Páginas

Mostrando postagens com marcador graça. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador graça. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A luta contra a grave doença do alcoolismo


“E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (Efésios 5.18; ARA)

Ando perplexo com o aumento do alcoolismo na sociedade brasileira, um vício considerado lícito e que tem crescido em todos os meios, causando graves problemas no trânsito, nos relacionamentos conjugais, no trabalho, nos estudos, além de ser uma porta de entrada para outras drogas piores. Jovens estão bebendo cada vez mais cedo e até as mulheres, com um organismo menos tolerante à substância alcoólica, já estão superando os homens na dosagem consumida.

É muito triste tudo isso que está acontecendo no nosso país. Gente com incrível potencial de trabalho, podendo cuidar melhor do lar, ser útil ao próximo e buscar a Deus numa igreja, prefere procurar sua autodestruição. Para piorar, o comportamento do alcoólatra acaba afetando também toda a família que, na maioria das situações, adoece junto. Pois tanto os pais, o cônjuge, irmãos e filhos sofrem quando têm alguém nessa condição e precisam internar o sujeito numa clínica para dependentes químicos porque não puderam mais manter o ente querido dentro de casa. E há casos em que é preciso ingressar com uma ação judicial e requerer a curatela provisória porque a pessoa recusa o tratamento.

Verdade seja dita que os estabelecimentos ditos de “recuperação alcoólica” não fazem milagres. Muitos servem mais para embromar as famílias e embolsar verbas públicas. Porém, mesmo nos locais onde há uma estrutura adequada, com área de recreação, psicólogos, atividades ocupacionais, consultas médicas, apoio espiritual e um rígido controle sobre o que os visitantes levam para dentro da clínica, torna-se indispensável que o paciente decida assumir uma atitude positiva diante da vida, resolvendo realmente mudar de rumo.

Tal como se ensina no brilhante trabalho do AA, é vivendo um dia após o outro que vencemos as nossas próprias compulsões, sejam os vícios do álcool, das drogas ou de comportamento com a ajuda do Poder Superior. Não importa por quanto tempo estamos sóbrios, pois, como se diz, “vale é que hoje eu não vou beber. Não vou dar o primeiro gole!”

Recentemente soube do caso de um senhor de seus 60 anos que havia sido internado numa clínica do Rio por causa de cocaína. Ele tinha se drogado muito na juventude e parado por volta dos 30. Porém, na terceira idade, não sei por qual motivo, teve uma recaída. Fez isto justamente num momento em que pessoas de sua faixa etária precisam cuidar diariamente da saúde, mudar a dieta, praticar exercícios físicos regularmente, ir com freqüência ao médico e evitar aborrecimentos.

Não importa quantas recaídas alguém tenha ou qual seja a dor do tombo. Os erros podem ter suas graves conseqüências e muitas delas até irreversíveis como nos acidentes fatais de veículos ou quando o alcoólatra chega a matar o seu semelhante sem nem ao menos lembrar do que fez, mas que, ainda assim, sofre a pena de homicídio doloso. Entretanto, em todas as degradantes situações, a restauradora graça de Deus vai de encontro de quem está caído no mais profundo poço e abre oportunidades para um novo caminhar. Ainda que a sociedade não dê uma nova chance ao indivíduo ou que a família lhe vire as costas, o Pai Eterno ama seus filhos como eles são, desejando que a sua Luz brilhe em cada coração.

Mais do que nunca permanecem como atuais as citadas palavras do apóstolo Paulo escrita à igreja da antiga cidade de Éfeso. Pois é se enchendo do Espírito Santo, deixando motivar-se com ideais elevados, que a pessoa consegue vitória contra todas as embriagantes compulsões doentias. Então, abraçando novos propósitos de vida, as coisas do Reino de Deus começam a estar em primeiro lugar dentro de nós e o bem passa a ocupar o nosso ser.


OBS: A imagem acima foi extraída do site da Fiocruz numa matéria abordando o alcoolismo entre as mulheres em http://portal.fiocruz.br/pt-br/content/mulheres-e-alcoolismo-pesquisa-aborda-como-pensam-e-vivem-experi%C3%AAncia

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O Evangelho que sobreviveu às cortinas de ferro da URSS

É impossível não crer que Deus de alguma maneira age no curso da História!

Na Rússia, o povo viveu debaixo de um totalitarismo aniquilador por sete décadas do século XX. Após a revolução bolchevique de 1917, junto com a repressão política, vieram também as perseguições religiosas do regime soviético combatendo duramente as igrejas cristãs e tomando todas as medidas ao seu alcance para tirar a Bíblia de circulação. No lugar da fé esperançosa num Deus amoroso, o governo pregava o estéril ateísmo pois a religião era vista como uma “estrutura do capitalismo” pelos comunistas.

Entretanto, no século XIX, dois escritores russos parecem ter sido divinamente inspirados para anunciarem o Evangelho para as gerações seguintes através de suas letras. Eram eles Leon Tolstoi (1828-1910) e Fiodor Dostoievski (1821-1881). Ambos foram contemporâneos e escreveram seus brilhantes romances nas últimas décadas do czarismo, eternalizando-se na literatura universal.

Tolstoi foi sem dúvida um asceta. Um homem com seu interior perturbado e que tentou seguir o Sermão da Montanha (Mateus 5, 6 e 7) literalmente numa verdadeira ambição de santidade. Procurou, dentro de sua compreensão, atingir aquilo que acreditava ser o ideal ético cristão. Nesta busca, ele expôs em si mesmo (e nos seus escritos) o grande drama humano em praticar com retidão a lei divina. Mostrou para seus observadores o quanto somos pecadores, contraditórios, incapazes de alcançar a perfeição e carentes da graça.

Estudando um pouco da biografia de Tolstoi, descobrimos que ele ao menos buscou ser sincero em relação à crença que tinha. Tendo quase levado sua família à miséria ao libertar seus servos e tentar se desfazer de suas posses, eis que os últimos dias deste renomado escritor foi como um andarilho quando então morreu numa estação ferroviária rural. E, por várias vezes, ele desejou dar fim em sua vida, provavelmente em decorrência da angústia por não conseguir atingir os elevadíssimos ideais de Deus.

Praticamente o oposto de Tolstoi, viveu Dostoiévski num ambiente de carnalidade e de jogatina. Foi um homem que aproveitou a vida conforme os seus desejos e se apegou imensamente às letras e de uma maneira bem intensa em diversos momentos seus.

Ao invés de caminhar pelas vereadas do ascetismo, Dostoiévski seguiu uma visão mais liberal. Seus escritos revelaram um Deus bondoso e amoroso capaz de aceitar o ser humano com todas as suas terríveis falhas. É a graça divina se fazendo presente nas nossas fraquezas de uma maneira incondicional e acessível.

É possível que, por causa de sua a experiência de vida, Dostoiévski tenha conhecido a graça de uma maneira tão especial. Quando condenado à morte pelo czar, eis que, inesperadamente ele recebeu a notícia de ter recebido uma indulgência quando já estava diante do pelotão de fuzilamento. Aquele momento radical certamente que o marcou de maneira profunda, levando-o a perceber tempos depois a manifestação da misericórdia de Deus. Tendo sua pena convertida em anos de trabalho forçado na Sibéria e ganhado um exemplar do Novo Testamento de uma senhora, ele valorizou como nunca aquela sua segunda oportunidade de viver a ponto de ter escrito:

“Se alguém me provasse que Cristo estava fora da verdade (…) então eu preferiria permanecer com Cristo a aderir à verdade”.

Não é por menos que em seu livro Alma Sobrevivente, o escritor cristão norte-americano Philip Yancey chama Tolstoi e Dostoiévski de seus “mentores espirituais”. E, se pensarmos bem, ambos romancistas encarnam a mensagem de Paulo dada na epístola aos Romanos, o que os torna verdadeiros “profetas” para o povo russo (e para o resto da humanidade).

Com Tolstoi, aprendo que sou pecador e que minhas boas obras não passam de um "trapo de imundície", como bem disse o profeta Isaías. Compreendo o quanto sou reincidentemente falho, mesquinho, hipócrita, avarento e carnal. Mas com Dostoiévski conheço o Deus que me ama e que me aceita com todos os meus pecados. O Deus que me dá sempre uma segunda chance para aprender a viver com alegria e satisfação diante de sua Santa Face.

Enfim, por mais que os stalinistas tivessem tentado calar a voz divina tirando a Bíblia de circulação, a Palavra continuou viva e operante na Rússia pelos 70 anos de comunismo. E, mesmo que a História não tenha muitos registros a nos relatar, creio que pessoas vieram a conhecer o Evangelho de Cristo por meio das obras desses dois nobres escritores sobreviventes à censura do regime soviético e, com isto, se converteram.


OBS: As fotos acima foram extraídas da Wikipédia. A primeira (de Tolstoi), tirada em 1908, tem sua autoria atribuída a Sergey Mikhaylovich Prokudin-Gorsky (1863-1944). Já a segunda mostra Dostoiévski em 1863 sendo desconhecida a origem do material.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A reencarnação e a graça divina

Recordo-me que, nos meus tempos de adolescente, aprendi na igreja que a crença na reencarnação seria uma negação da cruz de Cristo e uma mentira diabólica para as pessoas irem para o "inferno". Ensinaram-me que pelo fato dos espíritas acreditarem ser preciso renascer outras vezes num corpo físico estariam eles rejeitando a salvação proposta por Deus através da graça. Esta, conforme me diziam, só seria alcançada mediante a aceitação do sacrifício substitutivo de Jesus acompanhada de um arrependimento sincero de pecados mais uma confissão pública de fé, a qual então se confirmaria pelo batismo nas águas e por atos condizentes com uma vida regenerada.

Com o passar do tempo, vim a compreender que tinha uma visão muito empobrecida da graça de Deus. Questões sobre como se "salvariam" aqueles aos quais jamais foi anunciado o Evangelho de Cristo (ou da Igreja) permaneciam em aberto. Também em relação aos israelitas que viveram antes de Jesus nascer pairava outra dúvida já que eles desconheciam o salvador e tinham uma concepção messiânica distinta do que consta na doutrina baseada no cânon oficial do Novo Testamento.

Ora, mas será que Deus seria capaz de mandar a alma de uma pessoa para o "inferno", destinando-a a sofrer eternamente, só porque ela não escutou o discurso salvífico de um crente ou deixou de compreender a mensagem que lhe foi pregada a ponto de ir à frente da congregação quando o pastor fez o apelo no fim do culto? Que divindade sádica e injusta seria esta inventada pelos cristãos fundamentalistas que condenaria a própria criação pra assar num lago de chamas?!

Felizmente a própria vida e a realidade complexa das coisas vieram a me ensinar sobre o quanto a graça divina é rica para com todos, indo muito além da nossa compreensão restrita. Pois tal graça opera independentemente da ação ministerial daqueles que se consideram portadores das boas notícias salvíficas e alcança a todos os seres na condição em que cada um se encontra. E aí pouco importam as nossas convicções pessoais sobre a Divindade ou qual o conjunto de crenças de cada indivíduo.

Neste sentido, hoje admito não só a salvação dos reencarnacionistas como também penso que eles estão debaixo da cobertura da graça de Deus. Nem mesmo aqueles que seguem a corrente científica da conscienciologia fundada pelo médico Waldo Vieira e que negam a religião, baseando-se em estudos sobre o parapsiquismo e aplicando às suas pesquisas aquilo que chamam de "princípio da descrença".

Admitindo como mera hipótese a reencarnação, apenas para fins de raciocínio e reflexões, pergunto se, neste caso, uma Inteligência Superior não estaria por trás de todo o sistema existencial crido pelos espíritas e outras inúmeras tradições religiosas do planeta? Pois, se as pessoas normalmente nascem, crescem, reproduzem, envelhecem, morrem e depois retornariam renascendo em outro corpo, quem estaria regendo todo este ciclo acima da vontade pessoal de cada um? Como conceber a existência de um sistema que seria anterior ao homem sem admitir a existência de Deus?

