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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A reencarnação e a graça divina

Recordo-me que, nos meus tempos de adolescente, aprendi na igreja que a crença na reencarnação seria uma negação da cruz de Cristo e uma mentira diabólica para as pessoas irem para o "inferno". Ensinaram-me que pelo fato dos espíritas acreditarem ser preciso renascer outras vezes num corpo físico estariam eles rejeitando a salvação proposta por Deus através da graça. Esta, conforme me diziam, só seria alcançada mediante a aceitação do sacrifício substitutivo de Jesus acompanhada de um arrependimento sincero de pecados mais uma confissão pública de fé, a qual então se confirmaria pelo batismo nas águas e por atos condizentes com uma vida regenerada.

Com o passar do tempo, vim a compreender que tinha uma visão muito empobrecida da graça de Deus. Questões sobre como se "salvariam" aqueles aos quais jamais foi anunciado o Evangelho de Cristo (ou da Igreja) permaneciam em aberto. Também em relação aos israelitas que viveram antes de Jesus nascer pairava outra dúvida já que eles desconheciam o salvador e tinham uma concepção messiânica distinta do que consta na doutrina baseada no cânon oficial do Novo Testamento.

Ora, mas será que Deus seria capaz de mandar a alma de uma pessoa para o "inferno", destinando-a a sofrer eternamente, só porque ela não escutou o discurso salvífico de um crente ou deixou de compreender a mensagem que lhe foi pregada a ponto de ir à frente da congregação quando o pastor fez o apelo no fim do culto? Que divindade sádica e injusta seria esta inventada pelos cristãos fundamentalistas que condenaria a própria criação pra assar num lago de chamas?!

Felizmente a própria vida e a realidade complexa das coisas vieram a me ensinar sobre o quanto a graça divina é rica para com todos, indo muito além da nossa compreensão restrita. Pois tal graça opera independentemente da ação ministerial daqueles que se consideram portadores das boas notícias salvíficas e alcança a todos os seres na condição em que cada um se encontra. E aí pouco importam as nossas convicções pessoais sobre a Divindade ou qual o conjunto de crenças de cada indivíduo.

Neste sentido, hoje admito não só a salvação dos reencarnacionistas como também penso que eles estão debaixo da cobertura da graça de Deus. Nem mesmo aqueles que seguem a corrente científica da conscienciologia fundada pelo médico Waldo Vieira e que negam a religião, baseando-se em estudos sobre o parapsiquismo e aplicando às suas pesquisas aquilo que chamam de "princípio da descrença".

Admitindo como mera hipótese a reencarnação, apenas para fins de raciocínio e reflexões, pergunto se, neste caso, uma Inteligência Superior não estaria por trás de todo o sistema existencial crido pelos espíritas e outras inúmeras tradições religiosas do planeta? Pois, se as pessoas normalmente nascem, crescem, reproduzem, envelhecem, morrem e depois retornariam renascendo em outro corpo, quem estaria regendo todo este ciclo acima da vontade pessoal de cada um? Como conceber a existência de um sistema que seria anterior ao homem sem admitir a existência de Deus?

Outrossim, por mais que muitos tentem negar, eu vejo a operação da graça dentro da visão reencarnacionista e que jamais seria anulada pelo carma. Porque mesmo que a consciência desencarnada precise retornar à Terra para poder evoluir, tentar reparar o mal que fez ao outro na vida passada ou então simplesmente compreender mais um pouco sobre si mesma, estaria a graça ausente? E aí, se pensarmos bem, Deus, na visão de muitos espíritas, torna-se até mais gracioso do que nas palavras arrogantes de certos pastores evangélicos que tentam fazer do Evangelho uma coação baseando-se em partes da Bíblia para que seus ouvintes "aceitem Jesus":

"Céu ou inferno? Onde você vai querer passar o resto da eternidade?"

Todavia, tenho uma questão que vai contra o que a maioria dos evangélicos fala e também em relação ao que vários espíritas dizem de outra maneira. Entre estes, há quem afirme ser a Terra um lugar de sofrimentos, pelo que nós estaríamos aqui porque precisaríamos sofrer o carma de vidas passadas. E, por sua vez, tem predominado no meio evangélico a noção de que o mundo em breve vai acabar e só nos restaria esperar por uma nova Terra. Só que eu sou radicalmente contra estes pensamentos pois são concepções que não buscam considerar o lado bom da vida aqui no presente e projetam a felicidade humana para um momento futuro.

É nessas horas que o Evangelho do Reino de Deus cai como uma luva para as nossas necessidades verdadeiras afim de convocar a humanidade inteira para que transforme a triste realidade na qual ela se encontra hoje. O Evangelho que considera a graça nos seus múltiplos aspectos busca é dialogar com cada religião e cultura diferente afim de instigar uma transformação social unida à espiritualidade, confirmando aquela frase da criação que, com frequência, é repetida no capítulo um de Gênesis:

"Deus viu que isso era bom".

Para abraçar o Evangelho do Reino não é preciso tornar-se cristão e nem aceitar um conjunto de crenças religiosas. Até a Bíblia torna-se dispensável por mais que ela contenha valiosíssimos ensinamentos. Porque basta que o homem compreenda a importância de contribuir para a transformação do planeta e encontre dentro de si mesmo a paz, sabendo que é amado por Deus incondicionalmente, sem precisar dar nada em troca. Nem mesmo a sua fé Nele.

Concluindo, se existe reencarnação ou não, trata-se de um mistério que pouco deve nos importar. Por alguma razão maior a fisicalidade oculta do homem os caminhos pelos quais percorre a alma, ainda que alguns tenham suas experiências subjetivas do mundo espiritual por meio de fenômenos paranormais. Porém creio que basta a revelação da instrução divina para que a ponhamos em prática e assim estejamos bem aqui, sendo que é nesta vida que precisaremos tomar atitudes aprendendo a ser felizes em harmonia com o bem estar do próximo.

Que a graça de Deus seja com todos!


OBS: A ilustração usada neste artigo e que aparece em diversas páginas na internet eu a extraí do seguinte site http://www.espiritualismo.hostmach.com.br/reencarnar.htm

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O que você entende por salvação?

Olá, amigos! Gostaria de compartilhar uns pensamentos meus aqui.

Acredito em salvação num amplo e talvez num "duplo" sentido. Tanto no "presente" quanto em relação ao "futuro", se é que o tempo de fato existe.

Somos ensinados por Jesus a sermos salvos das doenças, das emoções negativas e de todo comportamento vil, assim como somos salvos da morte física através da percepção da vida que é eterna. E, sob certo aspecto, somos salvos das nossas ficções também.

Por outro lado, esta salvação se dá tanto individualmente quanto no aspecto coletivo. Pois eu entendo que o Reino de Deus não seria numa segunda Terra e muito menos num novo Universo visível, mas sim neste mesmo planeta transformado. Ou seja, imagino a humanidade com o seu modo de pensar modificado, aprendendo a lidar melhor com o seu lado mau.

