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terça-feira, 29 de abril de 2014

O Deus que deu "uivos" por Moabe



"Por isso, uivarei por Moabe, sim, gritarei por todo o Moabe; pelos homens de Quir-Heres lamentarei. Mais que a Jazer, te chorarei a ti, ó vide de Sibma" (Jr 48:31-32a; ARA)

O capítulo 48 do livro de Jeremias é dedicado ao julgamento de Deus sobre a nação dos moabitas.

Moabe era um país à leste de Israel, situado às margens orientais do Mar Morto. De acordo com a Bíblia, seu povo descendia de Ló, sobrinho de Abraão, da mesma maneira como eram os amonitas (Gn 19:30-38). Porém, essa consciência sobre ser uma nação-irmã de Israel foi perdida tempos depois. Nos anos que seguiram ao êxodo egípcio, quando os hebreus preparavam-se para conquistar Canaã, Balaque, rei dos moabitas, adotou uma política hostil ao povo de Deus. Contam os capítulos 22 a 24 do livro de Números ter o monarca contratado o mercenário Balaão para que este amaldiçoasse o acampamento dos israelitas, mas o Eterno impediu que qualquer palavra negativa fosse proferida neste sentido.

Por tal motivo teria se criado uma inimizade histórica entre Israel e Moabe a ponto dos moabitas serem excluídos de participação na santa assembleia do Senhor (Dt 23:3-6). E, após a posse da Terra Prometida, muitas foram as guerras entre os dois países havendo nas Escrituras Sagradas o relato de domínio sob outro rei moabita de nome Eglom (Jz 3:12-14) bem como o registro de diversos conflitos no período da dinastia davídica. A rivalidade foi tanta a ponto do salmista chamar pejorativamente Moabe de "bacia de lavar" (ler Sl 60:8; 108:9).

Mesmo na época de Jeremias, no século IV a.C, os moabitas permaneciam orgulhosos e arrogantes (Jr 48:29). No oráculo do profeta dá para entendermos ter Moabe exultado com a destruição de Israel devido à comparação feita no versículo 13. Algo que se esclarece melhor quando avançamos na leitura:

"Moabe se revolverá no seu vômito e será ele também objeto de escárnio. Pois Israel não te foi também objeto de escárnio?" (Jr 48:26b-27a)

Ora, mas será que agradou ao coração do Senhor ver a destruição das cidades de Moabe pelo exército dos caldeus? Certamente que não! Pois o próprio texto inicialmente citado revela-nos que Deus teria uivado por Moabe, o que significava um gesto de lamentação na cultura do antigo Oriente Próximo. E o verso 36 assim nos diz:

"Por isso, o meu coração geme como flautas por causa de Moabe, e como flautas geme por causa dos homens de Quir-Heres" (Jr 48:36a)

Meu amigo leitor, não creio que esses sentimentos de Deus pelos inimigos de Israel, conforme captados pelo autor bíblico, sejam explicados pelo simples fato de Moabe descender do sobrinho do patriarca Abraão. Tão pouco seria porque Obede, o avô de Davi, foi gerado de um ventre moabita (Rute) ou ter esse herói israelita procurado refúgio entre o povo de sua bisavó quando escapava da implacável perseguição de Saul (1Sm 22:3-4). Porém, acredito que a resposta reside no amor misericordioso do Altíssimo. Isto porque o Criador bendito não se compraz com a morte do perverso, mas deseja que todos se arrependam e vivam eternamente diante de sua Presença.

Assim como Moabe deixou de existir como nação, muitos têm hoje se perdido por não darem ouvidos à voz de Deus. Caminham obstinados para o abismo pois a escuridão cega-lhes os olhos. Tornam-se com isso escravos das próprias compulsões egoístas esquecendo-se dos bons princípios éticos escritos pelo Criador antes da fundação do mundo afim de que fossem observados pelo homem.

Entretanto, Jesus Cristo veio salvar o perdido!

Vivendo numa época tão opressora quanto foram os dias de Jeremias, o Mestre anunciou suas boas novas aos pecadores. Falou ao coração das ovelhas desgarradas de seu povo sobre uma nova oportunidade para que se reconciliassem com Deus porque o Reino "é chegado". A sofrida morte na cruz veio a se tornar a maior prova desse amor sem fim que o Pai Eterno sente por todos nós. Pois, na teologia cristã, trata-se do próprio Ser Divino fazendo-se presente na figura humana de seu Messias para sofrer substitutivamente aquilo que seria a pena de todos nós abolindo-a de uma vez por todas. Logo, dentro desta nova maneira de ver a realidade, todos passam a se encontrar debaixo da graça, por mais que se tenha cometido no passado os piores delitos.

Quer alguém entenda o sacrifício de Cristo como um evento histórico-literal ou meramente simbólico, pouco importa desde que se assimile a essência do seu rico significado. Vale é que temos aí uma inegável expressão graciosa da bondade divina, a qual também se encontra no precioso oráculo de Jeremias. Pois apesar do juízo profetizado contra Moabe, nota-se, no texto bíblico, o amor incondicional por uma nação pagã capaz que é capaz superar qualquer consequência dolorosa decorrente das veredas errantes. Por isso o capítulo encerra com a promessa da mudança sorte de Moabe (verso 47), algo que se torna extensivo também aos perversos amonitas (Jr 49:6). Ou seja, Deus não desiste de nenhum de seus filhos!


OBS: A ilustração acima refere-se ao mapa em inglês, licenciado pela Creative Commons, sobre os antigos reinos de Judá e de Israel por volta de 830 a.C., no qual consta o território da nação de Moabe em coloração marrom. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Kingdoms_around_Israel_830_map.svg

Um comentário:

  1. Muita gente deixa de saborear os livros da parte da Bíblia chamada de "Antigo Testamento" por ver ali um Deus "iracundo" e "vingativo". Porém, se aprofundarmos na leitura, veremos o quanto o Senhor se revela benigno e misericordioso, ultrapassando o etnocentrismo de qualquer cultura. Acho a Bíblia fantástica!

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