I – O CÉU QUE DESCE EM SILÊNCIO
A noite estava límpida, fria e tão rara que a família de Léron subira inteira ao terraço. O pai, Reitor da Universidade Central de Iridia, ajustou o telescópio enquanto o menino Kelm o rodeava com curiosidade inquieta.
— Pai, por que a Lua parece mais pequena hoje? — perguntou o garoto, apertando os olhos contra o fundo negro pontilhado de estrelas.
— Devagar demais para temer. Em um milhão de anos, essa diferença é pouca. Mas o céu muda, filho. Sempre muda.
Ao redor, constelações deformadas pelo tempo brilhavam com geometrias novas — um Órion esticado, o Cruzeiro repartido, a Ursa transfigurada. Era o mesmo céu que seus ancestrais teriam visto? Quase. Mas há muito as estrelas tinham caminhado, dispersas por suas órbitas ao redor da galáxia, redesenhando figuras que seus antepassados não reconheceriam.
O vento soprou gelado. Desde que o ciclo climático havia entrado na longa fase interglacial tardia, a oscilação de temperaturas era mais estável, embora lenta. Os grandes desertos haviam migrado, as calotas polares encolhido e voltado a crescer. A Terra parecia ter encontrado um equilíbrio frágil, um respiro antes de mergulhar em um futuro novo — talvez uma glaciação mais severa que as anteriores, talvez um aquecimento irreversível. Ninguém sabia ao certo.
Mas naquela noite, tudo era apenas beleza.
II – ECOS ENTERRADOS
Na manhã seguinte, a Universidade fervilhava. Léron atravessou corredores repletos de telas holográficas, onde estudantes debatiam as últimas pesquisas em geoarqueologia profunda.
O coordenador do Instituto de Origem Humana, Draev, correu ao seu encontro.
— Reitor! As equipes retornaram do Vale Sul. Encontraram algo… diferente.
— Restos de construções? — Léron indagou, tentando conter a expectativa.
— Sim, mas não como antes. Não monólitos dispersos ou fragmentos de ferramentas primitivas. Encontraram formas… estruturais. Simétricas. Geométricas. Como se fossem parte de edificações imensas.
Léron sentiu a espinha gelar.
— Edificações? Em escala urbana?
— Encontrado em camadas profundas. Essa peça… não se parece com nada que produzimos hoje. Nada.
— Não há registros. Nossas tradições falam apenas dos “Antepassados Nublados”, sobreviventes da grande catástrofe bioclimática, aqueles que recomeçaram tudo há centenas de milhares de anos.
— Justamente. — Léron murmurou. — Mas nunca se supôs que tivessem tecnologia além de ferramentas simples.
— Pois talvez estejamos muito enganados.
III – CHAMA ANTIGA
Naquela noite, durante o jantar, Léron contou à família parte do que havia visto.
— Mas se havia cidades, — insistiu Kelm — por que nada sobrou?
— Mas por que perderam tudo? — o menino sussurrou.
— É isso que tentamos descobrir.
IV – AS VOZES DO PASSADO
Dois dias depois, os pesquisadores conseguiram ativar o objeto encontrado. Não era apenas uma peça: era um núcleo de dados.
E, surpreendentemente, continha um sistema de IA ainda funcional, embora fragmentado.
Os cientistas o utilizaram em modo seguro. A primeira frase que o núcleo pronunciou ecoou na sala branca:
“Registro do Último Século da Civilização Industrial — Ano 3081 do antigo calendário.”
Os pesquisadores prenderam a respiração.
A IA prosseguiu:
“Este arquivo foi criado para que, se a humanidade sucumbir, alguém um dia saiba quem fomos. Somos os descendentes de Homo sapiens, espécie que atingiu o auge tecnológico no terceiro milênio.”
Léron tocou a mesa, atônito.
“Fomos uma civilização interconectada, global, capaz de alcançar a órbita, projetar colônias lunares e sondas interestelares. Mas consumimos nossos recursos energéticos fósseis, alteramos o clima de modo irreversível e perdemos o equilíbrio com o planeta que nos sustentava.”
A sala ficou silenciosa.
“O colapso não foi súbito. Foi uma sequência de crises — ecológicas, econômicas, geológicas, bélicas. A humanidade quase se extinguiu, mas um pequeno remanescente sobreviveu graças a abrigos subterrâneos e zonas climáticas favoráveis.”
“Se vocês ouvem isto, são nossos descendentes. Talvez tenham renascido de nossas cinzas no longo futuro da Terra.”
A IA então exibiu imagens fragmentadas de cidades elevadas, pontes colossais, máquinas voadoras, satélites, centros urbanos brilhantes… tudo perdido.
Kelm, que assistira à gravação permitido por Léron, segurou o braço do pai.
— Então… fomos nós?
— Somos restos deles, meu filho. Recomeços deles. Um novo ciclo.
V – O FINAL QUE REACENDE
Mas algo ainda faltava.
No núcleo da IA havia uma última mensagem criptografada. Após longo trabalho, foi finalmente aberta.
O texto dizia:
A equipe inteira trocou olhares.
Léron sentiu o coração acelerar.
Kelm, de olhos arregalados, disse apenas:
— Pai… o lado oculto está ainda mais distante agora. Mas podemos chegar lá, não podemos?
Léron sorriu devagar.
— Podemos. E talvez… devamos.
Nas telas da universidade, a Lua surgia ampliada pelo telescópio orbital: mais pálida, mais distante, silenciosa.
E lá, escondido por um milhão de anos, algo esperava.
Algo deixado por nós mesmos — por uma humanidade antiga que acreditava que um dia renasceríamos.



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