Pra mim, um fim de mundo tal como ocorre nas sensacionalistas interpretações do Apocalipse, a exemplo do livro "Deixados para trás", com arrebatamentos de pessoas, vinda do anticristo, marcação das mãos e testas dos incrédulos com o 666 e perseguição aos crentes que restarem por um governo mundial até que Jesus volte sobre as nuvens montado num cavalo branco parecem mais paranoias humanas integrantes de uma absurda teologia do medo e que ajuda a movimentar uma rentável indústria literária nos meios eclesiástico e secular.

Cada vez mais tenho percebido que a manifestação do Reino de Deus se dará imperceptivelmente aos olhos humanos até que o mundo realmente compreenda o amor ensinado pelo Messias que eu creio ser Jesus e também todos os que alcançam a consciência messiânica. E, quando houver um número bem representativo de pessoas praticando o amor, nossa atmosfera espiritual vai mudar, o que não significa perfeição total. Talvez, neste tempo, o homem estará respeitando melhor a natureza, o seu próximo e compreendendo que a sua sobrevivência e bem estar dependem também da felicidade de todos, bem como de se liberar graciosamente o perdão.

Todavia, o Reino não se restringe à fisicalidade ou à chegada desta era de amor e paz. Pois, como fica o destino das pessoas "mortas" e que continuarão a "morrer"? É aí que entra a inteligência espiritual em que aprendemos a lidar com a nossa inevitável dessoma e com a ausência dos entes queridos, coisa que o materialismo é incapaz de proporcionar.

É possível que, no futuro glorioso da humanidade, a concepção de morte (não a desencarnação) deixe de existir e ninguém fique mais excessivamente preocupado com o amanhã. Porém, quem deixar o mundo físico, continuará amparado por Deus e participando da comunidade dos justos, conforme acredito que sempre ocorreu. E daí a importância da mensagem do Evangelho ser aplicada aos que estão nesta vida, para sermos salvos do presente século e da concepção equivocada sobre a morte, não de uma fictícia ameaça de castigo para quem não concordar com o pacote de crenças oferecido pelas empresas religiosas que se autodenominam "igrejas".

Paz!


OBS: A imagem acima trata-se de uma obra do pintor alemão Hans Memling, que viveu no século XV, sendo bem de domínio público e foi extraída da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:MemlingJudgmentCenter-crop.jpg

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Salmo 67: um cântico de gratidão a Deus pelas "colheitas"

"A terra deu o seu fruto,
e Deus, o nosso Deus, nos abençoa.
"
(Sl 67.6)

Na atualidade, como tem sido difícil as pessoas agradecerem ao Eterno pelas boas dádivas que desfrutamos?! Vivemos dias em que a humanidade falha por não reconhecer a participação de Deus na concretização dos seus projetos, ignorando até a existência do seu Criador.

Contudo, o salmo 67, notável pelo seu escopo universal, inicia com uma súplica a Deus e que faz lembrar a bênção sacerdotal (Bircat Kohanim), conforme se lê também em Números 6.25:

"Seja Deus gracioso para conosco,
e nos abençoe,
e faça resplandecer sobre nós o rosto
"
(verso 1)

Ora, o que significa "resplandecer o rosto"?

Uma ideia que logo se relaciona com esta imagem seria o favor divino que produz a bem-aventurança. Assim como as plantas necessitam da luz solar para crescerem e darem frutos, nós também precisamos ser interiormente iluminados pela Presença do nosso Criador, alcançando a sabedoria espiritual inspiradora das Escrituras, o que só pode ser obtido através da graça e da bondade de Deus.

Certamente que, no decorrer do poema bíblico, o louvor de gratidão do salmista não se resume às colheitas agrícolas, em cujas festividades os israelitas recitavam, e daí a importância do selah, isto é, da pausa meditativa sugerida pelo redator. Pois, quando paramos para refletir no que existe além dessas simples palavras, compreenderemos que o poeta estava apresentando um plano de Deus para toda a humanidade.

Sem dúvida que Deus é o soberano de todas as nações e não apenas de um só país. Através da Bíblia sabemos que o povo de Israel buscou um relacionamento com Deus. Porém, o Eterno quer ser conhecido pela humanidade inteira e dar a todos graciosamente a sua salvação.

No verso dois do poema (numeração da tradução revista de João Ferreira de Almeida), o salmista fala do conhecimento do "caminho" de Deus, o que está relacionado intimamente com a salvação. E aqui cabe fazer uma indagação sobre do que precisamos ser salvos?

Sinceramente, não acredito nessas fantasias escatológicas que muitos propagam nos dias atuais, instigando o medo e promovendo um desprezo pela continuidade da vida no planeta como se tudo aqui tivesse que ser destruído e somente os crentes em Jesus habitarão uma nova Terra revestidos por um corpo celestial. Aliás, estas ideias apocalípticas nem ao menos se passavam pela cabeça do salmista quando ele compôs o poema, visto que para ele a salvação estava intimamente relacionada com a compreensão dos caminhos de Deus.

Sem dúvida que a palavra caminho entra no texto como uma metáfora para a instrução divina (Torá). Logo, para que o homem possa experimentar a salvação (em sua vida terrena), ele deve fazer o seu ouvido atento à orientação que Deus lhe dá a desta maneira aprender a viver, lidando harmonicamente com os seus sentimentos e desejos.

Observa-se implícito no texto bíblico o papel messiânico de Israel. Pois, tendo a nação alcançado uma experiência no conhecimento de Deus, caberia aos judeus convidar todos os povos para a adoração do Eterno. E esta convocação trata-se de um compartilhar considerando que o outro também tem a sua forma de relacionamento com a Divindade, algo que é bem diferente dos "evangelismos" de inúmeras igrejas por aí.

Por sua vez, o universalismo do Salmo 67 respeita a diversidade cultural das nações. Cada povo permanece independente em relação ao outro. Eles não perdem seus territórios, mas apenas são julgados Deus de toda a Terra. Não se trata da imposição da fé num deus judeu, mas sim no reconhecimento da Inteligência que antecedeu o Universo e nos guia a um propósito elevado. Portanto, no versículo sete, o poema atinge o seu objetivo final que é a essência da salvação de Deus: "e todos os confins da terra o temerão".

Certamente que o "temor de Deus" não significa medo, mas sim reverência. E, quando a humanidade passar a ter respeito pela Inteligência Superior, começar a amar a Vida e a refletir sobre si mesma, ela terá alcançado a tão desejada "salvação". E, com esta compreensão, passamos a entender que o importante é sermos salvos no aqui e agora e não a ideia de que seremos salvos após a morte ou quando chegar a fim do mundo. Pois, se permitirmos que o Santíssimo graciosamente nos oriente, mostrando-nos o seu caminho, tão logo notaremos a percepção da sua doce Presença e a sua salvação.

