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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Salmo 67: um cântico de gratidão a Deus pelas "colheitas"

"A terra deu o seu fruto,
e Deus, o nosso Deus, nos abençoa.
"
(Sl 67.6)

Na atualidade, como tem sido difícil as pessoas agradecerem ao Eterno pelas boas dádivas que desfrutamos?! Vivemos dias em que a humanidade falha por não reconhecer a participação de Deus na concretização dos seus projetos, ignorando até a existência do seu Criador.

Contudo, o salmo 67, notável pelo seu escopo universal, inicia com uma súplica a Deus e que faz lembrar a bênção sacerdotal (Bircat Kohanim), conforme se lê também em Números 6.25:

"Seja Deus gracioso para conosco,
e nos abençoe,
e faça resplandecer sobre nós o rosto
"
(verso 1)

Ora, o que significa "resplandecer o rosto"?

Uma ideia que logo se relaciona com esta imagem seria o favor divino que produz a bem-aventurança. Assim como as plantas necessitam da luz solar para crescerem e darem frutos, nós também precisamos ser interiormente iluminados pela Presença do nosso Criador, alcançando a sabedoria espiritual inspiradora das Escrituras, o que só pode ser obtido através da graça e da bondade de Deus.

Certamente que, no decorrer do poema bíblico, o louvor de gratidão do salmista não se resume às colheitas agrícolas, em cujas festividades os israelitas recitavam, e daí a importância do selah, isto é, da pausa meditativa sugerida pelo redator. Pois, quando paramos para refletir no que existe além dessas simples palavras, compreenderemos que o poeta estava apresentando um plano de Deus para toda a humanidade.

Sem dúvida que Deus é o soberano de todas as nações e não apenas de um só país. Através da Bíblia sabemos que o povo de Israel buscou um relacionamento com Deus. Porém, o Eterno quer ser conhecido pela humanidade inteira e dar a todos graciosamente a sua salvação.

No verso dois do poema (numeração da tradução revista de João Ferreira de Almeida), o salmista fala do conhecimento do "caminho" de Deus, o que está relacionado intimamente com a salvação. E aqui cabe fazer uma indagação sobre do que precisamos ser salvos?

Sinceramente, não acredito nessas fantasias escatológicas que muitos propagam nos dias atuais, instigando o medo e promovendo um desprezo pela continuidade da vida no planeta como se tudo aqui tivesse que ser destruído e somente os crentes em Jesus habitarão uma nova Terra revestidos por um corpo celestial. Aliás, estas ideias apocalípticas nem ao menos se passavam pela cabeça do salmista quando ele compôs o poema, visto que para ele a salvação estava intimamente relacionada com a compreensão dos caminhos de Deus.

Sem dúvida que a palavra caminho entra no texto como uma metáfora para a instrução divina (Torá). Logo, para que o homem possa experimentar a salvação (em sua vida terrena), ele deve fazer o seu ouvido atento à orientação que Deus lhe dá a desta maneira aprender a viver, lidando harmonicamente com os seus sentimentos e desejos.

Observa-se implícito no texto bíblico o papel messiânico de Israel. Pois, tendo a nação alcançado uma experiência no conhecimento de Deus, caberia aos judeus convidar todos os povos para a adoração do Eterno. E esta convocação trata-se de um compartilhar considerando que o outro também tem a sua forma de relacionamento com a Divindade, algo que é bem diferente dos "evangelismos" de inúmeras igrejas por aí.

Por sua vez, o universalismo do Salmo 67 respeita a diversidade cultural das nações. Cada povo permanece independente em relação ao outro. Eles não perdem seus territórios, mas apenas são julgados Deus de toda a Terra. Não se trata da imposição da fé num deus judeu, mas sim no reconhecimento da Inteligência que antecedeu o Universo e nos guia a um propósito elevado. Portanto, no versículo sete, o poema atinge o seu objetivo final que é a essência da salvação de Deus: "e todos os confins da terra o temerão".

Certamente que o "temor de Deus" não significa medo, mas sim reverência. E, quando a humanidade passar a ter respeito pela Inteligência Superior, começar a amar a Vida e a refletir sobre si mesma, ela terá alcançado a tão desejada "salvação". E, com esta compreensão, passamos a entender que o importante é sermos salvos no aqui e agora e não a ideia de que seremos salvos após a morte ou quando chegar a fim do mundo. Pois, se permitirmos que o Santíssimo graciosamente nos oriente, mostrando-nos o seu caminho, tão logo notaremos a percepção da sua doce Presença e a sua salvação.

