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terça-feira, 26 de maio de 2026

O papa, a escravidão e a memória das instituições



A batalha da abolição, como perceberam alguns abolicionistas, era uma batalha nacional. Esta batalha continua hoje e é tarefa da nação. A luta dos negros, as vítimas mais diretas da escravidão, pela plenitude da cidadania, deve ser vista como parte desta luta maior. Hoje, como no século XIX, não há possibilidade de fugir para fora do sistema. Não há quilombo possível, nem mesmo cultural. A luta é de todos e é dentro do monstro.” — José Murilo de Carvalho


O pedido de perdão feito pelo papa Leão XIV pelo envolvimento histórico da Igreja Católica com a escravidão talvez represente um dos gestos institucionais mais simbólicos deste início de século XXI.

À primeira vista, trata-se apenas de uma declaração histórica ou moral.

Mas talvez seja algo maior.

O episódio parece revelar uma transformação silenciosa na forma como as grandes instituições contemporâneas passaram a lidar com o próprio passado.

Durante muito tempo, organizações políticas, religiosas e econômicas buscaram legitimidade pela ocultação de suas contradições históricas. O silêncio institucional era frequentemente percebido como mecanismo de preservação da autoridade.

Hoje, porém, parece ocorrer exatamente o oposto.

Instituições passaram gradualmente a compreender que a legitimidade contemporânea depende também da capacidade de reconhecer erros históricos, reinterpretar trajetórias e enfrentar publicamente heranças morais desconfortáveis.

Mas esse novo regime de memória também produz ambiguidades. Em alguns casos, a revisão crítica do passado amplia transparência e responsabilização institucional. Em outros, transforma-se em instrumento cosmético de reconstrução reputacional, sem alterações reais nas estruturas que perpetuam desigualdades históricas. 

Fato é que a política contemporânea da memória oscila constantemente entre democratização histórica e administração simbólica de crises morais.

Nesse sentido, o gesto do pontífice talvez dialogue menos com o passado e mais com a crise moral do presente.

A Igreja Católica, afinal, não está sozinha.

Universidades europeias revisam vínculos com o tráfico atlântico de escravos. Museus discutem devolução de patrimônio obtido em contextos coloniais. Governos ocidentais debatem pedidos formais de desculpas. Empresas e bancos reconhecem conexões históricas com sistemas de exploração.

Pode-se dizer que, nos últimos anos, algumas dessas revisões deixaram o plano abstrato e assumiram contornos concretos. Por exemplo, a Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, reconheceu oficialmente a venda de 272 escravizados realizada por jesuítas em 1838 para salvar financeiramente a instituição, criando posteriormente programas voltados aos descendentes dessas famílias. 

Em 2019, a Universidade de Glasgow, na Escócia, anunciou um programa de reparações acadêmicas relacionado a recursos historicamente vinculados ao tráfico escravista. 

Já a Igreja Anglicana reconheceu investimentos históricos associados à escravidão colonial e anunciou fundos destinados a iniciativas reparatórias. 

No Brasil, embora esse debate ainda avance de forma mais lenta e fragmentada, também surgiram iniciativas relevantes. A criação do Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), no Rio de Janeiro, e a ampliação das políticas de ações afirmativas nas universidades públicas representam parte desse esforço de revisão histórica e reconstrução da memória nacional em torno da escravidão e de suas consequências sociais.

A própria consolidação das políticas de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras, especialmente após a Lei nº 12.711/2012, durante o governo Dilma, passou a incorporar institucionalmente a percepção de que a escravidão deixou desigualdades estruturais que não poderiam ser enfrentadas apenas por mecanismos formais de igualdade.

O século XXI parece ter transformado a memória histórica em parte da própria disputa por legitimidade institucional.

Nem todo reconhecimento histórico, contudo, produz transformação concreta. Em alguns casos, pedidos de desculpas funcionam apenas como gestos simbólicos de reconstrução reputacional. Em outros, vêm acompanhados de medidas estruturais: bolsas acadêmicas, fundos reparatórios, abertura de arquivos históricos, restituições patrimoniais, reformas curriculares ou políticas institucionais permanentes. 

A diferença entre memória crítica e cosmética institucional talvez esteja justamente na disposição de transformar reconhecimento moral em consequências práticas. Daí decorre uma constatação importante: nenhuma grande instituição consegue mais se apresentar como completamente exterior às contradições da história.

Talvez seja justamente aí que a reflexão de José Murilo de Carvalho se torne tão atual: “A luta é de todos e é dentro do monstro.

A frase possui enorme profundidade.

Ela sugere que a escravidão não foi apenas uma distorção periférica da história ocidental, mas parte constitutiva das estruturas econômicas, políticas, culturais e até religiosas que moldaram as sociedades modernas.

O “monstro” não era apenas econômico. Era civilizacional.

A própria Igreja Católica viveu historicamente essa ambivalência.

Houve setores eclesiásticos ligados ao sistema escravista, ordens religiosas proprietárias de escravos e legitimações morais do colonialismo.

Mas houve também religiosos abolicionistas, movimentos humanistas cristãos e documentos papais que gradualmente passaram a condenar a escravidão.

As próprias posições da Igreja variaram conforme os contextos históricos, econômicos e geopolíticos. Houve documentos papais ambíguos durante a expansão colonial europeia, experiências missionárias contraditórias e ordens religiosas simultaneamente envolvidas na catequese e integradas às estruturas escravistas. Em outros momentos, porém, setores católicos participaram ativamente do abolicionismo e da formulação de discursos universais de dignidade humana. 