Junto com todo esse entendimento opera o louvor. Através da celebração feita com gratidão e alegria, podemos viver no presente momento o reinado do Eterno sobre as nossas vidas. Não precisamos esperar este ou aquele acontecimento para ficarmos de bem com a vida. Para Deus não importa o valor do nosso patrimônio econômico ou moral. Tão pouco Ele está interessado em ficar anotando os nossos erros para depois nos pedir conta das condutas praticadas como se desejasse sair distribuindo punições. Deus simplesmente nos convida para o seu banquete, afim de que possamos festejar a vida ao lado do nosso irmão.

Assim, para concluir meus comentários sobre o Salmo 67, compartilho a seguir este magnífico louvor cantado por Asaph Borba em Israel denominado Selah e que foi disponibilizado no Youtube pela própria gravadora Adorarnet.



OBS: A imagem ilustrativa deste artigo foi extraída do ficheiro da Wikipédia e mostra um homem trabalhando no cultivo de arroz, tendo sido um produzida pela United States Agency for International Development, o que torna o material de domínio público - http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Rice_Field.jpg

domingo, 29 de maio de 2011

Deus não quer apostas pascalianas!


Certa vez o filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662), ao debater sobre a impossibilidade de provar a existência de Deus, argumentou dizendo que o homem deveria optar pela crença. Segundo o seu pensamento, se Deus não existir, o crente não sofrerá prejuízo algum quando morrer. Porém, considerando a possibilidade de Deus existir, o crente ganharia a vida eterna enquanto que o descrente perderia tudo depois da morte em tal hipótese.

Utilizando-se desta mesma lógica de Pascal, inúmeros pregadores desenvolveram argumentos bem ameaçadores nos seus discursos com a finalidade de proselitar pessoas. Ao invés de mostrarem a face bondosa de um Deus que nos ama desde a eternidade, tais "evangelistas" resolveram atrair seguidores apelando ao medo (o falacioso Argumentum ad baculum).

Neste aspecto, o pastor norte-americano William Franklin Graham Jr (mais conhecido como Billy Graham), admirado por muitos como sendo o maior pregador do século XX, também fez uso da mesma armadilha discursiva em seu aplaudido sermão "Heaven or Hell" ("Céu ou Inferno") que pode ser facilmente encontrado na internet:


"Certo dia, um agnóstico falava com um cristão. E ele disse: 'Suponha que um minuto após morrer você descubra não existir o céu'. O cristão respondeu: 'Se o céu não existisse, ainda assim teria valido a pena, em razão da alegria e da paz que tive em meu coração nessa vida cristã. Mas gostaria de lhe perguntar uma coisa. Sr. Agnóstico, suponha - apenas suponha - que você acordou e percebeu que, depois de tudo, existe realmente o inferno. Suponha que exista apenas uma chance em cem de existir o inferno. Você concederia, nesta noite, haver possivelmente uma chance em cem, de que realmente exista o inferno? Então, valeria a pena dar tudo o que você tem para escapar desse lugar chamado por Jesus de inferno'". (extraído do livro "Onde a religião termina?" do ex-frei Marcelo da Luz, pág. 111)


Penso que ao manejar estas palavras, Billy Graham não foi feliz pois demonstrou uma enorme fragilidade no seu sermão. Isto porque o argumento baseia-se nas supostas consequências negativas que os descrentes poderão sofrer caso não levantarem as mãos durante o apelo do pregador para "aceitar a Cristo", conforme costuma ocorrer no final das reuniões do evangelista. Os que não derem o assentimento às suas palavras poderão sofrer irreversíveis castigos como a perda da vida eterna, ardendo pelos séculos dos séculos nas chamas de um inferno.

Ora, alguém poderia então perguntar que deus é este que precisa intimidar as pessoas para ser crido ou obedecido? Pois, se a fé de alguém está baseada numa espécie de aposta pascaliana, não seria melhor que um deus assim nem existisse? Não seríamos muito mais felizes sabendo que podemos fazer escolhas existenciais conforme a própria consciência e nos baseando não em pregações de A, B ou C mas sim numa convicção pessoal a respeito de praticar o bem livres de qualquer ameaça?

Acontece que o Deus vivo e verdadeiro ama a todos incondicionalmente e deseja ser amado pelo que Ele é, independentemente de promessas ou bênçãos futuras oferecidas aos devotos. Seu amor sincero existe desde a eternidade dos tempos, antes da Terra e de todo o universo serem criados. Antes mesmo de sermos gerados no ventre materno, o nome de cada um de seus filhos já estava escrito no Livro de Deus e uma festa nos céus foi celebrada na ocasião do nosso nascimento sem que nada tivéssemos feito para merecer.


"Pois tu formaste o meu interior; tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda." (Salmo 139.13-16; ARA)


Sem dúvida que este poema bíblico conduz-nos à abundante graça divina, fonte da vida para todos os homens, salvando-nos de qualquer pecado. Mesmo da própria descrença visto que nem as trevas escurecem os olhos do Eterno.

"Se digo: as trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite, até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma coisa." (Sl 139.11-12)

Não importa em qual abismo a pessoa se encontre, pois ela pode reconciliar-se com o seu Criador a qualquer hora. E isto não precisa ser durante o culto evangelístico de uma igreja visto que pode ocorrer dentro da nossa casa, num presídio, num prostíbulo, numa boca de fumo ou nos últimos instantes da nossa vida errante a exemplo do "bom ladrão" crucificado ao lado de Jesus (ver Lucas 23.39-43). Pois somos sempre salvos pela graça divina sem que nada possamos oferecer em troca. Nem mesmo a fé que é gerada no coração do homem também pelo favor de Deus como resultado da ação do seu Espírito em nós.

Tal como no Salmo 139, cuja autoria é atribuída ao rei David, ninguém pode esconder-se do Deus onisciente. O Eterno conhece todas as nossas motivações íntimas e sabe muito bem que uma pessoa levantou as mãos durante um "apelo" feito pelo Billy Graham devido a um falho raciocínio pascaliano e não porque o novo devoto deseja de fato conhecê-lo.


"SENHOR, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto.; de longe penetras os meus pensamentos. Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos. Ainda a palavra não me chegou à língua, e tu, SENHOR, já a conheces toda. Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim pões a mão. Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir. Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face?" (Sl 139.1-7)


Sim! Para onde fugiremos deste amor tão grande que nos cerca? Para qual lugar?

Então pra que resistir à maravilhosa graça de Deus? Por que continuar fugindo e se trancando em si mesmo?

Mas conhecer a Deus não requer nenhum raciocínio lógico formulado por filósofos. Deus é puro amor e quer ser compreendido nesta dimensão. Não pelo medo ou pela ameaça feita pelos pregadores.

