fomos nós?

Somos restos deles, meu filho. Recomeços deles. Um novo ciclo.


V – O FINAL QUE REACENDE

Após meses de estudos, a equipe concluiu:
toda a história que acreditavam conhecer era apenas a história desde o recomeço — não a história verdadeira.

Um milhão de anos antes, havia existido outra humanidade completa, avançada, global.
E eles eram apenas seus descendentes tardios, renascidos após um colapso que apagou quase tudo.

Mas algo ainda faltava.

No núcleo da IA havia uma última mensagem criptografada. Após longo trabalho, foi finalmente aberta.

O texto dizia:

“Àqueles que nos sucederem: deixamos uma última dádiva. Nem tudo se perdeu.
Procurai no céu. Procurai no lado oculto da Lua.
Lá deixamos aquilo que preserva quem fomos.”

A equipe inteira trocou olhares.

Léron sentiu o coração acelerar.

Kelm, de olhos arregalados, disse apenas:

Pai… o lado oculto está ainda mais distante agora. Mas podemos chegar lá, não podemos?

Léron sorriu devagar.

Podemos. E talvez… devamos.

Nas telas da universidade, a Lua surgia ampliada pelo telescópio orbital: mais pálida, mais distante, silenciosa.

E lá, escondido por um milhão de anos, algo esperava.

Algo deixado por nós mesmos — por uma humanidade antiga que acreditava que um dia renasceríamos.

Fim.
Ou… começo.

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