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terça-feira, 26 de maio de 2026

Da canalização à despavimentação: o Brasil urbano diante da emergência climática



A natureza artificializada marca uma grande mudança na história humana da natureza.” (Milton Santos)


Em 1999, quando participei do ato cívico e ecológico “Abraço ao Rio Bengalas”, morando na época em Nova Friburgo, o debate ambiental urbano ainda parecia relativamente periférico para grande parte do país. Estudantes, professores e moradores se mobilizavam não apenas contra a poluição do principal rio da cidade, mas também contra um modelo de urbanização baseado na canalização crescente dos cursos d’água.

Naquele período, algumas pessoas já mencionavam algo que parecia quase exótico para a realidade brasileira: cidades alemãs começavam a remover concretos das margens dos rios, recuperar áreas verdes e discutir formas de “renaturalização” urbana. Em certos círculos ambientais, dizia-se que a Europa começava a perceber os limites da excessiva artificialização das cidades.

No Brasil, entretanto, o imaginário do progresso seguia fortemente associado ao concreto.

Canalizar rios, retificar córregos, impermeabilizar margens e asfaltar ruas eram vistos como símbolos visíveis de modernidade administrativa. O asfalto representava desenvolvimento. O concreto transmitia sensação de ordem, crescimento e domínio da natureza.

O Rio Bengalas tornou-se, ao longo das décadas seguintes, um exemplo emblemático dessa lógica.

As obras de canalização iniciadas em 1999 atravessaram governos municipais distintos, foram ampliadas ao longo dos anos 2000, absorveram recursos do PAC e continuaram após a tragédia climática de janeiro de 2011, consumindo centenas de milhões de reais em intervenções hidráulicas e de macrodrenagem.

Nada disso significa que tais obras fossem irracionais ou desnecessárias. As cidades brasileiras convivem há décadas com enchentes, crescimento urbano acelerado, ocupações vulneráveis e enormes déficits históricos de infraestrutura. Após tragédias humanitárias, a pressão social por respostas imediatas do poder público é compreensível.

O problema talvez esteja em algo mais profundo: a permanência de uma cultura urbanística concebida para um mundo climático que já não existe mais.

Durante grande parte do século XX, acreditou-se que rios urbanos precisavam ser “domados”. A engenharia tradicional buscava acelerar o fluxo das águas, ampliar vazões, reduzir curvas naturais e expulsar rapidamente a água das cidades.

No entanto, do ponto de vista hidrológico, a excessiva impermeabilização urbana reduz drasticamente a infiltração da água da chuva no solo e aumenta o escoamento superficial.

Com menos áreas permeáveis, a água chega mais rapidamente aos rios e galerias pluviais, elevando a velocidade e a força das enxurradas. Em muitos casos, a canalização rígida acelera ainda mais o fluxo hídrico e transfere o risco de enchentes para outras áreas da cidade. Sistemas de drenagem concebidos para um determinado regime climático passam então a operar próximos do colapso diante de eventos extremos mais intensos e frequentes.

O próprio Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em seu Sexto Relatório de Avaliação (AR6), passou a destacar a crescente vulnerabilidade das áreas urbanas diante de eventos extremos e a importância da infraestrutura verde e das soluções baseadas na natureza para adaptação climática.

Hoje, entretanto, muitas cidades do mundo começam a revisar justamente esse paradigma, passando a incorporar soluções híbridas entre engenharia urbana e recuperação ambiental. 

Em Seul, a recuperação do córrego Cheonggyecheon tornou-se referência internacional de renaturalização urbana. 

Na Alemanha, projetos de restauração fluvial passaram a devolver espaço aos rios após décadas de artificialização. 

No Brasil, experiências como o Parque Orla de Piratininga, em Niterói, e iniciativas de drenagem sustentável em cidades como Curitiba e Recife começam gradualmente a incorporar conceitos de infraestrutura verde e convivência ecológica com a água.

O artigo recente do ambientalista e ex-prefeito de Niterói Axel Grael sobre “despavimentação” urbana chama atenção exatamente para essa realidade. Em diferentes países, cidades começam a quebrar concreto, recuperar margens de rios, criar parques inundáveis, ampliar áreas permeáveis e investir em soluções baseadas na natureza.

O objetivo não é “voltar ao passado”, mas adaptar as cidades a uma nova realidade climática.