Outrossim, por mais que muitos tentem negar, eu vejo a operação da graça dentro da visão reencarnacionista e que jamais seria anulada pelo carma. Porque mesmo que a consciência desencarnada precise retornar à Terra para poder evoluir, tentar reparar o mal que fez ao outro na vida passada ou então simplesmente compreender mais um pouco sobre si mesma, estaria a graça ausente? E aí, se pensarmos bem, Deus, na visão de muitos espíritas, torna-se até mais gracioso do que nas palavras arrogantes de certos pastores evangélicos que tentam fazer do Evangelho uma coação baseando-se em partes da Bíblia para que seus ouvintes "aceitem Jesus":

"Céu ou inferno? Onde você vai querer passar o resto da eternidade?"

Todavia, tenho uma questão que vai contra o que a maioria dos evangélicos fala e também em relação ao que vários espíritas dizem de outra maneira. Entre estes, há quem afirme ser a Terra um lugar de sofrimentos, pelo que nós estaríamos aqui porque precisaríamos sofrer o carma de vidas passadas. E, por sua vez, tem predominado no meio evangélico a noção de que o mundo em breve vai acabar e só nos restaria esperar por uma nova Terra. Só que eu sou radicalmente contra estes pensamentos pois são concepções que não buscam considerar o lado bom da vida aqui no presente e projetam a felicidade humana para um momento futuro.

É nessas horas que o Evangelho do Reino de Deus cai como uma luva para as nossas necessidades verdadeiras afim de convocar a humanidade inteira para que transforme a triste realidade na qual ela se encontra hoje. O Evangelho que considera a graça nos seus múltiplos aspectos busca é dialogar com cada religião e cultura diferente afim de instigar uma transformação social unida à espiritualidade, confirmando aquela frase da criação que, com frequência, é repetida no capítulo um de Gênesis:

"Deus viu que isso era bom".

Para abraçar o Evangelho do Reino não é preciso tornar-se cristão e nem aceitar um conjunto de crenças religiosas. Até a Bíblia torna-se dispensável por mais que ela contenha valiosíssimos ensinamentos. Porque basta que o homem compreenda a importância de contribuir para a transformação do planeta e encontre dentro de si mesmo a paz, sabendo que é amado por Deus incondicionalmente, sem precisar dar nada em troca. Nem mesmo a sua fé Nele.

Concluindo, se existe reencarnação ou não, trata-se de um mistério que pouco deve nos importar. Por alguma razão maior a fisicalidade oculta do homem os caminhos pelos quais percorre a alma, ainda que alguns tenham suas experiências subjetivas do mundo espiritual por meio de fenômenos paranormais. Porém creio que basta a revelação da instrução divina para que a ponhamos em prática e assim estejamos bem aqui, sendo que é nesta vida que precisaremos tomar atitudes aprendendo a ser felizes em harmonia com o bem estar do próximo.

Que a graça de Deus seja com todos!


OBS: A ilustração usada neste artigo e que aparece em diversas páginas na internet eu a extraí do seguinte site http://www.espiritualismo.hostmach.com.br/reencarnar.htm

domingo, 16 de outubro de 2011

Um breve passeio no “Céu”


Um homem, ao infartar prematuramente aos 51 anos, foi encontrar-se com Deus. Depois de ter passado por um túnel de luz, situou-se numa estação de trem em que pessoas embarcavam e desembarcavam. Foi aí que ouviu uma voz por detrás dele dizendo:

- José, José!

Assustado, ele olhou para todas as direções procurando quem lhe chamara e respondeu:

- É comigo?

- Não. É com o José Sarney. Seja bem vindo à estação celestial!

- Quem é você? Onde estou? Por acaso morri, não? Considerando esta hipótese, isto significa que você seja Deus. E, sendo assim, eis-me aqui, Senhor.

- José, José! Você chegou rápido demais aqui e não aproveitou direito a vida que lhe concedi. O que aconteceu contigo, filho?

- Senhor, eu passei anos esperando por este momento sagrado. Ingressei num seminário católico, não aguentei aquela vida de padre, saí de lá, casei-me, tornei-me membro de uma igreja evangélica, passei a fazer orações todos os dias, li sempre a Bíblia, falei de Jesus pra milhares de pessoas incrédulas e agora, ao chegar no céu, o Senhor nem ao menos me recebe de braços abertos com a recompensa que tanto aguardava e ainda vem chamar-me a atenção.

- José, José! Deixa de infantilismo, cara! Não existe nenhuma recompensa póstuma. Comigo não tem barganhas! Eu te proporcionei uma vida potencialmente maravilhosa para você aprender a aproveitá-la, mas pelo que vejo acabou desperdiçando as oportunidades que teve.

- Mas o Senhor não acha que eu aproveitei? E as minhas orações, frequências assíduas aos cultos dominicais e incansáveis leituras devocionais da Bíblia? Nada disto tem valor para o Senhor?

- José, José! Você chama aquelas ladainhas de oração feita? Você apenas trocou as vãs repetições das missas católicas por palavras mecanicamente pronunciadas pelos invangélicos. Só agora está orando de verdade, mas isto todos aqui já fazem naturalmente sem precisar da fé.

- Puxa vida, Deus! Será que me enganei? Qual será a sua religião? Por acaso o Senhor é espírita?

- Eu sou o Espírito da Vida, mas espírita não.

- Já sei. O Senhor é o Deus de Israel?

- Sim. Os israelitas são meus filhos assim como os árabes e brasileiros.

- Então o Senhor é judeu?

- Claro que não! Pode um extraterrestre ser judeu, italiano, brasileiro ou alemão sem antes se naturalizar? Só é judeu quem nasceu de mãe judia e você como fez Teologia deveria lembrar-se disso.

- Por acaso o Senhor não é muçulmano, né? Pois, caso seja, já sei que tô ferrado porque os teus anjos vão querer me jogar na tal da Geena porque nunca acreditei no teu profeta Maomé. De qualquer modo, como sei que o Alá é "clemente e misericordioso"...

- José, José. Para com isto. E antes que você fique testando a minha paciência igual a Abraão quando intercedeu por Sodoma, vou logo ao assunto e adianto que não vou te jogar no inferno. Acrescento também que não sou budista, nem hindu, nem xintoísta, nem cristão, nem esotérico, nem agnóstico, nem umbandista, candomblecista, marxista ou agnóstico. Digamos que do meu ponto de vista exclusivo eu seja ateu porque não faz sentido eu adorar a mim mesmo.

- Caramba, Deus! Nunca imaginei que o Senhor fosse um cara tão simpático, acessível e bem humorado. Passei a minha vida toda em função de igrejas e nunca aprendi a dialogar contigo. Recitava os salmos constantemente e me faltava a mesma espontaneidade do rei Davi. Bem que eu precisava ter lido o livro A Cabana.

- E você também não aprendeu a viver, José? O que houve de errado contigo, filho?

- Eu até que tentei aproveitar a vida, Senhor. Recordo muito bem de quando fiz aquela viagem de retiro espiritual para Foz do Iguaçu aos meus 34 anos. Foi em fevereiro de 1994. O Senhor não me viu lá?

- Sim. E o que você achou das cataratas?

- Não me lembro.

- Na verdade você nem foi no parque nacional embora adorasse pregar na igreja sobre o Sermão da Montanha e ainda escreveu um artigo no seu blogue com o título “Olhai para os lírios do campo”...

- O Senhor tem razão. Minha esposa e meu filho foi que visitaram o local e tiraram até fotos de um bando de pássaros no lado argentino. Naquele dia eu achei que não deveria sair do hotel que a igreja alugou porque era dia de Carnaval. Fiquei pensando no que as pessoas pensariam de mim se me ausentasse das atividades do dia porque na certa algum irmãozinho iria fofocar que eu caí no samba e enchi a cara de cachaça.

- Quanto tempo desperdiçado, não José? Você se meteu num seminário, tomou a decisão certa em sair da gaiola e romper com aquele voto ridículo de castidade, casou-se com uma mulher bem virtuosa, mas depois nem satisfazia direito a pobre da dona Tereza.

- Senhor, não me julgue deste jeito pois eu até que cumpria direitinho com o meu dever conjugal. Pelo menos umas três vezes na semana eu comparecia.

- Você quer dizer que transava com ela! Eu estou perguntando como que você a completava satisfazendo-a nos outros momentos do dia? Além de abandoná-la na maior parte do tempo, você nem permitiu que o seu filho Rafael desfrutasse da companhia do pai.

- Eu reconheço que errei, Senhor. Mal chegava do escritório e me trancava logo no quarto para terminar de trabalhar. Então acessava a internet e ainda desperdiçava horas metido naquele joguinho chamado Citiville.

- Foi uma pena que você nunca tenha participado numa reunião de pais na escola do Rafael. Viveu sempre trocando uma compulsão pela outra e fugindo de si mesmo. Eu até tentava lhe dizer algo no silêncio do seu coração, mas você não queria me ouvir embora lesse todos os dias a Bíblia e orasse pedindo respostas. Quando se sentia incomodado ligava logo a TV.

- Sinceramente, não posso negar que vacilei, Deus. Será que vou poder re-encarnar e voltar através de algum neto? Minha nora pretende engravidar do meu filho no próximo mês e eu poderia aproveitar para pegar logo aquele trenzinho ali.

- José, José. A Terra já está ficando muito cheia. Se eu deixar todo mundo que está aqui nascer novamente o planeta ficará mais insustentável do que já está. Ainda mais nessas irresponsáveis sociedades de consumo como são o Brasil e os Estados Unidos. Além do mais, para nascer a pessoa precisa ganhar aquela corridinha que você vai assistir daqui a pouco. Geralmente, dentre os humanos, é só o primeiro colocado. Às vezes eu permito que o segundo, o terceiro e até o quarto subam no pódio. Outro dia deixei ganhar uns sete e você nem ao menos assistiu no Fantástico.

- Não sei do que o Senhor está falando, Deus. E quando será esta corrida?

- Deus fez um buraco nas nuvens e mostrou um casal no Oriente Médio indo pra cama nupcial. Depois fechou rapidamente.

- Entendeu agora, José?

- Senhor, por favor deixe eu participar daquela corrida. Quero uma segunda chance!

- José, José. Por acaso você não sabia decorado aquele versículo 27 do capítulo 9 da epístola aos Hebreus que tanto usava para tentar convencer os espíritas a se tornarem da sua religião? O que vem mesmo após a morte?

- O juízo.

- Isto mesmo.

- E quando que será o meu julgamento, Senhor? Você me disse há pouco que não me mandará para o inferno. Tô confiando nas suas palavras?

- Só agora que você crê, José?! Seu bobo! O juízo já está acontecendo agora através deste nosso papo informal. Logo depois daquele rio você logo vai poder encontrar seus pais e lhes dizer todas as palavras reprimidas que deixou de falar quando eles ainda estavam vivos. Se bem que agora eles já estão sabendo de tudo e têm consciência das coisas boas e más que fizeram a você.

- E o papai me perdoou por nós termos deixado de nos falar até a sua morte?

- Se ele te perdoou? Mas é claro que sim. Aqui estas coisas já não fazem o mínimo sentido. Ele só lamentou como você o fato de não ter te procurado antes para dizer o quanto te amava.

Uma lágrima rolou do rosto de José e, naquele mesmo instante começou a corrida. Todos ficaram assistindo a competição emudecidos. Deus então fez um sinal para o anjo Gabriel e o chamou até ele.

- Gabriel, venha cá. Preciso de falar uma coisa.

- Pois não, Senhor. Eis-me aqui.

- Está vendo aquela menina de cabelos ruivos?Quero mandá-la para a Síria. Ela será a primeira presidenta dos países árabes e o seu toque feminino ajudará Israel e a Palestina a encontrarem a tão desejada paz. Já aquele menino de olhos verdes que está construindo cogumelos atômicos com os pedacinhos de nuvens, infelizmente terei que deixá-lo nascer. Ele vai fazer muito mal à humanidade, porém diversas pessoas encontrarão a oportunidade de se aperfeiçoarem interiormente.