"No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo aquele que teme não é aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro." (1João 4.18-19)

Assim, festejando este amor, quero encerrar minha mensagem com este maravilhoso vídeo do Asaph Borba cantando o Salmo 139.




OBS: A ilustração deste artigo refere-se a uma pintura anônima feita no século XVII sobre o grande físico, matemático, filósofo moralista e teólogo francês Blaise Pascal.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Suficiente graça

“Com a força que Cristo me dá, posso enfrentar qualquer situação” (Fp 4.13; NTLH)

O verso 13 do capítulo 4 da epístola de Paulo aos filipenses, quando o apóstolo diz “tudo posso naquele que me fortalece” (conforme as traduções de João Ferreira de Almeida, da Nova Versão Internacional ou da Bíblia de Jerusalém), tem sido uma das citações bíblicas mais papagaiadas pelos evangélicos, embora seja também muito incompreendida pelos que a repetem. Na maioria das vezes, o seu contexto é ignorado e os teólogos da prosperidade logo distorcem o versículo para iludirem seus ouvintes, dando a entender equivocadamente que podemos realizar milagrosamente todas as coisas como um super crente, sem jamais sermos derrotados.

Entretanto, basta uma breve leitura a partir do verso 10 para que possamos entender, ao menos com a mente, o que Paulo estava querendo dizer aos destinatários de sua carta, os irmãos da Igreja na cidade de Filipos, os quais se mostravam sempre interessados para apoiarem o seu ministério:


“Alegro-me grandemente no Senhor, porque finalmente vocês renovaram o seu interesse por mim. De fato, vocês já se interessavam, mas não tinham oportunidade para demonstrá-lo. Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem-alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.” (Fp 4.10-13; Nova Versão Internacional – NVI)


Como eu disse, posso entender com a mente o sentido do que Paulo teria escrito aos filipenses, mas para dizer a verdade acho que a vida inteira ainda é pouco para que todos, inclusive eu, compreendamos em sua totalidade que tudo podemos naquele que nos fortalece, crendo e descansando na suficiência da graça de Deus. Pois para mim que, se comparando ao apóstolo Paulo, suportei pequeníssimas tribulações, estou falando de coisas que, obviamente, não experimentei quando tagarelo tudo poder em Deus.

Todavia, passamos a nossa vida inteira procurando entender com o coração o que é a graça de Deus. Somos salvos por esta graça maravilhosa, sem nada merecermos, e recebemos de Deus a vida eterna que inclui inúmeras bençãos, as quais podem se manifestar também enquanto estamos vivendo aqui nesta terra. Só que a graciosa salvação vinda de Deus não nos isenta de atravessarmos dificuldades. Aliás, é isto que Jó responde à sua esposa, a qual, conhecendo a integridade do marido aconselha-o a amaldiçoar Deus e morrer (talvez cometer um suicídio):


“Saiu, pois, Satanás da presença do SENHOR e afligiu Jó com feridas terríveis, da sola dos pés ao alto da cabeça. Então, Jó apanhou um caco de louça e com ele se raspava, sentado entre as cinzas. Então sua mulher lhe disse: 'Você ainda mantém a sua integridade? Amaldiçoe a Deus, e morra!' Ele respondeu: 'Você fala como uma insensata. Aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal?' Em tudo isso, Jó não pecou com seus lábios.” (Jó 2.7-10; NVI)


Quando mencionei a possibilidade de que a mulher de Jó tivesse lhe sugerido o suicídio é porque na cultura oriental não é incomum alguém resolver tirar a própria vida ao enfrentar determinadas situações vergonhosas de derrota. Nas guerras e rebeliões, era comum os revoltosos cometerem um suicídio coletivo para não serem capturados pelo exército inimigo. Porém, não há como negar que o suicídio pode significar também uma atitude de auto-justificação, ou de auto-piedade, em que o indivíduo decide pela auto-destruição numa resistência à restauração do ser proposta pela graça.

A graça nos dá condições para lidarmos com toda e qualquer situação, afim de que, semelhantes a Jó, respondamos com esta indagação: “se recebemos de Deus os bens, não deveríamos receber também os males?” (Bíblia de Jerusalém - BJ)

A graça nos basta! Foi isto que o Senhor disse a Paulo depois que o apóstolo pediu pela terceira vez que lhe fosse tirado o “espinho na carne”, conforme podemos ler na segunda epístola à Igreja em Corinto:


“E para que eu não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte.” (2Co 12.7-10; ARA)


Não quero perder tempo tentando decifrar o misterioso espinho na carne de Paulo e acho que quanto mais pudermos generalizar esta expressão, aplicando-a nas mais diversas situações da vida, melhor será a nossa compreensão da suficiência da graça, o que é fundamental para o crescimento e para a maturidade do seguidor de Jesus. Se for por causa das perseguições, a graça basta. Se o problema for alguma enfermidade que os médicos e as orações não curam, a graça basta. Se é falta de dinheiro, a graça basta. E se o nosso espinho é o contínuo desejo de pecar que não conseguimos eliminar, a graça também basta porque o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza humana (no reconhecimento de que somos fracos para vencermos os obstáculos com a própria força).

Nós cristãos, que cremos na salvação pela graça, confessamos sempre isto. Porém, os muçulmanos devotos também recitam diariamente que Deus é “clemente” e “misericordioso”, mas desenvolvem um relacionamento com o Divino baseado no medo de serem castigados na “Geena” (o inferno). Quase todas as suras do Alcorão começam dizendo “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso”, porém os versos que sucedem o primeiro negam tal misericórdia e pregam, na prática, uma salvação por obras:


“Mas quando chegar a catástrofe maior,
No dia em que o homem se lembrar de seus esforços,
E a Geena for visível para todos os que podem ver,
Aquele que tiver prevaricado,
E preferido a vida terrena,
Terá a Geena por morada.”
(Sura 79.34-39, tradução de Mansour Challita)


Ou então:


“Uns acreditam em Muhamad; outros afastaram-se dele.
Basta a estes o fogo da Geena.
Os que rejeitam Nossos sinais, breve jogá-los-emos no Fogo.
Cada vez que suas peles forem queimadas, substituí-las-emos por outras para que continuem a experimentar o suplício.
Deus é poderoso e sábio.”
(Sura 4.55-56; op. cit.)


Que horror! Será que Deus quer que o homem se converta a Ele por medo de sofrer um castigo doloroso? Ou não é um relacionamento amoroso que Ele anseia desenvolver conosco?

Acontece que, enquanto não aplicamos a graça em todos os aspectos de nossas vidas, continuamos agindo como os muçulmanos, caindo nos enganos da auto-justificação e pensando que devemos conseguir algo porque somos bons homens. Aí quando a provação chega, ficamos a indagar por que aquela situação está acontecendo de modo que deixamos de usufruir de todos os benefícios da salvação de Deus.

