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domingo, 13 de novembro de 2011

"Se Deus está conosco, por que tanto sofrimento?"

Certamente você já se deparou com pessoas formulando abertamente tais perguntas e até mesmo possa ter se questionado e jamais exposto aquilo que pensou. Mas saiba que, milênios antes dos ateus da era contemporânea fazerem indagações deste tipo, a Bíblia relata que um homem chamado Gideão teve a coragem de jogar este sentimento na cara do Anjo do SENHOR.

"Respondeu-lhe Gideão: Ai, senhor meu! Se o SENHOR é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram dizendo: Não nos fez o SENHOR subir do Egito? Porém, agora, o SENHOR nos desamparou e nos entregou nas mãos dos midianitas." (Juízes 6.13; ARA)

Em outras traduções do Texto Massorético, estas mesmas palavras atribuídas a Gideão mostram-se ainda mais rudes do que na versão revista e atualizada de João Ferreira de Almeida:

"e Guidon disse-lhe: 'Por favor, meu senhor, se o Eterno está conosco, por que nos sobreveio tudo isto? Onde estão todos os Seus milagres, que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o Eterno subir do Egito? Pois agora o Eterno nos abandonou e nos deu na mão dos midianitas'" (Sêfer)

"Gedeão lhe respondeu: "Eu te peço, meu Senhor! Se Iahweh está conosco, donde vem tudo quanto nos acontece? Onde estão todos os prodígios que os nossos pais nos contavam dizendo: 'Não nos fez Iahweh subir do Egito?' E agora Iahweh nos abandonou e nos deixou cair sob o poder de Madiã..." (Bíblia de Jerusalém)

Embora o Anjo do SENHOR não responda a Gideão, a resposta parece ter sido dada pelo redator de Juízes nos versos de 7 a 10 do capítulo 6. De acordo com a narrativa bíblica, os israelitas tinham se afastado de Deus e, por consequência da prática de coisas más "aos olhos" do Eterno, passaram a ser subjugados pelos midianitas e outros povos nômades que pareciam viver do saque das nações sedentarizadas.

Dentro do contexto religioso dos povos sedentários do antigo Oriente Próximo, os quais viviam da agropecuária, havia o costume idolátrico de cultuar Baal. Debaixo de árvores consideradas sagradas, como o carvalho onde o Anjo do SENHOR apareceu a Gideão, eram oferecidos sacrifícios para as divindades cananeias na vã expectativa de se obter resultados melhores nas próximas colheitas.

Além disso, a narrativa relata que a opressão dos midianitas, embora tenha durado sete anos, parece ter sido mais dura que as anteriores. Tanto é que, temendo os seus adversários, os israelitas precisavam esconder nas grutas os estoques de alimentos para não serem totalmente roubados pelos adversários. E ninguém ousava tomar uma providência prática, de modo que as tribos de Israel andavam desunidas e cada vez mais se alienando dentro da emburrecida adoração baalista.

Ora, a pior opressão não é aquela que está fora de nós, mas sim dentro. E, neste caso, Gideão foi um homem inconformado com a realidade em que vivia. Ele, sendo pobre e explorado pelos estrangeiros em sua própria terra, demonstrou não gostar muito daquela conversinha mole dos religiosos e foi até capaz de duvidar da aparição sobrenatural do Anjo do SENHOR, considerada como uma teofania por muitos teólogos.

Num interessante paralelo com Moisés, Gideão é convocado para uma missão humanamente impossível. De modo algum ele é censurado por Deus por agir com sua maneira rude de manifestar as suas dúvidas quanto à Divina Providência. E, em todas as vezes que fala com o Eterno, o maior dos juízes de Israel é encorajado a lutar numa guerra santa contra os inimigos do seu povo:

"Então, se virou o SENHOR para ele e disse: Vai nessa tua força e livra Israel da mão dos midianitas; porventura não te enviei eu?" (Jz 6.14; ARA)

Num precioso relacionamento de intimidade entre Gideão e Deus, um coloca o outro a prova. Depois de pedir o sinal do velo e o orvalho, afim de que a sua missão fosse autenticada por um milagre (Jz 6.36-40), Deus então reduz o número do exército de Gideão para atacar o inimigo com tão somente 300 homens (Jz 7.1-8). E o êxito de sua campanha militar ocorre de maneira surpreendente. Depois que Gideão soube do temor infundido no adversário (Jz 7.9-15), os midianitas foram vencidos sem que ocorresse a princípio nenhum combate físico, pelo que foram tomados pelo pânico do Deus de Israel (Jz 7.19-22).

Por mais que um relato sobre guerra santa venha chocar a moral de um leitor do século XXI, não se pode ignorar a essência espiritual que se encontra ali. A Bíblia é um ótimo livro para expor com riqueza de detalhes o comportamento humano, sem nada a esconder sobre as falhas de caráter de seus personagens, mesmo em relação aos líderes de Israel. E, por sua vez, a guerra santa, necessária para a sobrevivência dos povos antigos, torna-se hoje uma ilustração da batalha que travamos dentro de nós mesmos e nos nossos relacionamentos com a sociedade em busca da justiça.

Pode-se dizer que a realização da justiça é algo inseparável do Reino de Deus, a respeito do qual Jesus muito pregou. E o estabelecimento deste Reino se faz tanto através da intervenção milagrosa de Deus como também guarda uma relação com o agir do seu povo aqui na Terra, executando-se através de nós a missão apostólica de anunciar ao mundo as boas novas da graça. Se bem que a vinda dessa nova realidade não vem com aparência exterior e já foi começada há muito tempo (Lucas 17.20-21).