Depois disto, José prendeu a sua atenção no final da corrida e assistiu a menina ruiva saindo vitoriosa e, após receber a medalha no pódio, foi colocada pelos anjos na ordem da fila do trem junto com outras crianças. Olhou em seguida para o lado e observou Deus contando um segredo para o anjo Gabriel, tendo o Poderoso piscado seus olhos para ele e sorrido. Então José e Deus tornaram a se falar.

- José, José. Como pôde perceber ainda temos muitos assuntos para conversar e boa parte desta conversa poderia ter sido resolvida enquanto você ainda estava na Terra. E acho que vou precisar deixar o resto do nosso diálogo para outras oportunidades.

- Por acaso o Senhor está ocupado no momento?

Deus nada respondeu desta vez, exceto com um sorriso. José voltou a falar:

- Senhor, aquele garotinho de cabelo crespo se parece com o meu sobrinho.

- Parece, mas ele é o teu futuro neto Francisco. É que você chegou aqui muito cedo. Não gostava de ir ao médico, enchia-se de hambúrgueres todos os dias, deixava de praticar esportes e acabou infartando.

- Senhor, se eu pudesse voltar... Sei que tenho muita coisa para conversar com o papai e com a mamãe, porém eu prefiro voltar para casa e resolver algumas coisas que ficaram pendentes lá na Terra. Do contrário, como vou lidar com o meu carma?

Deus fez outro buraco nas nuvens e disse:

- José, José. Carma é uma invenção humana para tentar inutilmente expiar a culpa. Agora você está vendo o seu corpo estendido no leito do hospital?

- Sim, Senhor. Sou eu mesmo. E aqueles lá parecem ser os médicos e enfermeiros tentando me reanimar com aqueles aparelhos.

- Bem, se deixarmos você voltar, ficará ainda um bom tempo de cama com sonda na uretra e dependendo dos outros até recuperar todos os seus movimentos. Para piorar as coisas, o INSS pretende entrar de greve daqui uns dois dias e a sua esposa vai demorar para conseguir o auxílio-doença. É isto que você quer?

José ficou pensativo e se calou. Enquanto isto, o agitado garotinho de olhos verdes venceu a corrida e foi para o final da fila do trem, tendo logo puxado o cabelo da menina ruiva à sua frente ameaçando-a. Um anjo lhe chamou a atenção para que não agredisse a coleguinha e o moleque fez uma abusada careta chutando-lhe uma das canelas.

O órgão tocou e os anjos e as crianças cantaram um hino de despedida. Sem desrespeitar a ordem, as crianças começaram a entrar no trem uma a uma. Aproveitando que todos estavam com as suas atenções voltadas para as provocações que o garoto malvado fazia contra o anjo, saindo a todo instante da fila e correndo pela estação, José embarcou no seu lugar e fechou a porta do vagão. O trem apitou e o anjo maquinista deu sua mensagem de instrução aos passageiros pelo microfone:

- Senhores passageiros com destino ao planeta Terra! Aqui quem fala é o arcanjo Miguel. Eu serei o maquinista deste trem. Todos vocês devem me obedecer. Acomodem-se em seus lugares, apertem os cintos de segurança. Tenham todos uma boa viagem.

O trem começou a andar vagarosamente. José mal conseguia sentar-se naquelas poltronas confeccionadas para o público infantil porque estava gordo demais. As crianças que ficaram na estação davam adeus às que embarcavam. Deus e Gabriel sorriam um para o outro como se soubessem o que tinha acontecido. Já o menino de olhos verdes fazia bolinhas de algodão com as nuvens para jogar no trem com um estilingue.

Quando o trem já estava distanciando em alguns metros da estação, Gabriel passou galopando montado em um cavalo voador e, tendo acompanhado a locomotiva, comunicou-se com o anjo maquinista. Depois disto, tomou outra direção e p trem acelerou tornando-se uma bola luminosa.

Não demorou muito para que dois dos auxiliares do anjo maquinista entrassem no vagão das crianças onde estava José e fossem atrás dele. José correu, mas foi inútil tentar fugir dos anjos e um deles, segurando-o pela gola da camisa, dirigiu-lhe estas palavras:

- Seu maluco, agora vamos ter que atirá-lo pela janela!

- Ei, não posso seguir com vocês até o ponto final deste trem?

- Claro que não! Além do mais esta viagem costuma demorar uns nove meses e não temos autorização para conduzir outro tipo de passageiros além das crianças.

- Não dá nem para abrir uma exceção, amigo? Prometo que volto com vocês para a estação celestial.

- Não pode, José. O trem ainda vai ficar um tempinho parado no seu planeta e as leis do Criador do Universo são bem rígidas para que não deixemos nenhuma alma penada vagando pelo mundo físico.

- Mas assim não é justo! Quero uma audiência com o anjo maquinista!

- Ele não vai te atender, José. São as normas de Deus! Agoira se prepare que vamos jogá-lo pela janela.

José lembrou-se de orar e, quando começou a falar com Deus em seu coração, o celular do anjo tocou.

- Alô! Pois não, Senhor. Quer falar com ele?

- Quem é? - perguntou José.

- É Deus. Fale diretamente com o Senhor. Afinal, você não orou pra reclamar com Ele?

José pegou o telefone:

- José, José!

- Meu Senhor, sei que tentei dar uma de esperto e resolvi embarcar no trem por minha conta. Por favor me perdoe e me deixe re-encarnar junto com estas crianças.

- José, José. Você pensa que me podia me passar para trás, né? Pois eu já sabia o que se passava na sua cabecinha e até mesmo inspirei você para que ousadamente tomasse o lugar daquela pestinha. Infelizmente não vou deixar você nascer de novo no sentido literal do termo. Vou te ressuscitar igual Elias fez com o filho da viúva.

- Vai ser no meu velório, durante o enterro ou depois como na ocasião em que Jesus chamou Lázaro para fora da tumba?

- Assim também é demais. Se eu exagerar muito agente acaba matando outros do coração e hoje em dia, com tantos recursos de mídia, vão acabar registrando o milagre e ninguém mais vai precisar ter fé para acreditar em mim. Prefiro que os médicos te reanimem com sucesso no hospital. Ficará em coma por mais uns dias e dentro de algumas semanas já estará bem melhor.

- Mas Senhor, será que eu vou ficar com sequelas?

- Algumas. O mais importante é que retornará para casa com a mente curada, filho.

- E ficarei sem poder andar?

- Só por pouco tempo.

- E vai dar para fazer sexo com a minha mulher?

- É claro!Só que daqui para frente você vai ter que melhorar na qualidade do seu desempenho sexual e comer menos porcarias. Seguindo uma dieta que a nutricionista te passará o seu sangue ficará com menos colesterol e aí a sua ferramenta funcionará até melhor. E, caso deseje acelerar o processo, pede pra Tereza acrescentar mais salsa na sua refeição. Nunca te disseram que a salsa afina o sangue?

- Boa dica, Deus! Vou contar pra ela que foi o Senhor quem mandou. Posso?

- Não só pode como deve! Mas agora se prepare! Quando o Gabriel passar montado no cavalo, você pula do trem e sobe na garupa dele. Até breve! Logo nos veremos.

- Tchau, Senhor! Fique com Deus, digo, fique bem.

- Eu estou sempre bem, José. Agora devolva o celular para o anjo por causa do lixo espacial e monte no cavalo voador do Gabriel. Carpe Diem!

José acordou dias depois na UTI ao lado de uma enfermeira e de um pesquisador da universidade sobre experiência quase-morte (EQM), o qual, após ter sido apresentado, indagou-lhe:

- Seu José, conta aí como são as coisas do outro lado? Viu algum túnel de luz? Chegou a conversar com alguém?

- Meu jovem, eu vi sim a luz e se contar cada detalhe vocês não vão acreditar. Porém, o que importa agora? Quero logo abraçar minha mulher, meu filho e minha nora. Depois desejo visitar o meu irmão com quem há anos deixei de manter contato e ver como anda os meus sobrinhos.

- Seu José, experiências como a do senhor são muito importantes para a ciência. Pois se as pessoas soubessem o que se passa do lado de lá, elas poderão dar um novo significado à existência delas aqui.

- Com todo o respeito, eu discordo de você, meu caro estudante universitário. Pois são experiências que devem continuar sendo subjetivas e daí a beleza entre as divergências e semelhanças de cada relato. Se o homem pudesse compor uma geografia do mundo além-túmulo, rapidamente teríamos a elaboração de doutrinas sobre a dimensão espiritual e aí muitos que se interessassem por estes estudos continuariam sem compreender o sentido da vida. Pois é o mistério que proporciona sabor à nossa existência, despertando em cada ser uma reverência pela Realidade na qual as nossas escolhas convivem harmonicamente com a vontade soberana da Inteligência Superior do Universo.

- Tudo bem, seu José. Tenho que respeitar a sua vontade. Vou deletar isto que o senhor acabou de me dizer.

- Não apague, meu jovem! Pois este é o significado da minha experiência. Aprendo que uma das melhores coisas da vida é aproveitar os bons momentos com a família e viver em paz com todo o Universo, evitando causar prejuízos ao próximo porque a Vida está em tudo. Aparece uma tarde dessas lá em casa depois que eu tiver alta e juntos nós tomaremos um delicioso café que só a Tereza sabe fazer. Agora, por gentileza, peça para a enfermeira chamar a minha esposa.

Depois desta experiência de quase ter “morrido”, José ainda viveu por mais quatro décadas. Tornou-se um trabalhador menos compulsivo e um religioso moderado. Deixou de lado os jogos eletrônicos do computador e começou a praticar esportes no tempo livre. Mudou radicalmente os hábitos alimentares e pediu para Tereza acrescentar salsa em sua comida seguindo as orientações divinas. Viu seus netos nascerem, crescerem e se formarem. Até chegou a segurar no colo uma bisneta de meses no mesmo ano em que uma mulher foi eleita para ocupar a Presidência de um importante país do Oriente Médio. E, ao assistir rapidamente a notícia no telejornal da manhã, José lembrou-se do seu diálogo com Deus na estação de trem celestial e expôs suas dúvidas em oração. Depois abraçou Tereza, mandou uma mensagem de texto pra Rafael dizendo que o amava, sentou solitariamente na varanda da casa e desencarnou.

Ao chegar no céu, foi recebido com muita festa pelos anjos do trem. Gabriel foi um dos primeiros a lhe dar as saudações:

- Seja bem vindo, José. Agora você veio para ficar, não?

- O quê? E você acha que vou querer passar dos 100 anos? Já cheguei nos 90 e isto já foi o suficiente. Vida de Matusalém não serve pra mim. Nem os 120 anos de Moisés...

Nesta hora, Deus se fez presente ao lado de José:

- José, José, meu filho. Fez uma boa viagem de volta?

- Sim, meu Senhor. Foi tudo muito mais tranquilo do que da primeira vez. A morte no tempo certo é uma passagem maravilhosa!

- Respondendo a perguntinha que me fez há pouco nesta manhã quando orou, realmente a presidente eleita na Síria era aquela garotinha de cabelo ruivo que você viu entrar naquele trem antes dela nascer.

- Mas como se a candidata que vi na TV tem cabelo preto?

- José, José. Você passou mais de 90 anos na Terra e até hoje não percebeu que as mulheres adoram pintar o cabelo?

O céu inteiro caiu na gargalhada. José riu também e continuou o seu diálogo com Deus.

- E me conta aí, Senhor. O que aconteceu com aquele menino briguento de olhos verdes que acabou não entrando no trem?