Não acho que tenha sido fácil para Paulo e para Jó terem passado por tudo aquilo que sofreram. Porém, ambos compreenderam a extensão da graça e o contentamento de um lindo relacionamento com Deus. E, ao final, Jó declara: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem” (Jó 42.5; ARA).

Creio num Deus que não quer ser adorado pelas bençãos que Ele nos concede ou porque dará a seus filhos uma porção no paraíso. Ele quer que nós o amemos pelo que Ele é. Desde o início da criação, Deus sempre desejou um relacionamento amoroso com a humanidade e manifestou este amor pela graça que foi revelada em Jesus de modo que somos aceitos por Ele incondicionalmente, o que independe daquilo que fazemos. Aliás, é quando estamos conscientes de que nada podemos oferecer a Deus é aí que melhor compreendemos o quanto Ele realmente é misericordioso e compassivo, o que aperfeiçoa a nossa relação com o Eterno.

sábado, 27 de novembro de 2010

Jesus, o maior advogado que este mundo já viu!

Nos últimos anos, muitos autores escreveram livros sobre diversos assuntos falando de Jesus. Não só nas livrarias cristãs, como também nas lojas seculares, encontra-se obras com os mais variados títulos voltados para auto-ajuda, dentre os quais posso destacar os seguintes: “Jesus, o Maior Líder Que Já Existiu” (Laurie Beth Jones), “Jesus, o Maior Psicólogo que Já Existiu” (Mark Baker), “O mestre dos mestres – Jesus, o maior educador da história” (Augusto Cury), “Jesus, o homem mais sábio que já existiu” (Steven K. Scott) e “Jesus, o Maior Executivo Que Já Existiu – Lições Práticas de Liderança Para Os Dias de Hoje” (Charles C. Manz).

Todavia, o que dizermos quanto ao fato de ter sido Jesus o maior advogado que o mundo já viu?

Ontem, logo depois que estalou em minha cabeça a ideia de escrever este texto, pesquisei no sistema de busca do Google e não encontrei nenhum livro, ou artigo, que já tivesse se utilizado deste título. Obviamente que há muitas mensagens na internet e fora da rede que mencionam Jesus como o nosso advogado até porque uma passagem bíblica cita-o desta maneira, sendo este o termo que aparece na tradução mais conhecida dentro do idioma português – a versão revista e atualizada de João Ferreira de Almeida.

“Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.” (1 João 2.1-2; ARA)

Pretendo voltar a este versículo mais adiante quando estiver terminando a redação deste texto. Por enquanto, meus pacientes leitores, quero analisar apenas alguns momentos sobre Jesus registrados nos Evangelhos que o qualificam como o Advogado dos advogados, comentando situações em que o ele tomou a defesa de seus discípulos ou de outras pessoas.


- DEFENDENDO OS DISCÍPULOS

Houve uma ocasião descrita na Bíblia em que os discípulos de Jesus foram acusados pelos religiosos da época por não jejuarem. Embora a lei mosaica obrigasse apenas um jejum no dia do Yom Kippur (Levítico 16.29-31), a prática já fazia parte dos costumes dos judeus naqueles tempos que também jejuavam outras vezes no ano. Aparentemente, os fariseus talvez jejuassem umas duas vezes por semana (Lucas 18.12). Porém, com grande sabedoria, o Dr. Jesus defendeu seus seguidores de uma maneira incrível:

“Respondeu-lhes Jesus: Podem, porventura, jejuar os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Durante o tempo em que estiver presente o noivo, não podem jejuar. Dias virão em que lhes será tirado o noivo; e, nesse tempo, jejuarão.” (Marcos 2.19-20; ARA)

E prosseguiu:

“Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, pois o remendo forçará a roupa, tornando pior o rasgo. E ninguém põe vinho novo em vasilha de couro velha; se o fizer, o vinho rebentará a vasilha, e tanto o vinho quanto a vasilha se estragarão. Ao contrário, põe-se vinho novo em vasilha de couro nova”. (Mc 2.21-22; Nova Versão Internacional – NVI)

Com tais palavras, comparando-se com o “noivo” e também com o “novo”, Jesus esclareceu aos seus questionadores que aquele era um momento especial de celebração, em que as boas novas deveriam ser recebida da mesma maneira que a jubilosa alegria de um casamento onde os convidados da festa não jejuam, mas comemoram junto com o noivo. Afinal, a vinda do Reino de Deus representa a salvação dos homens, um estilo livre e espontâneo de viver, onde não há mais o peso da culpa pelo pecado, de maneira que não fazia sentido que os seguidores do Messias praticassem o jejum.

Por sua vez, como o Reino de Deus significou algo inovador para a humanidade, tornava-se preciso que aqueles religiosos recebessem o Reino como um pano ou um vinho novo, os quais se colocam em roupas e vasilhas de couro novas. Assim, a estrutura religiosa apenas com aparências de piedade e de rituais vazios obviamente não seria mais capaz de conter o “vinho novo” pois o odre (o recipiente) obviamente iria romper-se quando a bebida fermentasse.

Num outro dia, os discípulos de Jesus foram acusados por estarem colhendo espigas nos campos para se alimentarem. E isto aconteceu num dia de sábado, quando ninguém podia trabalhar.

De acordo com a lei mosaica, era permitivo que uma pessoa, com a finalidade unicamente de se alimentar, penetrasse na plantação alheia e arrancasse com as mãos as espigas de cereal (Deuteronômio 23.25). Porém, o Shabat deveria ser observado como um dia santificado de repouso semanal pelos judeus porque representa o descanso de Deus da criação de seis dias (Êxodo 20.11), além de ser uma lembrança da libertação dos israelitas da escravidão no Egito (Dt 5.15). Era assim o quarto mandamento do decálogo e que Moisés aplicou com rigor a ponto de ter proibido que os hebreus acendessem até fogo dentro de casa (Ex 35.3) e quem profanasse este dia estava sujeito à pena de morte (Ex 31.14).

Como Jesus iria defender seus amigos daquela complicada situação? Leiam e se surpreendam:

“Mas Jesus lhes disse: Não lestes o que fez Davi quando ele e seus companheiros tiveram fome? Como entrou na Casa de Deus, e comeram os pães da preposição, os quais não lhes era lícito comer, nem a ele nem aos que com ele estavam, mas exclusivamente aos sacerdotes? Ou não lestes na Lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa? Pois eu vos digo: aqui está quem é maior do que o templo. Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos, não teríeis condenado inocentes. Porque o Filho do Homem é senhor do sábado.” (Mateus 12.3-8; ARA)

No relato de Marcos sobre o mesmo episódio, há ainda um outro argumento que não constou no trecho acima do Evangelho de Mateus, mas que é de grande relevância:

“E acrescentou: O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Mc 2.27)

Magistralmente, Jesus citou as Escrituras hebraicas (o Antigo Testamento) afim mostrar para aqueles fariseus como é que deveriam a Torá, explicando-lhes teleologicamente (finalisticamente) o quarto mandamento cuja razão de existir era para benefício do homem, proporcionando o justo descanso semanal ao trabalhador, não se tratando de uma norma que tivesse fim em si mesma. Deste modo, ao comparar a conduta de seus discípulos com a do heroico rei Davi, Jesus deixou claro o quanto era absurdo impedir que seres humanos satisfizessem uma necessidade básica (a alimentação) apenas por causa de um aparente respeito ao sábado.