Junto com todo esse entendimento opera o louvor. Através da celebração feita com gratidão e alegria, podemos viver no presente momento o reinado do Eterno sobre as nossas vidas. Não precisamos esperar este ou aquele acontecimento para ficarmos de bem com a vida. Para Deus não importa o valor do nosso patrimônio econômico ou moral. Tão pouco Ele está interessado em ficar anotando os nossos erros para depois nos pedir conta das condutas praticadas como se desejasse sair distribuindo punições. Deus simplesmente nos convida para o seu banquete, afim de que possamos festejar a vida ao lado do nosso irmão.

Assim, para concluir meus comentários sobre o Salmo 67, compartilho a seguir este magnífico louvor cantado por Asaph Borba em Israel denominado Selah e que foi disponibilizado no Youtube pela própria gravadora Adorarnet.



OBS: A imagem ilustrativa deste artigo foi extraída do ficheiro da Wikipédia e mostra um homem trabalhando no cultivo de arroz, tendo sido um produzida pela United States Agency for International Development, o que torna o material de domínio público - http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Rice_Field.jpg

4 comentários:

  1. Rodrigão, a pergunta em relação ao terrorismo escatológico é: Se a terra é criação de Deus e ele viu que tudo que havia feito era bom pra que destruí-la?!

    Também não creio em muita baboseira escatológica que é fruto da cabeça dos esritores.

    Se a terra está se acabando é por conta e risco do próprio serzinho humano predador.

    Um abraço Dr. Rodrigão!!!

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  2. Muito gostoso o texto.
    Eu creio nas surpresas da última hora e não creio que somente os crentes serão salvos , mas sim todos os "crentes- aqueles que crêem no Senhor", e isto no meu ver não depende de placa de igreja ou denominação religiosa.

    Também sou contra ao terrorismo de um Deus carrasco; pois o Deus que eu Clamo, que eu Agradeço e Reclamo também é o mesmo DEUS que me curvo alegremente por reverência e jamais por medo - entendo que o medo produz obrigação e se Deus é Pai , nem um Pai gostaria de ver seus filhos o servindo obrigados mas sim com amor.

    Tenha um excelente dia.

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  3. Prezados Franklin e Bella,

    Pra mim uma das piores coisas que vejo atualmente no meio religioso cristão é este terrorismo escatológico em que tudo é demonizado como sendo coisa da "nova era" ou do "anticristo", o que faz desses discursos instrumentyos perfeitos da alienação porque a vida passa a ser vista para depois da mrote ou do "fim dos tempos" e não no aqui e agora.

    Como vocês devem saber, o Bono, vocalista do U2, fez a opção espinhosa por seguir uma linha de pensamento teológico mais liberal e universalista, buscando o diálogo com outras religiões. Devido à sua brilhante atuação, que inclui ações sociais e políticas, uns fundamentalistas chegaram a dizer que seria ele não somente um "herege" como até mesmo o próprio "anticristo".

    Porém, combato julgamentos deste tipo, o que mostra o afastamento de grande parte dos cristãos do propósito da mensagem do Evangelho que deve ser o de comunicarmos a todos a mensagem de graça e de convocação para que, unidos, sem diferença de raça, de nação, ou até mesmo de visão religiosa, possamos construir na Terra o Reino de Deus.

    Concordo com o Franklin de que Deus não quer destruir a Terra que ele fez e disse ser boa, de modo que o único risco imediato somos nós mesmos.

    É certo que, neste instante, não apenas planetas como galáxias inteiras são criadas e destruídas. Estrelas nascem enquanto outras se apagam. Cientistas da NASA levantaram a possibilidade de que, só na Via Lactea, tenhamos mais de 100 milhões de planetas com vida, sendo que aí eu faço as seguintes indagações: quantos mundos habitáveis já existiram e quantos ainda vão existir?

    Creio que, quanto à "última hora", somente Deus pode saber. E, assim como desconhecemos o momento da nossa morte, o último dia do planeta Terra, da Via Lactea ou do Universo pertence apenas a Deus. E o Criador tem o poder de fazer, desfazer e tornar a fazer. Pois Ele é o princípio e o fim de todas as coisas, a quem deve ser dada toda glória, honra e louvor por todas as eras!

    Bendito seja Deus! Que sejamos unidos ao Eterno!

    Grande abraço!

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  4. Bella,

    Concordo que Deus quer ser adorado não por medo e sim por reverência. Aliás, Deus quer mesmo ser amado por seus filhos e de coração.

    Obrigado aí pelos seus comentários e os do Franklin também.

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