- Aquela malinha sem alça? Bem, eu o mandei para outro planeta. A Terra está melhorando e, no atual estágio evolutivo da civilização planetária, seria catastrófico seus descendentes terem um novo Hitler. Em breve, os filhos dos seus bisnetos estabelecerão o meu Reino lá. Isto talvez ocorra lá pelos meados do século 22, de acordo com a cronologia cristã que vocês adotam. Porém, graças aos esforços de sua geração e dos seus antepassados foi que o mundo caminhou até o presente momento em que as boas novas de Jesus encontram-se quase que assimiladas.

- Bendito sejas, Senhor!

- E graças a vocês também, vencedores! A transformação do planeta é a verdadeira recompensa de vocês. Já o repouso celestial é dado gratuitamente a todos os homens de quaisquer tribos, nações ou religiões. Inclusive para os que se consideravam “ateus”.

- E o papai e a mamãe? Onde eles estão?

- Logo ali no jardim. Na outra margem do rio. Vai lá falar com eles! Estão há muito tempo te aguardando.

- Mas Senhor, eu não teria que ser julgado primeiro segundo o texto de Hebreus 9,27?

- Para com isto, José! Quem aprendeu a avaliar a si mesmo não precisa passar por um julgamento. E como sabe, não mando ninguém para o inferno. São as próprias pessoas quem insistem em viver em suas ardentes chamas. Agora aproveite este pedaço do céu!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A Comunhão com Deus deve ser construída debaixo da Graça


Estes dias tenho meditando sobre a maneira legalista como que muitos crentes ainda lidam com a ideia de comunhão com Deus, sendo este assunto algo que posso compartilhar a partir de minha própria experiência no Evangelho.

Muitos, ao lerem a primeira epístola de João, pensam ser até necessário deixar de pecar para poderem usufruir da comunhão com Deus. Acham que, por terem cometido esta ou aquela falta, ficaram excluídos do relacionamento com o Pai. Principalmente por causa de uma leitura errada do texto dos versos seis e sete do primeiro capítulo da carta:

“Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1Jo 1.6-7; ARA)

Contudo, o certo é que, mesmo dentre aqueles que confessam e acreditam na salvação pela graça, muitos não aplicam este remédio salvífico nas outras áreas de suas vidas e, infelizmente, acabam se auto-excluindo de experimentar um relacionamento espiritual mais profundo com o Criador.

Acontece que o homem nada consegue de Deus através de seus próprios méritos. Aquilo que fazemos (ou deixamos de fazer) não tem nenhum valor para a salvação. Nem mesmo para termos comunhão com Deus e os irmãos, sendo que o “andar na luz”, como diz a epístola, somente pode ocorrer como consequência de uma vida restaurada pela graça.

“Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.” (1Jo 1.8-10; ARA)

Posso dizer que a caminhada na luz inclui justamente o fato de admitirmos os nossos erros, dispondo-nos a tratá-los ao invés de ocultá-los como se fosse possível esconder alguma coisa de Deus. Aceitarmos a existência de uma dificuldade pessoal, sem ficarmos presos aos sentimento de culpa ou de inferioridade, bem como considerarmos as oportunidades proporcionadas pela divina graça de seguir em frente após uma queda, são posturas importantíssimas que precisamos adotar em nossas jornadas espirituais.

Neste sentido, pode-se compreender que o “andar em trevas” seria justamente alguém negar a sua condição de pecador e dispensar o tratamento oferecido pela graça. Pois, enquanto uma pessoa alimenta dentro de si que precisa chegar num determinado nível de “santidade” para ter comunhão com Deus, praticar o auto-sacrifício nesta condição, ou que primeiro deva reparar todos os seus erros do passado (como se tivesse carregando um carma), ela continua vivendo debaixo de uma infernizante meritocracia.

O grande problema da dependência dos méritos é que o homem acaba escondendo-se atrás de um comportamento moral exterior ou então desiste mesmo do seu aperfeiçoamento ético porque se vê a cada dia mais distante de um ideal de comportamento sem o qual ele não se sente aceito. E isto vale para todo e qualquer sistema religioso ou não-religioso. Seja no cristianismo, em outras religiões monoteístas e nos grupos que acreditam em sucessivas encarnações da alma.

“Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.” (1Jo 2.1-2; ARA)

Lembrando da cruz, em que o Justo morreu no lugar dos pecadores, encontramos nesta incomparável simbologia vivida por Jesus a plena manifestação da graça e que implica na renúncia do falido sistema meritocrático. Cessam quaisquer outros sacrifícios para fins de renovação da comunhão do homem com Deus porque nada poderemos fazer em troca neste sentido. E, mesmo que seja válido alguém abrir mão de si mesmo em favor do outro, tal atitude, ainda que cause impactantes efeitos sobre a sociedade, não gera efeitos para fins de restabelecer a conexão com o Autor da Vida. Pois, geralmente quem faz do auto-sacrifício o alvo maior dentro de sua compulsiva ambição por santidade, ainda não compreendeu que a entrega da própria vida só faria sentido debaixo da graça, havendo necessidade.

“E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará.” (1Co 13.3; ARA)

Certamente que o amor do qual Paulo fala no célebre capítulo 13 da sua primeira carta aos coríntios, só pode tornar-se manifesto quando há graça. Pois tanto as obras de caridade quanto o martírio experimentado pelos apóstolos e profetas da Bíblia apenas se tornam atos de amor quando não são mais moedas de troca. E, como fruto de um tratamento no gracioso divã de Deus, o homem que se propõe a seguir o bem. Não mais por coação (tipo medo do inferno ou de ser amaldiçoado) ou pelo constrangimento moral consubstanciado no sentimento de inadequação, mas sim por causa de uma escolha madura, quando se descobre que a observância dos mandamentos de Deus caminhando sempre com Ele é de fato a melhor opção.


OBS: A foto acima refere-se à cachoeira "Furna da Onça", situada na região serrana fluminense. A imagem foi cedida a este blogueiro por Jorge Elpídio Medina. Ele é autor de um projeto de inventário geográfico e hidrográfico do município de Cachoeiras de Macacu (RJ), feito em colaboração com os fotógrafos Denílson Siqueira, André Confort, Yuri Blacheire e Damião Arthur.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sansão e a operação da graça de Deus

A cinematográfica história bíblica de Sansão confirma surpreendentemente a operação da graça divina.

Os capítulos 13 a 16 do livro de Shofetim (Juízes) contam a história do lendário líder do Israel primitivo desde o nascimento até a sua morte. Relata a narrativa que, por causa do pecado do povo, Deus havia entregue os israelitas de baixo da opressão dos filisteus durante um período de quarenta anos até que o Anjo do SENHOR visitou um casal cuja esposa era estéril, prometendo-lhes um filho que começaria a livrar Israel das mãos do adversário.

Para que Sansão pudesse cumprir sua missão, Deus lhe dotou de uma grande força física e várias proezas foram por realizadas por seu intermédio durante os vinte anos em que liderou Israel. Porém, ele deveria cumprir com o voto nazireu, o qual, segundo a lei mosaica, impunha que a pessoa consagrada a Deus não cortasse o cabelo, nem tocasse num cadáver ou tomasse qualquer tipo de bebida alcoólica, conforme o Anjo havia determinado à sua mãe:

“porque eis que tu conceberás e darás à luz um filho cuja cabeça não passará navalha; porquanto o menino será nazireu consagrado a Deus desde o ventre de sua mãe; e ele começará a livrar Israel do poder dos filisteus”. (Jz 13.5; ARA)

Sansão, todavia, não foi obediente a Deus e desperdiçou a sua vida. Ao invés de concluir a sua obra para a qual foi chamado e derrotar de vez com os filisteus, ele violou os votos do nazireado e as leis de Deus em muitas ocasiões, deixando-se conduzir por seu apetite sexual a ponto de fazer escolhas erradas. Seus dons e habilidades foram utilizados sem prudência.

Na época de seu casamento com uma filisteia, Sansão quebrou dois de seus votos que deveria guarar como nazireu. Ou seja, bebeu vinho e retirou um favo de mel que havia se formado no cadáver de um leão que matara dias atrás.

A pior tragédia de Sansão, entretanto, ocorreu quando ele se apaixonou perdidamente por Dalila (provavelmente uma filisteia), a qual, com muita insistência, induziu-o a contar onde estaria o segredo de sua força. O texto bíblico diz que Dalila o importunava todos os dias até que, finalmente, Sansão confessou que, se sua cabeça fosse raspada, a força prodigiosa que Deus lhe dava iria deixá-lo de modo que ele se tornaria como qualquer outro homem (Jz 16.17).

Dalila, após receber dinheiro dos filisteus, traiçoeiramente raspou as tranças de Sansão e o entregou aos seus adversários. E, no momento em que foi avisado por Dalila sobre um novo ataque dos filisteus contra ele, Sansão ainda pensava que iria se livrar daquela situação como nas vezes anteriores, mas o próprio texto diz que “o SENHOR já tinha se retirado dele” (Jz 16.20).

Depois de capturarem Sansão e cegarem seus dois olhos, os filisteus levaram-no para a região de Gaza. Ali, no país dos filisteus, Sansão passou a executar o trabalho braçal de moer grãos dentro da prisão. Contudo, o texto bíblico nos diz que os seus cabelos tornaram a crescer novamente.

Houve então um dia em que os filisteus resolveram festejar a captura de Sansão oferecendo um sacrifício a Dagom, o deus deles. Para tanto, trouxeram Sansão do cárcere e começaram a se divertir com aquele episódio.

Aconteceu que, vivendo o seu fundo de poço, Sansão voltou-se para Deus e, nos últimos momentos em que viveu, experimentou o que é depender unicamente do SENHOR e não de si mesmo, fazendo esta oração:

“SENHOR Deus, peço-te que te lembres de mim, e dá-me força só desta vez, ó Deus, para que me vingue dos filisteus, ao menos por um dos meus olhos.” (Jz 16.28)

Naquele momento difícil, Sansão encontrou-se com a abundante graça de Deus. Pois, mesmo depois de ter quebrado todos os votos do nazireado, ele foi novamente usado pelo Eterno para matar mais filisteus do que em todas as vezes anteriores. Diz a Bíblia que Sansão derrubou as duas colunas que sustentavam o templo de Dagom, de modo que a casa desabou sobre todos os príncipes dos adversários e sobre o povo que ali estava, apesar da queda dos escombros tê-lo matado também.

Segundo esta história da Bíblia, cujos valores chocam a nossa cultura contemporânea (pois além do anti-universalismo tem-se um atentado de terrorismo), podemos compreender que o trágico resultado superou em muito todas as mortes dos filisteus que Sansão fez durante a sua vida (antes de quebrar o terceiro voto do nazireado). Ali Deus não pediu contas da infidelidade de Sansão (nem fez cobranças morais sobre suas relações sexuais ilícitas com mulheres estrangeiras), mas lhe concedeu graça paa que cumprisse o seu propósito messiânico em favor do povo de Israel contra os opressores filisteus.

Assim, apesar de todos os erros de rebeldia que cometeu no passado, Sansão morreu justificado, tendo cumprido aquilo que o Anjo do SENHOR disse a seu respeito, no sentido de que iria começar a livrar Israel das mãos dos filisteus, sendo que o seu nome é citado como um herói da fé no Novo Testamento. Na epístola aos Hebreus, Sansão aparece na lista dos homens que “por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros” (Epístola aos Hebreus 11.33-34).

Sem dúvida que, no pior momento, Sansão tirou força da fraqueza como diz o texto do Novo Testamento. E, embora a sua vida pudesse ter sido muito melhor, foi com o sofrimento decorrente da desobediência que Sansão aprendeu a depender de Deus e não do dom sobrenatural que havia recebido.

Igualmente é desta maneira que vejo Deus operando com graça sem medida na vida das pessoas que se voltam para o seu Criador. É quando Deus tira o homem do mais profundo abismo e este assume a consciência de que todos os seus cartuchos queimaram e que ele não tem nada a oferecer ao Eterno, passando a depender unicamente de sua misericórdia e bondade.