Certamente que, nesta luta sagrada contra o mal, Deus não quer que sejamos covardia. Mesmo dentro do refinamento ético que a evolução dos tempos nos impõe, afim de nos abstermos atualmente de qualquer tipo de derramamento de sangue, é preciso ter a mesma disposição de Gideão para enfrentarmos os problemas pessoais e da coletividade.

Como podemos ler nos capítulos 6, 7 e 8 de Juízes, Gideão evoluiu em relação ao argumento de que a nação de Israel tinha sido abandonada por Deus. Após libertar-se interiormente do ópio da idolatria religiosa, ele partiu para o enfrentamento da realidade e mobilizou a sua comunidade para enfrentar os invasores.

Igualmente, também precisamos da mesma atitude de Gideão. Temos que romper com o viciante conformismo no qual o Brasil hoje se encontra, "deitado eternamente em berço esplêndido". Pois, afinal, conforme está lá em Mateus 11.12, o Reino "é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele" (ARA). Ou, numa versão sem eufemismo, o Reino "é assaltado com violência; são violentos os que o arrebatam" (TEB).


OBS: A ilustração acima refere-se à pintura do artista sacro holandês Maarten van Heemskerck que viveu entre 1498 e outubro 1574. O quadro, pintado por volta de 1550, retrata o personagem bíblico Gideão agradecendo a Deus pelo milagre do orvalho (passagem de Juízes 6.36-40) e se encontra no Museu de Belas Artes de Estrasburgo, localizado na Alsácia francesa. Já a imagem à esquerda cuida-se de um auto-retrato que, originalmente, foi pintado junto com o Coliseu. Maarten van Heemskerck ficou conhecido por suas representações das Sete Maravilhas do Mundo, tendo sido ele filho de uma família de pequenos agricultores em Heemskerk, norte da Holanda.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Uma Igreja que se reúne dentro de um bar!

"Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizeis: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!" (Lucas 7.34; ARA)

Para o escândalo dos legalistas e daqueles que se apegam a um culto tradicional, ou a templos construídos por mãos humanas, eis que, numa cidade da Califórnia, no oeste dos Estados Unidos, pessoas têm se reunido em um bar afim de estudarem a Bíblia e depois celebrarem o encontro com grande liberdade. Uma liberdade que talvez cause inveja a muitos religiosos reprimidos de hoje.

Descobri sobre esta espontânea Igreja lendo uma matéria jornalística na internet a partir do debate suscitado numa radical comunidade de evangélicos no Facebook em que o asunto tem despertado críticas não só aqui quanto lá na América do Norte:

"O pastor Bill Jenkins é o responsável por essa igreja-bar chamada Urbanlife (Vida Urbana), que utiliza as dependências do bar Loft e Bistro. Os encontros ocorrem todos os domingos às 9h30 da manhã. Jenkins nasceu na Inglaterra, mas vive há muitos anos nos EUA. Ele explica que sua intenção era criar 'um ambiente seguro para uma mensagem perigosa'. Seu argumento principal é que cerca de 90% dos moradores da região não tem o hábito de frequentar a igreja. Essas pessoas, segundo ele, têm rejeitado as formas tradicionais de apresentação do evangelho. Além disso, ele entende que a Bíblia fala sobre Jesus dando vinho às pessoas e sendo criticado por suas companhias." (extraído da matéria "Igreja oferece cerveja para atrair novos fiéis")

Sinceramente, não vejo nada de mais. Eles dispensam um templo, reúnem-se com espontaneidade em locais públicos, leem a Bíblia no ambiente em que se encontram, tomam a cervejinha ou o vinho deles e fazem daquele momento um maravilhoso culto. Eu, se vivesse na Califórnia, teria um enorme prazer de me aproximar desta turma e adorar a Deus com eles. Seria uma bênção!

Na boa, tenho certeza de que Jesus ficaria tranquilamente lá no meio da galera bebendo sua cervejinha também. Por que não?

Ora, o que são os templos senão meros pontos de encontro?!

Eu entendo que a Igreja é o Corpo, não o prédio. E compreendo também que Igreja tem que ter propósito e, mesmo sem uma base física, sem um endereço e sem o CNPJ, o que vale de verdade é eles terem, além da adoração, um propósito de influenciar a sociedade onde estão. E, com toda sinceridade, ninguém pode julgá-los por viverem com esta liberdade. Pois foi para sermos livres que Cristo nos chamou!

Sem dúvida que é melhor ter um bar como ponto de encontro do que as pessoas se submeterem a reuniões massacrantes e chatas nos templos. Hoje eu não suporto mais os cultos dos tradicionais e nem a barulheira louca dos pentecostais. Missa católica então, nem pensar! Vez ou outra, posso até ir compartilhar uma mensagem num templo, se me convidarem. Porém, não é assim que eu trabalho.

Atualmente, já não me sinto consumidor de produtos religiosos. Considero que devo por em prática um trabalho ministerial e, neste sentido é que tenho defendido a ideia de reunião de círculos informais, nos quais se torna possível o estabelecimento de uma relação de intimidade entre os participantes. E, com o tempo, o grupo passa a construir os seus propósitos de influenciar a sociedade com os valores do Reino, indo mais além do objetivo se reunir.

Este é o meu evangelismo e o ministério no qual eu acredito! Não me interesso por construir templos, inventar cargos de pastores, enumerar pessoas, ou ter funcionários do sagrado. Também nem quero que o pessoal fique centralizado em torno de um líder. Desejo discipular e enviar os seguidores do Evangelho ao mundo pra compartilharem as boas novas como pessoas normais que vivem em sociedade.