O século XXI passou gradualmente a revelar um fenômeno que ainda não era plenamente compreendido no início dos anos 2000: a intensificação dos impactos das mudanças climáticas sobre as áreas urbanas.

Chuvas mais intensas, ondas de calor, eventos extremos mais frequentes e sistemas de drenagem sobrecarregados passaram gradualmente a desafiar modelos urbanos construídos sob premissas climáticas mais estáveis.

As tragédias da Região Serrana em 2011, de Petrópolis, de São Sebastião e das enchentes históricas do Rio Grande do Sul em 2024 talvez tenham tornado evidente algo que antes parecia distante: as cidades brasileiras estão entrando em uma era de vulnerabilidade climática crescente.

E isso expõe uma contradição importante.

Enquanto parte do mundo discute cidades-esponja, drenagem sustentável, renaturalização de rios e infraestrutura verde, o Brasil ainda frequentemente trata asfaltamento e concretagem como linguagem política do progresso.

Em inúmeras cidades brasileiras, o anúncio de novas pavimentações continua sendo celebrado eleitoralmente como símbolo de desenvolvimento. E, de fato, muitas vezes essas obras trazem benefícios concretos: redução de lama, melhoria da mobilidade, valorização urbana e acesso a serviços públicos.

Isso não ocorre por acaso. Em grande parte do Brasil, sobretudo nas periferias urbanas e cidades pequenas, o asfaltamento continua associado a melhorias concretas de qualidade de vida. Ruas pavimentadas reduzem poeira, lama, isolamento territorial e dificuldades de mobilidade. Para populações historicamente negligenciadas pelo poder público, o asfalto frequentemente simboliza não apenas infraestrutura, mas reconhecimento político e inclusão urbana.

O problema surge quando o debate urbano permanece limitado apenas à expansão impermeabilizante, sem incorporar drenagem sustentável, arborização, infiltração e adaptação climática.

Raramente o debate é acompanhado de uma reflexão mais ampla sobre esses assuntos que envolvem também a ocupação territorial e a capacidade de absorção das cidades.

O resultado é que, frequentemente, o próprio modelo urbano amplia vulnerabilidades futuras.

Não se trata de defender um romantismo antiengenharia ou imaginar soluções simplistas para problemas extremamente complexos. Grandes cidades continuarão precisando de obras hidráulicas, drenagem e infraestrutura pesada.

A questão talvez seja outra: como construir cidades capazes de coexistir com a água, e não apenas tentar expulsá-la indefinidamente?

Isso talvez exija uma nova geração de políticas públicas urbanas: integração efetiva entre planos diretores e gestão de águas pluviais, metas mínimas de permeabilidade urbana, programas de retrofit climático de bairros já consolidados, financiamento de infraestrutura verde e mecanismos de participação comunitária na gestão de bacias urbanas e áreas de risco.

Sem dúvidas estamos diante de uma das grandes encruzilhadas urbanas e climáticas do Brasil contemporâneo.

Durante décadas acreditamos que desenvolvimento significava dominar completamente rios, encostas e fluxos naturais. O século XXI começa lentamente a mostrar que a natureza não desaparece sob o concreto — apenas acumula tensões que retornam de forma cada vez mais intensa.

A transição para cidades mais resilientes também envolve tensões econômicas, sociais e políticas profundas. Renaturalizar rios, ampliar áreas permeáveis ou rever modelos de ocupação urbana exige enfrentar interesses imobiliários, custos elevados de readequação e estruturas urbanas consolidadas ao longo de décadas. 

Em sociedades profundamente desiguais, a adaptação climática também precisa dialogar com justiça social: proteger cidades sem transformar sustentabilidade em privilégio de poucos.

Talvez o futuro das cidades brasileiras dependa justamente da capacidade de superar uma lógica puramente impermeabilizante e reaprender algo que durante muito tempo esquecemos: rios não são apenas canais de drenagem. São parte viva da própria cidade.

O desafio climático das cidades brasileiras não será apenas tecnológico ou ambiental, mas também político, fiscal e social. Adaptar cidades ao século XXI exigirá coordenação entre engenharia, planejamento urbano, justiça territorial e capacidade institucional de longo prazo — algo particularmente difícil em sociedades marcadas por desigualdades históricas e ciclos curtos de planejamento público.

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