OBS: A ilustração deste artigo refere-se ao quadro do pintor dinamarquês Carl Heinrich Bloch em que Sansão é retratado girando um moinho na prisão dos filisteus para moer grãos conforme a passagem de Jz 16.21b.

domingo, 29 de maio de 2011

Deus não quer apostas pascalianas!


Certa vez o filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662), ao debater sobre a impossibilidade de provar a existência de Deus, argumentou dizendo que o homem deveria optar pela crença. Segundo o seu pensamento, se Deus não existir, o crente não sofrerá prejuízo algum quando morrer. Porém, considerando a possibilidade de Deus existir, o crente ganharia a vida eterna enquanto que o descrente perderia tudo depois da morte em tal hipótese.

Utilizando-se desta mesma lógica de Pascal, inúmeros pregadores desenvolveram argumentos bem ameaçadores nos seus discursos com a finalidade de proselitar pessoas. Ao invés de mostrarem a face bondosa de um Deus que nos ama desde a eternidade, tais "evangelistas" resolveram atrair seguidores apelando ao medo (o falacioso Argumentum ad baculum).

Neste aspecto, o pastor norte-americano William Franklin Graham Jr (mais conhecido como Billy Graham), admirado por muitos como sendo o maior pregador do século XX, também fez uso da mesma armadilha discursiva em seu aplaudido sermão "Heaven or Hell" ("Céu ou Inferno") que pode ser facilmente encontrado na internet:


"Certo dia, um agnóstico falava com um cristão. E ele disse: 'Suponha que um minuto após morrer você descubra não existir o céu'. O cristão respondeu: 'Se o céu não existisse, ainda assim teria valido a pena, em razão da alegria e da paz que tive em meu coração nessa vida cristã. Mas gostaria de lhe perguntar uma coisa. Sr. Agnóstico, suponha - apenas suponha - que você acordou e percebeu que, depois de tudo, existe realmente o inferno. Suponha que exista apenas uma chance em cem de existir o inferno. Você concederia, nesta noite, haver possivelmente uma chance em cem, de que realmente exista o inferno? Então, valeria a pena dar tudo o que você tem para escapar desse lugar chamado por Jesus de inferno'". (extraído do livro "Onde a religião termina?" do ex-frei Marcelo da Luz, pág. 111)


Penso que ao manejar estas palavras, Billy Graham não foi feliz pois demonstrou uma enorme fragilidade no seu sermão. Isto porque o argumento baseia-se nas supostas consequências negativas que os descrentes poderão sofrer caso não levantarem as mãos durante o apelo do pregador para "aceitar a Cristo", conforme costuma ocorrer no final das reuniões do evangelista. Os que não derem o assentimento às suas palavras poderão sofrer irreversíveis castigos como a perda da vida eterna, ardendo pelos séculos dos séculos nas chamas de um inferno.

Ora, alguém poderia então perguntar que deus é este que precisa intimidar as pessoas para ser crido ou obedecido? Pois, se a fé de alguém está baseada numa espécie de aposta pascaliana, não seria melhor que um deus assim nem existisse? Não seríamos muito mais felizes sabendo que podemos fazer escolhas existenciais conforme a própria consciência e nos baseando não em pregações de A, B ou C mas sim numa convicção pessoal a respeito de praticar o bem livres de qualquer ameaça?

Acontece que o Deus vivo e verdadeiro ama a todos incondicionalmente e deseja ser amado pelo que Ele é, independentemente de promessas ou bênçãos futuras oferecidas aos devotos. Seu amor sincero existe desde a eternidade dos tempos, antes da Terra e de todo o universo serem criados. Antes mesmo de sermos gerados no ventre materno, o nome de cada um de seus filhos já estava escrito no Livro de Deus e uma festa nos céus foi celebrada na ocasião do nosso nascimento sem que nada tivéssemos feito para merecer.


"Pois tu formaste o meu interior; tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda." (Salmo 139.13-16; ARA)


Sem dúvida que este poema bíblico conduz-nos à abundante graça divina, fonte da vida para todos os homens, salvando-nos de qualquer pecado. Mesmo da própria descrença visto que nem as trevas escurecem os olhos do Eterno.

"Se digo: as trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite, até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma coisa." (Sl 139.11-12)

Não importa em qual abismo a pessoa se encontre, pois ela pode reconciliar-se com o seu Criador a qualquer hora. E isto não precisa ser durante o culto evangelístico de uma igreja visto que pode ocorrer dentro da nossa casa, num presídio, num prostíbulo, numa boca de fumo ou nos últimos instantes da nossa vida errante a exemplo do "bom ladrão" crucificado ao lado de Jesus (ver Lucas 23.39-43). Pois somos sempre salvos pela graça divina sem que nada possamos oferecer em troca. Nem mesmo a fé que é gerada no coração do homem também pelo favor de Deus como resultado da ação do seu Espírito em nós.

Tal como no Salmo 139, cuja autoria é atribuída ao rei David, ninguém pode esconder-se do Deus onisciente. O Eterno conhece todas as nossas motivações íntimas e sabe muito bem que uma pessoa levantou as mãos durante um "apelo" feito pelo Billy Graham devido a um falho raciocínio pascaliano e não porque o novo devoto deseja de fato conhecê-lo.


"SENHOR, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto.; de longe penetras os meus pensamentos. Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos. Ainda a palavra não me chegou à língua, e tu, SENHOR, já a conheces toda. Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim pões a mão. Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir. Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face?" (Sl 139.1-7)


Sim! Para onde fugiremos deste amor tão grande que nos cerca? Para qual lugar?

Então pra que resistir à maravilhosa graça de Deus? Por que continuar fugindo e se trancando em si mesmo?

Mas conhecer a Deus não requer nenhum raciocínio lógico formulado por filósofos. Deus é puro amor e quer ser compreendido nesta dimensão. Não pelo medo ou pela ameaça feita pelos pregadores.

"No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo aquele que teme não é aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro." (1João 4.18-19)

Assim, festejando este amor, quero encerrar minha mensagem com este maravilhoso vídeo do Asaph Borba cantando o Salmo 139.




OBS: A ilustração deste artigo refere-se a uma pintura anônima feita no século XVII sobre o grande físico, matemático, filósofo moralista e teólogo francês Blaise Pascal.

domingo, 22 de maio de 2011

Que tipo de ceia estamos celebrando?


Fico perplexo como que muitos cristãos, ao lerem a passagem bíblica de 1Co 11.27-30, ainda propagam a ideia absurda de que Deus costuma castigar pessoas com doenças e mortes pelo fato de elas participarem da celebração da Ceia do Senhor tendo ainda "falhas espirituais".

De fato, o mal interpretado texto da mencionada carta de Paulo assim nos diz:

"(...)27 Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. 28 Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice; 29 pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. 30 Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem (...)" (tradução e versão de Almeida Revista e Atualizada - ARA)

Fiz questão de colocar reticências na citação bíblica justamente para chamar a atenção sobre a falta de visão contextual por parte daqueles que tentam impor seus acréscimos doutrinários às Escrituras fim de justificarem a exclusão de pessoas por seus critérios moralistas desta importante celebração da Igreja.

Em primeiro lugar, Paulo não dá autoridade a nenhum líder eclesiástico para decidir sobre quem deve ou não participar da Ceia. A mensagem transcrita é bem clara ao dizer que cabe ao homem praticar um auto-exame de si mesmo para então comer do pão e beber do cálice (verso 28).

Vale ressaltar que ninguém teria autoridade em Cristo para definir quem pode ou quem não pode ter participação na Ceia do Senhor. Nem mesmo o próprio apóstolo Paulo, caso ele assim houvesse procedido. Pois como um enviado de Jesus, cabia ao apóstolo transmitir e ensinar a ordem dada por Jesus, sem fazer nenhum tipo de adição pessoal no lugar do mandamento.

Examinando a passagem por inteiro, compreendo que os versos citados precisam ser lidos e interpretados em conjunto com o restante da passagem da epístola que vai do versículo 17 ao 34 do capítulo 11. Isto porque, segundo a repreensão de Paulo, os coríntios estavam tomando cada um "a sua própria ceia" (v. 21), em que os ricos se banqueteavam enquanto os pobres sofriam necessidades, conduta que afronta a unidade que deveria haver entre o povo de Deus.

Assim, ao invés de celebrarem a Ceia do Senhor, os coríntios estavam se ajuntando para festejar sem a observância do amor de Cristo, trazendo para dentro da reunião as divisões classistas existentes no meio social já que formavam grupos separados. Com isto, eles estavam perpetuando dentro da Igreja a desigualdade entre ricos e pobres que já existia no mundo de um modo até mais acentuado que nos nossos dias onde a escravidão encontra-se juridicamente abolida.

Afim de que os destinatários de sua carta entendessem qual é o significado da celebração da Ceia, Paulo repete a tradição apostólica sobre a instituição do memorial de Cristo, quando Jesus simbolicamente afirmou "isto é o meu corpo, que é dado por vós". Ou seja, Paulo estava chamando a atenção dos coríntios acerca de coisas que muitos deles andavam ignorando e, obviamente, estavam deixando de participar da verdadeira Ceia.

Evidente que participar exteriormente do memorial de Cristo sem estar unido em amor com os demais irmãos equivale a se colocar na mesma categoria dos que mataram a Jesus, Obviamente que não pelo simples fato de comer do pão ou de beber do cálice, mas sim pela conduta egoísta e segregadora da pessoa que continua incompreensível quanto às necessidades de seu próximo, deixando que outros membros da família de Deus passem fome enquanto ela se regala com seus prazeres pessoais.

Ora, agir desta maneira é viver debaixo do engano religioso. É iludir a si mesmo como se estivesse participando da Ceia do Senhor, como na verdade tal pessoa está celebrando sua própria refeição - o banquete símbolo da destruição ou condenação. Logo o "castigo", ou melhor, a consequência de uma vida individualista com desamor, repercute como morte e adoecimento da alma. Porque é como se Cristo estivesse sendo novamente assassinado através do desprezo pela necessidade do irmão mais pobre.

Porém, não é muito diferente da conduta dos coríntios o que muitas "igrejas" fazem quando resolvem restringir a participação de pessoas na Ceia conforme os critérios moralistas de seus líderes. Quando um "pastor" impede que um homossexual ou um viciado em drogas celebre o memorial de Cristo, ele está limitando o banquete aos que têm alguma moeda moral, deixando de fora os que seriam mais necessitados espiritualmente. E, com isto, um religioso acaba agindo como réu do corpo e do sangue do Senhor porque está excluindo da comunhão no corpo um ser pelo qual Jesus morreu.

O "comer indignamente" em nada tem a ver com o fato de alguém participar da Ceia do Senhor tendo ainda falhas de caráter e de comportamento, coisas que todos nós teremos todos os dias durante a nossa peregrinação na Terra. Qualquer discípulo de Jesus, à semelhança dos doze apóstolos na primeira Ceia, deve ter a consciência de que suas fraquezas pessoais vão continuar se manifestando mesmo depois de inúmeras celebrações. Então, o que deve ser refletido na ocasião do memorial de Cristo é justamente compreendermos a nossa condição de pecador e o significado da mensagem libertador do sacrifício na cruz, na qual a minha carne também tem que ser pendurada.

Logicamente que, durante 1900 anos, não interessou às autoridades eclesiásticas trazer o verdadeiro esclarecimento sobre o sentido da Ceia. A instituição da eucaristia passou a ser utilizada como um instrumento para se incutir culpa nas pessoas por suas faltas cometidas. O "pastor" arroga-se no direito de indicar aquilo que, na sua visão moral, seria certo e errado, sem que o próprio participante do evento adquira consciência própria cerca de suas ações. E quase sempre as reprovações do líder religioso estão voltadas para falsos ideais de pureza que, na prática, são mecanismos repugnantes de repressão da sexualidade humana e uma distorção da ideia sobre santidade já que é muito fácil alguém condenar no púlpito coisas como o sexo fora do casamento formal, o fumo ou a ingestão de bebidas alcoólicas, mas ignorar a desigualdade social manifestada inúmeras vezes dentro da própria Igreja.