Talvez algum cristão legalista irá dizer que os frequentadores dessas reuniões em bares estão assentando na "roda dos escarnecedores". Porém, o assentar na roda dos escarnecedores, conforme diz o Salmo 1º, seria você tornar-se partícipe dos planos malignos das pessoas más. Não é conviver com quem seja diferente de você ou ter uma vida secular. Aliás, um bom exemplo de alguém sentar na roda dos escarnecedores seria, por exemplo, um deputado da bancada (in)vangélica participar da roubalheira do dinheiro público e depois ainda ter a cara de pau de entrar nas igrejas pedindo voto para as próximas eleições.

Deus nos quer adorando-O com liberdade e espontaneidade. E o adorar a Deus "em espírito e em verdade" certamente inclui atos de sinceridade. Assim, deste modo, precisamos celebrar com liberdade, do nosso jeito e, principalmente, com graça.

OBS: Foto e trechos da matéria extraídos do site "NOTÍCIAS CRISTÃS": http://news.noticiascristas.com/2011/11/igreja-oferece-cerveja-para-atrair.html#ixzz1d5CcHGcr

sábado, 5 de novembro de 2011

Reverência pelo tempo que nos foi determinado

A transitoriedade das coisas leva-nos a um respeito reverente pelo tempo e pela existência. Temos um anseio pela eternidade, sem que possamos descobrir o início e o fim de tudo. Então aprendemos que devemos nos alegrar com as coisas boas que hoje a vida nos oferece, celebrando cada momento intensamente. E, por termos em nós este anseio de eternidade, podemos ter a certeza de que somos eternos apenas na Existência de tudo. Sem que A consideremos como um todo, somos pó no vento como diz esta velha canção do grupo Kansas, composta nos anos 70: Dust in the Wind

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O que estão fazendo com a democracia dos gregos?!

Berço da democracia mundial, a Grécia foi o primeiro lugar do mundo onde os homens puderam decidir diretamente o destino das suas Cidades-Estado. Pelo menos entre os que se enquadravam no conceito de eupátridas ("homens livres"), os quais tinham direito de participação nas assembleias populares - as ekklesias.

Pode-se dizer que foi durante o governo de Clístenes (510 a.E.C. - 500 a.E.C.) que Atenas tornou-se realmente uma democracia. Através de sua atuação, a participação dos cidadãos atenienses nas questões administrativas veio a ser consideravelmente ampliada. A aristocracia foi substituída por uma isonomia entre os eupátridas, embora, na concepção política dos gregos, nem as mulheres, nem os escravos e nem os estrangeiros tinham assento nas assembleias do povo. Segundo ensina Ronaldo Leite Pedrosa, Clístenes

"idealizou aumentar a participação popular nas decisões, elevando de 400 para 500 o número de componentes da boulé e dividindo a população em demos. Certo número de demos formava uma trítia e três trítias formavam uma tribo, compondo, ao todo, dez tribos (...) pela primeira vez, o povo de uma cidade grega, dividido em circunscrições chamadas demos, podia participar ativamente de seus destinos, mesmo pagando um preço altíssimo pela sua imaturidade política, tal como se deu com a condenação injusta daquele que foi o mais sábio dos homens e o pai da filosofia ocidental, SÓCRATES, a pretexto de impiedade e de corrupção da juventude ateniense, em razão de seus excelsos ensinamentos." (Direito em História. 6ª edição. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010, págs. 115 e 116)

Verdade é que Sócrates foi um opositor da democracia. Ele defendia a aristocracia como sendo o melhor regime por duvidar que as decisões coletivas, partindo de muitas ideias individuais na democracia, seriam as mais acertadas. Segundo ele, não importava a quantidade de pessoas participando, mas sim a qualidade. E, por conta disto, o sábio filósofo veio a ser acusado de traidor, mas a sua condenação à morte teve como fundamento imputações de corrupção da juventude pela prática do homossexualismo e da ridicularização dos deuses.

Embora o governo democrático não seja uma perfeição, é o que a meu ver melhor se aplica às necessidades sociais dos menos favorecidos, funcionando como um obstáculo à timocracia, à oligarquia e à tirania. Mesmo sendo vulnerável à corrupção e à mediocridade, a democracia abre portas para que a sociedade consiga evoluir com o tempo através do aprendizado com os resultados das suas próprias escolhas. Pois, do contrário, jamais experimentaremos um amadurecimento coletivo.

Ontem (02/11/2011), enquanto assistia ao Jornal Nacional, fiquei perplexo com uma notícia sobre a Grécia. Depois de enfrentar inúmeros protestos, o primeiro ministro grego George Papandreou tomou a sábia decisão de submeter a um referendo popular a ajuda internacional oferecida ao país. De acordo com a proposta da União Europeia, o empréstimo de 130 bilhões de euros condiciona a Grécia a adotar duras medidas de austeridade econômica que importarão em aumento de impostos, mais pobreza, desemprego e na perda da qualidade de vida de seus cidadãos.

Contudo, o que mais me espantou foi que os cabeças da UE, isto é, os primeiros ministros Nicolas Sarkozy e Angela Merkel, respectivamente líderes da França e da Alemanha, posicionaram-se contrariamente à consulta popular. Para eles, os cidadãos gregos têm que engolir goela abaixo as restrições econômicas pouco importando se as pessoas daquele país estarão satisfeitas ou não.

Um episódio desses leva-me a indagar para que tem servido a democracia hoje no mundo senão para os poderosos amansarem as massas?