Que lição deu Jesus! Através daquele episódio, o Advogado dos advogados ensinou que regulamentos humanos não poderiam estar acima da satisfação das necessidades humanas pois o uso de qualquer lei em sentido contrário a este princípio torna-se uma distorção da norma que tem como objetivo a preocupação com o bem estar das pessoas. Para Jesus, a existência humana está acima de formalidades religiosas que são incapazes de distinguir uma atividade laboral de colheita do simples ato de alguém sair carregando com as mãos uma quantidade bem limitada de espigas necessárias apenas para a preparação do almoço naquele dia.

Além desta passagem, houve uma outra situação em que os fariseus reclamaram com Jesus porque seus discípulos estavam comendo sem antes lavarem as mãos, o que ia diretamente contra as tradições dos anciãos. Mas ao respondê-los, Jesus inicialmente expôs uma das transgressões cometidas por aqueles religiosos com o pretexto de estarem cumprindo suas tradições. Isto porque eles chegavam a violar até o quinto mandamento (honrar pai e mãe) quando permitiam que um filho pudesse consagrar como oferta a Deus aquilo que deveria ser dado aos genitores como sustento destes:

Respondeu Jesus: “E por que vocês transgridem o mandamento de Deus por causa da tradição de vocês? Pois Deus disse: 'Honra teu pai e tua mãe' e 'Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe terá que ser executado'. Mas vocês afirmam que se alguém disser ao pai ou à mãe: 'Qualquer ajuda que eu poderia lhe dar já dediquei a Deus como oferta', não está mais obrigado a sustentar seu pai dessa forma. Assim, por causa da sua tradição, vocês anulam a palavra de Deus. Hipócritas! Bem profetizou Isaías acerca de vocês, dizendo: “'Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens”. (Mt 15.3-9; NVI)

Será que coisas semelhantes não acontecem até nos dias de hoje dentro das igrejas cristãs em que pessoas são incentivadas a darem suas ofertas enquanto agem negligentemente com os próprios parentes em dificuldade financeira? Muita gente que aprende a louvar a Deus só com a boca, dizendo “glória” e “aleluia” nos cultos, não recebe de seus pastores gananciosos nenhum ensinamento para antes cuidar de um parente próximo já que o dízimo para atender aos interesses financeiros de tais líderes religiosos dos nossos tempos parece vir em primeiro lugar na vida dos crentes.

Jesus naquela ocasião demonstrou não só conhecimento das Escrituras como também poder de argumentação quando citou um trecho do livro do profeta Isaías, o qual se aplicava adequadamente àquela situação de seus dias (e também dos nossos). E concluiu dizendo que aquilo que contamina espiritualmente o homem é o que sai de sua boca, não o que entra (Mt 15.11), tendo depois dado aos seus discípulos a explicação deste significado:

“Não percebem que o que entra pela boca vai para o estômago e mais tarde é expelido? Mas as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas que tornam o homem impuro. Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias. Essas coisas tornam o homem impuro; mas o comer sem lavar as mãos não o torna impuro.” (Mt 15.17-20; NVI)

- DEFENDENDO A MULHER ADÚLTERA

Todavia, uma das mais emocionantes defesas de Jesus é a cena do apedrejamento da mulher adúltera inserida no Evangelho de João que foi também um tremendo teste. Isto porque o alvo maior dos fariseus não era a mulher, mas sim Jesus:

Ao amanhecer ele apareceu novamente no templo, onde todo o povo se reuniu ao seu redor, e ele se assentou para ensiná-lo. Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério. Fizeram-na ficar em pé diante de todos e disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério. Na Lei, Moisés nos ordena a apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz?” Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, afim de terem uma base para acusá-lo. Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo. Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar a pedra nela”. Inclinou-se novamente e continuou escrevendo no chão. Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez, começando pelos mais velhos. Jesus ficou só, com a mulher em pé diante dele. Então Jesus pôs-se em pé e perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou?” “Ninguém, Senhor”, disse ela. Declarou Jesus: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone a sua vida de pecado”. (João 8.2-11; NVI)

Se você estivesse ali, no lugar de Jesus, o que teria feito? Diria de imediato que a mulher não tinha que ser apedrejada para os fariseus te acusarem de transgressor da lei? Ou negaria todos os seus princípios de misericórdia e perdão ao próximo deixando que aquela mulher fosse apedrejada?

Antes de responder, saiba primeiro que, segundo a lei mosaica, a pena para o adultério é mesmo a morte por apedrejamento, tanto para o homem quanto para a mulher que pecam (Levítico 20.10). E dizer que a mulher não devia ser morta seria contrariar expressamente o texto da Torá que Jesus afirmou cumprir no Sermão da Montanha (Mt 5.17-20).

Confesso que, se eu estivesse ali no lugar de Jesus, teria enormes embaraços para me posicionar diante da situação. Primeiramente iria notar a ausência do homem que devia ter sido conduzido em flagrante junto com ela e, imprudentemente, tomaria a infeliz decisão de questionar a ausência do co-autor do delito para poder absolvê-la pela falta de provas, o que acabaria por piorar a situação adiando o julgamento que, em poucas horas, deixaria Jerusalém inteira alerta. Jesus, porém, agindo sabiamente, soube acabar de vez com aquilo ao transferir a responsabilidade do julgamento para os próprios acusadores, permitindo que eles mesmos resolvessem a questão.

Naquele momento de grande pressão, Jesus conseguiu conduzir com paciência a situação e passou a escrever na areia ao invés de dar uma resposta imediata. Depois, deixou que os próprios acusadores da mulher decidissem o seu destino, porém mudando a base do julgamento. Ou seja, quem nunca tivesse pecado que atirasse a primeira pedra. Com isto, cada um dos homens ali presentes começaram a refletir sobre a sua própria condição e, individualmente, foram deixando o local até restar apenas Jesus e a mulher.


- EM DEFESA DA CORRETA INTERPRETAÇÃO LEI DE DEUS

Além destes episódios até aqui comentados, Jesus também foi um grande defensor do direito divino, explicando aos fariseus e demais religiosos os fundamentos da Torá, cujos mandamentos resumem-se nisto: a prática do amor (a Deus e ao próximo).