Nos dias de hoje, quantos empregadores que se dizem cristãos e dão boas ofertas em suas igrejas não exploram seus empregados e conduzem seus negócios sem ética?

Que tipo de ceia é esta em que, apesar de todos comerem juntos os elementos simbólicos do pão e do cálice durante a celebração na igreja, ninguém mais é capaz de pensar no bem estar do seu próximo e cada um só se preocupa com a satisfação das próprias necessidades?

Acontece que não posso deixar de confessar este pecado coletivo dos cristãos nos tempos atuais. Pois a omissão da Igreja tem a condenado junto com os malfeitores que crucificaram a Jesus. Com isto, o cristianismo come e bebe para a sua própria perdição, obscurecendo o seu entendimento acerca do que é sermos um só povo e da vida baseada no amor, onde não deve mais haver diferenças sociais no meio da assembléia de Cristo.

Oro para que a Igreja tome consciência do seu papel social e que se liberte dos moralismos hipócritas, passando a incluir na Ceia do Senhor a todos, pois foi por todos que Cristo morreu na cruz dando o seu corpo e derramando o seu precioso sangue.

Que Deus abra os nossos olhos!


OBS: A imagem ilustrativa deste artigo refere-se ao célebre quadro A Última Ceia (1495-1497) do gênio renascentista Leonardo da Vinci (1452–1519) e se encontra no convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão. A obra baseia-se em João 13.21, quando Jesus anuncia aos doze apóstolos que um dentre eles iria traí-lo. No entanto, deve-se considerar que a pintura seria uma versão europeirizada da cena, visto que, nos tempos de Jesus, como ainda é costume no Oriente Médio, a refeição era servida no chão, não sobre um móvel com "pés" onde os discípulos pudessem se sentar em cadeiras.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Tenha uma quarta-feira de muita alegria e graça!

Terminou ontem o feriado carnavalesco, mas não acho que isto seja motivo para tristezas.

É momento de alegria e de graça! Principalmente para quem aproveitou o feriado de maneira sadia e agora vai retornar às suas atividades laborais ou estudantis, visto que a vida continua e deve ser celebrada em múltiplas ocasiões distintas.

Para os católicos, a quarta-feira de cinzas é considerado o primeiro dia da Quaresma e simboliza a conversão do crente. Nas missas, os padres colocam cinzas na testa do cristão que, por tradição religiosa, permanecem na cabeça da pessoa até o sol se por. E, a partir de então, algumas pessoas ficam se privando de comer carne até à Páscoa.

Ave Maria! Ainda bem que decidi seguir a Cristo livre das amarras doutrinárias do institucionalismo católico e evangélico!

Contudo, pelo fato da quarta-feira de cinzas corresponder ao dia seguinte após o Carnaval, muitos brasileiros associam este feriado de meio dia ao luto pelo fim da maior festa popular do país. Então, quem segue o catolicismo e resolveu cair na folia, mesmo sem ter cometido excessos, muitas vezes acaba se deparando com o sentimento aprisionador de que violou um mandamento e pecou.

Por sua vez, inúmeros evangélicos, quando brincam no Carnaval, sentem-se até mais culpados do que os católicos. Pois, no evangelicalismo brasileiro, a cultura carnavalesca ainda é tida como algo pecaminoso, totalmente impura e impossível de integrar uma diversão sadia, sem necessariamente alguém ter que praticar condutas de depravação sexual, atos de violência ou enveredar pelo consumo abusivo de álcool e de drogas.

Mas será que as pessoas devem se sentir culpadas e em pecado por agirem dentro da normalidade?

Somos humanos e o homem é um animal gregário. Logo, faz parte da nossa natureza levarmos uma vida em comunidade onde as festas populares, desde o começo da civilização e as eras pré-históricas, cumpriam o papel de aproximar as pessoas de um determinado grupo. Na Antiguidade, em quase todo o mundo, celebrava-se a colheita, a vitória de uma guerra, o nascimento de uma criança, recordações de acontecimentos históricos, o ano novo, a lua nova, o início do verão ou do inverno, o nascimento de uma criança, a entrada na adolescência, o casamento e a morte. E, não raramente, tais comemorações eram enriquecidas com algum significado religioso.

Infelizmente, o cristianismo acabou se tornando uma religião de pessoas tristes e fechadas para a sociedade. Criou-se uma dicotomia entre o espiritual e o secular, em que este chega a ser terrivelmente demonizado. E conviver com amigos não crentes dentro de uma festa, mesmo num ingênuo aniversário de criança, chega a ser mal associado com um trecho do Salmo 1º quando a Bíblia fala em "assentar-se na roda dos escarnecedores".

"A alegria só pode brotar de entre as pessoas que se sentem iguais", assim disse o romancista francês Honoré de Balzac. E o que ele falou faz sentido porque, no momento em que crio distinções morais em relação às demais pessoas do gênero humano, por me achar espiritual, acabo me privando de uma alegria plena no convício coletivo.

Segundo Caio Fábio, "Jesus não fala uma única vez, nos quatro Evangelhos, a palavra 'espiritual'. Esse chavão não passou por sua boca, por uma razão muito simples: para Jesus, não havia uma vida espiritual; para Jesus, a espiritualidade era a vida. Sobre a vida ele falou muito, e o tempo todo; sobre espiritualidade, não". (destacou-se)

Verdade seja dita que é o moralismo da sociedade, ditado muitas vezes pela religião, que acaba dando uma extrema relevância a determinados comportamentos que não agradam a um grupo dominante. Com isto, construiu-se no decorrer dos séculos uma moral que reprime com rigor condutas como o pecado sexual e a embriaguez, mas toleram outras "obras da carne" tão perturbadoras quanto, a exemplo do ódio, das rixas, dos ciúmes, da ira, das dissensões, das invejas, do egoísmo e da avareza. Aliás, há pastores que seguem a herética teologia da prosperidade e chegam a incentivar um repugnante apego ao dinheiro entre os seus seguidores, exceto se forem ofertar na igreja. E, quanto à dimensão coletiva do pecado, o cristianismo é muito superficial.

Entretanto é esta visão desproporcional, torta, tendenciosa e deturpada do pecado que tanto atrapalha os cristão na compreensão do arrependimento que deve acompanhar a fé no Evangelho. Por causa disto é que muitos têm dificuldade nos dias de hoje em experimentar a Metanoia, palavra grega que significa conversão.

Por outro lado, a conversão não significa uma mudança de cultura, mas sim de postura, devendo ser algo contínuo na vida da pessoa. Trata-se de algo que, na visão hebraica, corresponderia à Teshuvá (o retorno ao caminho certo), onde o homem reconhece sua tendência ruim e se abre para a generosidade da vida, considerando as oportunidades que ela continuamente nos dá e o quanto, em si mesma, é bela, perfeita e boa.

Ora, entendo que a conversão não deve fazer de ninguém uma pessoa triste, mas sim alegre e cheia de graça. E esta graça é que nos faz livres de mandamentos dos homens inventados por padres e pastores sem graça afim de que possamos graciosamente viver para a prática do amor, sem carregar peso na consciência ou cultivar restrições comportamentais.

Para os judeus, nas seis semanas que precedem a festividade de Pessach (Páscoa), existem quatro sábados especiais dentre os quais o Shabat Shecalim é o primeiro deles, tendo sido comemorado em 2011 neste dia 5 de março (que foi o sábado de Carnaval iniciado ao por do sol de sexta-feira). Então, é comum as pessoas que seguem as tradições judaicas cumprimentarem-se com estas palavras: "Chazak! Chazak! Venit'Chazek!" (Força! Força! Que sejamos todos fortalecidos!)

Meu desejo é que, após esta semana de feriado carnavalesco, sejamos realmente fortalecidos para vivermos este ano com muita alegria e graça, com bastante energia e força do Deus Eterno.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Graciosamente novo


Foi mais um ano que passou e eis aí um outro que começa seguindo o calendário solar da civilização do Ocidente.

Geralmente, nesta época, as pessoas costumam fazer suas reflexões e elaborar planos para um novo período de suas vidas, às vezes com futuras metas a serem alcançadas. Também é comum elas desejarem boa sorte umas às outras para que os seus sonhos se concretizem, sendo que alguns têm o hábito de fazer simpatias, enquanto outros dão três pulos para frente na hora dos fogos, ou acreditam que serão bem sucedidos se comerem romã ou uva à meia noite, dentre outras superstições.

Ao lado das comemorações de feliz ano novo, creio ser indispensável refletirmos permanentemente sobre o bem e o mal que praticamos, removendo do nosso comportamento tudo aquilo que é capaz de gerar desconexões com a vida. Ou seja, precisamos arrancar coisas que só envenenam o nosso ser, as quais trazem tristezas, solidão, separação, amargura, inimizades, desilusões e morte.

A Bíblia nos ensina sobre todos esses contrastes, usando figuras como “luz” e “trevas”, “bem” e “mal”, “vida” e “morte”. Seus autores também nos falam no “novo” e no “velho” que se aplica a diversas situações, sob pontos de vista diferentes em cada passagem, mas que conduzem numa mesma direção: a vida, a eternidade, a união, a reconciliação, a paz, o amor, a alegria, a compreensão, a aceitação, a verdade, o nosso próximo e Deus.

Num mundo onde todos envelhecem, a Bíblia diz sobre sermos algo que inova (ou se renova), mesmo que, aparentemente, morra. Sua proposta é que internamente sejamos sempre jovens e revitalizados, não deixando que as situações do cotidiano façam de nós pessoas frustradas e que carregam consigo infelicidades. Porém, ao invés de sermos desgastados pelo tempo, somos convidados por Deus para nos tornarmos crianças novamente “porque o Reino dos Céus pertence aos que são semelhantes a elas” (Mateus 19.14; NVI).

Como alguém pode nascer, sendo velho?” - perguntou o mestre Nicodemus a Jesus, quando o Senhor havia lhe declarado que “ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”. E, nesta passagem do Evangelho, Jesus estava dizendo a um notável estudioso das Escrituras que ele e os demais doutores da Bíblia precisavam nascer outra vez.

Todavia, a verdade é que o nosso estado de desconexão requer uma radical desconstrução afim de podermos enxergar a Vida, o que Jesus chamou de “novo nascimento”. E, certamente, aqui o Senhor não se referiu à re-encarnação, sobre alguém passar pela experiência ritual do batismo ou muito menos a pessoa tornar-se membro de uma igreja evangélica. Pois, estudando João 3.3 no seu idioma original (o grego koiné), pode-se verificar que o editor do quarto Evangelho tentou transmitir aquele ensino através da palavra “anóthen” que também significa “do alto” que, por sua vez, representa um nascimento que vem de Deus, conforme uma citação anterior que se acha logo no início do livro:

Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descendência natural (gr. de sangues), nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus.” (João 1.12-13; NVI)

Certamente que o nascer de novo não depende do nosso próprio esforço. É fruto gerado pelo Espírito Santo através da santa semente plantada em nossos corações – a Palavra de Deus. Logo, o novo nascimento só pode decorrer da mais pura graça, sendo um presente dos céus dado aos homens, os quais, mesmo envelhecendo na idade, resolvem retornar para a escola da vida e serem alunos outra vez. São homens que deixam o Espírito agir em seus corações sem oferecer resistência a Deus.

O segredo do novo nascimento está no acolhimento da Palavra de Deus como uma criança, conforme nos ensinou Jesus:

“Alguns traziam crianças a Jesus para que ele tocasse nelas, mas os discípulos os repreendiam. Quando Jesus viu isso, ficou indignado e lhes disse: 'Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele'. Em seguida, tomou as crianças nos braços, impôs-lhes as mãos e as abençoou”. (Marcos 10.13-16; NVI)

Com a mesma inocência humilde de um pequenino, Jesus, o Verbo encarnado, foi recebido em seu tempo pelas prostitutas, publicanos e pecadores. Porém, os religiosos, os caras cultos, os estudiosos das Escrituras e os homens poderosos tornaram-se cegos à presença do Messias. Só que a tais pessoas a escola da vida reprovou.