Ora, quando o direito de escolha dos cidadãos começa a incomodar, aqueles que se encontram no poder tratam logo de restringir as oportunidades de decisão coletiva. Nós, aqui na América Latina, já vimos este filme durante as terríveis ditaduras em décadas não muito distantes de hoje em que os militares receberam o apoio incontroverso dos Estados Unidos da América, país tido como um defensor da democracia.

Em qualquer país do mundo, o povo ainda é tratado como gado. Quem manda na prática é o poder econômico junto com o corporativismo dos grupos políticos que se instalam pela via da demagogia no período eleitoral. Mesmo nos Estados que ainda preservam o totalitarismo socialista implantado nas revoluções do século XX, tem-se o controle das decisões através de uma classe burocrática da qual procedem os seus ditadores. E todos os governos de hoje, inclusive os de Cuba e Coreia do Norte, submetem-se a modelos de economia perversos e insustentáveis. Tanto é que a poderosíssima China de Hu Jintao tem se mostrado contrária ao referendo dos gregos.

Na heroica resistência dos movimentos sociais contra este sistema de desigualdades, em que o sofrimento dos povos é fruto das escolhas de seus governantes, resta-nos a alternativa de brigarmos pela ampliação da democracia. Pois cabe ao cidadão decidir não só quem serão os seus futuros representantes, ou se as pessoas podem possuir armas de fogo em suas residências, mas também se o atual modelo de economia de mercado deve ou não continuar.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Celebremos a eternidade da Vida!

"Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem". (1 Tessalonicenses 4.13-14; ARA)


Não há como agente apagar da memória a imagem de alguém que partiu. Emocionar-se e lamentar num enterro é algo muito natural. Segundo a Bíblia, assim que Jacó morreu, seu amado filho José "lançou-se sobre o rosto de seu pai, e chorou sobre ele, e o beijou" (Gn 50.1; ARA).

Entretanto, não devemos passar a vida inteira nos entristecendo sem termos esperança. Paulo, em sua carta à igreja em Tessalônica, na Grécia, referiu-se eufemicamente às pessoas mortas como alguém que "dorme". E, com isto, o autor da epístola exorta seus leitores a não se preocuparem com o destino daqueles que já tinham morrido.

Cada cultura e cada indivíduo respondem à morte de uma maneira. Entre diversos povos da África, por exemplo, o morto é considerado alguém que continua a fazer parte da família. Sendo as tribos africanas animistas, é muito comum as pessoas desses países acreditarem que o espírito desencarnado do falecido prosseguirá zelando pelo bem de seus descendentes e cônjuges. E, se não re-encarnarem, receberão uma espécie de "promoção" para um plano superior, passando a viver junto ao Ser supremo, identificado em certas tradições pelos nomes de Olodumaré ou Olorun na língua dos iorubás (um dos maiores grupos étno-linguístico na África Ocidental, composto por 30 milhões de pessoas em toda a região).

Contudo, o importante é que as pessoas consigam se recobrar do trauma da perda, aprendendo a lidar com a ausência e vivendo com uma esperança motivadora. Assim, neste sentido, as palavras de Paulo tornam-se bem confortadoras. Pois, além de compreender a morte como um descanso transitório, deve o seguidor de Jesus ansiar pelo momento em que todos estarão reunidos para sempre com Deus. E a este respeito o apóstolo expõe muito bem o mistério da existência conforme a imagística e o conhecimento de sua época:

"Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem. Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com ele, entre as nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor. Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras." (1Ts 4.15-18; ARA)

Em cima destes escritos, a Igreja criou inúmeras doutrinas posteriores e muitas delas tornaram-se até alienantes quanto à vida em comunidade. Os padres começaram a abusar desta consolação, projetando a felicidade do homem no céu, ao invés de incentivarem o encontro com a Vida no aqui e agora. Explorado pelos seus patrões e pelos governantes, com amplo apoio dos líderes eclesiásticos, nada mais restou ao trabalhador exceto sonhar com um paraíso após a morte. E para limitar qualquer ação revolucionária dos pobres, ainda criaram as terríveis ameaças acerca da condenação no inferno.

Numa época mais moderna, em que desastres de grandes proporções têm ocorrido juntamente com o desenvolvimento de armas de destruição em massa e mais as profundas mudanças sociais, não há nada mais alienante do que as paranoias apocalípticas. Os discursos sobre a segunda vinda de Jesus têm se tornado verdadeiras sessões de terror como se a qualquer momento o fim do mundo pudesse acontecer. Aí, segundo esta visão teológica, quem estiver vivendo fora dos padrões da Igreja, será destruído.

Lendo os versos de 1 a 11 do capítulo 5 da epístola, entendo que a ideia de uma repentina chegada do "Dia do Senhor" é nada mais do que uma exortação para que a humanidade se prepare para um novo tempo. Trata-se, portanto, de percebermos a nova estação na qual o mundo está entrando para que não sejamos surpreendidos com as mudanças de valores:

"Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão" (1Ts 5.3; ARA).

Ao analisarmos a História, percebemos que alguns eventos ocorrem com grandes surpresas, sem que as pessoas tenham tempo hábil para prevê-los. No final da década de 80 e início dos anos 90, quem poderia imaginar que as cortinas de ferro da ex-URSS e da Europa do Leste iriam cair? Repentinamente, foram caindo os regimes totalitários e stalinistas um por um semelhantes às peças de um jogo de dominó. Porém, se retrocedêssemos a 1986, por exemplo, ninguém poderia imaginar que o vergonhoso muro de Berlim iria ser derrubado em tão pouco tempo e que a Alemanha, dividida em dois países, voltaria a se reunificar.