“E um deles, intérprete da Lei, experimentando-o, lhe perguntou: Mestre, qual é o grande mandamento da Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.” (Mt 22.35-40; ARA)

Ao dizer isto, Jesus falou daquilo que os escribas e fariseus já conheciam em suas mentes: O Shema de Deuteronômio 6.4-5 e o texto de Levítico 19.18 que, desde os tempos de Moisés, já desestimulava a vingança e a prática da ira. Em outras palavras, Jesus veio conduzir os homens à compreensão exata do Espírito da Torá – a promoção de atos de misericórdia.

Em sua última semana, dias antes de ir para a cruz, os religiosos reuniram-se para tentar pegá-lo em alguma contradição. Quando o questionaram sobre a sua autoridade (na certa referindo-se à expulsão dos vendilhões do templo), Jesus lhes respondeu com outra pergunta afim de evitar um debate que, obviamente, traria consequências contrárias ao seu plano:

“Ele respondeu: “Eu também lhes farei uma pergunta; digam-me: O batismo de João era do céu, ou dos homens?” Eles discutiam entre si, dizendo: “Se dissermos: Do céu, ele perguntará: 'Então por que vocês não creram nele?' Mas se dissermos: Dos homens, todo o povo nos apedrejará, porque convencidos estão que João era um profeta”. Por isso responderam: “Não sabemos de onde era”. Disse então Jesus: “Tampouco lhes direi com que autoridade estou fazendo estas coisas”. (Lucas 20.3-8; NVI)


Brilhante solução trouxe Jesus ao ser indagado se deveria ou não pagar tributo a César. Percebendo a astúcia dos caras, Jesus pediu emprestado uma moeda e perguntou aos ouvintes de quem era imagem a inscrição estampadas naquela pratinha que trazia o rosto do imperador romano. Então sua resposta foi esta célebre frase que frequentemente utilizamos nos nossos dias: “Deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Lc 20.25).


- O MELHOR ADVOGADO NO BANCO DOS RÉUS

Como se pode ver, Jesus foi um verdadeiro advogado e sempre esteve ao lado de seus seguidores, sem jamais abandoná-los diante dos acusadores. Foi o Parakletos, vocábulo grego que, literalmente, significa “aquele que é chamado ao lado de”. Porém, a palavra pode ser melhor traduzida como advogado, companheiro, consolador, conselheiro, auxiliador, intercessor, alguém que toma as dores do outro. E tal palavra foi também usada no Evangelho de João para referir-se igualmente ao Espírito Santo que é o outro Parakletos que passa a substituir a companhia de Jesus após a sua ascensão aos céus.

Curiosamente, o Advogado dos advogados não atuou em causa própria quando foi levado ao Tribunal de César. Perante as autoridades religiosas do Sinédrio, do procurador Pilatos e do rei Herodes, poucas vezes Jesus abriu a boca, permitindo que fosse injustamente condenado para redimir a humanidade de seus pecados.

“E, levantando-se o sumo sacerdote, perguntou a Jesus: Nada respondes ao que estes depõem contra ti? Jesus, porém, guardou silêncio. E o sumo sacerdote lhe disse: Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado á direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu. Então o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou! Que necessidade mais temos de testemunhas? Eis que ouvistes agora a blasfêmia!” (Mt 26.62-65; ARA)

“Herodes, vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois havia muito queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava também vê-lo fazer algum sinal. E de muitos modos o interrogava; Jesus, porém, nada lhe respondia.” (Lc 23.8-9; ARA)

“Responderam-lhe os judeus: Temos uma lei, e, de conformidade com a lei, ele deve morrer, porque a si mesmo se fez Filho de Deus. Pilatos, ouvindo tal declaração, ainda mais atemorizado ficou, e, tornando a entrar no pretório, perguntou a Jesus: Donde és tu? Mas Jesus não lhe deu resposta. Então, Pilatos o advertiu: Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar? Respondeu Jesus: Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem.” (Jo 19.7-11; ARA)

Naquele momento, Jesus não teve nenhum advogado porque todos o abandonaram e ele nem fez questão que algum defensor ficasse ao seu lado. Sua missão, conforme previsto pelas Escrituras hebraicas, era vencer o mal pela própria morte, em que Jesus sofreu na cruz a pena capital que seria a nossa punição porque todos pecamos.

Com isto, um acontecimento ocorrido no mundo físico (o julgamento e a execução de um homem inocente), refletiu-se na esfera espiritual por todas as eras (passadas e futuras). Jesus torna-se então a propiciação pelos nossos pecados e do mundo inteiro, podendo interceder junto ao Pai como o nosso Advogado, conforme a citação bíblica inicial deste texto da primeira carta de João.

Ora, todo advogado para defender alguém precisa apresentar perante o juiz uma peça de contestação que seja suficientemente coerente e de acordo com o ordenamento jurídico aplicável. Se um jogador de futebol assassina a sua amante e os fatos tornam-se incontroversos, não basta o advogado dizer que aquilo não acontecer, inventar que a vítima ainda está viva ou vir com as mais mirabolantes teses jurídicas. Pois, se fica provada a autoria e a ocorrência de um fato delituoso, obviamente que o acusado terá que ser preso e pagar a pena. E aí os bons antecedentes apenas servirão para amenizar a punição, mas não impedem a sentença condenatória.

Pois bem. No nosso caso, por causa do pecado que todos cometemos, éramos indefensáveis perante Deus através dos nossos próprios méritos. A pena, que é a morte, precisava ser aplicada contra todo e qualquer homem. A lei, que fora instituída lá no Éden, não poderia ser de modo algum revogada (Gênesis 2.17). Logo, não restava outra tese defensiva senão assumir a culpa e alguém pagar o preço – Jesus morreu no nosso lugar.

Qual advogado faria isso a ponto de dar a própria vida pelo seu cliente?

Para as nossas leis e para a moral humana é inconcebível que a pena passe da pessoa do condenado. Assim, se eu cometo um crime, não tenho como transferir para outro a consequência do delito. Contudo, para as leis de Deus, a morte substitutiva de Jesus seria possível já que ele era sem pecado e o acontecimento da cruz profetizado desde o momento em que o homem havia pecado neste diálogo do Criador com a serpente:

“Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar.” (Gn 3.15; NVI)

Quem é o "descendente da mulher" senão Jesus, o Messias prometido a Israel, e que nasceu de uma virgem?

Tendo entrado neste mundo sem a semente do pecado, pois foi gerado no ventre de Maria pelo Espírito Santo, Jesus era o único que poderia assumir a pena de toda a humanidade, morrendo por todos os nossos pecados (presentes, passados e futuros).

Uma vez aplicada a nossa pena, embora na pessoa de Jesus, ninguém terá que pagar pelo mesmo castigo que é definitivo. A não ser para aqueles que rejeitarem tão grandiosa graça e orgulhosamente pensarem que serão justificados pelos próprios méritos.