Ademais, a relação entre cristianismo, colonialismo e escravidão raramente seguiu uma linha simples ou homogênea.

Aliás, a história raramente é simples.

E, talvez, uma das maiores dificuldades do presente esteja justamente em evitar dois riscos simultâneos: o apagamento moral do passado e o anacronismo histórico.

Isso porque instituições históricas precisam ser compreendidas dentro das estruturas de seu tempo, sem que isso signifique relativizar violências cometidas.

A escravidão foi uma brutalidade humana de proporções civilizatórias. Mas também foi, durante séculos, um elemento estrutural de praticamente todas as grandes sociedades humanas.

A ruptura moral universal contra ela é relativamente recente na história.

O problema contemporâneo consiste justamente em compreender como sociedades democráticas podem reconhecer essas heranças sem destruir completamente a continuidade histórica das próprias instituições.

O reconhecimento histórico, porém, raramente ocorre sem custos. 

Reparações financeiras, revisão de currículos, mudanças institucionais, abertura de arquivos, disputas sobre patrimônio simbólico e participação de grupos historicamente afetados tornam esse processo politicamente complexo. A tensão entre continuidade institucional e justiça histórica talvez só possa ser enfrentada de forma democrática, mediante mecanismos permanentes de participação social e reconstrução da memória coletiva.

Possivelmente seja exatamente isso que o pedido do papa procura fazer: não negar a história da Igreja, mas reinterpretá-la criticamente.

No Brasil, esse debate ganha contornos ainda mais sensíveis.

Fomos o maior território escravista das Américas e o último grande país ocidental a abolir formalmente a escravidão.

Mais do que isso, a escravidão moldou profundamente nossa estrutura social, econômica e política. Ela influenciou a distribuição de renda, o acesso à educação, a formação das elites, a organização do trabalho, a cidadania e até as formas de pertencimento nacional.

Por isso, talvez a abolição nunca tenha sido apenas um evento jurídico ocorrido em 13 de maio de 1888. A Lei Áurea selou o fim formal da escravidão no Brasil, mas não alterou de maneira radical as estruturas econômicas, sociais e políticas construídas ao longo de mais de três séculos de ordem escravista.

Nesse sentido , não seria exagero dizer que a escravidão continue sendo um processo histórico inacabado.

A ausência de políticas amplas de integração dos libertos após a Lei Áurea produziu permanências estruturais que atravessaram gerações.

Talvez seja justamente aí que a ideia de “abolição inacabada” adquira dimensão concreta. Pois o debate contemporâneo envolve não apenas memória histórica, mas políticas públicas relacionadas à educação racial, ações afirmativas, preservação da cultura afro-brasileira, combate ao trabalho escravo contemporâneo, acesso à moradia, saúde, mobilidade social e inclusão econômica. 

Acrescente-se que a disputa em torno da escravidão deixou de ser apenas historiográfica. Tornou-se também uma discussão sobre cidadania democrática no presente.

E isso ajuda a compreender por que o debate contemporâneo sobre escravidão deixou de ser apenas uma discussão sobre o passado para se transformar também numa reflexão sobre o presente.

O próprio Papa Leão, ao mencionar “novas formas de escravidão”, parece reconhecer isso.

As formas explícitas de servidão desapareceram em grande parte do Ocidente. No entanto, surgiram novas modalidades de dependência: precarização extrema do trabalho, hiperendividamento, exploração econômica invisível, captura algorítmica da atenção, dependência tecnológica, submissões psicológicas e sociais cada vez mais sofisticadas.

Evidentemente, o uso contemporâneo da expressão “novas formas de escravidão” exige cautela analítica. 

Há diferenças importantes entre categorias jurídicas precisas — como tráfico humano, trabalho análogo à escravidão e servidão por dívida — e metáforas sociológicas voltadas à crítica das novas formas de dependência econômica, tecnológica ou psicológica. 

No Brasil, essa distinção possui relevância prática, pois o trabalho análogo à escravidão não é apenas metáfora histórica, mas categoria jurídico-penal e trabalhista, combatida por órgãos como o Ministério Público do Trabalho, a fiscalização do trabalho e o sistema de Justiça, especialmente diante de situações de servidão por dívida, jornadas exaustivas, condições degradantes ou restrição da liberdade.

Certamente, sem essa distinção, existe o risco de diluir a brutalidade histórica da escravidão atlântica. Porém, ainda assim, a metáfora continua relevante para refletir sobre mecanismos modernos de perda de autonomia humana.

Talvez a modernidade não tenha eliminado completamente as estruturas de dominação. Talvez apenas as tenha tornado menos visíveis.

E isso torna o debate ainda mais complexo.

Porque a verdadeira questão pode não ser apenas a maneira como julgamos o passado, mas como reconhecemos as formas contemporâneas de servidão que continuam sobrevivendo dentro de sociedades formalmente livres.

Admitir que a abolição permanece inacabada implica também em reconhecer responsabilidades institucionais concretas. Isso envolve fortalecer políticas de igualdade racial, ampliar transparência sobre patrimônios históricos vinculados à escravidão, preservar a memória afro-brasileira, combater o trabalho análogo à escravidão contemporânea e assegurar participação efetiva das comunidades historicamente afetadas nos processos de reconstrução da memória nacional. Sem mecanismos democráticos permanentes de inclusão e reparação, o risco é que o reconhecimento histórico permaneça restrito ao plano simbólico.

O gesto do pontífice, portanto, não encerra o debate histórico. Antes, revela algo mais profundo: a percepção crescente de que a abolição — moral, social e humana — permanece inacabada.

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