Lendo a mensagem de Paulo, é justamente o aspecto libertador daquelas palavras que precisam ser retidas para não nos enganarmos com essas teologias amedrontadoras que, na prática, só prestam para promover as mais nocivas alienações. Realmente temos que estar atentos, procurando perceber o tempo kairótico, aquilo que Deus está hoje fazendo no mundo. E, firmados na esperança, promovermos a vida em comunidade.

"Nós, porém, os que somos do dia, sejamos sóbrios, revestindo-nos da couraça da fé e do amor e tomando como capacete a esperança da salvação; porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos em união com ele." (1 Ts 5.8-10; ARA)

Quando vivemos com esta percepção no tempo kairótico, nossa existência torna-se uma eterna aventura. Quer estejamos aqui, ou "dormindo", podemos experimentar a salvação, isto é, uma vida plena e satisfeita pela nossa integração total com o Criador e tudo o que Ele fez de bom. Preocupar-nos com o futuro pessoal ou com a partida dos entes queridos já não deve mais nos afligir porque passamos a celebrar a continuidade da Vida que tem na ressurreição de Cristo Jesus um belíssimo símbolo.

Contrariando o papo sem aterrorizante desses pregadores sem graça que têm por aí, Paulo escreve os versos finais de sua epístola aos tessalonicenses motivando-os para a experimentação da vida comunitária. O seguidor de Jesus é chamado para atuar na edificação de uns dos outros, assumindo sua responsabilidade com os irmãos locais. E. com estas palavras, ele explica o que vem a ser esta celebração da vida:

"Evitai que alguém retribua a outrem mal por mal; pelo contrário, segui sempre o bem entre vós e para com todos. Regozijai-vos sempre. Orai sem cessar. Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom; abstende-vos de toda a forma do mal." (1Ts 5.15-22; ARA)

Por acaso esta última citação não é um excelente exemplo do que significa viver no tão desejado tempo kairótico em que aprendemos a ser gratos e nos alegrarmos sempre?

Complementando o seu estudo sobre a epístola paulina no CBA, Rosalie Koudougueret, bacharel e mestre em Teologia da República Central da África, trás-nos estes oportunos comentários:

"As palavras de Paulo nos lembram os extraordinários privilégios que desfrutamos como crentes, os quais são a fonte de nossa alegria, mas também de nossos deveres e responsabilidade em evitar o mal e pôr em prática a palavra de Deus. Essas palavras são particularmente aplicáveis à igreja hoje, a qual tem sido tão influenciada pelo mundo que agora abriga todos os tipos de males: corrupção, imoralidade, tribalismo [conflitos entre as tribos africanas], divisão, egoísmo e roubo. Além disso, existe uma escassez de profunda e dinâmica oração. Já é hora de a igreja retornar ao seu primeiro chamado para ser 'o sal da terra' e a 'luz do mundo'" (Comentário bíblico africano; São Paulo: Mundo Cristão, 2010, pág 1500)

Que neste feriado do dia 2 de novembro, mundialmente dedicado aos que "dormem", venhamos nos encher de esperança e nos fortalecermos com a luz do nosso Deus! E, confortados, possamos prosseguir confiantes em nossa caminhada, celebrando alegremente a eternidade de todos os seres porque o nosso Criador é a fonte da vida que pulsa no Universo. Bendito seja Ele!


OBS: A ilustração usada neste texto diz respeito ao quadro Ressurreição de Cristo, pintado pelo artista francês Noël Coypel, em 1700.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

As bruxas e o patrulhamento ideológico sobre a sociedade

Enquanto a Inquisição papal da Idade Moderna promovia sua implacável caçada aos judeus na Península Ibérica, eis que as principais vítimas das perseguições religiosas na Alemanha, França, Itália e Inglaterra foram as mulheres acusadas de bruxaria. E talvez isto ajude a explicar o porquê dos festejos do Halloween neste 31 de outubro entre os povos de cultura anglo-saxônica. Inclusive nos Estados Unidos.

Geralmente, quando pensamos em bruxas, vem logo à nossa mente a ideia de uma mulher velha, feia, nariguda e malvada, capaz de enganar as inocentes donzelas oferecendo-lhes maçãs envenenadas como no velho conto da Branca de Neve. Porém, basta mergulharmos um pouco na História para descobrirmos quem eram essas mulheres perseguidas por feitiçaria pela Igreja na Europa entre o final da Idade Média e início da Idade Moderna.

Numa época de extrema pobreza e grande ignorância, em que a Medicina não podia desenvolver-se no Ocidente por causa do obscurantismo imposto pela religião, restava ao povo tentar o alívio para as suas doenças através da aspersão de água benta ou por meio de tratamentos à base de ervas. No caso das mulheres humildes, quando sofriam de problemas ginecológicos ligados à esterilidade e doenças do aparelho reprodutor, a exclusão tornava-se ainda maior. Os sacerdotes católicos, sendo eles homens e celibatários, não costumavam prestar atendimento em casos desta natureza, tornando impossível o diagnóstico e o tratamento da enfermidade.

Foi dentro deste contexto que surgiram as bruxas medievais que, na verdade, nada mais eram do que meras curandeiras dos vilarejos da Europa. Em sua respeitável obra, A fabricação da loucura: um estudo comparativo entre a Inquisição e o movimento de saúde mental, o psiquiatra húngaro Thomas Szasz ensina que a função social das bruxas era cumprida nas comunidades através de uma medicina popular que chegava a ser mistificada pela população. Através delas é que as mulheres pobres podiam de fato experimentar algum tratamento ainda que de maneira bem rudimentar a exemplo do que existiu com mais frequência até décadas atrás no interior do Brasil com as "benzedeiras".