- CONCLUSÃO

Como ocorre com todo advogado, jamais o cliente pode ser obrigado a entregar sua causa ao defensor. Mesmo após ter assinado sua procuração, o cliente pode a qualquer tempo revogar o mandato outorgado tirando todos os poderes daquele que constituiu para representá-lo perante o tribunal ou qualquer outro órgão da administração pública. Assim também, o Dr. Jesus não impõe a ninguém o patrocínio da causa. Ele apenas envia os seus humildes secretários, também assistidos por ele, para que ofereçamos a todos os homens os eficientes serviços de seu escritório sem cobrar qualquer valor a título de honorários, pois sua defesa é de graça.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Só pela graça!

Estou lendo o livro "Sem barganhas com Deus" do reverendo Caio Fábio. Trata-se de uma obra bem diferente das que costumamos encontrar visto que o autor segue um estilo a princípio não muito conclusivo, mas com mensagens que nos fazem pensar.

Uma das coisas que muito estimo e prezo nas mensagens de Caio Fábio diz respeito à nossa dependência da graça de Deus. Uma dependência que é exclusiva, pois não somos aceitos por Deus pelo que fazemos ou pelo que temos, mas sim pela sua graça manifestada em Jesus, a revelação do seu incondicional amor pela humanidade.

Entender a mensagem da graça não requer longas leituras de livros ou de textos bíblicos. Para compreendermos o que é graça precisamos abrir mão de nossa auto-suficiência, declararmos nossa falência moral e espiritual.

Os evangélicos confessam publicamente que são salvos pela graça, mas nem sempre quem diz crer na graça salvadora já aprendeu a viver debaixo dela. A todo momento, a mente humana é tentada a se auto-justificar, a ter pena de si, achar que merece. Quando uma benção não se materializa de imediato em nossas vidas, precisamos lutar contra certas ideias equivocadas que são contrárias à dependência exclusiva da graça, pois muitos, embora não falem, pensam desta maneira: "Sou um dizimista fiel, não traio minha esposa e nunca falto aos cultos da Igreja, então por que Deus permitiu isto acontecer comigo? Por que estou sendo perseguido? Eu não mereço!"

A verdade é que passamos a nossa vida inteira pensando na graça. Mesmo depois da conversão, o crente é frequentemente testado na sua maneira de encarar a vida, de se relacionar com os irmãos e quanto aos julgamentos que faz. As quedas, os momentos de quebrantamento pessoal, as aparentes derrotas e as respostas de Deus contrariando nossos planos são, por exemplo, momentos para o nosso aprendizado.

Da mesma maneira que não merecemos o favor de Deus, pois todos são pecadores, também não podemos achar que somos isentos de passar por aflições. Aliás, Jesus não nos prometeu que neste mundo viveríamos num mar de rosas e já preveniu seus discípulos em relação às lutas que viriam, assegurando-lhes, porém, que o mundo já estava vencido por Ele.

Não há como barganhar com Deus! Não há... O homem, durante sua caminhada nesta terra, deve unicamente apoiar-se no favor de Deus, em sua misericórdia, na suficiente graça, sabendo que as perdas que enfrentamos são passageiras, que a morte nada mais é do que mera aparência e que já vivemos eternamente com Cristo.

Só pela graça!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Não perca a maior oportunidade da sua vida!

A multidão falou: "A Lei nos ensina que o Cristo permanecerá para sempre; como podes dizer: 'O Filho do homem precisa ser levantado'?" Disse-lhes então Jesus: "Por mais um pouco de tempo a luz estará entre vocês. Andem enquanto vocês têm a luz, para que as trevas não os surpreendam, pois aquele que anda nas trevas não sabe para onde está indo. Creiam na luz enquanto vocês a têm, para que se tornem filhos da luz". Terminando de falar, Jesus saiu e ocultou-se deles. (Evangelho segundo João 12.34-36; Nova Versão Internacional - NVI)


A passagem acima mostra Jesus discutindo com pessoas em Jerusalém em sua última semana. Nosso Senhor, dentro de alguns dias, iria ser "levantado" pelos romanos, isto é, crucificado. E, ao dizer que ele iria ser morto daquela maneira pelos gentios, suas palavras contrariaram as concepções ou expectativas que a maioria de seu povo tinha acerca da obra do Messias. Isto porque os judeus aguardavam ansiosamente por um descendente de Davi que, quando se manifestasse, restabeleceria de imediato a realeza soberana da nação como nos tempos antigos.

Ao advertir seus ouvintes, Jesus estava dizendo que os judeus deveriam crer nele antes que fosse tarde. Porém, como aquelas pessoas estavam com seus corações fechados e indispostas para crer, Jesus se ocultou delas. E, ao que tudo indica, aquela geração não soube aproveitar o tempo em que fora visitada por Deus na pessoa do Filho, manifestado no forma humana.

Mesmo que as advertências de Jesus tenham se dirigido a um público daquela época, não podemos nos esquecer que tais palavras também têm aplicação para os nossos dias.

A morte de Jesus na cruz reconciliou a humanidade com Deus. Quando o Senhor foi "levantado" pelos romanos, sendo Ele inocente de toda e qualquer acusação, seu sacrifício pôde trazer perdão para todos porque o nosso pecado foi punido na sua carne. Por isso, todo aquele que crê em Jesus tem a vida eterna.

Quem crê em Jesus não é julgado pelos seus pecados, mas quem não crê já está condenado (ver João (3.18-31,36), o que significa uma escatologia já realizada, isto é, permanecer debaixo da condenação imposta ao homem pela sua queda.

Erramos quando tentamos separar o mundo do presente do mundo do futuro, no sentido de conceber apenas uma ressurreição escatológica, esquecendo-nos que Jesus é a ressurreição e a vida de maneira que todo aquele que Nele crê já vive eternamente:


Disse-lhe Jesus: "O seu irmão vai ressuscitar". Marta respondeu: "Eu sei que ele vai ressuscitar na ressurreição, no último dia". Disse-lhe Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim não morrerá eternamente. Você crê nisto?". Ela lhe respondeu: "Sim, Senhor, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo". (João 11.23-27; NVI)


Ora, na vida todos perdem grandes oportunidades. Seja a chance de fazer um bom negócio, conseguir um grande emprego, visitar belíssimos lugares ou de conhecer pessoas maravilhosas. Porém, a maior oportunidade que um homem pode ter em toda a sua existência é crer em Jesus, entregando sua vida para Ele.

Quando cremos em Jesus de todo o nosso coração, isto é, aceitando com obediência a sua Palavra, nascemos de novo e ressuscitamos espiritualmente. Mesmo que venhamos a enfrentar a morte física, esta não terá poder nenhum sobre nós porque a partir da nossa conversão passamos a gozar da vida eterna.

Peço a Deus que não percamos o tempo da nossa visitação. Ainda há "luz" e, se você está hoje ouvindo a Mensagem do Evangelho, é porque existe oportunidade para sua alma. Abrace-a. Não deixe que ela passe. Caminhe enquanto há luz!