Finalmente quero compartilhar que o novo nascimento não pode ser compreendido como algo pronto e acabado a ponto do homem gerado pela semente espiritual não precisar submeter-se mais a um processo de desconstrução e reconstrução.

Muito pelo contrário!


O novo nascimento é também o contínuo processo que, figurativamente podemos comparar a um rio cujo mover das águas não cessa. É o que Paulo nos ensina nestes versículos da carta à Igreja em Éfeso para que os seus destinatários se revestissem do “Homem Novo”:

“Assim, eu lhes digo, e no Senhor insisto, que não vivam mais como os gentios, que vivem na inutilidade dos seus pensamentos. Eles estão obscurecidos no entendimento e separados da vida de Deus por causa da ignorância em que estão, devido ao endurecimento do seu coração. Tendo perdido toda a sensibilidade, eles se entregaram à depravação, cometendo com avidez toda espécie de impureza. Todavia, não foi isso que vocês aprenderam de Cristo. De fato, vocês ouviam falar dele, e nele foram ensinados de acordo com a verdade que está em Jesus. Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade prevenientes da verdade.” (Ef 4.17-24; NVI)

Este Homem Novo do qual Paulo fala é ao mesmo tempo o Messias e o protótipo da nova humanidade recriada. Uma nova criação que se faz na pessoa de Jesus, em sua morte e ressurreição, de modo que nos tornamos também a “nova criatura” de 2 Coríntios 5.17, sendo chamados para viver em justiça e santidade da verdade.

Ninguém que ainda se encontre neste mundo está imune ao pecado. Porém, aí está a grande diferença da nova criatura para a velha. Pois, mesmo sem alcançar perfeição, quem é nascido de novo edifica-se em santidade através da verdade, abrindo o seu interior para o tratamento de Deus porque nada pode ser ocultado aos olhos do Eterno. Assim, a autêntica santificação deve ser buscada pela sinceridade sem o fermento da religiosidade que é a hipocrisia, conforme ensinou Jesus:

“Nesse meio tempo, tendo-se juntado uma multidão de milhares de pessoas, ao ponto de se atropelarem umas às outras, Jesus começou a falar primeiramente aos seus discípulos, dizendo: 'Tenham cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido. O que vocês disseram nas trevas será ouvido na luz do dia, e o que vocês sussurraram aos ouvidos dentro de casa, será proclamado dos telhados'”. (Lucas 12.1-3; NVI)

Deus quer que sejamos uma nova massa sem o nocivo fermento da religiosidade, a qual corrompe o homem impedindo-o de ser sincero e de apresentar-se sem máscaras. Pois, enquanto a pessoa esconde-se por trás de um falso comportamento religioso, o seu interior permanece fechado em trevas e ela mesma impede a iluminação da Divina Luz. Então, tal homem não se encontra mais num estado de permanente renovação e volta a envelhecer espiritualmente, fingindo apenas ter a aparência de quem um dia brilhou. E seu verdadeiro rosto passa a ficar encoberto para que os outros não vejam mais suas humanas expressões.

Não é por menos que Jesus exortou seus discípulos a ficarem atentos quanto ao fermento dos fariseus (leia-se hoje em dia a realidade). Conhecendo a natureza humana mais do que ninguém, o Senhor sabia o quanto somos capazes de transformar o seu Evangelho numa perniciosa doutrina legalista e que nega a graça salvadora. E a história do cristianismo está aí para provar o quanto a injustiça da Igreja excedeu em muito a dos fariseus, dos saduceus e dos herodianos juntos. Uma Igreja que até hoje vem assassinando de diversas maneiras os seres humanos feitos à imagem e semelhança de Deus, pelos quais Cristo morreu, mas se vangloria em de intitular a si mesma como “santa”. E tais homicídios ainda ocorrem quando tentamos impor sobre as pessoas um evangelho de culpas, ensinando mandamentos de homens e roubando a verdadeira adoração ao Eterno, a qual deve ser celebrada com a sinceridade de João 4.23-24, como o louvor das pequeninas crianças.

Seremos uma nova massa se tirarmos de nós o velho fermento, tornando-nos aquilo que de fato somos. Pois, em sua essência, o homem foi criado puro como um pão asmo e ficou levedado pela adição do corruptível ingrediente do pecado. Mas agora, em Cristo, somos chamados para uma nova vida de pureza interior sem nada a ocultar, sabendo que estamos amparados pela graça salvadora de Deus, o qual aceita-nos como somos, não pelo que temos ou fazemos.

Ora, é no caminho da graça que devemos sempre estar para que sejamos renovados a cada momento. Compreendendo o que é a graça, o homem pode sempre continuar sua trajetória, corrigir rotas, levantar-se de cabeça erguida, retornar ao seu ministério e adorar o Eterno Criador com total liberdade, sem nenhuma culpa.

Que neste 2011 que se inicia possamos verdadeiramente andar assim, amparando-nos na divina graça e permitindo que o Eterno nos ilumine interiormente.

Caminhemos na novidade da graça! E, como dizem os judeus, Shanah Tovah Umetukah.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Suficiente graça

“Com a força que Cristo me dá, posso enfrentar qualquer situação” (Fp 4.13; NTLH)

O verso 13 do capítulo 4 da epístola de Paulo aos filipenses, quando o apóstolo diz “tudo posso naquele que me fortalece” (conforme as traduções de João Ferreira de Almeida, da Nova Versão Internacional ou da Bíblia de Jerusalém), tem sido uma das citações bíblicas mais papagaiadas pelos evangélicos, embora seja também muito incompreendida pelos que a repetem. Na maioria das vezes, o seu contexto é ignorado e os teólogos da prosperidade logo distorcem o versículo para iludirem seus ouvintes, dando a entender equivocadamente que podemos realizar milagrosamente todas as coisas como um super crente, sem jamais sermos derrotados.

Entretanto, basta uma breve leitura a partir do verso 10 para que possamos entender, ao menos com a mente, o que Paulo estava querendo dizer aos destinatários de sua carta, os irmãos da Igreja na cidade de Filipos, os quais se mostravam sempre interessados para apoiarem o seu ministério:


“Alegro-me grandemente no Senhor, porque finalmente vocês renovaram o seu interesse por mim. De fato, vocês já se interessavam, mas não tinham oportunidade para demonstrá-lo. Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem-alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.” (Fp 4.10-13; Nova Versão Internacional – NVI)


Como eu disse, posso entender com a mente o sentido do que Paulo teria escrito aos filipenses, mas para dizer a verdade acho que a vida inteira ainda é pouco para que todos, inclusive eu, compreendamos em sua totalidade que tudo podemos naquele que nos fortalece, crendo e descansando na suficiência da graça de Deus. Pois para mim que, se comparando ao apóstolo Paulo, suportei pequeníssimas tribulações, estou falando de coisas que, obviamente, não experimentei quando tagarelo tudo poder em Deus.

Todavia, passamos a nossa vida inteira procurando entender com o coração o que é a graça de Deus. Somos salvos por esta graça maravilhosa, sem nada merecermos, e recebemos de Deus a vida eterna que inclui inúmeras bençãos, as quais podem se manifestar também enquanto estamos vivendo aqui nesta terra. Só que a graciosa salvação vinda de Deus não nos isenta de atravessarmos dificuldades. Aliás, é isto que Jó responde à sua esposa, a qual, conhecendo a integridade do marido aconselha-o a amaldiçoar Deus e morrer (talvez cometer um suicídio):


“Saiu, pois, Satanás da presença do SENHOR e afligiu Jó com feridas terríveis, da sola dos pés ao alto da cabeça. Então, Jó apanhou um caco de louça e com ele se raspava, sentado entre as cinzas. Então sua mulher lhe disse: 'Você ainda mantém a sua integridade? Amaldiçoe a Deus, e morra!' Ele respondeu: 'Você fala como uma insensata. Aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal?' Em tudo isso, Jó não pecou com seus lábios.” (Jó 2.7-10; NVI)


Quando mencionei a possibilidade de que a mulher de Jó tivesse lhe sugerido o suicídio é porque na cultura oriental não é incomum alguém resolver tirar a própria vida ao enfrentar determinadas situações vergonhosas de derrota. Nas guerras e rebeliões, era comum os revoltosos cometerem um suicídio coletivo para não serem capturados pelo exército inimigo. Porém, não há como negar que o suicídio pode significar também uma atitude de auto-justificação, ou de auto-piedade, em que o indivíduo decide pela auto-destruição numa resistência à restauração do ser proposta pela graça.

A graça nos dá condições para lidarmos com toda e qualquer situação, afim de que, semelhantes a Jó, respondamos com esta indagação: “se recebemos de Deus os bens, não deveríamos receber também os males?” (Bíblia de Jerusalém - BJ)

A graça nos basta! Foi isto que o Senhor disse a Paulo depois que o apóstolo pediu pela terceira vez que lhe fosse tirado o “espinho na carne”, conforme podemos ler na segunda epístola à Igreja em Corinto:


“E para que eu não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte.” (2Co 12.7-10; ARA)


Não quero perder tempo tentando decifrar o misterioso espinho na carne de Paulo e acho que quanto mais pudermos generalizar esta expressão, aplicando-a nas mais diversas situações da vida, melhor será a nossa compreensão da suficiência da graça, o que é fundamental para o crescimento e para a maturidade do seguidor de Jesus. Se for por causa das perseguições, a graça basta. Se o problema for alguma enfermidade que os médicos e as orações não curam, a graça basta. Se é falta de dinheiro, a graça basta. E se o nosso espinho é o contínuo desejo de pecar que não conseguimos eliminar, a graça também basta porque o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza humana (no reconhecimento de que somos fracos para vencermos os obstáculos com a própria força).

Nós cristãos, que cremos na salvação pela graça, confessamos sempre isto. Porém, os muçulmanos devotos também recitam diariamente que Deus é “clemente” e “misericordioso”, mas desenvolvem um relacionamento com o Divino baseado no medo de serem castigados na “Geena” (o inferno). Quase todas as suras do Alcorão começam dizendo “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso”, porém os versos que sucedem o primeiro negam tal misericórdia e pregam, na prática, uma salvação por obras:


“Mas quando chegar a catástrofe maior,
No dia em que o homem se lembrar de seus esforços,
E a Geena for visível para todos os que podem ver,
Aquele que tiver prevaricado,
E preferido a vida terrena,
Terá a Geena por morada.”
(Sura 79.34-39, tradução de Mansour Challita)


Ou então:


“Uns acreditam em Muhamad; outros afastaram-se dele.
Basta a estes o fogo da Geena.
Os que rejeitam Nossos sinais, breve jogá-los-emos no Fogo.
Cada vez que suas peles forem queimadas, substituí-las-emos por outras para que continuem a experimentar o suplício.
Deus é poderoso e sábio.”
(Sura 4.55-56; op. cit.)


Que horror! Será que Deus quer que o homem se converta a Ele por medo de sofrer um castigo doloroso? Ou não é um relacionamento amoroso que Ele anseia desenvolver conosco?

Acontece que, enquanto não aplicamos a graça em todos os aspectos de nossas vidas, continuamos agindo como os muçulmanos, caindo nos enganos da auto-justificação e pensando que devemos conseguir algo porque somos bons homens. Aí quando a provação chega, ficamos a indagar por que aquela situação está acontecendo de modo que deixamos de usufruir de todos os benefícios da salvação de Deus.

Não acho que tenha sido fácil para Paulo e para Jó terem passado por tudo aquilo que sofreram. Porém, ambos compreenderam a extensão da graça e o contentamento de um lindo relacionamento com Deus. E, ao final, Jó declara: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem” (Jó 42.5; ARA).