Não demorou muito para que o catolicismo medieval passasse a ver a atividade curandeira das bruxas como uma ameaça ao seu poder religioso. Pelo fato da Igreja considerar as doenças do corpo uma consequência da vida pecaminosa, os meios de obtenção da cura física deveriam ser alcançados somente dentro da esfera espiritual. Logo, as bruxas, assim como os médicos judeus, representavam uma quebra do monopólio eclesiástico. Então, uma maneira de atacá-las foi dizer que tais mulheres tinham pactos com o demônio.

Com a edição da bula Summis desiderantes affectibus, em 1484, o papa Inocêncio VIII (1432-1492) concedeu permissão aos inquisidores para que reprimissem as atividades das bruxas através todos os meios possíveis. Quem tentasse impedir a ação dos inquisidores poderia ser até excomungado. Com isto, surgiu um terrível livro chamado Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras), escrito em 1487 pelos dominicanos alemães Heinrich Kraemer (1430-1505) e James Sprenger (1435-1495).

A obra dos dois inquisidores, que se tornou um manual de caça às bruxas por aproximadamente uns 200 anos, era dividida três partes: a primeira ensinava sobre como reconhecer as bruxas em seus múltiplos disfarces e atitudes; a segunda abordava os supostos malefícios da bruxaria; e a terceira dispunha sobre os procedimentos que eram "legalmente" aplicados contra as bruxas, demonstrando como inquiri-las e condená-las.

Apesar da Igreja Católica ter oficialmente condenado o manual de Heinrich Kraemer e James Sprenger, com base num posicionamento da Universidade de Colônia (Alemanha), eis que, na prática, o Malleus popularizou-se rapidamente. Entre os anos de 1487 e 1520, a obra foi publicada 13 vezes. E, de 1574 até a edição de Lyon de 1669, houve um total de 16 novas reimpressões. Com exceção da Bíblia, pode-se considerar que aquela foi a obra mais vendida até a publicação do livro El Progreso del Peregrino, de John Bunyan, em 1678, sendo que não apenas os inquisidores católicos basearam-se na doutrina demonológica de Kraemer como até mesmo os protestantes nos hediondos julgamento proferidos contra as bruxas.

Assim, viu-se na Europa e também na América do Norte um festival de ignorâncias praticado contra as mulheres. Estas, ao serem presas, eram submetidas a um minucioso exame físico afim de que fossem encontradas evidências de pactos com o demônio através de marcas no corpo. E para que a vítima confessasse o "crime" de bruxaria, os inquisidores submetiam-na à tortura, conforme nos relata o ex-padre católico Marcelo da Luz em seu valioso livro Onde a religião termina?:

"Dessa forma, qualquer sinal de nascença, pintas ou mesmo lesões na pele, quando encontradas, serviam de provas contra as vítimas. Quando nada era encontrado, os inquisidores ou juízes encarregaram outras pessoas, inclusive médicos, na busca de marcas infernais invisíveis, supostamente imunes à dor ou ao fogo. O método usado para descobri-las era a perfuração, palmo a palmo, do corpo da acusada. Houve também, na Inglaterra, durante a segunda metade do século XVII, a prática da provação pela água. A vítima, após ter seus membros cruzados e amarrados, era jogada em água profunda, três vezes se necessário. Acreditava-se não ser a bruxa capaz de afundar, pois rejeitara as águas do batismo. Se afundasse, era inocente, mas esta constatação mostrava-se tardia e elas geralmente morriam afogadas."

Até onde a consciência humana, cega pelo dogma religioso, pode ser capaz de promover a destruição e a morte?

A caçada às bruxas, na verdade, foi resultado da imposição desse dogmatismo através de um patrulhamento ideológico sobre a sociedade. Mas foi também uma violência praticada contra as mulheres, um resultado da desarmonia entre o masculino e o feminino que existe na religião cristã capaz de gerar a misogenia. Principalmente no catolicismo romano em que os padres são proibidos de se casarem. E, por terem o desejo sexual reprimido dentro de si mesmos, os inquisidores transferiram suas loucuras para o mundo exterior, demonizando-o a tal ponto de matarem as mulheres que julgavam ser "bruxas" porque, na certa, despertavam seus desejos naturais.

No século XX, que foi uma época menos religiosa, pode-se dizer que a caçada às bruxas continuou sob outras formas. Não só no Brasil e na América Latina, como em outras partes do mundo, muitos foram perseguidos por razões de ideologia política. No contexto da Guerra Fria, pessoas consideradas comunistas chegaram a sofrer diversos tipos de preconceitos. E muitas delas foram presas, espancadas, torturadas e mortas.

A quem interessa este patrulhamento ideológico senão às classes dominantes que, para se manterem no poder, sempre necessitaram oprimir a população explorada economicamente?

Atualmente, ainda que as constituições dos países ocidentais protejam as liberdades de pensamento, de crença e de ideologia política, sabe-se que, na prática, há um preconceito contra quem decide pensar. Tem-se hoje um ambiente já formatado em que o ser pensante pode ser ridicularizado, abafado ou considerado como um "chato". Vive-se numa aparente liberdade para manifestar a opinião. Porém, em meio a ruídos dispersores e diante de uma audiência condicionada a uma aprovação externa que nem sempre racionalizada pelo público destinatário. Ou seja, ainda existe uma caçada às bruxas silenciosa digamos assim.

Neste dias das bruxas, em que alguns jovens do nosso país aderiram às modas norte-americanas dos bailes à fantasia, poucos sabem acerca das perseguições religiosas praticadas no passado. Quase ninguém desconfia que a demonização do outro é um golpe baixo dos que já não possuem argumentos lógicos afim de convencerem pela racionalidade. Então só lhes resta satanizar o "herege" (gr. hairetikis), isto é, o "indivíduo enquanto agente de escolha".


OBS: A primeira imagem acima refere-se à obra Witches (Bruxas) do pintor renascentista alemão Hans Baldung que teria vivido entre 1484-1545. Foi considerado o aluno mais talentoso do gravurista Albrecht Dürer. Acredita-se que a pintura em questão seja de 1508. Já a segunda ilustração diz respeito a uma edição de 1520 do Malleus Maleficarum e que se encontra na Biblioteca da Universidade de Sidney. Quanto à terceira imagem, cuida-se de uma foto do quadro Exame de uma bruxa do novaiorquino Tompkins Harrison Matteson (1813-1884), inspirado no julgamento das bruxas de Salém (1692).

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Percebendo o valor da Vida

Às vezes é duro ter que admitir que, em várias ocasiões, estamos desperdiçando energia com coisas tão pequenas afim de satisfazermos as nossas próprias vaidades pessoais, idolatrando o dinheiro, a fama, o poder, a aparência física, o prestígio social, as falsas impressões geradas nas mentes das pessoas, a reputação moral, o orgulho, o sucesso ou até mesmo o bem estar próprio quando realizado de uma maneira egocêntrica sem incluir a felicidade do próximo.

No Evangelho de Mateus, são contados três ensinamentos em sequência, atribuídos a Jesus, os quais nos falam acerca da percepção do valor do "Reino de Deus". Tratam-se das parábolas do "Tesouro Escondido", da "Pérola" e da "Rede". A primeira delas, que tem um paralelo interessante com o Evangelho de Tomé nos diz que:

"O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo". (Mt 13.44; ARA)

"Jesus disse: O Reino é como o homem que tinha um tesouro [escondido] em seu campo sem saber. Após sua morte, deixou o campo para seu [filho]. O filho não sabia [a respeito do tesouro]. Ele herdou o campo e o vendeu. O comprador ao arar o campo encontrou o tesouro. Começou então a emprestar dinheiro a juros a quem queria." (To 109)

Analisando esta história, notamos que o antigo proprietário do campo era alguém que jamais conheceu a enorme riqueza que havia no subsolo de suas terras e deixou de maneira cega que ela escapasse de suas mãos. Então, ele a entregou para outro vendendo o tesouro desapercebidamente.

Ora, como que alguém pôde ser tão negligente a ponto de ter utilizado o seu campo com extrema superficialidade sem jamais tomar a iniciativa de arar o solo com mais cuidado? Talvez o vendedor do terreno tivesse ocupado demais para se preocupar com coisas que julgasse improváveis de ocorrer ou então era um tremendo de um preguiçoso que preferiu arrendar aquilo que possuía para que outro plantasse e colhesse. Porém, o certo é que seus horizontes eram bem restritos e ele foi incapaz de ao menos indagar criticamente por que razão o comprador desfizera-se de tudo o que tinha para se tornar dono daquele sítio.

Acontece que este vendedor desatento muitas das vezes somos nós mesmos em relação às preciosidades da vida. Deixamos de experimentar as melhores atrações da existência humana para nos distrairmos com coisas bem pequenas tipo comprar o novo modelo dos televisores expostos na vitrine de uma loja de eletrodoméstico, exibir um carro novo pelas ruas da cidade ou vestir a roupinha da moda, ainda que nos endividando com prestações a perder de vista, colaborando com um sistema financeiro que escraviza tanto os consumidores quanto os trabalhadores, empresários e a economia global.

Uma questão deve ser levantada: até quando vamos ficar sonhando com o estilo de vida perdulário e vazio dos norte-americanos?

Afim de satisfazermos o nosso ego insaciável, destruímos tudo em volta e a própria vida que temos. Abrimos mão da paz interior e de compartilharmos um mundo melhor com o próximo. E estudos demonstram que, se todos os habitantes do globo terrestre tivessem o mesmo padrão de consumo dos ianques, nem dois planetas seriam suficientes para suprir a demanda por recursos naturais. Pois, se prosseguirmos nesta ambição, em que condições a humanidade viverá num futuro próximo?

Contudo, o homem que se desfez alegremente de tudo o que tinha afim de de adquirir o campo, demonstrou profunda sensibilidade em relação à vida. Pois, para encontrar o tesouro, ele precisou transcender a superficialidade quando se dispôs a arar a terra e a prestar atenção em alguma coisa estranha no subsolo. Talvez a sua enxada tenha batido em algo duro que ele poderia até ter pensado que se tratasse de um pedregulho e não se importado. Só que a sua curiosidade e interesse foram maiores, levando-o a cavar com persistência e fé até descobrir algo de grande valor.