Creio num Deus que não quer ser adorado pelas bençãos que Ele nos concede ou porque dará a seus filhos uma porção no paraíso. Ele quer que nós o amemos pelo que Ele é. Desde o início da criação, Deus sempre desejou um relacionamento amoroso com a humanidade e manifestou este amor pela graça que foi revelada em Jesus de modo que somos aceitos por Ele incondicionalmente, o que independe daquilo que fazemos. Aliás, é quando estamos conscientes de que nada podemos oferecer a Deus é aí que melhor compreendemos o quanto Ele realmente é misericordioso e compassivo, o que aperfeiçoa a nossa relação com o Eterno.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Apocalipse arrebatado


“E aquele que está assentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E acrescentou: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras. Disse-me ainda: Tudo está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da vida. O vencedor herdará estas coisas, e eu lhe serei Deus, e ele me será filho.” (Apocalipse 21.5-7; ARA)


Se alguém perguntar qual o meu entendimento acerca de determinados pontos de vista escatológicos polêmicos, tipo o reino milenial de Cristo, a grande tribulação e o arrebatamento da Igreja, confesso que não tenho hoje mais nenhuma posição fechada a respeito dessas coisas cujo cumprimento só a Deus pertence.

Há uns vinte anos atrás, quando tinha me tornado um adolescente fanático, fazia frequentes estudos escatológicos por conta própria e, influenciado pelas lideranças com as quais identificava, apoiava-me na corrente pré-milenista e pré-tribulacionista. Ou seja, eu acreditava que Jesus, em algum dia, iria arrebatar sua Igreja para o céu antes do começo de uma terrível tribulação de sete anos na terra, período em que haveria muita dor, perseguições brutais contra os cristãos que permanecessem para uma segunda chance de arrependimento e enormes catástrofes, as quais durariam até a Parusia (manifestação de Cristo ao mundo em sua segunda vinda). Aí então seria dado início ao tão esperado reino messiânico na terra até o Juízo Final em que os homens ímpios, que rejeitaram a Deus, seriam lançados num terrível lago de fogo e enxofre afim de sofrerem tormentos por toda a eternidade, enquanto que os crentes herdariam o paraíso da Nova Jerusalém.

Além disso, eu alimentava outras crenças escatológicas que não tinham base bíblica exclusiva e foram elaboradas conforme a imaginação de autores de livros. Entendia que a besta que emerge do mar de Apocalipse 13 seria o anticristo, o qual, por sua vez, corresponderia ao “homem da iniquidade” mencionado por Paulo na sua segunda epístola aos tessalonicenses (cap. 2). Então, juntando esta passagem com o Apocalipse e outras partes da Bíblia, eu montava na minha mente um verdadeiro cenário de horror, imaginando a formação de um futuro governo mundial com um perverso líder querendo a todo custo marcar as mãos e as testas das pessoas com o número 666. E aí, quem não resistisse, estaria para sempre condenado a arder no lago de fogo enquanto que os cristãos arrebatados ficariam livres daquela provação.

Ao lado de tudo isso, eu ainda segui a ensinos de que, antes do aparecimento do anticristo, o mundo ainda seria preparado para adorar a besta pelos místicos seguidores da Nova Era de Aquário, com o apoio de todas as religiões (menos dos cristãos verdadeiros), as quais seriam representadas pelo falso profeta que é a segunda besta de Apocalipse 13. Quando lia sobre a economia mundial em processo de globalização na década de 90, entendi ser aquilo um indício do temido governo mundial que seria dominado pelos europeus através da ONU (até os anos 80 eu achava que seria o comunismo soviético) e daí tinha minhas aversões aos movimentos pacifista, ecológico, ecumenista e de defesa dos homossexuais. Para a minha cabecinha atormentada, o código de barras estampado nos produtos do supermercado já era a tal marca da besta que, dentro de algum tempo, iria ser tatuada nas pessoas como uma espécie de identidade única, reconhecível pelo leitor ótico de um computador conectado à internet, e funcionando ao mesmo tempo como um cartão de crédito e débito na própria pele do consumidor, sem o qual ficaria impossível comprar ou vender qualquer bem porque, em tal circunstância, a moeda já não mais circularia pelas ruas.

Curiosamente, todo esse conhecimento de doutrinas e especulações sobre o fim do mundo era incapaz de me proporcionar uma compreensão da graça de Deus. Eu vivia com muito medo achando que Jesus iria arrebatar a Igreja a qualquer tempo e eu ficaria para trás por causa dos meus pecados afim de ser perseguido pelos soldados do anticristo. Tinha os mais terríveis pesadelos com isso, sonhando como se realmente estivesse vivendo no período da grande tribulação, sobrevivendo às escondidas dentro das cidades, vendo alguns parentes sendo marcados pelo capeta, tendo que me proteger das bombas nucleares e precisando resistir às mais dolorosas torturas. Quando dormia, sempre fechava a palma das mãos porque temia em meu imaginário que um demônio pudesse aparecer no quarto, marcar minha mão direita e eu perder qualquer possibilidade de ser salvo. Enfim, era um drama terrível e suponho que muitas pessoas também sofreram (ou ainda sofrem) por causa dessas teologias amedrontadoras de botequim.

Graças a Deus eu fui modificando a minha maneira de compreender o Apocalipse e o sentido das profecias bíblicas que falam dos últimos dias.

Hoje em dia, o Apocalipse é para mim algo muito mais simbólico do que literal, o que torna a sua profecia riquíssima em termos de significado espiritual para conhecermos a misericórdia de Deus e o seu controle sobre a história da humanidade. Aliás, o Apocalipse não deve ser estudado sem lermos também os profetas do Antigo Testamento que falaram por diversas vezes à nação de Israel trazendo um recado de Deus ao seu povo de acordo com o momento, ainda que com aplicações analógicas aos nossos dias.

A diferença entre o Apocalipse e os profetas hebreus é que agora Deus, através de Jesus Cristo e o Anjo, revela à Igreja seu plano de salvação, trazendo conforto, esperança e também advertências para aqueles irmãos que viveram durante o domínio de Roma. Aliás, foi para os cristãos da Ásia Menor (atual Turquia) que aquela carta profética circular foi escrita, servindo como uma grande motivação para as pessoas manterem a fé, pois todo o sofrimento suportado por tais comunidades iria ser transitório e a morte não passava de mera aparência.

Neste sentido, pode-se dizer que, para os tempos do Apocalipse, a tal besta com suas sete cabeças e dez chifres representava nitidamente Roma, a capital de um império que combatia cristãos e judeus. A adoração à besta simbolizava o culto à pessoa do imperador que, nas cidades da Ásia Romana, chegou a ser praticado com muito mais aceitação do que na Grécia e na Península Itálica a ponto da participação do indivíduo tornar-se quase que indispensável para ele integrar as corporações comerciais da época, ou do contrário jamais conseguiria comprar ou vender mercadorias e prosperar. Logo, enquanto alguns adoradores de César e sua imagem viviam debaixo da expectativa de acúmulo de talentos (moeda de maior valor que equivale hoje a milhões), os servos de Jesus teriam que viver apenas com os seus denários (a diária de um trabalhador braçal) e, periodicamente, ainda eram massacrados pelas mais cruéis perseguições promovidas pelos reis com a ajuda das autoridades locais.

Se pensarmos por esta ótica, o Apocalipse pode muito bem ter sido um livro subversivo para os séculos II, III e começo do IV. Seria uma literatura a grosso modo comparável com o Manifesto Comunista na era industrial em que o julgamento da Babilônia (capítulos 17 e 18) simbolizaria a conquista do império romano que supunham ser através dos partos numa equivalência ao fim do Estado burguês nos dias de Karl Marx.

Evidentemente que a minha comparação do Apocalipse com a literatura marxista mais popular limita-se apenas ao campo da contestação pois, enquanto Marx propôs a luta armada, João encorajou seus irmãos a serem pacientes na tribulação, aguardando a vingança do Cordeiro contra os seus adversários. Além do mais, se o Apocalipse não tiver o seu real significado adulterado, ele se torna uma mensagem permanentemente subversiva até que todos estejam vivendo com Deus na eternidade, enquanto que os livros de Marx, após as revoluções socialistas do século XX, passaram a ser utilizados pelos novos regimes totalitários que surgiram nos respectivos países.

Meditando sobre o que foi o socialismo na prática, fico a indagar se a ex-URSS, as repúblicas da Europa do Leste e a China de Mao Tsé-Tung não teriam se tornado novas Babilônias assim como foi a Alemanha de Hitler? E do que adiantou uma revolução armada na Rússia se depois o povo amargou um regime mais cruel do que o czarismo na época de Josef Stálin?

Não importa em que época vivemos, sei que precisamos saber identificar qual o sistema babilônico que atua nos nossos dias, o qual, com os seus tentáculos espirituais, tenta tragar os corações dos homens para um abismo individual e coletivo. E, se na época de João, a besta poderia ser associada ao Império Romano, hoje a forma do mal tem sido a corrupção, os tráficos de armas e de drogas, a miséria, as guerras, a exploração de crianças, a perversão sexual, a destruição do meio ambiente, o institucionalismo religioso que sé colocado acima das pessoas e as rebeliões do homem contra Deus.

Qualquer que seja a ocasião, a mensagem do Apocalipse nos ensina que cabe ao crente abraçar a escolha de sujeitar-se à vontade de Deus e não fazer parte do sistema podre desse mundo. Somos chamados para sairmos da Babilônia para não nos tornarmos cúmplices de seus pecados e nem participarmos de seu julgamento.

Se Jesus mandasse João escrever uma carta para as igrejas do Brasil no século XXI, o que será que o Senhor iria nos dizer sobre a promiscuidade entre pastores evangélicos e candidatos políticos nas eleições? Será que Ele aprova o uso de seu Nome nas mercenárias campanhas pela prosperidade de líderes evangélicos que, ao invés de pregarem as Boas Novas, resolvem devorar o rebanho de Deus? Como seria a atitude de Jesus quanto aos padres católicos que deixam famílias nordestinas debaixo da ignorância da idolatria, incentivando procissões atrás de imagens de escultura e consentindo com inegáveis adorações à Virgem Maria e Padre Cícero como se fosse possível haver outros intercessores perante o Pai além do Filho? Ora, como elogiar os cantores gospel que baseiam seus trabalhos num marketing religioso cheio de falsidades e pseudo-espiritualidade, mais preocupados com um mercado musical do que anunciarem verdadeiramente a Palavra?

Acredito que o Senhor Jesus não deve estar nem um pouco satisfeito com o comportamento acomodado, hipócrita e ganancioso dos nossos dias que revelam uma falta de temor pela sua pessoa, de modo que, sob este aspecto, o que João escreveu para os cristãos da Ásia Menor nos tempos de Roma parece aplicar-se ao tempo de hoje.

Amados, não podemos deixar que a correta compreensão do Apocalipse seja arrebatada dos corações dos homens por causa de especulações fantasiosas de pessoas sensacionalistas que, no final das contas, acabam distorcendo o significado da profecia!

Para mim, parece inútil alguém debater sobre qual a concepção teológica correta a respeito do milênio messiânico (se é o pré-milenismo, o pós-milenismo ou o a-milenismo). Igualmente não tem a mínima importância as discussões estéreis se a Igreja experimentará ou não um arrebatamento antes, durante ou após a grande tribulação ou ainda se esta já se cumpriu na época de Roma. Pois, ao invés das pessoas tentarem fazer previsões do futuro, especulando pateticamente se o Bill Gates ou o Bono Vox, vocalista do U2, vai se revelar como o anticristo, elas deveriam se converter verdadeiramente à graça salvadora de Jesus, arrependendo-se de seus pecados, praticando o amor e pregando o Evangelho. Aliás, como iniciei e termino meu texto, a mensagem do Apocalipse é uma bela revelação da graça:


“O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida.” (Ap 22.17; ARA)