No Comentário Bíblico Africano, Joe M. Kapolyo, teólogo batista de Zâmbia, conta-nos uma história ocorrida em seu país, na primeira metade do século passado, e que de certa maneira tem a ver com a parábola do tesouro:


"A extração de cobre em grande escala em Copperbelt, na Zâmbia, começou em 1922. Dizem que uma das maiores minas, a Luanshya, começou quando um explorador [William Collier] atirou em um antílope e descobriu sinais escritos com cobre numa rocha próxima ao corpo do animal. Grandes esforços foram empreendidos para remover os proprietários originais do local e abrir caminho para a instalação da nova mina. O explorador percebeu o valor dos depósitos de cobre e vislumbrou a possibilidade de grandes riquezas, por isso ele e seus associados fizeram de tudo para adquirir a terra e os direitos de exploração sobre ela. A parábola do tesouro enterrado num campo é a versão palestina do século I para a história dos depósitos de cobre na Zâmbia. O tesouro oculto claramente não pertence ao dono da terra, pois, se pertencesse, ele jamais a venderia. Ao encontrar o tesouro, o homem vendeu tudo o que possuía para comprar a terra, sabendo que havia algo muito mais valioso enterrado ali (13:44)" - com adaptações, sendo meu o destaque em negrito


Por mais chocante que seja esta história para os valores de hoje, ainda mais porque o autor fala em caça de animais, sendo implícito que, na época (década de 20), havia uma repugnante relação exploratória de colonialismo e de usurpação dos recursos naturais dos povos nativos africanos, devemos nos prender no sentido da parábola, abrindo as portas da nossa compreensão para o ensinamento proferido. E, assim como no caso do tesouro escondido, o comerciante de pérolas (Mt 13.45-46) soube canalizar o seu desejo para alcançar as melhores coisas. Ao achar a joia de grande valor, nada mais lhe importou a não ser conseguir aquela preciosidade, a qual, certamente, deve ter sido vendida por quem não soube avaliar a fineza do material:

"O reino dos céus é também semelhante a um que negocia a procura de boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a compra." (Mt 13. 45-46; ARA)

Na vida, quando procuramos por algo que realmente será bom para nós, devemos empreender uma busca intensa. Nenhuma outra coisa pode nos distrair do objetivo almejado. Temos que aprender a focar e sermos verdadeiros naquilo que decidimos fazer.

Neste sentido, a terceira história contada por Jesus (Mt 13.47-50) tem muito a nos ensinar. A Parábola da Rede, a meu ver, transmite a ideia de pescadores sábios que descartam as coisas ruins que apanham durante o trabalho no mar, selecionando e armazenando somente os peixes bons. Aliás, neste dito atribuído a Jesus, se forem desconsiderados os dois versículos seguintes, pode guardar mais semelhanças com as duas histórias anteriores do que com a do joio e do trigo (Mt 13.24-30). Pois para mim, os redatores do 1º Evangelho talvez tenham se equivocado ao posicionarem os versos 49 e 50 ali e não depois do 30. Tanto é que a sentença 8 do Evangelho de Tomé passa uma visão que não tem muito a ver com a ideia escatológica que, possivelmente, foi a Igreja quem tentou transmitir e não Jesus. Senão vejamos comparando apenas os versos 47 e 48 do capítulo 13 de Mateus com o texto não aceito pelo cânon católico do Novo Testamento:

"O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, recolhe peixes de toda espécie. E, quando já está cheia, os pescadores arrastam-na para a praia e, assentados, escolhem os bons para os cestos e os ruins deitam fora." (Mt 13.47-48; ARA)

"E ele disse: O homem é como pescador sábio que lança sua rede ao mar e a retira cheia de peixinhos. O pescador sábio encontra entre eles um peixe grande e excelente. Joga todos os peixinhos de volta ao mar e escolhe o peixe grande sem dificuldade. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça." (To 8)

Atentando para este ensino do evangelho lamentavelmente tido como "apócrifo" por católicos e protestantes, percebe-se que a sabedoria do pescador reside em sua concentração no peixe grande e proveitoso. Tanto é que os pequenos são devolvidos ao mar e ele não perde seu tempo tentando colecionar coisas inúteis.

Igualmente, nós também devemos aprender a pescar o "peixe grande" afim de não nos ocuparmos com coisas irrelevantes que nada acrescentarão à nossa evolução pessoal e experimentação da vida. Pois, todas as vezes em que dispersamos energia em busca dos "peixinhos", estamos é atendendo aos caprichos
do ego e perdendo oportunidades incríveis de crescimento espiritual através das circunstâncias que nos são oferecidas a cada dia.

Confirmando o valor do Reino de Deus, a Epístola aos Filipenses mostra-nos o quanto o apóstolo Paulo parece ter compreendido esta verdade:

"Mas o que para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo". (Fp 3.7-8; ARA)

Como se vê, Paulo considerou como "refugo" (lixo ou esterco) qualquer coisa que interferisse em sua busca pelo que chamou de "sublimidade do conhecimento de Cristo", o que, em outras palavras, significa não uma compreensão intelectual de algum assunto, mas sim a experimentação do Reino de Deus em sua vida, o que podemos compreender como a verdadeira salvação e libertação do ser.

Desejo que nós possamos assimilar este aprendizado de Paulo e as esclarecedoras palavras de Jesus, fazendo os nossos ouvidos atentos e procurando aquilo que é incomparavelmente melhor a qualquer outra coisa desta vida.

Tenha um ótimo descanso neste final de semana!


OBS: A primeira ilustração acima trata-se do quadro Parábola do Tesouro Escondido, pintado por Rembrandt por volta de 1630. Já a terceira imagem refere-se à obra do italiano Domenico Fetti (1589 - 1623), a Pérola de Grande Valor. E a quarta ilustração é uma gravura do holandês Jan Luyken (1649 - 1712) representando a Parábola da Rede. Todas elas extraídas da Wikipédia. Somente a segunda, que mostra William Collier abatendo o antílope é que foi retirada de um site oriundo da Zâmbia: http://lindasmith.co.za/pages/gallery/copperbelt-219.php
Quanto às citações do Evangelho de Tomé, as tais foram extraídas da seguinte página na internet http://www.igrejavaroesdeguerra.com.br/LIVROS/Apocrifo_Evangelho_Tome.pdf